
A neve caía tão densamente que parecia que estávamos dirigindo através da estática de uma televisão antiga. Mas o contorno minúsculo e inconfundível na vala congelada obrigou a pesada Harley-Davidson a uma parada brusca e perigosa.
Não era uma jaqueta descartada. Era uma criança – espancada, quase congelada e jogada fora como lixo na noite mais sagrada do ano.
A sociedade vê o couro, as tatuagens, o emblema de caveira dos Hell’s Angels e pensa que sabe quem são os homens perigosos. Mas os verdadeiros monstros se escondem atrás de gramados impecáveis e portas fechadas, acreditando que ninguém os observa. Eles estavam enganados.
Naquela véspera de Natal, os cavaleiros do diabo vigiavam, e o inferno veio com eles.
O vento uivante que soprava pela passagem era tão brutal que chegava a quebrar galhos, mas Richard “Iron Rick” Gallagher mal o sentia. Aos 45 anos, com a barba tingida de branco e um colete de couro com a caveira alada dos Hell’s Angels, Rick era um homem forjado por climas rigorosos e realidades ainda mais duras.
Eram 24 de dezembro, 23h30. A maior parte do estado de Washington estava aconchegada em camas quentinhas. Rick estava simplesmente tentando levar sua Harley de volta para a sede do clube em Spokane, depois de um passeio obrigatório até Seattle. As estradas eram uma extensão traiçoeira de gelo negro, cobertas por uma neve fofa e cegante.
Então ele viu. Um lampejo de cor no acostamento da Rodovia 10, um toque rosado contra o branco infinito. Noventa e nove em cada cem pessoas teriam continuado dirigindo. Mas os olhos de Rick eram treinados para notar coisas fora do comum. Ele reduziu a marcha, parou e abriu caminho na neve que lhe chegava aos joelhos.
A forma rosada tornou-se nítida. Era uma blusa de pijama fina. Encolhida na neve, tremendo de frio, jazia uma menina, com pouco mais de seis anos. Seus pés descalços estavam azulados de frio, seus cabelos loiros emaranhados incrustados de gelo e sangue congelado.
“Jesus Cristo”, murmurou Rick, caindo de joelhos. Sua estatura imponente fazia a criança frágil parecer minúscula. Ele tirou suas pesadas luvas de couro e tocou delicadamente a bochecha dela. Era como um bloco de gelo.
Ao virá-la delicadamente de costas, toda a extensão do horror foi revelada à luz distante do poste. Seu rosto estava muito inchado. Uma olheira escura circundava seu olho esquerdo, seu lábio inferior estava cortado. Hematomas com o formato de pontas de dedos de um adulto marcavam seus braços magros. Ela não havia chegado ali por acaso. Ela havia sido espancada, levada para o meio do nada em meio a uma nevasca e jogada em uma vala para morrer.
Uma ambulância levaria 45 minutos. Ela não tinha esse tempo. Sem hesitar, Rick tirou sua pesada jaqueta de couro e as vestes do clube e envolveu a garotinha na grossa pele de carneiro. Ela não pesava nada, como se ele estivesse segurando um feixe de gravetos secos.
“Aguenta firme, passarinho”, sussurrou Rick. Ele a carregou até a motocicleta, acomodou-a entre o peito e o tanque de gasolina e fechou o zíper da camisa de flanela sobre ela. O motor rugiu na noite. Ele não estava indo para o hospital, mas para um santuário onde ninguém faria perguntas.
O letreiro de néon do Ferro-velho do Rusty piscava fracamente. Atrás do ferro-velho ficava uma garagem fortemente fortificada, um esconderijo dos Hell’s Angels. Era ali que o Dr. Samuel Higgins passava as noites. O médico havia perdido sua licença, mas era o melhor cirurgião de trauma do lado errado da lei.
Rick chutou a porta de aço. Doc Higgins, um homem nervoso com uma espingarda, abriu-a. Ao ver Rick com o pacote, imediatamente baixou a arma.
“Livre-se da bancada!” ordenou Rick. Ele colocou a garota no chão. Doc engasgou. “Rick, o que você fez?”
“Eu não fiz isso!” Rick rosnou, com os olhos faiscando. “Eu a encontrei na Rodovia 10. Ela estava congelando até a morte e tinha sido espancada quase até a morte. Cuidem dela.”
A garagem se transformou em pronto-socorro. O médico aplicou soro quente e limpou os ferimentos. Rick andava de um lado para o outro como um leão enjaulado. Os Anjos eram foras da lei, mas o código era inviolável: qualquer um que tocasse em uma mulher ou criança assinava uma sentença de morte.
“Ela está se estabilizando”, disse o médico. “Mas esses hematomas estão em diferentes estágios de cicatrização. Alguém a vem machucando há muito tempo.” De repente, algo brilhou sob a gola da menina. Um pesado medalhão de ouro. O médico o abriu: uma fotografia desbotada de uma mulher de olhos verdes com um bebê. A inscrição dizia: “AW, amada”.
“São 24 quilates”, sussurrou o médico. “Essa criança vem de uma família muito rica.”
A garota acordou choramingando. Ela tinha os mesmos olhos verdes. Ela viu o enorme Rick, todo tatuado, e recuou com medo. Rick se ajoelhou, tirou o boné e se fez pequeno. “Ei, está tudo bem. Ninguém vai te machucar aqui. Qual é o seu nome?”
Ela olhou fixamente para ele e reconheceu o protetor dentro dele. “Abigail”, sussurrou ela.
“Quem fez isso com você, Abigail?”
“O diretor. Ele disse que eu era má. O Natal era só para filhas de verdade, não para as roubadas.”
Rick e Doc trocaram um olhar gélido. Furtivo. O instinto protetor de Rick se transformou em raiva calculista. Ele pegou seu roupão. “Preciso fazer uma ligação. Precisamos de mais gente.”
Por volta das três da manhã, a garagem tremia com o rugido dos potentes motores V-twin. O capítulo de Spokane dos Hell’s Angels havia chegado. No centro, estava Frankie “Ghost” Callahan, o presidente implacável e extremamente inteligente.
Rick o informou: “Ela o chama de Diretor. E ele tentou matá-la.” Ghost ergueu o medalhão. “Ninguém abandona uma criança na nossa rodovia e sai vivo. A polícia precisa de mandado. Nós não.”
Rick tirou do bolso um recibo amassado que encontrara na cena do crime: Silverleaf Fine Wines and Spirits. O nome nele era Thaddius Smith.
Um motociclista chamado Dutch assentiu com a cabeça. “CEO da Smith Logistics. Constrói apartamentos de luxo, suborna juízes, joga golfe com o chefe de polícia. Dirige um Mercedes-Benz Classe G preto.”
Um rico pilar da sociedade. Uma criança roubada.
“Ele acha que o dinheiro dele o torna invisível”, disse Rick, carregando sua Colt M1911. “Vamos mostrar a ele que não é.”
“Não vamos simplesmente invadir às cegas”, ordenou Ghost. “Vamos desmantelar tudo. Dutch, você e sua equipe vão observar a propriedade. Rick e eu vamos verificar as iniciais AW.”
Abigail entrou na garagem. Caminhou direto até Rick e agarrou seus dedos. “Você vai chamar o diretor? Ele não é meu pai. O diretor trancou minha mãe de verdade em um hospital.”
Era ainda maior. Smith escondia um segredo sombrio. Ghost deu a ordem: “Vamos caçar.”
Dutch e sua equipe chegaram à enorme propriedade de Smith. Bear entrou sorrateiramente na garagem. Pelo rádio, ele relatou: “O padrão dos pneus coincide. Há um sapato rosa e um cobertor ensanguentado no chão.”
O contato de Rick conseguiu falar com ele na oficina. “AW significa Audrey Wentworth. Herdeira de 200 milhões de dólares. Smith casou-se com ela há cinco anos, fez com que ela fosse declarada mentalmente incapaz e a internou no Instituto Pinehaven. Ele controla a fortuna.”
Ghost raciocinou friamente: “Se Audrey morrer, o dinheiro vai para a linhagem. Para Abigail. Se Audrey for trancada e Abigail morrer congelada, Smith herda tudo.”
Ghost designou os objetivos. “Dutch fica de guarda na casa. Jax e Bear, dirijam até o Instituto Pinehaven, em Idaho, e tirem Audrey de lá. Rick, você, eu e Bones, vamos fazer uma visitinha ao Smith.”
Por volta das 4h30 da manhã, seis Harleys chegaram ao Instituto Pinehaven. Bear atravessou o portão de pedestres com sua motocicleta. Jax agarrou o segurança que se aproximava e exigiu o número do quarto. Quarto 304, terceiro andar. Eles arrombaram a fechadura eletrônica.
Ali estava sentada uma mulher frágil, de olhos verdes, entorpecida pela medicação.
“Audrey?” perguntou Jax gentilmente.
“Vocês são os homens do capataz?”, perguntou ela, sem expressão.
“Não. Estamos com Abigail, e ela quer a mãe dela.”
O gelo se quebrou ao ouvir o nome da filha. Ela caiu em prantos. Jax a envolveu com seu roupão e a conduziu para fora.
Ao mesmo tempo, Thaddius Smith serviu-se de um uísque escocês de 200 dólares em sua propriedade e comemorou sua vitória. O problema na neve estava resolvido.
A porta da frente explodiu, arrancando-se das dobradiças. Smith deixou o vidro cair e se atirou para pegar o revólver em sua mesa. Uma bota pesada fechou a gaveta com um chute. Iron Rick estava parado sobre ele. Ghost e Bones flanqueavam a porta com espingardas.
“Quem diabos é você?”, gaguejou Smith, pálido.
“Nós sabemos exatamente quem você é, Tommy”, rosnou Rick, erguendo o bilionário pelo roupão de seda e arremessando-o contra a estante de livros. “Ela tem olhos verdes. Ela é confiável. E nos contou tudo.”
“Você não pode provar nada!” exclamou Smith, boquiaberto.
Ghost riu sem alegria. Bones, um ex-hacker militar, já estava em processo de espelhar os discos rígidos de Smith, suas contas offshore e os subornos.
Rick agarrou Smith pelo tornozelo e arrastou o homem, que gritava, pela casa até a entrada de carros congelada. Ele o jogou em um monte de neve profunda.
“Está frio, não é?” disse Rick em voz baixa, pressionando o cano gelado da pistola contra a testa de Smith. “Você tem duas opções. Ou fica aqui e morre congelado. Ou fala neste gravador e nós o entregaremos ao FBI em Seattle, que já está a caminho.”
Smith desabou, chorou copiosamente e confessou tudo: fraude, suborno e tentativa de homicídio.
Na manhã de Natal, o sol nasceu sobre a oficina do Rusty. Jax levou Audrey para dentro. Abigail estava sentada em um catre, bebendo caldo.
“Abby”, sussurrou Audrey.
Abigail deixou cair a xícara e se jogou nos braços da mãe. As duas choraram inconsolavelmente no chão de concreto. Os homens mais perigosos de Washington observavam em silêncio, enxugando as lágrimas e atribuindo o choro à poeira.
Ghost colocou a mão no ombro de Rick. “Você a salvou. O agente Harris prendeu Smith. Ele vai apodrecer na prisão federal para sempre, e a fortuna volta para Audrey.”
Naquela tarde, enquanto Audrey e Abigail partiam para um hospital sob proteção do FBI, a menina correu até Rick pela última vez. Ela puxou a jaqueta de couro dele. Ele se ajoelhou.
“Obrigada, Rick”, ela sussurrou, beijando sua bochecha barbada e colocando uma pequena estrela de lata prateada, torta, em sua mão.
Para Rick, ele valia mais do que todo o ouro do mundo. “Feliz Natal, passarinho. Voe em segurança.”
Assim que o carro desapareceu, Rick ligou sua Harley. O rugido ecoou pela rua. Os Hell’s Angels partiram para a clara manhã de inverno, de volta às sombras. Foras da lei para o mundo, mas anjos da guarda para uma garotinha na neve.