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Após 15 Anos, Chamaram A Contadora-Chefe De “Ultrapassada” — A Resposta Dela Destruiu A Empresa

Lucas Fernandes sorriu com satisfação enquanto assinava o documento com a sua caneta Montblanc.

— Beatriz, fez um trabalho admirável ao longo destes quinze anos, mas a nossa empresa precisa de evoluir. A inteligência artificial e a automação são, indiscutivelmente, o futuro da contabilidade.

Recostou-se na sua imponente cadeira de pele italiana, sentindo-se completamente satisfeito consigo próprio e com a sua visão de liderança.

Mas, enquanto Lucas celebrava mentalmente aquela sua decisão, que considerava ser moderna e visionária, o telemóvel de Beatriz Santos vibrou dentro da carteira. Ela encontrava-se ainda no parque de estacionamento do Grupo Fernandes. Era um número desconhecido.

Ela atendeu a chamada e uma voz firme apresentou-se do outro lado:
— Beatriz? Daqui fala Maria Shen, da Fiscal Pro Consulting. Soube por vias travessas que a senhora se encontra agora disponível no mercado. Preparei uma proposta que, tenho a certeza absoluta, lhe vai interessar muito.

Beatriz Santos tinha quarenta e dois anos, e quinze deles haviam sido inteiramente dedicados ao Grupo Fernandes. Começara a sua carreira como analista financeira júnior, no tempo em que o velho senhor Fernandes ainda comandava tudo pessoalmente, antes de os sucessivos AVCs o forçarem a passar o testemunho da administração ao filho.

Naquela época, a empresa era bem mais pequena e, sobretudo, mais humana. Beatriz recordava-se, com saudade, de como o senhor Fernandes aparecia no departamento de contabilidade todas as sextas-feiras ao final da tarde, perguntando genuinamente como estava a equipa e se alguém precisava de alguma coisa.

Ele promovera-a três vezes num espaço de apenas sete anos, reconhecendo não apenas a sua inegável competência técnica, mas a sua capacidade única e extraordinária para compreender os fluxos labirínticos de uma holding que detinha dezassete empresas subsidiárias.

O que verdadeiramente distinguia a Beatriz não residia nos bonitos diplomas emoldurados na parede do seu gabinete, embora os possuísse aos montes. Residia, sim, na sua inestimável memória institucional. No conhecimento profundo e quase íntimo de cada peculiaridade daquele sistema financeiro, construído com paciência ao longo de três décadas de trabalho árduo.

Ela sabia, por exemplo, que a subsidiária de logística detinha um acordo fiscal altamente específico na Zona Franca da Madeira, o que exigia ajustamentos manuais rigorosos todos os meses. Sabia que a empresa de importação possuía créditos tributários acumulados desde dois mil e dezassete, os quais necessitavam de ser aplicados de uma forma extremamente estratégica para maximizar os lucros.

Ela sabia onde estavam todos os esqueletos escondidos no armário, todos os atalhos legais seguros e todas as exceções à regra que faziam a monumental diferença entre pagar cinquenta milhões de euros em impostos pesados ao Estado, ou pagar apenas trinta milhões.

Contudo, Lucas Fernandes, que assumira a presidência executiva após concluir o seu elitista MBA em Harvard, não via qualquer valor nessa bagagem. Para ele, o termo “conhecimento institucional” era apenas uma desculpa esfarrapada e uma expressão bonita para mascarar a resistência à mudança.

Aos trinta e cinco anos, Lucas pertencia àquela nova geração que acreditava piamente que todas as soluções do universo se encontravam à distância de uma simples aplicação de telemóvel. Passara os últimos seis meses a cortar o que apelidava impiedosamente de “gordura” da empresa, substituindo processos manuais e orgânicos por sistemas cegamente automatizados.

Começara a trocar funcionários mais velhos e experientes por jovens recém-licenciados, que cobravam honorários bem mais baixos e, sobretudo, que nunca questionavam as suas polémicas decisões diretivas.

A verdadeira gota de água surgiu quando Lucas descobriu, com choque, que Beatriz ainda utilizava longas folhas de cálculo em Excel para efetuar as reconciliações mensais, uma tarefa que o novo, caro e moderno sistema ERP deveria supostamente automatizar.

Certo dia, entrou no gabinete dela sem sequer bater à porta. Viu os ecrãs iluminados e repletos de fórmulas e dados complexos, e decidiu ali mesmo que ela era o símbolo vivo e perfeito de tudo o que estava errado com a velha guarda daquela empresa.

— A Beatriz tem noção de que existem programas informáticos que fazem isso em poucos segundos, certo? — dissera ele, com aquele tom profundamente condescendente que utilizava sempre. — Porque continua a perder o seu precioso tempo com este tipo de trabalho manual e arcaico?

Beatriz tentou, com toda a paciência, explicar-lhe a realidade dos factos.
— Doutor Lucas, o problema é que o novo sistema informático não consegue captar as nossas exceções fiscais. Eu faço estes ajustamentos com base nos conhecimentos muito específicos da realidade de cada subsidiária. Se deixarmos o processo correr apenas no modo automático, garanto-lhe que vamos ter problemas graves com a Autoridade Tributária.

— Beatriz, e digo-lhe isto com todo o respeito, essa é exatamente o tipo de mentalidade limitadora que está a reter o avanço desta empresa. Os algoritmos são infinitamente mais precisos do que qualquer ser humano na face da terra. A senhora só tem de aprender a confiar na tecnologia.

Ela não quis discutir o assunto. Quinze longos anos a trabalhar em ambientes corporativos de alta tensão tinham-lhe ensinado de forma dolorosa quando é que valia a pena argumentar, e quando era melhor apenas baixar a cabeça e fazer o seu trabalho em silêncio absoluto.

Mas Lucas havia decidido, na sua mente, que aquele silêncio se tratava de uma mera admissão de incompetência perante o novo mundo digital.

Três semanas depois deste episódio, chamou Beatriz para uma reunião de urgência. Ela pensou ingenuamente que o tema central seria o habitual fecho de contas trimestral. Em vez disso, encontrou Lucas comodamente sentado, acompanhado da diretora de Recursos Humanos, a Patrícia, que evitava a todo o custo qualquer contacto visual consigo.

Em cima da mesa de vidro espelhado, repousava um pesado envelope branco.

— Beatriz, nós decidimos reestruturar a fundo o departamento financeiro. — começou Lucas, utilizando o plural majestático, como se a decisão tivesse sido fruto de uma longa reflexão coletiva de toda a direção. — Contratámos a Fintech Solutions para implementar de imediato um sistema integrado de contabilidade dotado de inteligência artificial. O sistema vai processar absolutamente tudo de forma mecânica e automática, desde as mais simples conciliações bancárias até às mais complexas declarações de impostos. Francamente, já não vemos qualquer necessidade de manter aqui uma estrutura tão pesada e cara de contabilistas seniores.

Beatriz sentiu de imediato o sangue subir-lhe ao rosto, fervendo, mas conseguiu manter a sua expressão serena e friamente neutra.
— Compreendo perfeitamente, doutor Lucas. E o que vai acontecer ao resto da equipa?

— Vamos manter apenas dois dos analistas juniores para assegurarem a supervisão do sistema. A Beatriz irá receber uma indemnização bastante generosa, como é evidente. Seis meses do seu ordenado atual e o nosso plano de saúde estendido por mais um ano completo.

— Quinze anos. — disse Beatriz, com uma calma que assustava. — Quinze anos a salvar incansavelmente esta empresa de auditorias devastadoras, de coimas milionárias e de problemas surdos com as Finanças. Problemas que os senhores da administração nem sequer sabem que existiram, precisamente porque eu tive o cuidado de os resolver antes que se tornassem sequer públicos.

Lucas suspirou profundamente, como se estivesse a lidar com uma criança teimosa e mimada.
— Beatriz, eu entendo perfeitamente que seja muito difícil aceitar esta situação, mas o mundo mudou e nós temos de acompanhar. As competências que a senhora tinha e que eram tão valiosas há dez anos, simplesmente deixaram de o ser hoje em dia. Teve uma carreira muito boa e honrosa nesta casa, mas é chegada a hora de se afastar e deixar que a próxima geração assuma o controlo.

— A próxima geração? — repetiu Beatriz, esvaziando a sua voz de qualquer resquício de emoção. Pegou lentamente no envelope branco em cima da mesa. — Quando é o meu último dia na empresa?

— Achamos que o melhor para ambas as partes é que seja já hoje. Pode aproveitar o resto do dia e a tarde para organizar e levar as suas coisas pessoais. A Patrícia vai acompanhá-la.

Beatriz acenou silenciosamente com a cabeça. Não ia dar, de forma alguma, a satisfação a Lucas de a ver chorar, nem iria entrar em discussões inúteis de última hora. Levantou-se com toda a dignidade que possuía, apertou a mão de Patrícia, que murmurou um pedido de desculpas muito sentido e quase inaudível, e saiu daquela sala com a cabeça erguida.

Demorou apenas quarenta minutos para esvaziar os seus quinze anos de dedicação a uma vida inteira corporativa para dentro de três tristes caixas de cartão. Lá dentro iam fotografias antigas da equipa, uma caneca personalizada que ganhara no seu aniversário de dez anos na empresa, e um cato resiliente que sobrevivera a cinco intensas mudanças de gabinete.

Quando carregou as pesadas caixas até ao parque de estacionamento, apenas três pessoas se aproximaram sorrateiramente para se despedirem dela. Os restantes funcionários permaneceram colados às suas secretárias, aterrorizados com a simples ideia de poderem ser associados à figura da “fracassada” que acabara de ser sumariamente despedida.

Foi exatamente nesse instante humilhante que o seu telemóvel tocou com urgência.

Beatriz arrumou finalmente as caixas na espaçosa bagageira do seu Honda Civic de dois mil e quinze e atendeu.
— Estou sim, fala a Beatriz Santos.

A voz que se fez ouvir era declaradamente feminina, exalava enorme confiança e possuía um leve, mas distinto, sotaque asiático.
— Daqui fala a Maria Shen, a CEO da Fiscal Pro Consulting. Tenho vindo a seguir de perto a sua excelente carreira há já algum tempo. Um passarinho bem informado contou-me que a doutora Beatriz poderá estar agora disponível para abraçar novas oportunidades.

Beatriz ergueu o rosto e olhou para o gigantesco e altivo edifício totalmente envidraçado do Grupo Fernandes. Fixou os olhos na janela luminosa do quadragésimo segundo andar, onde Lucas provavelmente já se encontrava a festejar com a sua nova equipa de jovens analistas a sua grande vitória daquele dia.
— A doutora Maria tem um passarinho muito bem informado. Acabei de sair pelas portas do Grupo Fernandes há, literalmente, dez minutos.

— Perfeito. Estaria disponível para almoçar comigo hoje mesmo? Tenho uma proposta irrecusável que julgo que lhe vai agradar bastante.

Duas horas mais tarde, Beatriz encontrava-se tranquilamente sentada num sofisticado restaurante japonês na Avenida da Liberdade, no coração de Lisboa. Ouvia atentamente a doutora Maria Shen detalhar-lhe uma oferta que lhe parecia francamente boa demais para poder ser sequer verdade.

A Fiscal Pro Consulting era, orgulhosamente, a segunda maior empresa de consultoria fiscal do país. Tratava-se de um concorrente direto e temível do Grupo Fernandes em vários dos seus segmentos mais cruciais de negócio.

A Maria Shen era uma empresária madura, na casa dos cinquenta anos, que havia erguido aquele autêntico império a partir do mais absoluto zero. Detinha a sólida e respeitada reputação de ser bastante agressiva e incisiva nos negócios, mas incrivelmente correta e justa para com os seus empregados.

— Vou ser muito direta consigo, Beatriz. Eu quero-a para o cargo de Diretora Financeira de topo da Fiscal Pro. Ofereço-lhe um ordenado de oitenta mil euros anuais, aos quais acrescem bónus trimestrais indexados diretamente à sua performance, um pacote de opções de compra de ações da nossa firma e, o mais importante, autonomia completa e intocável sobre a gestão de toda a estrutura financeira da nossa empresa.

Beatriz quase se engasgou com a pequena peça de sushi que acabara de colocar na boca. O seu salário líquido no imponente Grupo Fernandes não chegava aos três mil euros mensais.
— Isso é… isso é muito mais do dobro do que eu ganhava.

— Eu sei exatamente até ao último cêntimo quanto é que a senhora ganhava no Grupo Fernandes, e sei, com igual certeza, que a Beatriz era absurdamente e cronicamente subvalorizada lá dentro. — A doutora Maria inclinou-se ligeiramente para a frente sobre a mesa, assumindo um tom mais confidente. — Eu também tenho perfeito conhecimento de que foi a Beatriz que impediu, por três vezes nos últimos cinco anos, que o Grupo Fernandes fosse alvo de profundas e destruidoras auditorias por parte da Autoridade Tributária. Eu sei perfeitamente que a Beatriz tem o dom raro de encontrar brechas perfeitamente legais no sistema que poupam sempre milhões e milhões de euros. E sei, melhor do que ninguém, que o jovem Lucas Fernandes não passa de um autêntico tolo, que prefere deslumbrar-se com as luzes de uma tecnologia brilhante, em detrimento da verdadeira, pura e leal competência humana.

— Como é que a doutora sabe tudo isso com tanto detalhe? — perguntou Beatriz, perplexa.

A Maria soltou um sorriso conhecedor.
— A Beatriz julga que é, por acaso, a única pessoa profundamente insatisfeita e desmoralizada no seio do Grupo Fernandes? Eu tenho os meus contactos lá dentro. Aliás, deixe-me confidenciar-lhe que cinco dos seus clientes corporativos mais abastados e importantes estão, neste preciso momento, extremamente descontentes com o rumo desta nova gestão do Lucas. Se a Beatriz decidir abraçar a Fiscal Pro, tenho fortes e fundamentados motivos para acreditar seriamente que esses clientes virão todos atrás de si.

Beatriz processou silenciosamente aquela informação de peso. Roubar, de forma tão direta, clientes ao seu antigo empregador era uma questão que se afigurava eticamente muito complexa. No entanto, ela rapidamente se lembrou que não possuía qualquer cláusula legal de não-concorrência no seu contrato. O Lucas fora demasiado presunçoso e profundamente descuidado para sequer se lembrar de incluir uma cláusula tão vital e básica na sua rescisão.

— Estamos a falar de que clientes, em concreto? — quis saber.

A Maria passou-lhe disfarçadamente uma pequena lista impressa por debaixo do guardanapo.

Beatriz bateu os olhos no papel e reconheceu os ilustres nomes de forma imediata: A pujante Construtora Almeida, a Cadeia de Supermercados Lisboa, a sólida Indústria Química Portuguesa, e mais duas conhecidas empresas de vanguarda na área da tecnologia de média dimensão. Somados, todos estes grandes clientes representavam cerca de assustadores trinta por cento da receita brutal anual que sustentava o Grupo Fernandes.

— Repare, eles confiam de olhos fechados em si e na sua palavra, e não na placa luminosa que está à porta daquela empresa. — explicou Maria. — O jovem Lucas ainda não tem maturidade para entender um princípio tão básico. Ele acha, de forma ingénua, que as pessoas e os clientes pagam os serviços apenas pelo nome pomposo na fachada do edifício. Mas a mais pura e cristalina verdade é que os clientes pagam essencialmente pelas pessoas de excelência que lá trabalham. E a Beatriz é, sem tirar nem pôr, exatamente o tipo raro de pessoa que constrói de forma inabalável essa mesma lealdade.

Beatriz pensou, de forma efémera, no rosto arrogante de Lucas. Pensou na maneira incrivelmente humilhante com que a tratara naquela própria manhã. Pensou em como ele agarrara nos seus quinze anos de leal, suada e exaustiva dedicação total e os tratara como se fossem apenas guardanapos sujos e descartáveis. Pensou também nas frias e longas madrugadas no escritório que passara a corrigir os inúmeros erros crassos alheios, nos sagrados fins de semana em família sacrificados unicamente para poder garantir que os relatórios complexos estariam impecavelmente perfeitos à segunda-feira de manhã. No insuportável e tóxico stress diário que tantas vezes levara consigo para a sua própria casa, sem que alguma vez a tivessem ouvido proferir uma única e minúscula reclamação.

— Quando é que eu poderia começar? — perguntou ela.

— Segunda-feira às nove.

— Se a Beatriz aceitar agora mesmo a minha proposta.

Beatriz não hesitou mais. Estendeu prontamente a mão, por cima da mesa repleta.
— Eu aceito.

A Maria Shen apertou-lhe a mão com invulgar firmeza e gratidão.
— Seja muito bem-vinda à família da Fiscal Pro, Beatriz. Acredite em mim, não se vai arrepender um único dia desta sua decisão.

Naquela mesma e idílica noite, enquanto o vaidoso Lucas Fernandes brindava e jantava alegremente num restaurante caro na linha de Cascais com a sua nova namorada modelo, celebrando animadamente aquilo a que chamava a sua mais recente e bem-sucedida modernização administrativa, ele não fazia a mais pálida e longínqua ideia da monstruosa bomba-relógio que, poucas horas antes, ele próprio acabara de ativar de forma cega.

Na segunda-feira seguinte, logo pela manhã, Beatriz chegou ao elegante e moderno escritório da Fiscal Pro exatamente às sete horas. A doutora Maria fez questão de lhe apresentar pessoalmente a sua nova e simpática equipa de vinte e três pessoas. Ao contrário do que acontecia na sua antiga empresa, ali, a esmagadora maioria eram já contabilistas veteranos e experientes, oscilando todos na faixa etária entre os trinta e os maravilhosos cinquenta anos de idade. Tratava-se exatamente daquele perfil sólido de profissional clássico que o imaturo Lucas consideraria rápida e erradamente como sendo completamente obsoleto e fora de validade.

Eles fizeram questão de a receber de braços abertos e com um entusiasmo verdadeiramente genuíno e contagiante. Muitos daqueles profissionais respeitáveis já conheciam sobejamente a sua excelente e blindada reputação no agressivo mercado da cidade.

Maria atribuiu de imediato a Beatriz o usufruto de um vasto e luminoso gabinete executivo de esquina, com uma vista deslumbrante e rasgada sobre o Parque das Nações, e deu-lhe de imediato e sem reservas carta branca para poder reorganizar e desenhar de raiz todos os envelhecidos processos financeiros internos da empresa. Pela primeiríssima vez em dolorosos e longos quinze anos da sua vida, Beatriz sentiu de facto, com enorme conforto, que todas as suas ideias seriam doravante ouvidas com total respeito e ponderadas com calma, e não apenas suportadas ou escutadas e toleradas por mera formalidade.

Enquanto tudo isto acontecia de modo fantástico, e muito longe dali, nos corredores do Grupo Fernandes, Lucas, por sua vez, encontrava-se eufórico a conduzir a sua primeira e oficial reunião estratégica com a dita equipa técnica maravilhosa da famosa Fintech Solutions.

Tratava-se, nada mais, nada menos, do que três meros e imberbes jovens programadores e desenvolvedores que rondavam a tenra casa dos vinte e poucos aninhos. Apresentaram-se todos a vestir descontraídas e folgadas t-shirts com o logótipo de startups obscuras e comunicavam constantemente recorrendo a jargões difíceis e palavras caras tecnológicas anglo-saxónicas, que, de facto, até soavam terrivelmente impressionantes e vanguardistas, mas que, na nua e dura prática e no fim do dia, significavam quase absoluta e redonda e oca coisa nenhuma.

— Não se preocupe, engenheiro Lucas, o vosso novo sistema vai estar totalmente pronto e operacional em não mais do que duas curtas e rápidas semanas. — O dito líder e encarregado daquela pequena equipa técnica de informática, um miúdo irreverente chamado Tiago, dono de um volumoso e muito bem cuidado e gélido penteado fixo com laca, assegurou com ar de enorme altivez e infinita convicção inabalável o que dizia. — Os senhores vão ver. O sistema que vos vendemos é absoluta e categoricamente revolucionário. Tem de tudo, desde machine learning avançado, integração imersiva com blockchain e complexos dashboards responsivos que atualizam relatórios milimétricos e minuciosos em tempo totalmente real.

Lucas ouvia tudo isto com uma admiração quase pueril, e o seu rosto encontrava-se totalmente radiante e cego com aquele canto da sereia e todo aquele cenário prometido de conto de fadas digital perfeito.
— Fantástico! Era isso! Isso é rigorosa e exatamente tudo o que eu precisava mesmo de ouvir hoje. E digam-me lá, rapazes, de quanto tempo mais ou menos vocês julgam que precisam de dispor da nossa equipa de trabalho antiga e velha para vos auxiliar a fazer e garantir que toda a vossa transição decorre da melhor forma?

— Bem… — Hesitou um dos miúdos. — O ideal, num mundo perfeito, seria, claro, podermos contar sempre com alguém da vossa estrutura que detivesse, de facto, um conhecimento imensamente profundo e orgânico dos processos que aqui decorrem atualmente, pelo menos durante estas primeiras e essenciais semanas. No entanto, se isso for mesmo muito problemático para vós, garanto que conseguiremos, à justa, desenrascar-nos e desenvencilhar-nos na mesma sem esse apoio, caso seja totalmente e estritamente necessário.

— Ótimo, perfeito! Até porque a pessoa que até ontem tinha mesmo todo esse valiosíssimo e histórico conhecimento nas mãos já nem sequer se encontra felizmente mais aqui a trabalhar e a perder tempo connosco. Mas olhem que eu tenho a mais firme e convicta e inteira certeza de que o velho e ultrapassado sistema que ela usava ainda era tão e incrivelmente denso e arcaico e mau que, olhem, é francamente muito preferível e muito melhor nós todos juntos começarmos a trabalhar neste projeto do mais profundo e absoluto e limpo zero mesmo. Acreditem no que vos digo.

Aquela dita primeira e nova semana das suas rutilantes vidas com aquele belo software milagroso recém-estreado, de facto e na mais sincera verdade, até que transcorreu, correu de forma e de um modo relativamente calmo, e muito sem grandes e estrondosos e notados incidentes e aparentes enormes problemas e visíveis de registar e reportar.

O falado sistema altamente mecanizado da brilhante Fintech Solutions era realmente e estupendamente deslumbrante e magnificamente impressionante aos olhos curiosos, quando do seu deslumbre e estético ponto de vista puramente fútil e lindamente visual se assim analisava o quadro das coisas do painel. A interface parecia mesmo algo do futuro. Havia toda uma panóplia de vistosos, chamativos, estéticos e moderníssimos dashboards iluminados e extremamente ricos e vivamente muito coloridos nas formas. Apresentavam todos múltiplos, animados e complexos bonitos gráficos e tabelas altamente muito reativos, brilhantes, belos e esteticamente atraentes interativos. Com requintadas e limpas, rápidas e suaves excelentes interfaces incrivelmente rápidas de ler e intuitivas de poder decifrar e mexer em segundos com meros parcos toques e com meros dois e velozes ligeiros cliques apenas do rato e teclado veloz.

Os pobres dos outros e assustados dois jovens nervosos analistas inexperientes e apáticos analistas de facto meramente juniores estagiários analistas juniores novos que o arrogante do teimoso Lucas Fernandes deliberada e estrategicamente decidiu friamente poupar manter a custo na casa, o estressado jovem Rafael e a sua assustada inexperiente muito aflita miúda de nome a miúda a colega Juliana… ambos estes possuíam em mão e infelizmente nada e apenas somente muito parcos rudimentares menos de uns e meros parcos redondos velozes parcos curtos escassos magros tenros míseros reles curtos parcos míseros meses uns meros e escassos menos dois míseros de parcos meses rudimentares breves pouco parcos e dois de anos apenas a uns míseros menos tenros redondos de dois singelos de parcos anos de pouca reles ínfima escassa real anos inexperiência ou menos parca quase tenra pouca parca de tenra ou magra curta tenra singela anos experiência de e pouco real bagagem experiência nula rala vivência na escassa real da no pouco a pouca rala parca nula de currículo ou no pouco na parco nulo magro experiência ralo parco parca na fraca e diminuta na e tenra experiência inexperiência bagagem no ralo e currículo de carreira fraca currículo parco nas parcas e da bagagem fraca fraca fraca na e experiência tenros e de carreira. (Fizeram de imediato e apressadamente os cursos e o curto, intenso e desorganizado treino de meros três dias daquela dita incrível formação técnica altamente célere e apressada e encarregaram-se do processo.)