
Enquanto o Brasil inteiro comemorava a convocação de Neymar e Hendrick para a Copa do Mundo de 2026, uma lista de 26 nomes anunciada por Carlo Ancelotti deixou um rastro de revolta, frustração e perguntas sem resposta. O técnico italiano subiu ao palco, abriu o envelope e revelou os escolhidos. Alguns choraram de alegria. Outros, diante da televisão, choraram de tristeza. Jogadores que passaram quatro anos sonhando com este momento, que vestiram a amarelinha durante o ciclo ou que fizeram temporadas simplesmente extraordinárias foram cortados sem piedade. Ancelotti até tentou amenizar na coletiva: “Sinto muito pelos jogadores que não estão aqui”, citando Bento, Hugo Souza, André Santos e João Pedro. Mas palavras não consolam quem dedicou a carreira inteira por essa chance.
O caso mais doloroso e que mais explodiu nas redes foi o de João Pedro, do Chelsea. O atacante vive a melhor fase da carreira: artilheiro do clube inglês, números impressionantes, convocações constantes durante o ciclo e sempre respondendo quando chamado. Ancelotti admitiu publicamente que sentiu tristeza por cortá-lo, mas escolheu Neymar mesmo assim. Neymar, que não vestia a amarelinha há dois anos e meio, que vive momento irregular no Santos e que, aos 34 anos, está longe do auge físico. João Pedro foi sacrificado no altar do legado. Mérito técnico perdeu para história. O Brasil inteiro viu: enquanto João Pedro voa na Premier League, Neymar luta para brilhar no Brasileirão. Ainda assim, o técnico italiano preferiu o peso do nome.
Outro nome que gerou indignação foi Anthony. Depois de ser tratado como “fraude” no Manchester United e ser emprestado ao Betis como última chance, o atacante renasceu das cinzas. Gols, assistências, dribles desconcertantes e confiança no auge. A Europa inteira falava do “novo Anthony”. Ancelotti nem quis saber. Cortou sem hesitar. Enquanto isso, jogadores como Fabinho, que joga na Arábia Saudita há dois anos e está longe do nível europeu, entraram na lista. Andreas Pereira, estrela do Palmeiras, um dos melhores meias do Brasil na temporada, ficou de fora. Gerson, que já foi o melhor meia do país no Flamengo, foi ignorado. Mateus Pereira, do Cruzeiro, com temporadas brilhantes e técnica refinada, também não foi chamado. O meio-campo brasileiro, que tem opções de sobra, viu nomes em fim de carreira ou fora de forma serem priorizados.
Na zaga e nas laterais a dor é ainda maior. Alexandro e Danilo, muitas vezes reservas no Flamengo e com números decadentes, foram convocados. Luciano Juba, do Bahia, que fez uma temporada espetacular como lateral esquerdo, ficou de fora. Rodney, do Olympiacos, que voou pelo Flamengo e é comparado a Kyle Walker, nem foi lembrado. Paulinho, do Vasco, que estreou pela Seleção marcando gol, foi cortado logo depois. Thiago Silva, que sonhava com a última Copa, também não entrou. A geração que mais perdeu e mais frustrou o torcedor brasileiro continua sendo protegida, enquanto sangue novo e jogadores em forma são deixados para trás.
No gol a polêmica foi enorme. Bento, do Al-Nassr, e Hugo Souza, do Corinthians, dois dos melhores goleiros do Brasil no momento, foram cortados. Hugo Souza reagiu com classe: “É parte da vida, vou continuar trabalhando”. Bento foi ainda mais elegante: “Sempre foi e sempre será um sonho representar o Brasil”. No lugar deles entrou Everton, do Grêmio, goleiro de 38 anos que parecia ter saído do radar da Seleção há muito tempo. Fábio, do Fluminense, aos 45 anos, nem estava na lista preliminar, mas sua declaração após o anúncio parou o Brasil: “Eu não faço o meu melhor pela CBF. Faço por Deus, pelo Fluminense e pelos clubes que defendi”. Um gigante de 45 anos, eleito melhor goleiro do Brasileirão pela própria CBF em fevereiro, que nunca jogou um minuto pela Seleção apesar de toda a carreira, ainda escolheu palavras de respeito.
Pedro, do Flamengo, outro que carregou o time nas costas, foi artilheiro e decisivo, também ficou de fora. Ancelotti preferiu Igor Thiago, que faz ótima temporada na Inglaterra. A escolha pode até ser técnica, mas o torcedor sente: mérito muitas vezes perdeu para nome, para marketing e para o peso da “geração dourada” que já entregou pouco.

Ancelotti sabe que, se o Brasil não voltar com a taça, terá que explicar cada corte. Ele próprio admitiu que sente pena de alguns nomes. Mas o torcedor não quer pena. Quer explicação. Por que João Pedro, voando na Premier League, foi cortado para abrir vaga a Neymar em baixa forma? Por que Anthony, renascido na Europa, ficou de fora? Por que Andreas Pereira, estrela do Palmeiras, perdeu para Fabinho, que joga em liga menor? Por que jovens em ascensão como Hugo Souza e Bento foram preteridos por um goleiro de 38 anos que parecia esquecido?
O técnico italiano tem sua visão. Ele montou o time que acredita ser o mais competitivo. Mas o Brasil, apaixonado por futebol, não perdoa injustiças. A lista de cortados daria para montar uma Seleção inteira capaz de enfrentar qualquer adversário. Enquanto Neymar e Hendrick celebram, outros choram em silêncio. O sonho de quatro anos foi interrompido por um envelope. Alguns viram o nome. Outros viram o coração partido.
A Copa do Mundo está chegando e o Brasil vai com Ancelotti ao comando. Mas a torcida já cobra: se o time não for campeão, cada corte injustiçado será lembrado. João Pedro, Anthony, Andreas Pereira, Hugo Souza, Bento e tantos outros mereciam estar lá. O técnico italiano decidiu diferente. Agora é com ele. E com o Brasil.