Ele casou com ela apenas para controlar a herança — a câmera escondida gravou tudo o que aconteceu.
Uberaba, Minas Gerais, uma cidade que cheira a barro e fé, conhecida pelo gado Zebu, pela cerâmica e pela memória de Chico Xavier. Em julho de 2019, se você caminhasse pela Rua Crisântemo, no bairro Nossa Senhora da Abadia, veria uma casa de esquina com um jardim bem cuidado, roseiras na calçada e um relógio de parede visível através da janela aberta da sala.
A senhora que morava lá chamava-se Eunice Carvalho Mendonça. Tinha 74 anos, bebia café coado em filtro de pano todas as tardes e ouvia a missa pelo rádio aos domingos porque preferia não depender de ninguém para se locomover. “Assim é bom. Não preciso de ninguém”. Quem a conhecia dizia isso com admiração, nunca com crítica.
Era filha de oleiro e cresceu vendo o barro se transformar em tigelas, pratos e jarros. Quando conheceu Donizete Mendonça nos anos 1970, ele era um rapaz de Araguari, recém-chegado a Uberaba. Casaram-se em 1972. Em 1983, abriram a cerâmica Mendonça em um galpão alugado nos arredores da cidade. Louças utilitárias, travessas, canecas e jarros distribuídos por toda a região do Triângulo Mineiro.
Não ficaram ricos, tornaram-se estáveis, que é uma forma de prosperidade diferente e mais duradoura. Donizete morreu de infarto em junho de 2015, numa terça-feira sem aviso. 43 anos de casamento. Eunice ficou com a empresa, dois imóveis comerciais no centro da cidade, um apartamento em Uberlândia e uma reserva natural que levou décadas para ser construída.
Em 2017, vendeu a empresa de cerâmica para um grupo de Ribeirão Preto. Não queria mais administrar nada. Queria o jardim, as partidas de cartas de quinta-feira com as amigas da paróquia e a paz que Donizete sempre dizia que ela merecia. Marta Aparecida Souza trabalhava na casa desde 2001.
Começou lá quando os filhos ainda moravam em Uberaba, quando o cheiro de bolo de fubá assando no forno era uma rotina de sábado. Conhecia cada gaveta, cada humor de Eunice. Após a morte de Donizete, foi ela quem ficou, não por obrigação, mas por afeto construído ao longo de anos de convivência. Eunice pagava o 13º salário em dia.
Havia pagado a cirurgia do joelho de Marta em 2014 sem que lhe fosse pedido. Manteve seu salário durante toda a crise sem redução. Não era amizade, era respeito. Quem realmente se destacou foi Marta, que foi a primeira a saber de Rogério. Em março de 2019, Eunice compareceu a um almoço beneficente do Lions Clube no salão do clube Uberabense.
Não costumava ir a esses eventos, mas uma amiga da paróquia insistira. Rogério Salomão estava em uma mesa próxima. Com pouco mais de cinquenta anos, vestindo terno cinza, com cabelos grisalhos aparados com esmero. Disse ser de Montes Claros, que trabalhava como consultor para pequenos produtores rurais e que era viúvo.
Disse tudo isso com calma, sem pressa, como se estivesse apenas conversando. Pediu o número de telefone de Eunice antes do almoço terminar. Ela deu. Nas semanas seguintes, ele enviou mensagens de áudio no WhatsApp com voz suave. Levou um buquê de gérberas, não rosas, gérberas, como se soubesse. Convidou-a para jantar em um restaurante de comida mineira na Avenida Leopoldino de Oliveira.
Eunice foi e voltou animada. Contou a Marta numa manhã de abril, enquanto descascavam mandioca. Marta ouviu, disse que era bom ela sair, e depois ficou quieta. Não era desconfiança, era cautela. É algo que pessoas que trabalham em casas particulares aprendem a ter sem saber explicar.
Eunice contou à filha Patrícia por telefone. Patrícia ficou satisfeita com aquela alegria contida de filha que não quer parecer surpreendida demais. Contou ao filho Rodrigo em uma chamada de vídeo no domingo. Rodrigo perguntou o que Rogério fazia, de onde era exatamente e se ela sabia o sobrenome completo dele.
Eunice riu e disse que ele era igual ao pai, desconfiado de tudo. Em setembro de 2019, seis meses após o almoço do Lions Clube, Eunice e Rogério Salomão casaram-se no civil. A cerimônia foi pequena. Patrícia e Rodrigo não foram convidados. Souberam por mensagem de WhatsApp horas após o registro.
Patrícia ficou ali com o celular na mão por um tempo que não conseguiu medir. Depois ligou para Rodrigo. Ele disse: “Ela tem o direito, Patrícia. É a vida dela”. Patrícia concordou, mas enquanto concordava, lembrou-se de algo que Eunice mencionara em uma conversa anterior, quase de passagem, que em seus primeiros encontros Rogério havia comentado sobre a venda da cerâmica, que sabia o valor aproximado da transação e que, quando ela perguntou de onde ele havia tirado essa informação, ele sorriu e mudou de assunto.
Eunice tinha achado engraçado. Patrícia, não. Patrícia Mendonça era professora de história na Universidade Federal de Uberlândia. Passava os dias ensinando os alunos a desconfiar de narrativas fáceis, a procurar o que estava por trás dos documentos, a perguntar sempre a quem interessava. Quando desligou o telefone após a conversa com Rodrigo sobre o casamento da mãe, percebeu que não tinha feito nenhuma dessas perguntas sobre Rogério Salomão.
Fez isso na mesma noite, abriu o computador, digitou o nome no Google e não encontrou quase nada. Uma menção em um site de uma cooperativa agrícola em Montes Claros, datada de 2011, listando participantes de um seminário. Uma foto borrada em um perfil de Facebook desativado. Nenhuma empresa registrada, nenhum CNPJ, nenhuma presença profissional verificável para um homem que dizia ser consultor há décadas.
O silêncio digital de Rogério não era o de quem simplesmente não usava redes sociais; era o de quem havia apagado cuidadosamente seus rastros. Ligou para Rodrigo no dia seguinte. Ele ouviu, ficou quieto por alguns segundos e disse que iria pensar. Para Rodrigo, ainda era cedo para se alarmar.
Para Patrícia, já era tarde demais. Contratou um advogado em Uberaba, Geraldo Fonseca, especialista em direito de família, e pediu que investigasse discretamente o histórico de Rogério Salomão, natural de Montes Claros, nascido por volta de 1971. Geraldo disse que levaria algumas semanas. Enquanto isso, Rogério instalava-se na casa da Rua Crisântemo.
Nas primeiras semanas, foi atencioso. Ajudava Eunice a carregar as compras, frequentava a missa aos domingos e ficava na sala conversando com Marta sobre seu tempo com um. A cordialidade parecia estudada. Marta sorria e respondia, mas começou a notar pequenas coisas, do tipo que só quem conhece uma casa por dentro pode perceber.
Rogério diminuía o volume da televisão quando Marta entrava na sala. Nem sempre, às vezes o suficiente para ela notar. Atendia o telefone fixo antes que ela pudesse levantar, mesmo quando estava do outro lado da casa. Quando visitantes chegavam, ele aparecia na sala logo depois, sentava no sofá e ficava.
Não participava da conversa de forma intrusiva, apenas ficava. Em outubro, Marta chegou ao trabalho e encontrou a fechadura do escritório de Donizete trocada. Era um quartinho no final do corredor, onde o velho guardava papéis da cerâmica, fotografias e uma escrivaninha de madeira escura que pertencera ao seu pai. Ele nunca havia trancado aquela porta.
Quando Marta perguntou, Eunice disse que Rogério estava usando o espaço para trabalhar e que era melhor não incomodá-lo. Sua voz estava diferente, mais baixa, mais rápida, como se tivesse memorizado uma resposta antes de ser perguntada. Em novembro, Rogério começou a dar ordens domésticas diretamente a Marta. O que comprar no mercado? O que cozinhar? A que horas chegar? Eunice estava presente nessas conversas, mas Rogério falava como se ela não estivesse ali, e ela não o corrigia.
Ficava sentada na poltrona com o terço nas mãos, olhando pela janela. Marta ligou para Patrícia uma tarde de novembro e contou o que estava vendo. Patrícia disse que estava cuidando das coisas, que Marta deveria continuar observando e não confrontar Rogério. Marta disse que entendeu. Após desligar, ficou um tempo na cozinha, olhando para o filtro de barro pendurado no armário.
O mesmo filtro de pano de sempre, no mesmo gancho de sempre. E pensando que a casa parecia a mesma por fora e completamente diferente por dentro. Geraldo Fonseca enviou um e-mail para Patrícia na primeira semana de dezembro. O relatório era curto, mas denso. Rogério Salomão casara-se pela primeira vez em 1998 em Montes Claros com uma mulher chamada Iracema Duarte.
O casamento foi legalmente dissolvido em 2003. Houve um boletim de ocorrência registrado por Iracema em 2002. O caso seguiu, mas foi encerrado sem condenação após ela retirar a queixa. Em 2011, Rogério casou-se novamente, desta vez em Patos de Minas, com Neusa Rodrigues Campos, uma viúva que possuía dois imóveis na região. Neusa morreu em outubro de 2016, aos 67 anos.
A causa oficial foi insuficiência cardíaca. Os filhos de Neusa, dois sobrinhos e uma irmã contestaram o inventário. Rogério fora incluído como herdeiro testamentário em um documento assinado meses antes de sua morte. A disputa judicial durou quase dois anos e terminou em um acordo. Rogério recebeu uma parte significativa dos bens.
Patrícia leu o e-mail três vezes, depois ligou para Rodrigo e leu em voz alta para ele. Desta vez, Rodrigo não disse que era cedo para se alarmar. No mesmo dia em que Patrícia recebeu esse e-mail em Uberlândia, Eunice estava sentada à mesa da sala em Uberaba. Rogério colocou uma folha de papel diante dela, apontou para uma linha no final da página e disse que precisava de sua assinatura para resolver algumas questões financeiras.
Eunice não perguntou o que era, pegou a caneta que ele já mantinha estendida e assinou. Marta Aparecida Souza não era de falar mais que o necessário. Dezenove anos em uma casa de família ensinaram-na a observar, a lembrar, a saber a hora certa de falar. Tinha visto Donizete adoecer e morrer. Tinha visto Eunice chorar sozinha na cozinha por semanas e depois lentamente voltar a ser ela mesma.
Conhecia o ritmo daquela casa tão bem quanto conhecia seu próprio apartamento no Jardim das Oliveiras, a 3 km dali. Sabia quando algo estava errado antes de poder nomear o que era. E algo estava errado desde outubro. Em dezembro de 2019, numa segunda-feira de manhã, Marta chegou ao trabalho e encontrou Eunice no corredor com o braço esquerdo exposto enquanto alcançava um pote no armário alto.
Havia uma mancha roxo-esverdeada do tamanho de uma mão aberta cobrindo a parte superior do antebraço. Marta parou e perguntou o que havia acontecido. Eunice baixou o braço, puxou a manga da camisa e disse que tinha batido no batente da porta do banheiro durante a noite. Disse isso sem olhar para Marta.
Disse rapidamente, como se quisesse mudar de assunto antes que ela começasse. Marta esperou que Rogério saísse para uma de suas supostas visitas a clientes. Depois foi ao quarto da empregada, pegou o celular e ligou para Patrícia. Patrícia quis ir a Uberaba no mesmo fim de semana. Marta disse que talvez fosse melhor ligar antes para não alertar Rogério.
Na mesma tarde, Eunice ligou para a filha. Disse que estava tudo bem, que a marca roxa era mesmo da porta, que as filhas de Patrícia tinham provas escolares na semana seguinte e não deveriam perder aula por causa de um susto bobo. Patrícia ouviu e sentiu um frio que não conseguiu explicar ao marido depois. Não foi o que a mãe disse, foi a precisão com que ela disse, como se tivesse ensaiado o argumento certo para cada objeção possível.
Janeiro de 2020, Patrícia foi a Uberaba sem avisar. Era uma quinta-feira de manhã. Saiu de Uberlândia às 6h, pegou a rodovia BR-050 e chegou ao bairro Nossa Senhora da Abadia antes das 9h. Estacionou o carro na rua paralela e caminhou até a casa. Tocou o interfone. Rogério atendeu. Disse que estava descansando, que tinha dormido mal e que provavelmente preferiria receber visitas em outro dia.
Patrícia disse que viera especificamente para ver a mãe e que não sairia sem falar com ela. Rogério ficou quieto por um momento, depois disse que verificaria. Eunice apareceu três minutos depois, os cabelos desgrenhados a uma hora em que Patrícia nunca tinha visto a mãe desarrumada. Seus olhos estavam um pouco confusos, como se tivesse sido acordada de um sono profundo.
Estava usando um roupão pesado que Patrícia não reconheceu, abotoado até o pescoço, apesar do calor de janeiro. Ficou no batente da porta. Rogério ficou um metro atrás dela com as mãos nos bolsos. A conversa durou 10 minutos. Eunice disse que estava bem, disse que estava cansada, disse que Patrícia não precisava fazer aquela viagem, que era longe e o trânsito na estrada era perigoso.
Disse três vezes que estava bem, sem que ninguém perguntasse novamente. Rogério não disse nada, apenas ficou lá, como um muro invisível entre as duas. Quando Patrícia tentou perguntar sobre o hematoma, Eunice desviou o olhar e disse que já tinha sumido. Rogério disse então, em sua voz sempre suave, que ela precisava de descanso e que tinha certeza de que Patrícia entendia.
Patrícia olhou para a mãe, a mãe olhou para o chão. Patrícia voltou para o carro e ficou ali por um longo tempo, sem ligar o motor. Na semana seguinte, ligou para Marta. Não para saber se havia novidades. Patrícia já sabia que havia. Ligou porque precisava ouvir de alguém que também tinha visto, que também sabia, que não estava inventando o que sentira naquela porta.
Marta contou tudo. A fechadura trocada, as ordens dadas por cima de Eunice, como se ela não estivesse na sala. O frango ao molho pardo que Eunice adorava cozinhar todo domingo e que simplesmente parou porque Rogério tinha dito que o sal dela fazia mal para a pressão. O jogo de cartas de quinta-feira que Eunice abandonara sem explicar às amigas.
O telefone que Rogério atendia antes dela chegar. A voz diferente, o olhar diferente. Patrícia ouviu tudo sem interromper. Quando Marta terminou, houve silêncio. Então, Patrícia perguntou: “Marta, você poderia me mostrar algo, alguma prova do que está acontecendo aí dentro?”. Marta ficou quieta por alguns segundos, depois disse: “Doutora Patrícia, tenho um sobrinho que trabalha com segurança eletrônica aqui em Uberaba. Se a senhora quiser, posso pedir que ele venha aqui discretamente”.
Patrícia ficou em silêncio por um momento antes de responder. “Chame-o”. O sobrinho de Marta chamava-se Juninho. Jurandir Aparecido Souza, 34 anos, técnico de sistemas de segurança, dono de uma pequena empresa de monitoramento residencial no bairro Mercês.
Quando a tia ligou para explicar a situação, ele disse que apareceria no dia seguinte, fora do horário comercial, sem carro identificado. Chegou numa quarta-feira de manhã com uma mala de ferramentas. Rogério havia saído. Marta o deixou entrar pela porta dos fundos. O relógio de parede na sala era feito de madeira escura com mostrador creme.
Donizete o comprara em uma viagem a Aparecida do Norte nos anos 1990. E ele nunca o tirara da parede. Juninho abriu o compartimento traseiro, instalou o dispositivo em 40 minutos e fechou sem deixar marca. A câmera transmitia um sinal criptografado para um aplicativo no celular de Patrícia.
Saiu pela mesma porta que entrara. Era fevereiro de 2020. Nos primeiros dias, a câmera registrou a rotina. Rogério na televisão, Marta limpando, Eunice na poltrona com seu terço. Patrícia assistia aos clipes à noite, com fones de ouvido, o brilho frio da tela em seu rosto. Nada, nada, nada.
Na segunda semana, o material mudou. A câmera captou Rogério entrando na sala com o telefone fixo na mão, o rosto fechado. “Eunice estava na poltrona”, disse ele em voz baixa e cortante. “Eu disse para você não atender sem me chamar”. Eunice pediu desculpas. Ele repetiu a frase. Ela pediu desculpas novamente, desta vez mais rapidamente.
Quando ele saiu, ela permaneceu com as mãos postas no colo por um tempo. Três dias depois, a câmera registrou Rogério no corredor do banheiro. Abriu o armário de remédios, tirou a caixa de remédio de pressão de Eunice e a colocou no bolso da calça. À tarde, Eunice reclamou de dor de cabeça. Rogério disse que ela tinha tomado o remédio pela manhã e estava confusa.
Ela disse que não lembrava. Ele respondeu com paciência excessiva que esse era precisamente o problema. Eunice ficou quieta. Patrícia pausou o vídeo e salvou tudo na nuvem. No 21º dia, a câmera registrou Eunice caminhando até o telefone fixo e começando a discar. Rogério saiu do corredor em menos de 30 segundos, pegou seu braço pelo pulso e a conduziu de volta para o quarto, sem correr, sem gritar, com a mesma calma controlada de sempre.
Ela não reagiu. Patrícia assistiu àquele segmento quatro vezes antes de conseguir parar. No 29º dia, a câmera captou Eunice no chão da sala, jogada de lado, com uma mão aberta sobre o tapete. Rogério veio da cozinha, parou e ficou olhando para ela por alguns segundos, o suficiente para Patrícia depois não conseguir dormir pensando naqueles segundos.
Depois pegou o celular e ligou para o SAMU. Quando os socorristas chegaram, contou o que tinha acontecido com precisão. Ela tinha se levantado da poltrona e caído. Provavelmente tontura. Eunice foi levada para o hospital clínico de Uberaba com o quadril fraturado. Nunca mais voltou para casa.
O que veio a seguir aconteceu rápido. Infecção hospitalar, coração sobrecarregado, um corpo de 74 anos que passara meses com a medicação retida e um trauma que só a câmera tinha visto. Era março de 2020 e os hospitais brasileiros já restringiam visitas por causa do coronavírus. Patrícia e Rodrigo falavam ao telefone.
Os enfermeiros diziam que ela estava estável. Rogério era o único autorizado a entrar. Eunice Carvalho Mendonça morreu em 28 de março de 2020. A causa registrada foi insuficiência cardíaca. Rogério ligou para Patrícia duas horas depois, voz calma, palavras no lugar certo. Tinha sido rápido. Ela não tinha sofrido.
Deus tinha levado uma boa mulher. Patrícia o observou até o fim. Quando desligou, foi ao banheiro, fechou a porta e ficou ali por um tempo não medido. Três dias depois, enquanto ela e Rodrigo ainda não podiam viajar devido às restrições estaduais, Marta chegou ao trabalho e encontrou uma picape estacionada na frente da casa.
Dois homens carregavam móveis pelo portão. A poltrona de Eunice, a escrivaninha de Donizete, caixas seladas com fita adesiva. Marta ligou para Patrícia em pânico. Patrícia simplesmente disse: “Marta, vá lá agora e pegue o relógio. Apenas o relógio. Não deixe que ele saia daí”. Marta desligou, atravessou a sala entre os homens carregando caixas, tirou o relógio da parede com as duas mãos e foi para o quintal.
Ficou ali, abraçando-o, enquanto eles carregavam a poltrona favorita de Eunice pelo portão. Patrícia chegou a Uberaba cinco dias após a morte da mãe, assim que as restrições de viagem foram flexibilizadas para casos de luto familiar. Não foi primeiro à casa da Rua Crisântemo, foi direto à delegacia especializada de atendimento à mulher e ao idoso, na Avenida Dom Luís Maria de Santana, com o relógio em uma sacola e o celular cheio de vídeos salvos na nuvem.
A delegada Cláudia Rezende a recebeu em uma pequena sala com uma mesa, duas cadeiras e um cartaz do disque 180 na parede. Ouviu tudo sem interromper, assistiu atentamente aos trechos dos vídeos, fez perguntas precisas sobre datas, sobre o advogado Geraldo Fonseca, sobre o histórico de Rogério em Patos de Minas.
Ao final, disse a Patrícia algo que ela não esperava ouvir tão cedo. “Precisamos da autópsia. Sem ela, os vídeos provam maus-tratos e privação de medicação, mas para homicídio precisamos do laudo”. O processo de exumação levou três semanas. Burocrático, silencioso e devastador para a família. Rodrigo voou de São Paulo assim que pôde e passou os primeiros dias em Uberaba sem conseguir dormir direito.
Enquanto esperavam, a delegada Cláudia ativou o sistema de cooperação policial interestadual e aprofundou a investigação sobre o histórico de Rogério Salomão. Iracema Duarte, sua primeira esposa, foi localizada em Montes Claros. Concordou em falar por telefone. Disse que tinha feito um boletim de ocorrência por ameaça em 2002, mas que retirara a queixa depois, que estava com medo, que Rogério tinha esvaziado a conta conjunta nos meses anteriores ao divórcio e que não tinha forças para continuar a batalha judicial. “Eu só queria que aquilo acabasse”. “Acabou”, ela disse. “Eu não sabia que ele ia fazer aquilo com mais alguém”.
A família de Neusa Rodrigues Campos, a segunda esposa que morreu em Patos de Minas, enviou documentos do processo de inventário contestado. O testamento tinha sido assinado por Neusa 5 meses antes de sua morte em um cartório em Patos de Minas, com duas testemunhas que a família não reconheceu.
O perito nomeado pelo tribunal na época tinha validado a assinatura. O acordo extrajudicial que encerrou a disputa favorecera Rogério. O laudo da autópsia de Eunice chegou na segunda semana de maio de 2020. A causa oficial da morte permaneceu insuficiência cardíaca, mas o laudo complementar era o que importava. Além da fratura de quadril, Eunice apresentava fraturas de costelas em diferentes estágios de cicatrização, duas antigas e uma mais recente, condizentes com trauma físico repetido, não uma queda acidental. Havia também sinais de desidratação crônica e níveis séricos de anti-hipertensivos abaixo do esperado para uma paciente em tratamento regular. A conclusão do perito foi direta. A condição cardiovascular que levou à morte fora significativamente agravada por condições de negligência sistemática e trauma físico anterior.
Rogério foi convocado a comparecer à delegacia. Apareceu numa segunda-feira de manhã com um advogado de Belo Horizonte, não um defensor local, mas um especialista contratado com antecedência. Sentou-se, cruzou as mãos sobre a mesa e negou tudo com a mesma calma que demonstrara aos paramédicos. Disse que Eunice era frágil, que a amava, que a família nunca aceitara o casamento e estava construindo uma narrativa movida por herança.
Então a delegada Cláudia abriu o laptop e deu o play nos vídeos. O advogado pediu um intervalo após o segundo segmento. Os dois saíram da sala. Quando retornaram, o advogado disse que seu cliente não responderia a mais nenhuma pergunta sem um acordo prévio com o Ministério Público. No dia seguinte, por ordem do juiz da segunda vara criminal de Uberaba, Rogério Salomão teve a prisão preventiva decretada.
Acusações: Violência doméstica contra idoso resultando em morte, com base no Estatuto do Idoso combinado com a Lei Maria da Penha, estelionato e apropriação indébita dos bens de Eunice Carvalho Mendonça. A delegada Cláudia ligou para Patrícia assim que a prisão foi confirmada. Entregou a informação diretamente, sem dramatização.
Patrícia agradeceu e desligou. Ficou ali por um momento sem se mover. Depois foi até a sacola que trouxera da delegacia, tirou o relógio e o colocou sobre a mesa da sala do apartamento onde estava hospedada em Uberaba. O mostrador creme, os ponteiros dourados, a madeira escura que Donizete escolhera numa tarde em Aparecida do Norte décadas atrás.
A câmera não gravava mais nada, mas Marta jurava que Eunice sempre soube que aquele relógio pertencia à Aparecida e que Nossa Senhora cuida de quem cuida dos outros. O julgamento de Rogério Salomão começou em outubro de 2022 no fórum de Uberaba, dois anos e meio após a morte de Eunice. A cidade tinha seguido em frente, como as cidades fazem, mas quem conhecia a família sabia o que estava acontecendo naqueles tribunais no centro da cidade.
A acusação construiu o caso em camadas. Primeiro, os vídeos foram exibidos em sessão, com o volume alto o suficiente para que os jurados ouvissem a voz de Rogério, dizendo a Eunice que ela estava confundindo as coisas, que ela já tinha tomado o remédio e que esse era precisamente o problema. Depois veio o laudo complementar da autópsia, que mostrava as fraturas de costela em diferentes estágios de consolidação e os níveis séricos abaixo do esperado.
Depois o registro histórico, Iracema Duarte em Montes Claros, testemunhando por videoconferência com a voz firme de quem esperou anos para ser ouvida, os documentos da família de Neusa em Patos de Minas, detalhando o testamento assinado meses antes de sua morte e o acordo que beneficiou Rogério. Marta, Aparecida Souza, testemunhou pessoalmente.
Entrou na sala com seu andar costumeiro, sentou-se reta na cadeira e respondeu a cada pergunta sem exagero ou omissão. Disse o que tinha visto, quando tinha visto e como tinha agido. O advogado de defesa tentou questionar sua imparcialidade. Ela era, afinal, funcionária da família e tinha participado da instalação da câmera.
Marta olhou para ele e disse que trabalhava naquela casa há 19 anos e que tinha feito o que fez porque não tinha outra escolha. O júri ouviu em silêncio. A defesa focou seu argumento na câmera. Alegou que o dispositivo fora instalado sem o consentimento de Rogério e sem autorização judicial, e que as imagens não poderiam ser admitidas como prova lícita.
O juiz rejeitou o argumento, citando jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, que valida câmeras instaladas em áreas comuns da residência por familiar da vítima quando há evidência concreta de crime em curso. Isso já estava estabelecido pelo histórico médico e pelos relatos de Marta. Rogério não testemunhou. Manteve seu silêncio constitucional do início ao fim, sentado ao lado do seu advogado, com a mesma expressão contida que usara na delegacia, no hospital, no batente da porta, quando Patrícia fora visitar a mãe sem avisar.
Os sete jurados deliberaram por pouco mais de 4 horas. O veredito foi unânime: culpado de violência doméstica contra idoso resultando em morte. Nos termos do Estatuto do Idoso, combinado com a Lei Maria da Penha, além de estelionato e apropriação indébita dos bens de Eunice Carvalho Mendonça, a pena imposta foi de 14 anos de reclusão em regime fechado, com possibilidade de progressão após o cumprimento de 2/5 da pena.
Patrícia ouviu a sentença sem se mover. Quando o juiz encerrou a sessão, chorou, mas não era alívio, era outra coisa. Sem nome exato. Rodrigo ficou ao lado dela com a mão em seu ombro, olhando para o chão. Meses depois, em um portal de notícias local de Uberaba que cobriu o caso, Patrícia deu uma curta entrevista.
A última frase foi esta: “Eu queria minha mãe de volta. Nenhuma sentença pode trazer isso de volta”. Segundo dados do Ministério da Saúde, o Brasil registra mais de 30% dos casos de violência contra o idoso dentro do domicílio perpetrados por pessoas próximas. A violência patrimonial, o uso indevido dos bens, documentos e recursos financeiros do idoso, é a segunda forma mais comum, atrás da violência psicológica, e é a que leva mais tempo para ser identificada.
Porque quase nunca deixa marcas visíveis, porque acontece em pequenas doses ao longo do tempo atrás de portas fechadas. O que teria acontecido se Marta não tivesse ligado para Patrícia? Se Patrícia não tivesse ido a Uberaba sem avisar ninguém? Se Juninho não tivesse um sobrinho na área certa? Se o relógio de Aparecida não tivesse um compartimento traseiro largo o suficiente? A casa da Rua Crisântemo está à venda.
O jardim que Eunice cultivou por décadas está negligenciado. As roseiras cresceram sem poda. As bordas do canteiro esfarelaram. Os vizinhos às vezes param na calçada e olham para o portão fechado. Um deles, o mesmo que cumprimentara Eunice por anos a caminho da missa, disse em uma conversa de calçada: “Dona Eunice era uma mulher forte, não merecia isso”. Ninguém merece isso. Uma câmera escondida em um relógio de parede não deveria ser o que salva a história de uma pessoa do esquecimento. Mas foi. Quantas histórias como a de Eunice nunca tiveram um relógio na parede?