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“Mate-me”, ela sussurrou — Ele levantou sua saia e viu o horrível segredo gravado em sua pele.

O riacho, com as suas águas límpidas a serpentear sobre o calcário, parecia murmurar segredos naquela manhã de abril sob o sol do Texas. Elias Gray, um homem cujas feições carregavam as sombras indeléveis de um passado de conflito, procurava ali o que sempre procurara: o silêncio. Desde que a guerra terminara, o silêncio era a única coisa que não o acusava, não gritava nos seus ouvidos e não trazia o cheiro a fumo e sangue. Era a sua única forma de penitência.

Enquanto se ajoelhava à margem, preparando-se para encher o cantil, um som interrompeu a sua paz. Não era o lamento de um falcão, nem o farfalhar das folhas de carvalho à brisa. Era um som humano, fragmentado, o ruído de alguém que lutava para não gritar. Elias imobilizou-se. A região montanhosa estendia-se, vasta e vazia, à sua volta. Não havia ranchos por perto, nem estradas de carroças. Ninguém deveria estar ali.

Movendo-se com a cautela de um predador, Elias seguiu o som rio abaixo. A cerca de vinte metros, sob um choupo caído, viu-a. Estava encolhida contra o tronco, como se tivesse sido descartada. O seu vestido de chita estava rasgado e enlameado, e uma das mangas estava encharcada num escuro de sangue fresco. O cabelo cor de mogno espalhava-se pelos ombros, captando a luz da manhã como fios de cobre. Não deveria ter mais de dezanove anos. Quando a sombra de Elias caiu sobre ela, os seus olhos abriram-se. Eram azuis, frios, selvagens.

— Mantenha-se afastado — sussurrou ela, com a voz a raspar como folhas secas.

Elias levantou as mãos lentamente, com as palmas abertas. Já vira aquele olhar antes, nos soldados encurralados em trincheiras, homens que acreditavam que cada sombra trazia a morte.

— Não pretendo magoá-la — disse ele, com a voz baixa e constante. — Está a sangrar muito. Deixe-me examinar.

Ela riu, um som afiado e amargo.

— Magoar? Se tem alguma bondade em si, mate-me depressa.

As palavras atingiram Elias com mais força do que qualquer coronha de espingarda.

— Eu não mato ninguém — garantiu ele.

— Mate-me logo, verá porquê — respondeu ela, com uma convicção que o arrepiou.

Com a paciência de quem se aproxima de um cavalo assustado, Elias aproximou-se. O ferimento no ombro fora causado por uma bala, um arranhão profundo, mas não mortal. Sorte, se é que se podia chamar assim. Enquanto limpava a ferida com a água do riacho, ele notou outros sinais: hematomas antigos, um lábio cortado que cicatrizara torto, cicatrizes que não advinham do trabalho no campo. E, quando o tecido se deslocou, ele viu. Na pele clara da coxa, queimada de forma deliberada e fria, estava uma palavra: Propriedade.

As mãos de Elias pararam. A marca não era um acidente; era reta, limpa, aplicada com propósito, como se faz ao gado. Mave, como ela se viria a chamar, baixou a saia rapidamente.

— Agora sabe — sussurrou ela. — Agora vê o que sou.

Elias sentou-se sobre os calcanhares. A guerra mostrara-lhe a crueldade, vira rapazes a chamar pelas mães num lamaçal ensanguentado, mas aquilo parecia pior.

— Vejo o que lhe fizeram — disse ele. — Mas isso não é o que a senhora é.

Lágrimas escorreram pelo rosto dela sem um som. Ela explicou que a tinham mantido num “curral” de dívidas, para mulheres cujos homens tinham morrido, mulheres que ninguém procuraria. Eram marcadas e vendidas. Elias sentiu um fogo antigo e violento despertar no seu peito.

— Como escapou?

— Fogo. O lugar ardeu há duas semanas. Eu fugi.

Elias levantou-se e ofereceu-lhe a mão.

— Pode parar de correr agora.

Ela olhou para a mão dele como se esta pudesse mordê-la.

— Homens como aqueles não param. Eles não perdem a propriedade.

— Deixe-os procurar — replicou ele. — Eles encontrar-me-ão a mim.

Acolheu-a na sua cabana nas colinas, um refúgio simples, sólido e silencioso. Nos primeiros dias, moviam-se como dois animais feridos, cuidadosos para não se assustarem mutuamente. Elias manteve as suas rotinas, enquanto Mave observava a floresta através da janela, como se o perigo pudesse surgir a qualquer momento. À noite, ela gritava nos seus sonhos, um som infantil e perdido. Elias, que sempre dormira perto do lume, acordava de imediato, ouvindo-a até que a sua respiração acalmasse.

Nunca a tocou sem avisar. Nunca se aproximou sem falar. Numa manhã, ela encontrou-o perto da bacia de lavagem.

— Cortaram-no — disse ela, tocando nas pontas irregulares do seu cabelo. — A primeira coisa que fizeram. Disseram que o cabelo comprido era vaidade.

— Voltará a crescer — respondeu Elias.

Ele buscou a tesoura e, com mãos cuidadosas, aparou o cabelo dela. Quando ela se viu ao espelho, algo tinha mudado. O medo ainda lá estava, mas, por baixo, existia agora uma faísca de desafio.

— Parece-se consigo mesma — notou ele.

— Não tenho a certeza de quem sou — sorriu ela, o mais pequeno dos sorrisos.

A confiança cresceu lentamente, feita de jantares silenciosos e da descoberta das histórias um do outro. Mave contara-lhe sobre os seus pais, sobre o homem chamado Jonah Bakesley que a reclamara como dívida após a morte do pai. O nome de Bakesley pairava na cabana como uma ameaça.

Decidiram ir à cidade de Bandera para obter mantimentos. Mave, vestida com calças e uma camisa de Elias, tentava passar despercebida, mas o azar perseguiu-os. Um homem, um bêbado que reconhecera o cabelo de Mave, tentou expor a sua marca em público por uma recompensa. Elias defendeu-a, golpeando o homem, mas o dano estava feito. Bakesley tinha homens em todo o lado.

Ao regressarem à cabana, o perigo tornou-se iminente. Elias, sentindo a tempestade que se aproximava, insistiu em descobrir o que Bakesley pretendia. Regressou a Bandera sozinho e encontrou Bakesley, um homem polido, de botas caras e emblema de xerife, que reclamava Mave como “propriedade legal por dívida”.

— Tem vinte e quatro horas — disse Bakesley. — Devolva o que roubou ou eu irei buscá-lo.

A noite seguinte foi de preparação. Armas limpas, munições contadas. Quando as tochas dos homens de Bakesley iluminaram a floresta como espíritos caçadores, Elias e Mave já estavam à espera. O tiroteio foi brutal. A cabana, o seu refúgio, tornou-se um cenário de caos. Elias foi atingido, mas Mave, empunhando uma pistola com uma precisão nascida da necessidade, conseguiu abater um dos atacantes. Quando o último homem fugiu, Elias estava caído contra a parede, a sangue jorrar.

Três dias depois, o cerco final aconteceu. Bakesley chegou ao amanhecer com seis homens armados. Elias, enfraquecido pela perda de sangue, mal conseguia erguer-se.

— Devolva-a voluntariamente e evitaremos mais dissabores — disse Bakesley, com aquela voz suave e venenosa.

— Eu não vou voltar — afirmou Mave, com firmeza.

Bakesley insistiu na farsa dos documentos e das dívidas. Quando Mave se aproximou de Elias, sob o pretexto de uma despedida, sussurrou-lhe:

— Confia em mim.

Virou-se, sacou da pistola e disparou. Bakesley tombou, ferido. O caos rebentou. Elias, mesmo ferido, lutou com a força de quem protege a própria alma. No momento em que pareciam vencidos, Samuel Cross, um rancheiro local, e os seus homens apareceram, armados, colocando um ponto final na tirania de Bakesley. Com provas de fraude e tráfico, a justiça foi feita. Bakesley caiu ali mesmo, entre as flores da primavera, o seu império desmoronando-se.

Seis semanas mais tarde, as colinas estavam cobertas de flores azuis. A cabana fora reconstruída. Elias, embora com as cicatrizes do corpo e da alma, sentia-se um homem renovado. Mave, agora vestida com um simples algodão azul, trabalhava no jardim. O passado, com a sua marca cruel, ainda lá estava na sua coxa, mas já não a definia.

Elias caminhou até ao jardim e ajoelhou-se. Tirou do bolso algo feito de latão: um anel forjado a partir da bala que outrora lhe trouxera tanta dor.

— Pensei que, se a ia guardar, deveria transformá-la em algo que constrói em vez de matar — disse ele.

Lágrimas encheram os olhos de Mave.

— Sim — sussurrou ela. — Sim.

Casaram na pequena igreja branca perto do rio Guadalupe. A cidade inteira compareceu. Naquela noite, sob um manto de estrelas, Elias levou-a para dentro da cabana, não como alguém que salvou uma propriedade, mas como um homem que encontrou a sua igual.

— O que fazemos agora? — perguntou ela, suavemente.

Ele puxou-a para perto, sentindo a paz que nunca julgara possível.

— Vivemos. Vivemos livres. E nunca deixaremos que ninguém nos transforme em algo que não somos.

Lá fora, o Texas aquietava-se. A guerra terminara, o medo dissipara-se. Naquele refúgio, sob as estrelas, duas almas marcadas pela violência começaram a tecer o fio de uma vida escolhida, livre, onde o amor, mais do que um refúgio, era a força que lhes permitia, finalmente, respirar como seres humanos.