
Empregada doméstica desastrada protegeu a mãe do chefe da máfia de um tapa — a vingança que se seguiu foi inacreditável.
O estalo de uma mão contra o rosto ecoou pelo imponente salão de baile, mas o sangue derramado não pertencia ao alvo pretendido. Uma criada desajeitada e de constituição pesada acabara de atirar o seu corpo para a frente da matriarca mais temida da cidade. O que se seguiu não foi apenas vingança. Foi um massacre absoluto.
Skylar Gallagher não tinha nascido para a graciosidade invisível exigida aos empregados da alta sociedade. Com os seus cento e dez quilos, ela ocupava espaço num mundo que preferia que os seus criados fossem sombras. As suas pernas grossas roçavam sob o tecido preto e implacável do uniforme, e as fitas do avental branco raramente formavam um laço delicado na sua cintura larga.
Ela tropeçava nos caixilhos das portas. Fazia tilintar a porcelana fina importada. Os seus passos pesados e apressados anunciavam a sua chegada muito antes de entrar numa sala. Nos corredores de mármore imaculado da propriedade da família Rossi, Skylar, carinhosamente tratada por todos como Penny, era um desastre ambulante.
Ela sabia que se riam dela. As outras criadas, esguias e graciosas, murmuravam nas cozinhas quando ela precisava de parar para recuperar o fôlego após subir três lances de escadas. Mas Penny suportava tudo. Suportava o suor, as dores nas articulações e os sussurros cruéis, porque o ordenado na mansão Rossi era o dobro do que qualquer outra empresa pagaria. E os tratamentos de hemodiálise do seu pai doente não se iam pagar sozinhos.
O Sindicato Rossi não era uma família de criminosos comuns. Eram uma organização implacável e sofisticada, disfarçada de magnatas do imobiliário. Ao leme estava Dominic Rossi. Dominic tinha trinta e dois anos e parecia esculpido em granito e frieza. Herdara o império após a morte violenta do pai e, sob o seu comando, a família tornara-se intocável.
Quando Dominic entrava numa sala, a temperatura parecia descer bruscamente. Os homens sustinham a respiração. As mulheres baixavam os olhos. Ele exigia perfeição, silêncio e lealdade absoluta. Pela lógica, uma criada tão desastrada deveria ter sido despedida no primeiro dia. Mas Penny tinha uma guardiã poderosa naquela casa: Dona Carmela Rossi.
Dona Carmela era a mãe de Dominic, a elegante matriarca da família. Para o mundo exterior, era uma viúva intocável e de língua afiada. Contudo, à porta fechada, era uma mulher frágil, aterrorizada com a sua própria mente, que começava a falhar. Encontrava-se nas fases iniciais de demência, um segredo guardado tão ferozmente que nem o próprio filho compreendia a extensão do declínio.
Era Penny quem realmente sabia. Era Penny quem encontrava Dona Carmela a vaguear pelos vastos jardins de rosas às três da manhã, a tremer de frio, à procura de um cão que falecera há vinte anos. Com um respeito profundo, Penny envolvia os ombros frágeis da senhora no seu próprio casaco de lã, falando em tons suaves e calorosos, guiando-a de volta à cama.
“Tem um coração de ouro, minha querida Skylar,” murmurou Dona Carmela numa tarde, pousando a sua mão frágil no pulso forte da jovem. “Um coração verdadeiro, não como os lobos que rodeiam o meu filho. Nunca deixe que a façam sentir-se pequena apenas por ser grande.”
Naquele dia, Penny conteve as lágrimas e jurou uma lealdade silenciosa e feroz àquela senhora mais velha. Estava disposta a levar um tiro por Dona Carmela. Só nunca imaginou que, de facto, teria de se atirar para a linha de fogo.
O incidente ocorreu no final de novembro, durante a noite mais crítica da carreira de Dominic. A família Rossi recebia o Sindicato Moretti. O encontro estava mascarado como uma luxuosa gala de solidariedade, mas todos sabiam tratar-se de uma cimeira para forjar uma aliança de sangue. O tratado seria selado pelo casamento arranjado entre Dominic e Bianca Moretti, a filha mimada e cruel do líder rival.
O ambiente no salão era sufocante, impregnado a charutos caros e perigo iminente. Penny suava profusamente enquanto navegava pela multidão com uma pesada bandeja. Tentava fazer-se pequena, até que avistou Bianca Moretti.
Bianca era deslumbrante, de cabelos escuros e maçãs do rosto perfeitamente esculpidas, envolta num vestido branco que custava mais do que o seguro de vida de Penny. Ao tentar passar, um convidado empurrou Penny, que tropeçou e roçou na cadeira de Bianca.
“Cuidado, sua vaca desajeitada,” sibilou Bianca, com os olhos a transbordar de um nojo indisfarçável. “Ou estás a tentar comer os aperitivos antes de chegarem aos convidados?”
O rosto de Penny ardeu num vermelho de profunda humilhação. “Peço imensa desculpa, Menina Moretti,” murmurou, baixando a cabeça e afastando-se o mais rapidamente possível.
Ao retirar-se, Penny procurou por Dona Carmela. A cadeira da matriarca estava vazia. O pânico instalou-se no peito da criada. O salão era demasiado barulhento, exatamente o tipo de ambiente que desencadeava a confusão na mente da idosa.
Deixando a bandeja, Penny correu pelos corredores silenciosos da ala este. Ao aproximar-se das pesadas portas de carvalho do jardim de inverno, ouviu vozes. Uma era frágil e angustiada. A outra, afiada e perversa.
“Acha mesmo que vai continuar a controlar a vida dele?” A voz de Bianca destilava veneno.
Penny espreitou pela fresta da porta. Dona Carmela estava encurralada contra uma mesa de ferro, desorientada e a tremer. Bianca erguia-se sobre ela, com um copo de vinho tinto na mão.
“O Dominic vai casar comigo,” zombou Bianca. “O que significa que esta casa é minha. Assim que tiver a aliança no dedo, vou mandá-la para um asilo, Dona Carmela. Bem para longe.”
“O meu filho não permitiria isso,” gaguejou Dona Carmela, com os olhos arregalados num pânico de partir o coração. “A menina é uma mulher malvada.”
“O seu filho é um homem de negócios, e a senhora é um fardo.”
Assustada, Dona Carmela recuou. Ao fazê-lo, a sua mão trémula bateu num vaso, desequilibrando-a. Num instinto de defesa, os seus braços voaram e embateram no copo de Bianca. O líquido escuro espirrou violentamente, manchando de imediato o imaculado e caríssimo vestido branco.
Por um segundo, o jardim de inverno mergulhou num silêncio sepulcral. Bianca olhou para o vestido arruinado, o rosto contorcido numa fúria descontrolada. “Sua velha nojenta!” gritou ela.
Bianca ergueu a mão direita. No dedo anelar, repousava um anel de platina, maciço e cravejado de diamantes pontiagudos. Balançou o braço com uma força perversa, apontando diretamente ao rosto frágil e enrugado de Dona Carmela.
Penny não pensou. Os seus instintos de autopreservação desvaneceram-se. Num fôlego desesperado, atirou-se pelas pesadas portas adentro. Tropeçou na soleira de latão, o seu corpo denso projetando-se como uma rocha em queda. Não teve tempo de parar o golpe, mas teve tempo de lançar o seu corpo vasto entre a furiosa princesa da máfia e a aterrorizada mãe do seu patrão.
O som do impacto foi repugnante. A palma da mão de Bianca e o anel afiado atingiram a maçã do rosto de Penny com a força de um camião. A platina rasgou a carne macia e redonda de Penny, abrindo um corte profundo desde a bochecha até ao maxilar.
Penny caiu pesadamente no chão frio, arquejando em choque e agonia. O sangue jorrou de imediato, espesso e quente, manchando o avental branco sobre o seu estômago.
“Penny!” gritou Dona Carmela, caindo de joelhos apesar dos ossos frágeis, com as mãos a pairar sobre a criada. “Meu Deus, Skylar, minha querida menina…”
Bianca olhava de cima, a segurar a mão dormente. “Olhe para o que me obrigou a fazer,” cuspiu para Carmela, antes de dar um leve pontapé na perna de Penny. “Sai do meu caminho, sua porca gorda e a sangrar. Estragaste o meu vestido.”
“Há algum problema aqui?”
A voz surgiu da entrada. Não foi um grito, mas soou tão fria, tão desprovida de calor humano, que congelou o ar na sala. Bianca virou-se, o sorriso arrogante a desaparecer instantaneamente. Dominic Rossi estava parado à porta, escoltado por dois dos seus guardas mais letais.
Os olhos escuros de Dominic varreram a sala. Ignoraram a noiva e o copo partido. Fixaram-se na sua mãe ajoelhada em pranto e, depois, na criada de corpo imenso deitada no chão, que protegera a sua mãe com a própria vida, agora a sangrar profusamente.
“Dominic, querido,” começou Bianca, com a voz subitamente a tremer. “A tua mãe enlouqueceu. Atirou-me vinho, e esta criada desastrada e gorda atacou-me.”
Dominic ergueu um único dedo, e Bianca calou-se no mesmo instante. Ele ajoelhou-se junto a Penny e à mãe. Retirou um lenço de seda imaculado do bolso e, com uma ternura chocante, pressionou-o contra a bochecha a sangrar de Penny.
“Ela tentou bater-me, meu filho,” soluçou Dona Carmela, agarrando-se ao ombro do filho. “A Skylar pôs-se no meio. Ela salvou-me, Dominic.”
A mandíbula de Dominic contraiu-se. Ele olhou bem fundo nos olhos marejados de Penny. “Isto é verdade, Skylar?” perguntou, num sussurro profundo.
Aterrorizada, Penny acenou levemente com a cabeça.
Dominic levantou-se lentamente, deixando o lenço nas mãos da mãe para estancar o sangue. Aproximou-se de Bianca, cujo pânico era agora visível. “O noivado está cancelado,” sentenciou Dominic, sem qualquer emoção na voz.
“Não podes fazer isso! O meu pai vai matar-te. Não se quebra um tratado de sangue por causa de uma criada gorda e estúpida!”
“Já está quebrado,” respondeu ele suavemente, a centímetros do rosto dela. “Levantaste a mão à minha mãe. Fritaste uma mulher que está sob a minha proteção. Tens sessenta segundos para sair desta casa, ou não sairás com vida.”
Minutos depois, o pacato jardim de inverno transformou-se num centro de triagem. Dominic ignorou o sangue que manchava o seu fraque feito à medida e carregou o corpo de Penny nos braços. Dona Carmela acompanhou-os, segurando a mão de Penny durante toda a viagem até ao hospital.
Durante a cirurgia, a situação agravou-se. O médico correu para a sala de espera. O corte não era o problema principal; Skylar estava a sofrer convulsões graves, fruto de uma neurotoxina altamente letal. O veneno entrara na corrente sanguínea pelo corte. A sua salvação? O seu excesso de peso atrasara a propagação da toxina, mantendo-a viva.
Na mente brilhante de Dominic, todas as peças encaixaram. O anel afiado, o casamento arranjado. O Sindicato Moretti nunca teve intenção de manter a paz. Aquele veneno invisível destinava-se a causar um ataque cardíaco fulminante nele, ou a eliminar a sua mãe. Penny não salvara Dona Carmela apenas de uma bofetada humilhante. Ela tinha atirado o seu corpo contra uma armadilha mortal.
Uma fúria vulcânica tomou conta do peito de Dominic. Retirou o telemóvel encriptado. “Cancelem a gala. Fechem as portas. Prendam o Lorenzo Moretti. Vamos para a guerra.”
A vingança foi um ato de ruína absoluta. Dominic não queria apenas sangue; queria apagar os Moretti da face da Terra. Numa única noite, os armazéns rivais arderam. As contas milionárias nas Ilhas Caimão foram esvaziadas pelos especialistas de Rossi. Lorenzo Moretti acordou amarrado a uma cadeira de aço na sua própria fábrica, reduzido a nada, com Bianca a chorar num canto imundo. Dominic deixou-os vivos, mas despojados de dinheiro, aliados e orgulho, condenados a vaguear nas ruas que outrora julgaram dominar.
Três semanas mais tarde, o sol de inverno banhava um luxuoso quarto de recuperação na mansão Rossi. O aroma a lírios frescos preenchia o ar. Skylar descansava no centro da imensa cama, com o rosto ainda enfaixado. Sentia-se fraca, mas viva.
A pesada porta de carvalho abriu-se e o Senhor Dominic entrou, trazendo uma bandeja de prata com chá e doces delicados.
“Por favor, Senhor Dominic,” gaguejou Penny, corando violentamente. “Eu sou a criada, não devia…”
“Tu já não és uma criada,” interrompeu ele, pousando a bandeja no colo dela. Sentou-se na ponta da cama, os seus olhos escuros incrivelmente doces. “Deixaste de o ser no instante em que te atiraste para a frente da minha mãe. Agora és família, Skylar.”
As lágrimas de Penny transbordaram. “Eu só não queria que a Dona Carmela se magoasse. Ela foi sempre tão bondosa. Nunca me olhou como a rapariga gorda e desastrada.”
Dominic ergueu a sua mão grande e afastou suavemente uma mecha de cabelo da testa dela. “Ninguém nesta casa voltará a olhar para ti com menos respeito do que se olha para a realeza,” sussurrou, com um calor na voz que mais ninguém conhecia. “Paguei todas as dívidas médicas do teu pai. A diálise, a hipoteca, tudo. Terás o teu próprio quarto nesta casa e nunca mais terás de baixar a cabeça perante ninguém.”
“Porque é que o senhor está a fazer tudo isto por mim?” perguntou ela a chorar.
Dominic inclinou-se. Ele olhava para além das ligaduras e das inseguranças dela. Via apenas a beleza aterrorizante e pura de uma alma verdadeira, num mundo construído sobre sangue e traição.
“Porque, minha querida Skylar,” disse ele, roçando os lábios suavemente na bochecha intacta da jovem. “Tu protegeste a minha mãe. Salvaste o meu império. E, em troca, eu vou proteger-te do resto do mundo.”
A criada desajeitada recebera o golpe destinado a uma rainha da máfia. E, no rescaldo inimaginável de veneno e sangue, tinha acabado por herdar, sem saber, o próprio trono, junto ao homem mais poderoso da cidade.