
Em 14 de setembro de 2019, às 6:22 da manhã, Osvaldo Mendes Teixeira ligou para o irmão mais velho de um telefone público na rodoviária de Corumbá, no Mato Grosso do Sul. Disse que ia levar a filha de 9 anos, Isadora, para conhecer a fazenda onde ele tinha crescido, perto da borda do Pantanal, na região do rio Paraguai. O irmão perguntou se valia a pena ir naquela época, com o calor apertando e o nível da água começando a subir. Osvaldo respondeu que conhecia cada palmo daquele chão, que era coisa de dois dias, três no máximo, e que a menina precisava ver de onde a família tinha vindo. O irmão desejou boa viagem. Osvaldo desligou. Ninguém mais ouviu a voz dele.
A caminhonete foi encontrada 11 dias depois, estacionada numa estrada de terra a 14 km da BR-262, com os pneus atolados até a metade no barro seco. A cadeirinha da menina estava no banco de trás. Uma mochila com roupas infantis no assoalho, duas garrafas de água vazias no porta-malas. A chave na ignição. Não havia sinal de luta, de batida, de nada que fizesse pensar num crime óbvio. A polícia registrou como abandono voluntário de veículo. A família registrou como o início do fim.
Esta é a história de um pai de 38 anos e de uma menina chamada Isadora, que entraram juntos numa das regiões mais vastas e menos vigiadas do Brasil, e de como, 4 anos e 2 meses depois, a menina apareceu sozinha numa fazenda de gado a 80 km dali, descalça, magra, com os cabelos na altura da cintura e com uma única frase que repetiu para cada pessoa que tentou ajudá-la: “O pai ainda está lá”.
O Pantanal ocupa uma área maior que muitos países europeus. Na estação seca parece uma savana infinita, cortada por trilhas de gado e caminhos que mudam de lugar a cada cheia. Na estação das águas, o que era pasto vira lago, o que era estrada vira rio, o que era terra firme desaparece debaixo de 1,5 metro de água escura. Não há sinal de celular em boa parte da planície. Não há torres, não há postes, não há cercas em extensões que se medem em dias de caminhada, não em quilômetros.
Osvaldo tinha nascido ali. Cresceu numa fazenda de criação extensiva, onde o gado anda solto por léguas e o peão passa semanas sem ver outra pessoa. Saiu aos 19 anos para tentar a vida em Campo Grande, onde trabalhou como eletricista, casou, teve Isadora e se separou da mulher em 2018. A guarda era compartilhada. A relação com a ex-mulher não era boa, mas funcionava. Osvaldo pegava a menina a cada 15 dias e devolvia no domingo à noite. Era pontual, presente, o tipo de pai que não faltava.
Naquele setembro de 2019, ele avisou a mãe de Isadora que levaria a filha para conhecer o Pantanal. A mãe hesitou, perguntou detalhes, mas concordou. Deu um beijo na filha, ajeitou a mochilinha cor-de-rosa e ficou parada no portão vendo a caminhonete branca dobrar a esquina da rua Joaquim Murtinho. Na terça-feira, Osvaldo não trouxe Isadora de volta. Na quarta, o telefone dele ia direto para a caixa postal. Na quinta, a mãe foi à delegacia.
A partir daqui, a história avança devagar, porque cada fato precisa ser contado no seu tempo. Por quanto tempo uma mãe espera antes de aceitar que a polícia não tem meios de encontrar alguém no Pantanal? O que acontece quando uma criança volta de um lugar onde nenhuma equipe de busca conseguiu chegar? E o que se faz com uma frase que ninguém consegue confirmar nem desmentir: “Ele ainda está lá”?
Osvaldo saiu de Campo Grande pela BR-262 num sábado de manhã cedo, com Isadora dormindo no banco de trás e um isopor com água, suco e pão de queijo. O plano era pegar um desvio antes de Miranda, entrar por uma estrada municipal sem asfalto e seguir até a fazenda do primo Nivaldo, numa área remota da Nhecolândia, cercada por centenas de lagoas salobras e campos que se estendem até onde a vista alcança.
Eles chegaram à fazenda do primo por volta das duas da tarde. A sede era simples, com varanda de madeira e gerador que funcionava poucas horas à noite. Não havia energia da rede, não havia telefone, não havia internet. O rádio de comunicação estava quebrado. O silêncio ali era de um tipo que gente de cidade não conhece. Isadora ficou parada na varanda durante um longo tempo, só ouvindo. Jantaram arroz, feijão, carne seca e mandioca. Isadora comeu pouco, impressionada com o escuro total quando o gerador foi desligado e com o céu cheio de estrelas que ela nunca tinha visto em Campo Grande.
Osvaldo colocou a filha para dormir numa rede na varanda e ficou conversando com o primo até tarde. No domingo de manhã, acordou Isadora cedo. Prepararam uma mochila com água, biscoitos, sardinha e bananas. Osvaldo levou um facão emprestado e um chapéu de palha. Isadora calçou botas grandes demais. Nivaldo ofereceu cavalo, mas Osvaldo recusou. Queria ir a pé, como fazia quando menino. Saíram por volta das 7h. Nivaldo ficou na varanda vendo os dois se afastarem: o pai alto, passo firme, e a menina pequena segurando a mão dele. Foi a última vez que viu o primo.
Nivaldo esperou o dia inteiro. No dia seguinte, selou um cavalo e foi até o capão de mato que Osvaldo queria mostrar. A vegetação estava fechada. Chamou, gritou. Nada. Voltou sem respostas. Foram dias até conseguir mandar recado à polícia. Enquanto isso, do outro lado, Renata dos Santos Barbosa vivia seus próprios dias de desespero crescente em Campo Grande. Quando Osvaldo não devolveu Isadora, ela ligou, esperou, foi à delegacia. O escrivão falou em descumprimento de guarda. Renata insistiu. O delegado ouviu, mas explicou a dificuldade da região: 25 mil km² de fazendas sem endereço, acessíveis só por terra ou barco.
O Corpo de Bombeiros iniciou buscas 14 dias depois. Equipe pequena, área imensa. Entraram no capão, percorreram lagoas, margens de rios. Não encontraram nada. Após dias, encerraram a operação. O Pantanal tinha engolido duas pessoas e não devolveu vestígios. Renata leu o relatório sentada na delegacia, mãos tremendo. Naquela noite, ligou para a irmã e disse: “Eu vou buscar minha filha, nem que eu tenha que ir a pé”.
E ela cumpriu. Fez 17 viagens a Corumbá, dormiu em pensões baratas, pediu carona, mostrou fotos em fazendas, anotou tudo num caderno que foi enchendo de nomes, conversas, histórias improváveis de gente perdida que reapareceu. A pandemia parou as viagens, mas não a determinação. Anos se passaram. Renata trabalhava, voltava para casa, olhava o quarto intacto de Isadora e continuava.
Em 22 de novembro de 2023, o capataz de uma fazenda a 83 km de distância avistou uma figura pequena na porteira. Uma menina descalça, magra, cabelos longos, vestido encardido. Olhos distantes. Quando perguntaram o nome, ela disse: Isadora. E repetiu: “O pai ainda está lá”.
Levada ao hospital de Corumbá, desidratada, desnutrida, pés calejados de tanto andar, mas viva. Sem sinais de violência grave. Falava pouco, com vocabulário limitado. Descrevia pedaços: rio largo de água escura, barranco vermelho, árvore grande, muito calor, bicho à noite, pai que mandou ela andar e encontrar alguém. Disse que ele não conseguiu ir junto.
Renata recebeu a ligação à noite. Dirigiu com a irmã até Corumbá. No hospital, parou na porta do quarto. Olhou para a menina que não era mais a de 9 anos. Isadora virou a cabeça e disse: “Mãe, o pai ainda está lá”. Renata segurou a mão da filha e baixou a cabeça. O reencontro foi silencioso, profundo, de quem carregou o peso de anos de vazio.
Buscas novas foram feitas com drone, cães, guias pantaneiros. Encontraram restos de fogueira, marcas de facão, mas nada conclusivo que ligasse a Osvaldo. A operação terminou sem respostas. O inquérito continua aberto, sem corpo, sem certidão de óbito, sem explicação.
Hoje, Isadora vive com a mãe em Campo Grande. Vai à escola, tem acompanhamento psicológico. Fala pouco sobre os anos perdidos. Renata voltou à rotina, mas com a porta do quarto aberta. O Pantanal continua imenso, indiferente, guardando segredos. Em algum lugar, perto de um rio escuro, barranco vermelho e árvore gigante, pode haver respostas. Ou pode não haver nada.
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