
BARÃO GAY AMAVA SER DEVORADO PELO ESCRAVO E MATOU A PRÓPRIA FAMÍLIA PARA ESCONDER QUE…
Há amores que uma época inteira não sabe nomear. No Brasil do século XIX, certos sentimentos eram empurrados para debaixo do silêncio, da vergonha e do medo. Esta é a história de Eugénio Lacerda Monteiro de Albuquerque, Barão de Serra Morta, homem de terras, títulos e escravizados, mas incapaz de possuir aquilo que mais desejava: a liberdade de amar sem destruir tudo à sua volta.
Em 1847, no interior do Maranhão, o Engenho das Palmas parecia um mundo perfeito para quem chegava de fora. As palmeiras imperiais alinhadas à entrada, a casa-grande de pedra e cal, os campos trabalhados, os cavalos bem tratados, tudo dava a impressão de ordem. Mas havia casas onde a ordem era apenas outro nome para o medo.
O Barão tinha cinquenta e dois anos, rosto duro, olhos turvos e mãos cobertas de anéis. Raramente sorria, e a sua voz baixa assustava mais do que um grito. A esposa, Dona Perpétua, aprendera em vinte e três anos de casamento que fazer perguntas podia custar caro. Vivia entre rezas, bordados e longos silêncios. Tinham uma única filha viva, Inês, de dezassete anos, educada para tocar cravo, bordar e obedecer. Mas Inês observava demasiado. Percebia que a verdade daquela casa morava nas portas fechadas, nos passos abafados e nos olhares que fugiam.
Firmino não tinha apelido, porque apelido era privilégio de homem livre. Tinha vinte e seis anos, nascera no engenho e era filho de Cândida, escravizada morta de febre quando ele ainda era menino. Era alto, forte, hábil com madeira, animais e ferramentas. Também sabia ler, segredo que guardava como quem guarda uma faca escondida.
Há dois anos, o Barão escolhera Firmino para o servir de perto. Chamava-lhe moço de confiança, mas confiança, naquele mundo, era outra forma de prisão. Firmino acompanhava-o nas cavalgadas, cuidava do cavalo Ruão e obedecia a ordens dadas de dia e de noite.
O que se passou entre os dois não começou como amor. Amor exige escolha, e Firmino não podia escolher. Começou com olhares demasiado demorados, mãos pousadas no ombro, ordens sussurradas. Depois vieram as noites no escritório de jacarandá, quarto proibido onde Dona Perpétua nunca entrava. O Barão inventava pretextos: contas a rever, inspeções, recados urgentes. Todos obedeciam. Ninguém perguntava.
Numa dessas noites, caiu no chão um pequeno medalhão de prata, com as iniciais do Barão gravadas no verso e um retrato dele jovem no interior. Firmino apanhou-o e guardou-o no patuá de couro que trazia ao peito, junto de uma raiz de arruda deixada por Cândida. Talvez fosse medo. Talvez fosse instinto. Talvez quem nunca tivera nada não soubesse abandonar um objecto que podia um dia significar poder.
Foi Inês quem encontrou o medalhão. Entrara no quarto de Firmino para buscar um xaile esquecido. Ele não estava. O baú ficou entreaberto, e o brilho da prata chamou-lhe a atenção. Ao abrir o medalhão, reconheceu imediatamente o rosto do pai. Fechou-o, colocou tudo no mesmo lugar e saiu. Não era uma jovem precipitada. Sabia que uma prova isolada podia ser acidente, roubo ou acaso. Por isso começou a observar.
Notou que Firmino desaparecia em certas noites e voltava de manhã com a máscara tranquila dos sobreviventes. Notou que o pai aparecia ao pequeno-almoço com os olhos vermelhos e uma quietude estranha. Notou também que, quando estavam sós, havia entre os dois gestos que não pertenciam à relação entre senhor e escravizado.
A confirmação veio numa noite de chuva forte. Inês acordou com sede e, ao passar pelo corredor, viu luz sob a porta do escritório. Ouviu sons abafados que não eram conversa. Não abriu a porta. Voltou ao quarto e ficou acordada até amanhecer. Durante dias, debateu-se com a pergunta: que fazer com uma verdade tão perigosa?
Em Outubro, cometeu o seu erro mais grave. Procurou Firmino no quarto dele e disse que sabia do medalhão e das noites no escritório. Falou baixo, com respeito, garantindo que não queria acusá-lo. Queria apenas compreender. Firmino ficou calado muito tempo. Depois disse:
— A senhora sabe?
Inês respondeu que sim. E acrescentou que sabia também que ele não tinha escolha. Firmino, vencido pelo cansaço, contou-lhe o suficiente: quando tudo começara, os pretextos, o medo, a frase do Barão quando ele tentara recuar. “Tu és meu.” Era simples assim.
Inês saiu de cabeça erguida, mas o Barão viu-a deixar o quarto. Não ouvira a conversa, mas reconheceu no rosto da filha uma ameaça. E Eugénio era homem que eliminava ameaças antes que se tornassem problemas.
Semanas depois, Inês decidiu confrontá-lo. Numa noite quente de Novembro, aproximou-se do escritório e abriu a porta. Viu o pai e Firmino num estado que não permitia engano. Por um segundo, os três ficaram imóveis. Firmino mostrou terror. O Barão mostrou uma raiva fria, sem vergonha, sem surpresa. Inês fechou a porta e voltou ao quarto. Sabia que o pai entendera o que ela vira.
Antes do amanhecer, o silêncio da casa mudou. Pela manhã, Inês não apareceu ao café. Dona Perpétua mandou chamá-la e encontrou a filha deitada, rígida, sem vida. O Barão declarou, com calma monstruosa, que fora febre fulminante. No Maranhão, disse ele, essas coisas aconteciam. Dona Perpétua olhou para o marido e não perguntou nada. Mas naquele olhar já havia suspeita.
Inês foi enterrada no pequeno cemitério da propriedade, sob pedra simples. Firmino percebeu, pelo silêncio dos escravizados e pelo olhar do capataz Honorato, que todos sabiam mais do que diziam. Depois da morte da filha, Dona Perpétua mudou. Deixou de bordar, de supervisionar a cozinha, de fingir. Um dia, aproveitou a ausência do marido e abriu o armário secreto do escritório. Encontrou cartas antigas, documentos, sinais de segredos guardados há anos.
Pediu uma carruagem para São Luís, alegando visitar uma irmã doente. Não chegou ao destino. Três dias depois, a carruagem voltou sem ela. Disseram que fora assalto na estrada. O Barão lamentou em público com a mesma serenidade com que chorara Inês. Firmino compreendeu então que estava sozinho diante de um homem que matara a própria filha e a própria mulher para preservar o segredo.
Nessa noite, o Barão chamou-o ao escritório. Disse que Firmino era o único que conhecia a verdade e que havia duas escolhas: continuar como antes ou desaparecer de modo pior do que qualquer outro problema já resolvido naquela casa. Depois acrescentou que, se Firmino não fosse dele, não seria de mais ninguém.
Foi ali que Firmino decidiu fugir, mas não como animal acossado. Tinha o medalhão. Tinha também um caderno onde, durante meses, escrevera datas e frases curtas sobre as noites, as ameaças e as mortes. Copiou o essencial para um papel fino, queimou o caderno e esperou a próxima ida à vila.
No cartório de São Benedito do Rio Preto, procurou o escrivão Benedito Quaresma, homem cauteloso, mas não sem consciência. Firmino mostrou-lhe o medalhão e entregou-lhe o papel com datas. Pediu que enviasse notícia a São Luís. Não pedia heroísmo, disse. Apenas que um escrivão registasse o que existia.
Quaresma aceitou. A carta partiu nessa tarde. Quando o Barão soube que Firmino passara pelo cartório, chamou-o novamente. Firmino, pela primeira vez, sorriu. Disse que a verdade já estava fora do engenho, assinada e encaminhada. Matar mais alguém apenas confirmaria tudo.
Naquela noite, Firmino fugiu pela última cerca, com o patuá contra o peito. O Barão apareceu na escuridão e pediu que ficasse. Chamou real ao que os unira. Firmino respondeu, calmo, que nada construído sobre a impossibilidade de dizer não podia ser amor. Depois atravessou a cerca e não voltou.
Dias mais tarde, o Barão foi encontrado morto no escritório. Deixara apenas um inventário de bens, frio e exacto, onde Firmino aparecia avaliado como propriedade. Em São Luís, as investigações foram discretas, como eram sempre os escândalos envolvendo homens poderosos. Ainda assim, os óbitos de Inês e Dona Perpétua foram revistos. O medalhão serviu de prova. Com ajuda da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Firmino recebeu carta de alforria.
Anos depois, quando as palmeiras da entrada já tinham perdido a imponência e o engenho passara para outras mãos, as mulheres antigas ainda contavam a história em voz baixa, ao pé do lume, como quem não queria acordar fantasmas. Diziam que Inês pagara por ter visto demais, que Dona Perpétua pagara por ter compreendido tarde demais, e que Firmino sobrevivera porque aprendera a transformar memória em prova. Não era uma história bonita, nem servia para consolar. Servia para lembrar que o poder, quando não encontra limites, chama amor ao domínio, ordem ao medo e honra ao crime. E servia também para ensinar que a verdade, mesmo frágil, pode atravessar cercas e rios fundos.
Nunca regressou ao Maranhão. Dizem que trabalhou como carpinteiro em Belém e depois num estaleiro. Dos seus passos ficaram poucos registos. Mas nas memórias dos descendentes do Engenho das Palmas permaneceu o nome de Firmino, homem sem apelido, que tomou a liberdade com um medalhão de prata, um papel dobrado e a velha lição de Cândida: liberdade não se espera. Ou se toma, ou nunca chega.