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ENTERREI MINHA NOIVA EM 1984… UMA SEMANA DEPOIS, RECEBI UM RECADO DELA NO CEMITÉRIO

ENTERREI MINHA NOIVA EM 1984… UMA SEMANA DEPOIS, RECEBI UM RECADO DELA NO CEMITÉRIO

No dia 17 de setembro de 1984, enterrei a mulher com quem iria casar. O vestido branco que ela tinha escolhido para o nosso casamento acompanhou-a até ao fim. Fiquei junto da sepultura até as últimas pessoas saírem, sem conseguir compreender como uma vida inteira podia desaparecer numa tarde comum de sábado.

Chamo-me Arlindo Pereira da Costa. Tenho hoje setenta e dois anos, mas ainda me lembro daquele setembro como se tivesse acontecido ontem. Há dores que o tempo suaviza, e há memórias que continuam intactas, guardadas num lugar onde os anos não conseguem tocar.

Conheci Solange em Bauru, numa festa simples organizada por amigos. Ela tinha vinte e três anos, um sorriso discreto e uma maneira tranquila de olhar para as pessoas. Não era uma mulher de grandes extravagâncias. Gostava de coisas simples, da família reunida à mesa, de tardes sossegadas e de deixar tudo organizado com antecedência.

Namorámos durante três anos. Quando a pedi em casamento, ela chorou antes mesmo de responder. Já tínhamos a data marcada, os convites entregues e o salão reservado. O vestido estava guardado na casa dos pais dela, protegido numa capa branca que ela insistia em abrir de vez em quando só para voltar a vê-lo.

Faltavam poucos dias para o casamento quando tudo aconteceu.

Na tarde de 15 de setembro de 1984, Solange lavava a varanda da casa dos pais. Uma tarefa banal, como tantas outras. Escorregou no chão molhado, bateu com a cabeça e perdeu os sentidos. Os pais ouviram o barulho e correram para ajudá-la. Levaram-na imediatamente para o hospital, mas ela não resistiu.

Recebi a notícia através de um telefonema do pai dela. Bastou ouvir-lhe a voz para perceber que alguma coisa terrível tinha acontecido. Corri para o hospital, mas cheguei tarde demais.

Lembro-me de ficar parado diante de uma porta fechada, incapaz de entrar. A cabeça recusava aceitar aquilo. Como podia uma vida terminar assim, de forma tão absurda? Ainda naquela noite fui para casa dos pais dela. A mãe chorava em silêncio com um lenço apertado nas mãos. O pai mantinha os olhos fixos no chão. E eu sentia dentro do peito um peso estranho, diferente da tristeza.

No velório, antes de fecharem o caixão, aproximei-me dela. Solange parecia apenas adormecida. O rosto mantinha a serenidade de sempre. Vestia o vestido de noiva que escolhera com tanto carinho. Branco, simples e bonito, exatamente como ela queria.

Foi naquele momento que comecei a sentir algo difícil de explicar. Não era apenas sofrimento. Era como se existisse uma presença silenciosa ao meu lado.

Durante o enterro, carreguei o caixão juntamente com outros homens da família. Cada passo parecia mais pesado do que o anterior. Quando o caixão desceu à terra, tive a sensação de que uma parte de mim estava a ser enterrada ali também.

As pessoas foram embora aos poucos, mas eu permaneci junto da sepultura até o cemitério ficar quase vazio. Não conseguia dar o primeiro passo para sair dali.

Quando finalmente cheguei a casa, sentei-me sozinho na cozinha. Sobre a mesa ainda estava uma lista escrita por Solange com os preparativos do casamento. Não fui capaz de tocar naquele papel.

No dia seguinte voltei ao trabalho, não porque estivesse bem, mas porque o silêncio de casa me sufocava. Os colegas tentavam confortar-me sem saber exatamente o que dizer. Alguns apertavam-me a mão. Outros desviavam o olhar.

As noites eram piores.

O quarto ainda conservava o perfume dela, suave e delicado. Eu deitava-me e fechava os olhos tentando não perder aquele cheiro que parecia continuar suspenso no ar.

Foi então que os sonhos começaram.

Todas as noites eu via Solange vestida de noiva diante de mim. Ela movia os lábios como se estivesse a tentar dizer alguma coisa, mas nenhum som saía. Eu acordava sempre no meio da madrugada, inquieto e confuso.

Numa dessas noites ouvi algo diferente.

Parecia um sussurro distante, abafado, como uma voz do outro lado de uma parede. Durou apenas alguns segundos. Tentei convencer-me de que era o vento, o cansaço ou a imaginação. Porém, na noite seguinte aconteceu outra vez.

Os sonhos eu compreendia. Sabia que estava a dormir. Mas aqueles sussurros, escutados no silêncio escuro do quarto, deixavam-me profundamente perturbado.

Ao mesmo tempo, a culpa crescia dentro de mim.

Perguntava-me constantemente porque não tinha ido à casa dela naquela tarde. Se eu estivesse lá, talvez tudo tivesse sido diferente. Eu sabia que pensamentos assim não mudavam nada, mas o coração raramente obedece à razão.

Os dias passaram lentamente até chegar o sétimo dia depois do enterro.

Acordei naquela manhã com uma sensação estranha, como se alguém me esperasse em algum lugar. Fiquei alguns minutos à janela olhando para a rua até perceber que precisava voltar ao cemitério.

Fui a pé, em silêncio, com as mãos nos bolsos e os olhos presos ao chão.

Quando cheguei ao portão, hesitei antes de entrar. Era a primeira vez que regressava desde o enterro.

O cemitério estava quase vazio. O sol brilhava forte, mas ali dentro o ar parecia mais fresco. Caminhei devagar pelo corredor de pedra até alcançar a sepultura de Solange.

A lápide era simples. Apenas o nome dela, as datas de nascimento e morte, e um pequeno traço entre ambas resumindo vinte e três anos de vida.

Abaixei-me para limpar a pedra com as próprias mãos, retirando folhas secas e poeira com um cuidado quase religioso.

Depois permaneci em silêncio diante da sepultura.

Tentei rezar, embora nunca tivesse sido homem de muitas orações. Mas não sabia o que pedir. Não podia pedir que ela voltasse. Também não existia resposta capaz de explicar aquela perda.

Foi então que senti algo inesperado.

Uma tranquilidade profunda tomou conta de mim de repente, como se alguém tivesse pousado a mão no meu ombro. Não era o aperto no peito, nem o perfume, nem os sussurros da madrugada. Era paz.

Não sei quanto tempo fiquei ali.

Só percebi que não estava sozinho quando ouvi passos sobre a terra seca.

Voltei-me assustado e vi um coveiro parado a poucos metros de mim. Era um homem já idoso, de rosto cansado e mãos marcadas pelo trabalho duro. Observava-me em silêncio.

Depois perguntou-me com calma:

— O senhor era o noivo da moça enterrada aqui?

A pergunta deixou-me imóvel. Não percebia como ele sabia aquilo. Nunca o tinha visto antes.

Respondi baixinho que sim.

O homem assentiu devagar, como se confirmasse algo que já suspeitava. Aproximou-se um pouco mais e disse que precisava entregar-me um recado.

Usou exatamente essa palavra.

Acrescentou que eu não era obrigado a acreditar, que compreenderia se eu pensasse que ele estava louco, mas que já não conseguia guardar aquilo só para si.

Senti o coração parar por um instante.

Os sonhos, os sussurros, o perfume… tudo pareceu conduzir àquele momento.

O coveiro respirou fundo antes de começar a falar.

Contou-me que alguns dias antes trabalhava perto daquela sepultura quando viu uma mulher vestida de branco parada diante da lápide. No início pensou tratar-se de uma visitante, mas percebeu que o vestido era um vestido de noiva.

Ela permanecia imóvel, olhando para a sepultura.

Quando ele se aproximou, a mulher virou lentamente o rosto e olhou para ele.

Nesse momento, o homem interrompeu a narrativa por alguns segundos. Vi nos olhos dele a expressão de alguém que vivera uma experiência impossível de esquecer.

Depois continuou.

Disse que a mulher lhe tinha pedido para transmitir uma mensagem ao noivo.

Segundo ele, aquelas tinham sido as palavras dela:

— Diga-lhe que não teve culpa de nada. Não foi culpa dele não estar comigo naquela tarde. Não foi culpa de ninguém. E diga-lhe também que eu o amo.

O mundo desapareceu à minha volta.

As pernas perderam a força e precisei apoiar-me na lápide para não cair. As lágrimas vieram sem controlo, e naquele instante senti a culpa que carregava desde o enterro começar finalmente a desaparecer.

Era como se uma janela se abrisse dentro de mim depois de dias fechados na escuridão.

Compreendi então que os sonhos e os sinais não eram fruto da minha imaginação. De alguma maneira, Solange tentava chegar até mim.

O coveiro permaneceu ao meu lado em silêncio, segurando o chapéu entre as mãos. Não fez perguntas, não tentou convencer-me de nada. Apenas cumprira aquilo que acreditava ser a sua obrigação.

Pouco depois despediu-se e voltou ao trabalho, desaparecendo lentamente entre as sepulturas.

Fiquei sozinho novamente.

Aproximei-me da lápide e falei baixinho com Solange. Disse-lhe que tinha recebido o recado. Disse-lhe que sentia a falta dela todos os dias. E disse também que continuava a amá-la.

Quando finalmente saí do cemitério, o silêncio já não era pesado como antes. Era um silêncio tranquilo, de quem finalmente conseguiu dizer o que precisava.

No caminho de volta para casa caminhei olhando em frente.

As ruas eram as mesmas, as casas eram as mesmas, mas eu já não era o mesmo homem.

Com o passar do tempo, a culpa nunca voltou.

Os sonhos continuaram durante algum tempo, mas mudaram. Solange aparecia tranquila, apenas olhando para mim em silêncio. E eu acordava em paz.

Nunca me casei outra vez.

As pessoas perguntavam se eu não queria reconstruir a vida. Eu respondia que estava bem, e era verdade.

Não permaneci sozinho por tristeza nem por promessa. Apenas senti que já tinha vivido o grande amor da minha vida. Para algumas pessoas existem vários amores. Para mim existiu apenas um.

E foi suficiente para durar até hoje.

Passaram-se quarenta e dois anos desde aquele setembro de 1984. Ainda penso nela muitas vezes. E, no fundo do coração, continuo com a sensação de que Solange nunca partiu completamente.

Durante muitos anos guardei esta história apenas para mim. Hoje percebo que certas memórias não devem ser carregadas em silêncio até ao fim da vida.

Porque algumas histórias não terminam quando pensamos que terminaram.