
Setenta anos após o breve mas marcante romance com Roberto Carlos, a atriz Maria Glades finalmente decidiu quebrar o silêncio e revelar detalhes que por décadas permaneceram guardados. O que era visto pelo público como um simples namoro de juventude entre dois artistas em início de carreira revela-se, na verdade, uma história repleta de inseguranças, gravidez precoce, pressões familiares, arrependimentos e um fim abrupto que deixou marcas profundas na vida da atriz. Enquanto Roberto Carlos, o Rei da música brasileira, mantém absoluto silêncio sobre esse capítulo de sua juventude, Maria Glades, aos 80 anos, abre o coração em entrevistas recentes, mostrando um lado pouco conhecido dessa relação que marcou o início da carreira de ambos e que ainda desperta curiosidade no público brasileiro.
Maria Glades nasceu em Cachambi, um bairro de classe média do Rio de Janeiro, em uma família que já carregava traumas emocionais. Antes dela, sua mãe havia vivido duas gestações malsucedidas, perdendo ambos os bebês no parto. Diagnosticada com paralisia infantil aos 3 anos de idade, a pequena Glades enfrentou um início de vida extremamente difícil. A doença, que na época era conhecida como “paralisia infantil”, afetou sua perna esquerda e representou um choque para toda a família. Como filha única, recebeu cuidados intensos dos pais, que a trataram com dedicação, e milagrosamente conseguiu se recuperar, voltando a andar normalmente. Essa superação precoce já mostrava a resiliência que marcaria sua trajetória.
A adolescência de Maria Glades foi marcada por outra grande responsabilidade. Aos 15 anos, engravidou de um rapaz que se recusou a assumir a paternidade e simplesmente desapareceu. Alguns relatos indicam que o segundo filho, Gleisson Glades, acabou sendo criado pelos avós maternos. Essa gravidez precoce forçou Glades a amadurecer rapidamente. Durante essa fase complicada, a família se mudou para o Grajaú, onde ela começou a se aproximar do mundo artístico. Foi ali que conheceu grandes nomes da cena cultural brasileira, como Erasmo Carlos, o produtor Carlos Imperial, Tim Maia e, especialmente, o jovem Roberto Carlos, que na época ainda não era o fenômeno nacional conhecido como “Rei”.
Roberto Carlos, naqueles anos, era um rapaz tímido, de voz potente, que tentava conquistar espaço no nascente cenário musical brasileiro. Maria Glades trabalhava como dançarina no Clube do Rock, um programa da TV Tupi organizado por Carlos Imperial. Foi nos bastidores das apresentações que os dois se aproximaram. Segundo a própria atriz, o namoro começou de forma natural, com química imediata. Eles eram jovens, livres, cheios de sonhos e ambições. Glades relembra Roberto como um rapaz carinhoso, companheiro e romântico. “Roberto foi muito bom, era muito bonito. Nós fomos muito felizes. Eu me lembro muito bem de Roberto, carinhoso, companheiro”, disse em entrevistas. Ela conta que adorava beijá-lo e que a convivência era leve, sem grandes dramas. Para ela, o namoro foi um período feliz de descoberta mútua, típico de dois jovens artistas no final dos anos 50.
Roberto, por sua vez, frequentemente perguntava se ela realmente acreditava que ele um dia seria famoso com sua música. Naquela época, ele ainda lutava para conquistar seu espaço. Glades sempre respondia que sim, incentivando-o e mostrando compreensão. Para ela, o namoro foi uma fase leve e apaixonada, marcada por momentos únicos e verdadeiramente bons. Roberto era mais do que um músico em ascensão — era um rapaz carinhoso e presente em todos os aspectos.
No entanto, o relacionamento foi curto. Segundo Glades, foi ela quem decidiu terminar. Na época, estava começando a carreira no teatro e se sentia “intelectualizada”. Achava as músicas de Roberto “cafona” e via a carreira dele como algo menor comparado aos seus próprios sonhos artísticos. “Eu tava começando uma carreira de teatro, eu não sei, eu tava ficando toda intelectualizada. Eu achei aquilo meio… ai que horror, Roberto cantando essas músicas… coisa que eu achava cafona. Ai, Roberto, me livra, Roberto horroroso e toda metida a lendo poesias e tal”, confessou anos depois, rindo da própria arrogância juvenil.
A mãe de Glades, ao ver o sucesso explosivo de Roberto Carlos na Jovem Guarda, deu uma bronca histórica na filha. “Quando um dia eu passo, já não era mais namorada dele e eu vejo numa loja de discos ali toda a loja, toda a vitrine era só Roberto Carlos. Pirei”, contou a atriz. A bronca da mãe marcou Glades profundamente e alimentou um sentimento de arrependimento que ela carregou por décadas. Anos depois, quando Roberto já era um fenômeno nacional, Glades percebeu o tamanho do erro que cometera ao subestimá-lo.
Após o fim do namoro, cada um seguiu seu caminho. Roberto tornou-se o Rei da Música Brasileira, com carreira internacional, milhões de discos vendidos e status de ícone cultural. Maria Glades construiu uma sólida carreira como atriz, especialmente no cinema marginal e na televisão. Participou de clássicos como Brilhante, Vale Tudo, Aquele Beijo e muitos outros. Teve outros relacionamentos e filhos, incluindo Raquel, fruto de um romance com um artista americano durante passagem pela Inglaterra nos anos 70. Raquel é mãe da atriz britânica Mia Goth, conhecida em Hollywood.
Apesar das carreiras bem-sucedidas, o contato entre Glades e Roberto Carlos foi se perdendo com o tempo. A atriz tentou uma reaproximação nos últimos anos, mas admite que Roberto não a recebe mais. “Ei, Roberto, não me esquece não”, brincou em entrevista recente, enviando um recado carinhoso. No entanto, o Rei, sempre reservado, mantém silêncio absoluto sobre esse capítulo de sua juventude.
A vida de Maria Glades nos últimos anos ganhou contornos polêmicos. Aos 80 anos, a atriz tem sido vista em situações delicadas, como episódios de desaparecimento temporário e problemas financeiros. Em 2025, sua filha Maria Teresa usou as redes sociais para pedir ajuda, afirmando que a mãe estava confusa e sem recursos. Glades chegou a declarar que parte de sua aposentadoria teria sido “roubada” por uma das filhas, o que gerou troca de acusações públicas. Teresa nega e atribui os problemas ao estilo de vida da mãe, incluindo gastos excessivos com hotéis e bebida.
Glades admite abertamente problemas com álcool e dificuldades financeiras, dizendo que “gasta mais do que tem” porque “dinheiro é para gastar”. Apesar das polêmicas, ela mantém o carisma e o bom humor em entrevistas, relembrando com carinho o namoro com Roberto Carlos, mesmo reconhecendo os erros da juventude.
Roberto Carlos, por sua vez, vive recluso em seu triplex na Urca, no Rio de Janeiro. Após perder o grande amor de sua vida, Maria Rita Simões, em 1999, o cantor não assumiu mais relacionamentos públicos. Em 2025, ele revelou estar namorando há quase um ano, descrevendo a relação como intensa e dizendo sentir-se “um garotão” novamente. Sua carreira continua impecável, com mais de 140 milhões de discos vendidos e status de maior cantor brasileiro de todos os tempos.
Setenta anos depois, o breve namoro entre Maria Glades e Roberto Carlos continua despertando curiosidade. Ela fala abertamente, com carinho e autocrítica. Ele, fiel ao seu estilo reservado, prefere o silêncio. O que fica é a imagem de dois jovens artistas que viveram um amor adolescente simples, em uma época de grandes mudanças no Brasil, e que tomaram caminhos diferentes — um rumo à consagração eterna, o outro a uma carreira sólida, mas cheia de altos e baixos pessoais.
A história de Maria Glades e Roberto Carlos é também um retrato de uma geração que viveu a transição entre o rádio e a televisão, entre a simplicidade e a fama explosiva. Ela mostra como escolhas feitas na juventude — muitas vezes influenciadas por inseguranças, ambições e imaturidade — podem marcar uma vida inteira. Glades, com todos os seus erros e acertos, continua sendo uma figura fascinante do entretenimento brasileiro. Roberto, o Rei, permanece um mito intocável.
O público que acompanhou a carreira de ambos ao longo das décadas certamente se emociona ao lembrar desse romance juvenil. Seja pela nostalgia dos anos 50/60, seja pela curiosidade sobre o que poderia ter sido, o fato é que essa história continua viva na memória coletiva. Maria Glades, mesmo aos 80 anos e cercada de polêmicas recentes, ainda carrega o brilho de quem viveu intensamente. E Roberto Carlos, mesmo em silêncio, faz parte dessa memória afetiva de milhões de brasileiros.