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EU VI A MOÇA QUE EU TINHA ACABADO DE ENTERRAR…PASSOU POR MIN E SUMIU – História de Terror Real

EU VI A MOÇA QUE EU TINHA ACABADO DE ENTERRAR…PASSOU POR MIN E SUMIU – História de Terror Real

Sepultei uma jovem rapariga numa sexta-feira à tarde. Fechei a sepultura de terra, fiz o sinal da cruz com reverência e retirei-me em silêncio, pensando tratar-se de apenas mais um funeral, igual a tantos outros que presenciei.

Dois dias depois, vi-a a caminhar por entre as campas do cemitério.

O meu nome é Durval Moreira. Tenho cinquenta e oito anos de idade e dedico a minha vida a trabalhar como coveiro no velho e solene cemitério da nossa cidade, há mais de trinta e seis anos.

Ao longo de todo este tempo de labuta, aprendi a respeitar o repouso dos mortos e a nunca questionar os mistérios insondáveis que envolvem este lugar sagrado. O cemitério é um espaço de paz, repleto de histórias que ultrapassam a nossa frágil compreensão humana, e que, com o passar dos anos, aprendemos simplesmente a aceitar com humildade.

No entanto, existem coisas que os nossos olhos terrenos não deveriam testemunhar. Visões que nos perturbam a mente e o coração de uma forma tão profunda que nos transforma para todo o sempre. A história que hoje vos confio teve início numa manhã de abril, quando uma jovem de vinte e quatro anos, chamada Marina Oliveira, perdeu a vida num trágico acidente de viação na Estrada Nacional.

De acordo com as autoridades locais, o veículo ligeiro despistou-se numa curva bastante perigosa e capotou repetidas vezes. A menina Marina viajava completamente sozinha. O óbito, para tristeza de todos, foi declarado logo no local.

O velório realizou-se na quinta-feira seguinte, sob um céu cinzento e triste. A comoção na cidade era verdadeiramente palpável e dolorosa. A Marina era uma professora primária muito estimada, dedicada às suas crianças com um amor imenso. A pedido da família enlutada, a urna permaneceu aberta durante a cerimónia. Apesar da terrível tragédia, a jovem mantinha uma feição muito serena. Envergava um vestido branco imaculado, com os seus longos cabelos escuros cuidadosamente arranjados e uma maquilhagem muito suave. Parecia apenas estar a dormir um sono tranquilo.

Participei no sepultamento na sexta-feira, por volta das três horas da tarde. O cerimonial decorreu com a normalidade que o peso do luto permite. A família desfazia-se em lágrimas sentidas, o senhor padre proferia as últimas preces de conforto e pétalas de flores brancas caíam suavemente sobre a madeira da urna. Terminado o ofício, nivelei a terra húmida, dispus as coroas de flores com todo o respeito devido e dei o meu serviço por concluído.

Ainda assim, algo me inquietou profundamente durante todo aquele processo. Quando auxiliei a descer a urna à terra, fui subitamente tomado por uma sensação gélida, como se um par de olhos invisíveis me estivesse a observar fixamente. Olhei em redor, mas apenas encontrei familiares e amigos, todos de cabeça baixa, imersos na sua dor inexplicável. Terminei o meu trabalho e regressei ao conforto do meu lar.

Passados dois dias, num domingo de manhã muito cedo, retornei ao cemitério para as minhas habituais tarefas de manutenção. Tenho por costume ir aos domingos de manhã, quando o recinto está mergulhado no mais absoluto e sagrado vazio, para limpar as ervas daninhas, arranjar os caminhos de pedra e verificar o estado geral das sepulturas antigas.

Eram cerca das sete horas da manhã. O sol mal despontava no horizonte distante, banhando os jazigos com aquela luz suave e fria que anuncia a alvorada. Uma neblina muito fina pairava por entre os ciprestes centenários e o silêncio era apenas quebrado pelo chilrear matinal dos pássaros.

Encontrava-me perto da secção mais recente do cemitério, precisamente onde a menina Marina fora sepultada, quando, de repente, a vi.

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Uma mulher caminhava lentamente por entre as sepulturas de mármore. Vestia um vestido branco e exibia longos cabelos lisos. Andava de uma forma muito vagarosa, com a cabeça baixa, como se procurasse algo que havia perdido.

Estranhei a presença de alguém a uma hora tão precoce, mas, para ser honesto, não era um acontecimento inédito. Por vezes, os familiares mais destroçados procuram a solidão do início da manhã para chorarem os seus entes queridos em paz e sem os olhares alheios. Continuei a limpar a terra tranquilamente.

Alguns minutos depois, levantei novamente o olhar cansado. A mulher estava agora muito mais perto do local onde eu me encontrava. Consegui, finalmente, focar as suas feições com clareza. O meu coração falhou uma batida.

Era a Marina.

Fiquei estático, a olhar de forma incrédula para aquela figura que eu próprio ajudara a entregar à terra escassos dois dias antes. O meu primeiro pensamento ditou que me havia enganado redondamente, que seria apenas uma pessoa da família com extremas semelhanças físicas.

Contudo, quanto mais eu fixava o meu olhar, maior era a minha assustadora certeza. Era inegavelmente ela. O mesmo rosto desenhado, o mesmo cabelo escuro, o exato vestido branco que usara dentro da urna fúnebre. Deixei cair a enxada pesada que segurava nas mãos. O meu corpo arrefeceu por completo, incapaz de qualquer reação.

O nosso cemitério é um lugar antigo, ladeado por árvores majestosas e repleto de jazigos imponentes. Trabalhava ali desde a minha juventude. O meu falecido avô, também ele coveiro de profissão, sempre me ensinara que os mortos guardam os seus próprios segredos. Mas nada na vida me preparara para um momento como este.

A Marina continuou a sua caminhada sem olhar na minha direção. Passou por duas fileiras de sepulturas ornamentadas e dirigiu-se à zona mais antiga e sombria do recinto.

Paralisado pelo espanto, o meu instinto humano mandou-me segui-la a passos curtos. Mantive uma distância segura, resguardando-me por trás dos mausoléus maiores e das estátuas de anjos. O seu andar não era minimamente natural. Tratava-se de um movimento fluido, quase flutuante, como se os seus pés descalços não tocassem na calçada de pedra fria. O vestido branco ondulava graciosamente, mas não se escutava o mínimo sussurro do tecido ao vento.

Acompanhei a figura por largos minutos. O meu peito batia com tanta força que o som surdo ecoava nos meus próprios ouvidos. As mãos transpiravam frio e a respiração tornava-se cada vez mais curta.

A aparição parou em frente a um jazigo muito antigo de uma família nobre. Ficou imóvel, de costas voltadas para mim. Ganhei uma coragem que não sabia ter, respirei fundo e dei mais alguns passos em frente.

A dez metros de distância, chamei-a, num sussurro trémulo e respeitoso: “Menina…”

Ela não reagiu ao meu apelo. Chamei com um pouco mais de voz: “Menina Marina.”

Desta vez, ela começou a voltar-se para mim. Foi um movimento excessivamente lento, quase doloroso de se assistir. Quando o seu rosto se revelou por completo, senti as minhas pernas cederem de fraqueza. Já não era a face serena e adormecida que eu vira durante o velório. A pele exibia agora uma palidez cadavérica assustadora. Os olhos estavam profundamente encovados, escuros como a noite. A boca encontrava-se ligeiramente entreaberta, num esforço mudo e desesperado para articular uma palavra que não saía.

Encarou-me fixamente nos olhos e, de forma súbita, desvaneceu-se no ar gélido. Não desapareceu gradualmente como fumo a dissipar-se. Num único segundo estava ali presente, no outro restava apenas o vazio absoluto.

Fiquei completamente sozinho, a tremer da cabeça aos pés. Corri em direção ao portão principal, tranquei os pesados cadeados de ferro e refugiei-me em casa. Durante os dias seguintes não consegui pregar olho. O rosto pálido da jovem perseguia-me em cada sombra do quarto.

Na semana seguinte, obriguei-me a regressar ao meu ofício, tentando convencer a minha própria mente de que tudo fora fruto do cansaço acumulado. Evitei de todas as formas aproximar-me da sua sepultura.

Na quarta-feira, a mãe da Marina, a senhora Dona Carmo, apareceu no cemitério. Trazia um belo ramo de flores frescas nas mãos. Estava visivelmente devastada e amparava-se numa bengala. Aproximei-me para prestar os meus sinceros respeitos.

“Bom dia, Dona Carmo. Que Deus a guarde e lhe dê muita força,” cumprimentei-a, retirando o meu chapéu de palha.

Ela agradeceu com um sorriso muito frágil e começou a desabafar a sua dor. Disse-me não conseguir aceitar de forma alguma a morte trágica da sua única filha. Argumentou que a Marina era uma condutora extremamente cautelosa, que não sofria de sonolência e que evitava sempre viajar de noite.

Olhou para a campa florida e sussurrou-me com os olhos rasos de água: “Senhor Durval, por vezes sinto no meu coração que ela não partiu definitivamente. Ontem deitei-me e sonhei com ela. Usava o seu vestido branco e tentava dizer-me algo de muito importante, mas eu não conseguia escutar as suas palavras.”

Senti um arrepio gélido e terrível percorrer-me a espinha dorsal. Quase lhe confessei a minha assombrosa visão daquela madrugada, mas calei-me para não lhe aumentar o tormento psicológico.

No sábado seguinte, decidi trazer comigo um ajudante novo, o jovem António, na esperança de me sentir um pouco mais seguro e acompanhado. Limpávamos a ala nascente do terreno quando o rapaz parou o seu trabalho de súbito. O seu rosto perdeu imediatamente toda a cor.

“Senhor Durval… está ali uma mulher de branco a olhar para nós,” balbuciou o moço, apontando com um dedo muito trémulo.

Ergui a vista com o coração aos saltos. Era a Marina, novamente.

O António tropeçou para trás, em pânico total. Segurei-o firmemente pelo braço. A Marina encontrava-se na mesma exata posição da semana anterior, imóvel, de costas.

“Vamos embora daqui, por amor de Deus!” suplicou o jovem ajudante.

Mas eu precisava impreterivelmente de entender o que se passava. Dei um passo seguro em frente. O António soltou-se do meu aperto e desatou a correr desenfreadamente para a saída do recinto.

Caminhei em direção ao vulto, com passos lentos mas firmes. Parei a escassos metros de distância.

“Menina Marina,” chamei-a de novo, procurando manter a voz audível e calma. “Porque motivo continua a sofrer aqui?”

A figura virou-se. O seu belo rosto parecia agora ainda mais sofredor e carregado de mágoa. A boca entreabriu-se como se estivesse presa num grito angustiante e eterno. E, desta vez, eu escutei a sua voz real. Era uma voz abafada, distorcida e triste, como um eco fraco vindo do fundo de um poço escuro.

“Não foi um acidente.”

O ar faltou-me totalmente nos pulmões cansados. Recuei instintivamente dois passos. “O que lhe aconteceu afinal, minha menina?”

A Marina não conseguiu verbalizar mais nada. Ergueu uma mão extremamente pálida e apontou para o chão de terra batida, mesmo atrás de mim. Depois, sem qualquer outro aviso, desapareceu mais uma vez na brisa da manhã.

Olhei para onde ela estivera parada. No chão poeirento, encontravam-se pegadas de sapatos molhados. Segui o rasto húmido com o meu olhar atónito. As marcas misteriosas conduziam diretamente à sua própria sepultura e ali terminavam. Caí de joelhos no chão. Compreendi, naquele preciso instante, que ela não procurava assustar-me gratuitamente. A pobre jovem procurava desesperadamente justiça para um crime hediondo que fora enterrado consigo debaixo daquela terra. As suas últimas palavras ecoavam ininterruptamente na minha mente perturbada: “Não foi um acidente.”

O jovem António nunca mais regressou ao seu posto de trabalho. Eu não tive a coragem de o censurar por isso.

Passei os dias que se seguiram a refletir profundamente sobre o que fazer. Não podia simplesmente ignorar o que o meu coração e os meus olhos testemunharam, mas também não podia recorrer às autoridades sem qualquer prova material, sob a enorme pena de ser tomado por louco varrido. Decidi então investigar de forma discreta pelos meus próprios meios. Descobri, através de pessoas conhecidas na nossa cidade, que a Marina terminara um namoro longo alguns meses antes. O ex-namorado chamava-se Gilberto e era mecânico de automóveis numa pequena oficina. Dizia-se pelas ruas que ele não aceitara a separação a bem e que a perseguia incansavelmente. Constava até que a menina chegara a apresentar uma queixa formal na esquadra da polícia apenas duas semanas antes de perder a vida.

As várias peças daquele triste quebra-cabeças começavam agora a unir-se na perfeição.

Na segunda-feira seguinte, mesmo ao final da tarde, voltei a encontrar a figura da Marina junto ao grande portão principal de ferro forjado. Desta vez não fugi, nem hesitei. Aproximei-me com solenidade, e ela fitou-me com os seus olhos vazios de vida.

“Ele mexeu no carro,” sussurrou o fantasma doloroso.

“Foi o Gilberto, menina?” perguntei com firmeza.

Ela anuiu afirmativamente e de forma lenta. Em seguida, ergueu o seu braço frágil, revelando-me o pulso. Uma marca roxa, dolorosa e profunda, contornava a sua pele pálida, indicando agressão. “Ele magoou-me fisicamente antes,” ecoou a voz espectral, desvanecendo logo a seguir na sombra do crepúsculo.

Era a temida confirmação. A doce professora Marina fora brutalmente assassinada.

Decidi procurar com urgência um amigo de longa data, o senhor Inspetor Mário, da Polícia Judiciária. Conhecíamo-nos desde os tempos de escola primária e confiava plenamente no seu carácter. Num café muito discreto, situado no centro histórico da cidade, relatei-lhe tudo o que presenciara, implorando-lhe que mantivesse a mente aberta.

“Amigo Mário, eu bem sei que tudo isto soa a uma loucura profunda,” afirmei, com as mãos trémulas na chávena de café. “Mas eu vi a rapariga. Vi-a várias vezes. A alma dela está presa e tenta revelar-nos a grande verdade.”

O senhor inspetor suspirou pesadamente e esfregou os olhos. “Durval, tu sabes que eu não acredito de todo nessas histórias de aparições e fantasmas. Mas conheço-te há mais de quarenta anos. Sei perfeitamente que és um homem sério e temente a Deus. Não inventarias uma história tão macabra como esta. Vou prometer-te uma coisa: vou reabrir o processo de forma discreta e extraoficial. Irei verificar minuciosamente o laudo pericial do veículo acidentado e analisar o historial criminal do ex-namorado.”

Concordei de imediato, profundamente grato pela sua imensa confiança e dedicação à justiça.

Nos longos dias que se seguiram a essa conversa, o Mário solicitou uma perícia rigorosa e detalhada aos destroços enferrujados do automóvel. As terríveis descobertas da engenharia mecânica vieram validar por completo todas as revelações que me haviam sido feitas pelo além.

O inspetor convocou-me de urgência ao cemitério numa chuvosa sexta-feira de manhã cedo. Com um semblante muito sombrio e carregado de cansaço, sentou-se num banco de pedra e abriu uma pasta repleta de documentos judiciais.

“Tinhas toda a razão, meu caro Durval,” disse ele, com a voz embargada pela revolta. “Os travões do veículo foram intencionalmente e malevolamente sabotados. O perito encontrou um corte muito preciso nos tubos hidráulicos do sistema de travagem. Trata-se de um trabalho sujo e premeditado feito por alguém que entende profundamente de mecânica automóvel. Além disso, descobrimos que a pobre Marina levou o seu carro à oficina exata onde o tal Gilberto trabalha, precisamente duas semanas antes do trágico desfecho fatal. Ele tratou de fazer a revisão mecânica sem que a rapariga desconfiasse das suas verdadeiras intenções.”

Os extensos documentos da investigação revelavam ainda dezenas de mensagens cruéis e ameaçadoras enviadas pelo indivíduo, prometendo que se ela não fosse dele, jamais seria de outro homem. A queixa que a Marina apresentara fora tristemente desvalorizada e arquivada pelas autoridades na devida altura.

“Vou emitir um mandado e detê-lo ainda na tarde de hoje,” concluiu o experiente inspetor Mário, fechando a pasta com força. “Não sei como tiveste conhecimento íntimo e exato de todos estes pormenores cruciais, Durval, mas fizeste incrivelmente bem em procurar-me. Esta jovem inocente merecia que se fizesse finalmente justiça e que a verdade viesse ao de cima.”

Nessa mesma tarde, a brigada da Polícia Judiciária deteve o suspeito Gilberto nas instalações da sua oficina. Inicialmente, o indivíduo negou qualquer tipo de envolvimento na morte da ex-namorada, mantendo uma postura extremamente fria e cínica perante os investigadores. Contudo, confrontado impiedosamente com as irrefutáveis provas técnicas da grave sabotagem, as mensagens ameaçadoras guardadas e o registo da oficina, acabou por desabar em lágrimas e confessar o crime hediondo. Admitiu sem rodeios que, não suportando de forma alguma vê-la seguir em frente com a sua vida e encontrar um novo amor, planeou e sabotou o veículo para que a grave falha mecânica ocorresse de surpresa apenas alguns dias mais tarde. Confessou também, com frieza, as agressões físicas e verbais prévias, justificando plenamente a grande nódoa negra no pulso que o fantasma da jovem professora me mostrara com angústia.

A família devastada da jovem foi finalmente informada por via oficial daquela dura e cruel verdade. O gigante alívio de saberem que não ocorrera qualquer desatenção ou falha da parte da sua querida filha misturava-se amargamente com a profunda dor da perda irreparável e da imperdoável traição humana.

Ao anoitecer desse mesmo dia agitado, dirigi-me com passos calmos à sepultura da menina Marina. O vasto céu tingia-se agora de belos tons de laranja e roxo, formando um crepúsculo muito sereno e melancólico. As bonitas flores frescas e viçosas depositadas carinhosamente pela senhora Dona Carmo dias antes ainda coloriam alegremente o mármore frio do cemitério.

Ajoelhei-me pacatamente na terra molhada e sussurrei para a leve brisa do vento noturno: “Conseguimos, minha querida menina. Ele vai agora pagar de forma justa por todo o terrível mal que lhe causou.”

Uma brisa muito suave agitou repentinamente as folhas das grandes árvores em meu redor, trazendo consigo, de forma inexplicável, o perfume doce das coroas de flores campestres. Senti uma presença extremamente subtil e tranquilizadora muito perto das minhas costas.

Virei-me muito devagar. A Marina estava lá presente uma última vez. Desta vez, a sua aparência e aura eram completamente diferentes. A profunda palidez dolorosa dera agora lugar a uma luz suave, morna e translúcida. O seu belo rosto encontrava-se finalmente iluminado e em perfeita paz, completamente livre da angústia. Fitou-me com imensa ternura e acenou de forma muito leve com a cabeça, num comovente e mudo gesto de infinita gratidão pela minha coragem. Em seguida, desvaneceu-se docemente na luz mágica do pôr do sol, dissolvendo-se no éter como uma pequena chama que se apaga serenamente e sem dor.

Sensivelmente oito longos meses depois de todos estes acontecimentos, o réu Gilberto sentou-se finalmente no banco dos acusados do tribunal. A rigorosa justiça dos homens analisou as pesadas provas e ditou uma sentença severa de vinte e cinco anos de prisão efetiva e irrevogável pela prática de homicídio duplamente qualificado. A sala do grande tribunal encheu-se de aplausos emotivos e de muitas lágrimas sentidas de sincera redenção por parte da sofredora Dona Carmo.

Eu decidi não comparecer ao longo e doloroso julgamento público. A minha importante e solitária missão terminara naquele tranquilo final de tarde de outono no silencioso cemitério.

Hoje em dia, a floridacampa da menina Marina mantém-se sempre perfeitamente imaculada e irrepreensivelmente cuidada por mim. A sua amada mãe visita-a religiosa e semanalmente, chova ou faça sol, sempre trazendo com ela flores muito frescas, bonitas e cheirosas nos braços cansados. Em cada um dos nossos habituais encontros, a senhora Dona Carmo agradece-me profusamente e de forma sentida o enorme esforço na descoberta daquela terrível verdade abafada. Respondo-lhe invariavelmente, sempre com a mesma humildade profunda e verdadeira reverência: “Não fui eu que resolvi isto, minha querida Dona Carmo. O mérito de tudo é inteiramente da sua valente filha.”

Eu continuo as minhas longas jornadas diárias de trabalho honesto neste lugar outrora assustador, mas agora tão familiar, cuidando zelosa e afetuosamente do merecido repouso dos nossos mortos com uma redobrada devoção no coração. O pesado e característico silêncio gélido das frias campas de pedra deixou de ser, para mim, apenas e só a total ausência de som ou movimento. Agora possuo a grande e inabalável certeza de que, muito frequentemente, aqueles entes queridos que já partiram desta vida terrena têm consigo mensagens cruciais, sentidas e vitais para nos transmitir através da brisa invisível. O nosso único e sagrado dever ético como seres humanos vivos é simplesmente abrir a nossa alma e escutar.