
RONALDINHO: A VERDADE VEIO À TONA
Bolas de ouro. O melhor jogador do planeta em 2005. E esse mesmo homem, 15 anos depois, entrando em uma prisão de segurança máxima no Paraguai algemado, com um passaporte falso na mão que ele nem tinha lido quando o assinou. 32 dias trancado entre traficantes e assassinos. E quando retornou ao Brasil, descobriu que sua conta bancária tinha exatamente R$ 6. Seis.
O melhor do mundo. 15 anos depois, ainda sem entender o porquê. Como um homem pode cair dessa altura em tão pouco tempo? Ronaldinho não caiu. Eles o deixaram cair. Alguém de dentro da própria família, alguém que controlou tudo por 20 anos. Alguém que assinava em seu nome, recebia pagamentos em seu nome e tomava as decisões por ele.
E o nome desse homem nunca apareceu em nenhum jornal, como deveria ter aparecido até agora. Mas antes de chegarmos àquela prisão paraguaia, há algo que você precisa entender, porque o que aconteceu em março de 2020 não começou lá, começou 31 anos antes, em uma casa humilde em Porto Alegre, com um menino de 8 anos e um corpo flutuando de bruços em uma piscina.
Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, 21 de março de 1980. Ronaldo de Assis Moreira, o caçula de três irmãos, nasceu lá. O pai, João, tinha sido jogador do Esporte Clube Cruzeiro em Porto Alegre, mas já não era mais jogador. Ele era soldador em uma fábrica, trabalhando 12 horas por dia.
A mãe, Dona Miguelina, era vendedora ambulante de manhã e estudante de enfermagem à noite. Ela estudava em silêncio, com um caderno apoiado no colo enquanto seus filhos dormiam. O irmão mais velho, Roberto, já tinha 14 anos quando Ronaldinho nasceu, e é aí que começa a história que a família manteve escondida por 40 anos.
Roberto, conhecido no mundo do futebol como Assis, era muito mais que um irmão, ele era um pai, um empresário, um confidente. E, de acordo com o que a própria Dona Miguelina disse em uma breve entrevista à revista Placar em 2018, era algo inteiramente diferente. Uma coisa que Ronaldinho nunca conseguiu aceitar, algo que sua família escondeu até que não fosse mais possível esconder.
Mas antes de Roberto Assis, há seu pai, João, o soldador, o homem tranquilo com um sorriso fácil, o homem que ensinou o pequeno Ronaldinho a sempre sorrir, mesmo quando doesse. Qualquer que fosse o acontecimento. E chegaremos ao motivo disso. Há uma foto. Tirada em 1987. João, aos 39 anos, no quintal da casa humilde em Porto Alegre, está sem camisa, vestindo shorts velhos, sentado na borda de uma pequena piscina de plástico azul que ele mesmo tinha montado no verão anterior para seus filhos.
Em pé em suas pernas, Ronaldinho, aos 6 anos, está rindo. No peito de João havia uma foto antiga do Cruzeiro de Porto Alegre que ele tinha colado com fita adesiva. Era apenas uma brincadeira. Ele estava falando para o filho: “Papai foi para o cruzeiro, sabe?” E o menino ria sempre. Dona Miguelina ainda guarda esta foto até hoje, porque dois anos depois, naquela mesma piscina, seu pai João morreria.
22 de fevereiro de 1989, Ronaldinho tinha 8 anos. A piscina era a mesma. O dia tinha começado normalmente. João, aos 37 anos, tinha voltado do trabalho, ainda com graxa de soldador nas mãos, e quis se refrescar na piscina. Antes do jantar, ele desceu ao quintal, entrou na água e nunca mais saiu.
Um ataque cardíaco repentino fez com que ele caísse de bruços. A piscina tinha apenas 1 metro de profundidade, mas 1 metro foi o suficiente. Foi Ronaldinho, aos 8 anos, quem encontrou. Ele desceu ao quintal porque sua mãe tinha lhe pedido para chamar o pai para o jantar. Ele viu o corpo flutuando de bruços e gritou. A mãe correu para baixo. O irmão Roberto, já com 22 anos, puxou o corpo para fora da água.
Eles fizeram respiração boca a boca e chamaram uma ambulância. Não adiantou. João já estava morto antes mesmo de tocar o fundo da piscina. E aqui vem o primeiro detalhe que quase ninguém costuma mencionar. Naquela mesma noite, enquanto os vizinhos enchiam a sala, enquanto os irmãos choravam, enquanto a mãe Miguelina, viúva aos 33 anos com três filhos, não conseguia sair do sofá.
O pequeno Ronaldinho fez algo que ninguém nunca tinha visto antes em um menino de 8 anos. Ele se levantou da cama no quarto onde o tinham deixado. Desceu as escadas, aproximou-se do corpo do pai, que jazia sobre uma mesa coberto por um lençol branco, e começou a sorrir. Ele sorria enquanto falava com seu pai morto, contando coisas como se nada tivesse acontecido.
E a tia Lourdes, irmã do pai, que estava ao lado do corpo, viu isso e perguntou a ele: “Filho, por que você está sorrindo?” Ronaldinho respondeu com cinco palavras. Cinco palavras que ficariam com o menino até o último dia de sua carreira no futebol: “Se eu chorar, o papai chora.“
Essa frase, esse pensamento, foi a origem do sorriso eterno de Ronaldinho. O sorriso que ganharia duas Copas do Mundo. O sorriso que faria todo o Brasil sorrir. O sorriso que seria escolhido como a imagem mais feliz do futebol mundial. Esse sorriso começou em um quarto humilde em Porto Alegre, diante do corpo de um pai morto, na mente de um menino de 8 anos que decidiu que chorar era egoísmo.
Imagine ser um menino de 8 anos decidindo isso. Imagine carregar esse sorriso por 40 anos. Ronaldinho carregava a bola. E o que veio a seguir foi pior. Quinze dias após o enterro, Dona Miguelina fez um juramento, sozinha no quarto onde ela e João tinham dormido por quinze anos. Foi um voto endereçado ao seu falecido marido e só apareceu em uma entrevista que ela deu em 2018.
As palavras exatas, como ela recordou, foram: “João, eu juro para você que vou cuidar dos três filhos, mas o caçula, Ronaldinho, eu juro que vou cuidar dele como se ele fosse tudo, como se ele fosse o mundo inteiro. Não faltará nada a ele. E Roberto estará ao seu lado. Roberto, o irmão mais velho, será o pai que ele perdeu. Roberto será o pai.“
Essa decisão, essa promessa, esse peso que Miguelina colocou nos ombros de seu filho de 22 anos foi o segundo pilar de toda a tragédia que seguiria. Roberto, conhecido como Assis, assumiu, cuidou de tudo, olhou pelo irmão, levou-o para o futebol, pagou pelos uniformes, treinou-o no quintal à tarde, comprou as chuteiras, falou sobre seu pai morto, contou histórias sobre o Cruzeiro de Porto Alegre.
Mas enquanto Ronaldinho estava em ascensão rápida, alguém em sua vida estava observando-o de longe. Uma pessoa que, em apenas alguns anos, apareceria e deixaria uma marca duradoura. Um empresário brasileiro com conexões em bancos de Andorra. Um nome que nunca ganhou as manchetes como deveria. E chegaremos lá em menos de 5 minutos.
Ronaldinho descobriu a bola aos 5 anos, mas aos oito ele já não jogava futebol regular. Ele costumava jogar futsal, cinco contra cinco, em uma pequena quadra, em um ritmo exigente, e foi aí que ele aprendeu tudo. Os dribles impossíveis, as fintas que deixavam três defensores no chão, o controle perfeito, toda a magia de Ronaldinho vinha de uma quadra de futsal em Porto Alegre.
Aos 12 anos, ele marcou 23 gols em uma partida oficial contra outro clube juvenil. 23 gols, um jogo. Os treinadores do Grêmio diziam que ele não era humano, que ele tinha um talento extraterrestre, mas o verdadeiro homem por trás de cada decisão, desde aqueles 12 anos, já não era Ronaldinho, era Assis, seu irmão, seu empresário.
Quem decidia qual clube, qual salário, qual publicidade, qual entrevista. Durante toda a sua vida adulta, Ronaldinho só teve a liberdade de fazer uma coisa: jogar. Assis decidia todo o resto. E Ronaldinho confiava nele, ele confiava porque ele era seu irmão. Ele confiava porque sua mãe tinha lhe dito quando ele tinha 8 anos que Roberto seria seu pai.
Ele confiava porque, em algum lugar em sua mente, ele ainda era aquele menino de 8 anos que decidiu não chorar para que seu pai não chorasse do céu. E questionar seu irmão mais velho era como Ronaldinho trair seu pai morto. É por isso que ele assinava tudo o que Assis colocava na sua frente, sem ler.
Assim como Garrincha, assim como Adriano. Três homens pobres do futebol brasileiro que assinavam sem ler porque alguém em sua família decidia por eles. Aos 17 anos, Ronaldinho fez sua estreia pela equipe profissional do Grêmio. 1998, um jogo contra um time do interior. Ele entrou no segundo tempo, tocou na bola três vezes, apenas três.
Primeiro toque, uma caneta em um defensor de 30 anos. Segundo toque, um passe de calcanhar que deixou o atacante cara a cara com o goleiro. Terceiro toque, um gol de bicicleta que derrubou o estádio. Os torcedores foram à loucura. Os jornalistas não sabiam o que escrever. Olheiros europeus pegaram o telefone, mas ele ainda morava com sua mãe, ele não tinha um contrato ainda.
E então chegou a primeira oferta, não de um clube europeu, mas de um empresário brasileiro. O nome dele era Luís Antônio de Jesus. Todos o conheciam como um gaúcho, um cara com conexões no futebol brasileiro, e ele ofereceu a Ronaldinho um contrato. “Eu vou levar você para a Europa. Eu consigo os contratos para você. Você apenas jogue.” Ronaldinho tinha 18 anos.
A mãe disse a ele para ler antes de assinar. “Mãe, ele sabe, ele vai me ajudar.” Ele assinou sem ler. Guarde este momento. Você precisará dele mais tarde. Em 1999, Ronaldinho fez sua estreia na Copa América com a seleção brasileira. O Brasil venceu o torneio. As primeiras ofertas do exterior apareceram. Paris Saint-Germain, milhões de reais, uma fortuna em 1999 para um jogador de 19 anos.
Assis negociou, Assis assinou, Ronaldinho foi para a França e lá ele entendeu pela primeira vez em sua vida que o futebol europeu não era o futebol brasileiro. A pressão era brutal, o idioma era difícil, a cultura era estranha, mas a coisa mais difícil era outra.
Pela primeira vez em sua vida, Ronaldinho estava longe de seu irmão. Assis ficava no Brasil, visitando-o duas ou três vezes por mês, mas ele não estava lá todos os dias. E Ronaldinho, pela primeira vez desde que tinha 8 anos, teve que tomar decisões por conta própria e não sabia como. Em Paris, Ronaldinho começou a sair para boates, socializar com brasileiros que moravam lá e viver como um milionário de 20 anos, com dinheiro de todo o mundo e ninguém dizendo não a ele.
Mas em 2002 algo aconteceu, algo que mudaria tudo. Ronaldinho ganhou a Copa do Mundo na Coreia e no Japão com o Brasil. O gol de falta contra a Inglaterra que se tornou lendário, o passe para Rivaldo na final. Brasil campeão, Ronaldinho a estrela. E então veio a ligação. Barcelona, o maior clube do mundo naquela época.
Joan Laporta, o recém-eleito presidente, queria ele como uma contratação chave, 30 milhões de euros. Cinco anos de contrato, a camisa número 10. Mas aqui vem o detalhe que mudará toda a história. O Barcelona também ofereceu algo que poucas pessoas sabem: uma comissão de 5 milhões de euros para o empresário, 5 milhões para Roberto Assis.
Assis aceitou a maior comissão que qualquer empresário brasileiro já tinha recebido, mas ele fez algo que ninguém sabia. Ele solicitou que essa comissão não fosse depositada em uma conta brasileira. Ele pediu que o dinheiro fosse depositado em uma conta em Andorra, em seu nome, em nome de Roberto de Assis Moreira. Andorra, um pequeno país nos Pirenéus, onde os bancos não se reportam ao Brasil, onde o dinheiro entra e nunca sai, onde ninguém faz perguntas.
Aquela conta aberta em 2003 foi o começo de tudo, e a mãe, Dona Miguelina, só descobriu sobre isso 10 anos depois, por acaso, e chegaremos a esse momento em poucos minutos. Há uma gravação de 38 minutos feita por um jornalista brasileiro chamado Pelé Júnior em 2022, dois anos após sua prisão no Paraguai.
Ronaldinho estava em uma casa em Porto Alegre, tendo se recuperado do trauma, e falando francamente pela primeira vez em sua vida. Parte da gravação foi divulgada no podcast do jornalista, mas 60% do conteúdo nunca foi publicado porque Ronaldinho mencionou três nomes específicos durante a entrevista.
Três nomes que ainda estão em processos judiciais pendentes hoje. E o jornalista, por motivos de segurança, decidiu manter a gravação completa. Chegaremos às quatro confissões que Ronaldinho fez nessa gravação, mas não ainda. Barcelona, 2003. Ronaldinho chegou ao Camp Nou aos 23 anos e começou a fazer a única coisa que sabia fazer nesta vida: sorrir e jogar.
O sorriso daquele menino de 8 anos no quarto em Porto Alegre, diante do corpo de seu pai morto, era o mesmo sorriso que iluminou o Camp Nou por 6 anos. Gols impossíveis, três títulos da liga espanhola, um título da Champions League, e em 2005 a Bola de Ouro, melhor jogador do mundo, aos 25 anos. O auge do futebol mundial tem um daqueles períodos de seis anos que quase ninguém lembra com a intensidade que merece.
21 de novembro de 2005. Camp Nou. Real Madrid visitando o Barcelona. Ronaldinho destruiu o Madrid naquele dia. Dois gols, três assistências, dribles que fizeram 98.000 torcedores do Madrid se levantarem e aplaudi-lo. Pense nisso por um momento. Torcedores do Real Madrid, seus rivais históricos, aplaudindo um jogador do Barcelona, só aconteceu com Ronaldinho e Maradona, com ninguém mais.
E quando lhe entregaram a Bola de Ouro um mês depois na cerimônia da FIFA, Ronaldinho falou sete palavras: “Isso é para o meu pai.” Ele estava sorrindo. “Isso é para o meu pai.” A frase saiu tão rápido que quase ninguém captou, mas Dona Miguelina, que estava sentada na primeira fila da cerimônia, captou.
E naquela noite, no hotel na Suíça, Miguelina chorou sozinha no quarto de hóspedes por 3 horas, porque naquela mesma semana ela tinha descoberto algo, algo que ela esperaria 13 anos antes de revelar ao mundo. E chegaremos a essa revelação, mas primeiro temos que entender o que aconteceu depois da Bola de Ouro, porque foi aí que o declínio começou.
A partir de 2006, Ronaldinho começou a beber, não excessivamente, mas todas as noites, e começou a sair para festas durante a semana. Começou a chegar atrasado aos treinos. Frank Rijkaard, o treinador, começou a se preocupar. “Ele está chegando atrasado”, ele disse à diretoria. Ele estava engordando, mas Ronaldinho continuava jogando bem, continuava sendo mágico.
Então o Barcelona tolerou isso até 2007, quando um novo jogador chegou, ele tinha 20 anos, era argentino, seu nome era Lionel Messi. Messi vivia para o futebol, ele treinava duas vezes mais, comia perfeitamente, dormia 8 horas, não saía para festas e não tinha vícios. Ronaldinho era o oposto, e a diferença começou a aparecer.
Em 2008, Pep Guardiola chegou como o novo técnico do Barcelona. Sua primeira decisão foi chamar Ronaldinho para a sala. “Você precisa decidir”, ele disse a ele. “Ou viva como um profissional ou vá embora.” Ronaldinho não discutiu, não ficou com raiva, ele sorriu. “Eu entendi.” Duas semanas depois, o Barcelona o vendeu para o Milan por 21 milhões de euros, menos da metade do que tinham pago 5 anos antes.
Ele jogou pelo Milan por dois anos, mas ele já não era o mesmo jogador. Ele ganhou 5 kg e começou a faltar aos treinos. A imprensa italiana o detonou. O álcool tornou-se de conhecimento público. As festas em Milão estampavam as capas de todos os jornais, e em 2011 o Milan o liberou de graça. Ronaldinho, aos 31 anos, sem clube, o melhor do mundo 6 anos antes, não tinha mais um time na Europa. Ele retornou ao Brasil.
Flamengo, Atlético Mineiro, uma Copa Libertadores com o Atlético em 2013, mas não era a mesma coisa de antes. Era uma sombra, uma lembrança caminhando dentro do campo. E enquanto Ronaldinho estava jogando por clubes brasileiros recebendo uma fração do que ganhava na Europa, o dinheiro continuava a fluir para Andorra.
Cada contrato, cada anúncio, cada prêmio primeiro passava pelas contas que Assis controlava, e de lá uma parte significativa ia para Andorra. Enquanto Ronaldinho competia no campeonato estadual de Minas Gerais em 2013, Dona Miguelina estava em Porto Alegre, sozinha, cuidando de sua neta doente.
Uma tarde, no final de novembro, Roberto Assis chegou à casa de sua mãe com um envelope, pediu que ela assinasse alguns papéis, disse que era para a proteção tributária de seu irmão, uma questão burocrática. Miguelina assinou, mas antes de sair, Assis por engano deixou o envelope sobre a mesa, distraiu-se com seu celular, saiu para fumar, e Miguelina abriu o envelope.
Foi o que ela viu. Uma carta do Banco de Andorra confirmando os saldos. Conta um, 72 milhões de euros. Conta número dois, 18 milhões de euros. Conta 3, 9 milhões de euros. Total, 99 milhões de euros em nome de Roberto Assis. Sem Ronaldinho saber, Miguelina selou o envelope e colocou-o de volta sobre a mesa.
Quando Assis retornou, ela não disse nada, ela se despediu dele com um beijo. E naquela noite, Miguelina chorou por seis horas seguidas, sozinha, no mesmo quarto onde João tinha chorado 24 anos antes. E aqui vem a parte que conecta toda a história. Miguelina, que sabia a verdade desde 2013, não disse nada a Ronaldinho.
Ela não disse nada por 7 anos. Por quê? Porque ela tinha medo. Medo de destruir o relacionamento entre os irmãos, medo de ir contra a promessa que tinha feito a João em 1989, quando ele disse que Roberto seria o pai do caçula. Medo, principalmente, de que Ronaldinho, ao saber a verdade, perdesse seu sorriso, aquele sorriso que o menino tinha construído aos 8 anos diante do corpo de seu pai morto, decidindo que chorar era egoísmo.
Miguelina preferiu carregar a verdade sozinha por 7 anos, até que não pôde mais suportar. Em 2015, Ronaldinho se aposentou do futebol, sem uma despedida, sem uma partida especial, ele simplesmente parou de jogar. E então a parte sombria começou: 30 pessoas financeiramente dependentes dele, irmão, mãe, funcionários, seguranças, motoristas, amigos que moravam em sua casa, conhecidos que pediam empréstimos que nunca pagavam.
Chegou um ponto em que Ronaldinho já não sabia quantas pessoas trabalhavam para ele. Ele assinava cheques sem perguntar para que serviam. Entre 2015 e 2019, Ronaldinho perdeu quase toda a sua fortuna. Ele tinha ganhado mais de 100 milhões de dólares em sua carreira. 100 milhões. Aos 39 anos, ele devia ao governo brasileiro 11 milhões.
11 milhões em impostos não pagos. As autoridades confiscaram 57 de suas propriedades, congelaram suas contas bancárias e tomaram seu passaporte. Ronaldinho não podia mais sair do Brasil. E então alguém apareceu com uma solução. Wilmondes Souza Lira, um empresário brasileiro, com conexões no Paraguai, ofereceu a Ronaldinho um projeto em Assunção.
“Vamos abrir uma fundação para crianças”, disse ele. “Precisamos da sua imagem. Pagamos bem e ajudamos com o processamento do passaporte.” Ronaldinho, desesperado para trabalhar, disse sim. “Apenas assine aqui, eu cuido de tudo.” E Ronaldinho assinou sem ler, como sempre. O que ele assinou foi um pedido de residência paraguaia.
Para obtê-lo, era necessário um passaporte paraguaio. Wilmondes tratou de conseguir. O passaporte era falso, os documentos eram falsos, tudo era falso. Mas Ronaldinho ou não sabia, ou não queria saber, ou decidiu não perguntar. 4 de março de 2020. Aeroporto Internacional Silvio Pettirossi, Assunção, Paraguai. Ronaldinho, aos 40 anos, chegou em um avião particular junto com seu irmão Roberto.
Eles iam se apresentar à fundação, passaram pela imigração e mostraram seus passaportes paraguaios recém-emitidos. O policial revisou os documentos, franziu a testa e chamou o supervisor. Algo estava errado. Os passaportes tinham um selo oficial, uma foto e todas as informações corretas, mas os números de série não correspondiam ao banco de dados.
Alguém tinha forjado os documentos usando selos roubados. Ronaldinho olhou para seu irmão e perguntou o que estava acontecendo. Roberto Assis sorriu e disse que tudo estava bem, que era um procedimento burocrático, que deveríamos esperar um pouco. Eles esperaram 3 horas e no dia seguinte os dois foram formalmente acusados de usar um documento falso em 5 de março, levados para o agrupamento especializado da Polícia Nacional, uma prisão de segurança máxima nos arredores de Assunção.
O agrupamento especializado não é uma cadeia comum, não. É onde mantêm os criminosos mais perigosos do Paraguai: traficantes, sequestradores, assassinos e Ronaldinho. Ele não dormiu a primeira noite. Ele sentou no catre com as costas pressionadas contra a parede, olhando para a porta, ouvindo gritos em guarani que ele não entendia.
“Eu pensei que eles iam me matar”, ele confessou meses depois. Na gravação de Pelé Júnior, Ronaldinho conta o que aconteceu naquela primeira noite. “Eu olhei para Roberto na cela e perguntei: ‘Irmão, o que aconteceu?‘ E ele olhou para mim e disse: ‘Eu não sabia que o passaporte era falso’, mas olhando em seus olhos, eu sabia que ele estava mentindo. Pela primeira vez em 40 anos, eu sabia que meu irmão estava mentindo para mim. E naquela noite, naquela cama de prisão no Paraguai, eu chorei como não chorava desde a morte do meu pai. Chorei porque entendi que o sorriso de toda a minha vida tinha sido construído sobre uma mentira.” Mas o que aconteceu a seguir dentro daquela prisão? Quase ninguém sabe.
Na segunda noite, um prisioneiro brasileiro se aproximou dele: “Relaxe, mano. Ninguém vai fazer nada com você aqui. Você é uma lenda.” Os outros prisioneiros o reconheceram e, em vez de atacar, o protegeram: “É o Ronaldinho!“, disseram eles. “Ele é o mágico. Ninguém toca nele.” E então Ronaldinho fez algo que ninguém esperava.
Depois de duas semanas lá dentro, ele organizou um torneio de futebol. Sim, um torneio de futebol dentro da prisão, com traficantes, assassinos e sequestradores jogando contra Ronaldinho. Duas equipes. 10 contra 10. Uma quadra improvisada no pátio. Os guardas como árbitros, os prisioneiros como torcedores.
Ronaldinho jogava com seu sorriso habitual, dava canetas, dava elásticos. Os prisioneiros gritavam como se estivessem no Camp Nou. “Foi a coisa mais surreal que já vi na minha vida”, disse um oficial anos depois em uma entrevista. Ronaldinho, o melhor jogador do mundo, fazendo magia em uma prisão paraguaia. O time de Ronaldinho venceu o torneio.
O prêmio era um leitão assado. Ronaldinho dividiu com todos. Prisioneiros, guardas, advogados, todos comeram. Existe uma gravação de Ronaldinho naquela prisão paraguaia. Nunca foi oficialmente lançada, mas circula na internet. É um vídeo de 40 segundos. Ronaldinho está sentado sozinho em sua cela. A câmera está escondida.
Ele não sabe que está sendo filmado. Ele não está sorrindo. Ele tem a cabeça entre as mãos, seus ombros estão caídos. Ele respira fundo uma, duas, três vezes e então se levanta. Olha no espelho rachado na parede, ajeita o cabelo, endireita a postura e sorri. Não para a câmera, não para os prisioneiros, não para os agentes, mas para si mesmo.
É isso que quase ninguém entende. Ronaldinho não estava sorrindo para enganar o mundo, ele estava sorrindo para se lembrar de quem ele era. 25 de agosto de 2020, 173 dias após sua prisão, Ronaldinho e Roberto foram libertados. Cada um pagou uma multa de R$ 90.000. Quando Ronaldinho retornou ao Brasil, ele descobriu que sua conta bancária no Brasil tinha exatamente R$ 6. Seis.
O sistema judiciário brasileiro tinha congelado tudo por causa de dívidas fiscais acumuladas. Dívidas que Ronaldinho não sabia que existiam. Dívidas que Roberto Assis tinha acumulado por anos sem pagar impostos. Mas a parte mais sombria ainda falta. A questão que conecta toda a história: Quem destruiu o gênio brasileiro? Não foi Roberto Assis.
Roberto apenas administrou o dinheiro como um avarento. Mas Ronaldinho confiava nele porque sua mãe tinha pedido a ele. Não foi o álcool. O álcool foi o meio, não foi o Paraguai. O Paraguai foi apenas onde a mentira se tornou pública. Então, quem foi? A resposta de Ronaldinho na gravação é esta: “O que destruiu Ronaldinho foi uma promessa. A promessa que minha mãe Miguelina fez ao meu pai João em fevereiro de 1989, diante de seu corpo, a promessa de que Roberto seria o pai que eu perdi. E eu, durante toda a minha vida, respeitei essa promessa. Eu respeitei meu irmão como respeitei meu pai morto. E questioná-lo, contradizê-lo, exigir dele era para mim a mesma coisa que cuspir no túmulo do meu pai. É por isso que não fiz até ser tarde demais. Não é culpa do Roberto. Roberto apenas se aproveitou. A culpa reside naquele menino de 8 anos que prometeu não chorar. Eu me destruí porque não deixei a verdade chegar aos meus olhos. Eu me destruí.” Essa frase é a chave de tudo.
Ronaldinho caiu por causa de uma promessa familiar. Uma promessa feita por sua mãe diante do corpo de seu pai morto. Uma promessa que o jovem Ronaldinho tomou como sua e cumpriu até se destruir. Mas há mais, algo que quase ninguém sabe. Há um pequeno caderno azul. Dona Miguelina o manteve na gaveta de sua mesa de cabeceira desde novembro de 2013. Tem 31 páginas.
Em cada página, notas a lápis, com a caligrafia cuidadosa de uma mulher que tinha sido enfermeira. Na primeira página, o título: “Coisas que meu filho precisa saber antes que seja tarde demais.” Nas páginas seguintes, valores, contas, contratos, todas as coisas que Roberto Assis fez sem Ronaldinho saber. 23 itens concretos. Em agosto de 2024, Dona Miguelina morreu, aos 79 anos. Câncer de pâncreas.
Em seus últimos dias, deitada em uma cama no Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre, ela chamou Ronaldinho para o seu lado, entregou-lhe o caderno azul e disse apenas uma frase: “Filho, perdoe-me por não ter te dado isso antes. Eu queria te proteger, mas você é um adulto agora. Agora você decide o que fazer com a verdade.” E ela morreu três dias depois. Ronaldinho leu o caderno inteiro, levou a noite toda, ele chorou. E no final ele fez algo que sua mãe não esperava: ele não processou seu irmão, ele não foi à imprensa, ele não publicou o conteúdo do caderno, ele o guardou na gaveta de sua mesa de cabeceira, exatamente como sua mãe tinha guardado por 11 anos, e ele disse a um amigo próximo em um bar em Porto Alegre uma frase que o amigo gravou em seu celular sem Ronaldinho perceber.
A frase foi esta: “Minha mãe carregou isso sozinha por 11 anos para me proteger. Se eu destruir meu irmão agora, destruo o sacrifício da minha mãe. Prefiro carregar a verdade e morrer sorrindo, assim como aprendi quando tinha 8 anos.” Mas há uma coisa que Ronaldinho fez em 2022 que quase ninguém fala. Ele voltou ao Paraguai. Sim.
Ele retornou ao mesmo país que tomou seis meses de sua vida. Ele foi convidado para um evento beneficente para crianças de rua. Ele poderia ter dito não. Ele poderia ter enviado um representante. Ninguém iria julgar. Mas ele foi. Ele chegou em Assunção, passou pelo mesmo aeroporto onde foi preso, visitou a fundação, jogou futebol com as crianças, e então fez algo que ninguém esperava.
Pediu para visitar a prisão, retornou ao agrupamento especializado, a mesma prisão onde tinha passado 32 dias, onde tinha chorado aquela primeira noite, onde tinha organizado o campeonato. Os agentes não acreditaram. “Por que ele quer voltar aqui para dizer obrigado?” Ele entrou no pátio. Os prisioneiros o cercaram.
Alguns eram as mesmas pessoas que tinham estado com ele dois anos antes, outros eram novos e conheciam sua história. “Vocês me ensinaram algo”, ele disse a eles. “Fui ensinado que não importa onde você esteja, não importa o que você tenha feito, você sempre pode escolher como viver aquele momento. Você pode se tornar amargo ou você pode buscar a felicidade.”
Ele jogou futebol com eles exatamente como dois anos antes, e quando saiu, deixou algo para eles: bolas, camisetas e uma frase escrita na parede do pátio: “A liberdade está na sua cabeça, ninguém pode tirá-la de você.” Hoje Ronaldinho tem 45 anos e se reconciliou com seu irmão Roberto.
O sistema judiciário paraguaio fechou o caso, mas a dívida tributária no Brasil permanece. Ele vendeu três apartamentos para pagar parte do preço. Ele dá entrevistas de vez em quando e joga futebol amistoso com amigos. Ele visita a comunidade onde nasceu em Porto Alegre todos os meses. Distribui brinquedos para crianças pobres.
Ele ainda está sorrindo, mas não é o mesmo sorriso que costumava ter. Há uma frase que Ronaldinho repetiu a vida toda: “O dinheiro vem e vai.” Quando ele ganhava milhões, quando ele perdia, quando ele não se importava com nada. Na prisão paraguaia, ele entendeu o final daquela frase: “O dinheiro vem e vai, a fama vem e vai, troféus permanecem em vitrines. Mas a maneira como você vive, a maneira como você trata as pessoas, o sorriso que você escolhe ter pela manhã, isso fica com você para sempre.” Existem milhões de homens assim agora. Homens que carregam segredos de família para não quebrar promessas feitas aos mortos. Homens que sorriem enquanto estão se destruindo por dentro. Homens que perdoam seu irmão, pai, esposa, amigo, porque quebrar laços familiares pesa mais do que carregar o fardo da traição.
Homens que aprenderam desde a infância que chorar é egoísmo, que sentir é fraqueza, que sorrir é a única forma de dignidade masculina. Esses homens têm corações grandes demais para um mundo que não ensinou nenhum homem como chorar. Ronaldinho é um deles, Adriano foi outro, e Garrincha também. E amanhã, no próximo episódio, vamos contar a história de um quarto.
Um homem que ganhou três campeonatos mundiais de Fórmula 1. Um homem que viu um colega morrer na pista. Um homem dirigindo um carro da Williams cruzou a curva Tamburello a 300 km/h em direção a um muro de concreto. Seu nome é Lenda. Seu nome ressoa no coração do Brasil até hoje, mas a verdade sobre a morte de Ayrton Senna nunca foi contada a você.
Se a história de Ronaldinho fez você pensar em alguém, ligue para eles hoje, não amanhã. Hoje, ligue para seu irmão, seu pai, seu filho, seu amigo. Ligue para ele, mesmo que ele responda mal, mesmo que ele diga que não precisa de nada, ligue para si mesmo. Porque a maior tragédia de Ronaldinho não foi sua prisão no Paraguai, foi que por 40 anos, ninguém em sua família teve a coragem de dizer a verdade sobre o irmão que ele amava.
E dizer a verdade no momento certo poderia ter salvo 30 anos de mentiras. Se você conhece alguém que carrega um segredo de família como este, diga a eles hoje. Diga a verdade. É melhor sentir a dor de saber do que a dor de descobrir, porque o dinheiro vem e vai, a fama vem e vai, mas a maneira como você escolheu viver, isso permanece.
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