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3 Anos Depois, Casal Que Desapareceu Na Serra Da Canastra É Visto Caminhando Na

3 Anos Depois, Casal Que Desapareceu Na Serra Da Canastra É Visto Caminhando Na

Em 14 de novembro de 2019, às 6h12, Renata Bastos Mourão ligou para a mãe de um telefone público na entrada de São Roque de Minas, no sudoeste de Minas Gerais. A ligação durou 47 segundos. Renata disse que ela e seu marido, Osvaldo Pires Mourão, estavam bem, que iam passar o fim de semana acampando na Serra da Canastra e que voltariam para Ribeirão Preto na segunda-feira.

A mãe perguntou se eles tinham levado roupas de frio suficientes. Renata riu e disse que sim. Depois, desligou. Essa foi a última vez que alguém da família ouviu sua voz. O Fiat Palio cinza do casal foi encontrado 11 dias depois. Estacionado em uma área de cascalho perto da Cachoeira Casca d’Anta, com os vidros fechados e uma fina camada de poeira vermelha cobrindo o capô.

No banco de trás, havia um cooler com restos de comida estragada, dois sacos de dormir enrolados e uma cópia surrada de um guia de trilhas do parque. As chaves não estavam no carro. Nenhum dos celulares deles voltou a emitir sinal. O boletim de ocorrência de desaparecimento foi registrado pela mãe de Renata na delegacia de Ribeirão Preto na quarta-feira, 20 de novembro.

O policial que preencheu o boletim perguntou se o casal tinha problemas conjugais. A mãe disse que não. O agente perguntou se eles tinham dívidas. A mãe disse que não sabia. O policial anotou as informações, pediu uma foto recente e disse que o caso seria encaminhado.

Três anos e quatro meses depois, na madrugada de 18 de março de 2023, um caminhoneiro que transportava calcário ao longo da rodovia MG-050, no trecho entre Pium e Capitólio, avistou dois vultos caminhando no acostamento da estrada. Eram cerca de 3h30 da manhã. Não havia iluminação pública naquele trecho.

O caminhoneiro reduziu a velocidade e ligou o farol alto. Eram um homem e uma mulher. Eles caminhavam lentamente, lado a lado, sem mochilas, sem casacos, descalços. O caminhoneiro buzinou. Nenhum dos dois olhou para o lado. Ele continuou sua viagem e não parou. Dois dias depois, um morador da zona rural de Capitólio encontrou uma mulher sentada na varanda de um galpão abandonado a 6 km da rodovia.

A mulher estava suja, magra e com os pés feridos. Não falava. Ao lado dela, deitado no chão de terra batida, estava um homem com uma barba longa e olhos abertos, encarando o teto sem piscar. Eram Renata e Osvaldo Mourão, o casal que havia desaparecido na Serra da Canastra em novembro de 2019.

Esta não é uma história de fuga planejada, não é uma história de crime passional, não é uma história que a polícia conseguiu enquadrar em uma categoria conhecida. É a história de dois adultos comuns. Ela, técnica de enfermagem, 31 anos. Ele, eletricista industrial de 34 anos, foram acampar em um dos parques nacionais mais conhecidos do Brasil e desapareceram da vida organizada por mais de 3 anos, sem contato, sem rastro, sem explicação plausível do início ao fim. A Serra da Canastra cobre quase 200 mil hectares no sudoeste de Minas Gerais. É onde nasce o Rio São Francisco. Os planaltos no topo atingem altitudes de 1.496 m, cobertos por campos rupestres e vegetação de cerrado de altitude. As trilhas oficiais são bem marcadas, as não oficiais, nem tanto. Existem ravinas e vales estreitos e fechados, e trechos de mata densa onde o terreno cai sem aviso, e onde um grito não consegue chegar à trilha mais próxima.

Em novembro, o calor já é intenso. As chuvas começam a se intensificar no final da tarde, e a vegetação cresce rápido, o suficiente para cobrir qualquer vestígio em poucas semanas. Renata e Osvaldo conheciam a região. Eles já tinham ido ao parque pelo menos três vezes antes. Tinham equipamento básico, experiência em acampamento e o hábito de avisar suas famílias quando iam para o mato.

Naquele fim de semana, eles avisaram: disseram para onde iam. Disseram que voltariam, mas não voltaram. E quando reapareceram, mais de três anos depois, caminhando descalços em uma estrada escura no meio da noite, o que trouxeram com eles não foram respostas. São perguntas que permanecem sem resposta até hoje.

Se esse tipo de história faz você parar e pensar sobre o que pode acontecer quando duas pessoas simplesmente desaparecem em um país do tamanho do Brasil, você pode se inscrever no canal e deixar sua opinião nos comentários. Daqui em diante, a história caminha devagar, porque tudo o que aconteceu entre aquela ligação de telefone público e aquela madrugada na MG-050 precisa ser contado com cuidado.

O que acontece com uma família quando o telefone para de tocar e ninguém sabe o porquê? Em que ponto a esperança deixa de ser esperança e vira apenas rotina? O que significa reencontrar alguém que voltou, mas que não consegue explicar de onde veio? O que faz um casal inteiro desaparecer por 3 anos em uma região que tem estradas, cidades, moradores e postos de gasolina? Estamos em São Roque de Minas, novembro de 2019.

A estação chuvosa está começando. Este parque ainda recebe visitantes, mas os guardas já estão recomendando cautela perto das cabeceiras dos rios. O telefone público na entrada da cidade ainda funciona, e um Fiat Palio cinza acaba de passar pelo portão do Parque Nacional da Serra da Canastra com dois ocupantes, um cooler e sem pressa.

Osvaldo Pires Mourão pediu folga na sexta-feira, 15 de novembro, feriado da Proclamação da República. A ideia era emendar o feriado com o fim de semana e voltar na segunda-feira de manhã cedo, a tempo de bater o ponto às 7h na fábrica de autopeças onde trabalhava há 6 anos no distrito industrial de Ribeirão Preto.

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Renata não precisou negociar a dispensa. Ela trabalhava em turnos na unidade básica de saúde do Jardim Paulistano e já tinha trocado o plantão com uma colega. Os dois organizaram o carro na quinta-feira à noite após o jantar, não com a facilidade metódica de quem já tinha feito aquilo antes. A mochila de Osvaldo era sempre a mesma, uma mochila Deer verde-escura que ele tinha comprado em 10 parcelas em uma loja de artigos esportivos no Shopping Santa Úrsula. Como sempre.

Lanterna de cabeça, canivete suíço, 2 litros de água, barras de cereal, protetor solar e uma rede que ele amarrava entre dois galhos de árvore quando queria descansar no meio da trilha. Renata levava menos coisas. Um boné, uma jaqueta leve para a noite, um carregador de celular e um nécessaire com analgésicos básicos, remédio para alergia e pomada para picada de inseto.

Ela sempre dizia que se algo sério acontecesse, era ela quem resolveria, porque era ela a responsável pela saúde da casa. O casal morava em um apartamento de dois quartos no Jardim Macedo, um bairro de classe média baixa na zona sul de Ribeirão Preto. O prédio tinha três andares sem elevador, com garagem a céu aberto e um portão de metal que rangia toda vez que abria.

O apartamento ficava no segundo andar. A sala tinha um sofá cinza, uma televisão de 32 polegadas, uma estante com alguns livros e uma foto de casamento emoldurada em cima do aparador. Eles tinham se casado em 2016 em uma cerimônia simples no cartório do centro, seguida de um almoço para 20 pessoas em um restaurante por quilo do bairro.

Eles não tinham filhos. Não por decisão final. Renata dizia que queria esperar um pouco mais, guardar mais dinheiro e talvez mudar para um apartamento novo primeiro. Osvaldo concordava sem insistir. Ele era um homem de poucas palavras e muitos acordos. Na quinta-feira à noite, após carregar o carro, os dois comeram arroz, feijão e um ovo frito na pequena cozinha do apartamento.

Osvaldo lavou a louça. Renata conferiu o trajeto no guia de trilhas e marcou com uma caneta a entrada pela parte baixa da Casca d’Anta, que era a que eles preferiam, menos íngreme, com acesso mais fácil e uma área de acampamento informal perto do rio. Trancaram o apartamento por volta das 22h.

Desceram até o posto de gasolina na Avenida Caramoru. Encheram o tanque e compraram gelo para o cooler. E pegaram a rodovia SP-322 em direção a Franca. De Franca seguiriam pela BR-146 até Araxá e de lá desceriam pela MG-341 até São Roque de Minas. Uma viagem de pouco mais de 5 horas que os dois já tinham feito antes e que, naquela noite de novembro, parecia tão segura quanto qualquer outra.

Chegaram a São Roque de Minas antes do amanhecer. A cidade estava dormindo; até as ruas de paralelepípedo não estavam vazias. O único movimento era o de um padeiro abrindo a porta de uma padaria na rua principal. Osvaldo estacionou o carro perto da praça da igreja e os dois esperaram a luz do dia. Foi onde Renata desceu, caminhou até o telefone público na esquina e ligou para a mãe.

6h12 da manhã, 47 segundos. Tudo bem, mãe? Trouxemos roupas de frio. Voltaremos segunda-feira. Depois da ligação, os dois tomaram café na padaria. Pão francês, manteiga, café com leite. Osvaldo pagou em dinheiro. A atendente não conseguiu lembrar o rosto dele quando perguntada sobre isso semanas depois. Ela disse que naquela época muita gente passava por ali, gente de fora, gente indo para o parque, e que ela não prestava atenção em todos.

Saíram de São Roque de Minas pela estrada de terra que leva à entrada baixa do parque e à chamada entrada da Casca d’Anta. O trecho tem cerca de 20 km de estrada não pavimentada, com trechos de cascalho solto e poeira fina que sobe atrás do carro como uma cortina vermelha. Em dias de chuva, a estrada fica escorregadia e os buracos enchem de água barrenta.

Naquela sexta-feira, o tempo estava bom. Sol forte desde cedo, céu limpo, sem previsão de chuva até o final da tarde. Condições normais para novembro. O carro foi registrado na entrada do parque às 7h38. O guarda anotou a placa, o número de ocupantes e o destino declarado. Área de camping perto da cachoeira Casca d’Anta.

Não havia nada de anormal no registro. O guarda disse depois que o casal parecia relaxado, que a mulher sorriu quando ele desejou a ela uma boa caminhada, e que o homem apenas acenou. Eles entraram no parque e seguiram pela estrada interna até a área de estacionamento. A partir desse ponto, não há mais registros.

Não há câmeras na área de estacionamento, não há controle de saída e não há obrigação de informar o parque ao sair. O casal chegou, estacionou o carro, pegou o que precisava e caminhou em direção à trilha. Dois adultos saudáveis, experientes no bioma Cerrado, em um dia ensolarado, em um parque nacional aberto ao público, e depois, silêncio.

O telefone público ficava na esquina da Rua Direita com a praça principal da igreja em São Roque de Minas, a poucos metros da padaria onde Renata e Osvaldo tinham tomado café. Era um orelhão azul, daqueles que ainda funcionavam com cartão telefônico, instalado em um poste de concreto baixo com a logomarca desbotada da operadora e uma lista telefônica de plástico pendurada por um cabo de aço.

Em 2019, já havia pouquíssimos telefones públicos funcionando no interior de Minas Gerais. Aquele funcionava, e Renata o usou. A mãe dela, Dona Lourdes Bastos, morava sozinha em um apartamento de dois quartos na Rua Visconde de Inhaúma, no centro de Ribeirão Preto. Tinha 63 anos. Era aposentada pelo INSS e viúva desde 2011.

Seu marido, Hélio Bastos, tinha morrido de infarto fulminante no banheiro de casa, certa manhã de sábado, enquanto se barbeava antes de ir ao supermercado. Desde então, Dona Lourdes vivia só. Renata era a filha mais velha. Tinha um filho mais novo, Leandro, que morava em Campinas e trabalhava como motorista de aplicativo.

Os três falavam com frequência, mas era Renata quem ligava mais vezes. Toda semana, pelo menos duas vezes, às vezes três, Dona Lourdes tinha o hábito de acordar cedo. Às 5h30 já estava de pé, esquentando café no fogão, regando as plantas na varanda. Samambaias, espada-de-são-jorge, uma orquídea branca que nunca florescia, mas que ela insistia em manter.

O telefone fixo ficava na mesa da sala, ao lado de um porta-retratos com uma foto de Renata no dia do seu casamento. Quando a campainha tocou às 6h12 daquele 14 de novembro, Dona Lourdes atendeu no segundo toque. Você não achou o horário estranho? Eu conhecia a filha.

Eu sabia que Renata ligaria cedo quando estivesse viajando, antes de entrar em uma área sem sinal, para me avisar que estava tudo bem. A conversa não teve nada de especial. Renata disse que eles tinham chegado, que a estrada estava boa e que o tempo estava bom. A mãe perguntou sobre roupas de frio, ela sempre perguntava sobre roupas de frio, mesmo no calor, porque achava que esfriava demais à noite no mato.

Renata riu. Disse que sim, que tinham levado. A mãe disse: “Se cuida, filha”. Renata disse: “Pode deixar”, e desligou. Durou 47 segundos. Dona Lourdes não sabia naquele momento que aquela ligação telefônica se tornaria o último ponto de referência concreto da filha no mundo organizado.

Eu não sabia que repetiria o conteúdo daquela conversa dezenas de vezes. Para policiais, para bombeiros, para jornalistas, para vizinhos, para o psicólogo que começou a atendê-la um ano depois. Eu não sabia que aqueles 47 segundos seriam analisados, transcritos e arquivados em um inquérito que nunca deu em nada.

Naquele momento, ela apenas desligou o telefone, terminou seu café e foi regar as plantas. O dia seguiu, como qualquer outro dia de novembro em Ribeirão Preto, quente e seco, com o barulho dos ônibus passando na rua e o som distante de uma construção no quarteirão de baixo. Dona Lourdes almoçou sozinha, assistiu ao jornal das duas, cochilou na poltrona e esperou o dia passar.

Ela não tentou ligar para Renata. Sabia que não havia sinal no parque. Esperaria até segunda-feira, como sempre fazia. Segunda-feira chegou, Renata não ligou, Dona Lourdes esperou até o meio-dia, depois ligou. O celular de Renata ia direto para a caixa postal; ela ligou para Osvaldo. A mesma coisa. Ligou novamente às 15h, às 18h e às 21h.

Sem resposta, sem mensagem, sem sinal. Naquela noite, Dona Lourdes não dormiu. Sentou-se na poltrona da sala com o telefone no colo, olhando para a porta como se alguém pudesse bater a qualquer momento. Ninguém bateu, e o Fiat Palio foi identificado por um guarda do ICMBio durante uma patrulha de rotina na área da Casca d’Anta, na parte baixa do parque.

O nome do guarda era Antônio Ferreira Lima. Tinha 44 anos e trabalhava na unidade de conservação há mais de uma década. Conhecia cada estrada, cada trilha, cada ponto de parada daquela região. Sabia reconhecer os carros de moradores locais, guias, pesquisadores e turistas frequentes. Aquele Palio cinza não pertencia a ninguém que ele conhecesse.

O carro estava trancado, estacionado de ré, encostado em um barranco de terra vermelha coberto por capim alto. Não havia sinal de arrombamento, nem de acidente, nem de tentativa de furto. Os vidros estavam fechados. O para-brisa tinha uma fina camada uniforme de poeira, daquelas que acumulam quando um veículo fica parado no mesmo lugar por vários dias sem ser tocado.

Antônio deu a volta no carro, olhou pelo vidro traseiro e viu o cooler, os sacos de dormir e o guia de trilhas. Anotou a placa em um caderno de campo e seguiu seu caminho com a moto Honda. “Fim do dia de trabalho”, anunciou a administração do parque. A administração registrou a informação, mas não entrou em contato imediato com a polícia.

Era comum visitantes deixarem seus carros estacionados por dois ou três dias quando faziam trilhas longas dentro do parque. O protocolo interno ditava que se esperasse antes de tratar como irregularidade. Mais dois dias se passaram. O carro continuava lá. Ninguém apareceu para buscá-lo.

No quinto dia, a administração checou a placa no sistema e identificou o proprietário como Osvaldo Pires Mourão, morador de Ribeirão Preto. Tentaram contato telefônico usando o número cadastrado no sistema da caixa postal. Foi só então que o Parque notificou a Polícia Civil de São Roque de Minas. O delegado da cidade, que também atendia o distrito vizinho de Vargem Bonita, determinou uma perícia no veículo.

O carro foi aberto por um chaveiro local na presença de dois policiais. Dentro, estava tudo em ordem. O cooler continha restos de comida, pão, queijo e uma fruta machucada, já em estado de decomposição. O cheiro era forte, os sacos de dormir estavam limpos e enrolados, como se nunca tivessem sido usados.

O guia de trilhas tinha uma página marcada com um clipe de papel, a página que mostrava o mapa da trilha para a parte baixa da Casca d’Anta. No porta-luvas, encontram-se os documentos do carro, ou talvez a carteira de motorista de Osvaldo e um pacote de balas. Nada no banco do passageiro. No console central, um carregador de celular está conectado ao acendedor de cigarros, mas não há celular plugado na outra ponta.

As chaves do carro não estavam em lugar nenhum, assim como as chaves do apartamento e os celulares de Renata e Osvaldo. Os pertences pessoais deles, carteiras, documentos de Renata, mochilas, também não estavam no veículo. Isso significava que em algum momento os dois tinham saído do carro com tudo o que carregavam e tinham entrado no parque, mas não tinham voltado.

Os sacos de dormir intactos no banco de trás sugeriam algo que ninguém disse em voz alta naquele momento, mas que pairava no ar. O casal aparentemente não montou acampamento, ou se montou, não usou os equipamentos que tinha no carro. O que levantou uma pergunta simples sem resposta? Se não acamparam, onde dormiram? E se não dormiram, o que fizeram durante a noite? Onze dias se passaram entre a entrada do casal no parque e a abertura formal do caso.

Por 11 dias o carro ficou parado, a poeira acumulou, a comida apodreceu, e a chuva veio e foi embora. E ninguém entrou em contato com duas pessoas que tinham dito à família que voltariam na segunda-feira. Dona Lourdes tentou ligar para a filha no domingo, 17 de novembro. O celular de Renata ia direto para a caixa postal. Tentou novamente no final da segunda-feira.

Nada. Tentou na terça-feira. Nada. Ligou para Osvaldo, mas ia para a caixa postal. Ligou para o número fixo do apartamento do casal no Jardim Macedo. Ninguém atendeu. O telefone tocou até cair na caixa postal. Dona Lourdes sentou na poltrona da sala com o aparelho na mão, encarando a tela como se ela pudesse mudar sozinha.

Na manhã de quarta-feira, 20 de novembro, Dona Lourdes pegou um ônibus intermunicipal para Franca. Dona Carmen Pires, mãe de Osvaldo, a esperava na rodoviária. As duas mulheres se conheciam desde o casamento dos filhos, mas nunca tinham sido próximas. Trocavam mensagens em datas especiais, compartilhavam refeições em encontros de família e tratavam-se com respeito e distância.

Naquela manhã, no banco de trás de um táxi que as levava de volta a Ribeirão Preto, elas não precisavam de intimidade, precisavam de uma delegacia. Chegaram à delegacia da Polícia Civil do terceiro distrito de Ribeirão Preto, por volta das 10 da manhã. O prédio ficava em uma rua sem sombra, com uma fachada de tinta descascada e um balcão de atendimento protegido por vidro.

O recepcionista era um rapaz, com camisa social abotoada e um crachá pendurado no pescoço. Ouviu o que as duas mulheres tinham a dizer, anotou algumas informações em um pedaço de papel e informou que, para o registro formal de desaparecimento de um adulto, era necessário esperar 72 horas desde o último contato.

Dona Lourdes olhou para o rapaz e disse, com voz firme, mas sem elevar o tom, que já tinham se passado cinco dias, que sua filha e seu genro tinham ido a um parque nacional e não tinham voltado, que os telefones estavam mudos e que ninguém sabia de nada. O rapaz consultou alguém lá atrás, voltou e disse que o boletim de ocorrência poderia ser feito.

Pediu uma foto recente do casal, o número dos documentos, uma descrição do veículo e a última localização conhecida. Dona Lourdes tinha levado tudo em uma pasta plástica transparente. Fotos impressas, cópia do RG de Renata, anotação da placa do carro e o endereço do apartamento. Dona Carmen tinha uma foto de Osvaldo no celular.

O boletim de ocorrência foi feito às 11h14, sob o número que permaneceria no arquivo pelos próximos 3 anos. O agente que preencheu o formulário fez as perguntas de praxe. Se o casal tinha problemas conjugais, se havia histórico de depressão, se usavam drogas, se tinham dívidas, se alguém da família tinha motivo para acreditar que os dois pudessem ter partido por vontade própria.

Dona Lourdes respondeu a todas firmemente: “Não, não, não, não, não”. Dona Carmen permaneceu calada, segurando a bolsa com as duas mãos, olhando para o chão. Quando saíram da delegacia, o sol de novembro estava no zênite. Ribeirão Preto fervia no calor seco do interior do estado de São Paulo.

As duas mulheres pararam na calçada, sem saber o que fazer a seguir. Dona Lourdes disse que ia ligar para o filho, Leandro, que morava em Campinas, para contar o que estava acontecendo. Dona Carmen disse que ia voltar para Franca e esperar. O que estamos esperando? Ninguém disse, mas era o único verbo disponível. O boletim de ocorrência foi inserido no sistema da Polícia Civil de São Paulo.

De lá, foi encaminhado para a Polícia Civil de Minas Gerais, já que a última localização conhecida do casal era no estado vizinho. O encaminhamento levou mais quatro dias. A engrenagem institucional girava, mas no seu ritmo habitual: lentamente, sem urgência, sem ninguém para empurrá-la. Enquanto isso, o Fiat Palio permanecia estacionado na área de cascalho da Casca d’Anta, acumulando poeira.

A operação de busca começou em 25 de novembro, 11 dias após o desaparecimento. O atraso não foi causado por negligência deliberada, mas pelo acúmulo de procedimentos, comunicações entre estados e a lentidão inerente de um sistema que não trata adultos desaparecidos com a mesma prioridade que trata homicídio ou sequestro.

No Brasil, o desaparecimento é um evento administrativo antes de ser considerado uma emergência. O corpo de bombeiros de Piumhi mobilizou duas equipes com cães farejadores. A Polícia Militar Ambiental entrou no parque pelo lado sul. Voluntários da região, fazendeiros, peões, guias locais que conheciam cada ravina e cada córrego se juntaram por iniciativa própria, sem convite formal, porque era assim que as coisas funcionavam naquela parte de Minas Gerais.

Quando alguém desaparecia no mato, os vizinhos saíam para procurar antes de qualquer instituição. A vegetação do cerrado já estava alta em novembro. Em muitos trechos, o capim alto chegava na cintura de um homem adulto. Os campos rupestres no topo da serra tinham vegetação mais baixa, mas o terreno era irregular, cheio de afloramentos rochosos, fendas estreitas e declives que não eram visíveis até que se estivesse em cima deles.

As ravinas ao redor da Casca d’Anta estavam cheias de água barrenta, alimentadas pelas primeiras chuvas da estação. Os cães farejadores trabalharam a partir do carro, tentando captar qualquer cheiro no estacionamento e ao longo da trilha principal. Captaram algo nos primeiros 200 metros, um cheiro que os levou a uma bifurcação, onde a trilha oficial se separava de um caminho secundário mais estreito que descia para a margem do rio. Depois disso, nada.

O rastro morreu. As equipes vasculharam a área da Casca d’Anta por seis dias. Seguiram trilhas, desceram em ravinas e entraram em matas ciliares. Checaram abrigos naturais debaixo de pedras. Inspecionaram as margens do Rio São Francisco nos trechos acessíveis. Não encontraram mochilas, nem roupas, nem restos de fogueira, nem pegadas preservadas.

A chuva que caíra nos dias anteriores tinha levado tudo embora. No terceiro dia de buscas, um dos guias voluntários encontrou um pedaço de tecido preso em um galho a cerca de 4 km do estacionamento, em um trecho de mata densa fora de qualquer trilha oficial. O tecido era de cor indefinida.

Poderia ter sido azul ou cinza; estava sujo e desbotado. Foi recolhido e enviado para análise. Nunca foi confirmado se pertencia a Renata ou a Osvaldo. O laudo foi inconclusivo. No quinto dia, um helicóptero do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais sobrevoou a área por cima; a serra era uma extensão contínua de verde e marrom, com paredões de rocha exposta e vales profundos cobertos de vegetação.

O piloto disse depois que procurar duas pessoas naquele terreno era como procurar dois grãos de areia em uma praia. A comparação era exagerada, mas o sentido era preciso. A Serra da Canastra é grande demais e isolada demais para uma busca convencional com os recursos disponíveis. No sexto dia, o coordenador da operação, um capitão do Corpo de Bombeiros de Piumhi, convocou uma entrevista coletiva informal na sede da administração do parque.

Havia dois repórteres de jornais regionais e um cinegrafista de uma emissora de televisão de Passos. O capitão disse que a área era extensa demais, que as condições do terreno dificultavam qualquer progresso significativo e que as buscas ativas seriam temporariamente suspensas, mas poderiam ser retomadas se novas informações surgissem. Ele usou a palavra temporariamente.

Ninguém ali acreditou que fosse temporário. Dona Lourdes assistiu à entrevista pelo celular do filho Leandro, que ele tinha gravado de uma página do Facebook local. Eu estava sentada na poltrona da sala do meu apartamento em Ribeirão Preto com um copo de água na mão. Quando o capitão disse a palavra “suspensas”, ela não chorou, não gritou, não xingou; colocou o copo na mesinha, levantou-se e foi para a cozinha esquentar seu café.

O café já estava pronto, mas ela reaqueceu porque precisava fazer alguma coisa com as mãos. Leandro ficou em Ribeirão Preto por mais três dias. Depois voltou para Campinas porque tinha corridas para fazer e contas para pagar. Antes de ir, abraçou a mãe na porta do apartamento e disse que tudo ficaria bem.

Dona Lourdes acenou, mas não respondeu. Eu já tinha passado da fase de acreditar em frases de conforto. A investigação foi aberta pela Polícia Civil de Minas Gerais, sob a jurisdição do distrito de São Roque de Minas. O delegado encarregado era responsável por três comarcas e tinha 16 inquéritos em andamento.

O caso Mourão foi adicionado à fila. Dona Lourdes voltou para seu apartamento em Ribeirão Preto. Dona Carmen voltou para Franca. As duas começaram a falar por telefone toda noite às 21h em um ritual que nenhuma delas tinha combinado formalmente, mas que nenhuma quebrou por 3 anos. Era sempre Dona Lourdes quem ligava. Dona Carmen atendia no primeiro ou segundo toque. A conversa raramente passava de 10 minutos. Não havia novidades a relatar, não havia progresso a fazer. Era simplesmente uma confirmação mútua de que as duas ainda estavam lá, ainda esperando, ainda acordadas. Nos primeiros meses, as conversas tinham algum conteúdo.

Dona Lourdes contava que tinha ligado para a delegacia e que o escrivão tinha dito que não havia notícias. Dona Carmen contava que tinha pedido a um sobrinho que morava em Uberlândia para ir a São Roque de Minas e perguntar na cidade se alguém tinha visto alguma coisa. O sobrinho foi e perguntou na padaria, no posto de gasolina e na pousada na entrada da cidade.

Ninguém lembrava do casal, ou se lembravam, não tinham nada de útil para dizer. Após os primeiros meses, as conversas tornaram-se mais curtas. O conteúdo foi reduzido ao mínimo. Como está, senhora? Estou bem. E a senhora também? Tudo bem, então. Boa noite. Boa noite. Era um fio fino que mantinha as duas conectadas ao mesmo vazio.

Cortar aquele fio seria admitir que não restava mais nada com o que se esperançar. Nenhuma das duas estava pronta para isso. A rotina de Dona Lourdes seguia com a disciplina silenciosa das pessoas que não sabem o que fazer, mas que não param de fazer. Acordava cedo, regava as plantas, tomava café e ia ao mercado.

Voltava para casa, preparava o almoço para uma pessoa, lavava a louça, assistia ao noticiário, tentava ler mas não conseguia, cochilava, acordava, ligava para Dona Carmen e voltava a dormir. No dia seguinte, a mesma coisa. O apartamento permanecia exatamente como era. Dona Lourdes não mudou nada. O porta-retratos com a foto do casamento de Renata continuava na mesa da sala.

A geladeira ainda tinha o ímã de souvenir da região da Serra da Canastra que Renata tinha trazido de uma viagem anterior. Um pequeno ímã de plástico com uma imagem do cascavel da Santa e a palavra “Canastra” em letras azuis. Dona Lourdes não tirou, mas também não olhava.

Toda vez que abria a geladeira, seus olhos iam direto para as prateleiras de dentro, como se o ímã não existisse. Em Franca, Dona Carmen lidava com o vazio de uma forma diferente. Quase não falava de Osvaldo com ninguém. Quando um vizinho perguntava se ela tinha notícias do filho, ela respondia que não e mudava de assunto.

Ia à missa todo domingo, sentava no mesmo banco de sempre, rezava de olhos fechados e ia para casa sem falar com o padre. Havia uma foto de Osvaldo ainda criança, colada na porta do guarda-roupa; um menino de uns 7 anos de calção e camiseta, segurando uma pipa de papel em uma estrada de terra. Ela olhava para essa foto toda noite antes de dormir.

E o tempo passava com aquela lentidão específica que só quem espera sem prazo sabe. Natal de 2019, Ano Novo de 2020, a pandemia. O isolamento era inédito para muitos, mas para Dona Lourdes já era rotina. O telefone fixo permanecia na mesa da sala, o volume no máximo.

Ela nunca desligou, nunca colocou no silencioso. Mesmo no meio da noite, mesmo dormindo, o telefone estava sempre lá, pronto para tocar. Por quê? E se fosse Renata? E se fosse de um hospital? E se fosse a polícia? E se fosse alguém dizendo que tinha encontrado? O telefone nunca tocou com essa notícia, mas Dona Lourdes nunca desligou. Havia dias em que ela acordava e, por um momento, antes de abrir os olhos completamente, esquecia. Esquecia que a filha tinha desaparecido, esquecia que tinham se passado meses. Então ela abria os olhos, via o teto do quarto e a luz do dia entrando pela fresta da cortina, e a memória voltava inteira, como um peso que alguém tivesse colocado sobre seu peito.

Durante esses dias, passava mais tempo na cama. Não porque estivesse doente, mas porque levantar significava começar um novo dia que seria igual ao anterior. O irmão de Renata, Leandro, ligava toda semana, às vezes duas. Perguntava se a mãe precisava de alguma coisa, se queria que ele fosse até lá, e se estava comendo direito.

Dona Lourdes dizia que sim, que estava tudo bem, que não precisava vir. Leandro sabia que algo não estava certo, mas também sabia que sua mãe não admitiria. Ela era uma mulher de outra geração, criada no interior de Minas Gerais, acostumada a suportar silenciosamente o que a vida lhe trouxesse. Algo dentro daquela família tinha parado de funcionar em 14 de novembro de 2019, e nunca mais seria o mesmo.

Em fevereiro de 2020, um morador de Sacramento, cidade a cerca de 140 km de São Roque de Minas, foi à delegacia local e disse que tinha visto um casal parecido com Renata e Osvaldo pegando carona na BR-262, perto do entroncamento de Araxá. Segundo o morador, o homem usava um boné e carregava uma mochila escura.

A mulher era magra, com cabelos compridos presos. Os dois estavam no acostamento da rodovia, perto de um posto de gasolina desativado, com os braços estendidos para os caminhões que passavam. O morador disse que reduziu a velocidade, mas não parou. Disse que só conectou a informação ao caso do casal desaparecido quando viu uma reportagem no Jornal Regional.

Três semanas depois. A Polícia Civil de Sacramento registrou o depoimento e encaminhou para a delegacia de São Roque de Minas. Um investigador foi até o trevo de Araxá e falou com frentistas de postos próximos. Mostrou fotos do casal. Ninguém reconheceu. Não havia câmeras no local indicado.

A pista morreu ali sem confirmação ou desdobramentos. Em julho de 2020, uma denúncia anônima chegou ao Disque 100, o canal nacional de denúncias de direitos humanos. Quem ligou, e nunca foi identificado, disse que duas pessoas com a descrição de Renata e Osvaldo moravam em uma comunidade rural isolada no município de Delfinópolis, a cerca de 80 km de São Roque de Minas.

Segundo a denúncia, o casal morava em uma barraca improvisada perto de uma fazenda de gado e trabalhava em troca de comida e abrigo. A Polícia Civil de Delfinópolis foi até o local indicado com uma equipe de dois policiais e um agente do Conselho Tutelar. Encontraram uma família de meeiros, um homem e uma mulher e três crianças, vivendo em condições precárias em uma propriedade rural sem registro formal.

O homem tinha pouco mais de 30 anos e a mulher parecia ter a mesma idade, mas não tinham conexão nenhuma com o caso Mourão. Eram originalmente de Carmo do Rio Claro e estavam lá há mais de dois anos. A acusação era falsa ou um engano. Nunca se soube qual das duas coisas era. Em outubro de 2020, Dona Lourdes recebeu uma ligação de um número desconhecido. Era uma mulher que se identificou como médium espírita de Uberaba e que disse ter recebido uma mensagem durante uma sessão mediúnica sobre o paradeiro de Renata e Osvaldo. Disse que os dois estavam vivos, que estavam em um lugar cercado por água e pedras, e que voltariam quando fosse a hora certa.

Dona Lourdes ouviu em silêncio, agradeceu e desligou. Não contou a Dona Carmen, não contou a Leandro, que guardou para si, sem saber se acreditava ou não, mas sem força para descartar qualquer coisa que oferecesse até mesmo um vislumbre de possibilidade. Em março de 2021, mais de um ano após o desaparecimento, o Ministério Público de Minas Gerais solicitou um relatório de progresso à Polícia Civil.

O relatório de sete páginas descrevia as ações tomadas: perícia no veículo, buscas no parque, coleta de depoimentos, análise das denúncias, e concluía que até aquele momento não havia evidências suficientes para indicar crime, acidente ou partida voluntária. O caso permaneceu aberto.

O Ministério Público recomendou a inclusão de Renata e Osvaldo no Sinalid. O Sistema Nacional de Localização e Identificação de Pessoas Desaparecidas. A inclusão foi feita em abril de 2021, 17 meses após o desaparecimento. Em setembro de 2021, Leandro foi a São Roque de Minas por conta própria. Pegou o carro em Campinas, dirigiu por 7 horas, chegou no final da tarde e se hospedou em uma pousada na periferia da cidade.

Nos dois dias seguintes, percorreu o comércio local, bares, pousadas e fazendas próximas ao parque. Mostrou fotos da irmã e do cunhado para dezenas de pessoas. A maioria disse não lembrar. Alguns disseram lembrar vagamente de um casal jovem que tinha passado pela cidade, mas não conseguiam precisar a data ou fornecer detalhes úteis.

Um guia de trilhas autônomo da região disse que turistas às vezes deixavam as trilhas oficiais e entravam em áreas não monitoradas do parque. Vales profundos, matas de galeria, trechos onde o cerrado fechava, e onde era possível caminhar por horas sem encontrar ninguém.

Ele disse que já tinha ouvido histórias de pessoas que se perdiam e eram encontradas dias depois, desorientadas, desidratadas, sem ideia de quanto tempo tinha passado, mas nunca tinha ouvido falar de ninguém que desaparecesse por mais de um ano. Leandro voltou para Campinas sem respostas. No caminho de volta, parou no acostamento da BR-146, perto de Araxá.

Desligou o carro e ficou lá por 20 minutos, as mãos no volante, olhando para a estrada vazia. Então ligou o carro e continuou a viagem. Não contou à mãe o que tinha feito. Não queria dar esperança, mas também não queria tirar. As pistas continuaram a chegar esporadicamente ao longo de 2022.

Todas seguiam o mesmo padrão. Alguém dizia ter visto algo. A polícia verificava, não encontrava nada, e o arquivo crescia sem progredir. Um fazendeiro de Capitólio disse ter visto um homem parecido com Osvaldo comprando fumo em um armazém de beira de estrada. Uma professora de Piumhi disse ter visto uma mulher parecida com Renata sentada em um ponto de ônibus na periferia da cidade.

Um pescador do Lago de Furnas disse ter avistado um casal acampando em uma ilha no reservatório. Mas quando voltou ao local no dia seguinte, não havia ninguém. Nenhuma dessas pistas foi confirmada. Nenhuma delas levou a qualquer progresso concreto. A investigação permaneceu aberta, mas na prática estava parada. O delegado encarregado tinha sido transferido para outro distrito.

O novo delegado herdou o caso junto com outros 17 inquéritos pendentes. O caso Mourão era apenas mais um papel em uma pilha. E assim o tempo passou, sem corpo, sem crime, sem explicação. Resta-nos simplesmente a ausência continuada de duas pessoas que um dia estiveram ali e que de repente deixaram de estar. O nome do caminhoneiro era Geraldo Antunes Prata.

Tinha 58 anos e fazia a rota Piumhi-Capitólio três vezes por semana há mais de uma década. Conhecia cada curva, cada buraco, cada trecho daquela estrada sem acostamento. Sabia onde o asfalto estava remendado, onde a estrada estreitava, onde os animais atravessavam à noite. Era o tipo de motorista que dirigia no piloto automático, com a mente divagando, ouvindo rádio AM e pensando na vida, mas sem nunca perder o foco do que aparecia na frente dos seus faróis.

Na madrugada de 18 de março de 2023, Geraldo saiu de Piumhi por volta das 3h da manhã, transportando calcário para uma obra em Capitólio. A noite estava escura, com lua nova e sem iluminação pública, no trecho rural da rodovia MG-050. Os faróis do caminhão cortavam a estrada como dois feixes de luz em um túnel sem fim.

O rádio tocava programação religiosa de uma estação de Passos. Geraldo dirigia com o vidro lateral levemente aberto, curtindo o cheiro de vegetação e terra úmida que vinha com a brisa da manhã. Foi perto do marco quilométrico 284, em um trecho reto entre duas curvas largas, que ele viu.

Duas figuras no acostamento da estrada, do lado direito da pista, caminhando no mesmo sentido do caminhão, de costas para ele. Geraldo reduziu a velocidade por instinto. Era perigoso para pedestres estarem naquela área, sem refletores, sem lanternas, na escuridão total. Ligou o farol alto. Eram um homem e uma mulher. Caminhavam lado a lado em um passo que Geraldo descreveu depois como estranho.

Não era rápido, não era lento, era constante, mecânico, como se os dois estivessem caminhando há muito tempo e finalmente tivessem encontrado um ritmo que já não exigia pensamento. A mulher usava uma camiseta de algodão branca, suja, que parecia grande demais para ela, e estava descalça. O homem usava uma calça comprida, também suja, que dava a impressão de estar folgada, como se ele tivesse perdido peso desde que as vestiu.

Também descalço, nenhum dos dois carregava mochila, bolsa ou qualquer objeto visível. Geraldo buzinou duas vezes, uma breve, depois outra. Nenhum deles olhou para o lado, nenhum deles virou a cabeça. Nenhum deles mudou o passo. Continuaram caminhando, olhando para a frente, como se o caminhão não existisse.

Geraldo passou por eles lentamente, olhando pelo retrovisor. Viu as duas silhuetas encolherem na escuridão atrás do caminhão até desaparecerem. Sentiu um desconforto no estômago que não sabia explicar. “Não foi medo”, disse depois. Foi uma coisa estranha, uma sensação de que algo não estava certo, que aquelas duas pessoas não deveriam estar ali àquela hora, naquele estado.

Pensou em parar, pensou em dar água a eles se precisassem de ajuda, mas não parou. Disse que não sabia o porquê. Disse que a coisa toda lhe causou um desconforto que não conseguia colocar em palavras. Continuou sua viagem. Quando chegou a Capitólio, por volta das 4h30 da manhã, estacionou o caminhão no pátio da obra e ligou para sua esposa, Dona Marta, que morava em Piumhi.

Ela acordou de seu sono e ele contou o que tinha visto. Dona Marta perguntou se ele tinha parado. Ele disse que não. Ela perguntou por quê. Ele não sabia a resposta. Dona Marta disse que ele deveria ter parado. Geraldo disse: “Eu sei”. Então desligou e ficou sentado na cabine do caminhão por alguns minutos, com o motor desligado, encarando a escuridão do pátio.

No dia seguinte, Geraldo não pensou mais nisso. Fez a viagem de volta para Piumhi, dormiu, jantou e assistiu ao noticiário. Foi apenas dois dias depois, quando notícias do casal encontrado no galpão em Capitólio começaram a circular em grupos de WhatsApp na região, que Geraldo fez a conexão.

Ligou para a Polícia Rodoviária Estadual e deu seu depoimento. Disse que tinha visto os dois na rodovia MG-050 na madrugada de 18 de março, caminhando no acostamento, descalços, sujos e sem olhar para lado nenhum. O depoimento de Geraldo foi o único registro de Renata e Osvaldo entre o desaparecimento deles em novembro de 2019 e o reencontro no galpão em março de 2023.

3 anos e 4 meses de vazio. A única testemunha foi um caminhoneiro que passou por eles na escuridão e não parou. A moradora que os encontrou chamava-se Aparecida de Fátima Borges. Tinha 62 anos. Era casada com Joaquim Borges há 37 anos e morava em um pequeno sítio na zona rural de Capitólio, a 6 km da rodovia MG-050, no final de uma estrada de terra que não aparecia em nenhum mapa digital.

A propriedade tinha uma casa simples de tijolos, um terreiro de secar café desativado, um pomar de manga e jabuticaba e um galinheiro com cerca de 30 galinhas que Aparecida cuidava toda manhã sozinha, desde que seu marido fez uma cirurgia no joelho e não podia mais se abaixar. O galpão ficava a cerca de 150 metros da casa principal, em uma clareira de terra batida cercada por capim alto.

Era uma construção de alvenaria sem porta, telhado de fibrocimento e piso de cimento grosso. Tinha sido usada anos atrás para guardar ferramentas, sacos de adubo e peças de trator. Depois que o Sr. Joaquim parou de plantar, o galpão ficou vazio. Às vezes, um ou outro trabalhador de passagem pedia para dormir ali por uma noite. Aparecida nunca negava.

Deixava um balde com água e um pedaço de sabão do lado de fora e não fazia perguntas. Na manhã de 20 de março de 2023, uma quinta-feira, Aparecida saiu de casa por volta das 6h30 para soltar as galinhas. O dia estava nublado com aquele calor abafado típico de março no sudoeste de Minas Gerais, quando o calor é intenso, mas o sol não aparece.

Caminhou até o galinheiro, abriu a porteira de arame, jogou o milho no chão e começou a recolher os ovos. Foi quando ouviu um som vindo do galpão. Não era um som definido, era mais uma presença e um movimento, algo que não deveria estar ali. Aparecida caminhou até o galpão com o balde de ovos na mão.

Chegou à entrada sem porta e olhou para dentro. A primeira coisa que viu foram os pés. Pés de mulher descalços, sujos de terra e sangue seco, com cortes nas solas e pele grossa e rachada, como pés de alguém que caminha descalço há muito tempo. A mulher estava sentada no canto esquerdo do galpão, encostada na parede, com as mãos no colo e os olhos abertos.

Não estava olhando para Aparecida, estava olhando para a frente, para um ponto indefinido no ar. Aparecida deu um passo para dentro e viu o segundo corpo. Um homem deitado no chão, na terra batida, de costas, com a cabeça virada para o lado e os olhos abertos. Sua barba estava longa, suja e emaranhada. As roupas estavam sujas e rasgadas em vários lugares.

Ele não se mexia, mas respirava. Aparecida viu seu peito subir e descer lentamente, em um ritmo que lembrava o de alguém dormindo de olhos abertos. Aparecida não gritou, não correu, colocou o balde de ovos no chão, deu dois passos para trás e chamou seu marido em voz alta. Joaquim apareceu na porta da casa mancando, e ela disse que havia pessoas no galpão.

Sr. Joaquim foi até lá, olhou para dentro, olhou para a esposa e disse: “Vou chamar o Toninho”. Toninho era o vizinho mais próximo, a cerca de 1 km de distância pela estrada de terra. Sr. Joaquim foi de moto. Toninho chegou em uma caminhonete. Os dois olharam para dentro do galpão, olharam um para o outro, e Toninho disse: “Vou chamar a polícia”. A viatura da polícia de Capitólio chegou 45 minutos depois.

Dois soldados desceram da viatura, entraram no galpão e tentaram falar com a mulher. Ela não respondeu. Ficou olhando para a frente com as mãos no colo, sem mostrar reação visível. Um dos soldados se agachou perto do homem e perguntou seu nome. O homem mexeu os lábios, mas nenhum som saiu. O soldado perguntou de novo.

O homem disse uma palavra que o soldado não entendeu. Depois fechou os olhos. Os dois foram removidos pelo SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e levados para o hospital municipal de Capitólio. A mulher foi colocada em uma maca e coberta com um cobertor. Não resistiu, não falou, não chorou.

O homem precisou de ajuda para ficar de pé. Estava fraco. Tropeçou durante os primeiros passos e precisou ser amparado por dois paramédicos até chegar à ambulância. Aparecida ficou na porta do barraco, observando a ambulância se afastar pela estrada de terra. Sr. Joaquim ficou ao lado dela com a mão em seu ombro.

Nenhum dos dois disse nada por um bom tempo. Então, Aparecida olhou para o chão do barraco, as marcas dos corpos na poeira, as pegadas, o cheiro de suor e vegetação, e disse baixo, mais para si mesma do que para o marido. “Esse povo andou muito”. Renata e Osvaldo foram levados para o hospital municipal de Capitólio e posteriormente transferidos para a Santa Casa de Passos.

Que tinha mais estrutura para uma avaliação clínica completa. A transferência aconteceu no mesmo dia, por volta das 16h, em uma ambulância do SAMU, que percorreu os 70 km de estrada entre as duas cidades, com os dois pacientes deitados em macas paralelas, separados por uma divisória de lona. No hospital da Santa Casa, os dois foram internados em quartos separados na enfermaria.

Exames iniciais revelaram desidratação moderada, desnutrição leve a moderada, perda de massa muscular e ferimentos nos pés consistentes com caminhada prolongada em terreno irregular sem calçados. Renata tinha perdido cerca de 12 kg em relação ao peso registrado em sua última consulta médica em setembro de 2019. Osvaldo tinha perdido mais, cerca de 19 kg.

Ambos apresentavam marcas antigas de picadas de insetos em várias partes do corpo — braços, pernas, pescoço, tornozelos — cicatrizando em diferentes estágios, indicando exposição prolongada ao ambiente do Cerrado. Osvaldo apresentava um estado de desorientação que os médicos classificaram inicialmente como estado dissociativo. Ele não respondia a perguntas diretas, não mantinha contato visual, não reconhecia onde estava.

Quando uma enfermeira perguntou seu nome, ele repetiu a mesma palavra que tinha tentado dizer no barraco — uma sílaba curta e indistinta que poderia ser um nome, um lugar ou nada. Nos dias seguintes, a equipe médica tentou várias abordagens. Osvaldo reagia a estímulos básicos. Comia quando recebia comida, bebia água e usava o banheiro quando conduzido, mas não engajava em diálogo.

Olhava para as paredes, para o teto, para as mãos. Às vezes mexia os lábios sem emitir som. Renata falava, mas de forma fragmentada. Respondia a algumas perguntas com frases curtas, muitas vezes tiradas de contexto. Quando perguntavam onde ela tinha estado, ela dizia no mato. Quando perguntavam por quanto tempo, ela dizia que não sabia.

Quando perguntavam se algo tinha acontecido com ela e Osvaldo, ela ficava em silêncio por mais de um minuto e depois dizia: “A gente andou muito”. Repetiu essa frase várias vezes ao longo dos primeiros dias. A gente andou muito, como se fosse a única informação que conseguia organizar. Nenhum dos dois apresentava sinais de uso de substâncias: álcool, drogas ilícitas ou medicamentos psicotrópicos.

Os exames toxicológicos deram negativo. Exames neurológicos não mostraram lesão cerebral, tumor ou qualquer alteração estrutural que pudesse explicar a desorientação. Um psiquiatra que avaliou os dois na Santa Casa registrou em seus prontuários que ambos apresentavam sinais consistentes com transtorno dissociativo, possivelmente desencadeado pela exposição prolongada a condições de estresse extremo, mas notou que o diagnóstico era preliminar e que acompanhamento de longo prazo seria necessário.

Nenhum dos dois tinha documentos. Não carregavam carteiras, RG, cartões bancários ou celulares. As roupas que vestiam não correspondiam às descritas no boletim de ocorrência original de Ribeirão Preto em novembro de 2019. Renata usava uma camiseta branca de algodão, tamanho G, maior do que a que costumava usar. Osvaldo usava calça de moletom cinza sem marca visível e uma camiseta escura rasgada no ombro esquerdo.

Não se sabe de onde vieram essas roupas. Não se sabe quem as forneceu. A Polícia Civil de Capitólio foi notificada no mesmo dia e enviou um investigador à Santa Casa para coletar depoimentos. Renata não conseguiu prestar um relato coerente. Repetia as mesmas frases. Andamos muito no mato, não sei por quanto tempo, e depois paramos de falar.

Osvaldo não respondeu a nenhuma pergunta, e o investigador registrou os depoimentos como prejudicados pela condição de saúde dos declarantes e encaminhou a comunicação para a delegacia de São Roque de Minas, onde a investigação original estava localizada. Dona Lourdes foi notificada por telefone na noite de 20 de março.

A ligação veio de um número pertencente ao hospital Santa Casa de Passos. Uma assistente social informou que um paciente internado tinha sido identificado como Renata Bastos Mourão e que sua família poderia vir ao hospital. Dona Lourdes não disse nada por alguns segundos. Então perguntou: “Ela está viva?”. A assistente social disse que sim.

Dona Lourdes perguntou: “E Osvaldo?”. A assistente social disse que também. Dona Lourdes sentou na beirada da cama com o telefone pressionado contra o ouvido e ficou lá por um tempo que não conseguiu medir. Então ligou para Dona Carmen. Eram 21h16, 16 minutos mais tarde do que o habitual. Dona Carmen atendeu no primeiro toque.

Dona Lourdes disse: “Encontraram eles”. Dona Carmen permaneceu em silêncio. Dona Lourdes repetiu: “Dona Carmen! Encontraram Osvaldo e Renata. Eles estão vivos. Estão em um hospital em Passos”. Dona Carmen começou a chorar. Chorava silenciosamente, sem soluços. Uma coisa quieta que Dona Lourdes ouviu do outro lado da linha como se fosse o som de algo finalmente sendo liberado depois de anos preso.

Leandro dirigiu de Campinas para Ribeirão Preto naquela mesma noite. Pegou a mãe e continuou para Passos. Chegaram ao hospital por volta das 4h da manhã. Dona Carmen chegou pouco depois, trazida por um sobrinho que dirigiu de Franca. As duas mulheres se encontraram no corredor da enfermaria, sob uma luz fluorescente que zumbia fracamente, e se abraçaram. Não disseram nada.

Ficaram lá, segurando uma à outra, até que uma enfermeira veio e disse que elas podiam entrar. Dona Lourdes entrou primeiro no quarto de Renata. Sua filha estava deitada com os olhos abertos, coberta por um lençol hospitalar. Estava magra. O rosto era o mesmo, mas o corpo tinha mudado. Seus ombros, seus braços estavam finos, as maçãs do rosto mais proeminentes.

Dona Lourdes parou ao lado da cama e disse: “Filha”. Renata virou a cabeça lentamente e olhou para a mãe. Não sorriu, não chorou. Olhava como se reconhecesse algo de longe, como se tentasse encaixar uma imagem em um lugar borrado de sua memória. Então disse baixinho: “Oi, mãe”. Dona Lourdes segurou a mão da filha e a apertou.

A mão de Renata estava áspera, seca, com a pele grossa e marcada. Não era a mão que Dona Lourdes conhecia; era a mão de sua filha, e ela estava ali. Depois de 3 anos e 4 meses, ela estava ali. No quarto ao lado, Dona Carmen encontrou Osvaldo. Seu filho estava deitado de lado com os olhos entreabertos. Sua barba já tinha sido aparada pela equipe de enfermagem, mas seu rosto ainda tinha aquele olhar de quem tinha passado tempo demais ao sol e ao vento sem proteção.

Pele escurecida, áspera, com linhas que não existiam antes. Dona Carmen puxou uma cadeira e sentou-se. Sentou ao lado da cama e ficou lá. Não disse nada nos primeiros minutos, apenas olhou, depois colocou a mão no rosto do filho e disse: “Meu menino”. Osvaldo não respondeu, mas fechou os olhos lentamente, como se aquela voz fosse a primeira coisa em muito tempo que fazia sentido.

Nos dias seguintes, as notícias começaram a circular. Primeiro nos grupos de WhatsApp da região, Capitólio, Piumhi, São Roque de Minas, Passos. Depois, nos portais de notícias de Minas Gerais. Um jornal de Belo Horizonte publicou um artigo intitulado “Casal desaparecido é encontrado na zona rural de Capitólio após mais de 3 anos”. O artigo tinha quatro parágrafos e repetia as informações básicas sem acrescentar nada que a família já não soubesse.

A Polícia Civil reabriu formalmente a investigação. Um novo delegado foi designado para o caso. Novas tentativas foram feitas para obter depoimentos, desta vez com apoio psicológico. Renata começou gradualmente a falar um pouco mais. Disse que tinham deixado a trilha. Disse que se perderam. Disse que caminharam por muito tempo.

Disse que encontraram água, que comeram frutos silvestres, que dormiram em lugares diferentes. Mas não conseguia organizar uma cronologia. Não conseguia dizer quanto tempo ficaram em cada lugar, e não sabia dizer se foram dias, semanas ou meses. Quando perguntada se tinham encontrado outras pessoas, hesitou. Disse que achava que sim, mas não tinha certeza.

Quando perguntada quem eram essas pessoas, não respondeu. Osvaldo continuou a falar de forma inconsistente. Ao longo das semanas, começou a responder a perguntas simples: nome, idade, cidade de origem, mas não conseguia abordar o período do desaparecimento. Toda vez que era questionado sobre o que tinha acontecido na serra, seu olhar vagava e ele parava de responder.

O psiquiatra que o tratava notou que o paciente apresentava um bloqueio seletivo de memória, possivelmente de natureza protetora, e recomendou que ele não fosse pressionado. A equipe forense analisou as roupas que os dois vestiam quando foram encontrados. A camiseta de Renata era de fabricação industrial comum, sem etiqueta ou marca que permitisse rastrear sua origem ou compra.

A calça de Osvaldo tinha uma etiqueta parcialmente legível de uma marca popular vendida em lojas de departamento por todo o Brasil. Nenhum item correspondia ao que o casal vestia quando saiu de Ribeirão Preto em novembro de 2019. Isso significava que em algum momento durante os 3 anos e 4 meses de sua ausência, os dois tinham obtido roupas diferentes.

De quem? Onde, como? Ninguém sabia a resposta. Outros exames médicos revelaram detalhes que não se encaixavam em um cenário simples de duas pessoas perdidas no mato. Renata tinha uma cicatriz no antebraço direito que não existia antes do desaparecimento. Pequena, linear, como se feita por um corte limpo, não por um galho ou pedra.

Osvaldo tinha duas marcas semelhantes no dorso da mão esquerda. Quando perguntados sobre as cicatrizes, nenhum deles conseguiu explicar. Renata disse que não se lembrava. Osvaldo não respondeu. A Polícia Civil consultou bancos de dados de hospitais, delegacias e abrigos por toda a região: Passos, Piumhi, Capitólio, São Roque de Minas, Araxá, Uberaba, Uberlândia.

Nenhum registro de atendimento, detenção ou acolhimento de pessoas com as características de Renata e Osvaldo foi encontrado em nenhum desses municípios durante o período do desaparecimento. Duas pessoas não tinham sido atendidas em nenhum pronto-socorro, não tinham sido presas, não tinham sido acolhidas por nenhuma instituição pública, não tinham usado nenhum serviço que deixasse rastro no sistema por 3 anos e 4 meses. Para todos os efeitos oficiais, Renata e Osvaldo Mourão não existiam.

O delegado responsável pelo caso reaberto deu uma entrevista coletiva em maio de 2023. Disse que a investigação estava em curso, que novas diligências estavam sendo realizadas e que o caso apresentava elementos que dificultavam uma conclusão definitiva. Quando um repórter perguntou se havia suspeita de crime, o delegado disse que todas as hipóteses estavam sendo investigadas.

Quando outro repórter perguntou se o casal tinha sido vítima de alguém, o delegado disse que não havia evidências para afirmar isso naquele momento. Quando perguntado se os dois poderiam ter partido por vontade própria, o delegado disse que essa hipótese também não poderia ser descartada. Saiu da coletiva sem dizer nada concreto, não porque estivesse escondendo informações, mas porque não havia informações suficientes para formar uma resposta.

Renata teve alta da Santa Casa de Passos em abril de 2023. Foi para o apartamento da mãe em Ribeirão Preto. Osvaldo teve alta duas semanas depois e foi para a casa de Dona Carmen em Franca. O casal, que tinha entrado junto no Parque Nacional da Serra da Canastra, não saiu do hospital junto, não por uma decisão formal de separação.

Cada um foi para a casa de sua própria mãe porque isso fazia sentido naquele momento, porque era o único lugar no mundo onde poderiam ser recebidos sem perguntas. Nos meses seguintes, Renata e Osvaldo passaram por acompanhamento psicológico e psiquiátrico regular. Renata melhorou gradualmente, recuperou a fluidez na fala, reconheceu rotinas e participou das tarefas domésticas. Mas havia lacunas.

Havia momentos em que ela parava no meio de uma frase e olhava pela janela como se estivesse ouvindo algo que ninguém mais conseguia ouvir. Havia noites em que acordava no meio da noite, sentava na beirada da cama e ficava lá até o amanhecer, sem acender a luz, sem fazer barulho.

Dona Lourdes aprendeu a não perguntar. Quando encontrava a filha sentada no escuro, simplesmente sentava ao lado dela e esperava. Osvaldo demorou mais. Sua recuperação foi lenta, com pequenos avanços e retrocessos frequentes. Em Franca, na casa da mãe, passava a maior parte do dia em silêncio, sentado na varanda dos fundos, olhando para o quintal.

Dona Carmen servia as refeições, lavava a roupa, cuidava de tudo, sem reclamar e sem fazer perguntas. Às vezes, à noite, ela ouvia o filho chorando no quarto, um choro baixo e contido que parecia vir de um lugar mais profundo do que sua garganta. Ela não entrava. Ficava do lado de fora da porta, a mão contra a madeira, ouvindo até o choro parar.

Renata e Osvaldo falaram por telefone algumas vezes nos primeiros meses. Conversas curtas, quase formais, como se estivessem reaprendendo o idioma que tinham em comum. Depois, as chamadas ficaram menos frequentes. Então pararam. Ninguém falou em divórcio, ninguém falou em reconciliação. O casamento permaneceu em um lugar indefinido, suspenso no mesmo limbo em que tinham vivido por 3 anos e 4 meses.

A investigação policial permaneceu aberta ao longo de 2023. Novas diligências foram feitas. Todos os esforços incluíram análise de imagens de satélite da região e consulta a registros de fazendas e propriedades rurais próximas ao parque. Li entrevistas com moradores de áreas remotas nos municípios de Delfinópolis, São João Batista do Glória e Capitólio.

Nada de concreto foi encontrado. Nenhuma testemunha que tivesse visto o casal durante sua ausência. Nenhum registro de abrigo, trabalho ou residência em qualquer local identificável. Três anos e quatro meses de silêncio absoluto entre a entrada no parque e seu aparecimento na rodovia MG-050. Em setembro de 2023, o Ministério Público de Minas Gerais emitiu um parecer recomendando o arquivamento da investigação por falta de elementos para tipificação criminal.

O parecer reconheceu que o caso apresentava circunstâncias incomuns e que os depoimentos dos envolvidos eram insuficientes para esclarecer os fatos, mas concluiu que, sem evidências de crime, a investigação não poderia prosseguir, e o arquivamento foi concedido pelo juiz da comarca em outubro do mesmo ano.

Dona Lourdes recebeu a notícia por telefone de um funcionário do cartório criminal. Agradeceu e desligou. Então sentou na poltrona da sala, a mesma poltrona onde tinha sentado tantas noites esperando uma ligação que nunca veio, e permaneceu ali em silêncio, olhando para a foto emoldurada do casamento de Renata.

O caso foi encerrado, pelo menos no papel. Na vida real, nada foi encerrado, nada foi explicado, nada foi resolvido. Até hoje, Renata Bastos Mourão vive no apartamento da mãe em Ribeirão Preto. Voltou a trabalhar em meio período em uma clínica de fisioterapia no bairro, fazendo trabalho administrativo. Não voltou para a enfermagem, não fala sobre o que aconteceu.

Quando alguém pergunta, e cada vez menos pessoas perguntam, ela só diz que não se lembra de tudo e prefere não pensar nisso. Osvaldo Pires Mourão permanece em Franca, na casa de Dona Carmen. Não voltou a trabalhar. Recebe benefícios assistenciais que a Defensoria Pública ajudou a família a solicitar.

Fala mais do que nos primeiros meses, mas nunca sobre a serra, nunca sobre os três anos, nunca sobre o que aconteceu entre a trilha da Casca d’Anta e a estrada escura da MG-050. O psiquiatra que o atende diz que ele teve um progresso significativo, mas que existem áreas de memórias que permanecem inacessíveis. Seja por trauma, bloqueio ou escolha, ninguém pode dizer com certeza.

As famílias aprenderam a viver com o que não sabem. Dona Lourdes ainda rega as plantas na varanda toda manhã, e o ímã da Serra da Canastra continua na geladeira. Dona Carmen ainda vai à missa todo domingo e ainda olha para a foto de infância de Osvaldo antes de dormir. As duas continuam a falar por telefone às 21h.

Agora a conversa é um pouco diferente. Tem um pouco mais de conteúdo, um pouco mais de vida, mas o tom é o mesmo. O tom de duas mulheres que passaram por algo que não tem nome e que aprenderam a carregar sem reclamar. Porque no interior do Brasil, é assim que as coisas que não têm conserto são carregadas.

O caso nunca apareceu no noticiário nacional, nunca virou reportagem no Fantástico, nunca recebeu a atenção que outros desaparecimentos mais urbanos, mais fotogênicos, mais facilmente adaptáveis a narrativas midiáticas, receberam. Era um caso do interior, de gente comum, não de uma serra grande demais, e de um sistema que faz o que pode com o que tem, o que muitas vezes não é o suficiente.

Os anos passaram e a Serra da Canastra permanece. O Rio São Francisco continua nascendo na mesma gruta rochosa. A cachoeira da Casca d’Anta continua caindo de seus 186 metros de altura com aquele baque surdo ouvido antes de ser visto. Os campos rupestres continuam florescendo em setembro e secando em junho. Turistas continuam chegando, estacionando seus carros no mesmo cascalho, tirando as mesmas fotos, percorrendo as mesmas trilhas.

Ninguém que chega hoje sabe o que aconteceu ali em novembro de 2019. Ninguém precisa saber. A serra não guarda memórias, a serra não deve explicações. Mas há uma família em Ribeirão Preto e outra em Franca que sabem, que vivem com isso, e que acordam todo dia sabendo que duas pessoas que amam partiram inteiras para um fim de semana no mato e voltaram de uma maneira que ninguém consegue explicar, que o tempo perdido não volta, que as respostas que não vieram provavelmente não virão, e que a vida continua.

Com o café da manhã, com as plantas na varanda, com a ligação das 21h e o silêncio que preenche os espaços onde um dia houve certeza. Hoje, quando fechamos a porta da frente e sabemos onde cada pessoa que amamos está, é fácil esquecer o que significa não saber, o que significa ligar para um número e ouvir a caixa postal, o que significa olhar para um prato vazio na mesa do jantar e não ter ninguém para servir, o que significa esperar não por dias, não por semanas, mas por anos, sem saber se a espera terminará algum dia ou se a espera em si se tornou a vida. A história de Renata e Osvaldo Mourão não termina com uma explicação, não termina com uma revelação, não termina com uma cena de tribunal, nem com uma confissão gravada. Termina com uma mulher sentada em uma poltrona em Ribeirão Preto, com o telefone ao lado, o volume no máximo, olhando para a porta, e com outra mulher ao fundo, rezando de olhos fechados em um banco de igreja, carregando dentro de si uma pergunta que ela não faz a ninguém, porque sabe que ninguém pode responder. O que aconteceu naquelas montanhas? Ninguém sabe e talvez ninguém nunca saiba, mas as mães continuam esperando, porque é isso que as mães fazem, o que elas esperam, mesmo quando não resta nada para esperar.

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