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ABRI UM JAZIGO VAZIO DESDE 1958 E O QUE…ENCONTREI LÁ NÃO ESTAVA EM NENHUM REGISTRO

Durante uma reforma em um setor antigo do cemitério, encontrei um jazigo que, segundo todos os registros, estava vazio havia quase sessenta anos. Só que não estava. Havia um caixão lá dentro, sem nome e sem registro. O que veio depois foi ainda mais assombroso.

Meu nome é Valdivino Souza, tenho cinquenta e cinco anos. Trabalho como coveiro no cemitério municipal São João Batista em Itumbiara, Goiás, há vinte e um anos. A cidade fica no sul do estado, às margens do rio Paranaíba, na divisa com Minas Gerais. É um lugar de cem mil habitantes, com agropecuária forte e gente simples, típica do interior.

O cemitério foi fundado em 1942 numa área central da cidade. É cercado por um muro alto de tijolos, dividido em quatro setores e abriga mais de dez mil túmulos. Entrei para o ofício em 2005, aos trinta e quatro anos, em busca de estabilidade para sustentar minha esposa e dois filhos pequenos, após doze anos na construção civil.

Aprendi o trabalho com seu Alides, um coveiro veterano e quieto, que conhecia cada canto do lugar. No meu primeiro dia, ele me disse algo marcante: o cemitério tem memória, cada túmulo guarda uma história, e o meu dever era respeitar o que repousava ali.

Em duas décadas, vi muita coisa que preferiria esquecer. Mas o que aconteceu em 2017 foi diferente de tudo. Tudo começou com uma ordem de serviço rotineira. Era a reforma de um setor antigo, com túmulos que precisavam de manutenção e verificação interna. Eu fazia esse serviço meticuloso sozinho pelas manhãs, enquanto meu colega Rivânio cuidava do resto do cemitério.

O administrador era o seu Benedito, um homem organizado que havia digitalizado todos os registros antigos. Ele me passou uma lista de doze túmulos no setor três para verificar. Comecei na segunda semana de março. Abri, registrei e fechei os quatro primeiros, encontrando apenas o desgaste natural do tempo.

O quinto túmulo, porém, era diferente. Os registros de seu Benedito indicavam que o espaço fora vendido como jazigo familiar em 1958, mas nunca utilizado. A família havia se mudado de Itumbiara no início dos anos sessenta. O local deveria estar intocado.

Cheguei a ele numa manhã de quinta-feira, sob o calor implacável de Goiás. A estrutura estava tomada pelo mato, com argamassa solta e uma porta de ferro enferrujada que precisei forçar com ferramentas. Quando cedeu, exalou um cheiro de ar confinado e úmido. Iluminei o interior com a lanterna e congelei.

O jazigo não estava vazio. Havia um caixão de madeira escura e envelhecida, sem ornamentos ou identificação, repousando cuidadosamente na prateleira de concreto. Não era ilusão. Fechei a porta e fui direto ao escritório. Seu Benedito ouviu meu relato com o semblante pesado e foi comigo verificar.

Ele olhou o interior, voltou ao computador e confirmou: não havia nenhum registro de sepultamento ou pedido de uso. O caixão simplesmente não deveria estar ali. Seu Benedito acionou a prefeitura, que pediu uma semana para checar os velhos arquivos de papel. A espera virou um mês, sem que encontrassem qualquer anotação além da venda original.

A conclusão das autoridades foi fria e burocrática. Disseram tratar-se de um provável sepultamento irregular feito décadas atrás, impossível de identificar. Ordenaram que o jazigo fosse incluído na reforma mantendo o caixão intocado.

Retomei o trabalho nas semanas seguintes, mas o ambiente ao redor daquele jazigo mudou. Havia um silêncio denso e opressor, ou talvez fosse apenas minha consciência sabendo o que estava escondido ali. Em maio, a reforma do setor começou com a presença barulhenta de pedreiros. O túmulo misterioso permaneceu intocado, aguardando um destino.

Foi no início de junho que os sons começaram. Numa manhã de terça-feira, enquanto capinava no setor dois, ouvi um barulho vindo do setor três. Era baixo e constante, parecendo madeira velha estalando com o calor de Goiás. Na quarta-feira, ouvi novamente, no mesmo horário. Fui investigar.

O setor estava vazio. Ao me aproximar da velha porta de ferro do jazigo, o som ritmado de madeira rangendo ficou nítido. Apoiei a mão no metal e senti uma vibração sutil, mas inegável. Relatei a seu Benedito, que tocou a porta e concluiu ser apenas a expansão térmica da madeira reagindo ao clima quente.

A explicação fazia sentido, mas a regularidade diária daqueles sons não era natural. Rivânio também ouviu o barulho na segunda semana. Assustado, pediu para trocar de função comigo, assumindo os setores um e dois e me deixando sozinho com o três e o quatro. Aceitei sem questionar, sabendo o real motivo do seu medo.

Em julho, os ruídos mudaram. Passaram a ocorrer também no fim da tarde, não parecendo mais apenas madeira estalando. Surgiu um som de atrito pesado, lento e arrastado, como se algo se movesse com esforço dentro daquele espaço apertado. Passei a evitar o local após as cinco da tarde, confiando no meu instinto de sobrevivência.

Em agosto, a reforma estava quase concluída. O setor três exibia um visual renovado e limpo, contrastando com o jazigo esquecido. Os sons continuavam a perturbar minhas noites. Numa quinta-feira, um problema com um equipamento me obrigou a ficar até o anoitecer preparando uma cova.

Com a escuridão caindo e as luzes amareladas do cemitério acesas, caminhei apressado pelo setor três para ir embora. Ao passar pelo jazigo, parei. O silêncio era absoluto, o que, depois de meses de rangidos, soou aterrorizante. Foi então que percebi uma presença no corredor ao fundo.

A trinta metros de distância, vi uma figura alta e escura parada no caminho. Tinha contornos definidos de um adulto, ombros largos e cabeça. Não era uma sombra. Ficamos imóveis por vários segundos, até que a figura virou lentamente na direção do jazigo sem nome. Depois, começou a desaparecer no próprio lugar, dissolvendo-se no ar como uma névoa sombria.

Fugi do setor rapidamente, tranquei os portões e fui para casa atordoado. Sentei no escuro da varanda tentando processar o que meus olhos testemunharam. Mais tarde, contei tudo para minha esposa Marlene. Ela ouviu em silêncio e aconselhou que o mistério precisava ser encerrado, ou a perturbação no cemitério nunca teria fim.

Na manhã seguinte, desabafei com seu Benedito sobre a figura escura e o agravamento da situação. Compreendendo a gravidade, ele ligou para a prefeitura exigindo uma solução imediata. Três semanas depois, autorizaram uma exumação com perícia para setembro, visando identificar os restos mortais.

No dia marcado, dois peritos de uma cidade vizinha passaram a tarde no túmulo. Recolheram amostras do caixão desgastado e conversaram rapidamente com seu Benedito antes de partir. Ele veio até mim com uma expressão confusa, confirmando que o esqueleto estava ali havia cerca de cinquenta anos. E revelou um detalhe sombrio.

A perícia constatou que a pessoa fora colocada de bruços dentro do caixão. Era uma posição perturbadora e intencional. Nenhuma cultura enterra seus mortos virados para baixo por acidente. Quando contei à Marlene, ela concluiu que aquele pobre homem não teve um enterro digno, e era isso que mantinha sua alma presa e inquieta.

Seu Benedito informou que os laudos definitivos levariam meses, e o caixão deveria aguardar no jazigo. Inconformado, procurei o padre Estevão, um homem sereno que conhecia a história local. Relatei os sons, o caixão abandonado e a figura nebulosa. Compadecido, ele prometeu rezar no local.

O padre visitou o setor três numa tarde de outubro. Ficou quase uma hora sozinho, orando em silêncio pelo desconhecido, pedindo paz e luz para aquela alma atormentada. Após a sua visita, os ruídos diminuíram significativamente, tornando-se mais raros, e não voltei a ver a aparição naquele mês. O peso no meu peito finalmente aliviou.

Em novembro, o relatório parcial chegou. Os restos pertenciam a um homem alto e forte, morto entre os quarenta e cinquenta anos de idade. Ele fora enterrado entre as décadas de cinquenta e sessenta, exatamente quando a família adquiriu o lote. Sem documentos ou parentes buscando por respostas, o caso virou um inquérito policial que logo foi arquivado por falta de provas.

Chegou o ano de 2018 e a situação jurídica permanecia estagnada. Com isso, os ruídos arrastados voltaram com força em dezembro. Em janeiro, a figura escura reapareceu, desta vez a apenas quinze metros de distância do jazigo, no corredor lateral. Como antes, ela olhou demoradamente para o túmulo e evaporou na escuridão.

Cansado daquele tormento prolongado, avisei a seu Benedito que nada mudaria até que o corpo tivesse um destino apropriado. Pressionada, a prefeitura finalmente cedeu em fevereiro. Autorizaram a transferência oficial dos restos mortais para uma vala comum e devidamente registrada no setor quatro.

Padre Estevão conduziu uma breve e respeitosa oração de corpo presente. Junto com Rivânio, realizei o sepultamento com toda a dignidade que a burocracia havia negado no passado. O alívio foi instantâneo. Naquela mesma semana, os sons arrepiantes desapareceram por completo. A presença sombria também nunca mais foi vista. A paz reinou novamente.

Continuo sendo coveiro no cemitério São João Batista, completando vinte e um anos no mesmo lugar. O setor três segue reformado e com o silêncio típico de um campo santo. Ao passar pela velha porta de ferro, agora restaurada e com o jazigo vazio, aceito que jamais descobriremos quem ele era ou por que foi sepultado de bruços naquele esconderijo.

O que importa não são as respostas perdidas no tempo, mas a grande lição que restou no meu coração. A de que todo ser humano merece respeito na morte. Quando a dignidade nos é roubada, algo profundo permanece em suspenso, perambulando pelos corredores escuros deste mundo pelo tempo que for necessário.