
Na noite de 14 de dezembro de 2014, uma mulher ligou para o 190 em Manaus. A voz era calma, controlada, quase serena demais para alguém que acabara de cometer um homicídio. A atendente da Polícia Militar do Amazonas registrou a chamada às 22:37. A mulher informou o endereço completo, um sobrado no bairro Cidade Nova, e disse apenas três frases antes de desligar.
Acabei de matar um homem. Ele matou meu marido há 10 anos. Podem vir me buscar. A primeira viatura chegou em 11 minutos. Os policiais encontraram a porta da frente destrancada. Na sala de estar, sentada no sofá com as mãos sobre os joelhos, estava Regina. Tinha 47 anos, cabelos tingidos de castanho escuro e vestia uma blusa branca manchada de sangue.
Ao lado dela, no chão de cerâmica, jazia o corpo de Geraldo, 53 anos, comerciante conhecido na região norte da cidade. Geraldo apresentava três perfurações por arma branca, uma no abdômen, uma no tórax esquerdo e uma na região do pescoço. A faca utilizada ainda estava sobre a mesa de centro, com a lâmina de 18 cm coberta de sangue coagulado.
Não havia sinais de luta, não havia móveis derrubados, não havia marcas de defesa nos braços da vítima. Os policiais perguntaram à Regina se ela precisava de atendimento médico. Ela respondeu que não. Perguntaram se havia mais alguém na residência. Ela disse que não. Perguntaram se ela confirmava a autoria do crime.
Regina olhou para o corpo no chão e respondeu sem hesitar. Confirmo. E faria de novo. A perícia foi acionada às 23:12. O delegado de plantão chegou à cena às 23:40. Regina foi conduzida ao primeiro distrito integrado de polícia, onde prestou o depoimento formal que duraria mais de 4 horas. O que ela revelou naquela madrugada transformaria um caso aparentemente simples de homicídio passional em uma das histórias de vingança mais meticulosas já registradas no estado do Amazonas.
10 anos de planejamento, 8 meses de execução, uma vida inteira de dor convertida em um único golpe de faca. Como uma viúva comum, sem antecedentes criminais, conseguiu arquitetar uma vingança tão calculada? E por que a justiça que ela tanto buscava nunca chegou pelos meios legais? Para compreender a noite de 14 de dezembro de 2014, é preciso voltar uma década no tempo, mais precisamente ao dia 23 de junho de 2004.
Naquela quarta-feira, Anderson tinha 39 anos e administrava uma pequena loja de materiais de construção no bairro Compensa, zona oeste de Manaus. O estabelecimento funcionava havia 7 anos e empregava quatro funcionários. Anderson era conhecido na região como um comerciante honesto, daqueles que fiavam material para clientes antigos e nunca aumentava preços de forma abusiva.
Regina e Anderson haviam se casado em 1992. 12 anos de união sem filhos. Uma escolha que ambos fizeram cedo no relacionamento. Moravam em uma casa simples no bairro Santo Antônio, a 15 minutos de carro da loja. A rotina era previsível. Anderson saía às 7 da manhã e voltava às 19 horas. Aos domingos, o casal frequentava a feira do Parque 10 e almoçava em casa.
Vizinhos e conhecidos descreviam Anderson como um homem reservado, porém gentil. Não bebia, não frequentava bares, não tinha inimigos aparentes. Regina trabalhava como auxiliar administrativa em uma clínica odontológica no centro da cidade. O casamento era estável, sem luxos, sem crises, sem grandes ambições, além de quitar o financiamento da casa própria.
Em junho de 2004, Anderson enfrentava um problema comercial. Um de seus fornecedores, Geraldo, cobrava uma dívida que Anderson alegava já ter quitado. Geraldo tinha 43 anos na época e operava um pequeno depósito de cimento e argamassa na zona norte. Os dois faziam negócios havia 3 anos, sempre sem contratos formais, apenas acordos verbais e recibos manuscritos.
A dívida em questão era de R$ 4.200. Anderson afirmava ter pago em espécie no início de maio. Geraldo dizia que nunca recebeu. Não havia comprovante bancário. O recibo que Anderson guardava tinha apenas a assinatura de um funcionário do depósito que havia sido demitido semanas depois. As discussões começaram por telefone, depois, pessoalmente.
No dia 21 de junho, dois dias antes do crime, Geraldo apareceu na loja de Anderson e fez ameaças na frente de clientes. Disse que cobraria a dívida de qualquer jeito. Dois funcionários testemunharam a cena. Anderson pediu que ele se retirasse e disse que resolveria a questão na justiça, se necessário. Na manhã de 23 de junho, Anderson saiu de casa no horário habitual, beijou Regina na testa e disse que voltaria para o jantar. Ela nunca mais o viu com vida.
O corpo de Anderson foi encontrado às 20:15 no estacionamento dos fundos de sua própria loja. Quem o descobriu foi Marcos, um dos funcionários, que havia esquecido a carteira no estabelecimento e voltou para buscá-la. O estacionamento era uma área de cascalho sem iluminação adequada, usada apenas para carga e descarga de mercadorias.
Marcos encontrou o patrão caído entre dois paletes de tijolos com sangue encharcando a camisa. Anderson apresentava seis perfurações por arma branca: três no abdômen, duas no tórax e uma no braço direito, esta última compatível com tentativa de defesa. O legista estimou que a morte ocorreu entre 18 e 19 horas, ou seja, no intervalo entre o fechamento da loja e o anoitecer.
A arma utilizada nunca foi encontrada, não havia câmeras de segurança no local. O estacionamento era cercado por um muro baixo de 1,60 m, facilmente transponível. O portão dos fundos estava destrancado, como de costume. Qualquer pessoa poderia ter entrado sem ser vista. A Polícia Civil do Amazonas abriu inquérito no dia seguinte.
O delegado responsável, Tavares, ouviu os quatro funcionários da loja, três vizinhos comerciais e a esposa da vítima. Regina prestou depoimento em estado de choque. Informou sobre a dívida com Geraldo, as ameaças recentes e o comportamento agressivo do fornecedor. Geraldo foi convocado a depor em 26 de junho.
Compareceu acompanhado de advogado, negou o envolvimento no crime e apresentou um álibi. Disse que no horário estimado da morte estava em sua residência com a esposa e o filho de 17 anos. Ambos confirmaram a versão em depoimentos separados. A perícia não encontrou impressões digitais utilizáveis na cena do crime. Não havia testemunhas oculares.
O único elemento que conectava Geraldo ao caso era o histórico de ameaças, que dois funcionários confirmaram, mas que não constituía prova material. O inquérito se arrastou por 8 meses. Em fevereiro de 2005, o Ministério Público solicitou o arquivamento por insuficiência de provas. O juiz acatou o pedido em março do mesmo ano.
O caso foi encerrado sem indiciamento. Regina compareceu à audiência de arquivamento. Segundo registros do fórum, ela não disse uma única palavra. Apenas ouviu a decisão, levantou-se e saiu. Ninguém no tribunal poderia imaginar o que aquele silêncio significava. Nos meses seguintes ao arquivamento, Regina tentou os caminhos legais disponíveis.
Contratou um advogado particular para estudar a possibilidade de ação privada. O profissional analisou os autos e foi direto: sem provas materiais, sem testemunhas oculares e com um álibi familiar confirmado, as chances de condenação eram praticamente nulas. Uma ação privada exigiria recursos que Regina não tinha e provavelmente terminaria em absolvição.
Ela procurou a Defensoria Pública, tentou organizações de direitos humanos, escreveu cartas ao Ministério Público pedindo reabertura do caso. Todas as respostas foram variações da mesma frase: sem novas provas, nada poderia ser feito. Enquanto isso, Geraldo prosperava, expandiu seu depósito de materiais, abriu uma filial na zona leste, comprou um carro novo, continuava frequentando os mesmos círculos comerciais, participando de feiras do setor, fechando negócios.
Para quem observava de fora, era apenas mais um empresário bem-sucedido de Manaus. Regina observava. Nos primeiros meses de luto, passou a acompanhar os movimentos de Geraldo à distância. Sabia onde ele morava, onde trabalhava, quais restaurantes frequentava. Não tinha um plano definido, apenas uma obsessão que crescia a cada dia de impunidade.
Em setembro de 2005, Regina tomou uma decisão. Vendeu a casa que dividia com Anderson por R$ 120.000. Pediu demissão da clínica odontológica. Comunicou aos poucos conhecidos que tinha que se mudaria para o interior do Pará, onde uma prima distante poderia ajudá-la a recomeçar. Não era verdade. Não havia prima no Pará.
O que havia era um plano que Regina começava a formular, ainda sem contornos definidos, mas com um objetivo claro: fazer Geraldo pagar pelo que fez. Ela se estabeleceu em Santarém, a 800 km de Manaus. Alugou um apartamento pequeno no centro da cidade. Arrumou emprego como atendente em uma papelaria.
Cortou os cabelos, antes longos e pretos, em um estilo curto. Tingiu de castanho, perdeu peso. Mudou a forma de se vestir, de falar, de se apresentar. Em 2006, obteve documentos com um nome diferente. O procedimento foi irregular, envolvendo um despachante que operava na região de fronteira. Regina sabia que estava cometendo um crime.
Não se importou. Para ela, o sistema legal já havia falhado. Se a justiça não viria pelos tribunais, viria por suas próprias mãos. A nova identidade lhe deu tempo. E tempo era tudo o que ela precisava. Os anos em Santarém foram de preparação silenciosa. Regina trabalhou na papelaria por três anos. Depois conseguiu emprego em uma loja de tecidos.
Vivia com pouco, economizava o máximo possível. Não fez amigos próximos, não se envolveu em relacionamentos, não criou vínculos que pudessem complicar seus planos futuros. A cada seis meses, ela viajava a Manaus, sempre de ônibus, sempre pagando em dinheiro, sempre hospedada em pensões baratas, onde ninguém fazia perguntas. Nessas visitas, monitorava a vida de Geraldo.
Descobriu que ele havia se divorciado em 2008, que o filho tinha se mudado para São Paulo, que ele agora morava sozinho em um sobrado no bairro Cidade Nova. Regina também pesquisou, leu sobre crimes passionais e suas taxas de resolução. Estudou casos de vingança que deram errado, tentando identificar os erros dos perpetradores.
A maioria falhava por impulsividade, por deixar rastros óbvios, por subestimar a investigação policial. Ela não cometeria esses erros. Sua abordagem seria diferente. Não invadiria a casa de Geraldo no meio da noite. Não o emboscaria em um beco escuro. Faria algo que ninguém esperaria: conquistaria sua confiança primeiro.
A ideia amadureceu ao longo de 2012 e 2013. Regina começou a frequentar feiras de construção civil no Amazonas e no Pará, sempre com sua nova identidade. Observava como Geraldo se comportava nesses eventos. Notou que ele era vaidoso, que gostava de atenção feminina, que se gabava de seus negócios para quem quisesse ouvir.
Em março de 2014, ela decidiu que estava pronta. Tinha R$ 57.000 economizados. Tinha uma identidade consolidada há quase 9 anos. Tinha um plano detalhado que havia refinado mentalmente centenas de vezes. Se você está acompanhando essa história, inscreva-se no canal e deixe seu like para apoiar o nosso trabalho. Regina voltou a Manaus em abril de 2014.
Alugou um apartamento no bairro Adrianópolis, longe das áreas que frequentava quando era casada com Anderson. Conseguiu emprego como representante comercial de uma fábrica de tintas de Belém, função que lhe daria pretexto para circular em feiras e eventos do setor. O palco estava montado, restava apenas a aproximação.
O primeiro contato aconteceu em 17 de junho de 2014, exatamente 10 anos após a morte de Anderson. A data não foi coincidência. Regina havia planejado cada detalhe. Naquele dia, Geraldo participava de uma feira de materiais de construção no Studio 5, Centro de Convenções. Ele mantinha um estande de médio porte, oferecendo cimento e argamassa para construtoras da região.
Regina se aproximou no meio da tarde, vestia roupa social discreta, carregava uma pasta de couro com catálogos de tintas. Apresentou-se pelo nome falso e disse representar uma fábrica paraense interessada em parcerias comerciais no Amazonas. Geraldo mostrou interesse imediato. A conversa durou 40 minutos.
Regina demonstrou conhecimento técnico sobre o mercado de construção civil. Fez perguntas inteligentes sobre logística na região amazônica. Elogiou a estrutura do estande de Geraldo sem exageros. Ao final, trocaram cartões de visita. Geraldo ligou três dias depois. Marcaram um almoço de negócios para a semana seguinte.
No restaurante, a conversa migrou gradualmente de assuntos profissionais para pessoais. Geraldo contou sobre o divórcio, sobre a solidão, sobre como era difícil encontrar mulheres maduras e interessantes em Manaus. Regina ouviu com atenção calculada, fez comentários na medida certa, mostrou-se disponível sem parecer ansiosa.
Ao final do almoço, Geraldo perguntou se podiam se ver novamente, dessa vez sem a pretensão de falar sobre negócios. Ela aceitou. O relacionamento progrediu ao longo dos meses seguintes. Jantares, passeios de fim de semana, noites na casa dele. Geraldo estava genuinamente apaixonado. Amigos notaram a mudança de humor. Ele falava em casamento, em viagens, em planos para o futuro.
Regina manteve a fachada com precisão cirúrgica. Nunca demonstrou nervosismo, nunca deixou escapar informações sobre seu passado real, nunca mencionou Anderson ou qualquer conexão com a zona oeste de Manaus. Para Geraldo, ela era exatamente o que aparentava: uma representante comercial, divorciada, sem filhos, buscando um recomeço aos 40 e poucos anos.
Em novembro de 2014, oito meses após o primeiro encontro, Geraldo pediu que ela se mudasse para a casa dele. Regina disse que precisava de tempo para pensar. Ele entendeu. Não tinha pressa. O que Geraldo não sabia é que Regina já tinha uma data definida para o desfecho. Dezembro chegou com a intensidade típica do verão amazônico.
Chuvas torrenciais no fim da tarde, calor úmido que não dava trégua, ruas alagadas nos bairros periféricos. Regina passou as duas primeiras semanas do mês finalizando preparativos. Encerrou discretamente o aluguel do apartamento em Adrianópolis, alegando para a imobiliária que voltaria ao Pará por questões familiares.
Transferiu suas economias restantes para uma conta em nome de sua irmã mais nova, que morava em Fortaleza e não tinha conhecimento dos planos. Escreveu três cartas: uma para a irmã, explicando tudo e pedindo perdão por envolvê-la, mesmo que indiretamente; uma para a Polícia Civil, narrando os acontecimentos de 2004 e as razões que a levaram ao crime que estava prestes a cometer.
E uma terceira, endereçada ao túmulo de Anderson no cemitério São João Batista, que ela nunca havia visitado nos 10 anos desde a morte dele. As cartas foram guardadas em um envelope pardo e deixadas no apartamento vazio sobre o balcão da cozinha, onde certamente seriam encontradas após o crime.
No dia 12 de dezembro, Regina comprou uma faca de cozinha em uma loja de utilidades domésticas no centro de Manaus. Lâmina de 18 cm, cabo de madeira, marca genérica. Pagou em dinheiro. A compra não foi registrada em nenhum sistema. No dia 13, ela jantou com Geraldo em um restaurante japonês no bairro Vieiralves. Ele estava animado falando sobre os planos para o Natal, sobre uma viagem que queria fazer com ela para Fernando de Noronha em janeiro.
Regina sorriu nos momentos certos, concordou com as sugestões dele, manteve a performance até o último instante. Ao se despedirem naquela noite, Geraldo perguntou se ela passaria o dia seguinte com ele. Regina disse que sim. Tinha algumas pendências para resolver durante o dia, mas estaria na casa dele à noite.
“Tenho uma surpresa para você”, ela disse. Geraldo sorriu. Não fazia ideia de que tipo de surpresa seria. Na manhã de 14 de dezembro, Regina acordou às 6 horas. Tomou café, arrumou o apartamento pela última vez, verificou se as cartas estavam no lugar certo. Guardou a faca em sua bolsa, envolta em um pano de prato.
Às 19 horas, pegou um táxi até a casa de Geraldo. Geraldo abriu a porta com um sorriso largo. Tinha preparado vinho e petiscos. A sala estava arrumada, com música ambiente tocando em volume baixo. Ele não notou nada de diferente no comportamento de Regina quando ela entrou. Os dois sentaram no sofá, conversaram sobre trivialidades por cerca de meia hora.
Geraldo serviu o vinho. Regina bebeu um gole, depois outro. Esperou o momento certo. Às 21:40, ela pediu licença para ir ao banheiro. Levou a bolsa consigo no banheiro, retirou a faca do pano de prato e a escondeu na cintura por baixo da blusa. Respirou fundo três vezes. Olhou-se no espelho. Quando voltou para a sala, Geraldo estava de costas, trocando a música no aparelho de som.
Regina se aproximou devagar, parou a dois metros dele, chamou seu nome. Ele se virou sorrindo. O sorriso desapareceu quando viu o que ela segurava na mão direita. “O que é isso?”, ele perguntou. Regina não respondeu imediatamente. Com a mão esquerda, tirou do bolso da calça uma fotografia antiga, 3×4 plastificada. Era Anderson.
A foto do documento de identidade dele que ela guardava havia 10 anos. Você sabe quem é esse homem? Geraldo olhou para a foto. Seu rosto mudou. A confusão deu lugar ao reconhecimento, depois ao medo. “Regina”, ele murmurou. Era a primeira vez em 10 anos que alguém pronunciava seu nome verdadeiro. Você lembra de mim agora, não lembra? A viúva.
A mulher que foi ao fórum assistir ao arquivamento do caso. A mulher que você destruiu. Geraldo ergueu as mãos em gesto de defesa. Começou a recuar em direção à cozinha. “Espera, espera. Isso foi há muito tempo. Eu posso explicar.” “Não pode”, Regina disse. “Você matou meu marido por R$ 4.000. R$ 4.000. E nunca pagou por isso.”
“Eu não matei ninguém. O caso foi arquivado. Eu tinha álibi.” “Seu filho e sua ex-mulher mentiram por você. Todo mundo sabia. A polícia sabia. Só não conseguiram provar.” Geraldo continuou recuando. Tropeçou em uma cadeira. Regina avançou. O primeiro golpe atingiu o abdômen. A equipe de perícia criminal trabalhou na cena até às 4 horas da madrugada de 15 de dezembro.
O laudo preliminar confirmou o que os policiais já haviam observado. Geraldo sofreu três perfurações por arma branca. A primeira no abdômen, atingindo o intestino delgado. A segunda no tórax esquerdo, perfurando o pulmão. A terceira no pescoço, seccionando a artéria carótida. A morte ocorreu por choque hipovolêmico em poucos minutos.
A faca foi recolhida como evidência. As roupas de Regina foram apreendidas, amostras de sangue foram coletadas, fotografias da cena foram tiradas de múltiplos ângulos. Tudo seguiu o protocolo padrão, embora a confissão imediata tornasse a investigação tecnicamente simples. Regina foi conduzida ao primeiro distrito integrado de polícia, onde prestou depoimento formal ao delegado Mendonça.
A declaração durou 4:12. Ela narrou todos os acontecimentos desde a morte de Anderson em 2004 até aquela noite. Não omitiu detalhes, não tentou minimizar sua culpa, não demonstrou arrependimento. “Eu sabia que seria presa”, ela disse ao delegado. “Não me importo. O que importa é que ele está morto.”
As cartas deixadas no apartamento foram localizadas no dia seguinte e anexadas ao inquérito. A carta dirigida à polícia corroborava integralmente o depoimento. A identidade falsa foi confirmada através de análise documentoscópica. Os registros de entrada e saída de Manaus ao longo dos anos foram parcialmente reconstituídos. Se essa história está prendendo sua atenção, inscreva-se no canal e deixe seu like.
O Ministério Público ofereceu denúncia em janeiro de 2015. Regina foi acusada de homicídio qualificado por motivo torpe e mediante recurso que dificultou a defesa da vítima. A qualificadora de motivo torpe baseava-se no planejamento de 10 anos e na execução através de relacionamento fraudulento. A defesa, designada pela Defensoria Pública, argumentou que o caso deveria ser tratado como homicídio privilegiado, cometido sob violenta emoção após injusta provocação.
A tese sustentava que a impunidade de Geraldo constituía provocação contínua que justificava a reação de Regina, ainda que tardia. O julgamento foi marcado para o segundo semestre de 2015. O Tribunal do Júri da Comarca de Manaus julgou Regina em 19 de novembro de 2015. O plenário estava lotado.
O caso havia ganhado atenção da imprensa local após o vazamento de detalhes sobre os 10 anos de planejamento. Jornais publicaram reportagens extensas. Programas de televisão discutiram os limites entre justiça e vingança. A opinião pública se dividiu entre os que condenavam o crime e os que em off admitiam compreender as motivações da ré.
A sessão de julgamento durou 14 horas. A promotoria apresentou a cronologia dos fatos, enfatizando a premeditação extrema e o uso de artifício para atrair a vítima. A defesa sustentou a tese de homicídio privilegiado e pediu reconhecimento da atenuante de relevante valor moral. Regina fez uso da palavra no final. Falou por menos de 2 minutos.
Eu amava meu marido. Ele era um homem bom, trabalhador, honesto. Foi assassinado por uma dívida que nem existia. O homem que o matou viveu 10 anos em liberdade, prosperando, enquanto eu perdi tudo. A justiça não veio pelos tribunais, então eu fiz a minha. Esperei 10 anos. Ele destruiu minha vida. Agora posso descansar.
O conselho de sentença deliberou por 3:40. Por cinco votos a dois, os jurados reconheceram a qualificadora de motivo torpe, rejeitando a tese de homicídio privilegiado. Por quatro votos a três, reconheceram a atenuante de relevante valor moral. A sentença foi de 16 anos de reclusão em regime inicial fechado. Regina ouviu a decisão sem demonstrar emoção.
Foi conduzida de volta ao Centro de Detenção Provisória Feminino de Manaus, onde aguardava julgamento desde a prisão em flagrante. Com a condenação confirmada, seria transferida para o regime definitivo nas semanas seguintes. O caso Anderson, arquivado em 2005, permanece oficialmente sem solução. Nenhuma investigação foi reaberta após as revelações do julgamento de Regina.
Do ponto de vista legal, Geraldo morreu como um cidadão sem condenações criminais. Regina cumpriu parte da pena na unidade prisional feminina de Manaus. Com progressão de regime e bom comportamento, obteve liberdade condicional em 2021, após cumprir 6 anos e 8 meses. Seu paradeiro atual é desconhecido. O sobrado no bairro Cidade Nova foi vendido pelos herdeiros de Geraldo em 2016.
A loja de materiais de construção que pertencia a Anderson fechou em 2005, poucos meses após a morte dele. O terreno onde funcionava o estabelecimento hoje abriga um estacionamento privado. Todos os anos, no dia 23 de junho, um buquê de flores aparece no túmulo de Anderson, no cemitério São João Batista. Ninguém sabe quem o deixa.