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ESCRAVO SIAMÊS: Que era dividida entra a sinhá no dia, e anoite com CORONEL

ESCRAVO SIAMÊS: Que era dividida entra a sinhá no dia, e anoite com CORONEL

Num vale isolado de Minas Gerais, no Brasil imperial, dois irmãos siameses, escravos unidos pelo ventre, cometeram um ato final de profundo desespero. Incendiaram a casa senhorial, matando os seus opressores. Mas o que chocou a região não foi apenas o fogo devastador, foi o que os capatazes encontraram nos escombros fumegantes. Os corpos dos gémeos repousavam serenos, lado a lado, como se, enfim, descansassem em paz. Qual foi o destino amargo destas duas almas presas a um único corpo? Esta é uma história real, um relato cruel que o tempo tentou calar, mas que hoje trazemos à bela luz.

Recuemos ao ano de mil oitocentos e trinta e oito. A poeira vermelha cobria as botas e as almas na fazenda Santa Vitória, encravada nos morros. Era uma terra dura, onde vastas plantações começavam a pintar de verde as colinas, alimentadas pelo suor de muitos cativos. O ar era pesado e húmido. A imponente casa branca era o domínio do coronel Inácio Rodrigues, um homem de poucas palavras e punhos pesados. A sua riqueza era medida em terras e vidas humanas. Ao seu lado estava a sua esposa, Dona Clara, conhecida pela sua beleza e por uma crueldade bem silenciosa.

Dona Clara vivia entediada. O seu marido encontrava-se quase sempre ausente, a tratar de negócios lucrativos em terras distantes. A sua única distração era o poder que exercia sobre os criados. Entretanto, na senzala escura, a vida seguia o ritmo impiedoso do sino, um ritmo de trabalho exaustivo que começava muito antes de o sol nascer. O cheiro era de terra húmida, fumo de lenha e medo paralisante. Foi numa dessas noites abafadas que o destino mudou. Uma escrava chamada Josefa entrou em trabalho de parto. A parteira Dandara suava frio, sentindo que algo estava terrivelmente e assustadoramente bastante errado.

Quando as crianças nasceram, um silêncio mortal caiu sobre o pequeno quarto da senzala. Não era um bebé, eram dois. Um menino e uma menina unidos irrevogavelmente pelo ventre, ligados por uma faixa espessa de carne. Dandara benzeu-se três vezes. O coronel foi chamado à pressa. Inácio entrou na senzala com o rosto transformado numa máscara de pura repulsa. A lei da fazenda era clara: crianças com deficiências eram um fardo e acabavam afogadas no rio. O coronel levantou a mão pesada para dar a ordem fatal, mas Dona Clara, atraída pelo burburinho, desceu ao local num xaile de lã.

Ela olhou para a criatura dupla com fascínio. Onde o marido via nojo, ela encontrou uma curiosidade exótica para combater o seu tédio. Ordenou que os deixassem viver, afirmando que eram seus. O coronel cedeu. Os gémeos foram batizados como Elias e Elisa. Contudo, não foram deixados na senzala com a pobre mãe, Josefa, que chorou em profundo silêncio. Foram levados para um pequeno e húmido anexo da casa grande, onde a senhora os pudesse observar constantemente, tal como quem observa um estranho pássaro aprisionado numa gaiola para mero e triste entretenimento das ilustres visitas que frequentavam a rica herdade.

Aprender a gatinhar foi uma negociação extremamente dolorosa para os dois irmãos. Um queria ir para a esquerda, o outro tentava ir para a direita. Elias revelou-se o mais agitado e raivoso dos dois. Elisa era a mais quieta, com olhos grandes que pareciam absorver a dor do mundo. Com o tempo, aprenderam a andar numa dança desajeitada. Dona Clara exibia-os frequentemente. Eram vestidos com pequenos e ridículos trajes, tratados como animais de estimação. As damas riam-se de forma cruel. No entanto, quando as visitas se iam embora, o que restava era a dura realidade da impiedosa e cruel servidão.

Ao longo dos anos, desenvolveram uma linguagem silenciosa. Um aperto forte na mão de Elias significava perigo iminente. Um tremor leve no ombro de Elisa traduzia-se num medo indescritível. Se Elias sentia dor, Elisa estremecia de imediato. Viviam aprisionados numa dolorosa cela de sensações partilhadas, sem qualquer escapatória. Quando atingiram os sete anos, Dona Clara decidiu que eles podiam ser úteis. Decretou que Elisa seria a sua criada pessoal. O problema era Elias. Ele era forçado a seguir a irmã para o quarto da senhora, um ambiente perfumado com óleos franceses. Para os gémeos, aquele belo espaço era um inferno.

A tarefa de Elisa consistia em pentear os longos cabelos de Dona Clara. Elias era obrigado a permanecer imóvel e em silêncio. Se a escova prendia um fio, Clara estalava os dedos e um estalo sonoro atingia o rosto delicado de Elisa. Elias sentia o impacto como se fosse na sua própria pele. A sua raiva crescia, fechando os punhos com tanta força que as unhas cortavam as próprias palmas. A senhora divertia-se, inventando jogos cruéis. Obrigava Elisa a dançar, enquanto o pequeno chicote atingia impiedosamente as pernas de Elias, que mordia os lábios até sangrar para não gritar intensamente.

Mas o verdadeiro terror chegava ao anoitecer, quando o coronel Inácio regressava das viagens. Vinha embriagado, gritando pelos corredores. Arrastava os gémeos para o seu escritório sombrio. Obrigava Elisa a virar-se para a parede e descarregava toda a sua fúria alcoólica contra Elias, utilizando-o como um saco de pancadas humano. Elias suportava os murros com uma bravura silenciosa. Elisa sentia cada golpe de forma excruciante, partilhando uma dor inimaginável. Durante quinze dolorosos anos, sobreviveram a esta rotina infernal, acreditando que os deuses estavam surdos às suas preces silenciosas, enquanto o tempo se arrastava como uma dolorosa e profunda ferida terrível.

A tensão na fazenda atingiu o limite no ano de mil oitocentos e cinquenta e três. Uma praga terrível e uma seca dizimaram o café, deixando o coronel na ruína financeira. Completamente embriagado e enfurecido, decidiu culpar os gémeos pela sua triste desgraça. Arrancou-os do anexo a meio da noite e, perante os olhares aterrorizados dos outros escravos, espancou-os no pátio com um pesado chicote de couro. A velha parteira Dandara implorou-lhe que parasse antes que matasse a sua própria propriedade e sofresse um prejuízo incalculável. A menção ao vil dinheiro fê-lo parar de imediato, deixando os corpos muito ensanguentados.

Durante semanas, oscilaram perigosamente entre a vida e a morte no seu quarto abafado. Quando recuperaram a consciência, algo dentro deles tinha mudado para sempre. O medo paralisante dera lugar a uma determinação fria. Relegados pela enojada Dona Clara para a humilhante tarefa de limpar o galinheiro, os gémeos encontraram a sua primeira oportunidade real. Movendo pesados barris de óleo inflamável todos os dias, a ideia de destruição começou a germinar nas suas mentes feridas. O verão tórrido trouxe consigo uma febre intestinal avassaladora que se espalhou rapidamente pela enorme fazenda. Dona Clara foi a primeira a ficar gravemente doente.

Numa noite sufocante e sem lua, perceberam que o momento ideal tinha finalmente chegado. O coronel, completamente embriagado, adormeceu no rés do chão, esquecendo-se de apagar o candeeiro na mesa de cabeceira. Com movimentos perfeitamente sincronizados, Elias e Elisa encharcaram panos velhos no depósito de óleo altamente inflamável. Moveram-se silenciosamente pelas sombras da imponente casa senhorial, espalhando o líquido viscoso pelos corredores de madeira seca. O edifício adormecido era uma autêntica caixa de palha seca, perfeitamente pronta a arder sem piedade. Lançaram o pano em chamas e, numa fração de segundo, a escadaria transformou-se numa imensa muralha de fogo fatal.

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O rasto de óleo conduziu as chamas vorazes diretamente ao quarto do coronel, consumindo as cortinas de linho e acordando o tirano para o seu pesadelo final. Sem sequer olharem para trás para contemplar a sua triste obra, os gémeos caminharam serenamente pela escuridão da noite, iluminados apenas pelas labaredas furiosas que devoravam o telhado. Os gritos de desespero dos seus carrascos ecoavam intensamente na noite, mas Elias e Elisa não sentiram a mínima compaixão humana. Retiraram-se tranquilamente para o seu minúsculo anexo de terra, a infeliz cela onde tantas e tantas vezes tinham sido cobardemente torturados sem grande piedade.

Trancaram a frágil porta por dentro, garantindo que ninguém os poderia salvar do fumo. Deitaram-se lado a lado na habitual esteira de palha. Deram as mãos num aperto firme e afetuoso, unidos pelo ventre e, agora, pelo derradeiro ato de libertação. O fumo espesso começou a invadir o anexo quente. Tossiram, mas não sentiram qualquer arrependimento. Estou com muito medo, sussurrou Elisa. Eu também, mas estamos juntos até ao fim, respondeu o leal Elias. A morte chegou rápida através do fumo asfixiante. Quando o sol raiou sobre as ruínas, os capatazes encontraram os seus frágeis corpos já serenos e libertos.

A trágica história da fazenda Santa Vitória espalhou-se rapidamente por toda a imensa região, não como um mero acidente infeliz, mas como um comovente sussurro de rebelião e inegável justiça. Elias e Elisa tornaram-se uma lenda absolutamente imortal, um aviso muito sombrio sobre o preço incalculável da nossa sagrada liberdade negada. Provaram, através do seu admirável e valioso sacrifício, que mesmo no ponto mais profundo da obscura opressão humana, a pura vontade consegue e saberá sempre encontrar uma milagrosa saída, nem que esta seja duramente e cruelmente pavimentada de quente fogo e de cinzas espessas para toda a eternidade final.