
Em 14 de setembro de 1991, numa terça-feira de manhã, 28 homens desceram o poço central da mina do Bonfim, a 6 km de Crixás, no noroeste de Goiás. Era o turno das 6 da manhã. O encarregado de superfície, um homem chamado Benedito Araújo, fez a chamada em voz alta, como sempre fazia, anotou os nomes num caderno de capa preta e assistiu a gaiola descer com o primeiro grupo. A mina estava operando normalmente. O ar estava seco, como costumava estar naquele mês. O céu sobre o cerrado ainda tinha aquela corde antes do sol subir completamente. Nenhum dos 28 voltou. Não houve explosão registrada, não houve sinal de incêndio, não houve cheiro de gás na saída do poço, não houve grito. Não houve nenhuma vibração sentida pelos trabalhadores que ficaram na superfície. O que houve foi silêncio. Um silêncio que durou horas antes de alguém entender o que estava acontecendo. E quando entenderam, já era tarde para entrar. A galeria principal havia cedido, não toda de uma vez, de forma progressiva, como um tecido que vai se rasgando por dentro sem que ninguém veja de fora. Quando as equipes de resgate chegaram, primeiro os próprios trabalhadores da mina, depois o Corpo de Bombeiros de Goiânia, que levou mais de um dia para chegar até Crixáas, o acesso estava completamente bloqueado.
A terra havia fechado sobre si mesma como se nunca tivesse sido tocada.
A empresa responsável pela mina se chamava Mineração Bonfim Eletedda. Tinha sede em Goiânia e operava a Jazida desde 1974.
A maioria dos 28 mineiros era de Crixás, de Mozarlândia e de municípios pequenos do entorno. Homens entre 22 e 56 anos, casados a maior parte, com filhos, com roças, com dívidas miúdas e planos modestos. Homens que acordavam antes do sol porque era o único jeito de sustentar o que tinham. Nenhum corpo foi recuperado. O processo administrativo foi aberto e arquivado duas vezes. A empresa alegou força maior, pagou indenizações parciais a algumas famílias e encerrou as operações da mina em 19300.
O terreno foi cercado com arame farpado.
A documentação técnica do acidente nunca foi tornada pública na íntegra. Por décadas, o lugar ficou assim, fechado, quieto, marcado apenas por uma placa de metal enferrujada que ninguém mais ia ler. Em 2003, 32 anos depois, moradores de Crixás começaram a notar algo no terreno. A terra sobre o poço principal havia afundado. E numa manhã de março daquele ano, sem nenhuma chuva recente, sem nenhum tremor registrado, sem nenhuma atividade humana nas proximidades, a entrada lateral da mina se abriu sozinha. O que os bombeiros encontraram quando desceram não foi o que esperavam encontrar. E o que a Polícia Civil de Goiás registrou naquele boletim de ocorrência de 203, ainda não tem uma explicação técnica definitiva aceita por todas as partes. O que aconteceu com 28 homens que desceram uma mina e não subiram mais? Porque a empresa encerrou as buscas em menos de 72 horas? O que estava escrito na documentação técnica que nunca foi divulgada e o que a mina guardou durante 32 anos antes de se abrir. Há algo nessa história que vai além do acidente.
Qualquer pessoa que viva no noroeste de Goiás e tenha mais de 50 anos conhece o nome da mina do bom fim. Não porque aprendeu na escola, porque ouviu em casa, em voz baixa, numa conversa que os adultos interrompiam quando as crianças se aproximavam. Era desse jeito que as histórias circulavam naquele tempo, naquele interior de Goiás, onde as estradas de terra vermelha ligavam municípios que o governo federal mal sabia que existiam. Não havia jornal local com tiragem suficiente para chegar em todas as casas. Não havia rádio com sinal estável nas horas certas. O que havia era a boca de um vizinho, a mesa do almoço de domingo, a fila da feira e o silêncio pesado de quem sabe alguma coisa. e decide não falar, porque falar não vai mudar nada. 28 homens, 28 famílias que não tiveram velório, 28 nomes que não entraram em nenhum registro oficial de desaparecidos, porque tecnicamente o Estado considerou que eram mortos. Mortos sem corpo, mortos sem laudo, mortos por presunção, numa certidão emitida meses depois do acidente por um juiz que nunca foi até Crixás. Mas há um detalhe que as famílias sabiam e que os documentos não registraram. Três dias depois do colapso, quando os bombeiros já haviam declarado inviável o acesso à galeria, um trabalhador de superfície chamado Geraldo Muniz afirmou ter ouvido batidas vindas do subsolo, batidas ritmadas, como se alguém estivesse sinalizando. O relato de Geraldo foi anotado num papel avulso e nunca incorporado ao processo oficial. Geraldo morreu em 1989, mas a filha dele, dona Eonice Muniz, ainda mora em Crixas e ela guarda esse papel. E quando a mina se abriu em 2003, a primeira pessoa que a prefeitura chamou não foi um geólogo, foi ela. Você ficou aqui porque sabe que essa história não termina onde parece terminar. Na manhã em que 28 homens desceram pela última vez, a rotina da mina do Bom Fim seguiu exatamente o mesmo ritual de sempre. Benedito Araújo chegou às 5:40.
Como todos os dias, acendeu o lampião de querosene no barracão de superfície, pendurou o prendedor de roupa no prego que usava para segurar o caderno aberto na página certa e esperou. Era assim que ele fazia. Era assim que havia feito desde que assumiu o posto de encarregado, 3 anos antes, quando o homem que ocupava a função antes dele pediu as contas sem dar explicação. O barracão de superfície era uma construção baixa, de bloco sem reboco, com telhado de zinco que esquentava rápido assim que o sol subia. Tinha uma mesa de madeira bruta encostada na parede do fundo, dois bancos compridos de cada lado e um quadro de aviso onde ficavam penduradas as escalas de turno.
O chão era de terra batida. No canto direito havia um balde com água e um caneco de alumínio amassado que todo mundo usava. Não havia banheiro dentro do barracão. O banheiro ficava do lado de fora a uns 15 m, construído de taboilona. Os homens chegaram em grupos de dois ou três, alguns a pé pela estrada de terra vermelha que ligava a mina ao perímetro urbano de Crixáas.
Outros descendo dos caminhões de carroceria que faziam o translado dos bairros mais afastados. O pó vermelho subia com cada passagem de veículo e demorava para assentar. Naquele mês de setembro, a seca do sererrado já tinha secado o capim dos dois lados da estrada, deixando tudo com aquela cor de palha queimada que quem conhece o Centro-Oeste reconhece de longe. Os homens chegavam, assinavam o caderno ou deixavam a impressão do polegar, como era o caso dos que não sabiam escrever, pegavam o equipamento do dia no armário de ferro, lampião, capacete, luvas de raspa, e esperavam a gaiola. A gaiola era o elevador da mina, uma estrutura metálica com grade de proteção lateral que cabia oito homens por vez, operada por um sistema de cabo e contrapeso instalado em 1966 pela própria empresa. O cabo havia sido trocado pela última vez em 1969.
Ninguém falou sobre o estado da galeria naquela manhã. Ninguém mencionou o som diferente que o terreno às vezes fazia nas semanas anteriores. Um som baixo e contínuo que alguns descreviam como um gemido e outros diziam ser só o vento passando pelos dutos de ventilação.
Ninguém falou sobre nada fora do comum.
Benedito Araújo anotou os nomes, conferiu os equipamentos e acionou a descida do primeiro grupo às 6:4.
A gaiola desceu carregando oito homens, subiu vazia. Desceu com mais oito, subiu vazia novamente. Na terceira de cida, foram os últimos 12, Benedito fechou o caderno, guardou o lápis no bolso da camisa e foi buscar café no cantinho que a mulher preparava todas as noites e deixava embrulhado num pano de prato.
Era terça-feira. O próximo turno subiria ao meio-dia. Dos 28 homens que desceram naquele turno, 16 eram de Crixáas, quatro eram de Mozarlândia, município a 65 km ao sul, de onde vinham de segunda a sexta-feira no caminhão fretado pela empresa. Voltando só no fim de semana, três tinham vindo de Goiás, de Minas, do outro lado da divisa com Minas Gerais.
Homens que haviam chegado a Crixá seguindo o rastro de quem disse que a mina estava contratando. Os demais eram de municípios tão pequenos que alguns já nem existem com o mesmo nome hoje. O mais novo tinha 22 anos e chamava-se Dirceu Pereira Luz. Tinha nascido em Crixáas, filho de um pequeno agricultor que plantava mandioca e milho numa chácara às margens do ribeirão das almas. Dirceu havia entrado na mina oito meses antes, quando o pai passou mal com a coluna e precisou parar de trabalhar.
Era o filho mais velho. Tinha dois irmãos menores. Tinha se casado trs meses antes, em junho, com uma moça chamada Benedita, filha de um comerciante da cidade. A festa de casamento tinha sido simples, com bolo de caixinha e refrigerante servido em copos de plástico no quintal da Casa da Sodra. Benedita estava grávida de dois meses quando o marido desceu pela última vez. O mais velho tinha 56 anos e chamava-se Augusto Ferreira do Nascimento. Mas todo mundo na mina chamava de seu Toinho. Era da cidade há muitos anos. havia trabalhado na extração de caciterita, no Pará antes de descer para Goiás e tinha nos braços e no rosto as marcas de quem passou a vida inteira dentro do chão. Seu Toinho tinha seis filhos, todos criados em Crixás, e uma mulher chamada Conceição, que vendia quitanda na beira da rodovia aos fins de semana para completar o orçamento. Ele era um dos mais experientes da equipe.
Os mais novos pediam conselho a ele quando o terreno fazia algum barulho diferente. Seu Toinho ouvia, batia o pé no chão, olhava para cima e dizia o que achava. Na maioria das vezes acertava.
Entre os 28 havia um pai e um filho.
Chamavam-se Evaristo Borges Cardoso e Newton Borges Cardoso. Evaristo tinha 43 anos. Newton tinha 18. Newton havia começado na mina dois meses antes, indicado pelo próprio pai, que achou melhor ter o filho por perto do que deixá-lo a deriva na cidade. A mãe, dona Aparecida, havia reclamado da decisão.
Disse que não gostava, que aquele trabalho era perigoso, que o menino era novo demais. Evaristo respondeu que todo o trabalho tem risco e que era melhor o risco com o pai do lado do que sem ninguém. Dona Aparecida não aceitou o argumento, mas não teve como mudar a decisão. Nos anos que se seguiram, ela nunca falou sobre isso publicamente, mas as vizinhas disseram que ela guardou os dois aventais de trabalho do marido e do filho dentro do guarda-roupa e nunca os lavou. Havia também um homem chamado Venceslau Teixeira Mota, 31 anos, que havia chegado a Crixás seis semanas antes vindo do Maranhão. Venceslau não tinha família no Goiás. Havia mandado uma carta para a mãe dizendo que estava bem e que em breve ia mandar dinheiro. A carta foi enviada em agosto. A mãe respondeu em outubro, quando a notícia do acidente ainda não havia chegado ao Maranhão de forma oficial. A resposta dela nunca foi entregue. O primeiro sinal de que algo havia acontecido foi a ausência de sinal. Às 9 da manhã, Benedito Araújo acionou o cabo de comunicação instalado ao longo do poço principal. Um sistema simples de fio de cobre com campainha nos dois extremos, usado para coordenar a operação entre a superfície e os trabalhadores no subsolo. Acionou e não recebeu resposta.
Esperou 10 minutos. acionou novamente.
Nada. A gaiola havia subido automaticamente, como programada para fazer no intervalo das 9 horas, mas subiu vazia. Benedito ficou olhando para ela por um momento. Depois chamou o contramestre, um homem chamado Fábio Rodriguez Leal, que trabalhava na mina há 5 anos e conhecia o equipamento melhor do que ninguém. Fábio olhou para a gaiola, olhou pro cabo de comunicação, testou o sistema. duas vezes e chamou o engenheiro de plantão. O engenheiro se chamava Cláudio Menezes, tinha 38 anos, formado pela escola de Minas de Ouro Preto, contratado pela Mineração Bonfim do anos antes. Ele olhou para o poço, olhou pro relógio e disse que provavelmente era falha no cabo de comunicação, que era comum, que já havia acontecido antes e que normalmente se resolvia sozinho quando alguém lá embaixo mexia no conector. Disse que iam esperar mais 30 minutos antes de tomar qualquer providência. Benedito não disse nada. Fábio também não. Os dois voltaram para suas posições e esperaram. Os 30 minutos passaram, o cabo continuou mudo.
A gaiola continuou descendo e subindo vazia, como se lá embaixo não houvesse ninguém para chamá-la. Foi Fábio quem disse, em voz baixa, que alguma coisa estava errada. Não como suposição, como certeza. Cláudio Menezes tomou a decisão de descer com um auxiliar para verificar. Equiparam-se, entraram na gaiola e acionaram a descida. A gaiola desceu 12 m. e parou. Não porque alguém a parou, porque havia terra no caminho.
A galeria havia cedido a 12 m de profundidade, bloqueando o acesso ao nível onde os 28 homens estavam trabalhando. O bloqueio era total. Não havia passagem, não havia fresta, não havia nada além de terra compactada e rocha deslocada que preenchia o túnel de cima a baixo. Cláudio e o auxiliar subiram. Cláudio ficou parado por um momento na beira do poço, olhando para baixo antes de virar para Fábio e dizer para chamar o Corpo de Bombeiros. Era 10:20 da manhã. Você conseguiria continuar sua rotina sabendo que 28 pessoas estão soterradas a poucos metros de onde você está parado e que não há nada que você possa fazer com as próprias mãos. Essa foi a situação em que Benedito Araújo, Fábio Rodrigues Leal e os demais trabalhadores de superfície da mina do bom fim se encontraram naquela manhã de setembro. Homens que conheciam os nomes de cada um dos que haviam descido, que haviam tomado café ao lado deles horas antes, que sabiam quem tinha filho novo e quem estava juntando dinheiro para reformar a casa. O Corpo de Bombeiros de Goiânia foi acionado às 11 da manhã. A distância entre Goiânia e Crixás pela rodovia BR008 é de aproximadamente 300 km. Em 1971, a estrada não tinha o traçado que tem hoje. Parte do percurso era de terra batida, transitável com dificuldade em certas épocas do ano. A equipe de bombeiros chegou à mina na tarde do dia seguinte, 15 de setembro, depois de mais de 24 horas de viagem. Nesse intervalo, os trabalhadores de superfície tentaram o que puderam. Tentaram abrir acesso pelo duto de ventilação lateral, mas o duto estava parcialmente colapsado, também com apenas o trecho mais externo preservado. Tentaram fazer barulho na boca do poço para que alguém lá embaixo respondesse. Tentaram usar o cabo de comunicação de outros ângulos, não obtiveram nenhum retorno. Quando a notícia chegou em CXzas, chegou da forma como as notícias ruins sempre chegam nas cidades pequenas. Primeiro como rumor, depois como certeza que ninguém quer confirmar. Não havia telefone em todas as casas. A maioria das famílias dos mineiros ficou sabendo pelo vizinho, pelo comerciante da esquina, pelo filho que correu da escola com a notícia que ouviu de alguém que ouviu de alguém. Uma mulher chamada Irac Souza, esposa do mineiro Valdomiro Souza, foi a primeira a chegar na frente do portão da mineração Bonfim. chegou às 2as da tarde com a filha mais nova no colo. A menina tinha 18 meses e os outros dois filhos agarrados à sua saia. Irá se tinha 32 anos. Havia acordado naquela manhã sem nenhum pressentimento especial, dado café para os filhos, mandado os dois mais velhos para a escola e ficado em casa lavando roupa enquanto a caçula dormia. Quando a vizinha bateu na janela e disse que alguma coisa tinha acontecido na mina, irá perguntou o que era. A vizinha não soube dizer direito.
Disse que tinham falado que tinha desabado, que os homens estavam presos.
Iraci largou a roupa na bacia, pegou a filha e foi. O vigia do portão disse que não sabia de nada. Ela ficou ali. Outras mulheres foram chegando ao longo da tarde. Esposas, mães e irmãs, algumas com crianças, outras sozinhas. Foram chegando e ficando, encostadas no muro de bloco da empresa e embaixo do sol, que no noroeste de Goiás, em setembro, não tem clemência nenhuma. Ninguém trouxe água. Ninguém da empresa saiu para falar com elas. Às 4 da tarde, o engenheiro Cláudio Menezes apareceu no portão, disse que havia ocorrido um colapso na galeria. Disse que a empresa estava tomando as providências necessárias. Disse que em breve haveria mais informações. Falou com a voz firme e sem pausas, como quem está repetindo um texto que ensaiou. Depois voltou para dentro. Irá perguntou ao vigia se ela podia entrar. O vigia disse que não. Ela ficou ali até às 8 da noite quando os filhos começaram a chorar de fome e ela não teve mais como ficar. Voltou para casa, fez mingal de fubá com o que tinha na dispensa, beitou os filhos e passou a noite sentada na cadeira da sala com a porta entreaberta, esperando que alguém batesse para trazer notícia. Ninguém bateu. O que você faria se o marido, o pai, o filho não voltasse do trabalho e ninguém conseguisse te dizer o que aconteceu? Não com clareza, não com honestidade. Ira Souza fez o que a maioria das mulheres naquela situação faz. Continuou. Acordou no dia seguinte, deu café para os filhos, voltou para a porta da mina e esperou de novo. Fez isso por quatro dias seguidos. O engenheiro chefe da mineração Bonfim, um homem chamado Renato Calisto Drumond, chegou a Crixas na tarde do dia 15, vindo de Goiânia, no mesmo dia em que chegou o corpo de bombeiros. Renato tinha 52 anos, cabelos grisalhos, roupa de linho bege e a postura de quem está acostumado a resolver problemas em salas fechadas. Não foi falar com as famílias ao chegar, foi direto para os escritórios da mina. passou a noite ali com dois técnicos que havia trazido de Goiânia e com o contador da empresa. O que foi discutido naquela reunião não foi registrado em nenhum documento que tenha se tornado público. O que se sabe é o que foi anunciado na manhã seguinte.
Na manhã do dia 16 de setembro, Renato Calisto Drumund convocou uma reunião no escritório da mina com o comandante do Corpo de Bombeiros e com o delegado de polícia que havia chegado a Crixas no dia anterior. O delegado se chamava Antônio Borba Neto e era lotado na delegacia de Goiás de Minas, a 40 km de Crixás por estrada de terra. Era o delegado mais próximo disponível. A reunião durou aproximadamente 2 horas.
Às 10 da manhã, Renato saiu do escritório e foi ao portão onde as famílias aguardavam. Desta vez, foi ele mesmo falar. disse que as análises técnicas realizadas durante a noite haviam concluído que o colapso havia comprometido toda a estrutura da galeria principal, que qualquer tentativa de reabrir o acesso ao poço representaria risco imediato de um segundo colapso de proporções maiores, colocando em perigo as equipes de resgate. Que a decisão técnica tomada em conjunto com o Corpo de Bombeiros era de encerrar as operações de resgate. Disse isso e parou. Uma das mulheres presentes perguntou se havia alguma chance de que os homens ainda estivessem vivos. Renato disse que, com base nas condições estruturais observadas, não havia condições de sobrevivência na galeria comprometida. disse isso com a mesma voz firme e sem pausas de dois dias antes.
As buscas foram oficialmente encerradas naquela manhã, 72 horas depois do colapso. Dona Iras Souza disse mais tarde, em conversa com a filha que já era adulta, que quando ouviu aquilo não chorou, não porque não quisesse, porque não conseguiu. disse que foi como se o corpo tivesse parado de funcionar por um momento, que ela ficou olhando pro homem de linho bege, sem conseguir mover nenhum músculo, que só voltou a se mover quando a filha mais nova começou a chorar no colo dela. A tarde do dia 17 de setembro, quando os bombeiros já estavam desmontando o acampamento de resgate e carregando equipamento nos caminhões para a viagem de volta, a Goiânia, um trabalhador de superfície chamado Geraldo Muniz, procurou Benedito Araújo no barracão e disse que precisava falar com ele. Geraldo tinha 41 anos, era natural de Cris, trabalhava na mina há 6 anos como operador do sistema de ventilação. Era um homem quieto, do tipo que cumpria o seu e não se metia em conversa, que não era com ele. Benedito o conhecia bem o suficiente para saber que quando Geraldo dizia que precisava falar, era porque tinha algo concreto para dizer. Geraldo disse que havia ouvido algo. Não gritou, não correu.
Disse com calma, do jeito de quem sabe que vai ser difícil se fazer ouvir, mas que vai dizer do mesmo jeito, porque é a coisa certa a fazer. disse que estava perto da saída do duto de ventilação lateral a uns 30 m do poço principal, na tarde do dia 15, enquanto os bombeiros trabalhavam no acesso, estava verificando o estado da tubulação externa quando ouviu batidas vindas debaixo da terra, batidas repetidas com um intervalo regular. Não era o barulho da terra sentando. Esse barulho ele conhecia. Era um som contínuo e surdo.
Era diferente. Era pausa, era ritmo.
Geraldo disse que ficou quieto e ouviu durante uns 2 minutos. Contou as batidas. Três seguidas pausa. Três seguidas pausa. Repetindo, Benedito o levou até o engenheiro Cláudio Menezes.
Cláudio ouviu o relato. Perguntou em que parte exata do duto Geraldo estava.
Quando ouviu, perguntou a que horas tinha sido, perguntou se havia alguém mais presente naquele momento. Geraldo disse que estava sozinho. Cláudio anotou o relato num papel avulso, agradeceu e disse que ia repassar pro comandante dos bombeiros. O relato não foi incorporado ao relatório técnico do Corpo de Bombeiros, não aparece no boletim de ocorrência registrado na delegacia de Goiás de Minas. Não consta em nenhum documento da mineração Bonfim que tenha sido acessado posteriormente. O papel avulso em que Cláudio Menezes anotou o relato de Geraldo nunca foi localizado nos arquivos da empresa. O que Geraldo fez foi o seguinte: Voltou para casa naquela noite, sentou à mesa da cozinha e escreveu o que havia visto e ouvido num pedaço de papel de carta. Descreveu o local, o horário, o padrão das batidas. assinou com o nome completo, guardou o papel dentro de um envelope e entregou paraa mulher, dizendo para ela guardar, porque podia ser importante. A mulher guardou. Quando Geraldo morreu em 1989 de problema cardíaco, o envelope passou pra filha mais velha, Eunice, dona Eunice Muniz, que a época do acidente tinha 10 anos e lembrava vagamente de ver o pai escrever aquilo à mesa, sem entender direito o que estava acontecendo. Se fosse com você, com seu pai, com seu marido, você acreditaria no que a empresa disse. Você conseguiria deixar para lá dobrar aquele papel? e guardar dentro de um Evolos esperando que alguém viesse perguntar.
Depois do encerramento das buscas e do arquivamento do processo em 1973, as famílias dos 28 mineiros ficaram numa situação que não tinha nome claro dentro da legislação trabalhista da época. Os homens eram tecnicamente mortos, mas sem certidão de óbito imediata. O processo de declaração de morte presumida levou meses e precisou de intervenção judicial em alguns casos. Enquanto isso, as mulheres estavam num limbo, não eram viúvas oficialmente, não tinham direito à pensão, não tinham acesso aos benefícios que a empresa havia prometido nos contratos. A Mineração Bonfim contratou um advogado em Goiânia para intermediar as indenizações. O advogado visitou cada família, apresentou um documento de acordo e explicou o valor que seria pago. Os valores variavam de família para família, sem critério claro que tenha sido explicado publicamente.
Algumas receberam o equivalente a alguns meses de salário do trabalhador, outras receberam menos. Para receber, as famílias precisavam assinar um termo de quitação, declarando que não teriam mais nenhuma reivindicação contra a empresa.
Dona Iras Souza foi uma das que assinaram. Disse mais tarde que assinal, porque não tinha como se sustentar com três filhos sem o dinheiro e que naquele momento assinar era o único caminho, não porque acreditava que era justo, mas porque era o que havia. Algumas mulheres não assinaram imediatamente. Foram ao Sindicato dos Trabalhadores em Mineração, que na época tinha sede em Goiânia. O sindicato enviou um representante a Crixas, que ouviu os relatos, prometeu avaliar o caso e voltou para a capital. Não houve desdobramento formal registrado. Dona Irase fez a viagem de ônibus até Goiânia duas vezes para tentar falar com alguém no governo do estado. Levou os filhos na primeira vez porque não tinha com quem deixar. O ônibus partia de Crixáas às 5 da manhã e chegava a Goiânia no início da tarde. Depois de paradas em vários municípios pelo caminho. Ela chegou ao palácio do governo e foi encaminhada de uma secretaria para outra. Na segunda visita foi à Secretaria de Trabalho.
Disseram que o caso era de responsabilidade da empresa e que o processo judicial estava em andamento.
As duas vezes, voltou sem protocolo, sem papel assinado, sem nada que pudesse mostrar para os filhos como prova de que havia tentado. A mina encerrou suas operações em 1973.
A mineração Bonfim Limitada foi dissolvida formalmente alguns anos depois. O terreno foi cercado com arame farpado e uma placa de metal foi fixada na entrada indicando que o acesso era proibido. Com o tempo, o arame enferrujou, a placa desbotou e o mato do serrado foi crescendo por cima da terra revolvida, cobrindo tudo com aquela vegetação baixa e retorcida, que não pede licença para nada. As famílias continuaram em Crixas.
A maioria delas, algumas, se mudaram para Goiânia em busca de emprego, de parentes, de qualquer coisa que fosse diferente daquele lugar que agora tinha um peso que não tinha antes. As que ficaram conviveram com o silêncio da mina, como se convive com uma ferida que cicatrizou por fora, mas continua doendo por dentro. Os filhos cresceram, os netos nasceram e a história da mina do bom fim foi passando de geração em geração, não como um registro documentado, mas como uma memória familiar, carregada da mesma forma que se carregam as fotografias velhas numa caixinha no alto do guarda-roupa, sem que ninguém precise falar sobre elas para saber que estão lá. E ainda faltava descobrir o que o terreno guardava e o que aconteceu quando ele decidiu mostrar. Na manhã de 7 de março de 2003, um fazendeiro chamado Osmar Celestino Braga foi verificar a cerca que dividia a sua propriedade do terreno cercado da antiga mina do bom fim. Era uma coisa de rotina o tipo de vistoria que qualquer criador de gado faz quando percebe que o animal foi parar onde não deveria. Osmar tinha 63 anos. Havia comprado aquele pedaço de terra nos anos 80, sem saber muito da história do lugar. ou sem ligar muito para ela. Sabia que tinha sido uma mina, sabia que tinha fechado. Não sabia muito mais do que isso. O que ele encontrou naquela manhã estava do lado da cerca que pertencia ao terreno da antiga mina, a entrada lateral que havia sido bloqueada com concreto e entho em 1973.
Uma abertura horizontal baixa, fechada há 30 anos. Estava aberta, não parcialmente, completamente aberta, como se o material de vedação tivesse sido empurrado de dentro para fora. Os blocos de concreto estavam caídos para o lado externo, não para dentro. O entulho que havia sido colocado para selar a entrada estava espalhado num raio de 2 a 3 m em frente, a abertura sobre a terra seca do serrado. Não havia sinal de ferramenta, não havia pegada de pessoa, não havia nenhuma marca de veículo no entorno.
Osmar chamou o vizinho. O vizinho chamou mais dois ou três. Ficaram olhando para aquela abertura sem entrar. Um deles disse que ia avisar a prefeitura, outro disse que talvez fosse bom chamar a polícia também. A prefeitura de Crixáas foi acionada na manhã do mesmo dia. O servidor que atendeu o telefone ouviu a descrição, anotou o endereço e disse que ia verificar. Depois de algumas ligações internas, alguém na prefeitura se lembrou de um nome, um nome que estava associado à história da mina desde sempre, pelo menos na memória informal da cidade. Dona Eunice Muniz foi chamada naquela mesma tarde. Eunice tinha 62 anos em 2003. era professora aposentada, havia dado aula durante 30 anos numa escola municipal de Crixás e morava na mesma casa onde havia crescido, no mesmo bairro onde o pai havia morado a vida toda. Quando o telefone tocou e a funcionária da prefeitura disse o que tinha acontecido, Eunice ficou em silêncio por um momento, depois disse que ia. Ela foi ao terreno com o funcionário da prefeitura e com o Osmar Celestino. Ficou parada na frente da abertura por um tempo. Não disse nada de imediato. Olhou pros blocos de concreto caídos para fora. Olhou para o entúho espalhado, olhou para a boca da galeria que na penumbra do fim de tarde parecia mais profunda do que provavelmente era.
Depois disse: “Isso não foi a terra.
Isso não afundou. Isso foi empurrado.
Ninguém soube o que responder. O Corpo de Bombeiros de Goiânia foi acionado no dia seguinte, 8 de março. A equipe chegou a Crixás dois dias depois, em 10 de março de 2003, 32 anos e quase 6 meses depois do colapso de setembro de 1971.
Vieram com equipamento completo: máscaras de oxigênio, detectores de gás, câmeras de filmagem acopladas a astes flexíveis, cordas de rapel e equipamento de iluminação autônoma. Antes de qualquer descida, fizeram a avaliação estrutural externa da abertura. O concreto que havia sido removido mostrava fratura por compressão interna, o que tecnicamente significa que a força que o deslocou veio de dentro, não de fora. Esse dado foi registrado no relatório técnico. A descida começou na manhã do dia 11. O primeiro bombeiro a entrar foi o sargento Robson Figueiredo, com 38 anos de idade e 18 anos de corporação. Especializado em resgate em espaços confinados. Entrou pela abertura lateral com a câmera na mão e o detector de gás preso ao colete. O espaço era baixo nos primeiros metros, obrigando a avançar curvado. Depois abria numa câmara maior. O que Robson Figueiredo encontrou nessa câmara foi registrado em vídeo e descrito no relatório técnico do Corpo de Bombeiros com a objetividade que os documentos oficiais exigem. Mas o que ele disse informalmente num depoimento colhido anos depois por um pesquisador da Universidade Federal de Goiás, que investigava condições de trabalho na mineração histórica do Estado, foi diferente. Disse que o que viu o deixou quieto por um tempo que não soube medir. A câmara tinha aproximadamente 8 m de comprimento por quatro de largura, com teto irregular que variava entre 1, e 82,20 m de altura. O ar tava denso, mas respirável, com concentração de gás carbônico dentro de parâmetros que o detector não classificou como emergência. A temperatura era mais baixa do que o esperado para aquela profundidade. As paredes laterais apresentavam marcas horizontais regulares distribuídas em altura entre 1 m do chão e 1,80 m. As marcas tinham entre 5 e 15 cm de comprimento feitas no material rochoso da parede. Algumas pareciam cortes, outras pareciam marcas de pressão. Os bombeiros não souberam classificá-las imediatamente.
E no chão da câmara, organizados em fileira ao longo da parede do fundo, havia objetos capacetes de proteção do tipo usado pelos mineiros na época com as fivelas de couro ainda intactas. Em alguns cabos de lampião de querosene dobrados com cuidado, luvas de raspa endurecidas pelo tempo, ferramentas, picaretas curtas, marretas de cabo de madeira encostadas verticalmente na parede, como se alguém as tivesse guardado com intenção. Não havia restos mortais na câmara, não havia ossos, não havia roupas além das luvas, não havia nenhum outro vestígio humano direto. O boletim de ocrência registrado pela Polícia Civil de Goiás, naquele mês descreveu o achado como localização de câmara subterrânea preservada com material de trabalho da época do acidente de 1971.
A explicação técnica para a abertura espontânea da entrada lateral foi atribuída à movimentação natural do solo, ao longo de décadas com compressão progressiva que eventualmente deslocou o material de vedação. Essa explicação foi contestada por dois geólogos ouvidos no processo judicial aberto em 2004, que afirmaram que a direção do deslocamento do concreto era inconsistente com movimentação gravitacional natural. O processo judicial não chegou a uma conclusão sobre o ponto. Dona Eunice Muniz foi ao terreno novamente no dia em que os bombeiros concluíram a vitória.
Entrou na câmara lateral com autorização da equipe acompanhada pelo sargento Robson. Ficou parada no meio da câmara por alguns minutos sem falar. Olhou pros capacetes, olhou para as ferramentas encostadas na parede, olhou para as marcas nas paredes laterais. Depois saiu do lado de fora, sentada num toco de madeira enquanto equipe finalizava o trabalho. Ela abriu a bolsa e tirou um envolado.
Abriu o envelope com cuidado, como quem abre algo frágil. tirou o papel que o pai havia escrito em setembro de 1971 e leu em silêncio. Depois dobrou de volta, colocou no envelope e guardou na bolsa. O funcionário da prefeitura que estava ao lado, perguntou o que tava escrito. Eiss disse que era a descrição das batidas que o pai havia ouvido.
Disse que o pai tinha descrito três batidas seguidas. Pausa. Três batidas seguidas. que havia repetido isso durante 2 minutos enquanto ele ouvia. O funcionário perguntou o que ela achava que significava. Eunse disse que não sabia, mas disse também que seu pai era um homem simples, que não havia estudado muito, que não conhecia os padrões internacionais de sinalização de emergência e que, mesmo assim, o que ele havia descrito correspondia exatamente ao sinal universal de socorro em código Morse, três batidas curtas repetidas. O funcionário ficou em silêncio. Eice não disse mais nada. Você se lembra do que foi dito no início? A resposta tá mais perto do que parece e ao mesmo tempo, está mais longe do que qualquer documento pode alcançar. Hoje, mais de 50 anos depois do acidente de setembro de 1971, o terreno da antiga mina do Bonfim pertence a um terceiro proprietário que adquiriu a área no início dos anos 90 para uso agropecuário. A placa de metal enferrujada que marcava a antiga entrada do poço principal foi retirada em algum momento dos anos 80. Ninguém soube dizer exatamente quando. O poço principal continua fechado, coberto por uma laje de concreto instalada pela prefeitura de Crixás, depois dos eventos de 200 deretos como medida de segurança. O terreno em volta cresceu como o serrado sempre cresce quando ninguém interfere.
Devagar, baixo, persistente, com aquelas árvores retorcidas e aquele capim que seca no inverno e volta no verão sem pedir autorização de ninguém. O processo judicial aberto pela Defensoria Pública de Goiás, em 2004, após a reabertura da mina, tentou retomar as questões de responsabilidade civil que haviam sido encerradas com os acordos da década de 70. Os descendentes de algumas das 28 vítimas foram identificados e ouvidos. A documentação técnica do acidente de 1971 foi solicitada aos arquivos da Junta Comercial do Estado, mas os registros da mineração Bolfim Limitada, estavam incompletos. Parte havia sido perdida na mudança de sede da empresa anos antes de sua dissolução. Parte simplesmente não foi localizada. O processo foi encerrado por prescrição em 2011, sem sentença de mérito, sem declaração de responsabilidade, sem reparação adicional para nenhuma das famílias.
Dona Ira Souza, a primeira mulher a chegar na porta da mina naquela tarde de setembro de 1971, morreu em 1978 em Crixás, aos 59 anos.
criou os três filhos. Sozinha, o mais velho se tornou motorista de caminhão. A do meio foi professora, como dona Eunice. A caçula, a menina de 18 meses que estava no colo dela quando Renato Calisto Drumont anunciou o encerramento das buscas. ainda mora em Crixás, tem 52 anos, tem filhos e netos e diz que nunca ouviu o nome do pai sem sentir aquela coisa que ela não sabe nomear direito, que não é saudade, porque saudade é de algo que você conheceu e ela nunca conheceu o Pai. é outra coisa, uma ausência que tem forma, mas não tem nome. Benedita, a jovem que havia se casado com Dirceu Pereira Luz três meses antes do acidente e que estava grávida de dois meses quando ele desceu, pela última vez deu à luz uma menina em março de 1972.
Chamou a filha de Dirce. Benedita se casou novamente alguns anos depois, mudou-se para Goiânia e não voltou a Crixás por muitos anos. Dirse cresceu sem saber muito sobre o pai. Quando adulta pesquisou o que pôde, encontrou pouco. Encontrou o nome num documento da delegacia e uma assinatura num contrato de trabalho que um advogado conseguiu localizar. Mais do que isso, não havia.
Dona Eunice Muniz tem ainda mora em Crixás, na mesma casa do pai, no mesmo bairro de sempre. A casa tem quintal com mangueira, como a maioria das casas antigas daquela região. A sala tem um aparelho de televisão e uma estante com livros de didática da época em que ela dava aula.
Num dos prateleiras, entre os livros há uma fotografia em preto e branco de Geraldo Muniz, tirada em algum momento dos anos 60. Ele está de pé, de camisa, xadrez, olhando para a câmera com aquela expressão séria que as pessoas faziam nas fotos antigas, porque ficavam tempo demais paradas esperando Flash. O papel que ele escreveu em setembro de 1997 continua guardado numa caixinha de sapato dentro do guarda-roupa do quarto.
Eunice nunca o entregou a ninguém além daquele dia no terreno da mina. Quando leu em silêncio e guardou de volta, disse a quem perguntou que vai esperar que alguém apareça com a pergunta certa.
não disse o que seria a pergunta certa e o processo que poderia ter respondido ao menos uma parte das perguntas foi encerrado por prescrição, sem que ninguém tivesse chegado com a pergunta certa. Também há certas histórias que o Brasil guarda no subsolo da sua memória, da mesma forma que aquela câmara guardou os capacetes e as ferramentas organizadas, preservadas esperando, não por esquecimento, por falta de quem desça até lá com o equipamento certo e a disposição de olhar sem pressa para o que tá no chão. A mina do bom fim não está nos livros de história de Goiás, não foi objeto de nenhuma comissão de inquérito formal. não gerou mudanças documentadas na legislação de segurança do trabalho na mineração, pelo menos não com referência direta ao caso. O que gerou foi o que a maioria dos acidentes de trabalho daquele período gerou: uma nota no arquivo, um acordo assinado, um silêncio que durou décadas e um papel dobrado dentro de uma caixinha de sapato, guardado por uma mulher de 83 anos que foi professora a vida toda e que entende, da forma que os professores entendem, que certas perguntas só podem ser respondidas por quem teve paciência suficiente para sentar e ouvir do começo. 28 homens desceram uma mina numa terça-feira de setembro e não subiram mais. As famílias que ficaram esperando na porta não receberam resposta suficiente. A mina ficou fechada por 32 anos e quando se abriu, o que havia dentro não era o que qualquer cálculo lógico esperaria encontrar. Não há uma explicação única que feche tudo isso de forma satisfatória. Os geólogos divergiram sobre a abertura espontânea.
Os bombeiros não classificaram as marcas nas paredes. O processo judicial não chegou a mérito. O relato de Geraldo Muniz foi anotado num papel avulso que nunca entrou em nenhum arquivo oficial.
O que resta são as perguntas e as pessoas que aprenderam a carregá-las.