
Em 7 de fevereiro de 2019, às 5:47 da manhã, Valdir Câmara de Souza abriu os olhos dentro de uma barraca montada a 2700 m de altitude no topo do monte Roraima, e percebeu que o saco de dormir ao lado do seu estava vazio. O zíper da barraca estava aberto. O ar que entrava era gelado. O caderninho de anotações do cunhado continuava ao lado da mochila com a caneta ainda presa na espiral.
Renato Maciel de Souza, 31 anos, técnico de refrigeração industrial, pai de uma menina de 4 anos, havia saído da barraca em algum momento da madrugada e não voltou. Dois anos e dois meses depois, seu corpo foi encontrado a 14 m de profundidade dentro de uma fenda vertical no platô do teui, de cabeça para baixo, lços rentes ao tronco e uma bota amarrada com um nó que ele não sabia dar. A temperatura no interior da fenda era de 2º.
O corpo estava conservado, como se o tempo tivesse decidido parar ali dentro.
Esta é a história de um homem comum que subiu uma montanha que já conhecia de longe, que planejou cada detalhe da viagem, que avisou a esposa, que levou equipamento adequado, que estava acompanhado de pessoas de confiança e que mesmo assim desapareceu no meio da noite, sem barulho, sem rastro, sem explicação que feche. O Monte Roraima fica no extremo norte do Brasil, na tríplice fronteira com a Venezuela e a Guiana. É um teui, uma montanha de topo plano com paredes verticais de quase 400 m e uma superfície que parece pertencer a outro planeta. Rochas negras esculpidas pela erosão de bilhões de anos de cristais de quartzo espalhados pelo chão, piscinas naturais escondidas.
entre formações que lembram ruínas. As fendas que cortam o platô são profundas, estreitas e escuras.
Em muitas delas ninguém jamais desceu.
Naquela região não havia sinal de celular, não havia câmeras de monitoramento, não havia delegacia a menos de 200 km.
O rádio do guia alcançava a base da trilha quando o tempo colaborava.
Quando não colaborava, o topo do Roraima era um dos lugares mais isolados do território brasileiro.
Renato não era aventureiro de fim de semana, era metódico, calado, planejava as saídas com semanas de antecedência, anotava tudo num caderninho de capa preta. subia a montanha não para postar foto, mas para escapar do zumbido dos compressores que ficava na cabeça depois de uma semana inteira de trabalho em câmaras frigoríficas. De quem convivia com ele sabia que Renato não fazia nada por impulso. E é justamente isso que torna o que aconteceu tão difícil de aceitar. Se essa história te interessa e se você acompanha este canal, considere se inscrever. Cada inscrição ajuda a manter vivas histórias que o tempo tenta apagar. A noite é longa e esta história precisa de tempo, não de pressa. O que fez um homem meticuloso sair de uma barraca no meio da madrugada a quase 3.000 m de altitude, sem lanterna, sem bota no pé esquerdo, sem acordar ninguém, para onde ele ia? E se caiu numa fenda? Porque o corpo estava na posição em que foi encontrado, de cabeça para baixo, com os braços grudados no corpo, como se tivesse sido inserido ali e não despencado. São perguntas que dois inquéritos policiais, que uma equipe de peritos e um laudo do IML de Boa Vista não conseguiram responder de forma definitiva. Para entender o que aconteceu naquela madrugada, é preciso voltar alguns meses para Manaus, para um apartamento no bairro Cidade Nova, para a rotina de um homem que consertava máquinas de frio e procurava silêncio em lugares altos. Fevereiro de 2019, Norte do Brasil, estação chuvosa. Renato Maciel de Souza nasceu em Itaquatiara, no interior do Amazonas, e mudou-se para Manaus aos 17 anos para fazer curso técnico no SENAI. Formou-se em refrigeração industrial e conseguiu emprego numa empresa que prestava serviço para frigoríficos e supermercados da zona leste. O trabalho era pesado, repetitivo e barulhento.
Renato passava turnos inteiros dentro de câmaras frias, ajustando compressores que vibravam a uma frequência que lhe, segundo ele, ficava grudada no ouvido por dias. Não reclamava. Não era do tipo que reclamava, mas quando chegava em casa na sexta-feira à noite, sentava no sofá com a filha no colo e ficava em silêncio, olhando para o nada, até Cláudia perguntar se estava tudo bem.
Ele sempre respondia a mesma coisa. Tô só esperando o barulho sair. A esposa Cláudia Regina dos Santos trabalhava como cabeleireira num salão do bairro Alvorada. tinham se conhecido numa festa de São João, no bairro Jorge Teixeira, e casado dois anos depois. A filha Isadora nasceu em janeiro de 2015. A vida era apertada, mas organizada. Aluguel em dia, prestação do carro em dia, cartão sem atraso. Renato não bebia, não fumava, não jogava. O único gasto que não se encaixava na planilha era o que ele chamava de equipamento de trilha.
Uma bota nova aqui num isolante térmico ali, uma mochila de 40 L que comprou parcelada em 10 vezes na americanas.
Renato começou a fazer trilha por acaso.
Um colega de trabalho o convidou para subir o pico da neblina numa excursão organizada e ele recusou porque achou caro demais. Mas no fim de semana seguinte foi sozinho até a reserva duque, nos arredores de Manaus e caminhou por qu horas num trilheiro de terra batida entre árvores enormes.
Voltou diferente. Cláudia notou. Ele estava calmo de um jeito que ela não via havia meses. Dormiu a noite inteira, sem se mexer, sem acordar às 3 da manhã, com dor de cabeça. A partir dali, virou rotina. Todo fim de semana livre, Renato pegava o carro e ia para algum ponto de trilha acessível. Não levava grupo, não postava em rede social, não usava aplicativo de rastreamento e levava um caderninho de capa preta onde anotava tudo. Horário de saída, horário de chegada, temperatura estimada, condição do solo, nome das plantas que reconhecia, distância percorrida calculada pelo contapassos que usava no pulso. Era uma obsessão silenciosa, metódica, quase terapêutica.
Cláudia aceitava, embora não entendesse por completo. Para ela, mato era mato, mas via que Renato voltava melhor, mais presente, mais paciente com a filha.
Então, não questionava. Só pedia uma coisa: “Me avisa para onde vai e me avisa quando chegar”. Renato sempre avisava. Sempre. Com o tempo, os arredores de Manaus ficaram pequenos.
Renato começou a pesquisar trilhas mais longas, mais altas, mais isoladas.
Leu sobre o Monte Roraima numa revista velha que encontrou num consultório de dentista. A reportagem era de 2012 e mostrava fotos do topo do Tepui, rochas negras, nuvens rasteiras, cristais no chão. Renato arrancou as páginas, dobrou e guardou na gaveta da mesa de cabeceira. Cláudia encontrou aquelas páginas depois do desaparecimento dele e ficou olhando para as fotos durante um tempo que ela mesma não soube calcular.
O que Renato não contou para ninguém, exceto numa anotação curta no caderninho, foi o que realmente o atraía naquele lugar. Não eram as paisagens, não eram os cristais, era o silêncio.
Numa das páginas do caderno com data de agosto de 2018, havia uma frase sublinhada duas vezes. Dizem que no topo do Roraima não se houve nada, nenhum pássaro, nenhum inseto, nada. Renato queria ouvir esse nada e foi procurá-lo.
A ideia do monte Roraima apareceu pela primeira vez em voz alta num churrasco no quintal de Davi Lucena, colega de Renato na empresa de refrigeração.
Era novembro de 2018, um sábado de calor pesado, desses em que Manaus inteira parece estar dentro de uma panela de pressão. Davi Renato Valdir, cunhado de Renato, casado com a irmã mais velha dele, e um rapaz mais novo chamado Thago Freitas, que trabalhava como instrutor de escalada num clube esportivo do bairro Adrianópolis. Estavam sentados em cadeiras de plástico, tomando cerveja e falando de trilha. Thago tinha subido o Roraima em 2016 numa expedição de seis dias organizada por uma operadora de turismo de Boa Vista, quando começou a descrever o topo, o labirinto de pedra, as fendas que pareciam não ter fundo, o frio cortante que subia do chão em certos pontos, e Renato largou o copo na mesa e ficou ouvindo sem piscar. Valdir, que era mais expansivo, disse na hora: “Vamos”. Davi concordou. Renato não disse nada. Só balançou a cabeça devagar, como quem já tinha decidido havia muito tempo, e estava apenas esperando a oportunidade.
A viagem ficou marcada para dezembro.
Não aconteceu. Renato pegou uma gripe forte na primeira semana do mês e ficou de cama quase 10 dias. Cláudia cuidou dele e da filha ao mesmo tempo, revesando entre xarope e papinha, entre termômetro e fraldas. Quando Renato melhorou, já era véspera de Natal e a logística da viagem tinha desmoronado.
Remarcaram para janeiro, também não deu.
Thago não conseguiu trocar o plantão na academia e o Roraima ficou para fevereiro.
Cláudia, quando soube da terceira remarcação, não fez um pedido que parecia simples. Espera pelo menos o aniversário da Isadora. A menina fazia 4 anos no dia 22 de janeiro. Renato concordou sem discutir como fazia com quase tudo que vinha de Cláudia, não por submissão, por respeito. Ele sabia que ela aceitava as trilhas com uma paciência que não era natural, era construída. E ele respeitava esse esforço. O aniversário de Isadora foi num sábado no apartamento. Bolo de chocolate com granulado, balões cor- deosa, meia dúzia de crianças da vizinhança.
Renato filmou tudo com o celular. Numa das fotos, ele aparece agachado ao lado da filha, segurando um pedaço de bolo com a mão, sorrindo de um jeito contido, os olhos meio apertados por causa do flash. Essa foto ficaria estampada em cartazes dois meses depois. Na semana seguinte, Renato começou a organizar a expedição com a mesma precisão que aplicava as ordens de serviço no trabalho. Planilha no caderninho, lista de equipamento, peso estimado da mochila, custo de combustível até Pacara.
Valor do guia credenciado.
Previsão do tempo para a primeira semana de fevereiro. Pesquisou cada item, ligou para a operadora de turismo que Thago havia usado. Confirmou que era obrigatório contratar guia local para subir o Tepui. Anotou o nome. Raimundo Batista, 53 anos, morador da vila de Paraitepui, credenciado pelo ICM Bio.
Audir ficou responsável pelo transporte.
Tiago, pelo equipamento de escalada, para o caso de precisarem fazer alguma descida técnica nas fendas do topo. Davi ia cuidar da alimentação, liofilizados, barras de cereal, água tratada com pastilhas. Renato coordenava tudo. Na véspera da partida, Cláudia ajudou Renato a arrumar a mochila na sala do apartamento.
Isadora assistia sentada no chão, segurando um boneco de pano, sem entender direito o que era aquilo tudo.
Cláudia colocou dentro da mochila uma bolsa plástica com remédios básicos de pirona, antialérgico, protetor solar e um bilhete que Renato só encontraria lá em cima, dobrado dentro da bolsa. Volta inteiro. O bilhete foi encontrado dois anos depois dentro da mochila, no acampamento que as equipes de busca desmontaram e devolveram à família. O plástico estava intacto, o papel seco, a tinta legível. Eles saíram de Manaus no dia 1o de fevereiro de 2019, antes do amanhecer. O carro era um Fiat Estrada prata com a carroceria cheia de mochilas e galões de água. A BR174 até Pacaraima tem cerca de 900 km.
Fizeram a viagem em dois dias, comparada para dormir em Rorainópolis.
Ninguém falou sobre risco, ninguém falou sobre medo. A conversa no carro era sobre futebol, sobre promoção no trabalho, sobre o preço do aluguel em Manaus. E talvez fosse isso o mais perturbador de tudo. Não havia nenhum sinal, nenhum pressentimento, nenhum aviso. Quatro homens indo fazer algo que milhares de pessoas fazem todos os anos.
num lugar que recebe turistas do mundo inteiro, com guia credenciado, equipamento adequado e um plano detalhado no caderninho de capa preta.
Três voltaram. O grupo chegou à vila de Paraitepui no fim da tarde do dia 3 de fevereiro. A vila é um aglomerado de casa simples habitado por indígenas da etnia Pemon, que há décadas servem como guias e carregadores para os turistas que sobem o Horaima. A entrada do parque fica ali. Oi, tudo passa por eles. O credenciamento, a conferência de equipamento, a definição do ritmo de subida. Raimundo Batista estava esperando na frente de uma casa de paredes brancas com um chapéu de aba larga e uma mochila maior que a de qualquer um do grupo. Cumprimentou a todos com aperto de mão firme e poucas palavras. Quando Renato mostrou o caderninho com a rota planejada, Raimundo olhou por cima dos óculos e disse apenas: “Tá certo, mas lá em cima é diferente do papel. A subida começou na manhã seguinte, antes das 6. O primeiro trecho da vila até o acampamento base, no sopé da parede do Tepui, leva em média 5 a 6 horas. O terreno é de savana aberta, com grama alta e riachos que cruzam o caminho. O calor era forte, mais suportável. Renato ia no seu ritmo, sempre um pouco atrás.
Não era lentidão, era método. Ele parava a cada 40 minutos, bebia água, anotava no caderninho, fotografava com uma câmera compacta digital que carregava pendurada no pescoço. Valdir, que tinha pernas mais longas e menos paciência, ia na frente com Raimundo. Tiago e Davi alternavam entre os dois grupos. No fim do primeiro dia, montaram acampamento na base da parede. Dali, o teui parecia um muro vertical cortado na rocha, com nuvens passando por cima, como se alguém estivesse puxando um lençol branco sobre uma mesa escura. Renato ficou olhando aquilo por um longo tempo. Davi perguntou o que ele estava pensando.
Renato respondeu: “Estou pensando que tem coisa lá em cima que ninguém viu ainda. O segundo dia foi o mais duro. A subida pela rampa, o único trecho acessível sem equipamento técnico, exige equilíbrio, resistência e atenção. O terreno é de pedra solta. se com trechos de lama, escorregadia e quedas d’água que cruzam o caminho. Raimundo subia com a segurança de quem faz aquilo no automático. Tiago ajudou Valdir num trecho mais íngreme. Renato subiu sozinho, devagar, sem pedir ajuda, com a mochila pesando nas costas e o caderninho guardado no bolso lateral da calça. Quando chegaram ao topo no meio da tarde, a paisagem mudou de forma brusca. Não era mais Brasil, não era mais selva, nem savana. Era um platô de rocha escura, coberto por formações que pareciam esculpidas por uma inteligência que não se preocupava em fazer sentido.
Torres de arenito de 3 m de altura, corredores estreitos entre paredes lisas, piscinas naturais de água transparente encaixadas em cavidades perfeitas. O chão em certos trechos, era coberto de cristais de quartzo que brilhavam como cacos de vidro sob o sol fraco que filtrava pelas nuvens. Renato abriu o caderninho e escreveu durante quase 20 minutos sem parar. Thago tentou ler por cima do ombro e Renato fechou a página com a mão, sem grosseria, mas com firmeza. Raimundo conduziu o grupo até o acampamento, uma área relativamente plana, protegida por uma formação rochosa que funcionava como parede natural contra o vento. Montaram as barracas, fizeram comida no fogareiro. A temperatura caiu rápido quando o sol sumiu. De dia o topo do Roraima pode chegar a 20º.
De noite desce para cinco, às vezes menos. O vento que passa pelas fendas produz um som que não é exatamente apito, nem exatamente gemido. É algo entre os dois, constante, que entra no ouvido e fica. No terceiro dia, Cheer Raimundo levou o grupo para conhecer os pontos mais visitados do platô. O vale dos cristais, a janela, o fosso, as piscinas do jacuzzi. Renato se interessou por outra coisa. Nos trechos entre um ponto e outro, ele se afastava ligeiramente do grupo para olhar as fendas que cortavam o terreno. Eram gretas verticais, algumas com menos de 1 metro de largura na superfície, que desciam para a escuridão sem que fosse possível ver o fundo. Raimundo, ao perceber o interesse, alertou com naturalidade.
Não chega perto da borda, tem fenda ali que engole gente. Renato anotou a frase no caderninho. Engole gente sublinhada uma vez. A noite, enquanto os outros jogavam baralho dentro da barraca, Renato saiu com a lanterna de cabeça e ficou sentado numa pedra a poucos metros do acampamento, olhando para cima. Não havia nuvem. Ne as estrelas no topo do Roraima, longe de qualquer luz artificial, são de uma nitidez que quem nunca viu não acredita. Valdir saiu para chamá-lo e encontrou Renato com o caderninho aberto no colo, escrevendo no escuro, usando apenas a lanterna.
Perguntou o que ele estava anotando.
Renato respondeu sem levantar os olhos.
as coordenadas de uma fenda que vi hoje.
Quero voltar lá amanhã cedo. Valdir não deu importância. Entrou na barraca e dormiu. Aquela foi a última noite em que os quatro dormiram juntos.
Valdir acordou no dia 7 de fevereiro antes do despertador.
Havia um frio úmido dentro da barraca e um filete de luz cinzenta entrando pelo zíper entreaberto.
Virou para o lado e viu o saco de dormir de Renato vazio, dobrado pela metade, como se ele tivesse saído com cuidado para não acordar ninguém. E o caderninho não estava no lugar de sempre. A lanterna de cabeça também não. A bota esquerda de Renato estava ao lado da mochila. À direita não. Valdir não se preocupou de imediato. Renato tinha o hábito de sair antes de todo mundo.
Fazia parte do ritual dele, ver o amanhecer, anotar a temperatura, registrar a direção do vento. Valdir fechou os olhos e tentou dormir mais um pouco. Não conseguiu.
O vento nas fendas fazia aquele som constante, aquele quase apito que não deixava o silêncio se instalar por completo. Às 6:15, Tiago acordou, perguntou pelo Renato. Valdir apontou para o saco de dormir vazio e disse: “Saiu cedo”. Tiago aceitou a explicação e foi esquentar água para o café. Davi acordou por último, perto das sete e encontrou Tiago e Valdir, sentados do lado de fora, com as mãos em volta das canecas. Tete olhando para o platô envolto numa névoa baixa que encobria tudo a mais de 50 m de distância.
Raimundo apareceu às 7:10 vindo da barraca dele que ficava mais afastada. perguntou onde estava o quarto. Valdir respondeu que Renato tinha saído cedo. Raimundo olhou para a névoa, olhou para o relógio, olhou para as mochilas dentro da barraca aberta, perguntou: “Ele levou água?” Ninguém soube responder. Raimundo entrou na barraca, verificou. A garrafa de Renato estava pela metade ao lado da mochila.
Ele não tinha levado. A expressão de Raimundo mudou.
Não ficou alarmado, ficou atento do jeito que fica quem já viu coisas darem errado naquela altitude e sabe que a distância entre um passeio matinal e uma emergência pode ser de poucos metros.
Às 8 horas, Davi saiu para procurar nos arredores. Se fez um perímetro de 300 m ao redor do acampamento, chamando pelo nome de Renato, a voz sumindo na névoa como se fosse absorvida pela rocha. Não obteve resposta, não encontrou pegadas visíveis. O chão de arenito no topo do Roraima não retém marcas de pisada.
voltou ao acampamento com as mãos nos bolsos e a cara fechada. Raimundo tomou a decisão às 8:40, pegou o rádio VHF que carregava na mochila e chamou a base na vila de Paraitepui.
A comunicação era entrecortada. No topo, o sinal depende da posição exata e das condições atmosféricas.
Conseguiu transmitir o essencial. Um integrante do grupo saiu da barraca durante a madrugada. possivelmente antes das 5 da manhã. Não retornou, não levou água nem equipamento completo, está calçando apenas uma bota. E a resposta da base veio depois de quase 10 minutos de estática. Uma voz firme, sem emoção, como um procedimento decorado. Mantenham posição. Não se separem. Vamos acionar busca. Valdir queria sair procurando.
Tiago também. Raimundo vetou. disse com a autoridade de quem conhecia cada metro daquele platô. Com essa névoa, se mais um sumir, o problema dobra. A gente espera. E esperaram. A névoa só começou a levantar por volta das 10:30. Quando o campo visual se abriu, Raimundo saiu com Thago numa busca controlada, mantendo comunicação por rádio com Valdir, que ficou no acampamento com Davi.
Caminharam em direção leste, na direção que Renato havia demonstrado interesse no dia anterior, a área das fendas que ele queria revisitar.
Não encontraram Renato, mas encontraram a 600 m do acampamento e algo que Raimundo viu primeiro e mandou Thago ficar parado. Uma bota esquerda, modelo Timberland marrom, número 41, encaixada verticalmente numa fenda estreita a 2 m de profundidade.
A bota estava limpa, sem lama, sem arranhão, sem sinal de ter sido arrastada ou chutada. estava encaixada com a sola virada para cima, apoiada entre as duas paredes de rocha, como se alguém a tivesse segurado com a mão e soltado ali dentro com precisão.
Raimundo olhou para Thago e não disse nada. Tiago olhou para a fenda e também não disse nada. A bota era a que faltava na barraca. A primeira equipe de resgate chegou ao topo do Tepui no dia 8 de fevereiro, quase 24 horas depois do desaparecimento.
Eram quatro bombeiros militares de Boa Vista, acompanhados de dois guias locais PEMON, que conheciam o platô desde a infância, que subiram pela mesma rampa, carregando equipamento de rapel, rádio de longo alcance e suprimentos para 5 dias.
O tempo estava instável. Sol e nuvem se alternavam a cada hora e o vento no topo soprava forte o bastante para dificultar qualquer conversa.
O sargento que liderava a equipe, um homem de 40 e poucos anos, com experiência em resgate em mata, olhou para o platô pela primeira vez e ficou em silêncio por quase um minuto. Depois virou para Raimundo e perguntou: “Quantas fendas tem aqui em cima?” Raimundo respondeu: “As catalogadas são umas 70, as que ninguém nunca desceu, não sei. Pode ser o dobro. A busca foi dividida em setores. Cada dupla cobria um quadrante ao redor do acampamento, expandindo o perímetro dia a dia. O protocolo era visual e sonoro. Chamar pelo nome, bater nas rochas com bastão, a jogar pedra dentro das fendas para ouvir o tempo de queda e estimar a profundidade.
Em algumas fendas, a pedra levava mais de 3 segundos para bater no fundo. Em outras não se ouvia impacto algum. No segundo dia de busca, um dos guias PMON encontrou uma marca no chão que não era natural, um risco fino na superfície do arenito, como se algo metálico tivesse sido arrastado.
marca tinha cerca de 30 cm e apontava na direção de uma fenda que ficava a noroeste do acampamento, numa área que Raimundo classificou como de difícil acesso, cheia de formações que obrigavam a caminhar de lado. A fenda era estreita na superfície, uns 60 cm, e se alargava para dentro, formando uma espécie de sino invertido.
Um dos bombeiros jogou uma pedra. O som de impacto veio depois de 2 segundos e estimaram 10 a 12 m de profundidade.
Não tinham equipamento para descer naquela fenda específica.
O ângulo era complicado, as paredes eram lisas e úmidas, e o espaço na boca da fenda não permitia montar ancoragem com segurança.
Registraram as coordenadas e seguiram.
No quinto dia, a busca se estendeu para além do perímetro inicial, cobrindo uma área de 4 km ao redor do acampamento.
Nada. Nenhuma peça de roupa, nenhum rastro de sangue, nenhuma marca de passagem além daquele risco no arenito.
O caderninho de Renato não foi encontrado. A lanterna de cabeça também não. Na segunda semana chegou um segundo grupo, bombeiros civis voluntários e mais dois guias com equipamento de rapel vertical mais avançado. Desceram em 11 fendas diferentes. Em nove delas encontraram apenas rocha, água acumulada e escuridão.
Essem duas encontraram ossos de animais, aves, possivelmente nenhum vestígio humano. A operação oficial de busca durou 19 dias e foi encerrada no dia 26 de fevereiro de 2019, sem resultado. O relatório final assinado pelo Corpo de Bombeiros Militar de Roraima registrou buscas encerradas por esgotamento de possibilidades operacionais no terreno. A área de superfície do platô incompatível com varredura completa, dado o número de formações rochosas e fendas de acesso restrito. Tiago, Davi e Valdir desceram no dia 12 de fevereiro, cinco dias depois do desaparecimento, escoltados por um dos guias. Valdir carregava a mochila de Renato nas costas, por cima da própria. Ninguém falou durante a descida inteira. Davi chorou na base quando pisou em terreno plano. Tiago não chorou. fumou três cigarros seguidos, sentado numa pedra de olhando para a parede do teu, como se esperasse ver Renato aparecer no topo. Raimundo ficou em cima mais uma semana, acompanhando as equipes. Quando desceu, procurou Valdir na vila e disse uma coisa que Valdir nunca esqueceu. Em 30 anos, eu perdi gente lá em cima. Gente que escorregou, gente que passou mal, gente que não aguentou o frio, mas nunca perdi ninguém assim, sem barulho, sem marca, sem nada.
Valdir perguntou o que ele queria dizer com assim. Raimundo não respondeu, pôs o chapéu e foi embora. O monte Roraima devolveu uma bota limpa, encaixada numa fenda e um risco de 30 cm no arenito, nada mais. E o corpo de Renato Maciel de Souza continuava em algum lugar dentro daquele labirinto de pedra negra, a quase 3000 m de altitude, onde o vento faz um som que não é apito gemido, e onde as fendas descem para profundidades que ninguém catalogou.
A ligação chegou no dia 8 de fevereiro, por volta das 11 da manhã. Cláudia estava no salão de pé atrás de uma cliente com a escova numa mão e o secador na outra. O celular tocou no bolso do avental. Ela viu o nome de Valdir na tela e atendeu com o aparelho entre o ombro e a orelha, sem parar de secar. Valdir começou a falar e a voz dele estava diferente. Tinha um tremor que Cláudia nunca tinha ouvido naquele homem que ela conhecia havia mais de 10 anos. Ele disse: “Cláudia, escuta, o Renato sumiu. Ele saiu da barraca de madrugada e não voltou. A gente tá procurando. Já chamaram os bombeiros.” Cláudia desligou o secador. A cliente olhou para ela pelo espelho. Cláudia colocou o celular no balcão, tirou o avental, dobrou num quadrado perfeito e colocou na gaveta. Pediu para a colega do lado terminar o atendimento.
Não explicou o motivo, não chorou. pegou a bolsa, saiu pela porta dos fundos e caminhou até a creche da Isadora, que ficava a seis quarteirões.
Caminhou no mesmo ritmo de sempre, sem correr, sem parar, olhando para a frente como quem está atravessando uma rua movimentada e não pode desviar a atenção.
Quando chegou à creche, pediu para assinar a saída antecipada.
A funcionária perguntou se estava tudo bem. Cláudia respondeu que sim, que ia levar a menina porque tinha uma consulta.
Isadora saiu de mão dada com a mãe falando sobre um desenho que tinha feito, uma casa com uma árvore e um sol amarelo. Cláudia ouviu tudo. Respondeu nos momentos certos. segurou a mão da filha com a firmeza de quem segura a única coisa sólida que resta no mundo.
Em casa, deu banho na menina, fez janta e assistiu a um desenho com ela no sofá.
Às 8 da noite, quando Isadora dormiu, Cláudia sentou na beira da cama do casal e ficou parada.
Não ligou a televisão, não pegou o celular, ficou parada por um tempo que ela depois não conseguiu estimar. Podia ter sido 20 minutos ou 2 horas. Então ligou para dona Edilene, a mãe de Renato, que morava em Itaquatiara.
Dona Edilene atendeu no segundo toque, como sempre. Cláudia disse: “O Renato sumiu na montanha”. Dona Edilene perguntou: “Como assim sumiu? Cláudia repetiu o que sabia. Dona Edilene ficou em silêncio. Um silêncio longo, pesado, que Cláudia ouviu pelo telefone, como se estivesse ouvindo o interior de uma daquelas fendas. Nos dias seguintes, Cláudia tomou as decisões que ninguém ensina a tomar. Foi à delegacia mais próxima e registrou o boletim de ocorrência. E o escrivão perguntou se havia indício de crime. Ela disse que não sabia.
Ele registrou como desaparecimento.
Depois foi ao sindicato da categoria de Renato para informar a situação e saber sobre os direitos trabalhistas.
Depois foi ao banco para pedir o desbloqueio da conta conjunta, porque o salário de Renato caía ali e ela precisava do dinheiro para pagar o aluguel. Cada uma dessas tarefas exigia uma explicação. Cada explicação exigia repetir a mesma frase: “Meu marido desapareceu no Monte Roraima”. E cada vez que repetia, a frase parecia mais irreal e mais definitiva ao mesmo tempo.
Os vizinhos souberam em poucos dias.
Numa rua do bairro Cidade Nova, a notícia corre rápido. Dona Marta, a vizinha da frente, apareceu com uma travessa de macarrão e ficou na porta sem saber o que dizer. O porteiro do prédio passou a cumprimentar Cláudia com um aceno de cabeça mais lento, mais cuidadoso, como se o gesto precisasse comunicar alguma coisa que as palavras não davam conta. A mãe de uma coleguinha de Isadora na creche mandou mensagem oferecendo ajuda. Cláudia agradeceu e não respondeu mais. O que ninguém via era o que acontecia depois que Isadora dormia. Cláudia sentava na sala, pegava o celular e lia as últimas mensagens trocadas com Renato. A última dele era um áudio de 11 segundos enviado no dia 3 de fevereiro, quando ele chegou à vila.
Chegamos. Tá tudo bem. A estrada foi longa, mas tá tudo certo. Amanhã cedo a gente sobe. Te amo. Fala pra Isa que o pai tá mandando beijo. Cláudia ouvia esse áudio todas as noites, todas.
Durante do anos. O caso de Renato Maciel de Souza entrou no sistema como mais um entre centenas de desaparecimentos registrados no estado de Roraima naquele ano. O boletim de ocorrência foi lavrado na delegacia especializada em proteção à pessoa em Boa Vista. A ficha incluía foto 3×4, altura de 1,75 m, peso estimado de 78 kg, uma cicatriz de queimadura de solda no antebraço esquerdo e o registro de uma restauração dentária em ouro no segundo pré-molar inferior direito. O nome foi inserido no Sinalid, o sistema nacional de informações sobre pessoas desaparecidas com status ativo. Nas primeiras semanas houve movimento. O delegado titular ouviu Valdir, Thago e Davi em depoimentos separados.
Os três relatos coincidiam em tudo.
Horário da última vez que viram Renato, mal estado emocional dele durante a expedição, rotina no acampamento, o hábito de sair cedo. Raimundo foi ouvido por telefone. Estava em Parai Puiui e não podia se deslocar até a capital com facilidade. Seu depoimento foi registrado por escrito e assinado por um oficial de justiça itinerante que passou pela vila três semanas depois. Raimundo confirmou tudo o que os outros disseram e acrescentou apenas uma observação.
O rapaz tinha interesse pelas fendas, mais do que o normal. O delegado pediu laudo pericial do local, mas o estado de Roraima não dispunha equipe de perícia capaz de subir ao topo do Tepui e realizar varredura técnica na área. A solicitação foi encaminhada ao ICM Bio, que respondeu que a área era de preservação ambiental e que qualquer operação adicional precisaria de autorização específica. A autorização demorou e quando chegou já era abril e a temporada de chuvas tornava a subida ao topo arriscada demais para uma equipe não especializada em montanha. O inquérito ficou parado. Cláudia ligava para a delegacia a cada 40 dias, mais ou menos, sempre à tarde, depois de buscar Isadora na escola, sempre com a mesma pergunta: “Tem alguma novidade sobre o caso do Renato? E a resposta era sempre a mesma, dita com educação e sem esperança, ainda sem novidades, senhora.
Estamos acompanhando.
Acompanhando o que ela nunca perguntou, talvez porque soubesse que a resposta seria pior do que o silêncio. Dona Edilene viajou duas vezes de Itaquatiara a Manaus para ficar com Cláudia e a neta. Na primeira vez ficou 15 dias, na segunda quase um mês. As duas mulheres dividiam a rotina da casa sem falar muito sobre Renato. Dona Edilene cozinhava e Cláudia trabalhava. Isadora ia à escola. À noite, depois que a menina dormia, as duas sentavam na cozinha e tomavam café sem açúcar, ouvindo o barulho do ventilador de teto que girava devagar com aquele rangido que apartamento antigo tem. De vez em quando, dona Edilene dizia: “Eu sei que ele tá vivo”. E Cláudia não concordava nem discordava. olhava para a xícara e respondia: “Eu sei que a senhora acredita.” Com o tempo, o cotidiano foi preenchendo os espaços que Renato tinha deixado. Cláudia mudou o horário do salão para poder levar e buscar Isadora na escola. passou a fazer unhas em domicílio para complementar a renda, porque o salário de Renato parou de cair na conta depois de 90 dias e a empresa não sabia como classificar a situação.
Não era demissão, não era licença, não era óbito. E o RH mandou e-mail perguntando se ela tinha atestado de óbito. Ela respondeu que não. O e-mail seguinte veio do jurídico pedindo que procurasse a Defensoria Pública para regularizar a situação. Cláudia procurou. A Defensoria informou que sem corpo a declaração de morte presumida só poderia ser requerida após 2 anos de ausência mediante processo judicial. Ela agradeceu e saiu. Isadora foi crescendo.
Passou a perguntar pelo pai com menos frequência, mas com mais precisão. Aos 4 anos perguntava quando o papai volta.
Aos cinco perguntava onde o papai está.
Aos seis parou de perguntar. Cláudia notou a mudança e não sabia se era alívio ou se era uma perda dentro da perda. No bairro, as pessoas pararam de mencionar o assunto. É assim que funciona. Nos primeiros meses, todo mundo comenta, todo mundo oferece ajuda e todo mundo tem uma teoria. Depois de um ano, o nome do desaparecido vai sumindo das conversas como tinta que desbota no sol.
Não por maldade, por incapacidade.
As pessoas não sabem conviver com o indefinido.
Precisam de um desfecho, qualquer um, para seguir em frente. E quando o desfecho não vem, o silêncio ocupa o lugar. O apartamento continuava igual. A mochila de trilha de Renato ficou no armário do quarto, dentro de um saco plástico, com todas as coisas que os bombeiros devolveram. A garrafa de água pela metade, a bolsa de remédios com o bilhete de Cláudia ainda dentro, uma camiseta térmica, um par de meias limpas, a bota esquerda que foi recuperada da fenda. Cláudia não abriu o saco durante os dois anos. sabia que se abrisse ia sentir o cheiro dele e que se sentisse o cheiro dele e a estrutura que ela tinha montado com tanto cuidado.
Aquela rotina de levar Isador a trabalhar, voltar, dormir, repetir, ia ruir de uma vez. O caderninho de capa preta nunca foi devolvido, nunca foi encontrado. E essa era talvez a ausência que mais incomodava Cláudia.
Porque no caderninho estavam as últimas palavras que Renato escreveu, as coordenadas da fenda que ele queria revisitar, as anotações sobre o silêncio do topo, a frase sublinhada. Dizem que no topo do Roraima não se ouve nada. Se alguém tivesse encontrado aquele caderninho, talvez soubesse para onde Renato foi naquela madrugada.
Mas o monte Roraima não devolve o que engole. pelo menos não inteiro e não quando a gente espera. Em abril de 2021, Li uma equipe de quatro pesquisadores do Departamento de Geologia da Universidade Federal de Roraima subiu ao topo do TEPUI para realizar um mapeamento de fendas verticais.
O projeto era acadêmico, financiado por uma verba do CNPQ e tinha como objetivo catalogar as gretas do platô segundo profundidade, composição mineralógica e presença de microrganismos em ambientes de baixa temperatura.
Nenhum dos pesquisadores sabia do caso de Renato Maciel, ou se sabia, não associou o nome à montanha. O responsável técnico pelo rapel era um geólogo de 37 anos chamado Marcos Herculano, que já havia descido em cavernas no Parque Estadual de Terra Ronca, em Goiás e em Dolinas, no norte de Minas. Seberculano tinha experiência com espaços confinados e com a claustrofobia peculiar de descer de cabeça para dentro de uma fissura na rocha, sem saber o que há embaixo. No sexto dia de trabalho no topo, a equipe chegou a uma fenda que não constava em nenhum mapa anterior. ficava a noroeste do acampamento padrão dos turistas, numa área que Raimundo Batista teria reconhecido. Era próxima da região onde a marca no arenito havia sido encontrada dois anos antes. A boca da fenda media cerca de 70 cm de largura e era parcialmente coberta por uma formação de arenito que funcionava como um beiral natural. Se a pessoa não estivesse procurando, passava reto. Herculano desceu primeiro com equipamento de rapel completo e uma lanterna de alta potência presa ao capacete.
A fenda se alargava com a profundidade e formando aquele formato de sino invertido que os geólogos chamam de abertura subsuperficial.
As paredes eram lisas, escuras, com veios de quartzo que refletiam a luz da lanterna em filetes brancos. A temperatura caiu de forma abrupta nos primeiros metros. No topo marcava 15º. A 4 m de profundidade já estava em oito. A 10 m em tr a 14 m a fenda se estreitava de novo. E foi ali que a lanterna iluminou algo que Herculano levou alguns segundos para processar.
Havia um corpo humano preso entre as duas paredes de rocha.
estava de cabeça para baixo. Os pés apontavam para cima, encaixados no trecho, onde a fenda começava a se estreitar na parte superior. Os braços estavam rentes ao tronco, como se tivessem sido pressionados contra o corpo pela própria largura da passagem.
E a cabeça, ou o que restava visível dela, porque o capacete da lanterna iluminava de cima, estava voltada para baixo, com o queixo encostado numa saliência de rocha que impedia a descida completa. O corpo estava inteiro, não havia decomposição visível. A pele tinha uma coloração acinzentada, quase cerosa.
A roupa, uma calça de trilha bege e uma camiseta térmica escura estava intacta, sem rasgos, sem manchas aparentes de sangue. No pé direito, uma bota marrom modelo Timberland amarrada. Herculano parou a descida, manteve a posição e chamou a equipe pelo rádio. A voz dele, segundo os colegas que ouviram, estava firme, mas mais lenta do que o normal, como se cada palavra precisasse de um esforço extra para sair. Ele disse: “Tem um corpo aqui embaixo, de cabeça para baixo, parece conservado. Nossa! A equipe subiu as fotos por rádio para a base na vila. A base acionou a Polícia Civil de Boa Vista. A Polícia Civil acionou o Corpo de Bombeiros. O ICM Bio foi notificado. Em menos de 6 horas, o topo do Monte Roraima, que normalmente recebe turistas com mochilas coloridas e câmeras fotográficas, se transformou em cena de ocorrência. A temperatura no interior da fenda, medida pelos sensores da equipe de geologia, era de 2 graados, constante, dia e noite, verão e inverno.
Aquela fenda funcionava como uma câmara frigorífica natural, isolada do calor da superfície pelas próprias paredes de arenito. Era isso que explicava a conservação.
frio tinha preservado o corpo de Renato Maciel de Souza durante 2 anos e dois meses com uma eficiência que nenhum planejamento humano teria conseguido.
Mas o frio não explicava tudo, não explicava a posição, não explicava os braços colados ao tronco e não explicava a bota. O resgate do corpo levou três dias. A fenda não permitia acesso lateral. A única entrada era por cima, pela boca de 70 cm que a equipe de geologia havia identificado.
O Corpo de Bombeiros de Boa Vista enviou uma equipe especializada em resgate vertical. Quatro profissionais com formação em espaço confinado e experiência em cavernas. subiram ao topo no dia seguinte, acompanhados de um perito criminal e um médico legista que aceitou fazer a subida sob protesto porque tinha 58 anos e joelho operado. O primeiro problema foi a largura. A 14 m de profundidade, a fenda tinha menos de 50 cm de espaço livre ao redor do corpo.
Não havia como usar maca rígida. A solução foi improvisar um sistema de tiras de resgate, passando faixas por baixo dos braços e ao redor do tronco para puxar o corpo para cima milímetro a milímetro, sem deixá-lo bater nas paredes. O processo levou 14 horas, divididas em dois turnos, com pausas para troca de equipe e verificação de ancoragem. Quando o corpo chegou à superfície, já era noite. A equipe o depositou numa lona estendida sobre a rocha e o médico legista fez o primeiro exame visual sob luz de lanterna. Depois de dois anos dentro da fenda, o rosto de Renato estava irreconhecível pela coloração, mas as feições estavam preservadas, os olhos estavam fechados, a boca entreaberta, não havia expressão de dor nem de pânico no rosto, pelo menos não uma que fosse possível identificar naquele estado. O corpo foi embalado em saco mortuário, colocado numa maca de lona e descido do Tepui no dia seguinte, carregado por bombeiros e guias Pemon numa operação que levou 11 horas. De Paraitepui, foi transportado de ambulância até Boa Vista, um percurso de quase 6 horas por estrada. Chegou ao IML na madrugada do dia 21 de abril de 2021. A identificação formal levou menos de 24 horas. A arcada dentária bateu com o registro da ficha do sinalid. A restauração em ouro no segundo pré-molar inferior direito era inequívoca.
A cicatriz de queimadura de solda no antebraço esquerdo também foi confirmada. Renato Maciel de Souza, 31 anos na data do desaparecimento.
33. se estivesse vivo. O laudo de necropsia foi concluído em cinco dias. A causa da morte foi registrada como hipotermia acentuada em associação com trauma crânio encefálico por impacto contuso necompatível com queda em desesnível. Em linguagem simples, ele bateu a cabeça ao cair e morreu de frio.
Mas o laudo tinha ressalvas, e eram as ressalvas que transformaram um caso de acidente em algo que o delegado, ao ler o documento, sublinhou com caneta vermelha. Primeira ressalva, a posição do corpo, de cabeça para baixo, com os braços rentes ao tronco em mecânica de queda, e o perito criminal foi enfático nesse ponto. O reflexo humano ao cair é estender os braços. é involuntário, é neurológico.
Mesmo em queda de uma pessoa inconsciente, os membros tendem a se abrir. Encontrar um corpo com os braços colados ao tronco dentro de uma fenda que se estreita progressivamente sugere uma de duas possibilidades.
A pessoa desceu de forma controlada, pés primeiro. Nasce fenda a inverteu ao se estreitar, o que exigiria que ela entrasse de propósito. Ou a pessoa foi inserida já imóvel, com os braços posicionados antes da descida. Nenhuma das duas possibilidades é simples.
Segunda ressalva, a roupa. A calça de trilha e a camiseta térmica estavam intactas, sem rasgos, sem marcas de arrasto, sem sinais de atrito com a rocha. Se Renato tivesse caído ou escorregado pela fenda, a pedra teria deixado marcas no tecido. O arenito do Roraima é abrasivo, desgasta couro de bota em poucas horas de caminhada. Duas paredes desse material pressionando um corpo por 14 m de descida, não deixariam a roupa intacta. Terceira ressalva, e essa foi a que mais perturbou os investigadores, a bota direita. Renato calçava apenas uma bota a do pé direito.
A esquerda havia sido encontrada dois anos antes, limpa e encaixada numa fenda diferente, a 600 m de distância.
Mas a bota do pé direito, a que ele ainda calçava, estava amarrada com um nó borboleta duplo, um nó de escalada técnica usado para criar laço fixo em cordas de segurança. Renato não praticava escalada técnica, nunca fez curso, não tinha equipamento de escalada. Quem usava esse nó entre os quatro do grupo era Thago Freitas, o instrutor de escalada. Tiago foi ouvido novamente. Disse que não amarrou a bota de Renato em nenhum momento da expedição.
Disse que não ensinou o nó a ninguém.
Disse que na noite do dia 6 todos dormiram antes das 10 e ele não ouviu nada durante a madrugada. O depoimento foi registrado, comparado com os anteriores e considerado coerente, mas o nó continuava ali e ninguém sabia explicar como. O inquérito foi reaberto em maio de 2021 e, por determinação do delegado titular da Delegacia de Proteção à Pessoa com base nas ressalvas do laudo pericial.
A reabertura não significava que houvesse suspeito. Significava que o caso não podia ser encerrado como acidente sem que as inconsistências fossem ao menos investigadas.
Valdir, Tiago e Davi foram ouvidos pela quarta vez. Os depoimentos foram longos, quase 3 horas cada um. Desta vez, o delegado explorou detalhes que não haviam sido aprofundados antes. Quem dormiu onde? Dentro da barraca, quem acordou durante a noite? Quem tinha acesso ao equipamento de escalada de Thago, quem sabia dar nó borboleta duplo. As respostas foram consistentes.
Nenhuma contradição, nenhuma hesitação que chamasse atenção. Os três contaram a mesma história que já haviam contado antes, mas com o mesmo nível de detalhe e o mesmo tom de quem revive uma coisa que preferia esquecer, mas não consegue.
Raimundo Batista foi ouvido presencialmente desta vez. Viajou até Boa Vista a pedido formal da delegacia.
Manteve tudo o que já havia declarado e acrescentou uma informação que não tinha mencionado antes porque ninguém havia perguntado. Na noite do dia 6 para o dia 7, ele acordou uma vez por volta das 3 da manhã para urinar. saiu da barraca, andou uns 10 passos e olhou na direção do acampamento do grupo. Não viu movimento, não ouviu nada além do vento, voltou a dormir. Quando o delegado perguntou porque não tinha mencionado isso nos depoimentos anteriores, Raimundo respondeu com simplicidade: “Porque ninguém perguntou se eu acordei durante a noite e porque eu não vi nada.
O Ministério Público de Roraima recebeu o inquérito em agosto de 2021. O promotor designado analisou o laudo pericial, os depoimentos, o relatório de busca e as fotografias da fenda. Em setembro, emitiu parecer pelo arquivamento com uma ressalva formal que ficou registrada em ata. As condições em que o corpo foi encontrado, posição, estado da roupa, tipo de nó na bota, não são plenamente compatíveis com a hipótese de acidente por queda acidental. Porém, não há elementos suficientes para sustentar hipótese alternativa.
Recomenda-se a preservação integral dos autos para eventual reabertura caso surjam novos fatos. O caso foi arquivado. O atestado de óbito de Renato Maciel de Souza foi emitido no dia 14 de junho de 2021, com base no laudo do SCM ML e na identificação positiva. Causa da morte, hipotermia e trauma craniano e local da morte. Monte Horaima, município de Uiramutã, estado de Roraima. Data estimada da morte. Entre 7 e 9 de fevereiro de 2019, Cláudia recebeu o documento num envelope pardo, entregue por um oficial de justiça, que tocou a campainha do apartamento numa terça-feira à tarde.
Assinou o recibo, fechou a porta e sentou na mesa da cozinha. Ficou olhando para o papel durante um tempo que ela não cronometrou.
Depois guardou na gaveta onde ficavam os documentos do casamento, a certidão de nascimento de Isadora e a última conta de telefone que Renato pagou antes de viajar. Naquela noite, depois do jantar, Cláudia entrou no quarto de Isadora e sentou na beira da cama. A menina tinha 6 anos e meio, já sabia ler, já sabia que o pai não estava em viagem. Cláudia disse que precisava contar uma coisa.
lhe disse que os bombeiros tinham encontrado o pai, que ele não ia voltar, que estava num lugar muito alto e muito frio, e que agora ia descansar.
Isadora ouviu em silêncio. Não chorou, não fez as perguntas que Cláudia esperava. Por que, como? quando fez uma só uma pergunta que Cláudia repete até hoje para quem quiser ouvir, porque é a pergunta que nenhum laudo, nenhum inquérito e nenhum parecer do Ministério Público conseguiu responder se ele estava perdido porque ninguém acendeu uma luz para ele? Cláudia não respondeu, abraçou a filha, deitou ao lado dela e ficou ali até as duas dormirem. O ventilador de teto continuou girando com aquele rangido de sempre. O celular de Cláudia ficou na mesa de cabeceira com a tela apagada, com o último áudio de Renato Salvo na conversa do WhatsApp.
Nunca apagado, nunca encaminhado, nunca mostrado para ninguém além de dona Edilene. Chegamos. Tá tudo bem. A estrada foi longa, mas está tudo certo.
Amanhã cedo a gente sobe. Te amo. Fala para Isa que o pai tá mandando beijo. O corpo de Renato Maciel de Souza foi sepultado no cemitério Nossa Senhora Aparecida em Manaus no dia 20 de junho de 2021. Foram ao enterro. Cláudia, Isadora, dona Edilene, Valdir, a esposa de Valdir, Davi Lucena e quatro colegas do trabalho de Renato. Thiago Freitas não foi, mandou uma coroa de flores com um cartão que dizia apenas “Descansa, irmão”. A fenda onde o corpo foi encontrado foi catalogada pela equipe de geologia da UFR como fenda NW17 com coordenadas registradas no sistema do ICM bio. Não recebeu nome, não foi interditada.
Continua ali com a boca de 70 cm parcialmente coberta pelo beiral de arenito. Luz num trecho do platô por onde turistas passam sem saber o que havia dentro. A temperatura lá embaixo continua sendo de 2º.
O caderninho de capa preta de Renato nunca foi encontrado e o nó borboleta duplo na bota direita nunca foi explicado. Histórias como a de Renato Maciel de Souza não terminam com o arquivamento de um inquérito.
Não terminam com um atestado de óbito guardado numa gaveta, nem com uma sepultura num cemitério de Manaus.
terminam, se é que terminam, no momento em que a última pessoa que se lembra para de perguntar e mesmo assim talvez não terminem. O que sobra de um caso como esse não são as evidências técnicas, os laudos periciais, os depoimentos tomados quatro vezes. O que sobra é o peso silencioso que carregam as pessoas que ficaram. Uma mulher que ouve o mesmo áudio de 11 segundos todas as noites durante do anos. Uma mãe em Itaquatiara que continua dizendo: “Eu sei que ele tá vivo mesmo depois de ver o atestado de óbito.” Uma menina que aos 6 anos faz a única pergunta que importa e que ninguém consegue responder. Não sabemos o que aconteceu naquela madrugada. Não sabemos porque Renato saiu da barraca, para onde foi, porque estava com uma bota só. Como acabou de cabeça para baixo numa fenda que ninguém conhecia.
O inquérito não sabe, os peritos não sabem, os companheiros de trilha não sabem. E talvez o Monte Roraima, com seus 2 bilhões de anos de existência também não saiba ou não se importe.
Existem casos que a investigação resolve e casos que a investigação apenas documenta.
Este foi documentado. As perguntas ficaram e ficaram não porque alguém tenha sido negligente, mas porque há situações em que o terreno é maior do que a capacidade humana de compreendê-lo.
Um platô de 31 km² cortado por fendas que nunca foram mapeadas por completo. Onde o sinal não chega, onde o som não se propaga, onde a temperatura muda em poucos metros, como se o mundo tivesse regras diferentes ali dentro. Renato procurava silêncio.
Encontrou de uma forma que ninguém escolheria. E Cláudia ficou com o barulho. O barulho do ventilador, o barulho da rotina, o barulho de criar uma filha sozinha numa cidade que segue em frente sem esperar por ninguém. Se ele estava perdido, por que ninguém acendeu uma luz para ele? Algumas perguntas não são feitas para ter resposta, são feitas para não deixar a gente esquecer antes de encerrar.
Há um outro caso que cruzou minha mesa e que não consigo deixar de mencionar.
Também envolve a Serra do Caparaó, também envolve uma trilha conhecida, um jovem experiente e um desaparecimento sem explicação, mas este tem uma diferença que muda tudo. Ele voltou. Qu anos e três meses depois, um rapaz de 24 anos que sumiu no caminho do pico da bandeira foi encontrado caminhando sozinho por uma estrada secundária a 30 km do parque, vivo, consciente, capaz de falar. O que ele contou sobre onde esteve durante aqueles anos não fecha com nenhuma explicação lógica. A caverna que descreveu com precisão nunca foi localizada.
Ele sabia de acontecimentos que ocorreram enquanto estava desaparecido.
E a última foto registrada na câmera dele mostra uma silhueta dentro de uma fenda rochosa que os analistas não conseguiram identificar.
O vídeo que aparece na sua tela agora conta essa história do início. Tem coisa que a serra devolve, mas não do jeito que a gente espera.