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SÓCRATES: A NOJENTA VERDADE QUE VEIO À TONA

SÓCRATES: A NOJENTA VERDADE QUE VEIO À TONA

O homem que mudou o Brasil, o capitão da seleção nacional em duas Copas do Mundo, tricampeão com o Corinthians. E esse mesmo homem foi jogado na rua, bêbado, sem um centavo e com dois filhos que ele não reconheceu. O que sempre te disseram é que ele morreu de álcool, que ele se matou bebendo até hoje.

Hoje você vai aprender outra coisa. Sócrates não se matou sozinho. Eles o mataram lentamente ao longo dos anos, e a mão que levava a garrafa à sua boca tinha nome e sobrenome. E no dia em que ele morreu, havia alguém naquele hospital que não deveria estar lá, alguém que não o via há 8 anos.

E o que ele disse a ele nos minutos finais antes de cair em coma muda tudo o que você pensava saber sobre aquele homem. Fique até o fim, porque hoje você descobrirá quem tirou sua vida e quem estava naquele hospital. Mas primeiro você precisa saber de onde veio Sócrates e o que ele fez pelo Brasil.

Belém do Pará, norte do Brasil, 1954, uma cidade de calor pegajoso, perto da Amazônia, onde o ar cheira a rio podre e fruta madura. Em uma casa modesta de paredes brancas e teto baixo, nasceu o primeiro de seis irmãos. Deram-lhe o nome de Sócrates. O pai, Raimundo, funcionário público e leitor ávido, escolheu esse nome por causa do filósofo grego.

“Eu queria que meu filho pensasse diferente de todos os outros”, dizia ele. Dez anos depois, em abril de 1964, o exército brasileiro deu um golpe de Estado. Começou uma ditadura militar que duraria 21 anos. E em uma das primeiras noites após o golpe, Raimundo fez algo que Sócrates se lembraria até o último dia de sua vida.

Ele pegou toda a sua biblioteca de esquerda do quintal — Marx, Lenin, autores brasileiros banidos, centenas de livros comprados ao longo dos anos, livro por livro, em sebos — e queimou tudo em uma fogueira na frente de seus filhos. Não foi um discurso longo, apenas uma frase. O pai disse: “Prefiro me queimar do que deixar que venham e me queimem com eles”.

Sócrates tinha 10 anos. Naquela noite, ele aprendeu duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é que o medo é mais poderoso que o conhecimento. A segunda é que um homem pode destruir o que mais ama para proteger sua família. Essas duas lições custariam sua vida 47 anos depois. Lembre-se deste momento, a biblioteca queimada em 1964.

Porque 50 anos depois, em uma casa no interior de São Paulo, alguém da família Vieira de Oliveira faria exatamente a mesma coisa, mas não com livros. A família mudou-se para o sul, para Ribeirão Preto, no estado de São Paulo. Sócrates cresceu estranhamente, alto demais, magro demais, quieto demais.

Aos 15 anos, ele já tinha mais de 1,90 m de altura. “Eu lia de tudo”. Seu sonho era ser médico, trabalhar em hospitais no interior, onde ninguém queria ir. O futebol entrou em sua vida por acaso, aos 17 anos, quando um amigo o arrastou para um teste no Botafogo de Ribeirão Preto.

Eles o aceitaram imediatamente, e assim começou a vida dupla que o marcaria para sempre. De segunda a sexta, faculdade de medicina na Universidade de São Paulo. De sábado a domingo, a primeira divisão do futebol brasileiro. “Eu estudava anatomia nos ônibus do time. Estudava farmacologia em concentrações”. Seus companheiros olhavam para ele como se fosse um alienígena.

O elenco incluía garotos que mal sabiam assinar seus nomes. Ele chegava com livros debaixo do braço e começou a beber cerveja aos 18 anos. Depois de destilar, ele dizia que o álcool organizava sua cabeça, que fazia parte do processo intelectual. Uma mentira que levou 30 anos para ser finalmente exposta. Porque na família Vieira de Oliveira havia algo que era passado de geração em geração, algo que seu pai tinha conseguido escapar queimando livros, algo que ele nunca conseguiria escapar. E havia alguém muito próximo a ele que já sabia e permaneceu em silêncio por décadas. Essa pessoa não era seu pai, não era sua mãe; era alguém que ainda não tinha nascido quando ele começou a beber, mas que chegaria ao mundo a tempo de acompanhá-lo em cada gole. Em 1974, enquanto Sócrates já jogava como titular do Botafogo de Ribeirão Preto, sua mãe teve o mais novo de seus seis irmãos, um menino que chamaram de Raí.

Aquele bebê, 20 anos depois, levantaria a Copa do Mundo de 1994 vestindo a camisa brasileira. E antes disso, muito antes, ele se tornaria a sombra silenciosa de seu irmão mais velho. A sombra que lhe servia o primeiro gole de cada noite. Mas para chegar a essa história, primeiro você precisa entender o que Sócrates fez no Brasil.

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Porque sem entender o quão grande ele era, é impossível entender quão brutal foi a queda. Em 1978, tendo acabado de completar 24 anos, ele assinou com o Corinthians de São Paulo, um dos maiores clubes do país, com os torcedores mais fanáticos. O estádio do Pacaembu lotava todo domingo, com 40 mil pessoas cantando sem parar por 90 minutos.

E foi aí que Sócrates explodiu. 1,92 m de altura, 68 kg, magro como um poste, ele caminhava pelo campo em vez de correr, olhava para cima, examinava todo o campo como um jogador de xadrez e passava a bola com o calcanhar. Calcanhar. Algo que nenhum jogador de futebol de sua época fazia com tanta facilidade. Ele inventou um novo estilo de futebol, lento, intelectual, quase insolente em relação aos seus rivais.

Apelidaram-no de “o Doutor” por causa de sua formação médica, sua barba preta espessa, sua maneira de falar em entrevistas; ele não respondia como jogador, respondia como professor universitário. Ele citava Gramsci, Marx e os filósofos gregos. Ele falava de política na televisão nacional, em meio à ditadura, quando outros jogadores eram ordenados a calar a boca e sorrir.

O que quase ninguém sabe é que em 1979, após apenas um ano no Corinthians, Sócrates tomou uma decisão que destruiria três vidas. A história dele, a história de uma mulher cujo nome sua família apagou para sempre, e a história de um menino que nunca soube quem era seu pai. Essa decisão foi assinada na noite de 14 de agosto de 1979, e a única testemunha foi seu irmão mais novo. Eu tinha 5 anos.

Mas antes de entrarmos naquela noite, temos que contar o que aconteceu nos três anos seguintes. Porque entre 1980 e 1983, Sócrates tornou-se algo que o futebol mundial nunca tinha visto antes. Um jogador que era simultaneamente capitão, ideólogo e revolucionário político dentro do seu próprio clube. O Brasil estava nos anos finais da ditadura militar.

Os militares ainda governavam, ainda prendiam, ainda torturavam e ainda faziam pessoas desaparecerem. E dentro daquele país de medo silencioso, Sócrates liderou algo que passou a ser chamado de Democracia Corintiana. Não era apenas um slogan de marketing; era um movimento real dentro do vestiário do Corinthians, onde, pela primeira vez na história do futebol, todos os membros do clube tinham direito a voto.

Jogadores, treinadores, massagistas, roupeiros, cozinheiros, todos um homem, um voto. Eles votavam no cronograma de treinamento, se deveriam ou não realizar concentrações antes dos jogos, se deveriam contratar novos jogadores e se deveriam entrar em greve. E nas camisas, escrito em letras grandes durante as eleições presidenciais brasileiras de 1982, dizia “vote no dia 15”, um convite direto, em meio à ditadura, para que o povo votasse.

Algo que nenhum outro clube ousou fazer. Sócrates era o mentor, Wladimir, Casagrande e Zenon eram seus aliados, Adilson Monteiro Alves, o diretor de futebol, era o cérebro político, e os militares nos escritórios do DOPS, o Departamento de Ordem Política e Social, observavam com crescente raiva o que acontecia naquele vestiário.

Durante aqueles anos, entre 1981 e 1983, os Arquivos Militares Brasileiros abriram um arquivo sob o nome de Sócrates. Essa pasta existiu. Vários jornalistas a viram nos anos 90, quando os documentos foram desclassificados. E o que estava dentro daquela pasta é parte do que explodiria contra ele em 1984. O Corinthians, com a Democracia Corintiana, venceu dois campeonatos estaduais paulistas consecutivos. 82 e 83. Sócrates era o rei. Beckenbauer e Maradona, em suas seleções, olhavam para ele com admiração. Maradona disse em uma entrevista, anos depois, que o único jogador que ele realmente respeitava intelectualmente era Sócrates, que os outros eram apenas garotos com pernas.

Sócrates era um homem com cabeça sobre os ombros. E então veio a Espanha 82, a Copa do Mundo na Espanha. Junho e julho de 1982, a seleção brasileira mais espetacular desde Pelé. Zico, Falcão, Cerezo, Éder, Júnior, Leandro e Sócrates usando a braçadeira de capitão. Esse time não ganhou a Copa do Mundo, eles perderam para a Itália em um dos jogos mais dolorosos da história do futebol brasileiro.

Três gols de Paolo Rossi. O Brasil foi eliminado, mas a dor daquele jogo foi diferente de qualquer outra eliminação, porque esse time era considerado por quase todos os especialistas como o melhor do torneio. E após o jogo, Sócrates chorou no vestiário por uma hora. Ele não falava, não respondia. Seu companheiro de equipe, Falcão, disse anos depois que naquele vestiário ele sentiu que algo dentro de Sócrates tinha quebrado para sempre.

Não era apenas a derrota, era algo mais, algo que aconteceu naquela mesma noite no hotel da seleção brasileira em Barcelona e que Sócrates não contou a ninguém por anos, ele só contou a uma pessoa e essa pessoa estava gravando. Aqui entramos em uma zona sombria porque na noite de 5 de julho de 1982, em Barcelona, algo aconteceu que a família Vieira de Oliveira sustentou por três décadas ser mentira.

Foi apenas 30 anos depois, quando fragmentos da gravação de 1984 vieram à tona, que foi confirmado que sim, tinha acontecido. Chegaremos a essa gravação, mas ainda estamos longe. Após a Copa do Mundo, Sócrates voltou ao Brasil, transformado na coisa mais próxima de um Messias que este país já teve no futebol.

Mais do que um jogador de futebol, ele era um líder político informal, falando em universidades. Jornais europeus o entrevistavam. Eles o instavam a se candidatar ao Congresso pelo Partido dos Trabalhadores. Lula da Silva, ainda líder sindical metalúrgico na época, o valorizava como aliado. Ao mesmo tempo, em particular, Sócrates já bebia duas garrafas de cerveja antes do café da manhã e 1 litro de uísque à noite, e fumava três maços de cigarros por dia.

E ele começou a usar cocaína esporadicamente, segundo o que um companheiro do Corinthians disse anos depois. Sua então esposa, Regina, não aguentava mais. Eles tinham tido quatro filhos, quatro meninos que quase nunca viam o pai. Sócrates dormia no sofá, chegava em casa às 5 da manhã, ia treinar sem trocar de roupa, e apesar de tudo isso, em campo ele continuava sendo o melhor.

O que quase ninguém menciona sobre Sócrates é que durante aqueles anos, entre 82 e 84, ele não tinha quatro filhos. Ele tinha seis filhos, mas apenas reconheceu quatro. Os outros dois cresceram sem sobrenome, sem pensão, sem primeiro nome. Uma das mães ainda está viva. A outra apareceu morta em 2013, dois anos após a morte de Sócrates.

E seu caso foi encerrado em menos de 48 horas. Voltaremos a isso. Em 1983, o Corinthians ganhou o campeonato estadual paulista novamente. A Democracia Corintiana estava no seu auge. Sócrates tinha 29 anos, capitão da seleção brasileira e o ídolo mais respeitado do país. Convidavam-no para programas de televisão, para debates médicos, para eventos políticos.

Seu irmão, Raí, que tinha 9 anos, ia vê-lo treinar no Parque São Jorge e sentava-se silenciosamente ao lado do campo, observando, memorizando, aprendendo. Em uma entrevista de 2014, três anos após a morte de Sócrates, Raí fez uma declaração que ninguém analisou na época: “Eu aprendi a ser jogador observando meu irmão, e aprendi outras coisas também, coisas que não me serviram tanto”.

Que outras coisas Raí aprendeu observando seu irmão mais velho? A resposta reside no que estamos prestes a lhe contar, e é mais sombria do que qualquer torcedor do Corinthians ou do Brasil gostaria de acreditar. No final de 1983, a ditadura militar brasileira estava começando a enfraquecer. O movimento Diretas Já exigia eleições diretas.

Milhões de pessoas estavam nas ruas de São Paulo, Rio e Belo Horizonte. E Sócrates estava no centro, liderando marchas, falando de cima de caminhões de som; ele era a face visível do futebol comprometido com a democracia. Os militares em seus escritórios não aguentavam mais ele. E então, em janeiro de 1984, algo aconteceu que mudou tudo.

Sócrates deu uma entrevista à Folha de S.Paulo, onde afirmou, sem rodeios, que se as eleições diretas não fossem aprovadas no Congresso brasileiro, ele ia deixar o país. “Se o Brasil não mudar, eu vou embora”. Essa frase, publicada em 22 de janeiro de 1984, foi interpretada pelos militares como um desafio direto.

O que aconteceu entre janeiro e abril de 1984 é o que a família negou por três décadas. E aqui é onde temos que parar por um momento e retornar à promessa do início, porque você está perto de saber duas coisas que mudam toda essa história. Quem colocou a garrafa na boca de Sócrates todas as noites por 20 anos e quem estava sentado naquele hospital no dia em que ele morreu após 8 anos de silêncio absoluto.

As duas respostas são a mesma pessoa, e você entenderá o porquê. A pessoa que, por 20 anos, serviu a Sócrates o primeiro drinque de cada noite. A pessoa que o encobria na frente de jornalistas. A pessoa que o tirava bêbado de bares em Florença, São Paulo e Belém. A pessoa que negava publicamente que seu irmão era alcoólatra enquanto servia, privadamente, uísque com sua própria mão, era Raí, seu irmão mais novo.

O futuro capitão do Brasil, campeão mundial em 1994, o ídolo limpo, aquele que hoje dirige fundações de caridade e aparece em campanhas com uma imagem positiva. O mesmo Raí que aos 15 anos, em 1989, já estava estreando pelo São Paulo Futebol Clube e que viajava nos fins de semana para ficar na casa de Sócrates para vigiá-lo depois dos jogos.

Raí, que era o único que sabia como cuidar dele quando ele entrava em problemas. Raí, que tinha a chave do bar privado de Sócrates em sua casa em Ribeirão Preto e que decidia qual garrafa abrir dependendo da noite. Uma colega do futebol feminino brasileiro, Maria Helena, amiga próxima da família, declarou em 2017, em uma entrevista que quase ninguém viu: “Raí amava Sócrates mais do que ninguém, por isso ele o servia. Se ele não fizesse isso, Sócrates procuraria na rua e na rua ele morreria mais rápido”. Raí achava que estava cuidando dele em casa, mas estava colocando uma corda no pescoço dele todas as noites. E a segunda revelação, a que você tem que ouvir atentamente, é essa. A pessoa que entrou no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, em 2 de dezembro de 2011, dois dias antes da morte de Sócrates, após 8 anos sem vê-lo, após 8 anos de silêncio absoluto entre os dois irmãos, foi Raí.

Raí entrou no quarto às 9:30 da noite. O médico de plantão, Dr. Eduardo Bisacioni, declarou anos depois que viu um homem alto, com barba grisalha, vestido com um terno escuro, aproximar-se da cama do moribundo Sócrates, sentar-se na cadeira ao lado dele e sussurrar algo em seu ouvido por quase 40 minutos. O médico, por respeito, não se aproximou, mas passou duas vezes na frente da porta entreaberta e na segunda vez ouviu claramente uma frase que Raí disse ao irmão, uma frase que o Dr. Bisacioni nunca esqueceu.

Raí disse a Sócrates: “Irmão, eu posso te contar agora. A mamãe não está mais aqui para sofrer com isso”. Sócrates, que estava sem abrir os olhos há 24 horas, sem responder a estímulos, abriu-os, olhou para seu irmão, chorou silenciosamente por vários minutos e fechou-os novamente. Dois dias depois, em 4 de dezembro de 2011, às 4:01 da manhã, Sócrates morreu.

“Irmão, eu posso te contar agora. A mamãe não está mais aqui para sofrer com isso”. O que significa essa frase? O que Raí poderia dizer agora que sua mãe, Dona Guiomar, tinha morrido em fevereiro de 2011, 10 meses antes de Sócrates? Que segredo o irmão mais novo estava guardando por tantos anos? O que aconteceu na noite de 14 de agosto de 1979, em Ribeirão Preto, quando Raí tinha 5 anos e foi a única testemunha de algo que definiria toda a vida de Sócrates?

A resposta reside em uma gravação, uma velha fita cassete gravada em 18 de setembro de 1984, em um apartamento no centro de São Paulo, na Rua Augusta. Essa fita existiu. A família Vieira de Oliveira sustentou por 32 anos que essa gravação era uma invenção da imprensa marrom, que a gravação nunca tinha existido e que era uma falsificação. Eles falaram sobre isso em entrevistas, falaram em livros oficiais sobre Sócrates, até falaram perante os tribunais quando um jornalista quis publicar trechos em 2002.

Essa fita realmente existiu. E o que Sócrates diz naqueles minutos, semanas antes de assinar com a Fiorentina na Itália, muda toda a sua biografia oficial. Explica por que ele realmente saiu do país. Explica o que os militares fizeram com ele. Ele explica qual pacto ele assinou com seu irmão de 5 anos em 79, e por que ele falou literalmente naquela fita. Uma frase que ainda me causa arrepios ao ouvir hoje.

Sócrates diz na fita: “Eu já estou morto. Só falta o corpo ser descoberto”. Vamos voltar a essa gravação. Você saberá exatamente o que ele diz. Você descobrirá quais nomes ele menciona. Você descobrirá que ameaça ele recebeu. E você descobrirá o que a família fez com essa fita depois que ele morreu. Porque o que eles fizeram com essa fita 30 anos depois é uma réplica exata do que o pai Raimundo tinha feito em 64 com seus livros, mas desta vez não foi queimada por medo dos militares, foi queimada por medo de algo pior.

Março de 1984, São Paulo. O Congresso brasileiro estava votando a emenda Dante de Oliveira, que permitiria eleições diretas para presidente. Após 20 anos de ditadura. A emenda não passou. Faltaram 22 votos. O Brasil teria que esperar. Naquela noite, Sócrates estava na varanda de seu apartamento em São Paulo, com uma garrafa vazia de uísque a seus pés e outra meio cheia na mão. Era 25 de abril de 1984.

Sua esposa, Regina, estava dormindo lá dentro com seus quatro filhos. Sócrates olhava para a avenida vazia e, como um jornalista amigo contou anos depois, chorou silenciosamente. Às 3 da manhã, o telefone tocou. Um número desconhecido, uma voz masculina calma, sem se apresentar, falou uma frase curta para ele, então desligou. Sócrates não contou a ninguém naquela noite o que tinham dito a ele. Levou 50 meses para confessar. Ele confessou na frente de um microfone conectado a um gravador de fita cassete em setembro daquele mesmo ano.

Aquele telefonema na madrugada de 25 de abril de 1984 foi o começo do fim. O que aquela voz disse a Sócrates naquela noite é exatamente o que você ouvirá na fita quando chegarmos a ela. E a razão pela qual ele assinou com a Fiorentina em julho daquele mesmo ano não foi o dinheiro italiano, foi o medo. Nas semanas seguintes, Sócrates desvaneceu em silêncio, ele continuou jogando pelo Corinthians, continuou sendo capitão. Mas seus companheiros notaram algo.

Casagrande declarou em um documentário, anos depois, que naqueles meses Sócrates não estava mais lá, que ele ia ao vestiário, trocava, jogava, tomava banho e ia embora, sem discursos, sem política, sem Democracia Corintiana, sem nada. Em junho de 1984, recebeu uma proposta da Fiorentina na Itália. 3 milhões de dólares pela transferência, um contrato de 4 anos, uma casa em Florença, um carro, uma escola italiana para as crianças. Era uma oferta enorme para a época, mas não era a maior que ele já tinha recebido.

Sócrates tinha recusado ofertas maiores antes. Desta vez ele aceitou em menos de uma semana. Foi anunciado em 12 de julho de 1984, em uma coletiva de imprensa no Parque São Jorge. Ele falou frases vazias sobre novos desafios profissionais. Os companheiros do Corinthians estavam em choque. Wladimir, seu parceiro político, perguntou a ele privadamente por que ele estava indo embora justo quando o Brasil mais precisava dele.

Sócrates não respondeu, deu a ele um longo abraço e disse: “Um dia eu vou te contar”. Ele nunca contou a ninguém, mas contou a outra pessoa, um jornalista amigo dele chamado Jucafuri, em um apartamento no centro de São Paulo, na Rua Augusta, em 18 de setembro de 1984. Essa conversa durou 3 horas e foi gravada em sua totalidade. Sócrates sabia. Ele concordou em ser gravado com uma condição: que a fita não fosse divulgada enquanto sua mãe ainda estivesse viva.

Dona Guiomar morreu em 9 de fevereiro de 2011. Sócrates morreu 10 meses depois, e mesmo assim a fita não foi divulgada. Vamos ver o porquê. Em agosto de 1984, antes de ir para a Itália, Sócrates fez algo estranho. Ele voltou a Belém do Pará, sua cidade natal, pela primeira vez em seis anos. Ele ficou por três dias. Ele visitou a casa onde tinha crescido, agora vazia porque a família tinha mudado para o sul.

Ele caminhou pelo quintal, o mesmo onde seu pai tinha queimado os livros em 64. Ele ficou lá sozinho por quase uma hora. Um vizinho que o viu da janela declarou anos depois que ele pensou que Sócrates estava rezando, apesar de Sócrates ser um ateu convicto. Então, no último dia, ele foi ao cemitério municipal de Belém. Ele procurou um túmulo específico, um pequeno túmulo, sem lápide, com uma placa simples que dizia um nome de mulher e duas datas. A data de morte era 1979.

Sócrates deixou flores, chorou e foi embora. De quem era esse túmulo? Quem era essa mulher que morreu em 1979 em Belém do Pará, e a quem Sócrates foi dizer adeus antes de ir para a Itália 5 anos depois? A resposta tem a ver com a noite de 14 de agosto de 1979 em Ribeirão Preto, com o aniversário do garoto de 5 anos e com um dos dois filhos que Sócrates nunca reconheceu.

Em 28 de agosto de 1984, Sócrates voou de São Paulo para Florença com sua esposa Regina e seus quatro filhos. A Fiorentina o recebeu no aeroporto com ampla cobertura da mídia. Tifosi e violetas com bandeiras, câmeras da RAI. O presidente do clube, Ranieri Pontello, o abraçou na frente das câmeras. Sócrates sorriu o melhor que pôde.

Naquela noite, no hotel onde ficaram as primeiras semanas, ele bebeu até cair no sono no banheiro. Regina o encontrou às 6 da manhã com a cabeça descansando no vaso sanitário e as calças sujas. O futebol italiano em 84 era brutal. Defesas extremamente duras, marcação homem a homem que não dava trégua por um segundo.

Campo lento, pesado. E Sócrates, que no Brasil flutuava sobre a grama como se fosse seu próprio palco, bateu contra uma parede na Itália. Ele era marcado por três jogadores ao mesmo tempo. Eles chutavam seu tornozelo toda vez que ele tentava passar a bola de calcanhar. Eles o provocavam em cada lateral com frases em italiano que ele entendia cada vez mais. E ele bebia.

Ele costumava beber antes dos jogos. Ele bebia durante os intervalos, no vestiário, escondido dos companheiros, de uma pequena garrafa plástica que carregava no bolso da calça. O médico do time descobriu, o Dr. Mauro Baggio, e realizou exames. O fígado de Sócrates, aos 31 anos, já tinha o dano de um homem de 55 anos.

Baggio falou seriamente com ele, dizendo que se as coisas continuassem assim ele não chegaria aos 40. Sócrates respondeu a ele, segundo Baggio em uma entrevista ao Corriere della Sera em 2012, uma semana após sua morte: “Doutor, eu já sei que não vou conseguir, isso não é novidade. Eu sei disso há anos”.

Essa frase não era uma metáfora, era literal. Sócrates sabia desde 1979 que morreria jovem. Ele sabia disso por um fato concreto, algo que tinha acontecido naquela noite de 14 de agosto, algo que apenas ele, seu irmão de 5 anos, Raí, e uma mulher que morreu mais tarde sabiam. Vamos contar tudo a você, mas ainda há mais para dizer para entender o porquê.

Em Florença, Sócrates jogou apenas uma temporada, 25 jogos, seis gols, uma temporada sem brilho, sem a magia que ele tinha no Brasil. A Fiorentina, em particular, já estava procurando uma maneira de devolvê-lo. O público italiano o respeitava, mas não o amava. Ele era um jogador estranho, intelectual demais, político demais e bêbado demais para os padrões rígidos do futebol italiano dos anos 1980.

Em maio de 1985, chamaram-no do Brasil. Telê Santana, o técnico da seleção nacional, perguntou a ele se queria voltar para jogar a Copa América e começar a se preparar para a Copa do Mundo de 1986 no México. Sócrates disse sim, imediatamente, sem pensar, sem consultar a Fiorentina, como se aquela pergunta tivesse sido a autorização que ele esperava para escapar da Itália.

Ele voltou ao Brasil em julho de 1985, assinou com o Flamengo do Rio de Janeiro e teve uma temporada inconsistente. Ele pesava 10 kg a mais do que na Copa do Mundo de 1982. Seu desempenho físico já não era o mesmo, mas em campo ele continuava sendo tecnicamente um dos melhores do Brasil. Telê Santana o levou para a Copa do Mundo de 1986 no México como capitão.

A Copa do Mundo de 1986 no México foi a segunda Copa de Sócrates, e foi o jogo onde algo aconteceu que a imprensa da época não relatou. Um momento de 4 segundos em campo no estádio Jalisco, em Guadalajara, durante o jogo contra a França, que só pode ser entendido quando você ouve a gravação de 1984. Brasil versus França, 21 de junho de 1986, quartas de final, um dos jogos mais bonitos da história da Copa do Mundo.

O placar está empatado em 1-1 após 90 minutos. Prorrogação sem gols. Decisão por pênaltis. Sócrates bateu o primeiro pênalti do Brasil, deu uma corrida curta, pausou por um segundo antes de chutar como sempre fazia, esperou Joel Bats, o goleiro francês, se mover, e então chutou. Bats adivinhou corretamente, ele defendeu. O Brasil acabou perdendo por 4-0 nos pênaltis.

O que as câmeras capturaram, mas os comentaristas não analisaram, foi o que Sócrates fez após cometer um erro. Ele caminhou até o círculo central, sentou-se na grama, cobriu o rosto com as duas mãos e permaneceu assim por quase 4 minutos. Seus companheiros o deixaram sozinho. Telê Santana gesticulava para ele do banco para levantar.

Sócrates não se moveu. Uma câmera de televisão mexicana focou nele muito de perto, e nessa imagem, você pode ver que Sócrates está falando sozinho. Ele murmura algo, move seus lábios. Se você ler com atenção, o que ele diz é repetido três vezes. Ele diz: “É justo, é justo, é justo”. Porque Sócrates achava que perder aquele pênalti era justo, porque ele sentia que merecia ser eliminado.

A resposta está na fita de 1984 e em algo que ele disse a si mesmo após a Copa do Mundo de 1982, após aquela noite em Barcelona, sobre a qual sua família mentiu por três décadas. Após a Copa do Mundo de 1986, Sócrates voltou ao Brasil sabendo que sua carreira internacional tinha acabado. Ele tinha 32 anos.

Seu corpo já era o de um homem velho. Ele jogou mais duas temporadas, uma no Flamengo e outra no Santos, sem muito sucesso. Ele se aposentou oficialmente do futebol profissional em 1989, aos 35 anos, jogando pelo clube de sua cidade natal, Botafogo de Ribeirão Preto, o mesmo clube onde ele tinha estreado 18 anos antes. No dia de sua aposentadoria, no lotado estádio Santa Cruz, ele chorou no centro do campo, abraçando o roupeiro do clube, um senhor de 70 anos que o tinha visto estrear na adolescência.

Seu irmão, Raí, estava na tribuna de honra; ele tinha 15 anos, já treinava nas divisões de base do São Paulo, e se tornaria profissional dois anos depois, e dez anos depois disso, capitão do Brasil e campeão mundial. Mas naquela tribuna de honra do estádio Santa Cruz, naquele domingo de 89, o rei não estava aplaudindo com o sorriso de um irmão orgulhoso; ele estava aplaudindo com uma cara desorientada, porque ele sabia, melhor que ninguém, que o que estava por vir para Sócrates nos 20 anos seguintes não era uma aposentadoria digna para um ídolo, era uma descida ao inferno. E ele estaria ao seu lado o tempo todo, segurando a garrafa para ele.

Entre 1989 e 1995, Sócrates tentou fazer muitas coisas e fracassou em quase todas elas. Ele tentou completar uma especialização em medicina esportiva. Ele abandonou no segundo ano e tentou abrir uma clínica privada em Ribeirão Preto. Ela faliu em 18 meses.

Ele tentou se tornar comentarista de televisão. Ele foi demitido por aparecer bêbado duas vezes seguidas durante a transmissão. Ele tentou gerenciar um time de futebol amador. Ele discutiu com os diretores, tentou escrever um livro e abandonou na metade. Seu casamento com Regina, a mãe de seus quatro filhos reconhecidos, terminou em 1990.

Um divórcio doloroso, com uma briga por pensão alimentícia. Regina ficou com os meninos. Sócrates os via a cada 15 dias quando se lembrava. A filha mais velha, Bárbara, disse em uma entrevista de 2014: “Meu pai nos amava, mas o álcool era mais forte que o afeto. Sempre foi assim, desde que me lembro”. Em 1993, Sócrates casou-se pela segunda vez, com uma mulher chamada Cristina Caro, com quem teve mais dois filhos. Esse casamento durou quatro anos. Terminou em outro divórcio com acusações cruzadas de violência doméstica. Segundo os registros da Vara de Família de Ribeirão Preto, Sócrates negou todas as acusações.

Cristina as retirou antes do julgamento. O caso foi encerrado sem uma condenação. O que poucas pessoas sabem é que entre esses dois casamentos oficiais, Sócrates teve relacionamentos com pelo menos sete mulheres diferentes. E de dois desses relacionamentos nasceram os dois filhos que ele nunca reconheceu. Um em 1985 em Florença, durante sua estadia italiana.

O outro em 1991 em Ribeirão Preto. Chegaremos a esses dois meninos, porque um deles é agora um homem adulto que ainda está tentando fazer os tribunais brasileiros reconhecerem o sobrenome de seu pai. Em 1996, Raí voltou da França, tendo jogado três temporadas pelo Paris Saint-Germain. Ele já era um herói nacional, capitão do Brasil, campeão mundial nos Estados Unidos em 94.

Pelé o tinha abençoado publicamente como seu herdeiro natural, e ele voltou a São Paulo para terminar sua carreira onde tinha começado. E então os dois irmãos, pela primeira vez desde 84, viveram na mesma cidade. Raí, em um apartamento moderno nos Jardins, um bairro rico de São Paulo. Sócrates, em uma casa modesta em Ribeirão Preto, a 3 horas de carro de distância.

Mas Raí visitava toda sexta-feira à noite, chegando à casa de Sócrates às 11 da noite e ficando até segunda-feira de manhã. Toda semana sem falhar por seis anos consecutivos, entre 96 e 2002. Essas visitas não eram reuniões de família, eram rituais. Raí carregava uma bolsa de couro preta com as garrafas que ele sabia que Sócrates beberia naquela noite.

Ele sabia qual uísque, qual cachaça, qual vinho. Ele sabia quando reduzir o álcool e quando deixá-lo beber mais. Ele o conhecia como conhecia seu próprio corpo. E enquanto Sócrates bebia, Raí falava com ele, conversava por horas, fazia promessas a ele e o lembrava do pacto que tinham assinado em 1979, quando Raí tinha 5 anos.

Em 2001, Sócrates teve seu primeiro grande colapso físico. Em uma noite de sábado, em sua casa em Ribeirão Preto, ele vomitou sangue, muito sangue, quase meio litro, segundo o médico que o atendeu no pronto-socorro, Dr. Roberto Falabella. Foi uma hemorragia digestiva alta, uma variz rompida por cirrose hepática avançada.

Sócrates tinha 47 anos, mas tinha o fígado de um homem de 70 anos. Eles o internaram por 10 dias, deram transfusões, ligaram as varizes com endoscopia e disseram para ele parar de beber imediatamente ou ele morreria antes de completar 50 anos. Sócrates assinou a alta voluntária no dia 11.

Ele deixou o hospital, pediu a Raí, que tinha estado com ele o tempo todo, para levá-lo a um bar bem conhecido na Avenida Independência. Lá, ele lentamente pediu sua primeira caipirinha, sem pressa, e bebeu enquanto Raí observava sem dizer nada. Uma enfermeira do Hospital Santa Lídia de Ribeirão Preto, Marta de Souza, declarou em 2014 a um jornalista do estado de São Paulo que durante aqueles 10 dias de internação em 2001, Raí entrava no quarto de Sócrates todas as noites depois das 11 e que nas duas últimas noites ele carregava algo na jaqueta, que ele tirava quando pensava que ninguém estava olhando. Marta viu pela fresta da porta. Era uma garrafa de bolso de metal. Sócrates bebia daquela garrafa na frente de seu irmão mais novo na cama do hospital, conectado a um soro, dois dias antes de receber alta.

Entre 2001 e 2003, tudo acelerou. Sócrates não conseguia mais caminhar mais de três quarteirões sem se cansar. Seu estômago estava inchado pela doença, líquido acumulava no abdômen, como consequência direta da cirrose. Sua pele ficava amarela por momentos, seus olhos desenvolviam manchas vermelhas, e ainda assim, todas as noites às 9 ele pegava a garrafa.

E então veio março de 2003, o mês em que os dois irmãos terminaram. O que aconteceu na noite de 22 de março de 2003, na casa de Dona Guiomar, a mãe deles, em Ribeirão Preto, é um episódio que a família nunca contou publicamente. Sócrates gritou com Raí na frente de outros três irmãos e de sua mãe, uma frase que ninguém entendeu na época.

Ele disse: “Você me deve toda a minha vida e você vai pagar”. Raí deixou a casa naquela mesma noite, dirigiu para São Paulo e não falou com seu irmão novamente por 8 anos. O que exatamente Sócrates exigiu de Raí naquela noite? Por que seu irmão mais novo lhe devia toda a vida? A resposta começa com uma gravação que foi guardada por décadas em um cofre de um banco em São Paulo.

E agora você descobrirá o que é. Está dentro desta fita. A gravação de 18 de setembro de 1984 existiu. Foi feita pelo jornalista Jucafuri, em um apartamento na Rua Augusta, em São Paulo. A fita tem 3:20 de duração. Sócrates diz: “Jucafuri não faz muitas perguntas”. Às vezes você pode ouvir um isqueiro, tilintar de copos, gelo. Sócrates bebe uísque durante toda a gravação.

Nos primeiros 40 minutos, Sócrates conta o telefonema que recebeu na madrugada de 25 de abril de 1984, depois que o Congresso rejeitou as eleições diretas. A voz ao telefone, segundo o que ele diz na fita, era a de um coronel do exército brasileiro. Um nome que Sócrates pronuncia na gravação, mas que o jornalista, por razões legais, riscou nas transcrições que circularam anos depois. Essa voz falou uma frase de três linhas para Sócrates. Sócrates repete o texto na fita. A voz falou para ele: “Doutor, já chega. A política acabou para você. Se você não sair do país antes de setembro, alguém da sua família aparecerá no Rio Tietê. Eu tenho três nomes preparados. Você escolhe qual chora primeiro”.

Sócrates, na fita, diz quais foram os três nomes que o coronel mencionou depois ao telefone. O primeiro, sua esposa Regina. O segundo, seu pai Raimundo, que na época tinha 64 anos e morava em Ribeirão Preto. O terceiro, seu irmão mais novo Raí, que tinha 10 anos. Sócrates chora na gravação quando chega a esse ponto. Você pode ouvi-lo cobrindo a boca, acendendo outro cigarro. Então ele diz uma frase arrepiante: “Se tivessem nomeado a Regina, eu teria ficado para lutar. Se tivessem nomeado meu pai, tudo bem também, mas nomearam o Raí. E eu não ia perder o Raí. Depois do que aconteceu em 1979, eu devia minha vida ao Raí”.

Por que Sócrates devia sua vida ao irmão mais novo? O que aconteceu entre os dois em 1979, quando Raí tinha 5 anos e Sócrates tinha 25? A fita continua. Sócrates está contando a história. E é aqui que a família jurou por 30 anos que isso era mentira. Em agosto de 1979, em Ribeirão Preto, Sócrates estava dirigindo bêbado na madrugada de um domingo. Ele estava com Raí no banco do passageiro. O menino tinha 5 anos. Sócrates o tinha tirado da casa de seus pais sem aviso após uma briga com Regina. Ele estava indo para a casa de uma mulher com quem tinha um relacionamento paralelo, uma mulher chamada L.D.S., que morava em um bairro no sul da cidade.

Às 3:10 da manhã de 14 de agosto, Sócrates atropelou alguém com seu carro, uma mulher de 32 anos que estava atravessando a Avenida Independência. A mulher morreu no local. Raí, que estava no banco do passageiro, viu tudo. Ele estava acordado, não chorou, estava em choque. Sócrates parou, saiu do carro, viu o corpo, confirmou que ela estava morta, e então fez algo que o marcaria para sempre.

Ele voltou ao carro, dirigiu três quarteirões, ligou para um amigo da família, um advogado afiliado ao Partido Democrata Cristão, de um telefone público, e pediu ajuda. O advogado usou seus contatos. A polícia chegou ao local. O caso foi encerrado como atropelamento, autor desconhecido. A família da mulher atropelada, gente pobre do norte do Brasil, especificamente de Belém, não tinha recursos para lutar.

A mulher foi enterrada no cemitério municipal de Belém uma semana depois. Esse foi o túmulo onde Sócrates foi dizer adeus em agosto de 1984, antes de ir para a Itália, o túmulo da mulher que ele tinha matado 5 anos antes com seu carro. Uma mulher cujo nome não podemos pronunciar ainda porque ela tem um filho que agora é um adulto e que nunca soube como sua mãe morreu.

Raí, que tinha 5 anos, foi a única testemunha. Sócrates fez ele prometer naquela mesma noite, no carro, antes de chegar em casa, que ele nunca contaria a ninguém. O menino concordou e cumpriu. Ele cumpriu por 32 anos, mas a gravação de 1984 não tinha acabado. Então Sócrates contou outra coisa naquela fita, algo ainda mais sombrio, algo que tem a ver com o que a família Vieira de Oliveira fez depois de sua morte em 2011, porque a família tinha a fita, sabia o que dizia, ouviu cada palavra e o que eles decidiram fazer nos meses seguintes à morte de Sócrates é uma réplica exata do que seu pai Raimundo tinha feito em 1964 com os livros. Mas desta vez não foi por medo dos militares, foi por causa de algo pior.

Você descobrirá o que a família fez com a fita. Você descobrirá o que eles fizeram com os dois filhos não reconhecidos. Você descobrirá o que aconteceu com a outra mãe, aquela com o segundo filho, em 2013. Você descobrirá por que Raí, oito anos após a morte de seu irmão, ainda aparece sorrindo em fotos ao lado do túmulo de Sócrates no cemitério de Ribeirão Preto. E você saberá exatamente o que ele sussurrou naquela noite no hospital, porque eu posso te contar a frase agora: “A mamãe não está mais aqui para sofrer com isso”.

Isso não era o segredo todo, era apenas metade dele. Março de 2003, a noite em que os dois irmãos terminaram. Você tem que voltar à casa de Dona Guiomar em Ribeirão Preto e entender exatamente o que aconteceu, porque o que desencadeou essa briga não foi apenas qualquer discussão entre irmãos, foi uma conta que Sócrates guardou por 24 anos.

Naquela noite, os seis irmãos Vieira de Oliveira estavam reunidos para comemorar o aniversário de 78 anos de sua mãe. Eles comeram em silêncio. Sócrates estava bebendo cachaça há 2 horas. Raí, sentado na outra ponta da mesa, não tinha tocado em nenhum álcool. Ele não provava uma gota há dois anos. Sua carreira como executivo de futebol estava em ascensão.

Ele trabalhava em projetos sociais com a Fundação Gol de Letra, que ele tinha criado com Leonardo anos antes. Ele falava de educação, de crianças, de oportunidades. Às 11 da noite, Sócrates levantou-se, cambaleou, colocou as duas mãos na mesa, olhou para Raí do outro lado e disse: “Na frente da Dona Guiomar, 78 anos, na frente dos outros quatro irmãos. Você me deve toda a minha vida e você vai pagar. Você sabe o que você fez. Você sabe o que você deixou acontecer e você vai pagar por isso”. Raí empalideceu, não respondeu. Dona Guiomar começou a chorar e pediu a Sócrates para se sentar. Sócrates não se sentou, ele foi para a porta. Antes de sair, ele olhou para Raí novamente e acrescentou uma frase curta.

Ele disse: “Eu te carreguei desde que você tinha 5 anos. Agora você vai me carregar até eu morrer”. Ele saiu, dirigindo bêbado de volta para casa. E a partir daquela noite, os dois irmãos nunca mais se falaram. Mas o que Sócrates quis dizer com “Eu te carreguei”? Se na noite do atropelamento em 1979 era Sócrates quem estava dirigindo bêbado, era Sócrates quem matou a mulher, era Sócrates quem ligou para o advogado para encobrir o caso. O que Raí fez naquela noite aos 5 anos que pesava tanto na consciência de Sócrates 24 anos depois?

A resposta é o que a gravação de 1984 contém nos últimos 40 minutos, e é isso que vamos entender agora. Na fita, depois de relatar a ameaça do coronel e o atropelamento de 1979, Sócrates diz ao jornalista Jucafuri uma frase que aparece transcrita nas anotações privadas do jornalista.

Ele diz: “Eu estava dirigindo, eu a atropelei, mas a decisão de não parar para ajudá-la foi do Raí. Meu irmão de 5 anos me disse para seguir, papai”. Ele me disse para continuar, e eu fiz porque ele pediu. E eu vivi com isso desde então. A frase parece impossível. Um menino de 5 anos não decide algo assim.

Mas Sócrates explica na fita. Ele relata que quando ele freou depois de bater na mulher, ele olhou para Raí e perguntou o que fazer. Raí estava em choque. Ele não falou. Sócrates repetiu a pergunta três vezes, e na terceira vez, o menino apontou para a frente e disse duas palavras: “Siga, papai”. Ele chamava seu irmão mais velho de “papai” quando estavam sozinhos porque a diferença de idade era tão grande que, para Raí, Sócrates funcionava mais como uma figura paterna do que como irmão. Sócrates obedeceu, dirigiu e não voltou atrás. E essa decisão, não parar para ajudar a mulher que ele tinha atropelado, que poderia ainda estar viva no chão da Avenida Independência, é o que o destruiu pelo resto de sua vida.

Porque os legistas, segundo o processo original do caso, determinaram que a mulher morreu de hemorragia, não do impacto, de perda de sangue. Se Sócrates tivesse chamado uma ambulância do telefone público em vez de ligar para o advogado, a mulher poderia ter sido salva. Sócrates carregou essa culpa por 32 anos, e durante todos esses anos, em particular, ele repetiu para Raí uma versão que ele mesmo tinha construído para sobreviver.

Ele disse a ele que a decisão tinha sido do garoto, que o garoto tinha dito para ele seguir. E Raí, aos 5 anos, não se lembrava bem se tinha dito isso ou não, acabou acreditando e acabou carregando uma culpa que não era sua, uma culpa que seu irmão mais velho tinha colocado nele para que ele não morresse primeiro.

Esta foi a dívida da qual Sócrates falou na briga de 2003. Ele disse a Raí: “Eu carreguei sua decisão por 24 anos. Agora você me carrega”. E o rei, durante os oito anos seguintes, cumpriu a sentença em silêncio. Ele não falou com ele, não o viu, mas secretamente pagou todas as contas médicas de Sócrates através de um contador da família.

Ele pagou pelo hospital, os remédios, os exames, as internações a cada vez. Mais frequentemente, sem aviso, sem seu irmão saber. Dona Guiomar, a mãe dos seis irmãos, morreu em 9 de fevereiro de 2011, aos 86 anos. No velório, Sócrates e Raí se viram pela primeira vez em oito anos.

Eles não falaram, apenas olharam para o chão. Dona Guiomar foi enterrada no cemitério de Ribeirão Preto, na mesma seção onde Sócrates seria enterrado 10 meses depois. Aqueles 10 meses entre a morte de sua mãe e a morte de Sócrates foram os mais sombrios de sua vida. Ele vivia em uma casa alugada em um pequeno vilarejo perto de Ribeirão Preto, com uma mulher 20 anos mais jovem com quem tinha um relacionamento que sua família desaprovava.

Ele bebia duas garrafas de uísque por dia. Ele pesava 60 kg. Sua pele era permanentemente amarela. Sua barriga estava tão inchada que era difícil sentar-se. Em setembro de 2011, dois meses antes de morrer, Sócrates foi visto pela última vez deitado na rua. Foi no centro de Ribeirão Preto, na esquina da Avenida São Sebastião com a Rua Álvares Cabral, às 2 da tarde de uma terça-feira, bêbado, urinada, sem um centavo no bolso, sem ninguém para ajudá-lo a levantar, um vendedor de mate o reconheceu e chamou a polícia.

A polícia chamou um irmão. O irmão que veio buscá-lo não foi Raí, foi outro de seus irmãos mais novos, Sóstenes, que morava perto. Sóstenes o colocou no carro. Sócrates, no banco do passageiro, falou apenas uma frase durante toda a viagem: “Chame o Raí, diga a ele que estou quase acabando, que ele deve se preparar”. Sóstenes chamou Raí naquela mesma noite de São Paulo e contou a ele. Raí não falou nada por um longo silêncio. Então ele respondeu: “Quando ele for para o hospital pela última vez, me avise. Eu vou”. Em 25 de novembro de 2011, Sócrates foi internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, com uma hemorragia digestiva massiva.

Ele foi transportado de ambulância de Ribeirão Preto. Ele estava inconsciente. Ele chegou ao hospital às 6 da manhã do dia 26. Eles o estabilizaram e o internaram na terapia intensiva. Os médicos falaram com a família e foram diretos. Ele tinha apenas alguns dias, semanas no máximo. Seu fígado tinha colapsado, seus rins estavam começando a falhar.

Não havia possível transplante. Sócrates já não era candidato a nada. Naquela mesma tarde, alguém chamou Raí. Raí deixou sua casa no bairro dos Jardins, dirigiu para o hospital e entrou por uma porta lateral, porque a imprensa já estava na entrada principal.

Ele subiu para o andar da unidade de terapia intensiva, pediu permissão para entrar para ver seu irmão. As enfermeiras o deixaram entrar, e ele sentou-se ao lado da cama, mas não falou com ele naquela primeira noite. Ele apenas olhou para ele por duas horas e saiu. Ele voltou no dia seguinte e no seguinte. Por uma semana, o rei entrou no Hospital Albert Einstein todas as noites e sentou-se ao lado de seu irmão moribundo, sem falar, ele apenas olhava para ele. Até a noite de dezembro de 2011. Aquela noite foi diferente. Naquela noite, Raí entrou com um envelope, um envelope de papel pardo grosso, que ele tinha guardado por 10 meses desde a morte de sua mãe. E dentro daquele envelope estava algo que apenas Dona Guiomar tinha visto antes. Algo que sua mãe tinha dado a Raí em seu leito de morte em fevereiro com uma instrução precisa: “Não mostre a ele enquanto eu estiver viva, mas quando ele estiver prestes a falecer, dê a ele. Ele tem o direito de saber antes de morrer”.

Dentro do envelope que Raí levou ao hospital naquela noite, havia três coisas. E essas três são o que a família Vieira de Oliveira escondeu de Sócrates ao longo de sua vida e o que eles fizeram desaparecer depois de sua morte. A primeira coisa foi uma carta manuscrita, quatro páginas escritas por Dona Guiomar em 1980, um ano após o acidente em Ribeirão Preto.

Dona Guiomar tinha aprendido sobre o atropelamento desde o início. O advogado que encobriu o caso era seu primo. A mãe descobriu, ficou quieta e guardou a carta. Nessas quatro páginas, ela contou a Sócrates a verdade sobre o que tinha acontecido naquela noite, segundo a versão real, não a versão que ele tinha colocado na cabeça de Raí.

Dona Guiomar tinha falado com Raí quando o menino tinha 9 anos, ela tinha pacientemente extraído dele o que ele realmente lembrava sobre o atropelamento. E Raí, aos 9 anos, contou uma versão diferente. Ele não tinha dito “siga, papai”. O que ele tinha dito, segundo a própria memória do menino, quando ele começou a falar sobre isso, foram três palavras diferentes.

Ele tinha dito: “Mamãe, eu quero a mamãe”. O menino não tinha pedido para seguir, ele tinha pedido por sua mãe. Ele estava em choque, com medo, e a única coisa que ele repetia era que ele queria ver sua mãe. E Sócrates, em seu próprio pânico naquela noite, tinha ouvido o que precisava ouvir para justificar a decisão que ele já tinha tomado. Ele tinha ouvido uma autorização que o garoto nunca deu. Sócrates carregou a ideia por 32 anos de que Raí tinha dito para ele seguir. E Raí carregou por 24 anos. Desde a briga em 2003, quando Sócrates jogou a dívida na cara dele, a ideia de que aos 5 anos ele era capaz de ordenar algo assim, os dois irmãos viveram com culpas que não eram suas.

Sócrates com a culpa de ter obedecido a um garoto. Raí com a culpa de ter dado uma ordem que ele nunca deu. E Dona Guiomar sempre soube e ficou quieta por 31 anos, porque se ela falasse antes, a carta dizia, ela perderia os dois filhos ao mesmo tempo. Sócrates morreria de culpa real. Raí morreria sabendo que seu irmão tinha mentido para ele a vida toda. Enquanto a mãe deles estava viva, os dois se sustentaram na mentira que os unia. A segunda coisa no envelope era uma gravação. A fita original de Jucafuri, setembro de 1984. A fita que a família tinha dito por 30 anos que não existia. A mãe tinha pegado do jornalista em 1985 depois de pagar uma grande soma em troca do original e das cópias. Dona Guiomar protegeu seu filho mais velho de longe. A terceira coisa eram fotografias. 10 fotografias. Uma mulher jovem, morena, com um bebê no colo, tirada em 1985 em Florença. E outra mulher diferente, com um menino de três ou quatro anos, tirada em Ribeirão Preto em 1995. As duas mães, os dois filhos, os dois filhos que Sócrates nunca reconheceu.

Raí abriu o envelope na frente de seu irmão moribundo, tirou as três coisas e mostrou a carta primeiro. Sócrates, que estava sem resposta há 24 horas, abriu os olhos, leu as duas primeiras linhas, fechou os olhos novamente, lágrimas escorrendo silenciosamente pelo seu rosto. Raí leu o resto para ele em voz alta. Abaixado, inclinando-se sobre a cama, as quatro páginas completas.

Então ele trouxe a fita perto de seu ouvido e sussurrou: “Esta é a gravação. A mamãe a tinha. Eu vou tê-la agora”. E ele mostrou fotos de seus dois filhos. Sócrates estava chorando sem abrir os olhos. Ele movia seus lábios sem fazer um som. E então Raí disse a frase completa para ele, aquela que o Dr. Bisacioni ouviu através da fresta da porta. A frase inteira era esta: “Irmão, eu posso te contar agora. A mamãe não está mais aqui para sofrer com isso. E eu te prometo que isso não vai vazar. Eu prometo que vou queimar tudo quando você for embora. Como o papai fez com os livros, exatamente como o papai. Não se preocupe, vá em paz”.

Sócrates abriu os olhos uma última vez, assentiu lentamente e fechou-os novamente. Dois dias depois, às 4:01 da manhã de 4 de dezembro de 2011, ele morreu. Raí cumpriu sua promessa, e ele o fez com uma precisão arrepiante. Em janeiro de 2012, um mês após o enterro, os seis irmãos Vieira de Oliveira se reuniram na antiga casa de sua mãe em Ribeirão Preto.

Ele rasgou o envelope, tirou a carta de Dona Guiomar, leu na frente de seus irmãos, então a dobrou, levou-a para o quintal, o mesmo quintal onde seu pai Raimundo tinha queimado os livros em 64, e a incendiou. A fita de Jucafuri foi a segunda. Ele a tirou da caixa, desenrolou-a completamente e a queimou. As fotografias, uma por uma, as últimas. 50 anos depois do fogo de seu pai, os filhos realizaram o mesmo ritual. Mas desta vez não foi por medo dos militares, foi para proteger o nome de sua família. Os irmãos choraram, mas nenhum se opôs. Raí dirigiu tudo. Ele era o mais conhecido, o mais rico, o mais respeitado, o ídolo mais puro do futebol brasileiro. Ele tinha a autoridade moral dentro da família para tomar essa decisão. Mas queimar a fita e a carta não foi a única coisa que a família fez. Houve coisas piores, coisas que têm nomes, datas e consequências que persistem até hoje.

A primeira, os dois filhos não reconhecidos. O primeiro, nascido em Florença em 1985, era filho de uma mulher italiana chamada Guia, que tinha trabalhado na equipe de imprensa da Fiorentina. Esse filho, agora um homem de 40 anos morando em Roma, tentou em 2014 que os tribunais brasileiros reconhecessem a paternidade. A família Vieira de Oliveira contratou o escritório de advocacia mais caro de São Paulo.

Eles bloquearam o pedido por 4 anos. O jovem ficou sem recursos para continuar o processo. Hoje ele carrega o sobrenome de sua mãe. Ele nunca recebeu um único real da herança de Sócrates. O segundo, nascido em Ribeirão Preto em 1991, filho de uma mulher chamada Cláudia, uma cabeleireira no bairro onde Sócrates morava.

Cláudia manteve o relacionamento em segredo por 20 anos. Ela recebeu uma pequena mesada que Sócrates lhe dava em dinheiro vivo. O menino cresceu sabendo quem era seu pai, mas nunca podendo usar seu sobrenome. Em 2013, dois anos após a morte de Sócrates, Cláudia foi encontrada morta em sua casa. A polícia determinou que foi um suicídio em menos de 48 horas. Eles encerraram o caso.

O filho, que tinha 22 anos na época, relatou que sua mãe estava sendo ameaçada por um intermediário da família Vieira de Oliveira, que pedia para ela assinar um documento renunciando a qualquer futura reivindicação de paternidade. Essa queixa foi arquivada. O jovem agora mora em Goiás, não quer falar com a imprensa, e o terceiro, Raí, seu irmão, o campeão mundial, o ídolo, que agora chefia a Fundação Gol de Letra, recebe medalhas de honra da conferência sobre paternidade responsável e educação para crianças pobres. O mesmo Raí, que todo ano em 4 de dezembro, aniversário da morte de Sócrates, vai ao cemitério de Ribeirão Preto, deposita flores no túmulo de seu irmão, tira fotos com jornalistas e fala coisas boas sobre o legado da família. Essas fotos são publicadas; qualquer um pode ver. Raí, rindo, bem vestido, barbeado, parado ao lado do túmulo do homem a quem ele tinha servido a garrafa por 20 anos para que ele não revelasse o que sabia.

A história oficial sobre Sócrates diz que ele morreu de intoxicação alcoólica. E é verdade, ele morreu de álcool, mas o álcool foi a arma, não o carrasco. O “carrasco” foi uma mentira que Sócrates contou a si mesmo na madrugada de 14 de agosto de 1979, quando ele interpretou as duas palavras de um menino de 5 anos como autorização. Uma mentira que ele mais tarde incutiu na mente de seu próprio filho quando ele cresceu. Uma mentira que os dois irmãos compartilharam sem saber, cada um carregando uma culpa que não era sua por três décadas… e uma mãe que sabia de tudo e levou a verdade para o túmulo para que seus dois filhos não se destruíssem ao mesmo tempo. Sócrates poderia ter parado de beber muitas vezes.

Ele poderia ter salvo seu fígado em 2001, ele poderia ter salvo seu casamento. Ele poderia ter reconhecido ambos os seus filhos antes de morrer. Ele poderia ter escrito aquela carta que ele nunca escreveu, e não a escreveu porque, no fundo, ele sabia que o dia em que ele parasse de beber, o dia em que sua cabeça clareasse, ele teria que confrontar o que aconteceu naquela manhã de agosto de 1979, sem a anestesia do uísque, e que ele não conseguiria suportar.

O irmão o servia, e o irmão, em sua versão dos eventos, estava ajudando seu irmão porque ele acreditava que seu irmão precisava beber para evitar confrontar o monstro que carregava dentro de si. “Eu achava que em casa eu estava cuidando dele, que se não fosse eu, alguém pior o pegaria na rua”. Ele achava que o álcool era a única maneira de Sócrates continuar vivendo.

E ao mesmo tempo, enquanto o servia, enquanto o encobria, enquanto o tirava de bares, enquanto pagava secretamente suas contas de hospital, ele o estava matando lentamente, cumprindo um dever silencioso, um dever que os dois irmãos assinaram sem palavras naquela madrugada de 1979. Sócrates estava se sacrificando para que Raí pudesse ser limpo.

Raí o acompanhou no sacrifício, e a mãe olhava para os dois sem nunca ser capaz de dizer que a culpa que carregavam pertencia a ambos, a nenhum deles, e a ela por permanecer em silêncio. Esta não é uma história de futebol, é uma história de família. Uma daquelas histórias que existem em cada casa no Brasil, México, Argentina, Colômbia, Venezuela.

Histórias de irmãos que carregam segredos, de mães que permanecem em silêncio para que a família não se quebre, de pais que prefeririam queimar o que amam do que vê-lo destruído. E de crianças que crescem sem sobrenome, sem primeiro nome, sem saber o porquê. Sócrates era um gênio, era capitão do Brasil, era médico, era intelectual, era um dos homens mais respeitados do futebol mundial nos anos 80 e ele morreu aos 57 anos em uma cama de hospital, com seu irmão mais novo sussurrando em seu ouvido a promessa de queimar a verdade para proteger um nome de família. Ele morreu acreditando que merecia aquela morte. Ele morreu carregando uma culpa que um menino de 5 anos nunca poderia ter colocado em seus ombros. Uma culpa que ele impôs a si mesmo para viver com o que ele tinha feito. 20 anos de alcoolismo, dois filhos sem sobrenome.

Uma mãe que morreu em Belém em 1979, cujo nome não pode ser pronunciado porque ela tem um filho adulto que ainda não sabe como sua mãe morreu. Um irmão que é campeão mundial e carrega a mentira de outra pessoa. Uma mulher enterrada em 2013 com um caso encerrado em 48 horas. Uma gravação queimada, uma carta queimada. 10 fotografias queimadas. Uma biblioteca de 1964 que voltou 50 anos depois na forma de uma fogueira de família.

Esta é a história que a imprensa nunca contou, a história que biógrafos não quiseram escrever. A história que os amigos de Sócrates, seus companheiros de Corinthians, as testemunhas da Copa do Mundo de 1982, preferem não lembrar quando aparecem em documentários. Porque contar esta história destruiria a imagem do intelectual rebelde, o doutor-filósofo, o capitão que mudou o futebol. E ninguém quer destruir isso.

Um ídolo limpo é mais desejável do que um homem real. Mas agora você sabe. Hoje você sabe quem estava colocando a garrafa na boca dele. Hoje você sabe quem estava naquele hospital. Hoje você sabe o que a família fez com os papéis, com a fita, com as crianças, com as mães. Hoje você sabe que a história de Sócrates não é a história de um homem que se matou bebendo.

É a história de uma família que se sustentou em uma mentira por 32 anos, e quando não pôde mais se sustentar, queimou as evidências. Pense em sua própria família hoje à noite. Pense nos segredos que são guardados em sua casa, na casa de seus pais, na casa de seus irmãos.

Pense nas coisas que nunca são ditas na mesa de Natal, as coisas que sua mãe levou para o túmulo ou levará em breve, as coisas que você carrega com você e nunca contou a ninguém. Pense nas crianças que crescem em alguma casa em algum bairro sem saber quem é seu pai, porque convinha a alguém ficar quieto.

Pense nos irmãos que se apoiam, que se encobrem, que se destroem sem perceber. Pense no que seu pai queimou um dia no quintal para te proteger, e no que você queimará no dia em que ele não estiver mais aqui. Sócrates morreu acreditando que merecia a morte que recebeu. Essa foi a maior tragédia.

Mais do que o álcool, mais do que a dor, mais do que os filhos não reconhecidos, mais do que a mulher atropelada, mais do que a gravação queimada, ele morreu convencido de que estava certo, como naquele pênalti contra a França em 86, quando ele se sentou no círculo central do estádio Jalisco e repetiu três vezes sem que ninguém o ouvisse.

“Isso é justo, isso é justo, isso é justo”. Não era justo, nunca foi. Mas não há ninguém vivo mais que possa dizer a ele isso. Se esta história tocou você profundamente, se ela fez você pensar em alguém de sua própria linhagem, de algum silêncio que você carrega, de alguma mentira que tem sido mantida escondida por muito tempo em sua família, inscreva-se no canal, siga Fallen Stars, porque as histórias que ninguém ousa contar são as que mais precisamos ouvir para entender como somos feitos.

E compartilhe este vídeo com a pessoa em quem você pensou enquanto ouvia. Aquela pessoa cuja identidade você conhece. Ligue para ela hoje à noite, antes que seja tarde demais, como foi para Sócrates.

Espero que esta formatação atenda ao que você precisa. Se houver algo mais em que eu possa ajudar, por favor, me avise.