
O TERRÍVEL CASO DE ANIVERSÁRIO: Uma festa de família, um segredo doentio e um final irreversível
Em Serrana dos Campos, todos se conhecem pelo nome. É uma daquelas pequenas cidades em Minas Gerais onde o resultado de um jogo do Atlético é discutido em funerais e batismos com a mesma intensidade, e onde a reputação de uma família pode ser construída ao longo de gerações e destruída em uma tarde.
Com pouco mais de 100.000 habitantes, uma catedral colonial no centro, um carnaval de rua animado e o orgulho silencioso de ter mais médicos e engenheiros por metro quadrado do que a média estadual. No bairro Jardim das Acácias, a rua dos IPs é larga e arborizada, com calçadas de pedra portuguesa.
No número 42, há uma casa de dois andares branca com detalhes em azul, um jardim bem cuidado e uma velha mangueira na frente que fornecia sombra para a calçada. E servia como ponto de referência para quem perguntava pelo endereço. “É a casa de dois andares da mangueira?” Qualquer um na rua saberia dizer. A casa pertencia à família Monteiro, e a família Monteiro era muito conhecida.
Vera Lúcia Figueiredo Monteiro, 59 anos, passara quase três décadas como pediatra no hospital municipal. Cuidava dos filhos e netos das famílias da cidade. Ela era o tipo de médica que as mães ligavam no celular pessoal às 23h e ela atendia. Recentemente aposentada, ainda fazia trabalho voluntário em uma unidade básica de saúde em um bairro periférico duas vezes por semana.
“Uma boa pessoa dos velhos tempos”, costumavam dizer, o tipo de elogio que nesses círculos vale mais do que qualquer diploma na parede. Adilson Monteiro, 63 anos, fora contador por mais de três décadas. Aposentado, cuidava do jardim, jogava dominó no clube às quartas-feiras e torcia pelo Atlético com aquela fé sofredora que só o povo mineiro entende.
Naquele setembro de 2019, eu estava prestes a completar mais um ano de vida. A família planejava uma festa íntima em casa, almoço, bolo, passar a tarde toda juntos. Débora Monteiro, 25 anos, era o autoproclamado orgulho do casal. Formada em medicina pela UFMG, retornou para seu estágio em Serrana dos Campos antes de começar a residência.
As senhoras que conheciam Vera Lúcia paravam Débora na rua e diziam, com sorrisos que sentiam orgulho nos outros como se fosse o seu, “Igualzinha à mãe”. A tia Noia também morava no andar de cima. Noia Figueiredo, 71 anos, irmã mais velha de Vera Lúcia, viúva, com problemas nos joelhos e visão prejudicada pelo glaucoma.
Ela havia se mudado para a casa 4 anos antes. Era uma mulher pequena e religiosa que assistia à missa na televisão e bordava toalhas de mesa com uma paciência que os outros admiravam sem entender de onde vinha. Aparecida Lopes, a Cida, 54 anos, trabalhava naquela casa há 16 anos. Conhecia cada gaveta, cada hábito, cada silêncio da família.
Chegava todas as manhãs pontualmente às 7 horas, de segunda a sábado. Não tinha acesso ao segundo andar, nunca teve. Era uma das regras não escritas da casa, daquelas que ninguém explica e, portanto, ninguém questiona. E havia Eliton Monteiro, 33 anos, o filho mais velho do casal, que também morava no casarão.
Os Monteiro raramente falavam sobre Eliton. Os vizinhos, que conheciam a família há anos, notavam uma mudança sutil no jeito de Vera Lúcia suprimir um sorriso sempre que a conversa se voltava para o filho mais velho. Uma pausa de meio segundo, a resposta pronta, ensaiada demais para ser espontânea. O Wellington está indo bem, trabalhando muito.
O consultor tem muitos projetos. E o assunto mudava. As persianas do quarto dos fundos estavam sempre abaixadas, mesmo nas tardes mais quentes. Cida nunca subia. Parentes que visitavam raramente se aventuravam além da sala de estar. Havia um silêncio naquela casa, mas não era o silêncio tranquilo dos lares felizes.
Era o silêncio de alguém que, por não dizer certas coisas por tanto tempo, tinha esquecido como dizê-las. Os vizinhos nunca ouviram discussões, nunca ouviram vozes altas. Apenas aquela quietude espessa descia do segundo andar como neblina. Na manhã de segunda-feira, 16 de setembro de 2019, Aparecida Lopes chegou à rua dos IPs em seu horário habitual.
Bateu na porta, mas ninguém respondeu. Bateu de novo. Silêncio. Pegou da bolsa a chave reserva que guardava há anos. A chave não entrou. A fechadura havia sido trocada por dentro. Cida ficou parada na calçada sob a mangueira. O sol da manhã ainda estava fraco em suas costas. Ligou para Vera Lúcia.
Caixa postal. Para Adilson, caixa postal. Para Débora, caixa postal. Foi então que ela notou o cheiro. Vinha de dentro da casa, espesso, uma mistura de comida queimada e algo mais que ela não conseguia nomear, mas que fazia seu estômago embrulhar. Tentou pensar em explicações simples: lixo esquecido, sobra de churrasco, qualquer coisa com nome, mas o cheiro não tinha explicação simples.
E, no fundo, Aparecida Lopes já sabia disso. Com a mão ainda trêmula, discou o número da polícia. Para entender o que aconteceu naquela casa de dois andares, é preciso entender Eliton Monteiro. E para entendê-lo, requer entender a família que o criou. Adilson e Vera Lúcia eram o tipo de casal que via a educação dos filhos como o maior investimento que um ser humano pode fazer.
Eles não eram cruéis, tinham planos, tinham expectativas e acreditavam, com a convicção honesta de pais que nunca duvidaram de si mesmos, que saber o que é melhor para um filho é o mesmo que querer o que é melhor para ele. O filho mais velho, o mais inteligente da turma desde o ensino fundamental, estudaria engenharia civil em uma universidade federal em São Paulo.
Sonho dos pais. Eliton tinha 18 anos quando partiu. Mochila nas costas, passagem de ônibus comprada com semanas de antecedência. Nos dois primeiros anos, as ligações eram frequentes, as notas eram razoáveis. No terceiro ano, algo mudou. Eliton começou a faltar às aulas. Lutou com notas baixas e pediu para trancar o curso. Os pais devastados negociaram.
Tudo bem. Tente outra coisa. Ele tentou administração de empresas, tentou um curso de programação e abriu uma pequena empresa de criação de sites em São Paulo com dinheiro emprestado do pai. A empresa durou 8 meses. Em 2013, aos 27 anos, Eliton voltou para Serrana dos Campos, sem diploma, sem dinheiro, sem perspectivas.
Para os pais, a vergonha era dupla. Além do fracasso do filho, havia a necessidade de explicá-lo para uma cidade que os admirava. A solução foi simples e, à sua maneira, devastadora. Disseram aos conhecidos que Eliton trabalhava como consultor de tecnologia para empresas do agronegócio e que preferia morar com a família para economizar enquanto construía o próprio negócio.
Era uma história sem buracos, daquelas que ninguém se dá ao trabalho de questionar profundamente. Eliton sabia da mentira. Eliton vivia dentro dela. No quarto do segundo andar, as persianas estavam sempre abaixadas e o ar-condicionado ficava ligado mesmo quando fazia frio. Ele passou os seis anos seguintes em isolamento quase total. Ficava acordado até altas horas da madrugada na frente do computador. Dormia até o meio-dia.
Descia para as refeições em silêncio. Trocavam poucas palavras. Voltava a subir. Cida deixava o prato coberto na mesa e não subia. O quarto era território proibido. Ele mesmo limpava, dizia, e a porta ficava trancada por dentro.
O contato com Débora, que estudava em Belo Horizonte, era mínimo. Mensagens esporádicas no WhatsApp, sem nenhuma conversa real. Com os pais, o contato era funcional, apenas o necessário para a convivência. Os vizinhos perguntavam sobre ele de vez em quando, e Vera Lúcia respondia com um sorriso ensaiado. Tudo bem, trabalhando muito. Cida, que estava sempre por perto nessas horas, descreveria mais tarde aquele sorriso como o de alguém engolindo seco.
O que ninguém sabia era o que Eliton fazia naquele quarto nas primeiras horas da madrugada além de jogar. Ele escrevia em um caderno preto comprado em uma papelaria do centro, onde registrava seus pensamentos em uma caligrafia caprichada e pequena, sem rasuras. Os investigadores que o encontraram meses depois simplesmente o chamariam de “o caderno”.
Nele, Eliton anotava pensamentos sobre fracasso e inferioridade, sobre a certeza crescente de que seus pais tinham vergonha dele e que Débora era a filha que eles verdadeiramente queriam. O texto misturava queixas legítimas com distorções que se aprofundavam com o tempo, página por página, sem ninguém para interromper o processo.
Em uma anotação de fevereiro de 2019, ele escreveu: “Ninguém me vê. Para eles, eu sou uma sombra, mas as sombras desaparecem quando você apaga a luz.” Naquele mesmo ano, Débora voltou para o internato em Serrana dos Campos. A casa, que já era silenciosa, tornou-se diferente com sua presença, mais agitada, cheia de ligações e visitas e planos ditos em voz alta.
Para Eliton, que passara anos invisível, a presença da irmã funcionava como um espelho para o qual ele preferia não olhar. Certa noite de julho, a família jantou junta. Adilson abriu uma garrafa de vinho, algo que reservava para ocasiões especiais, e brindou à futura formatura de Débora. Ela falava empolgada sobre o programa de residência em cardiologia que pretendia seguir, o hospital com o qual mantinha contato e a cidade onde poderia morar.
Vera Lúcia ouvia com os olhos brilhando. Tia Noêmia batia palmas com suas mãos pequenas. Eliton estava sentado à mesa, não dizia nada, pegava sua taça, bebia devagar. Ninguém olhava para ele durante o brinde. Ninguém notou quando, sob a toalha de linho que Vera Lúcia usava em ocasiões especiais, ele pressionava o próprio joelho com a mão até que seus nós dos dedos ficassem brancos.
O jantar terminou com risadas. Adilson lavou as taças. Débora ajudou a mãe a recolher a louça. Tia Noêmia foi para o quarto rezar. Eliton subiu sem dar boa noite, trancou a porta, abriu seu caderno na primeira página em branco que encontrou e escreveu a data no canto superior direito, como sempre fazia.
Naquela noite, Eliton Monteiro tomou uma decisão. A decisão não produziu fúria, produziu método. Entre junho e setembro de 2019, Eliton Monteiro planejou os assassinatos com uma abordagem sistemática que os investigadores descreveriam mais tarde nos registros judiciais usando uma palavra que raramente aparece em relatórios policiais: meticuloso.
Tudo começou com pesquisas no computador. O histórico recuperado pelo perito de crimes cibernéticos da Polícia Civil de Minas Gerais revelou buscas sobre métodos de assassinatos silenciosos, tempo de decomposição de corpos em ambientes fechados e a janela de detecção para morte por envenenamento. Havia vídeos que eram assistidos repetidamente, tutoriais sobre ferramentas de corte, documentários sobre crimes famosos.
Intercaladas com essas buscas estavam também abas abertas em sites de suprimentos agrícolas, onde Eliton comprou frascos de agrotóxico concentrado usando as informações do cartão de crédito do pai, memorizadas. O envenenamento foi a primeira estratégia. Durante duas semanas em julho, ele adicionou pequenas quantidades do produto nas garrafas de suco que Vera Lúcia e Adilson costumavam beber à tarde.
A dose era insuficiente para matar. O cálculo estava errado. Ambos apresentaram náuseas e tonturas, que foram atribuídas ao calor e ao cansaço. Vera Lúcia consultou uma colega por telefone que receitou um antiácido. Ela comentou no jantar que devia ser o estresse da aposentadoria que faz nossos corpos reagirem de forma estranha quando paramos de trabalhar.
Adilson concordou, abrindo mais uma garrafinha de suco. Eliton observava. Concluiu que o método era impreciso demais. Abandonou-o. Em agosto, a natureza das compras mudou. Usando uma conta de marketplace aberta com informações falsas, que foi identificada e rastreada pela polícia meses depois, ele comprou um facão de uso rural, descrito no anúncio como ferramenta para trilhas e acampamento.
Comprou também rolos de lona plástica preta, sacos de lixo reforçados e luvas de borracha em grande quantidade, distribuindo as compras entre três plataformas diferentes para evitar concentrar o rastro. No mesmo período, em uma tarde de dia útil, pegou um ônibus até o posto de gasolina mais distante do bairro, na saída para a rodovia, onde ninguém o reconheceria de vista.
Comprou um galão de 20 litros, pagou em dinheiro, voltou para casa no banco de trás do ônibus, com o galão entre os pés, e guardou no fundo do guarda-roupa de seu quarto, atrás das caixas de roupas de inverno que ninguém abria desde maio. A data foi escolhida com cuidado. O aniversário de Adilson, 14 de setembro, era ocasião para uma pequena reunião familiar, sem convidados externos, sem vizinhos.
Apenas a família dentro da casa. Eliton sabia que os quatro estariam lá naquele sábado: pai, mãe, irmã e tia Noêmia. Cida não trabalhava aos sábados, então não haveria interrupções. Para se preparar, ele criou manequins usando roupas velhas, recheados com jornais e lençóis dobrados, dando-lhes volume suficiente para simular um corpo sentado.
Durante as madrugadas, com fones de ouvido no volume máximo para abafar qualquer ruído, praticava os movimentos no centro do quarto. Investigadores encontrariam mais tarde marcas no assoalho de madeira e arranhões na parede que confirmavam as sessões de treinamento. Eliton também desenvolveu um roteiro mental que revisava toda noite antes de dormir.
A ordem em que chamaria cada um, o pretexto que usaria, o tempo estimado entre cada chamado, o que fazer com os corpos imediatamente depois? Como tratar o ambiente? Quantas horas ou dias passariam antes que alguém de fora notasse o desaparecimento da família? Era um problema logístico como qualquer outro.
Ele o tratou como tal. Em nenhuma página do caderno, durante aqueles três meses, há qualquer hesitação. Há listas, há estimativas. Há as letras miúdas, o tipo de informação regular usada por alguém que está resolvendo um problema que decidiu resolver. Na sexta-feira, 13 de setembro, véspera do aniversário, Vera Lúcia encostou na porta do quarto de Eliton por volta das 20h.
Bateu de leve, como sempre fazia nas raras ocasiões em que precisava de algo. “Eliton, você vai comer bolo com a gente amanhã?” Houve uma curta pausa. Então, o som da tranca girando. Ton abriu a porta. Estava de camisa limpa e com o cabelo arrumado.
Ela olhou para o filho com uma expressão que não conseguiria descrever com precisão mais tarde, mas que naquele momento interpretou como serenidade. “Claro, mãe, até fiz um presentinho para você.” Vera Lúcia piscou, surpresa. Fazia anos que Eliton não dava um presente ao pai em seu aniversário. Ela sentiu algo se soltar no peito, aquela tensão crônica que o nome do filho sempre trazia consigo.
“Que ótimo, filho.” Sorriu genuinamente. “A gente se vê amanhã, então.” Ela voltou para o corredor. Eliton fechou a porta lentamente, sem fazer barulho. O presente que ele havia preparado não estava embalado em papel de presente. Sábado, 14 de setembro de 2019. Serrana dos Campos acordou com sol e aquela brisa seca de fim de estação que anuncia a chegada do calor de outubro.
Na rua dos IPs, a mangueira fornecia sombra como sempre, e um vizinho que passou bem cedo com seu cachorro viu as luzes acesas na cozinha dos Monteiro e pensou: “Dia de festa.” O dia seguiu normal. Adilson tomou café com Vera Lúcia, leu o jornal impresso que ainda assinava, ouviu a missa na rádio local, hábito de todo sábado.
Débora desceu ainda de pijama e beijou o pai no rosto. “Parabéns, velho.” Tia Noêmia, mais lentamente, desceu com a ajuda do corrimão e entregou ao cunhado uma toalhinha bordada com suas iniciais, dias de trabalho paciente. Adilson riu, disse que usaria no almoço do clube no domingo.
Eliton desceu por volta das 10h. Estava penteado, vestindo uma camisa limpa, algo que os outros notaram sem comentar. Desejou parabéns ao pai com um aperto de mão firme. Adilson não conseguia lembrar a última vez que o filho fizera aquilo. Eliton comeu o bolo da manhã com a família, fez perguntas sobre o almoço e parecia presente de um jeito a que nenhum deles estava acostumado.
Vera Lúcia trocou um breve olhar com o marido. Talvez hoje fosse um dia bom. O almoço foi feito por ela e Débora juntas: frango assado, arroz, feijão tropeiro, farofa com linguiça e pão de queijo recém-assado. A mesa foi posta para cinco. Adilson abriu uma cerveja gelada. Eliton comeu bem, comentou sobre o jogo do Atlético daquela tarde e fez o pai rir com uma observação sobre o técnico.
Débora filmou um trecho com o celular. A família estava junta. A família estava bem. Foi após o almoço, por volta das 14h, que tudo começou. Eliton disse ao pai que queria mostrar algo no computador, um site que havia encontrado com fotografias antigas de Serrana dos Campos, de quando Adilson era jovem. “Você vai adorar, pai.” Adilson, de bom humor e com a barriga cheia, levantou-se da cadeira e seguiu. O filho subiu. Foi a primeira vez em anos que ele subiu para o quarto de Eliton. O que aconteceu dentro daquele quarto? Investigadores reconstruíram meses depois, a partir de evidências forenses, do caderno e da confissão parcial de Eliton.
Adilson sentou-se diante do computador, mas não viu fotografia nenhuma. Eliton desceu, sentou-se no sofá da sala e ligou a televisão. Meia hora depois, chamou a mãe com a mesma história. Havia mais fotos. O pai queria que ela visse também. Vera Lúcia secou as mãos no pano de prato e saiu.
Não voltou. Débora estava em seu quarto quando Wellington bateu à porta. O pai queria mostrar-lhe uma surpresa lá em cima, disse ele. Ela não se surpreendeu com a ausência dos pais. Imaginou que estivessem descansando após o almoço, como Adilson costumava fazer aos sábados. Seguiu o irmão sem hesitar.
Tia Noêmia estava na sala, na poltrona habitual, com o volume da televisão alto, cochilando. Eliton sentou-se ao lado dela e disse, com a voz comedida que usava ao falar com a tia, que Vera Lúcia queria mostrar-lhe algo lá em cima. Noêmia abriu os olhos, pediu ajuda para levantar. Eliton ofereceu o braço. Ela não voltou.
Naquela noite, a casa ficou completamente silenciosa. Eliton comeu algo que sobrou do almoço, esquentou no fogão, comeu de pé na cozinha, depois subiu. Por volta da meia-noite, ele estava sentado no chão do corredor do segundo andar, as costas contra a parede, fones de ouvido, seu caderno aberto no colo.
Escreveu a data no canto superior direito, como sempre fazia. Depois, escreveu uma única frase: “Hoje eles finalmente me viram.” Fechou o caderno. Ficou ali por um tempo que não registrou. Lá fora, na rua dos IPs, o vizinho do fim da rua passou novamente com seu cachorro após seu passeio noturno. Olhou para a casa branca com detalhes em azul e notou que as luzes do segundo andar estavam todas acesas mesmo àquela hora.
Pensou que devia ser a festa de aniversário se estendendo. Sorriu para si mesmo, puxou a coleira do cachorro e foi para casa. Na manhã de domingo, Eliton foi buscar o galão no fundo do armário. Derramou o combustível sobre os corpos dos pais e da irmã no banheiro do segundo andar e ateou fogo.
As chamas se espalharam menos do que ele esperava. O espaço era pequeno, as janelas estavam fechadas, o ar não circulou. O fogo consumiu parte do que estava lá, mas não o suficiente. Ele não queimou o corpo da tia Noêmia, em outro cômodo. Cobriu-o com lençóis e fechou a porta. Pelos dois dias seguintes, Eliton ficou na casa.
Comeu o que havia na geladeira, sobras do almoço de sábado, frutas, o que encontrou. Viu televisão. Dormiu em seu próprio quarto com o ar-condicionado na potência máxima, em parte pelo calor, em parte pelo cheiro que já começava a exalar do corredor. Quando o vizinho da casa ao lado, notando que Vera Lúcia não regava as plantas naquela tarde de domingo, perguntou sobre a família pelo muro, Eliton disse que haviam viajado para Capitólio para aproveitar o feriadão.
“Minha mãe precisava descansar.” Na manhã de segunda-feira, 16 de setembro, Aparecida Lopes chegou ao sobrado no horário habitual. O que encontrou? A porta que não abria, a chave que não entrava, os celulares que caíam direto na caixa postal, as mensagens de WhatsApp de Vera Lúcia, entregues mas não lidas — tudo descrito no primeiro capítulo desta história.
E o cheiro, o cheiro que não tinha explicação simples. A equipe da Polícia Civil de Minas Gerais arrombou a porta às 10h30 da manhã. O que encontraram no segundo andar do sobrado branco com detalhes em azul constituiu a maior cena de crime que a delegacia de Serrana dos Campos já processou.
Três corpos carbonizados no banheiro, um quarto corpo coberto por lençóis em outro cômodo, em avançado estado de decomposição. O quarto de Eliton, os manequins destruídos, marcas no chão, o caderno de capa preta, as lonas dobradas, o galão vazio, o facão. O delegado responsável, após 22 anos de experiência, daria uma entrevista semanas depois na qual diria apenas: “Em toda a minha vida profissional, nunca vi nada parecido.”
Eliton havia partido na noite de domingo. Pegou uma mochila, algum dinheiro que encontrou na gaveta do pai e tomou um ônibus para Goiânia. Ficou em uma pensão barata no centro da cidade sob nome falso. Pagou em dinheiro e pediu para não ser incomodado. Na quarta-feira, seu rosto estava nos portais de notícias de todo o país.
O caso havia chegado ao noticiário nacional. Eliton viu. Sentou-se na beira da cama da pensão por um tempo que não conseguiu quantificar. Depois saiu, foi à rodoviária e comprou uma passagem de volta para Serrana dos Campos. Na quinta-feira à noite, quando o ônibus parou no terminal da cidade, dois investigadores já estavam no ponto de desembarque.
Eliton desceu com a mochila nas costas, sem correr, sem desviar o olhar. Um dos policiais relatou depois que, no momento da abordagem, ele disse calmamente: “Eu sabia que vocês estariam aqui.” A perícia foi meticulosa e, para a defesa, devastadora. O histórico do computador documentou meses de pesquisa.
As compras online rastrearam cada aquisição, cada plataforma, cada data. O caderno, com 47 páginas manuscritas, detalhou o planejamento, as motivações, a ordem escolhida. Laudos de DNA confirmaram as identidades das quatro vítimas. A autópsia apontou traumatismo craniano por instrumento perfurocortante em todos os casos. O fogo fora ateado após as mortes.
Sob interrogatório, Eliton confessou tudo, mas as motivações que apresentou mudavam a cada sessão. Em uma versão, disse que matara a família para libertá-los do sofrimento que causavam a ele. Em outra, afirmou que não sentia nada, que era apenas lógico, que havia um problema e ele o resolveu.
Psiquiatras foram chamados. O laudo inicial foi inconclusivo. A defesa entrou com pedido de insanidade. Em uma das avaliações psiquiátricas, a médica responsável fez uma pergunta sobre a dinâmica familiar. Eliton ouviu em silêncio, depois desviou o olhar. Observou o rosto dela por um longo momento.
Quando falou, foi com uma calma que a profissional descreveria no relatório como desprovida de qualquer afeto. “Você se parece com minha irmã”, disse ele. “Isso me incomoda.” A médica encerrou a sessão, tocou a campainha e pediu para ser levada de volta à cela. O caso Monteiro transformou Serrana dos Campos. Em uma cidade onde todos se conheciam, onde Vera Lúcia cuidara dos filhos de metade do bairro e Adilson fizera o imposto de renda de metade dos comerciantes do centro, a notícia chegou com a força de um impacto físico. A catedral colonial lotou nos dias seguintes, não apenas de fiéis, mas de pessoas que precisavam de um lugar para sentar e processar o que acontecera a três quadras de onde moravam. O processo judicial começou em outubro de 2019 e se arrastou por anos. Um laudo psiquiátrico de 2020 declarou Wellington parcialmente capaz.
Transtorno de personalidade narcisista e depressão grave, insuficiente para inimputabilidade, mas o bastante para alimentar disputas processuais. A defesa recorreu, o Ministério Público refutou. O caso foi suspenso duas vezes por motivos formais. Eliton permaneceu em prisão preventiva sem receber visitas.
A única pessoa que apareceu nos primeiros meses foi Geraldo, um primo distante de Adilson, que foi à unidade apenas para comunicar que a família não pagaria honorários, nem manteria qualquer vínculo com o réu. O advogado foi nomeado pela Defensoria Pública. Em 2021, Eliton agrediu um companheiro de cela durante o jantar, quebrando o nariz do homem com uma cotovelada após uma divergência trivial.
Foi transferido para o isolamento. Começou a recusar refeições em certos dias, alegando envenenamento. Quando um agente penitenciário perguntou por que ele pensava aquilo, respondeu sem levantar os olhos: “Porque é exatamente o que eu faria.” O julgamento começou em março de 2023 em uma sessão de júri realizada na própria Serrana dos Campos. A defesa pediu desaforamento.
Praticamente a cidade inteira conhecia as vítimas. O pedido foi negado. O julgamento durou 4 dias. Aparecida Lopes foi a primeira testemunha a depor. 16 anos de convivência relatados com uma clareza que silenciou o tribunal. O perito em computação apresentou o histórico do computador. O promotor leu o laudo da autópsia em voz alta.
Item por item. Eliton manteve uma expressão neutra durante quase todo o julgamento. Em um momento, quando Cida descreveu a manhã em que chegou à casa e percebeu que algo estava irreversivelmente errado, ele fechou os olhos e permaneceu assim por um minuto inteiro, sem se mover.
Ninguém soube ao certo o que aquilo significava. O júri o condenou por quatro homicídios qualificados, incêndio criminoso e ocultação de cadáver. A sentença, em abril de 2023, foi de 127 anos de prisão. Simbólica, dado o limite constitucional de 40 anos de prisão efetiva. Eliton tinha 37 anos. A possibilidade de liberdade antes dos 70 era mínima.
A herança dos Monteiro, a casa, um apartamento no centro da cidade, uma propriedade rural no interior, investimentos acumulados ao longo de décadas, permaneceram em disputa judicial, sob análise para aplicação da indignidade sucessória. O sobrado continua de pé. O portão está trancado. A velha mangueira ainda está lá.
As crianças do bairro inventaram histórias sobre a casa. Dizem que à noite se ouvem ruídos vindo do segundo andar. Não é verdade, mas cidades pequenas precisam de um jeito de dar sentido ao que não compreendem. E histórias de fantasma são mais fáceis de suportar do que a verdade nua, de que um homem cresceu naquele sobrado, foi criado por pessoas que acreditavam estar fazendo a coisa certa e decidiu, meses de antecedência e sem hesitação registrada, pagar sua própria família.
Semanas após o julgamento, em uma tarde de sábado, Aparecida Lopes passou pela rua dos IPs a caminho de uma farmácia. Parou em frente ao portão, sem ter planejado parar. Ficou olhando para a mangueira. Lembrou do primeiro dia em que chegou àquela casa, 16 anos atrás. E Vera Lúcia a recebeu com um sorriso e uma xícara de café.
Lembrou de Adilson brincando com a mangueira de jardim. Numa tarde de calor, lembrou da pequena Débora pulando corda na calçada sob a sombra da árvore. Tentou lembrar daquela cena, mas não conseguiu. Ele nunca estava do lado de fora. Estava sempre dentro, atrás das persianas fechadas, no quarto onde ninguém nunca entrava.
Cida ficou parada por mais um momento, depois virou as costas e partiu. A mangueira balançava lentamente com o vento. A rua ficou quieta. O sobrado branco com detalhes em azul continuou de pé, como sempre estivera, guardando silenciosamente tudo o que os de fora nunca souberam ver.