Barco Com 7 Pescadores Sumiu No São Francisco — 15 Anos Depois Achado Com A Mesa Posta Para O Jantar
O barco Santa Marta partiu do porto de Pirapora, no norte de Minas Gerais, em 14 de novembro de 2008, por volta das 16h, com sete homens a bordo. Eles fariam o que faziam todas as semanas: descer o Rio São Francisco até a área de Buritizeiro, pescar durante a noite e retornar no dia seguinte com o barco carregado.
A esposa do capitão do barco, Dona Iracema Botelho Reis, permaneceu parada na margem do rio até que a embarcação desaparecesse na curva. Ela disse mais tarde que acenou, mas que seu marido não a viu. O Santa Marta era um barco de madeira de 12 metros, com motor a diesel e casco pintado de azul e branco. Tinha sido reformado dois meses antes.
Ele carregava combustível para a viagem de ida e volta, rede de pesca, espinhel, uma caixa térmica de isopor com gelo e provisões para dois dias. A tripulação era composta por pescadores experientes, homens entre 34 e 61 anos, todos nascidos e criados às margens do velho Rio São Francisco. Eles conheciam cada banco de areia, cada remanso, cada trecho onde a correnteza apertava.
Nenhum deles era novato. Nenhum deles tinha motivo para não voltar. O barco não voltou no sábado, não voltou no domingo. Na segunda-feira, quando a família de Arlindo Mendes da Cruz, o membro mais velho da tripulação, foi à capitania fluvial registrar sua preocupação, o oficial de plantão pediu que mantivessem a calma.
Ele disse que atrasos de pescadores eram comuns, que o motor poderia ter falhado e que poderiam ter parado em uma ilha para esperar o tempo melhorar. O tempo naquela semana estava limpo, não tinha chovido e o rio corria suavemente. A busca oficial só começou na quarta-feira e durou 11 dias. Eles percorreram 140 km rio abaixo.
Não encontraram o barco, não encontraram nenhum destroço. E não encontraram um colete salva-vidas, um remo ou uma lata de sardinha flutuando na água. Nada. Sete homens e um barco de 12 metros desapareceram no maior rio inteiramente dentro do Brasil, como se nunca tivessem existido. 15 anos depois, em março de 2023, um grupo de vaqueiros que conduzia gado pela margem esquerda do Rio São Francisco, perto do município de Bom Jesus da Lapa, no oeste da Bahia, a mais de 600 km de Pirapora, avistou o casco de um barco encalhado em um braço morto do rio,
metade coberto pela vegetação da várzea. O mato havia crescido por toda parte. As raízes de uma figueira começavam a circundar a proa. Parecia abandonado há muito tempo. Quando os vaqueiros subiram a bordo, encontraram algo que nenhum deles conseguia explicar. A mesa no convés de popa estava posta.
Havia pratos de alumínio dispostos em círculo e talheres ao lado deles, uma cafeteira esmaltada no centro e copos plásticos virados para baixo, como se alguém tivesse arrumado tudo para uma refeição que nunca aconteceu. Não havia corpos, nem sinais de luta, nem sangue. Os pertences pessoais dos sete pescadores — sandálias, camisas, uma carteira com documentos, um rádio portátil com pilhas corroídas — estavam arrumados como se seus donos tivessem saído por um momento e estivessem prestes a voltar. O nome no casco, desbotado mas
legível, dizia Santa Marta. O número de registro correspondia ao barco que desapareceu em Pirapora 15 anos antes. O Rio São Francisco nasce na serra da Canastra, em Minas Gerais, e corre por mais de 2.700 km até desaguar no Oceano Atlântico, entre Sergipe e Alagoas.
É o rio da integração nacional, o rio dos ribeirinhos, dos remadores, das carrancas nas proas e das histórias que o povo ribeirinho conta à noite, quando o vento para e a água escurece. É também o rio onde pessoas desaparecem, onde barcos afundam sem explicação, onde o silêncio do sertão encontra a imensidão de um lençol de água que, em certos trechos, se abre como um lago sem margens visíveis.
Os sete homens do Santa Marta não eram aventureiros, eram trabalhadores, homens que sustentavam suas famílias com o que o rio proporcionava, homens que saíam de madrugada e voltavam com as mãos cheias de cheiro de peixe e barro. Homens cujos nomes não apareciam nos grandes jornais, cujas famílias esperavam em silêncio, primeiro com esperança, depois com medo, depois com algo sem nome.
Aquilo que resta quando a esperança se vai, mas a certeza nunca chega. E esta é a história do desaparecimento do barco Santa Marta e dos sete pescadores de Pirapora, do que o rio levou, do que as famílias fizeram, do que a polícia não encontrou e do que apareceu 15 anos depois em um braço de rio esquecido com a mesa posta para o jantar.
Se esse tipo de história faz você parar e pensar no que acontece fora das câmeras nos rios e estradas deste país, você pode se inscrever no canal e deixar sua opinião nos comentários. A partir daqui, a história progride lentamente. Cada detalhe importa. Cada nome tem uma família por trás. O que acontece quando sete homens desaparecem e o rio não devolve nada? Nem um corpo, nem uma explicação.
Até onde vai uma mulher que rejeita a palavra “viúva”? Porque ela nunca viu prova do que todos os outros já aceitaram. O que significa encontrar um barco intacto com a mesa posta? Quinze anos depois, ainda não há sinal de quem estava a bordo. Estamos em Pirapora, norte de Minas Gerais, em novembro de 2008.
O rio corre lentamente nesta época do ano. A temperatura já passou dos 35 graus. As canoas de alumínio brilham na margem do rio. Os pescadores conhecem o Rio São Francisco como a palma da própria mão. E ninguém naquela tarde de sexta-feira imaginou que sete deles não voltariam.
Sebastião Botelho Reis tinha 52 anos e era o capitão do barco. Na margem do rio, todos o chamavam de Tião Marinheiro, apelido que recebeu do pai e do avô, ambos barqueiros de profissão. Sua família pescava no Rio São Francisco há três gerações.
Tião conhecia o rio como poucos. Sabia onde o fundo era rochoso, onde era areia fofa, onde a correnteza mudava de humor sem aviso. Tinha mãos grandes e calejadas, pele bronzeada pelo sol e um jeito quieto de falar que fazia os outros homens obedecerem sem que ele precisasse elevar a voz. Naquela sexta-feira de novembro, ele subiu no Santa Marta com a mesma facilidade de quem sobe na própria varanda.
Ele usava uma camisa azul desbotada, bermuda jeans e um chapéu de palha que sua esposa vivia pedindo que ele trocasse. Carregava um celular simples no bolso da bermuda, que ele quase nunca usava porque não havia sinal no rio de qualquer maneira. Ao lado de Tião embarcou Arlindo Mendes da Cruz, 61 anos, o membro mais antigo da tripulação. Seu Arlindo já tinha viajado o Rio São Francisco de Pirapora a Juazeiro, na Bahia, na época em que os barcos a vapor ainda faziam a rota comercial.
Ele conhecia o velho rio, o rio antes das represas, e falava dele com uma reverência que os mais jovens às vezes confundiam com superstição. Ele era viúvo há 8 anos e morava com a nora, Dona Conceição, e dois netos pequenos em uma casa de tijolos no bairro Santos do Mon, a quatro quadras do rio.
Ele tinha artrose nos joelhos e dores nas costas, mas nunca recusava uma pescaria. Ele dizia que o dia em que parasse de ir ao rio seria o dia em que finalmente morreria. Ele carregava consigo uma garrafa térmica de café, um terço no bolso e um canivete de cabo de osso que o pai lhe dera quando tinha 12 anos.
O terceiro era Geraldo Soares dos Anjos, o mais jovem do grupo, com 34 anos. Geraldo era genro de Tião. Tinha se casado com a filha mais velha do mestre, uma jovem chamada Lúcia, e fazia parte da tripulação há 6 anos. Era um homem forte e de ombros largos que trabalhava como pedreiro durante a semana e pescava nos fins de semana para complementar a renda.
Tinha dois filhos pequenos, um de quatro anos e outro de dois anos. A mulher contou mais tarde que, na manhã daquela sexta-feira, Geraldo acordou mais cedo do que o habitual, tomou café em pé na cozinha e passou um tempo observando os meninos dormirem antes de sair. Não falou nada de especial.
Ele não se despediu de jeito diferente. Apenas ficou lá, olhando, e depois saiu. Os outros quatro eram Nivaldo Pereira Gomes, 47 anos. Mecânico de motor a diesel e responsável pela manutenção do Santa Marta. Erivaldo Cardoso de Souza, 43 anos, que trabalhava como ajudante de Tião há mais de uma década e era conhecido pelo rio como Valdo Calado, porque quase nunca falava.
José Antônio da Silva, 38 anos, apelidado de Zé Piranha por causa de uma cicatriz no dedo indicador da mão esquerda, resultado de uma mordida de piranha quando tinha 15 anos. E Ademir Ferreira Lopes, 41 anos, pai de quatro filhos, que naquela semana estava substituindo outro pescador que havia adoecido. Ademir quase não foi. Sua esposa, Dona
Marlene, contou mais tarde que ele estava com uma gripe forte na quinta-feira e que ela tinha pedido para ele ficar em casa. Ademir disse que precisava ir porque seu ganho semanal dependia daquela pescaria. Ele tomou um chá de limão com mel, colocou uma jaqueta sobre a camiseta e saiu de casa antes do almoço. Dona Marlene ficou na porta e disse: “Vai com Deus.”
Ele respondeu sem se virar. “Volto logo.” Sete homens, sete histórias, sete famílias que ficaram na margem, vendo o rio levar o que era mais importante para eles. Nenhum deles era rico. Nenhum deles tinha inimigos conhecidos. Nenhum deles tinha motivo para fugir, para se esconder, para desaparecer.
Eram homens comuns, mas do tipo que todo o Brasil conhece. O vizinho que acorda cedo, pega o ônibus lotado ou a canoa no escuro, volta sujo e cansado, e senta na porta de casa ao final do dia para tomar uma cerveja e ver o sol se pôr. Eram invisíveis para o mundo, mas para aqueles que ficaram, eram tudo.
O porto de Pirapora, em novembro de 2008, não era um cais organizado com vagas numeradas. Era um barranco de terra na margem direita do Rio São Francisco, com troncos de árvores fincados no barro servindo de amarração, e uma rampa de concreto rachado por onde os barcos maiores desciam para a água. Cheirava a peixe seco, óleo diesel e aquela umidade grossa que sobe do rio no final da tarde, quando o sol começa a se pôr atrás dos buritizais.
O Santa Marta estava atracado lá desde a manhã, enquanto os homens carregavam o equipamento e checavam o motor pela última vez. Pirapora, naquela época, era uma cidade de pouco mais de 50.000 habitantes, espremida entre as montanhas e o rio, vivendo do pequeno comércio, da pesca e do tímido turismo que aparecia durante o período de férias.
A ponte Marechal Hermes ligava a cidade a Buritizeiro, do outro lado do Rio São Francisco, e à noite, quando o tráfego parava, era possível ouvir o som da água batendo nos pilares de concreto. Era uma cidade onde todos se conheciam. Onde a notícia viajava mais rápido que qualquer carro, onde o rio não era apenas paisagem, mas sustento, caminho e, para muitos, destino.
Naquela sexta-feira, o céu estava limpo e o calor era intenso desde o início da manhã. O termômetro da farmácia na Praça Melo Viana marcava 37º às 14h. Dois homens chegaram ao porto ao longo do dia, cada um ao seu ritmo. Tião foi o primeiro, por volta das 11 da manhã. Ele desceu a rua do porto de bicicleta, encostou a bicicleta num poste e começou a inspecionar o barco.
Ele verificou o nível do óleo do motor, testou a bomba de porão, amarrou as redes no convés e arrumou as caixas de isopor na proa. Lúcia chegou logo depois. Trazida pelo neto mais velho em uma moto. Nivaldo chegou a pé carregando uma caixa de ferramentas e um galão de combustível diesel reserva. Os outros chegaram ao longo da tarde, cada um trazendo sua contribuição.
Farinha, sal, café, açúcar mascavo e uma garrafa de cachaça que Zé Piranha escondeu sob uma lona. Entre 2 e 3 da tarde, enquanto esperavam o calor diminuir um pouco, os homens sentaram-se à sombra de uma mangueira perto da ravina. Eles fumaram e conversaram sobre o nível do rio, sobre os locais de pesca, sobre o preço do surubim no mercado de Montes Claros. Seu
Arlindo contou uma história sobre um jacaré que tinha visto na semana anterior, perto da Ilha do Jatobá. Tião ouvia em silêncio, conferindo a previsão do tempo no rádio portátil que sempre carregava. A previsão indicava tempo estável para os próximos três dias, sem chuva ou ventos fortes, condições ideais para a pesca. Por volta das 16h, Tião deu o sinal.
Os homens subiram a bordo. O motor a diesel do Santa Marta falhou duas vezes antes de pegar, soltando uma nuvem de fumaça preta que se misturou ao ar quente da margem. Nivaldo ajustou a rotação. Tião assumiu o leme. O barco afastou-se da margem lentamente, cortando a água barrenta em linha reta em direção ao centro do rio.
Dona Iracema ficou na margem com uma mão na cintura e a outra levantada. Ele acenou até o barco dobrar na curva lá embaixo, onde o rio faz uma volta larga antes de seguir para o norte. A última coisa que viu foi o chapéu de palha do marido, seu contorno silhuetado contra o sol da tarde. Depois, o rio ficou vazio.
Duas outras mulheres estavam no barranco naquele momento. Dona Marlene, esposa de Ademir, que tinha vindo trazer um casaco extra porque sabia que o marido estava com gripe, e uma vizinha, Dona Teresa, que tinha descido para comprar peixe fresco de outro barco que chegava. As três ficaram ali conversando por alguns minutos depois que o Santa Marta desapareceu de vista.
Dona Teresa comentou que o rio estava bonito, calmo e bom para pescar. Dona Iracema concordou. Dona Marlene disse que esperava que a gripe de Ademir não piorasse. Depois, cada uma foi para sua casa, para sua rotina, para seu próprio pedaço de vida compartilhada, que naquele momento ainda estava intacto. O barco desceu o rio durante a tarde e noite adentro.
Ninguém sabe exatamente a que horas chegou ao seu local de pesca planejado, provavelmente perto da Ilha do Retiro, um trecho conhecido pelos pescadores de Pirapora, cerca de 30 km rio abaixo, onde o Rio São Francisco alarga e forma profundos remansos, bons para bagres e dourados. Era ali que Tião costumava ancorar. Era ali que os homens armavam suas redes, acendiam o fogareiro e esperavam a noite passar, ouvindo os sons da água e dos bichos na margem.
Era ali que, em tese, tudo deveria ter acontecido como sempre acontecia, mas algo não aconteceu como de costume, e ninguém sabe o quê. Na manhã de sábado, Dona Iracema acordou às 5 horas, como sempre fazia. Colocou a água para ferver, tirou o pó do coador de pano e ficou parada na cozinha, olhando pela janela dos fundos que dava para o quintal e, mais longe, para a faixa escura do rio. Tião deveria chegar por volta do meio-dia.
Ela já tinha separado a bacia grande para lavar o peixe e deixado o alho descascado na pia. O barco não apareceu ao meio-dia. Nem às duas da tarde também. Iracema não ligou para ninguém. Sabia que atrasos no rio eram coisas que aconteciam. Mas quando o sol se pôs e o céu ficou vermelho sobre Pirapora, ela sentou na cadeira de plástico no quintal e ficou ali em silêncio até escurecer completamente.
Domingo amanheceu igual. Café coado no filtro de pano, janela dos fundos, rio correndo indiferente lá embaixo. Iracema foi ao porto no meio da manhã e perguntou aos outros pescadores se alguém tinha alguma notícia do Santa Marta. E ninguém tinha. Um barqueiro chamado Tonho Verdura, que tinha saído para pescar na sexta à noite e voltado na manhã de sábado, disse que não tinha cruzado com o barco de Tião em momento algum.
Não tinha visto luzes de barco na região perto da Ilha do Retiro, e não tinha ouvido nenhum motor. Iracema voltou para casa com um aperto no peito que ela descreveu mais tarde como um bicho que senta no estômago e não sai mais. Naquela noite, pela primeira vez em 32 anos de casamento, ela dormiu com a luz da cozinha acesa e a porta da frente destrancada.
Na manhã de segunda-feira, Dona Conceição, nora de Seu Arlindo, saiu de casa às 7 horas e foi direto para a Capitania dos Portos. Conceição era uma mulher prática, de voz firme e olhos secos. Tinha criado seus dois filhos do primeiro casamento sozinha antes de se juntar com o filho de seu Arlindo.
Ali sabia que esperar sem fazer nada era o mesmo que aceitar o pior. Levou os documentos do sogro, uma foto e o número de registro do barco, que ela tinha anotado em um pedaço de papel. Naquela mesma manhã, Dona Marlene foi à delegacia para registrar o desaparecimento de Ademir.
Dona Lúcia, filha de Tião e esposa de Geraldo, tentou ligar 16 vezes para o celular do pai entre sábado e segunda. Todas as chamadas caíam na caixa postal. O desespero não veio de uma vez só. Veio aos poucos, como a água subindo no barranco quando o rio enche à noite, silenciosamente, sem aviso, mas de forma constante. Cada hora que passava sem notícias era mais uma hora de silêncio que pesava sobre o coração daquelas mulheres.
Cada barco que aparecia na curva do rio e que não era o Santa Marta era uma pequena morte repetida. E cada telefonema que tocava e não trazia a voz dos maridos, pais ou sogros era uma confirmação silenciosa de que algo tinha dado errado. E a pior parte era que ninguém sabia o que era.
Não houve tempestade para culpar, nem acidente visível, nada, apenas o rio correndo como sempre corria, levando água, levando tempo, levando embora o que restava da esperança. A capitania fluvial de Pirapora funcionava em uma pequena sala no segundo andar de um prédio comercial na Avenida Governador Magalhães Pinto.
Havia dois funcionários civis e um oficial da Marinha que trabalhavam em turnos. A sala tinha uma mesa de fórmica, um computador antigo, um mapa laminado do São Francisco pregado na parede com tachinhas e um ventilador de teto que fazia mais barulho do que vento. Quando Dona Conceição chegou lá na segunda de manhã com a certidão de casamento do sogro e uma foto 3×4 tirada em um estúdio de Pirapora, o atendente pediu que preenchesse uma ficha e aguardasse.
Conceição preencheu tudo com uma letra pequena e minuciosa. Entregou e perguntou quando eles iam começar a procurar. O oficial disse que encaminharia o relatório para a base da Marinha em Belo Horizonte e que a instrução era aguardar um tempo razoável antes de iniciar uma busca formal. Conceição perguntou o que era um tempo razoável.
O funcionário disse que dependia. Conceição perguntou: “Depende de quê?” O funcionário não sabia a resposta. Na terça-feira, as famílias se reuniram na casa de Dona Iracema. As esposas dos sete pescadores estavam lá, junto com alguns dos filhos, o cunhado de Nivaldo e o pastor da igreja que Dona Marlene frequentava.
A reunião não tinha pauta nem coordenação. E é isso que acontece quando pessoas desesperadas se reúnem na mesma sala. Cada um falava sobre o que sentia. O que pensava, o que tinha medo de dizer em voz alta. Dona Lúcia chorou do começo ao fim. Dona Marlene rezou em silêncio. Dona Iracema ouvia a todos e depois disse, com uma voz que parecia mais cansada do que brava, que no dia seguinte iria à delegacia, à prefeitura e até ao corpo de bombeiros se fosse preciso. Que não ia ficar parada
esperando por uma resposta que ninguém queria dar. A busca oficial foi autorizada na quarta-feira, 19 de novembro, 5 dias depois da partida do Santa Marta. A autoridade fluvial mobilizou um barco de patrulha e dois barcos de apoio. O corpo de bombeiros de Pirapora despachou uma equipe de quatro homens.
A Polícia Militar forneceu dois soldados. Essa operação foi coordenada por um sargento da Marinha que tinha experiência em buscas fluviais no Pantanal, mas que nunca tinha trabalhado no Rio São Francisco. A área de busca foi definida como o trecho entre Pirapora e a cidade de São Francisco, 140 km rio abaixo, que era o alcance máximo estimado para o combustível que o Santa Marta carregava.
A operação de busca desceu o Rio São Francisco de lancha, barco a motor e, em alguns trechos, de canoa com motor de popa. Percorreram 140 km em 11 dias, parando em cada comunidade ribeirinha, cada ravina habitada, cada ilha onde os pescadores costumavam acampar. Conversaram com ribeirinhos em São Romão, com pequenos proprietários em Manga e com um grupo de carvoeiros que trabalhava em uma fazenda na margem esquerda, perto de Januária.
Ninguém tinha visto o Santa Marta e ninguém tinha ouvido motor à noite. Ninguém tinha encontrado nada flutuando. O rio corre largo e lento naquele trecho, com visibilidade de mais de 1 km em um dia claro. Um barco de 12 metros pintado de azul e branco não é algo que passe despercebido. Os bombeiros mergulharam em três pontos onde o rio forma poços profundos.
Trechos onde a correnteza erosiona o leito e onde, em tese, um barco poderia ter afundado sem deixar rastro na superfície. A visibilidade embaixo d’água era quase zero. Nessa época do ano, a água do Rio São Francisco carregava sedimento de barro que reduzia a visibilidade para menos de 1 metro.
Os mergulhadores desceram a uma profundidade de 12 metros e não encontraram nada: nem casco, nem motor, nem destroço, nem corpos. O leito do rio era barro e pedra, nada mais. Ao longo dos 11 dias de busca, metade da equipe visitou 32 comunidades ribeirinhas e entrevistou mais de 150 pessoas. Pescadores, barqueiros, agricultores, donas de casa, crianças brincando na beira do rio.
A resposta era sempre a mesma: não vi, não ouvi, não sei. Em um trecho do rio perto da cidade de Manga, um velho pescador chamado Joaquim Tapera disse à equipe de busca que na noite de sexta-feira tinha ouvido um barulho estranho vindo do rio, algo entre um estalo alto e um trovão seco, que durou alguns segundos e depois parou. Perguntaram que horas eram.
Ele disse que não sabia, que não tinha relógio, mas que era depois da meia-noite, pois o galo já tinha cantado uma vez. Perguntaram de que direção vinha o som. Ele apontou para o meio do rio e disse: “De lá, na escuridão.” O depoimento de Joaquim Tapera foi anotado no relatório de busca, mas não levou a nenhuma conclusão.
Ninguém mais ouviu o barulho. Não havia vestígio de explosão, colisão ou qualquer evento que pudesse ter produzido aquele som. O relatório registrou a informação como um relato isolado e não confirmado. No 11º dia, o sargento encarregado da operação reuniu a equipe na margem do rio, perto de São Francisco, e anunciou o fim da busca ativa.
Os recursos estavam acabando, o combustível estava diminuindo, os homens estavam exaustos e o rio não tinha devolvido nada. O relatório final da Capitania Fluvial, datado de 30 de novembro de 2008, registrou o desaparecimento da embarcação Santa Marta e de seus sete tripulantes como um acidente sem causa determinada e sem vítimas ou destroços localizados.
A última linha do relatório dizia: “As buscas são dadas por encerradas nesta data, ficando o caso à disposição para reabertura caso surjam novas informações.” Levariam 15 anos para que um novo fato surgisse. O boletim de ocorrência foi registrado na delegacia de polícia civil de Pirapora, sob um número que permaneceria gravado na memória de pelo menos três das famílias envolvidas.
O investigador encarregado, um homem de meia-idade chamado Dr. Valmir, ouviu Dona Iracema por 40 minutos, anotando tudo em pilhas de papel com uma caneta azul. Ouviu Dona Conceição, que foi mais direta e dura nas respostas. Ouviu o filho mais velho de Erivaldo, Reginaldo, que tinha 19 anos e trabalhava como ajudante de pedreiro, e que entrou na sala com olhos vermelhos e mãos trêmulas, mas que falou com uma clareza que surpreendeu até o delegado.
Ele anotou os nomes, idades, descrições físicas, as roupas que provavelmente estavam vestindo, e pediu fotos. Encaminhou o ofício para o IML (Instituto Médico Legal) de Montes Claros e para a capitania dos portos, e disse com uma franqueza que doía mais que qualquer silêncio, que sem corpo e sem embarcação, a investigação seria limitada.
Limitada. A palavra ecoou na sala da delegacia como se tivesse batido nas paredes e voltado. Dona Iracema não respondeu. Dona Conceição respirou fundo e perguntou se “limitada” significava que eles não iam fazer nada. O delegado explicou com paciência e sem cinismo que a polícia civil não tinha estrutura para buscas fluviais, que esse trabalho era responsabilidade da capitania dos portos e do corpo de bombeiros, que a delegacia poderia investigar hipóteses criminais, sequestro, roubo,
homicídio, mas que para isso precisava de provas, indícios, algo concreto. E não havia nada concreto. Não havia nem sequer um pedaço de madeira flutuando. E a investigação foi aberta como um caso de pessoas desaparecidas. Havia três linhas de investigação: acidente fluvial com naufrágio, ação criminosa de terceiros e desaparecimento voluntário.
A terceira hipótese foi descartada rapidamente. Sete homens com famílias estabelecidas, sem dívidas graves, sem antecedentes criminais e sem motivo aparente para assumir essa responsabilidade juntos. A segunda hipótese foi investigada apenas superficialmente. A polícia entrevistou alguns informantes sobre a atividade de pirataria no Rio, mas não encontrou nenhuma ligação direta com o caso.
A hipótese inicial, naufrágio, continuou sendo a mais provável, mas sem evidência material era impossível confirmá-la. Em março de 2009, quatro meses após o desaparecimento, o Ministério Público de Minas Gerais pediu informações sobre o andamento da investigação.
A delegacia respondeu que não havia novos fatos. O Ministério Público recomendou manter a investigação aberta, mas, na prática, o caso estagnou. Os documentos foram guardados em uma pasta de papel pardo, em uma estante de aço na sala de arquivos da delegacia de Pirapora, entre centenas de outros arquivos que ninguém consultava. As famílias receberam a notícia do arquivamento do caso por meio de uma simples carta, entregue pelo correio, sem qualquer outra explicação.
Dona Iracema leu o papel duas vezes, dobrou-o com cuidado e guardou em uma gaveta da cômoda do quarto, junto com a certidão de casamento, os documentos de Tião e uma foto dos dois tirada no aniversário de 30 anos de casamento. Ela não chorou, não gritou, não rasgou o papel, apenas guardou e fechou a gaveta.
Conceição foi à delegacia no dia seguinte e pediu para falar com o delegado. Ele não estava lá. Ela deixou um bilhete na recepção que dizia: “Continuaremos procurando com ou sem vocês.” E procuraram. Depois do primeiro ano, a vida em Pirapora seguiu para todos os outros, exceto para as famílias dos sete.
A cidade não parou, o rio não secou, os barcos continuaram indo e vindo, mas sete casas continuaram diferentes. Dona Iracema não trocou a fechadura da porta da frente porque Tião carregava a chave no bolso, e ela tinha medo de que, se ele voltasse, não conseguisse entrar. A esposa de Geraldo Soares dos Anjos, Dona Lúcia, filha de Tião, começou a trabalhar como faxineira em três casas para sustentar os dois filhos.
Ela nunca pediu pensão por morte porque nunca aceitou que seu marido tinha morrido. Para pedir pensão, precisava de certidão de óbito. Para obter a certidão, precisava de corpo ou de uma declaração judicial de morte presumida. Lúcia se recusou a fazer o pedido. Disse à família que fazer isso era o mesmo que matar Geraldo com as próprias mãos.
Dona Marlene, esposa de Ademir, foi a que mais sofreu com os aspectos burocráticos. Precisava do dinheiro. Tinha quatro filhos entre 6 e 14 anos. O mais velho, um menino chamado Velisson, largou a escola para trabalhar em uma oficina mecânica no centro de Pirapora e ajudar em casa. Dona Marlene tentou pedir pensão por morte pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), mas o processo travou porque não havia certidão de óbito.
O funcionário do INSS de Pirapora explicou gentilmente, mas sem apresentar solução, que sem a declaração de morte presumida, o sistema não liberava o benefício. Marlene teve que contratar um advogado da Defensoria Pública para entrar com a ação judicial. O pedido levou três anos para ser julgado.
Durante três anos, ela lavou roupa para outras pessoas, limpou casas, vendeu bolo de pote na porta da escola dos filhos e dormia apenas quatro horas por noite. A esposa de Nivaldo, Rosângela, teve um destino diferente. Seis meses após o desaparecimento, ela deixou Pirapora com seus três filhos e foi morar com uma irmã em Montes Claros.
Não suportava ficar na cidade. Dizia que não conseguia olhar para o rio sem sentir que ele ia devolver seu marido a qualquer momento, e que essa espera estava destruindo-a por dentro. Em Montes Claros, encontrou emprego em uma padaria e recomeçou sua vida na medida do possível, quando uma parte de sua vida estava presa em um rio a 150 km de distância.
As esposas de Erivaldo e Zé Piranha permaneceram em Pirapora. Continuaram morando nas mesmas casas, frequentando a mesma igreja e fazendo compras no mesmo armazém da esquina. De vez em quando se encontravam na rua e trocavam um olhar que dizia mais do que qualquer conversa, um olhar de quem compartilha algo que ninguém de fora entende.
A textura de conviver com uma ausência que não tem forma, não tem data, não tem certidão de nascimento. Piracema foi a que mais resistiu. Continuou morando sozinha na casa no bairro São Sebastião, mantendo tudo como Tião tinha deixado. A bicicleta dele continuava encostada no mesmo lugar. As ferramentas de pesca ficaram penduradas no galpão dos fundos.
Ele tinha dois chapéus de palha reserva. Foi deixado no prego atrás da porta do quarto. Iracema lavava a casa todo sábado, como sempre fazia. Cozinhava para uma pessoa, mas ainda colocava dois pratos na mesa por hábito. Às vezes à noite, ia para o quintal, sentava na cadeira de plástico e olhava na direção do rio sem ver nada, porque entre a casa e o barranco havia quarteirões inteiros de casas.
Mas ela ainda olhava, como se esperar fosse um trabalho, como se o ato de esperar por si só mantivesse algo vivo. A ausência dos sete homens moldou a vida daqueles que ficaram de forma silenciosa e permanente. Não houve grandes reportagens na televisão, nada de importância nacional. O caso apareceu nos jornais regionais por uma ou duas semanas e depois desapareceu, como tantas histórias de gente comum em cidades pequenas do interior do Brasil.
Os nomes dos Sete Pescadores de Pirapora nunca foram mencionados em um telejornal de rede nacional. Suas fotos nunca apareceram em uma tela grande, e suas famílias nunca foram entrevistadas por um repórter de terno. Só restou o silêncio e o rio. Com o tempo, os boatos cresceram por todas as comunidades ribeirinhas, como o mato que cresce na beira da água.
Lenta mas constantemente. Alguns diziam que o Santa Marta tinha sido abordado por piratas do rio, grupos que assaltavam embarcações de carga no trecho entre Januária e Carinha. Outros diziam que os sete tinham se envolvido no transporte de mercadorias ilícitas e que as coisas tinham dado errado. Alguns diziam que o barco tinha batido em um tronco submerso e afundado durante a noite, sem que ninguém tivesse teto para gritar.
E havia também as histórias mais antigas, aquelas que os ribeirinhos contam em tom baixo, olhando para o rio, sobre a mãe d’água, sobre barcos que desaparecem em noites de lua cheia, e sobre o Rio São Francisco reclamando o que é legitimamente seu. A hipótese da pirataria não era absurda. No trecho médio do Rio São Francisco, entre o norte de Minas Gerais e o oeste da Bahia, eram frequentes os relatos de ataques a embarcações nos anos 2000.
Barcos de carga que transportavam mantimentos para comunidades isoladas eram abordados por grupos armados em lanchas, geralmente à noite, em trechos onde o rio era largo e as margens inabitadas. Os assaltantes levavam tudo: diesel, comida, motores, e às vezes agrediam a tripulação. Em alguns casos, houve mortes.
A Polícia Federal investigou uma rede de pirataria no Rio São Francisco em 2006, mas a operação resultou em poucas prisões e a atividade continuou de forma esparsa. Para as famílias dos sete, a hipótese da pirataria era simultaneamente a mais assustadora e a mais aceitável. Assustadora porque envolvia violência, sofrimento e morte.
Aceitável porque fornecia uma explicação, uma causa, alguém responsável, algo contra o qual a raiva e a dor tinham se voltado. Mas não havia prova. Nenhum grupo assumiu a responsabilidade pelo ataque. Nenhum dos informantes mencionou o Santa Marta. Nenhum dos itens do barco foi encontrado à venda no mercado negro da região.
A hipótese de envolvimento com drogas surgiu de forma mais insidiosa. Começou como um comentário casual em um bar de Pirapora, feito por alguém que ninguém depois conseguiu identificar. A história cresceu, que Tião tinha dívidas, que o barco fazia viagens que não eram apenas para pescar, que os sete estavam transportando mercadoria para alguém em Januária.
Nada disso tinha qualquer fundamento. A polícia investigou e não encontrou nenhuma ligação. Nenhuma das sete famílias apresentou sinais de disparidade de renda. Maptião morava em uma casa simples. Geraldo era pedreiro. Ademir vivia de bico em bico. A acusação era cruel e infundada, do tipo que surge quando as pessoas precisam de uma explicação e não encontram uma limpa.
É mais fácil aceitar que alguém se meteu onde não devia do que aceitar que o mundo é um lugar onde sete homens podem simplesmente desaparecer sem motivo. Dona Iracema sabia disso e não falou nada publicamente, mas disse mais tarde a uma vizinha que doía mais do que o próprio desaparecimento.
Disse que podiam falar o que quisessem sobre o rio, o vento, o azar, a vontade de Deus. Mas dizer que seu marido era um criminoso era algo que ela não podia aceitar, e se tivesse que escolher entre nunca saber o que aconteceu e aceitar uma mentira, preferia nunca saber. Os anos se passaram, o rio continuou correndo, as estações se repetiram: seca, chuva, seca, chuva.
E com elas, o nível do Rio São Francisco subiu e desceu, cobrindo e descobrindo bancos de areia, ilhas, troncos de árvores submersos, segredos. Os filhos dos pescadores desaparecidos cresceram. Os mais velhos se casaram, alguns tiveram filhos. Visson, filho mais velho de Ademir, virou mecânico e abriu uma pequena oficina na periferia de Pirapora, na estrada para Montes Claros.
Os dois filhos de Geraldo foram criados por Dona Lúcia com a ajuda de Dona Iracema. O mais velho, chamado Sebastião em homenagem ao avô, entrou na Marinha Mercante aos 18 anos. Quando a mãe perguntou por que queria trabalhar no Rio, respondeu: “Porque o rio me deve uma resposta.” Em 2012, a Defensoria Pública conseguiu a declaração de morte presumida para seis dos sete desaparecidos.
Dona Lúcia foi a única que não assinou. Geraldo continuou listado como desaparecido no sistema. A declaração de morte presumida permitiu que as outras famílias finalmente acessassem pensões, seguros onde houvesse, e resolvessem questões de bens que estavam paradas. Segundo o Estado, seis dos sete homens estavam oficialmente mortos.
Para as famílias, nenhum deles estava lá. Seu Arlindo teria feito 75 anos em 2022. Sua nora, Dona Conceição, fez uma missa na igreja do bairro e acendeu sete velas, uma para cada homem do Santa Marta. Depois da missa, foi até a margem do rio e ficou lá por 20 minutos olhando para a água.
Não jogou flores, não rezou em voz alta, apenas ficou lá como quem visita um lugar que é ao mesmo tempo um túmulo e uma fonte de dúvida. em Pirapora ao longo do tempo. E a história dos sete pescadores virou uma daquelas histórias que todo mundo sabe, mas ninguém comenta a menos que seja perguntado. Crianças nascidas depois de 2008 ouviam sobre o Santa Marta como ouviam sobre assombrações — algo distante, meio real, meio lenda.
Os adultos sabiam que era verdade, mas evitavam o assunto perto de suas famílias. O rio seguia, imenso e indiferente, como sempre. Em março de 2023, três vaqueiros da fazenda Boa Sorte, no município de Bom Jesus da Lapa, oeste da Bahia, caminhavam pela margem esquerda do Rio São Francisco, conduzindo uma boiada de gado Nelore que precisava atravessar uma área de várzea alagada.
O mais velho dos três, um homem chamado Valdomiro Pereira, foi o primeiro a avistar o casco entre a vegetação. Achou que fosse um barco de pesca abandonado, cena comum naquela região, mas quando chegou mais perto, percebeu que o barco estava intacto. O casco não tinha furos, o motor estava no lugar e, no convés de popa, protegido por uma lona plástica que o tempo desbotou mas não rasgou, havia uma mesa posta.
Valdomiro tinha 58 anos e trabalhava com gado desde os 14. Conhecia aquele trecho do rio como a palma da mão. Disse mais tarde que tinha passado por ali dezenas de vezes ao longo dos anos e nunca tinha visto aquele barco antes. Isso não significava que o barco não estivesse lá. A vegetação de várzea ao longo do Rio São Francisco é densa e muda de forma com as cheias, mas isso significava que, se o barco estava ali há muito tempo, estava bem escondido.
Os três vaqueiros subiram a bordo com cuidado. O convés estava coberto de folhas secas, galhos finos e uma camada de limo verde que indicava exposição prolongada à umidade. Mais abaixo, debaixo da lona plástica, no convés de popa, as coisas estavam preservadas de um jeito que nenhum dos três conseguia explicar.
Havia sete pratos de alumínio dispostos em círculo sobre uma tábua de madeira que servia de mesa. Ao lado de cada prato, um garfo e uma colher. No centro, uma cafeteira esmaltada verde com a tampa encaixada. Ao redor da cafeteira, sete copos plásticos virados para baixo. O jeito que qualquer dona de casa do interior arrumaria os copos para evitar que entrasse poeira.
Era como se alguém tivesse preparado tudo para uma refeição e depois desaparecido. Valdomiro abriu o porão. Estava vazio. Os pratos estavam vazios. Não havia comida, nem restos, nada que indicasse que a refeição tinha sido servida e a mesa estava posta, mas ninguém tinha comido. No restante da embarcação, as descobertas eram igualmente desconcertantes.
Na cabine da proa, onde os pescadores costumavam guardar seus pertences, havia sacos plásticos organizados com cuidado. Dentro de cada saco, roupas dobradas, camisas, bermudas, chinelos. Um dos sacos continha uma carteira de couro com documentos em nome de Nivaldo Pereira Gomes, com seu RG e CPF legíveis apesar da idade.
Outro saco continha um rádio portátil com pilhas corroídas pelo ácido. Havia também um par de óculos, uma sacola de nylon com anzóis e linhas, e um caderno de espiral com anotações sobre locais de pesca, nomes de ilhas, profundidades e datas escritas com uma letra minúscula que o mofo não tinha apagado completamente. O motor a diesel estava no lugar com a hélice parcialmente enterrada no barro, e o tanque de combustível estava vazio.
As redes de pesca estavam enroladas no convés, secas e endurecidas, mais intactas do que nunca. A caixa de isopor usada para guardar o peixe estava na proa, aberta, vazia e limpa por dentro. Não havia marcas de impacto no casco, sinais de fogo, furos, rachaduras ou deformações que sugerissem uma colisão ou encalhe violento.
O barco parecia ter sido estacionado ali com cuidado, ancorado em um ponto raso onde a água mal cobria o fundo, e depois abandonado. Não havia sangue, sinais de luta, ferimentos a bala, facadas ou qualquer tipo de violência. E acima de tudo, não havia corpos, nem dentro do barco, nem nas proximidades, nem na água em volta.
Os sete homens tinham simplesmente sumido, deixando para trás tudo o que carregavam: roupas, documentos, ferramentas e comida preparada para ser servida. como se todos tivessem se levantado da mesa ao mesmo tempo e entrado no rio. Valdomiro ligou para o dono da fazenda de um telefone fixo. O dono da fazenda ligou para a delegacia de Bom Jesus da Lapa.
A delegacia entrou em contato com a polícia civil em Salvador. Em menos de 48 horas, o braço morto do rio onde o Santa Marta estava encalhado virou cena de investigação. A Polícia Civil da Bahia isolou o barco e convocou peritos forenses de Salvador. Identificar a embarcação levou menos de uma semana. O número de registro na capitania correspondia ao barco Santa Marta, registrado em Pirapora, que desapareceu em novembro de 2008.
A notícia chegou às famílias por telefone 15 anos depois. Dona Iracema atendeu ao chamado sentada na mesma cadeira de plástico do quintal. O interlocutor era um investigador da Polícia Civil de Minas Gerais que usou palavras cuidadosas, mas que não conseguiu responder à única pergunta que ela fez. “E os homens, doutor, onde estão os homens?” O investigador não sabia a resposta. Ninguém sabia.
A unidade de investigação criminal de Salvador enviou uma equipe ao local, que permaneceu lá por três dias examinando o barco. O laudo preliminar confirmou o que os vaqueiros já tinham observado. Não havia sinais de violência, restos humanos, nem manchas de sangue visíveis a olho nu ou sob luz ultravioleta.
A estrutura do casco estava intacta. O motor apresentava desgaste condizente com o tempo de exposição, mas não exibia danos mecânicos que indicassem falha repentina. Amostras de lodo e sedimento coletadas do casco foram enviadas para análise laboratorial, mas os resultados não forneceram nenhuma informação relevante sobre a cronologia ou as circunstâncias do encalhe.
O que os peritos não conseguiram explicar foi a preservação dos pertences pessoais. 15 anos de exposição ao clima do sertão baiano. Sol intenso, chuva torrencial. A umidade constante deveria ter destruído as roupas de algodão, os documentos de papel e os objetos de plástico. Mas a lona que cobria o convés de popa, embora desbotada, tinha servido como proteção razoável.
E a posição do barco, em um braço morto do rio, parcialmente coberto pela copa de uma grande figueira, tinha criado uma espécie de sombra natural que reduzia a incidência direta do sol. Mesmo assim, o grau de preservação era incomum. O caderno de espiral, com anotações de pesca por exemplo, tinha páginas mofadas, mas estavam mais legíveis porque a carteira de Nivaldo estava ressecada, mas mais intacta.
Os pratos de alumínio estavam enferrujados nas bordas, mas dispostos na mesma posição em que foram encontrados. A arrumação da mesa foi o detalhe que mais intrigou os investigadores. Sete pratos, sete garfos, sete colheres, sete copos, dispostos em círculo como para uma refeição compartilhada, mas sem comida, sem restos, sem qualquer sinal de uso.
A investigação levantou duas possibilidades. Ou a mesa foi posta para uma refeição que nunca aconteceu, os homens desapareceram antes de comer, ou a mesa foi posta depois por alguém como uma espécie de evento encenado. A segunda hipótese foi descartada por falta de provas e falta de motivo. Quem faria isso? E por quê? A primeira hipótese era a mais lógica, mas também a mais perturbadora.
Se os homens desapareceram antes da refeição, o que os levou para fora do barco? E por que deixaram tudo para trás? Roupas, documentos, dinheiro, pertences pessoais? Pessoas que fogem levam coisas. Pessoas que são sequestradas deixam sinais. Pessoas que caem na água deixam marcas. Pessoas que morrem deixam corpos para trás.
Os sete pescadores do Santa Marta não deixaram nada disso. Deixaram uma mesa posta e o silêncio. A notícia da descoberta se espalhou por Pirapora em questão de horas. Antes mesmo de a polícia emitir qualquer comunicado oficial, o telefone de Dona Iracema já tocava sem parar. Vizinhos, parentes, conhecidos, todos queriam saber se era verdade, se tinham encontrado o barco, se tinham encontrado os homens.
Iracema repetia a mesma frase para cada pessoa que ligava. Encontraram o barco, mas não encontraram ninguém. Na semana seguinte, Dona Conceição viajou até Bom Jesus da Lapa para ver o barco com os próprios olhos. Levou quase 12 horas de estrada desde Pirapora, BR135 até Montes Claros, depois BR251 até Salinas, depois uma estrada estadual até a Bahia.
Conceição foi com o neto mais velho, Arlindo, um jovem de vinte e poucos anos que dirigia um Fiat Uno emprestado. Chegaram ao local no final da tarde, quando o sol já estava baixo, e a luz dourada do sertão baiano cobria o rio de uma cor que parecia de outro tempo. O barco ainda estava lá, isolado com fita policial.
Conceição pediu permissão para subir a bordo. O policial de guarda hesitou, mas acabou permitindo. Ela subiu no convés da proa, segurando-se na borda com as duas mãos, e caminhou lentamente até a popa. Viu a mesa posta, viu os pratos, viu os copos virados para baixo.
Ficou ali por um longo tempo, olhando sem falar. O neto ficou lá embaixo na margem. Esperando. E quando ela desceu, seus olhos estavam secos, mas seu rosto tinha mudado. Algo dentro dele tinha endurecido completamente. Ela disse ao neto dentro do carro, na volta, que eles estavam se arrumando para comer. Estavam todos juntos e algo veio e levou-os embora, não sei o quê, mas sei que não saíram porque queriam.
A Polícia Civil de Minas Gerais reabriu a investigação original depois que o barco foi encontrado. Novas diligências foram solicitadas. A Polícia Civil da Bahia compartilhou o material forense. O Ministério Público de Minas Gerais designou um promotor para acompanhar o caso.
Mas a reabertura não trouxe nenhuma resposta nova. Trouxe mais perguntas. Como o barco percorreu mais de 600 km rio abaixo sem ser visto por ninguém? O rio Santa Marta saiu de Pirapora e apareceu perto de Bom Jesus da Lapa, em um trecho do Rio São Francisco que fica em outro estado. Entre esses dois pontos, o rio passa por dezenas de cidades e comunidades ribeirinhas.
Passa por São Romão, Januária, Manga, Itacarambi, Carinhanha, Serra do Ramalho, lugares onde existem portos, onde existem pescadores, estamos sempre olhando para Serágua. Um barco de 12 metros pintado de azul e branco, navegando rio abaixo, com ou sem tripulação, deveria ter sido avistado por alguém em algum momento, mas ninguém viu, ou ninguém disse que viu.
Havia também a questão da navegação. Se os homens desapareceram perto de Pirapora, como as circunstâncias sugeriam, o barco teria derivado 600 km sozinho, sem tripulação. Em tese, isso era possível. O Rio São Francisco tem longos trechos de correnteza constante, e um barco à deriva poderia derivar por dias ou semanas, mesmo que empurrado pela água.
Mas um barco à deriva bate em coisas, encalha em bancos de areia, fica preso em vegetação, gira em remansos, não percorre 600 km em linha clara, e acaba parado em um braço morto do rio, como se alguém o tivesse guiado até lá. A alternativa era que alguém tivesse de fato guiado o barco até aquele ponto.
Mas quem, e por quê? E onde estavam os sete homens que deveriam estar a bordo? O laudo pericial final foi entregue em julho de 2023. Tinha 34 páginas e concluía com uma frase que resumia 15 anos de silêncio. Não foi possível determinar as causas e circunstâncias do desaparecimento dos sete tripulantes da embarcação Santa Marta.
Nem está claro qual a dinâmica que resultou na localização da embarcação no ponto onde foi encontrada. Em Pirapora, a descoberta do barco não trouxe alívio, mas sim um novo tipo de dor: a dor de quase saber, de chegar perto da resposta e encontrar outra pergunta, de ver com os próprios olhos o lugar onde os homens estiveram, o que os homens tocaram, o que os homens prepararam, e não saber o que veio depois.
Dona Iracema recebeu a carteira de Tião de volta. Estava dentro de um saco plástico lacrado com um número de protocolo colado do lado de fora. Ela abriu o saco na mesa da cozinha, tirou a carteira e ficou segurando-a por um longo tempo. Dentro estavam a carteira de identidade de Tião, seu CPF (Cadastro de Pessoas Físicas), uma foto dos dois (a mesma do aniversário de 30 anos), e uma nota de R$ 20 dobrada em quatro.
Iracema olhou para a nota e disse: “Para ninguém em específico. Ele sempre mantinha uma nota no fundo da carteira. Ele dizia que era caso precisasse voltar para casa de qualquer jeito. A nota estava lá. Tião não.” Dona Lúcia recebeu a notícia da descoberta do barco por telefone em um sábado de manhã, enquanto estendia roupas no varal dos fundos.
Seu filho mais velho, Sebastião, aquele que tinha entrado na marinha mercante, estava no mar e só ficou sabendo três dias depois, quando o navio atracou em Vitória e ele conseguiu sinal de celular. Ele ligou para a mãe e ficaram em silêncio por quase um minuto antes de alguém falar. Sebastião disse: “Mãe, encontraram o barco do vô.” Lúcia disse: “Eu sei, meu filho.” Sebastião perguntou: “E agora?” Lúcia respondeu: “Agora nada.”
Agora é igual a antes, só que pior. Dona Marlene, que até então tinha criado quatro filhos e trabalhava como auxiliar de cozinha em um restaurante na BR365, recebeu a notícia pelo grupo de WhatsApp da família.
Leu a mensagem, deixou o celular cair no balcão e foi para o banheiro dos funcionários. Ficou lá por 10 minutos. Quando voltou, sua colega de trabalho perguntou se estava tudo bem. Marlene disse que sim, que era apenas uma tontura. Não falou nada. Não chorou na frente de ninguém. Chorava em casa, à noite, sozinha, como fazia desde 2008.
Dona Conceição foi a única que transformou sua dor em ação. Depois de voltar de Bom Jesus da Lapa, procurou a imprensa regional. Deu entrevista para uma emissora de TV em Montes Claros e para um jornal online de Pirapora. Contou a história do começo ao fim, mostrou as fotos, mostrou os documentos, mostrou o bilhete que tinha deixado na delegacia em 2009.
“Continuaremos procurando com ou sem vocês.” Solicitou que o caso fosse verdadeiramente reaberto, mas que alguém explicasse como um barco desaparece com sete homens e reaparece 15 anos depois com a mesa posta e ninguém a bordo. A reação foi moderada. A história circulou nas redes sociais por várias semanas. Um canal do YouTube sobre casos inexplicados fez um vídeo que recebeu 200 mil visualizações.
Um blogueiro de Belo Horizonte comparou o caso ao do Mary Celeste, o navio americano encontrado à deriva no Atlântico em 1872, intacto, com a mesa posta e sem tripulação. A comparação era imperfeita, mas a imagem era poderosa. Um barco fantasma no São Francisco com pratos postos para um jantar que ninguém comeu.
A investigação continua aberta até hoje. Não há suspeitos, não há corpos, não há explicação oficial. As famílias dos sete pescadores continuam morando em Pirapora e Montes Claros, carregando o peso de uma ausência que não tem forma e não tem fim. O barco Santa Marta foi apreendido pela capitania fluvial e levado para um depósito em Juazeiro, na Bahia, onde permanece como material probatório de um caso que ninguém conseguiu resolver.
O Rio São Francisco continua correndo, largo, lento, indiferente, passando por cidades que dormem cedo e acordam ao som da água, carregando sedimento, carregando peixe, carregando tempo, guardando o que ninguém encontrou. Dona Iracema Botelho Reis completou 74 anos em outubro de 2023. Continua morando na mesma casa.
A bicicleta de Tião continua encostada na parede no mesmo lugar. A fechadura da porta da frente continua inalterada. Ela continua sentando na cadeira de plástico no quintal à noite, olhando em direção ao rio que não é visível. Alguém lhe perguntou depois que o barco foi encontrado se ela agora aceitava que seu marido não ia voltar.
Ela permaneceu em silêncio por um tempo, depois disse: “Eu não aceito nada, eu apenas espero. É a única coisa que sei fazer.” A nota de R$ 20 que Tião guardava na carteira para voltar para casa de qualquer jeito está agora na gaveta da cômoda, junto com a certidão de casamento, documentos e a foto do aniversário de 30 anos. A gaveta está fechada. A casa está silenciosa.
O rio corre lá embaixo, como correu ontem, como correrá amanhã. E os sete pratos de alumínio dispostos em círculo para uma refeição que nunca aconteceu continuam sendo a última imagem que alguém teve dos sete homens do Santa Marta, sentados juntos, prontos para comer, em um barco que o rio levou embora e que o tempo não conseguiu explicar. É.
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