
O triste caso do YouTuber que estu.p.r0u sua mãe de 85 anos com demência
Chris Chen foi um dos personagens mais virais que a internet já conheceu. Durante anos, seu jeito excêntrico, suas criações, sua vida pessoal atraíam a atenção de milhares de pessoas ao redor do mundo. Mas por trás do personagem que muitos viam como divertido ou estranho, havia uma pessoa real e vulnerável.
Infelizmente, o interesse público não veio com empatia. O que começou como curiosidade se transformou em um ciclo de perseguição e humilhação que marcou profundamente a sua vida. Um processo que não só destruiu sua saúde mental, mas também abriu caminho para Cris cometer um dos piores crimes. Olá, lindezas, tudo bem com vocês? Para quem não me conhece ainda, eu sou Mila Prado.
É um prazer tê-los aqui para assistir um vídeo comigo. Gente, hoje eu trago um caso que eu já guardei ele por 3 anos. É isso mesmo. E não foi por falta de importância, não. Muito pelo contrário. Na verdade, era um assunto importante demais para mim, que me travava toda vez que eu começava a escrever sobre esse caso.
Eu acredito que alguns de vocês já devem ter percebido que eu quase sempre tô usando aqui no canal um brochezinho de coração, né? aquele brochezinho do coração autista nos vídeos. Ultimamente eu não venho usando porque eu não sei onde eu deixei. Sou meio bagunçada, sabe? Muita gente me pergunta: “Mila, você é autista?” Eu não sou autista, tá? Eu uso o broche em apoio à causa para dar visibilidade e mostrar que essas pessoas merecem respeito, dignidade e oportunidades.
E essa é a minha forma silenciosa de lembrar que elas são importantes. Eu não sei explicar para vocês, mas desde muito nova eu venho nutrindo um amor enorme por pessoas autistas e por pessoas com síndrome de Down. E por isso eu sentia tanta dificuldade em retratar essa história, porque esse não é só um caso criminal para mim.
Esse é um caso que escancara a maldade humana contra pessoas que não fizeram nada além de serem diferentes. E finalmente eu tomei coragem e entendi que o silêncio às vezes é cumplicidade. E também porque nesse caso específico a gente vê como o cyberbullying, essa violência que acontece atrás da tela, não só destrói a vida diretamente dessas pessoas, levando elas a um colapso mental, mas também destrói indiretamente a vida de outras pessoas, que foi o caso da mãe do Cris, da Bárbara. E esse caso vai te provar isso. Antes de ir pra história, eu preciso fazer aqueles pedidos que são importantes pro canal. Se você se interessa por esse tipo de conteúdo, eu te convido a se inscrever, ativar as notificações e se puder deixar o like logo agora no começo, porque depois você vai esquecer.
Eu sei que vai. Quem quiser também ser membro do canal para ajudar a gente, já que a gente sofre muitas desmonetizações, vai ser de grande valia e você também passa a ter alguns privilégios. É isso, meus amores, recados dados. E agora bora pra história. Christopher West Chandler nasceu em 24 de fevereiro de 1982 em Charlottesville, na Virgínia.
Mas o mundo só conheceria esse nome décadas depois e por um motivo muito triste. Filho único de Bárbara Helen Weston e Robert Franklin Junior, Christopher nasceu em uma casa onde aos olhos de fora tudo parecia normal. Uma casa de classe média, bairro calmo, onde o pai era engenheiro, a mãe dona de casa, mas por dentro a história era outra.
Os pais dele eram acumuladores e pessoas com certo problema mental que nunca foi diagnosticado. Mas no decorrer dessa história vocês vão perceber isso. A casa era um verdadeiro labirinto de tralhas, entulho e sujeira por todos os lados. Imagina crescer num lugar onde não dá para caminhar até a porta sem tropeçar em caixas, em lixos, em comida velha esquecida pelos cantos, insetos e ratos.
Foi nesse cenário que o Chris respirava, dormia, se alimentava e se formava como pessoa. E eu acho que todos concordamos que esse tipo de ambiente sujo, instável, desorganizado, tem um impacto direto na saúde mental de qualquer pessoa. Agora você imagina no caso de uma criança que já nasceu neurodivergente, com dificuldade de comunicação e adaptação social, a situação só piorava.
Quando ele tinha cerca de um ano e meio, a mãe contratou uma babá, mas essa mulher, em vez de cuidar dele, fazia o oposto. Ela trancava o Chris sozinho dentro de um closet escuro por horas. E a verdade é que a mente dessa criança não esqueceu essa dor. Depois desse trauma, o Chris simplesmente parou de falar. Ele ficou assim por 7 anos.
O silêncio dele durou até por volta de 1990, quando ele já estava com oito aninhos. Ele só voltou a emitir sons depois de assistir repetidamente a um vídeo infantil com um personagem que era chamado de Bumblebee, mas mesmo quando ele voltou a falar, o Chris, ele não conseguia se conectar com outras crianças. Ele já havia sido diagnosticado com autismo de alto funcionamento, mas os pais, especialmente a mãe, nunca buscaram um apoio terapêutico pro Cris.
Eles achavam que isso só iria piorar as coisas. Então o menino cresceu sozinho dentro da própria mente, dentro da bagunça daquela casa, daquele caos todo. Em 1992, quando o Chris tinha 10 anos, ele e o pai foram a um shopping. Lá eles encontraram um urso animatrônico. Sabe aqueles bonecos robóticos que falam com o público? Pois é, era esse tipo de boneco.
Aí o boneco olhou pro Chris e disse: “Olá, Christian”. O nome dele era Christopher, mas por algum motivo o boneco falou Christian. Para qualquer pessoa isso seria apenas um engano, mas pro pai dele foi um sinal, algo místico, uma confirmação de que o verdadeiro nome de seu filho era Christian. Pouco tempo depois, eles mudaram legalmente o nome do garoto pra Christian.
Só porque um boneco falou. Daí você já vê que o negócio é estranho. E essa história até saiu nos jornais locais da época como uma curiosidade fofa, mas pro Chris isso teve outro significado. Foi como se o universo tivesse falando diretamente com ele, como se ele fosse de fato alguém especial. No ano seguinte, em 1993, quando o Chris tinha 11 anos, essa sensação de ser o escolhido ganhou força.
O programa As Aventuras de Sonic, que era o desenho do Sonic, né, aquele joguinho de videogame que todo mundo conhece, rolou um concurso, tá, onde as crianças tinham que mandar uma carta falando sobre o que aprenderam assistindo aos episódios. O vencedor ganharia mil dólares em produtos de videogame e o Chris mandou uma carta e ele acabou vencendo.
E foi assim, gente, que ele criou uma verdadeira obsessão pelo Sonic. Nos anos que se seguiram ao prêmio do Sonic, os pais do Chris o convenceram de que ele era, na verdade, especial, que ele tinha um destino diferente de outras crianças e que em algum momento alguém perceberia isso também. E foi mais ou menos nessa época, por volta de 1994, quando ele tinha 13 anos, que ele conheceu Sara Nicole Hammer, uma vizinha.
Ela foi tecnicamente a primeira pessoa de fora da família que se aproximou dele. Eles começaram a brincar juntos. Ela conversava com ele, ria das piadas, parecia se importar. E para alguém como o Chris, que nunca teve amigos, que vivia em um ambiente isolado e sonhava com algum tipo de afeto, aquilo era ouro. Mas a verdade é que o ouro virou chumbo rápido demais.
Sara, apesar de ser só uma menina, já sabia que o Chris era diferente e começou a usar isso como diversão. Ela começou a rir dele. Ela fazia piadas com o jeito dele, o imitava, o colocava em situações humilhantes. Sabe aquela maldade disfarçada de brincadeira? Pois é, era bem isso que acontecia. Teve um episódio em específico que ficou marcado na cabeça do Chris.
Ela disse a ele que havia uma fantasia escondida embaixo da casa dela, num espaço apertado entre a madeira e o piso. E aquele espaço era muito sujo. O menino ingênuo, acreditando nela, se arrastou para dentro desse espaço estreito, todo sujo e muito abafado. E assim que ele entrou, ela o trancou lá sozinho, sem poder sair.
E só depois de vários minutos, ela abriu e ficou rindo da cara dele. Aquela cena parecia uma reprise do trauma do armário, onde a babá trancava o Chris quando ele ainda era muito pequenininho, que foi o episódio em que ele parou de falar. Na quarta série, por volta de 1995, o Christopher já tinha mais ou menos 13 anos, mas ele ainda era muito ingênuo.
Ele tinha a idade mental mais ou menos de uma criança de 8 anos. Ele passou por vários episódios traumáticos na escola e um dos que mais mexeram com ele foi depois de uma provocação feita por um colega, daquelas típicas de criança fazendo, querendo realmente irritar alguém, sabe? O Chris teve uma crise emocional após isso.
Ele gritou, ele chorou, ele entrou em colapso no meio da sala, só que em vez de o acolherem, o que os funcionários da escola fizeram foi muito cruel. Eles o seguraram no chão, e prestem atenção, cinco adultos imobilizaram um garoto de 13 anos com autismo no chão da escola enquanto ele gritava desesperado. E mais, eles gravaram tudo em vídeo.
E por que que eles fizeram isso? Porque eles tinham medo de serem processados. Então eles quiseram registrar o surto para se proteger, como se tivessem lidando com um criminoso, como se o problema fosse o Cris e não a forma com que ele era tratado. E quem já teve qualquer contato com crianças autistas sabe como são essas crises.
São realmente muito tristes, então precisa realmente de muito cuidado para lidar com eles. E eles não tinham nenhum. Mais tarde, o Chris também relatou que o diretor da escola tinha tido atitudes inadequadas com ele. Sim, é isso mesmo que vocês estão pensando. Ele foi abusado pelo professor daquele jeito. Quando os pais viram o que aconteceu, eles tiraram ele da escola imediatamente e entraram com uma ação judicial.
E o juiz deu um parecer claro. Ao invés da escola ser punida e aquele professor ser preso, o Chris é que deveria ser transferido para uma escola especializada, onde ele poderia receber acompanhamento adequado para as suas necessidades. Mas os pais, principalmente a Bárbara, não aceitaram isso. Eles diziam que aquilo era humilhante, que o filho não precisava de tratamento e que era só um menino normal, com um jeito estranho.
E decidiram que a melhor saída seria mantê-lo em casa fazendo um homeschooling, que é quando você recebe educação no lar. E esse, gente, muitas vezes é um problema que crianças com autismo têm que enfrentar. Pais que não aceitam a realidade, o diagnóstico e por isso acabam prejudicando mais ainda seus filhos, que com o acompanhamento correto poderiam sim se tornar completamente funcionais.
E a verdade é que a educação ali naquela casa não era a prioridade, não. O que ele viveu durante os anos seguintes foi o mais puro isolamento. Ele não viveu um aprendizado, ele não era ensinado, ele era isolado. A mãe não se preocupava em ensinar o Cris. Ela apenas não queria que o filho socializasse, que o filho tivesse um tratamento.
Dentro de casa, a situação ainda era mais tensa do que parecia. A Bárbara, que se apresentava como uma mãe dedicada, na verdade era extremamente controladora emocionalmente e abusiva. Ela usava de chantagem emocional para conseguir o que ela queria do filho. Ela dizia coisas como: “Se você não fizer o que eu mandar, eu te coloco para fora. Se você me irritar de novo, eu vou tirar a minha própria vida”. Frases essas que viraram rotina na vida do Cris. Tudo só foi piorando. O psicológico dele ia deteriorando a cada ano que passava. Ele cresceu acreditando que o amor precisava ser comprado com obediência, que sua existência era incômoda, que ele era um fardo, que a mãe dele poderia morrer a qualquer momento e a culpa, gente, seria dele.
Esse tipo de abuso não deixa cicatriz visível, mas destrói a mente por dentro, ainda mais de uma criança, e uma criança autista. E foi só por volta de 1996, com cerca de 14 anos, que o Chris voltou a frequentar uma escola comum. Segundo relatos, os pais, com medo de vê-lo isolado na escola, chegaram até a pagar colegas para que eles fingissem ser amigos do Chris.
O objetivo era fazer com que ele tivesse uma experiência normal, que ele socializasse, sentisse que fazia parte de algum grupo. E de fato esse período foi o mais, digamos que, estável na adolescência dele, mesmo que fosse tudo uma ilusão, né? O Chris finalmente interagia com pessoas da mesma idade, participava das aulas e tinha um mínimo de estrutura, mesmo que contratada, mas era questão de tempo, gente, até que ele se isolasse de novo, porque o mundo real nunca foi gentil com o Chris, sem falar que a mente dele sempre preferiu o mundo de fantasia. Afinal, lá ele não sofria bullying, ele não era tratado com maldade e com descaso. E foi assim, gente, que o Chris foi se inserindo no mundo de fantasia. Ele começou a criar HQs, tá? Onde ele criava personagens fictícios. E nesse mundo o Chris, ele era o rei. Ele mandava, desmandava, ninguém o maltratava.
Ele simplesmente viu que ali era o local mais confortável, era a zona de conforto dele. E cada vez mais que ele se imergia nesse mundo de games, ele desenhava, o mundo paralelo dele só ia crescendo. E essa idade do desenho que ele criou simplesmente se tornou o seu refúgio emocional. E por mais que o HQ parecesse uma historinha inofensiva, ela funcionava como um espelho da vida do Chris.
Tudo o que acontecia nesse mundo, as brigas, as traições, as humilhações viravam roteiros nos seus quadrinhos. Só que nas páginas ele sempre vencia, ele sempre saía por cima. Era a forma de refúgio que ele encontrou para essa vida cruel que ele vivia, pra vida real que ele vivia. E com o tempo o envolvimento com a história ficou tão profundo que o Cris passou a acreditar que aquele universo era real e que ele era o único ser humano capaz de acessar esse mundo.
Mas não era só isso. Dentro desse universo, Cris criou uma obsessão que iria dominar a vida dele por mais de uma década. Ele chamava de Love Quest. A missão era encontrar uma namorada. Só esse desejo que poderia parecer normal pros outros virou uma obsessão. O Chris começou a sair pelas ruas com cartazes em busca de uma namorada de verdade.
Ele colocava nos postes os cartazes, os panfletos, né, buscando uma namorada. E tinha várias regras. Tinha que ser bonita, virgem, não ter namorado antes e gostar de videogame. Ele também era bem exigente. E toda vez que uma mulher o rejeitava, ela virava uma personagem vilã de suas histórias. Essa obsessão virou o centro da vida dele.
E é agora, gente, que essa história vai ficar mais pesada. Foi mais ou menos nos anos 2000 que o Chris começou a se expor online. E foi a pior coisa que ele fez na vida. Ele criou uma página pessoal para divulgar os seus quadrinhos. Lá ele postava seus desenhos, falava da sua vida, gravava vídeos e compartilhava todos os detalhes de sua existência sem nenhum tipo de filtro.
Agora vocês imaginem o que que isso vai dar, né? E em 2007 ele criou o canal dele no YouTube e começou a gravar vídeos que viraram uma espécie de diário. E foi nesse momento que as coisas começaram a sair completamente do controle. O Chris virou o alvo da internet. As pessoas mais malignas da internet resolveram perseguir o Chris, vigiar, humilhar ele de todas as formas.
Nesse mesmo ano, um grupo de usuários começou a ver os vídeos do Chris e ele virou um grande meme, o maior alvo de cyberbullying da internet mundial. Ele se tornou o alvo principal dos trolls, um termo na internet que define pessoas que provocam, que enganam, ridicularizam alguém que só quer causar confusão e obter entretenimento às custas da dor de outras pessoas.
E esses trolls viam no Chris um prato cheio. Ele era diferente, falava sozinho com a câmera, compartilhava emoções sem nenhum tipo de filtro, ele tinha reações emocionais explosivas e não percebia quando estavam zombando dele. Era como se a internet, que naquela época ainda era muito nova, tivesse descoberto um brinquedo novo, mas um brinquedo quebrável.
E foi isso que eles fizeram. Eles começaram a brincar com ele até que ele quebrasse. Uma das coisas que o Chris mais queria na vida era ter uma namorada, como eu falei antes. Então, os trolls começaram a criar personagens falsos de garotas, perfis falsos para trollar o Chris. E o Chris toda vez caía.
Ele acreditava toda vez que uma garota se interessava por ele. Mas no fundo era só um fake que fazia de tudo para ridicularizar o Chris. Eles gravavam o Chris em ligações, faziam ele contar segredos. E depois eles expunham tudo na internet com a única intenção de ridicularizar o Cris, de humilhar ele. O Cris, que não tinha nenhuma vivência amorosa, acreditava em tudo.
Ele enviava vídeos íntimos, cartas de amor, até mesmo gravações dele se expondo fisicamente. Ele acreditava que estava vivendo um romance e depois outro e depois outro. Ele não simplesmente era enganado e no próximo ele aprendia, não. Ele tinha a mente de uma criança. Então ele era enganado uma vez, ele era humilhado e depois ele era enganado de novo.
Ele era humilhado, exposto. E durante anos foi assim a vida dele. Para vocês terem noção, até sites foram criados só para humilhar o Chris. E com o tempo isso virou uma espécie de arquivo vivo de humilhação, atualizado todos os dias. Eles mapeavam até o lixo da casa dele, hackeavam contas, descobriam endereços, eles expunham até dados pessoais dele e de sua família.
Mas Mila, por que que o Chris não saía, gente? Era um garoto autista que não sabia como lidar com a maldade humana. E a verdade é que o Chris, ele não entendia o que tava acontecendo. Ele no fundo acreditava que ele tava ganhando fãs, que na verdade aqueles sites eram em homenagem a ele e não com o objetivo real, que era acabar com ele, humilhar ele.
O Bob, o pai dele, até tentava proteger o filho. Ele até chegou a aparecer em vídeos, discutindo com os trolls, implorando para que eles deixassem o Cris em paz, mas não surtiu efeito nenhum. E tudo isso desabou de vez em 6 de setembro de 2011, quando o Bob partiu, quando ele faleceu aos 84 anos, depois de uma internação por insuficiência cardíaca.
E quando ele partiu, não foi só o corpo dele que saiu da casa, foi também a última barreira entre o Cris e o colapso. A morte do pai coincidiu com o pior momento financeiro da família. A Bárbara, que também já era idosa, estava cada vez mais confusa e agressiva. O acúmulo de troço, dejetos, de insetos na casa já atingia níveis totalmente insalubres.
Havia fezes de animais misturadas com os entulhos, os quartos tinham cheiro de mofo e ainda assim a Bárbara vivia ali como se tudo fosse normal. E o Cris também, mas para ele era normal. Afinal, ele nasceu naquele lugar daquele jeito. Ele não conhecia uma casa realmente saudável. E o Chris, que já tinha perdido completamente a noção dos limites, ele passou, gente, até a gravar vídeos andando nu pela casa.
Ele gravava a própria mãe gritando e compartilhava tudo na internet. Era como se ele tivesse regredindo. E a verdade é que enquanto a idade avançava no corpo, a mente dele voltava à infância. Com a morte do marido, a Bárbara passou a depender totalmente do filho, mas ao mesmo tempo ela exercia um controle emocional quase que sufocante sobre ele.
Ela fazia discursos confusos nos vídeos, parecia ao fundo gritando o tempo todo, chorando. Ela realmente estava em colapso mental. E nessa fase os vídeos mudaram de tom. O Chris já não falava mais só do Sonic e seus personagens. Ele começou a falar de temas sexuais com frequência, misturando realidade com fantasia, criando versões distorcidas de relacionamentos amorosos e até relações sexuais explícitas.
Tudo era publicado na internet e os trolls se divertiam, adoravam isso. E entre 2013 e 2014, o Cris começou a ter episódios cada vez mais instáveis em público. Ele foi banido de lojas por brigar com clientes. Ele agredia pessoas verbalmente. Então, gente, pra surpresa de todos, o Chris de repente apareceu em público nos vídeos usando roupas femininas, blusas, saias, maquiagem.
Quando perguntavam, ele dizia que continuava sendo hétero, que aquilo era apenas uma forma de se expressar, mas com o tempo essa expressão evoluiu para uma identidade. Ele anunciou que passaria a viver como Christine agora, uma mulher trans, mas lésbica. Ele continuava gostando de meninas. E em casa, essa transição não foi recebida com apoio.
A Bárbara deixou claro que ela não aceitava. Ela cortava o cabelo dele à força, ela chamava ele pelo nome antigo, usava insultos transfóbicos e tratava tudo como uma fase que ele deveria largar. O Chris, por sua vez, ele tentava se afirmar que era como ele se via a partir de então. E tudo isso, gente, era transmitido na internet pro deleite dos trolls.
O momento mais preocupante dessa fase foi quando a Chris, convencida por suas próprias ideias e pela pressão externa, ela decidiu fazer um corte em suas partes íntimas. Ela decidiu tirar por conta própria em casa, sem nenhum tipo de, enfim, ela acreditava que isso faria sair sua parte feminina e que de alguma forma isso seria suficiente para completar a sua transição.
E não esqueçam que tudo isso era mostrado na internet. Acontece, gente, que o corte infeccionou e aí alguns trolls chegaram a demonstrar até preocupação. Sim, até eles ficaram com um pouco de dó do Chris e o convenceram a procurar um médico. Ele foi atendido e a ferida foi tratada, felizmente, mas o dano psicológico não tinha jeito, não.
E em 26 de janeiro de 2014 veio outro golpe forte: um curto-circuito em um cabo velho provocou um incêndio na casa em que ele e a mãe moravam. Devido ao acúmulo que tinha ali de troço, os bombeiros nem conseguiram entrar pela porta principal. Eles precisaram arrombar uma janela. O fogo se espalhou rapidamente, alimentado pelo entulho, um bombeiro chegou até a ficar preso e ferido dentro da casa.
Eles até conseguiram salvar alguns animais de estimação, porque ainda tinha isso. Tinham vários animais de estimação, mas a casa foi destruída. Sem lar agora e com quase nada de dinheiro, o Cris e a mãe passaram a viver de pensões e benefícios do governo. Em meio a isso, o Cris, em seu mundo paralelo, seguia na internet.
E aí, gente, chegou o ano de 2020. A Christine, nesse ano, conheceu Isabella Jenkins, que se apresentou como uma amiga verdadeira. Elas conversavam por horas em chamadas de vídeo e trocavam mensagens diariamente. Mas a Isabella não era amiga coisa nenhuma. Assim como tantos outros antes dela, ela tinha um objetivo perverso: manipular o Chris até que chegasse a um colapso mental.
Ela chegou até a incentivar a Christine a se ferir para tirar a própria vida. E foi durante uma dessas conversas em julho de 2021, olha só, ficou alimentando isso por muito tempo, que a Christine revelou algo que faria sua história dar uma guinada irreversível. Sem demonstrar vergonha, com completa falta de noção do que estava falando, ela confessou que estava mantendo atos íntimos com a própria mãe, a Bárbara, que nessa época, gente, já tinha mais de 80 anos e sofria de demência.
Ela disse com orgulho que o pai nunca havia conseguido satisfazer a mãe como ela conseguia e, pasmem, e que sempre tinha sido transparente com a mãe sobre a relação delas. Só que a realidade é que por conta da idade, da condição mental da Bárbara, aquilo, gente, era porque aquilo não era um relacionamento consensual, ao contrário do que a Christine falava.
A Isabella, ao ouvir aquele absurdo, ao invés de denunciar pra polícia aquele fato, ela gravou tudo e divulgou a conversa na internet para que os trolls se divertissem agora não só mais com a Chris, mas com o que tinha acontecido com a Bárbara. O áudio se espalhou como fogo na internet, fóruns, redes sociais, canais do YouTube, todo mundo só falava disso.
E com isso vieram as ameaças, os insultos e até pedidos de linchamento. Com medo, Chris fugiu e se escondeu em um hotel. E já era tarde demais. E assim, no dia 30 de julho daquele mesmo ano, 2021, a justiça emitiu uma ordem de restrição, obrigando Christine a ficar longe da mãe por pelo menos uma semana. Dois dias depois, em primeiro de agosto daquele ano, ela foi presa na Virgínia, acusada formalmente de abuso familiar e incesto.
Durante o processo, a defesa alegou que o autismo dela a tornava incapaz de entender totalmente a gravidade de seus atos. Mas, independente de qualquer diagnóstico, o crime foi reconhecido como gravíssimo, agravado pela vulnerabilidade da vítima. E um detalhe que gerou discussão foi o local onde Christine foi detida. Como Christine fez transição de gênero e seu registro legal de gênero era feminino, ela tinha feito isso, ela foi colocada em uma ala feminina, o que causou protestos de quem acreditava que aquela acusação estava errada, que ela deveria estar em uma ala masculina. Enquanto isso, a Bárbara foi levada a cuidados separados e, por motivos óbvios, nunca mais pôde ver a Christine. Chris ficou presa até 27 de março de 2023, quando foi colocada em liberdade condicional com supervisão.
Em 8 de agosto de 2023, o caso foi encerrado pelo tribunal, que determinou que ela fosse encaminhada a um grupo de assistência para pessoas com transtornos mentais, ficando sob a tutela do estado. Desde então, a Christine raramente aparece em público, e quando aparece, é em eventos em shopping sob vigilância. Bárbara, até as últimas notícias que a gente achou, ela estava viva, mas sob cuidados afastada da filha.
O caso da Chris é, sem exagero, um retrato cruel de como a internet pode destruir uma pessoa, ainda mais se ela for vulnerável e ninguém faz nada. Muito pelo contrário, a internet transformou a dor em entretenimento. E é claro que o que a Chris fez com a mãe é indefensável, desenhando aqui porque vai aparecer quem não entende o que tá sendo dito aqui.
O que fez não tem defesa, foi horrível, foi criminoso. Mas também é impossível de ignorar que esse crime foi o ponto final de uma trajetória de deterioração mental que todo mundo viu acontecer ao vivo e ninguém fez nada. Eu espero que a Christine tenha recebido o tratamento psicológico adequado pra sua condição e desejo que a Bárbara, mesmo estando em uma condição irreversível devido à, né, e devido à demência, ela possa ter paz.
E o mais incômodo para mim é que a história da Chris não é única. Hoje existem milhares de Christians sendo criados pela internet. Pessoas vulneráveis, muitas delas neurodivergentes, expostas sem filtro, sendo manipuladas por gente que acha engraçado ver alguém chegar onde ela chegou. E por isso é importante trazer e falar desse caso para que mais Christians não surjam.
O caso dela deveria servir como um espelho. Até onde vai a nossa responsabilidade pelo sofrimento que consumimos? Sabe aqueles comentários maldosos que a gente faz ou que às vezes só curte, ri, manda para um amigo, ajuda no engajamento? Pra gente pode parecer um momento de distração, mas para quem tá do outro lado da tela, pode ser a gota d’água que faltava para transbordar um copo que já vinha sendo cheio de dor durante muito tempo.
A gente nunca sabe qual é o limite emocional de alguém, nem o peso que uma palavra pode ter para aquela pessoa. E quando esse limite estoura, não dá para voltar atrás. Uns tiram suas vidas, outros cometem crimes terríveis, como foi o caso do Cris. E no fim todos nós temos as mãos sujas. Não adianta chegar o Setembro Amarelo e fazer um texto tão bonito nas redes sociais se no resto do ano a gente fecha os olhos para quem tá sofrendo ou pior, participa daquilo.
A empatia, gente, não pode ter data no calendário. Ou a gente aprende a exercitar ela todos os dias, ou histórias como essa vão continuar se repetindo e fazendo novas vítimas. E é por isso que esse caso era muito difícil e muito importante para que eu gravasse. Eu tô feliz porque eu consegui, foi muito difícil, foi muito tempo de preparo.
Eu espero realmente que você que tá aí do outro lado aprenda alguma coisa com essa história, porque ela é muito importante para que a gente não cometa mais esses erros. Eu fico por aqui, recebam o meu muito obrigada e até o próximo fato sinistro. Tchau!