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“Cala a boca, caubói! Você está congelando! Vai dormir entre nós esta noite!”, disseram as duas irmãs apaches!

“Cale a boca, cowboy. Você está congelando. Você vai dormir entre nós duas esta noite”, disseram as duas irmãs Apache.

Território de Utah, inverno de 1877. O vento corria veloz pelo corredor do cânion. Não era barulhento, apenas constante e afiado. Ele se afunilava entre as paredes de rocha, varrendo areia e neve em espirais apertadas que picavam a pele e borravam o caminho à frente.

Micah Shaw havia parado de contar o tempo algum tempo depois da segunda noite sem fogo. Ele estava seguindo um rastro, seu próprio cavalo levado nos arredores de Green Creek, provavelmente por alguém desesperado ou apenas cruel, mas as pegadas desapareceram com a tempestade.

Agora ele se movia por instinto. A terra havia se estreitado ao seu redor, forçando-o a ir mais fundo no cânion, onde o vento castigava mais forte e os penhascos se tornavam mais íngremes.

Ele não comia há dois dias. Seu cantil havia congelado completamente naquela manhã. Sua bota esquerda havia rasgado no calcanhar no dia anterior, e ele a envolveu com um pedaço de pano rasgado de sua camisa.

A ferida em seu ombro, costurada de forma desleixada com linha de pesca, estava encharcada de sangue novamente. A dor agora era surda, o que o preocupava mais do que confortava. Ele perdeu a sensibilidade em três dedos.

Ele não achava que morreria num lugar como aquele, mas estava acontecendo rápido. A cada piscada, a neve parecia mais perto de engolir a trilha. Cada passo exigia mais esforço do que o anterior.

Seus pensamentos vagavam, presos a velhos nomes, lugares mortos, o rosto de uma mulher, um cume onde ele uma vez entregou a notícia de um cessar-fogo com dois dias de atraso. Ele forçou sua mente a se afastar disso.

Apenas atravesse o cânion. Apenas chegue ao outro lado. Mas ele não conseguiu.

A perna de Micah bateu em algo irregular. Rocha ou gelo, ele não sabia. Seu corpo tombou para o lado, os joelhos batendo primeiro, depois o ombro, então o peito contra o chão compactado pela neve.

Ele não tentou se levantar. O frio já não era cortante; havia se tornado suave. Ele pensou em rastejar. Não o fez. Fechou os olhos. A mão escorregou da pistola ao seu lado.

Nara já estava agachada quando sua irmã a alcançou. Ela tinha visto o homem de cima, uma forma escura contra a neve, imóvel, mas não rígida. Ela estava com a faca em punho, mas ainda não o havia tocado. Sua respiração era lenta. Ela não gostava de quão perto ele estava do caminho.

“Por que ele parou aqui?”, Tay perguntou atrás dela. Sua voz estava tensa por causa da subida.

“Não parou”, disse Nara. “Caiu.”

Tay examinou o corpo. Casaco áspero, bota rasgada, mancha de sangue no ombro, lábios azuis, branco, armado, quase morto. Ela o observou por mais um instante, depois varreu as paredes do cânion com o olhar. “Sozinho?”

“Parece que sim.”

Elas não se moveram por um longo momento. Nenhuma delas confiava no acaso. A mão direita de Nara permaneceu sob o casaco. Era sempre mais lenta agora, queimada anos atrás quando uma negociação de paz deu errado, quando ela estendeu a mão para pegar algo e recebeu fogo em vez disso.

Sua mão esquerda deslizou para fora, limpando a neve do rosto dele. A pele era áspera, pálida demais. Ela pressionou os dedos na lateral do pescoço dele. “Ainda respira.”

“Ele não vai durar”, Tay disse. “Esse ombro está péssimo. Pior se o deixarmos aqui.”

Tay franziu a testa. Sua perna esquerda se arrastava atrás dela quando se ajoelhava. Uma bala de mosquete a atravessou quando ela tinha dezessete anos. Não cicatrizou direito. Ela vivia com a dor. Olhou para a irmã.

“Não vamos discutir para onde o vento sopra”, Nara disse, já segurando o braço do homem. Elas o arrastaram juntas. Ele gemeu uma vez, nada mais.

A entrada do abrigo delas ficava baixa, sob uma borda desmoronada, escondida atrás de um amontoado de pedras que parecia não valer a pena inspecionar. Elas haviam reforçado o interior com peles grossas e moldado o chão de terra em uma inclinação que drenava a água do degelo para longe de seus sacos de dormir. Não era espaçoso, mas mantinha o calor quando o fogo permanecia aceso.

Elas o puxaram para dentro. Nara fechou a laje de pedra atrás delas. A mudança de temperatura foi imediata. Ainda frio, mas não perigoso. Elas o deitaram na pele do centro.

O casaco dele havia congelado nas costuras. Nara o cortou. Ela trabalhava rápido, mas com cuidado. A ferida no ombro parecia infeccionada. “Comece o fogo”, ela disse. Sua voz não era alta. Não precisava ser.

Tay não respondeu. Puxou a pederneira da tigela de barro que mantinham enterrada num canto. Poucos minutos depois, faíscas pegaram no musgo seco. Depois vieram os gravetos, e o cheiro de madeira queimando.

Nara tirou a camisa do homem e pressionou a mão levemente no peito dele. O batimento cardíaco estava lá, mas lento. “Precisamos aquecê-lo ou vamos perdê-lo”, ela disse.

Tay olhou para ele. “Você quer queimar mais cobertores?”

“Ele não vai durar até a manhã de outra forma.”

Tay hesitou. Seu rosto demonstrou desconforto, depois frustração, então resolução. Ela se levantou, tirou a saia externa e jogou em direção à área de dormir. “Não estou fazendo isso por ele”, murmurou.

“Eu não pedi para você fazer.”

Elas puxaram os cobertores para perto, peles grossas sobrepostas às pedras aquecidas pelo fogo que mantinham perto dos sacos de dormir. Nara rastejou para debaixo das cobertas primeiro. Moveu-se devagar, rígida do frio lá fora. Depois Tay se juntou do outro lado. O homem não se mexeu.

“Ele não cheira a soldado”, Tay disse baixinho. “Ele não é limpo o suficiente para ser batedor. Mensageiro, talvez?”

Nara não respondeu. Seu rosto permaneceu indecifrável na luz fraca do fogo. Seus pensamentos se moviam de forma diferente, sempre foi assim.

“Ele está tremendo.”

“Ele vai tremer por um tempo.”

Tay olhou através do homem para sua irmã. “Não sabemos quem ele é.”

“Saberemos.”

“Você acha que ele vai ficar?”

“Ele não tem mais para onde ir.”

Eles ficaram deitados em silêncio, os três debaixo do mesmo cobertor. O calor voltou devagar. Não era conforto, era necessidade. Nenhuma palavra foi dita no resto da noite. Mas quando a manhã chegou, o homem abriu os olhos. Viu a pedra acima dele. Ouviu o leve raspar de uma faca na madeira. Sentiu o cheiro de ossos de coelho fervendo sobre o fogo. E, pela primeira vez em dias, seus pensamentos não vagaram. Ele lembrou onde estava, e ficou.

Micah acordou sem saber onde estava. O ar não queimava. Essa foi a primeira coisa que notou. O frio havia recuado, não totalmente, mas já não arranhava sua pele. Algo pesado cobria seu peito. Pele, peso, calor.

Seus dedos se flexionaram contra a terra macia compactada firmemente sob ele. O fogo estalava suavemente. Ele virou a cabeça devagar. O movimento repuxou seu ombro esquerdo. A dor voltou correndo, profunda e quente. Sangue fresco havia se infiltrado no curativo. Alguém tinha tentado enfaixar de novo.

A luz fraca cintilava pelas paredes. Peles curtidas esticadas contra a pedra. Um tripé rústico perto do fogo, uma tigela de barro pendurada sobre brasas baixas. O cheiro de osso fervido e fumaça de madeira pairava.

Ele não estava sozinho. À sua esquerda, uma mulher sentava de pernas cruzadas com uma lâmina no colo. Ela não olhava para ele, mas ele sabia que ela sabia que ele estava acordado. A mão direita dela descansava na coxa. Estava terrivelmente cicatrizada, encolhida e rígida, quase inútil. Nara.

Ele ainda não sabia o nome dela, mas observou como ela se movia, precisa, calculada. Ela afiava a faca em movimentos lentos, não porque precisasse de fio, mas porque lhe dava algo para controlar.

À direita, a mais jovem, Tay, se mexeu. Tinha um rosto mais suave, mas olhos mais afiados. Ela olhou diretamente para ele, com os braços cruzados.

“Você não está morto”, disse sem emoção.

Micah não falou. Sua garganta queimava. Tentou sentar. Uma mão o empurrou de volta para baixo. “Não seja idiota. Você rompeu os pontos. De novo.”

Tay arrastou um caixote para perto do fogo, mergulhou uma tigela de madeira na panela. “Coma alguma coisa. Você parece péssimo.”

Micah bebeu o caldo devagar. Tay sentou-se na frente dele. “O que você fazia no cânion?”

“Rastreando um cavalo. O meu”, respondeu.

“Você é do exército?”

“Fui.”

“Você matou Apaches?”

“Não. Fui mensageiro, não atirava nas pessoas.”

Nara finalmente ergueu os olhos e cruzou o olhar com ele. Ela não contestou a resposta. Isso foi o suficiente.

Tay se levantou. “Temos regras aqui. Se quer ficar, você as segue. Sem fogo depois de escurecer, sem sair sem avisar, sem tocar em nada afiado.”

Na terceira manhã, Micah conseguia ficar de pé sozinho. Aos poucos, passou a ajudar. Consertou armadilhas de coelho na neve, cortou lenha e costurou peles rasgadas. Embora a dor em seu ombro fosse intensa, ele encontrava propósito nas tarefas simples. Não havia pedido para ser salvo, mas elas não o mataram, e ele não queria ir embora.

Um dia, enquanto rastreava o perímetro, Micah encontrou pegadas descalças na neve. Tay veio atrás. Eles seguiram a trilha e encontraram uma jovem garota meio enterrada no gelo, exausta, quase morta. O corpo dela estava coberto de hematomas. Micah a carregou de volta para a cabana.

Naquela noite, havia quatro pessoas no abrigo. A garota, Saya, estava febril. Suas costas mostravam marcas recentes de queimadura feitas por ferro quente.

“Eles a marcaram”, murmurou Tay, com a voz embargada pela raiva. “Provavelmente a milícia local.”

No dia seguinte, Saya abriu os olhos. Ela não confiava neles, encolhida contra a parede, recuando como um animal assustado. Com o tempo e o silêncio respeitoso de Nara e Tay, ela finalmente sussurrou seu nome e contou como os homens a jogaram na neve para morrer.

Poucos dias depois, a tensão tomou conta. Homens armados apareceram no cânion. Eles pararam perto da caverna oculta e gritaram ameaças na escuridão. “Sabemos que vocês estão aí. Entreguem a garota Apache.”

Micah sacou a pistola, mas os passos lá fora recuaram. Eles prometeram voltar na manhã seguinte.

“Sairemos antes da luz do dia”, decidiu Micah.

Abandonaram a caverna sob uma tempestade de neve e seguiram em silêncio absoluto. Micah os guiou até o norte, para dentro de um velho túnel de carvão que ele conhecia. O lugar era escuro e asfixiante, mas manteve todos escondidos enquanto os homens vasculhavam a área em vão e acabaram indo embora frustrados.

Com a área finalmente segura, eles seguiram montanha acima, onde os ventos perdiam a força no meio de pinheiros densos. “Construiremos aqui”, disse Micah.

Durante dias, trabalharam sem descanso. Cortaram madeira, amarraram peles, levantaram paredes de pedra. Ergueram uma cabana firme que não vazava e nem tremia com a tempestade. Saya, com as mãos calejadas, entregou a Micah um pedaço de casca com seu nome entalhado, que ele prendeu na viga central. Era o fim da fuga.

A primavera finalmente descongelou o vale. O teto estava firme, a lenha empilhada e o cheiro de pão quente flutuava no ar. Eles não eram apenas sobreviventes agora; eles estavam vivendo.

Certa manhã, Micah entalhou quatro linhas na moldura da porta. Uma para cada um deles. Nara tocou suavemente na última linha e entrou. À noite, sentados ao redor da porta sob o silêncio calmo da montanha, Saya sussurrou na escuridão: “Nós nunca partimos.” E Micah, com um sorriso leve, respondeu: “E nós nunca partiremos.”