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Trem com 95 passageiros desapareceu em um túnel na Serra do Mar em 1981 — Dro…

Trem com 95 passageiros desapareceu em um túnel na Serra do Mar em 1981 — Dro…

Na manhã de 14 de agosto de 1981, às 6h42, o trem de passageiros número 307 da linha Santos-Paranapiacaba partiu da estação central de Santos com 95 pessoas a bordo. Era uma sexta-feira típica de inverno. O céu estava nublado, mas não chovia. A viagem durava em média 1 hora e 15 minutos. O trem passou por sete túneis escavados na rocha da Serra do Mar antes de chegar ao topo.

O último contato com o trem foi registrado às 7h29, quando o maquinista, José Reinaldo de Almeida, confirmou pelo rádio que acabara de passar pelo túnel CCO e estava no horário. Três minutos depois, o trem entrou no túnel 6, conhecido entre os ferroviários como túnel Grota Funda, um corte de 1340 m, escavado na década de 1920, que nunca saiu do outro lado.

Quando o trem não chegou à estação seguinte, o supervisor de tráfego presumiu que houve um atraso mecânico. Às 8h10, ele tentou fazer contato por rádio. Ninguém respondeu. Às 9h30, uma equipe de manutenção foi enviada. O túnel estava vazio. Não havia destroços, nem corpos, nem trilhos arrancados e nenhum sinal de descarrilamento.

Havia apenas os dois trilhos de aço estendidos na escuridão, intactos, sem uma gota de óleo, sem uma marca de freio. Esta é a história de um trem que desapareceu com 95 pessoas dentro de um túnel na Serra do Mar, durante o auge da ditadura militar, e que foi reinvestigada em 2019, quando imagens capturadas por um drone comercial mostraram algo dentro daquele túnel que ninguém esperava encontrar.

A Serra do Mar corta o litoral de São Paulo como uma parede de pedra e mata densa. É uma das regiões mais íngremes do país. Entre Santos e o planalto, a altitude sobe mais de 700 m em menos de 15 km. A ferrovia foi construída entre 1860 e 1937, num esforço que custou centenas de vidas.

Os túneis eram estreitos, úmidos e frios. Alguns tinham mais de 1 km de comprimento. Lá dentro não havia luz natural, nem ventilação adequada, apenas o barulho do trem ecoando contra a pedra. A serra era o tipo de lugar que as pessoas da cidade usavam sem pensar muito. Elas pegavam o trem, atravessavam para o outro lado e continuavam com suas vidas.

Elas não prestavam atenção na mata densa lá fora, nas rochas cobertas de líquen, nos riachos que corriam invisivelmente entre as árvores. Era apenas paisagem, era apenas a estrada. José Reinaldo de Almeida tinha 41 anos e trabalhava na ferrovia há 23 anos. Ele começou como auxiliar de manutenção em 1958 e subiu até a cabine; conhecia aquela linha de cor, sabia onde a velocidade tinha que cair, onde o trilho vibrava diferente, onde o vento entrava pela fresta da janela. Ele tinha uma esposa, Neusa, que trabalhava em um salão de beleza em Cubatão. Três filhos: Reinaldinho, 16 anos; Celinha, 13; e o caçula, Paulinho, 8. A casa própria em um bairro humilde de Cubatão, com quintal, um cachorro e uma horta de couve que Neusa cuidava todo fim de semana. Ele não era homem de falhar; era um homem de rotina, de pontualidade, de manter a palavra.

Naquela manhã de sexta-feira, ele dirigia o trem calmamente, como sempre fazia, e entrou em um túnel do qual nunca retornou. Nada na vida de José Reinaldo sugeria que terminaria assim. Não houve sinal, nenhum aviso. Era uma manhã comum, um dia de trabalho comum, em um trecho de estrada que ele conhecia melhor do que o caminho de casa.

E se esse tipo de história faz você questionar no que acredita? Para saber sobre o Brasil que existia antes das câmeras estarem em todo lugar e da internet estar no bolso de todos. Você pode se inscrever no canal e deixar sua opinião nos comentários. A partir daqui, a história avança lentamente. Tudo o que aconteceu naquela manhã de agosto e nos anos que se seguiram precisa ser contado sem pressa.

Há perguntas que esta história levanta que não têm respostas fáceis. O que faz um governo isolar um local sem explicar o porquê? Em que ponto uma família média aceita que o Estado não devolverá o que tirou? O que acontece com 95 pessoas que entram em um túnel e não saem? E o que significa encontrar, 38 anos depois, uma marca humana fundida na pedra de uma parede que ninguém tocou? Estamos na Serra do Mar, no inverno de 1981, e não havia celulares, não havia internet e não havia câmeras de segurança em nenhuma estação. A ditadura militar estava em seus anos finais, mas ainda controlava o que aparecia nos jornais e o que permanecia trancado em gavetas. A rede ferroviária federal era uma gigante estatal, com poderes de polícia próprios, autonomia administrativa e capacidade de decidir o que virava notícia e o que desaparecia nos arquivos internos.

Este era o Brasil em agosto de 1981. E foi dentro desse Brasil que o trem 307 entrou em um túnel e nunca mais saiu. Às 7h29 do dia 14 de agosto de 1981, a voz do maquinista José Reinaldo de Almeida soou no rádio da sala de controle da estação de Paranapiacaba, com a mesma cadência de sempre: firme, clara, sem pressa.

Ele confirmou que havia passado pelo túnel C sem incidentes. Já informou que o trem estava no horário e desligou. Foi a última transmissão registrada. O supervisor de tráfego Osvaldo Ferreira Lima anotou o horário no livro de registro com uma caneta azul, fechou o livro e voltou para o café que esfriava na caneca de alumínio ao lado do rádio.

Osvaldo tinha 53 anos e trabalhava naquela estação há 12 anos. Já tinha ouvido centenas de rádios como aquele, centenas de confirmações de chegada, centenas de horários anotados de caneta azul e centenas de cafés que esfriavam em sua caneca enquanto ele escrevia. Era um procedimento de rotina.

Nada naquela voz indicava nervosismo. Nada naquele dia indicava que algo estava fora do lugar. O livro foi fechado, o café foi bebido e o mundo seguiu por mais alguns minutos, como se nada tivesse acontecido. O túnel da Grota Funda ficava a 3,5 km de Paranapiacaba, em uma das partes mais fechadas e úmidas da serra.

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Era o cesto de sete túneis que o trem precisava atravessar antes de chegar ao topo. Tinha sido escavado entre 1921 e 1924 por trabalhadores, em sua maioria imigrantes italianos e espanhóis, muitos dos quais morreram durante a construção por desmoronamento de rochas, gases internos e infecções. Um buraco de 1340 m na montanha, aberto à mão, com picareta e dinamite controlada.

Lá dentro, a temperatura permanecia em torno de 12 graus, mesmo no verão. O ar era pesado, com cheiro de terra úmida, enxofre e ferro enferrujado. Quando um trem passava em velocidade normal, o som das rodas contra os trilhos criava um eco que durava até 6 segundos. Depois que o trem já tinha saído do outro lado, os ferroviários mais antigos chamavam aquele eco de assinatura do túnel.

Era a maneira que a ravina profunda indicava que o trem tinha passado. Naquela manhã de agosto, o eco não veio. O trem 307 consistia em uma locomotiva a diesel da série 3000, fabricada na década de 1960 pela General Motors do Brasil, e quatro carros de passageiros de segunda classe. Não era um trem de luxo nem confortável. Era um trem cheio de pessoas que precisavam ir de um lugar para outro.

As poltronas eram de madeira envernizada, com encosto reto e assento duro. As janelas tinham vidros de correr que não fechavam direito, deixando entrar ventos frios ao redor das estradas sinuosas da serra. Cheirava a óleo diesel, poeira de ferrovia e o ranço acumulado de muitos anos de uso diário. Era uma manhã de sexta-feira e os carros do trem estavam cerca de 70% cheios.

Havia comerciantes carregando sacolas de mercadorias, donas de casa com cestas de compras, estudantes com pastas de couro gastas e operários da refinaria de Cubatão, que moravam em Paranapiacaba e desciam para trabalhar. Aposentados que iam resolver coisas no cartório. Um casal de idosos sentava junto, ela com um terço na mão, ele com o chapéu no colo.

Pessoas comuns. Pessoas que acordaram cedo naquela sexta-feira, tomaram café e pão, trancaram a porta da frente e foram pegar o trem. 95 pessoas. Destas, a rede ferroviária só tinha registro do nome completo de 63, porque as outras haviam comprado passagens sem apresentar identificação, o que era prática comum e aceita na época.

32 pessoas embarcaram naquele trem sem que ninguém soubesse exatamente quem eram. E quando o relógio de parede da estação de Paranapiacaba marcou 8h05 e o trem 307 ainda não tinha chegado, o agente de plantão, Mário Henrique Braga, olhou para os trilhos vazios lá fora e franziu a testa. Ele tinha 46 anos e trabalhava naquela estação na linha 8.

Ele conhecia o horário do trem melhor do que seus filhos. 6h, embora atrasos de alguns minutos não fossem incomuns naquela linha. A serra tinha suas variações, seus nevoeiros, seus trechos de linha que exigiam velocidade reduzida, mas geralmente havia um aviso. José Reinaldo era conhecido justamente por isso.

Se ele fosse se atrasar, ele avisava. Mário pegou o rádio portátil e chamou. Ninguém respondeu. Ele chamou novamente com o indicativo de chamada correto. Silêncio. Uma terceira vez. Nada. Ele colocou o rádio na mesa, levantou sua cadeira, saiu para a plataforma e ficou lá, de braços cruzados, encarando o espaço vazio da curva de onde o trem sempre vinha.

O vento frio da montanha batia contra a lona gasta da marquise da plataforma, fazendo um barulho seco e repetitivo. O piso de madeira da plataforma estava úmido. A névoa da manhã ainda não tinha se dissipado completamente entre as árvores do outro lado da linha. Havia três passageiros esperando. Uma mulher com duas crianças pequenas sentada em um banco de madeira coberto com um pano de saco.

A mulher com uma sacola de pano no colo e as crianças encolhidas juntas. Todos olhavam na mesma direção: para a curva vazia, para o silêncio que emanava da direção das montanhas. Às 8h15, Mário voltou para dentro e ligou para a estação anterior em Campo Grande. Perguntou se o trem 307 tinha saído no horário.

Disseram que sim, que tinha saído às 7h19 dentro do horário regular com o trem lotado. Perguntou se houve algum problema técnico reportado. Disseram que não, que o maquinista não tinha comunicado nada. Mário desligou e encarou o telefone de baquelite preto descansando sobre a mesa. Lá fora, as crianças começaram a chorar. A mulher levantou e perguntou se o trem ia demorar muito mais, porque as meninas estavam com fome.

Mário disse que ele devia chegar a qualquer momento agora, que devia ser um atraso pequeno. Essas coisas aconteciam. A mulher voltou para o banco. Mário olhou para o relógio de novo. 8h22. 43 minutos desde o último contato de José Reinaldo. Tempo demais para ser apenas um atraso. Às 8h40, Mário tomou a decisão de ligar para o supervisor de tráfego.

Osvaldo Ferreira Lima atendeu no segundo toque e ouviu a história sem interromper. Permaneceu em silêncio por cerca de três segundos e depois pediu para Mário repetir. Mário repetiu. Osvaldo disse que iria verificar e desligou. Ele ligou para a central de operações em Santos. A central de controle confirmou que o trem 307 havia saído de Santos às 6h42, que tinha passado por todas as estações intermediárias no horário e que o último contato registrado foi o rádio de José Reinaldo às 7h29, confirmando a passagem pelo túnel 5. A central de controle perguntou se eles queriam enviar um trem de manutenção para verificar o trecho. Osvaldo disse que sim. Pediu urgência. A central disse que levaria cerca de 50 minutos para organizar a equipe. Enquanto isso, Mário ficava na plataforma esperando. A mulher com as crianças tinha ido comprar pão em uma loja próxima e tinha voltado.

As meninas comeram em silêncio. Mário levantou. Olhando para os trilhos com as mãos nos bolsos do casaco de lã cinza. O nevoeiro tinha baixado um pouco mais. Do lado da montanha, não havia som além do vento farfalhando entre as árvores e o gotejar de água de um ralo abaixo. Nenhum rugido de motor a diesel chegando, nenhum som de freio, nenhum sinal de que algo estava a caminho.

Às 9h47, uma pequena locomotiva de manutenção entrou lentamente pelo lado sul do túnel da Grota Funda, levando cinco membros da equipe técnica e dois supervisores. Estavam preparados para o que normalmente se encontrava nessas situações. Um trem parado devido a uma falha elétrica, um problema nos freios de emergência, talvez um descarrilamento parcial que tivesse bloqueado a passagem.

Eles levavam lanternas, ferramentas básicas, cabos de reboque e rádios portáteis com pilhas novas. O engenheiro-chefe da equipe era Valdir Couto Ramos, 56 anos, com 32 anos de rede ferroviária, que havia entrado na estatal em 1949 como office-boy e chegou ao cargo de engenheiro através de concurso interno.

Conhecia a Serra do Mar, conhecia o túnel da Grota Funda como a palma da mão. Tinha inspecionado aquele trecho de linha várias vezes ao longo dos anos. Sabia onde a parede gotejava mais, onde o trilho tinha uma leve torção, onde o teto era mais baixo. Entrou sem ansiedade. Era trabalho de rotina.

A locomotiva de manutenção avançou lentamente, a 10 km/h, com seus dois faróis dianteiros ligados, cortando a escuridão úmida dentro do túnel. O som do motor ecoava contra as paredes de pedra e voltava amplificado, criando uma camada densa de barulho que tornava difícil ouvir qualquer outra coisa.

E gotas de água caíam do teto e atingiam o teto da cabine com um som metálico irregular. O cheiro era de mofo, de terra encharcada e de ferro que enferrujava lentamente. Valdir permanecia na cabine, os olhos fixos à frente, analisando cada metro de linha iluminado pelos faróis. 100 m, 200 m. Os trilhos pareciam intactos à luz, limpos, sem qualquer deformação visível. 300.

A parede direita passava a 30 cm da cabine. Quatrocentos, 500. Nada. Sem sinais de frenagem de emergência, sem marcas de rodas travadas, sem pedaços de metal, sem objetos no chão. 600 m, 700. Valdir pediu ao maquinista para reduzir ainda mais. A velocidade caiu para 6 km/h, 800 m, 900 m. A equipe técnica atrás da cabine estava em silêncio absoluto. 1000 m. 1100.

Um dos técnicos abriu a janela lateral e apontou a lanterna para a parede. Pedra, musgo, infiltração, mais pedra. 1200 m, 1300. À frente, um ponto de luz branca começou a crescer, a boca norte do túnel. O outro lado, 1340 m. A locomotiva partiu para a luz do dia. O túnel estava vazio.

Não havia trem, não havia nada. Quando eles saíram para o ar livre do lado norte, o silêncio dentro da cabine era diferente do silêncio do túnel. Era o silêncio de pessoas tentando entender o que seus olhos tinham acabado de confirmar. Valdir ficou parado por cerca de 15 segundos, olhando para a boca do túnel que tinham acabado de atravessar.

Então, sem dizer nada, pediu ao maquinista para dar meia-volta. O maquinista olhou para ele com uma expressão que sugeria que queria perguntar algo, mas não perguntou. Ele deu a volta. Entraram novamente, desta vez pelo lado norte, na direção oposta. Foram os mesmos 1340 m, agora com dois técnicos nas janelas laterais apontando lanternas para as paredes, procurando qualquer coisa: uma mochila esquecida, um pedaço de metal, uma mancha de óleo, uma marca nos trilhos indicando frenagem de emergência, qualquer coisa que sugerisse que algo tivesse acontecido lá dentro.

Não encontraram nada. Quando emergiram pelo lado sul pela segunda vez, Valdir desceu da locomotiva, colocou as mãos nos bolsos e ficou parado na entrada do túnel, encarando aquela escuridão que não oferecia nada de volta. Um dos técnicos aproximou-se e perguntou o que deveriam fazer agora.

Valdir não respondeu imediatamente; apenas continuou encarando. Então disse que iam voltar para a estação e que ele ia ligar pessoalmente para Santos. A locomotiva de manutenção chegou e parou em Paranapiacaba às 11h20. Osvaldo Ferreira Lima esperava na plataforma com outros dois funcionários e um rádio na mão.

Valdir desceu e foi direto até ele. Disse em voz baixa que o túnel estava vazio, que tinham atravessado duas vezes em ambas as direções, que não havia trem, não havia destroços, nenhum sinal de acidente, não havia absolutamente nada. Osvaldo encarou-o por cerca de 5 segundos sem dizer uma palavra. Então perguntou se tinham verificado os outros túneis daquele trecho.

Valdir disse que não, que a ordem era verificar o túnel seis. Osvaldo perguntou se eles poderiam ter se confundido de túnel. Valdir olhou para ele com uma expressão que não precisava de resposta e disse que não, que era o túnel seis e que ele conhecia aquele lugar há 30 anos, que não tinha como confundir. Osvaldo entrou na sala de controle e trancou a porta.

Ficou lá dentro por 22 minutos. Quando saiu, disse que ia ligar para a diretoria em Santos e que ninguém deveria falar nada com ninguém até que houvesse uma instrução oficial. Naquela mesma tarde, a gerência regional da rede ferroviária federal convocou uma reunião de emergência em uma sala no terceiro andar do prédio administrativo na Rua do Comércio, no centro de Santos.

Uma sala sem janelas, com um ar pesado de fumaça de cigarro e papel velho. Estavam presentes o diretor regional, dois superintendentes operacionais, o chefe do departamento jurídico, mais dois advogados da estatal e um assessor do Ministério dos Transportes, que tinha chegado de São Paulo de carro naquele mesmo dia sem que ninguém explicasse o porquê da sua vinda.

A reunião durou 3 horas e 20 minutos. A ata lavrada pelo secretário às 16h20 registra os pontos discutidos em linguagem técnica e burocrática, mas algumas passagens são reveladoras, não obstante. Há uma passagem que menciona a necessidade de verificar se houve erro no sistema de registro da passagem de trens entre estações.

Outra sugestão é aguardar um relatório técnico completo antes de fazer qualquer comunicação externa. E há uma linha quase no final da ata que diz: “A hipótese de um desvio não registrado do trem 307 para um ramal secundário a ser verificado pela equipe de campo foi levantada.” Havia um problema com essa hipótese.

Não existia ramal secundário naquele trecho. A linha era simples, sem bifurcação, do túnel C ao túnel S. Não havia para onde desviar. A linha constava dessa forma nos mapas de 1926 e 1971. A decisão final da reunião foi registrar um incidente interno, enviar uma nova equipe de inspeção para todo o trecho entre os túneis 5 e 7 e aguardar 48 horas antes de contatar qualquer autoridade externa.

O relatório formal de incidente foi arquivado em uma delegacia de Santos três dias depois. Foi classificado como desaparecimento de bens móveis, não de pessoas, de bens móveis. Durante os cinco dias seguintes ao desaparecimento, a estação central de Santos tornou-se gradualmente um ponto de encontro das famílias.

Não foi organizado, não foi convocado, aconteceu naturalmente. À medida que as pessoas que tinham alguém no trem 307 começavam a entender que ninguém estava desaparecido, o desaparecimento de uma pessoa não era uma pessoa. Havia outra fonte de informação além daquela porta de madeira envernizada no centro da cidade. Chegavam cedo de manhã com crianças nos braços e sacolas nas mãos, perguntavam na bilheteria, recebiam a mesma resposta vaga e ficavam.

Esperavam, voltavam no dia seguinte, e chegavam mais. No quinto dia, havia pelo menos 50 pessoas concentradas na área da estação, algumas dormindo nos bancos da sala de espera, outras de pé na calçada lá fora com guarda-chuvas abertos contra o frio úmido da região da Baixada Santista. Não foi divulgada nenhuma lista oficial de passageiros.

A empresa ferroviária disse que estava compilando os nomes, que era um processo demorado porque muitas pessoas viajavam sem documentos. Não havia nenhum porta-voz da empresa que saísse para dar informações claras em horário fixo. Ocasionalmente, um funcionário júnior aparecia com uma folha de papel na mão, lia um comunicado curto e voltava para dentro antes que alguém tivesse tempo de perguntar qualquer coisa.

O comunicado sempre dizia a mesma coisa: que o incidente estava sendo investigado e que a empresa informaria assim que houvesse novidades. Não dizia qual era o incidente. Não dizia onde estavam os passageiros. Cleide Aparecida dos Santos tinha 28 anos em agosto de 1981. Ela morava em um apartamento de um quarto no bairro do Embaré, em Santos.

Trabalhava meio período como auxiliar de enfermagem no hospital Guilherme Álvaro. Seu marido, Jairo Augusto dos Santos, 31, trabalhava em uma gráfica na Vila Belmiro e complementava a renda fazendo pequenos serviços de encadernação em casa. Tinham um filho de 3 anos, Marcos, que ainda usava fraldas. Na sexta-feira de manhã, Jairo tinha acordado mais cedo que o normal, tomado café com Cleide, pegado a mala que ela tinha arrumado com uma troca de roupas e comida para a viagem, e saído para pegar o trem.

Ele ia a Paranapiacaba visitar sua mãe, Dona Conceição, que estava com pneumonia. Ele disse que voltaria naquela noite após o almoço. Beijou Marcos, que ainda estava dormindo. Fechou a porta. Ela ouviu seus passos descerem a escada. Depois ouviu o portão. Depois nada. Ela foi à estação na manhã de sábado com Marcos no colo e perguntou se tinha acontecido alguma coisa com ele. O trem do dia anterior.

O funcionário da bilheteria disse que não tinha informações. Ela foi no domingo. Disseram a mesma coisa. Na segunda-feira, ela pegou uma sacola com roupas, comida e fraldas para o Marcos e ficou. Ela não foi trabalhar, não voltou para casa, sentou em um banco da sala de espera com o filho no colo e esperou. Ninguém pediu para ela sair.

O banco era de madeira dura, pintado de verde, com uma tábua faltando no encosto. Cleide ficou naquele banco pelos primeiros cinco dias. Ela dormia encostada na parede com Marcos deitado no colo. Logo de manhã, uma senhora que morava perto da estação e que tinha ouvido falar do caso começou a aparecer com garrafas térmicas de café e pão com manteiga para as famílias que dormiam ali.

Cleide bebia o café sem levantar, agradecendo à mulher sem olhar para ela. Na quarta-feira, 19 de agosto, cinco dias após o desaparecimento, um funcionário administrativo da rede ferroviária saiu pela porta lateral da estação, entrou na sala de espera e leu um comunicado em voz alta. Dizia que o trem 307 sofrera um problema técnico não especificado durante a viagem e que os passageiros estavam sendo… Assistidos por equipes da empresa, os familiares foram informados de que seriam contatados individualmente assim que o processo de identificação fosse concluído. O papel não dizia onde estavam os passageiros, sua condição, ou quando voltariam para casa. Cleide levantou-se do assento e perguntou em voz alta onde estava seu marido. O funcionário disse que não podia dar informações individuais. Ela perguntou novamente.

Ele repetiu. Uma senhora mais velha do outro lado da sala começou a chorar. O funcionário dobrou o papel, colocou no bolso e saiu. Cleide ficou parada no meio da sala de espera por um tempo que ela disse depois que não conseguia calcular. Então sentou-se novamente, pegou Marcos e ficou encarando a porta por onde o funcionário tinha saído.

No dia 21 de agosto de 1981, e nos dias que se seguiram ao desaparecimento, as coisas mudaram dramaticamente. Uma equipe do exército brasileiro chegou logo cedo ao trecho da ferrovia perto do túnel da Grota Funda. Vieram em dois caminhões militares e um jipe, transportando soldados armados e um oficial que não se identificou aos poucos moradores da região que testemunharam a atividade.

Em poucas horas, toda a zona de acesso ao… Túnel foi isolada. Arame farpado foi esticado através de ambas as entradas. Dois postos de guarda de madeira foram erguidos, um em cada lado, com soldados de plantão em turnos de 8 horas. Um aviso de fechamento foi fixado em postes de luz próximos. Área restrita: entrada de civis proibida. Sem numeração de portão, sem carimbo de órgão público identificável, apenas o aviso e os soldados.

A ferrovia foi interrompida naquele trecho, sem aviso prévio às estações. Os trens que vinham de Santos foram desviados para uma linha alternativa mais ao norte, que contornava a serra por uma rota mais longa e plana, aumentando o tempo de viagem em 40 minutos. Os passageiros eram informados do desvio pelo trem a bordo, sem explicação.

Apenas dizia-se que havia um fechamento técnico no trecho. A linha alternativa era mais antiga, com trechos de trilhos gastos, e os trens rangiam mais nela. Os maquinistas que a percorreram naqueles primeiros dias após o isolamento disseram que de cima podiam ver os movimentos dos soldados na entrada do túnel de longe, mas à distância, sem detalhes. Não houve explicação.

Não houve coletiva de imprensa, nenhum comunicado do exército, nem do Ministério dos Transportes, nem de nenhum outro órgão. O único comunicado veio da rede ferroviária, publicado em letras miúdas no jornal A Tribuna de Santos, na edição de sábado, 22 de agosto. Apenas afirmava que o túnel da Grota Funda estava temporariamente fechado devido a questões de segurança estrutural e que uma equipe de engenharia estava avaliando as condições da obra.

Não mencionou o trem 307, não mencionou os 95 passageiros, não mencionou os soldados na entrada do túnel. Em outubro de 1981, dois meses após o desaparecimento, o engenheiro civil Hélio Tavares de Azevedo recebeu uma ordem de serviço da Rede Ferroviária Federal para realizar uma inspeção técnica completa no túnel da Grota Funda.

Hélio tinha 52 anos, com 30 anos de experiência na profissão. Formado pela Escola Politécnica da USP em 1952, tinha um portfólio de projetos de construção. Pontes sobre o Rio Tietê, viadutos na rodovia Anhangueira, obras de contenção de encostas na Serra da Cantareira. Ele era um homem de… Precisão e caderneta sempre à mão.

A ordem de serviço que recebeu era técnica. Solicitava uma avaliação das condições estruturais da obra: teto, paredes, base, drenagem, estado geral dos trilhos. Não havia menção ao trem desaparecido, nenhuma instrução fora da norma; era um relatório de manutenção, como tantos outros que tinha feito ao longo de sua carreira. Mas havia um detalhe.

A ordem determinava que a equipe entrasse sozinha, sem escolta militar, em uma data específica, dentro de uma janela de 8 horas, sugerindo que o acesso era restrito em todos os outros momentos. Hélio entrou em um sábado de outubro, às 8h. Com ele estavam três jovens assistentes, recém-formados, com equipamentos de topografia, trena a laser, teodolito e nível óptico, câmera analógica e cadernetas de campo.

Os soldados ainda estavam na entrada do túnel, mas afastaram-se quando o oficial viu a ordem de serviço. Entraram pelo lado sul. O interior era exatamente como as equipes anteriores haviam descrito: escuridão, umidade, cheiro de mofo e pedra velha. Mas havia uma diferença em relação às inspeções… Normais.

O silêncio era diferente. Hélio notou isso desde o início. Era um silêncio mais pesado que o habitual. Em um túnel em operação, mesmo quando nenhum trem está passando, há pequenos ruídos, gotejamento, correntes de ar, vibração residual dos trilhos. Naquele dia, dentro do túnel da Grota Funda, não havia nada. Era como se o ar tivesse parado.

Eles mediram o túnel de ponta a ponta, meticulosamente. O comprimento oficial era de 1340 m, de acordo com os planos de 1926. Mesmo a medição de Hélio não deu 1338 m, uma diferença de 2 m. Dentro da margem tolerável de erro para uma obra daquela época, quando a tecnologia de medição era menos precisa e os planos eram feitos à mão, Hélio anotou a diferença, adicionou a ressalva metodológica e passou para a próxima etapa.

Eles checaram o estado dos trilhos normais, com desgaste condizente com a idade e o uso. Checaram o teto. Havia vazamentos em seis pontos, mas nenhum com risco imediato de colapso. Checaram as paredes. A parede sul estava em bom estado geral. A área da parede norte mostrava umidade mais intensa em alguns trechos, musgo abundante e, em um ponto específico, uma fissura.

A fissura ficava no quilômetro 0,7, exatamente no ponto médio do túnel. Era vertical ali, com cerca de 2 metros de altura e cerca de 15 centímetros de largura na sua abertura máxima. A rocha estava separada, como se tivesse rachado de dentro para fora devido à pressão interna. Hélio pediu que apontassem as lanternas, aproximou-se e passou a mão pela borda da fissura.

A superfície era estranhamente lisa, não áspera como a rocha rachada costuma ser, lisa, quase polida. Tentou inserir uma trena para medir a profundidade. A trena entrou cerca de 40 centímetros antes de tocar em algo e não ir mais fundo. Hélio pediu que tirassem uma foto.

O assistente fotografou de vários ângulos com um flash manual. Hélio anotou em sua caderneta: fissura vertical, parede norte, quilômetro 0,7, aproximadamente 200 centímetros de altura, 15 centímetros de abertura máxima, superfície interna anormalmente lisa, profundidade mínima de 40 centímetros, nenhuma correspondência em relatórios anteriores consultados, mas depois ficou um momento encarando a rachadura sem falar.

Um dos assistentes perguntou se era perigoso. Hélio disse que iria analisar. Eles continuaram a inspeção até o fim do túnel. Saíram pelo lado norte, reentraram pelo lado norte e terminaram do outro lado. Quando Hélio saiu pela entrada sul ao fim do dia, sentou-se em uma rocha, tirou o capacete e ficou encarando o chão por um tempo.

O assistente mais velho perguntou se ele estava bem. Ele disse que estava cansado. Três semanas depois, o relatório que entregou à rede ferroviária afirmava que a estrutura do túnel estava em condições aceitáveis para uso, com ressalvas sobre infiltração e sobre a rachadura na parede norte, que deveria ser monitorada periodicamente. A rachadura nunca foi monitorada.

Nenhum relatório de acompanhamento foi produzido nos anos seguintes. Em março de 1983, e 1 ano e 7 meses após o desaparecimento do trem 307, o túnel da Grota Funda foi reaberto ao tráfego ferroviário. Não houve notificação prévia às estações. Não houve inspeção pública com representantes das famílias dos falecidos.

Os trens desaparecidos. Não houve cerimônia de nenhum tipo. Simplesmente, logo em uma segunda-feira de manhã, os postos de guarda foram desmantelados, os soldados foram embora, a linha foi reativada e os trens voltaram a passar pelo túnel seis, como se os últimos 19 meses nunca tivessem acontecido. A vida operacional voltou ao normal. Os horários foram ajustados.

O desvio pela linha alternativa foi descontinuado. Os passageiros que pegaram o trem naquela semana provavelmente nem sabiam que estavam passando pelo mesmo lugar onde um trem inteiro havia desaparecido menos de dois anos antes. Mas entre os maquinistas que trabalhavam naquela linha, havia um entendimento tácito que ninguém precisava formalizar.

Ninguém entrava naquele túnel sozinho. Se houvesse apenas um maquinista escalado para a viagem, alguém se voluntariava para acompanhá-lo na cabine, sem estar na escala. O rádio permanecia ligado durante toda a travessia, transmitindo uma voz constante para a estação mais próxima, mesmo que não houvesse nada a comunicar.

A velocidade era reduzida ao entrar, mesmo quando não havia instruções para reduzir, e todos entravam com a mão na alavanca de freio de emergência. Era o código daqueles que sabiam o que tinha acontecido. Ali, e não eram poucos. Valdemar Augusto Pinheiro tinha 43 anos em março de 1983.

Maquinista desde 1975, com 8 anos na linha Santos-Paranapiacaba, ele era um dos mais experientes naquele trecho. Conhecia cada curva, cada rampa, cada variação de temperatura dentro de cada um dos sete túneis. Quando o túnel da Grota Funda reabriu, Valdemar fez a primeira viagem no trecho de volta na segunda-feira de manhã.

Entrou com um assistente ao lado, rádio ligado, velocidade reduzida. Saiu do outro lado, sem dizer nada. Duas semanas depois, solicitou transferência para a linha do Vale do Ribeira. Era uma linha mais longa, com horários piores e um salário-base menor porque a categoria era diferente. O supervisor de turno estranhou e perguntou o porquê.

Valdemar disse que eram motivos pessoais. Insistiram. Perguntaram se ele tinha algum problema de saúde, se tinha algum problema familiar, se precisava de algum ajuste de escala. Ele disse que não, que era apenas uma decisão. A transferência foi aprovada sem maiores obstáculos. Valdemar trabalhou no Vale do Ribeira até sua aposentadoria em 1991. Nunca mais pisou na linha férrea da Serra do Mar.

O cunhado de Valdemar, Raimundo Ferreira Coutinho, também ferroviário, trabalhava na manutenção de via. Anos depois, em uma conversa que Raimundo contou ao seu filho adolescente, e que o filho repetiu a um jornalista de São Paulo em 2019, Valdemar tinha dito certa tarde em um churrasco de família, já com algumas cervejas na cabeça, que tinha visto algo se mover na parede do túnel na manhã em que passou por ele novamente após sua reabertura.

Disse que eram 6h da manhã, neblina lá fora, completamente escuro dentro do túnel exceto pelos faróis, que algo na parede perto do meio do túnel tinha se movido, que não sabia dizer se era uma sombra, se era o reflexo dos faróis em uma irregularidade na rocha, ou se era obra de alguém que estava privado de sono e com muito medo, mas que tinha visto, que tinha reduzido a velocidade enquanto observava, e depois acelerado de volta e não tinha parado até sair do outro lado. Valdemar morreu em novembro de 1996 de um ataque cardíaco em casa aos 56 anos. Nunca mais falou no assunto depois daquele churrasco. Ao longo da década de 1980, um grupo de 12 parentes de pessoas que desapareceram no trem 307 continuou a se reunir regularmente. No início era todo mês, depois a cada dois meses, depois a cada três meses, mas continuavam se reunindo.

O ponto de encontro era a casa de Cleide Aparecida dos Santos, no bairro do Embaré, em Santos. O apartamento era pequeno. A sala mal acomodava as 12 pessoas que vinham. Algumas ficavam em pé encostadas na parede. O filho de Cleide, Marcos, cresceu vendo aquelas reuniões. Ficava no meu quarto, mas ouvia tudo. As vozes baixas, o papel sendo aberto e fechado, o choro contido, a mesma história sendo contada e recontada sem nunca chegar a qualquer nova conclusão.

Arrecadavam dinheiro como podiam. 5 mil cruzeiros aqui, 10 mil ali durante tempos de inflação que corroíam o valor. Mesmo antes de unirem forças, contrataram o advogado Sebastião Moreira Pinto, que tinha escritório na Rua Amador Bueno em Santos, e que aceitou trabalhar pelo salário mínimo porque sentia que a história não batia e que o Estado estava escondendo alguma coisa.

Em 1983, entraram com um pedido de acesso à documentação interna da rede ferroviária referente ao incidente de 14 de agosto de 1981. Foram negados administrativamente. Recorreram, e foram negados novamente. Entraram com um mandado de segurança na justiça federal em São Paulo. O processo demorou muito.

Em 1986, foi negado em primeira instância. Recorreram ao Tribunal Regional Federal. Em 1987, o juiz federal Antônio Lúcio Marques Pimentel assinou uma liminar ordenando que a Rede Ferroviária Federal SA entregasse uma cópia completa de toda a documentação referente ao desaparecimento do trem 307 no dia 14 de agosto de 1981, incluindo atas de reunião, relatórios de incidentes internos, laudos técnicos, relatórios de inspeção e qualquer comunicação oficial ou interna que fizesse referência ao evento. A rede ferroviária cumpriu a ordem judicial três meses depois de ser notificada. Enviou uma caixa de papelão marrom, lacrada com fita amarela, com o nome do advogado escrito à mão com caneta hidrográfica. Sebastião abriu a caixa em seu escritório com Cleide e mais três familiares presentes. Dentro havia 43 páginas numeradas, das quais metade, 21 páginas, estavam censuradas com tinta preta grossa, aplicada em camadas, do tipo que torna impossível ler qualquer coisa por baixo, mesmo contra a luz ou com scanner.

O texto, a numeração interna dos documentos, as datas em alguns casos e os nomes dos signatários estavam censurados. Em certas páginas, a tinta preta cobria linhas e parágrafos inteiros, deixando visível apenas o cabeçalho com o timbre da estatal e as siglas do departamento. A outra metade das páginas era documentação operacional de rotina: um memorando sobre manutenção de via, planilhas de gastos com combustível, escalas de funcionários de agosto e setembro de 1981, e um relatório sobre troca de dormentes no trecho entre as estações Campo Grande e Paranapiacaba. Nenhuma página fazia referência direta ao trem 307. Nenhuma página mencionava os 95 passageiros. Nenhuma página respondia a nenhuma das perguntas que o grupo de familiares passara seis anos fazendo. Sebastião recorreu, solicitando que as páginas censuradas fossem devolvidas sem censura.

O recurso foi negado sob a alegação de que o conteúdo censurado estava protegido por questões de segurança nacional, conforme a legislação em vigor à época em que os documentos foram criados. Outro recurso, outra negativa. Em 1990, o caso foi encerrado por falta de novas provas e pelo esgotamento das vias legais disponíveis. Sebastião devolveu os documentos a Cleide em uma nova caixa de papelão.

Disse que tinha feito tudo o que estava ao seu alcance. Ela agradeceu. Ele foi embora. Cleide levou a caixa para casa e colocou debaixo da cama, do lado onde Jairo costumava dormir. Permaneceu lá por 29 anos até 2019. Naquele mesmo ano, a rede ferroviária federal já estava extinta há mais de duas décadas. A ferrovia da Serra do Mar tinha passado por diversas concessões e mudado de mãos mais de uma vez. O trem de passageiros na linha Santos-Paranapiacaba continuou operando, agora sob outra gestão, com trens mais novos e horários reduzidos. O túnel da Grota Funda continuou sendo usado normalmente, como vinha sendo desde sua reabertura em 1983. Passaram-se 38 anos. A maioria das pessoas que sabia o que tinha acontecido em agosto de 1981 ou estava morta ou tinha mais de 70 anos.

O caso nunca tinha sido reaberto oficialmente, nunca tinha sido retomado por nenhuma comissão de investigação, nem mesmo após a volta da democracia, nem após a Lei de Acesso à Informação de 2011, que em teoria permitia o pedido de documentos que antes estavam protegidos pelo segredo de segurança nacional.

Cleide tinha tentado em 2013 fazer um novo pedido de acesso com base na nova lei. Recebeu a resposta de que os documentos referentes ao evento de agosto de 1981 tinham sido destruídos como parte de um processo de deterioração de inventário em 1998, de acordo com o protocolo de descarte de arquivos que estavam armazenados há mais de 15 anos. Ela guardou a resposta junto com o resto da caixa debaixo da cama.

Em junho de 2019, um cinegrafista de 32 anos chamado Rafael Ortiz Mendonça, morador de São Bernardo do Campo, decidiu filmar o interior do túnel da Grota Funda. Rafael trabalhava com filmagem de eventos desde os 20 anos, incluindo casamentos, formaturas, festas de 15 anos e confraternizações de empresas.

Nas horas vagas, produzia vídeos para um canal no YouTube chamado Brasil Esquecido, onde documentava lugares abandonados, histórias obscuras e casos que tinham desaparecido da memória pública. O canal tinha cerca de 40 mil inscritos e crescia lentamente, sem um algoritmo favorável, sem patrocínio e sem uma grande infraestrutura.

Era ele, um drone, uma câmera de mão e um microfone de lapela gravando comentários enquanto caminhava. Tinha ouvido a história do trem 307 em um episódio do podcast “Casos Arquivados”, produzido por um jornalista de Campinas, e vinha pensando nela há semanas. Não era a primeira história de desaparecimento que cobria, mas era a primeira envolvendo um trem inteiro e um túnel que ainda estava em operação.

Foi em uma tarde de sábado de junho, saindo de São Bernardo às 10h pela via Anchieta, descendo para Santos e pegando a antiga estrada de Anchieta que subia a serra, onde encontrou a estrada de terra que dava acesso ao lado sul do túnel, por uma trilha que não constava em nenhum mapa digital.

Chegou à Boca Sul às 15h20. O sol estava forte lá fora, mas a sombra da rocha tornava a entrada do túnel instantaneamente escura. A linha ainda estava operacional. Rafael tinha verificado o horário do trem antes de sair de casa. O próximo era às 18h10. Tinha tempo. Montou o drone ali fora, na beira dos trilhos.

Era um DJI Mavic Air 2 compacto com câmera 4K e dois holofotes de LED de alta potência que ele tinha adaptado manualmente para filmagens internas. Calibrou os sensores, ajustou a câmera para o modo noturno e ligou os faróis. O drone subiu cerca de 2 metros de altura e entrou no túnel. Rafael ficou lá fora, monitorando-me pelo celular, assistindo à imagem ao vivo na tela com fones de ouvido.

Os primeiros 680 metros foram exatamente o que ele esperava encontrar. As paredes de pedra apareciam cobertas por um musgo escuro, e a água escorria em pequenos filetes pela rocha. O teto baixo e irregular refletia os faróis de uma maneira que criava sombras em movimento. Mas era apenas o ângulo da luz. Lá embaixo, os trilhos eram duas linhas de aço paralelas que desapareciam no fundo escuro.

Gotas de água caíam no piso de pedra com um som regular. O eco do motor do drone preenchia o espaço e voltava ligeiramente distorcido. Rafael comentava em voz baixa no microfone de lapela, descrevendo o que via. Rochas, musgo, água, escuridão, nada fora do comum. Aos 700 m, o drone estava na região central do túnel e Rafael prestava atenção no teto, que parecia ter uma pequena rachadura que queria fotografar.

Nesse momento, o enquadramento da câmera passou pela parede esquerda, a parede norte, e Rafael viu algo que o fez apertar o botão de pausa do drone. A imagem permaneceu estática. Ele deu zoom no celular. Na parede esquerda, a cerca de um metro do chão, havia algo. Rafael encarou a tela por cerca de 10 segundos, tentando entender o que estava vendo.

Então deu zoom ainda mais. E então ficou claro, era uma mão, o contorno perfeito de uma mão humana adulta, com cinco dedos abertos, impressa na pedra, como se alguém tivesse pressionado a palma contra a rocha úmida e a forma tivesse permanecido gravada ali. Mas não era uma marca de sujeira ou tinta, era a própria superfície da pedra que estava moldada naquela forma, né? Como se a rocha tivesse estado mole no momento em que a mão foi colocada nela e depois tivesse endurecido.

Rafael gravou aquele ponto por 48 segundos. Ele mudou o ângulo do drone três vezes para capturar a imagem de diferentes perspectivas. No zoom máximo, a resolução era suficiente para ver as linhas da palma dentro da impressão, para ver o contorno de cada dedo, para ver a impressão do polegar ligeiramente separada dos outros. Era uma mão direita.

Rafael moveu lentamente o drone de volta, retirou-o do túnel, desligou-o e sentou na beira dos trilhos por cerca de 15 minutos antes de voltar para seu carro. Em casa, transferiu o vídeo para o computador e assistiu novamente no monitor maior. Depois assistiu uma segunda vez, pausando quadro a quadro na parte da mão.

Então sentou na cadeira de frente para a tela e ficou sem fazer nada por um tempo. Era sábado à noite. Ele editou o vídeo durante a madrugada, adicionou legendas com os dados históricos que tinha pesquisado sobre o trem 307. Adicionou uma narração de tom grave e publicou no YouTube na manhã de domingo às 9h15. Em 3 dias o vídeo teve 700 mil visualizações.

Em uma semana, 2 milhões e 200 mil. Os comentários somaram mais de 40 mil. Jornalistas de São Paulo e Rio de Janeiro entraram em contato. Uma emissora de televisão enviou uma equipe para refazer a filmagem do túnel. Um geólogo da Unicamp deu entrevista dizendo que a formação era impossível de criar. Uma organização que representa famílias de desaparecidos contatou Cleide Aparecida dos Santos para contar o que tinha aparecido na internet.

Foi a filha de Cleide, Gabriela, agora com 38 anos, que mostrou o vídeo para a mãe. Cleide ficou duas vezes em silêncio sentada na cozinha do apartamento no Embaré, segurando a tela do celular da filha na mão. Depois colocou o celular sobre a mesa. Ficou encarando a janela da cozinha por um tempo. A rua lá embaixo tinha o barulho habitual de uma tarde de domingo em Santos.

Crianças, uma moto passando, um rádio ao longe. Então Cleide abaixou, puxou a caixa de papelão debaixo da cama e sentou na beira do colchão segurando-a no colo. Aquelas 43 páginas, metade cobertas de tinta preta, representavam 29 anos de espera, 29 anos de reuniões na sala pequena onde os recursos eram negados.

De um advogado que fez o que podia, de um marido que tinha saído para visitar a mãe doente em uma sexta-feira de agosto e nunca mais voltou. E agora havia uma imagem de uma mão dentro de uma pedra, capturada por um menino que não era nascido quando o trem desapareceu. Cleide ficou assim com a caixa no colo por um tempo, um tempo que Gabriela, que estava à porta do quarto, disse que não conseguia calcular.

Então a mãe disse em voz baixa que queria que alguém desse uma boa olhada naquilo, que alguém tinha lhe dito, que alguém deveria entrar lá de verdade e não sair sem uma resposta. Gabriela disse que tentaria. Cleide disse obrigado e segurou a caixa no colo. A marca na rocha foi analisada por três especialistas diferentes entre julho e dezembro de 2019.

Um geólogo da Unicamp, o professor Marcelo Henrique Vaz, disse em nota técnica que a formação não correspondia a nenhum processo geológico identificável. A rocha naquela área era granito, um dos mais duros da crosta terrestre, e sua formação é estimada em 320 milhões de anos. Não existe processo natural conhecido capaz de imprimir a forma de uma palma humana no granito sem ferramentas, calor extremo e pressão equivalente a toneladas por centímetro quadrado.

Uma segunda análise, conduzida por um perito aposentado da Polícia Federal chamado João Batista Correia de Menezes, descartou a possibilidade da marca ter sido fabricada usando meios químicos ou mecânicos comuns. Disse que para criar uma impressão com aquela profundidade e definição, seria necessário equipamento industrial, que não poderia ser levado para dentro de um túnel ferroviário em operação sem deixar marcas no piso ou nos trilhos.

Uma terceira análise, conduzida por um pesquisador independente que pediu anonimato, sugeriu que a marca poderia anteceder o desaparecimento em 1981 e poderia ter sido feita durante a construção do túnel entre 1921 e 1924, quando algum operário poderia ter colocado a mão em uma mistura de cimento ainda fresca que depois foi coberta por rocha natural.

Mas essa hipótese não explicava por que a superfície da impressão era granito puro, sem nenhum vestígio de cimento ou argamassa. E porque a profundidade da marca era uniforme em toda a palma, algo impossível com uma impressão em material moldável. Em janeiro de 2020, um deputado estadual de São Paulo entrou com um requerimento na Assembleia Legislativa, pedindo à Secretaria de Segurança Pública que reabrisse as investigações sobre o desaparecimento do trem 307.

O requerimento foi protocolado, recebeu número, foi encaminhado para a comissão pertinente e nunca mais foi pautado. Em março de 2020, o Brasil entrou em pandemia, e o assunto foi ofuscado pela magnitude do que se seguiu. O vídeo de Rafael permaneceu no YouTube. Continua lá. O túnel da Grota Funda continua em operação.

Os trens continuam passando. A marca permanece na parede, no número 707, lado esquerdo, a uma altura de [informação ausente – provavelmente um metro], exatamente onde a câmera de Rafael a encontrou em junho de 2019. Ninguém colocou cerca, ninguém instalou câmera de vigilância, e ninguém da atual administração ferroviária respondeu a nenhum dos pedidos de entrevista feitos por jornalistas e pesquisadores desde então.

A resposta padrão, quando há, é que a empresa não possui documentação sobre eventos anteriores à atual concessão e que qualquer investigação histórica deve ser dirigida aos arquivos do Ministério da Infraestrutura. Os arquivos do Ministério da Infraestrutura não contêm nenhuma documentação referente ao evento de agosto de 1981 relacionado ao túnel da Grota Funda.

Confirmaram isso por escrito a um jornalista do estado de São Paulo em outubro de 2019. Disseram que a documentação não pôde ser localizada. Cleide Aparecida dos Santos tem 70 anos hoje. Mora no mesmo apartamento no bairro do Embaré, em Santos, onde morava quando Jairo saiu para pegar o trem naquela sexta-feira de agosto de 1981.

O apartamento tem dois quartos. O maior quarto é o dela. O menor quarto pertencia a Marcos, que cresceu, casou-se e foi morar em São Vicente. Marcos tem 42 anos e tem uma filha de 12 anos. A caixa de papelão não está mais debaixo da cama; está em uma prateleira no armário do corredor entre caixas de sapatos e cobertores guardados em sacos plásticos.

Cleide a abriu mais duas vezes depois de 2019. Desta vez para mostrá-la a um jornalista. Uma vez, sem motivo, tarde da noite, sozinha. José Reinaldo de Almeida tinha 41 anos quando entrou no túnel da Grota Funda pela última vez. Neusa, a esposa, esperou por 5 anos antes de aceitar a presunção de morte para fins legais.

Em 1986, os três filhos cresceram. Reinaldinho tem 58 anos hoje e trabalha na construção civil em Cubatão. Celinha tem 55 e mora na Praia Grande. Paulinho tem 48 e é o único que ainda mora em Cubatão, no bairro de seu pai. A casa com quintal, cachorro e horta de couve não existe mais.

Onde costumava ser, existe agora um condomínio de quatro andares construído na década de 1990. Neusa morreu em 2014 de câncer aos 72 anos. Nunca soube o que tinha acontecido com seu marido. Nunca soube se ele tinha sofrido e se tinha tido tempo de entender, se tinha tentado sair, se tinha visto alguma coisa antes de desaparecer. Ninguém sabe disso. Até hoje.

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