
EM 2002, FUI CHAMADO PARA FAZER UMA EXUMAÇÃO… MAS O DESRESPEITO QUE VI MUDOU ALGO NO CEMITÉRIO
O que me aconteceu em 2002 não se pareceu com nada que eu já tivesse vivido. Chamaram-me para fazer uma exumação que tinha tudo para ser normal, mas assim que a família chegou, senti logo que havia algo de errado. Não havia tristeza, apenas raiva. Os dois filhos gozavam com o próprio pai morto, e a viúva… o modo como ela olhava para aquela sepultura é algo que nunca esquecerei. Algo dentro de mim avisava-me que aquilo não ia acabar bem.
O meu nome é Ricardo Romero Alves, tenho 78 anos, e esta é a minha história.
Na altura, tinha 54 anos e trabalhava como coveiro no cemitério municipal de Botucatu, no interior de São Paulo. Cuidava daquele espaço há muitos anos e conhecia cada canto, cada quadra, cada caminho entre as campas. Numa manhã comum, recebi a indicação de que precisaria de fazer uma exumação. O pedido viera da câmara municipal, e o serviço parecia igual a tantos outros que eu já realizara.
Era um trabalho frequente. Quando uma família decidia transferir os restos mortais de um ente querido para o ossário, a minha função era abrir a sepultura, retirar com o máximo cuidado o que restava no caixão e transportá-lo para o local indicado. Exigia seriedade, atenção e respeito, mas era algo que eu já tinha feito tantas vezes que não me causava qualquer nervosismo.
Cheguei bem cedo nesse dia, antes mesmo de o sol começar a apertar. Levei as ferramentas necessárias e dirigi-me à sepultura. O cemitério estava calmo, como é habitual de manhã. Gostava dessa hora porque o movimento ainda não tinha começado e eu podia trabalhar em paz, focado em cada detalhe. O céu estava limpo, sem sinal de chuva. Os pássaros cantavam nas árvores perto do portão principal, e a brisa que soprava trazia o cheiro a erva cortada. Eram pequenos pormenores em que eu reparava sempre enquanto organizava o material.
Pouco depois, vi um carro a entrar. Eram a viúva e os dois filhos do homem que eu ia exumar. A forma como caminharam até mim pareceu-me mais apressada do que é costume em alguém que se vai despedir de um familiar. Cumprimentei os três com a reverência habitual, expliquei de forma breve o procedimento e avisei que demoraria algumas horas a concluir. Eles ouviram em silêncio e ficaram parados a alguma distância, à espera que eu começasse.
Foi então que percebi que algo ali fugia à normalidade. Em todos aqueles anos a acompanhar famílias, via sempre tristeza, lágrimas, ou pelo menos um silêncio respeitoso. Dessa vez, não vi nada disso. Havia uma raiva palpável, estampada no rosto dos filhos e nos olhos da viúva. Os rapazes mantinham os braços cruzados, a olhar para o túmulo com um desprezo que eu mal conseguia explicar. A mulher mantinha-se um pouco mais afastada e calada, mas o seu olhar não escondia o que lhe ia na alma.
Aquilo incomodou-me bastante. Não conseguia compreender a origem de tanto rancor direcionado a alguém que já não pertencia a este mundo. Ainda assim, decidi avançar com o trabalho. Não me cabia julgar a relação que aquela família tivera com o falecido.
Comecei a preparar as ferramentas. O cimento que selava a sepultura já estava gasto pelo tempo, mas ainda demorei alguns minutos a quebrá-lo até alcançar o interior. O som da ferramenta a bater na pedra era o único ruído que se ouvia ali perto. Trabalhava devagar, com cuidado, sentindo o sol a começar a aquecer-me as costas. Este ofício pede paciência, e eu respeitava sempre esse ritmo, mesmo quando a família esperava do lado de fora em absoluto silêncio.
No entanto, enquanto trabalhava, sentia os olhares cravados em mim, a seguir cada movimento. Não era a primeira vez que uma família observava o meu trabalho tão de perto, mas agora era diferente. Parecia que não estavam ali para uma despedida, mas sim para confirmar algo que já sabiam há muito tempo.
Foi nesse momento que ouvi o primeiro comentário. Um dos filhos disse, em voz baixa, que aquele homem continuava a dar trabalho mesmo depois de morto. O irmão riu-se e acrescentou que nem a morte conseguira deixar a família em paz. Fiquei calado, fingindo que não ouvira, mas aquelas palavras ficaram-me na memória. A viúva continuava sem falar, mas de vez em quando soltava um suspiro carregado de impaciência. Não defendeu o marido, nem pediu aos filhos que parassem. Pelo contrário, parecia concordar silenciosamente com tudo o que diziam.
À medida que eu abria mais a sepultura, as bocas foram ficando mais duras. Os filhos começaram a relembrar situações antigas, misturando risos com comentários cheios de desprezo. Não sabia ao certo do que falavam, mas era evidente que havia um ressentimento muito profundo. Um deles chegou a dizer que tinha vontade de atirar os ossos para o lixo em vez de os levar para o ossário. A naturalidade com que proferiu a frase deixou-me sem reação. A mãe limitou-se a baixar a cabeça, como quem está habituado a ouvir aquele tipo de conversas em casa.
Tentei concentrar-me apenas no serviço, abrindo espaço entre os escombros para alcançar o caixão. Já tinha visto de tudo naquele cemitério: zangas familiares, choros desesperados, silêncios tensos. Mas nunca um desprezo tão claro por alguém que partira. Como podiam falar assim num momento tão solene? Quanto mais os ouvia, mais sentia que havia ali algo por dizer, algo guardado há anos que ameaçava vir à superfície junto com os restos mortais.
O sol já ia alto quando cheguei finalmente à tampa do caixão. Os comentários não paravam, e cada palavra parecia mais pesada do que a anterior. Mantive-me calmo, mas o meu instinto dizia-me que aquele dia, que começara como tantos outros, ainda guardava surpresas.
Avancei com mais cautela. Abri a tampa do caixão, que repousava ali há quatro anos, e comecei a recolher cuidadosamente os ossos. É um processo que exige atenção total; cada peça tem de ser devidamente guardada antes de seguir para o ossário. E foi então que voltaram à carga, ainda mais rudes.
Um dos filhos perguntou, a rir, se eu não ia deixar cair nenhum osso pelo caminho. O outro retorquiu que o pai não merecia nem aquele serviço e que o ideal era que os restos ficassem perdidos por ali. As palavras saíam com uma facilidade assustadora, como se falassem do tempo, ignorando o peso do que diziam. Continuei em silêncio, sem levantar os olhos. Não me metia em assuntos de família, mas o desconforto crescia dentro de mim.
A viúva, praticamente calada durante toda a conversa, lançava olhares para o interior da sepultura carregados de uma raiva antiga. Num momento, vi-a a apertar as mãos uma contra a outra, como se tentasse conter o que lhe ia cá dentro. Não era o nervosismo da perda, mas sim o esforço de quem tenta não dizer tudo o que sente.
Enquanto recolhia os ossos, reparei que o ambiente começou a mudar. O ar ficou mais denso, como se fosse difícil respirar ali perto. Pensei que fosse do cansaço e do calor, mas a tensão aumentava a cada novo comentário. Decidi, de forma educada, pedir-lhes que falassem mais baixo, explicando que poderiam incomodar outras famílias que visitassem o cemitério. Foi a minha tentativa discreta de impor algum respeito.
Eles apenas se riram e continuaram no mesmo tom, como se o meu aviso não tivesse qualquer importância. A viúva nem sequer me respondeu; desviou o olhar, deixando claro que não iria intervir.
Foi depois disso que notei algo ainda mais estranho. Os pássaros tinham-se calado. O vento que agitava as árvores parou por completo. Até o ruído distante da rua desaparecera, como se alguém tivesse cortado o som do mundo em redor daquela sepultura específica. Tudo estagnou. Tentei não ligar, mas era impossível ignorar um silêncio tão anormal. Um aperto estranho cresceu-me no peito, algo que nunca tinha sentido em todos aqueles anos de profissão. Ainda assim, forcei-me a continuar o trabalho.
A família continuava alheada, presa na sua conversa desdenhosa. Para eles, era apenas mais um serviço sob o sol matinal. Eu, pelo contrário, sentia o ar cada vez mais abafado, mais sufocante, pressentindo que o limite daquele espaço estava prestes a ser ultrapassado.
Olhei para a viúva e para os filhos, à procura de algum sinal de que também sentiam aquela mudança, mas eles continuavam imersos no seu próprio fel. Guardei o último osso e fiquei a olhar para a cova aberta, à espera. O silêncio continuava esquisito.
Enquanto arrumava as últimas coisas, um dos rapazes soltou o comentário mais cruel de toda a manhã: disse que esperava que o pai estivesse a sofrer, onde quer que estivesse. Fiquei paralisado, sem saber se devia intervir. Aquela frase pareceu ser a gota de água.
Após horas de desrespeito acumulado, a viúva, até aí tão silenciosa, soltou uma risada curta e seca, como se concordasse plenamente. Foi a primeira vez que demonstrou uma reação tão clara. Aquela risada não revelava raiva nem tristeza disfarçada; era puro alívio. Parecia que a frase do filho tinha traduzido, por fim, o que ela guardara durante anos.
Logo a seguir, ela fez algo que jamais esquecerei. Caminhou lentamente até à beira da sepultura. Os filhos calaram-se no mesmo instante, observando-a. Ela parou, fitando o interior do caixão durante alguns segundos, imóvel. O seu rosto estava gélido, sem ponta de emoção. Então, sem dizer uma palavra, inclinou levemente a cabeça e cuspiu lá para dentro.
Nesse exato momento, algo mudou. Já não era apenas um desconforto. Senti os braços arrepiar-se-me, apesar do calor forte da manhã. Parei de arrumar as ferramentas e olhei para dentro do buraco, sentindo que tinha de estar atento. O ar, já de si pesado, tornou-se asfixiante, como se estivéssemos trancados num quarto sem janelas, embora estivéssemos ao ar livre, sob um céu sem nuvens. Um nó formou-se-me na garganta.
De repente, sem qualquer aviso prévio, um vento forte irrompeu de dentro da própria sepultura aberta. Não era um vento normal. Tinha uma força invulgar. A terra levantou pó de imediato e algumas folhas secas rodopiaram em todas as direções. A família, surpreendida com a mudança abrupta, calou-se de vez.
O vento durou apenas alguns segundos, mas foi o suficiente para nos atirar terra e fragmentos de folhas às pernas. Ficou um rasto gelado no ar, completamente desajustado para a hora e para o calor que se fazia sentir.
Antes que algum de nós conseguisse articular uma palavra, a rajada atingiu a tampa do caixão, que ainda estava aberta, fechando-a com estrondo. O barulho foi seco e violento, assemelhando-se ao bater de uma porta pesada numa casa vazia e silenciosa. O som ecoou pelas quadras do cemitério, vibrando-me no peito.
E logo a seguir a esse estampido, impôs-se um silêncio absoluto. Era como se o próprio ambiente tivesse deixado de existir. Sem vento, sem pássaros, sem o mínimo movimento. Foi breve, mas pareceu durar uma eternidade. Fiquei ali pregado ao chão, de olhos cravados no caixão fechado, incapaz de processar o que vira. Demorei uns instantes a perceber que as minhas próprias mãos tremiam ligeiramente.
Quando finalmente olhei para a família, vi que os três partilhavam a mesma expressão de puro terror. O desprezo desaparecera por completo. Um dos filhos recuou um passo, com os olhos fixos no caixão, como se temesse que algo mais acontecesse. O outro ficou paralisado, de boca entreaberta, incapaz de dizer o que quer que fosse. A viúva levara a mão ao peito, de olhos arregalados, petrificada perante o caixão que se fechara sozinho.
Pela primeira vez desde que tinham chegado, nenhum proferiu uma única sílaba. O silêncio que eu sentira antes alcançara-os também a eles. Olhei para a sepultura, depois para os três rostos pálidos, e compreendi que aquilo deixara de ser uma exumação comum.
Terminei o serviço com a máxima atenção, como se o cuidado redobrado pudesse, de alguma forma, compensar todo o desrespeito anterior. O ambiente continuava estranho, mas já não tão opressivo.
A família permaneceu junto à sepultura por mais alguns minutos, sem comentar o sucedido. Antes de irem embora, a viúva aproximou-se sozinha. Murmurou algumas palavras tão baixas que não consegui perceber o que dizia. Pela forma como baixou a cabeça a seguir, percebi que tinham um significado muito diferente de tudo o que se dissera até ali.
Caminharam de regresso ao carro em silêncio absoluto. Os filhos, antes tão altivos, pareciam agora mover-se mais devagar, a olhar para os lados, como se esperassem que algo acontecesse novamente. Vi o carro afastar-se, e a forma como se moviam revelava muito mais do que qualquer palavra.
Fiquei a pensar em cada detalhe, desde a chegada fria até ao estrondo do caixão a fechar-se sozinho. Quanto mais pensava, menos conseguia encontrar uma explicação lógica. Perguntava-me quem teria sido aquele homem em vida. Mereceria tanto rancor? Ou estaria a família apenas cega por uma dor antiga? Nunca saberei a resposta. Não conheci o falecido, nem as histórias daquela casa, e talvez não tivesse o direito de julgar o que ouvi.
Mas o que me ficou muito claro foi que o julgamento sobre a vida de alguém não pertence aos vivos. Esse julgamento pertence a algo superior. E talvez seja por isso que, quando se ultrapassam certos limites, algumas coisas, mesmo sem explicação, encontrem forma de se manifestar.
Sempre fui um homem de fé, mesmo trabalhando rodeado de morte. E aquele dia em particular reforçou a minha certeza de que existe algo muito maior a tomar conta de tudo, mesmo quando os vivos se esquecem de cuidar uns dos outros.
Desde esse momento, nunca mais encarei uma exumação da mesma maneira. Continuei a fazer o meu trabalho com a mesma dedicação, mas sempre com a noção de que debaixo daquela terra há sempre alguém que merece respeito, mesmo depois de partir.
Até hoje, quando me perguntam sobre os anos que passei no cemitério, é daquela manhã que me lembro mais vividamente. E termino sempre a conversa da mesma forma: o cemitério é um lugar de respeito.