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CAMINHONEIRO SOME NA ESTRADA E DESAPARECE PARA SEMPRE… 2 ANOS DEPOIS, SUA CARETA É ENCONTRADA A 1.600 KM NA DIREÇÃO TOTALMENTE ERRADA!

Roberto Mendes nunca imaginou que ao aceitar aquele frete para Belém do Pará, estaria embarcando numa jornada que desafiaria as leis da física e da realidade. O Scania 113H azul claro, modelo 1995, estava impecavelmente conservado para seus 28 anos de estrada. Roberto havia comprado o caminhão usado 3 anos antes, mas cuidava dele como se fosse um filho.
Era uma terça-feira. 14 de março de 2023, quando Roberto recebeu a ligação que mudaria tudo, estava em casa em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, assistindo televisão com a esposa Marlene e os dois filhos quando o telefone tocou.
“Roberto, sou eu, Carlinhos”, disse a voz familiar do outro lado da linha.
Carlos Santos era um corretor de fretes conhecido que sempre conseguia trabalhos bons para Roberto. Tenho um frete urgente para você. Boa grana. Roberto abaixou o volume da televisão. Fala, Carlinhos. Qual é? Precisa levar uma carga de materiais de construção para Belém. O Gara está pagando 15.000 limpos. Pra apertado, mas é uma grana boa. Roberto fez uma conta rápida, R$ 15.000. R para ir até Belém era realmente um bom dinheiro. A viagem levaria cerca de 4 dias, ida e volta, e sobraria um lucro considerável depois dos custos.
Que tipo de material? Perguntou Roberto.
Ferragens, tubulações, materiais elétricos, tudo certinho, documentado. O cliente é uma construtora grande lá de Belém, fazendo um empreendimento na região metropolitana.
Roberto olhou para Marlene, que balançou a cabeça positivamente. Eles estavam precisando do dinheiro. A prestação do caminhão vencia no final do mês e ainda tinham contas da escola dos meninos para pagar. Tá bom, quando preciso carregar.
Amanhã de manhã cedo, a empresa fica em queimados. Te mando o endereço agora.
Depois de acertar os detalhes, Roberto desligou o telefone. Marlene se aproximou com aquela expressão preocupada que sempre fazia quando ele ia viajar para muito longe. “Belém é longe, Roberto”, disse ela, pousando a mão no braço dele. São mais de 2.000 km.
Eu sei, amor, mas é uma grana boa. E você sabe que eu conheço bem essa rota.
Já fui para o norte várias vezes. Só vai com cuidado. Essa estrada é perigosa, especialmente no Maranhão e Pará.
Roberto era um homem experiente. Aos 45 anos, dirigia caminhões há mais de 20 anos. Conhecia as estradas brasileiras como poucos, especialmente as rotas do norte e nordeste. Havia começado como ajudante do sogro ainda jovem e aos poucos foi aprendendo a profissão até conseguir comprar seu próprio caminhão.
O Scania 113 H azul claro era seu orgulho. Mesmo sendo um modelo mais antigo de 1995, Roberto o mantinha em perfeito estado. O motor V8 ronronava como se fosse novo. A cabine estava sempre limpa e organizada e a pintura azul brilhava ao sol. No painel, uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida dividia espaço com uma de São Cristóvão, santo padroeiro dos motoristas. Na quarta-feira de manhã, Roberto saiu cedo de casa, beijou Marlene e os filhos, Robson de 16 anos, e Rafaela de 13, e seguiu para Queimados, onde faria o carregamento. A empresa distribuidora ferreira Encia estava movimentada. Vários caminhões faziam fila para carregar diferentes tipos de mercadorias.
Roberto apresentou-se no escritório e recebeu a documentação da carga. Senhor Roberto, perguntou um homem de meia idade, magro, usando óculos. Sou Joaquim, responsável pelo carregamento.
O senhor vai levar material para a construtora Amazônia em Belém. Isso mesmo, confirmou Roberto, conferindo os documentos. São 25 toneladas de material, ferragens, tubos de PVC, fios elétricos, conexões, tudo de primeira qualidade. O prazo é até sábado. Roberto fez as contas. Era quinta-feira de manhã, dirigindo direto, com paradas apenas para descanso obrigatório, chegaria em Belém na sexta-feira à noite ou sábado de manhã. Era apertado, mas factível. Moleza”, disse Roberto. “Vocês podem carregar. O carregamento levou 3 horas. A carga foi bem amarrada e protegida com lona. Roberto conferiu tudo duas vezes, assinou os documentos e se preparou para partir.” “Boa viagem, seu Roberto”, disse Joaquim. “Qualquer problema, me liga.” Roberto acenou e ligou o motor do Scania. O V8 rugiu satisfeito e ele seguiu em direção à rodovia Presidente Dutra, primeira etapa da longa jornada até Belém. A rota que Roberto planejara era a clássica para quem vai ao norte. Dutra até São Paulo, Fernão Dias até Belo Horizonte, BR040 até Brasília e então a BR153 até Palmas, seguindo pela BR230 através do Maranhão, até chegar ao Pará.
O primeiro dia de viagem transcorreu normalmente.
Roberto passou por São Paulo no final da tarde, pernoitou num posto conhecido na região de Campinas e na quinta-feira de manhã seguiu viagem em direção a Belo Horizonte. Foi quando ligou para casa, por volta das 10 horas da manhã de quinta-feira que deu o primeiro sinal de vida após sair do rio. “Oi, amor”, disse Marlene quando atendeu o telefone. “Como está a viagem? Tudo tranquilo. Estou passando por Belo Horizonte agora. A estrada está boa, pouco trânsito. E a previsão quando chega em Belém? Se tudo correr bem, amanhã à noite ou sábado de manhã. Vou dirigir mais um pouco e parar para descansar lá por Brasília. Está bem. Se cuida, tá? E não força muito.
Para e descansa direito. Pode deixar. Te amo. Eu também te amo. Vai com Deus.
Essa foi a última conversa que Marlene teve com o marido. Roberto seguiu viagem conforme planejado. Passou por Brasília na tarde de quinta-feira e decidiu pernoitar num posto na entrada de Goiás.
Na sexta-feira de manhã, bem cedo, retomou a viagem em direção ao norte. A BR153, conhecida como transbrasiliana, é uma das principais rodovias do país, cortando o Brasil de norte a sul. No trecho entre Goiás e Tocantins, a estrada passa por regiões pouco povoadas, com longas extensões de serrado e pequenas cidades espalhadas a grandes distâncias. Foi em algum ponto desse trajeto que Roberto Mendes simplesmente desapareceu.
Marlene começou a ficar preocupada na sexta-feira à noite, quando Roberto não ligou como prometera. Ele tinha o hábito de ligar todos os dias durante as viagens. Especialmente quando estava longe de casa. No sábado de manhã, ela ligou para o celular dele, chamou até cair na caixa postal. Tentou várias vezes durante o dia. Nada. No domingo, Marlene já estava desesperada.
Ligou para Carlinhos, o corretor de fretes, que disse não ter tido notícias de Roberto desde quinta-feira.
Ele deveria ter chegado em Belém ontem”, disse Carlinhos, também preocupado. “Vou ligar para o cliente lá e ver se souberam alguma coisa”. A construtora em Belém não havia recebido a carga.
Roberto não havia entrado em contato com eles, nem aparecido no endereço de entrega. Na segunda-feira, Marlene foi à delegacia registrar o desaparecimento.
O delegado, um homem experiente, a recebeu com seriedade.
Senhora Marlene, vamos fazer tudo o que for possível para encontrar seu marido, disse o delegado Martins. Mas preciso que a senhora entenda. A extensão das estradas brasileiras é imensa. Às vezes, os caminhoneiros têm problemas mecânicos em lugares remotos, ficam sem comunicação por dias, mas já fazem quatro dias, protestou Marlene. Ele sempre liga, sempre. Eu entendo. Vamos enviar comunicado para todas as polícias rodoviárias da rota que ele fez e também para os hospitais da região. Nos dias seguintes, Marlene ligou para todos os postos de combustível, hospitais e delegacias da rota entre Rio de Janeiro e Belém. Ninguém havia visto Roberto ou seu Scania azul. Carlinhos, o corretor, também se mobilizou. tinha contatos com outros caminhoneiros e despachantes e espalhou a notícia do desaparecimento.
A descrição do caminhão Scania 113 H azul claro, placa do Rio de Janeiro, foi divulgada em grupos de WhatsApp de caminhoneiros por todo o país. Uma semana se passou, duas semanas, um mês.
Roberto Mendes e seu Scania azul haviam simplesmente evaporado. A Polícia Rodoviária Federal fez buscas em toda a rota planejada. Verificaram hospitais, delegacias, postos de combustível, checaram registros de acidentes, multas, passagens em pedágios. Nada. O mais estranho era que não havia nenhum registro eletrônico da passagem do caminhão pelos pedágios da rota. Roberto pagava sempre com cartão que deixava rastro digital, mas não havia cobrança nenhuma no cartão dele após quinta-feira de manhã, quando passou pelo último pedágio antes de Brasília. Marlene não desistia.
Todos os dias ligava para a polícia, para hospitais, para qualquer lugar onde Roberto pudesse estar. Colocou cartazes com a foto dele e do caminhão em postos de combustível por toda a rota norte. Os filhos, Robson e Rafaela, ficaram devastados.
Robson, o mais velho, tentava ser forte para ajudar a mãe, mas Rafaela, de apenas 13 anos, não conseguia entender como o pai podia simplesmente desaparecer.
“Ele vai voltar, né, mãe?”, perguntava Rafaela todas as noites antes de dormir.
“Vai, meu amor”, respondia Marlene, tentando manter a esperança. “Papai é forte e esperto. Ele vai encontrar um jeito de voltar para casa”. Mas conforme os meses passavam, essa esperança ia se tornando mais difícil de manter. A situação financeira da família ficou complicada. Roberto era o único provedor da casa e com seu desaparecimento, a renda cessou completamente.
Marlene teve que voltar a trabalhar.
Havia parado quando Rafaela nasceu e conseguiu um emprego como auxiliar de limpeza num hospital. A prestação do Scania continuou vencendo. Sem o caminhão e sem Roberto, Marlene não tinha como pagar. Depois de trs meses de atraso, o banco retomou o financiamento, mas como o caminhão havia desaparecido junto com Roberto, não havia nada para ser apreido. Um ano se passou. Marlene já havia passado pela raiva, pela negação, pela barganha. Agora vivia numa espécie de luto indefinido. Roberto não estava morto. Pelo menos não havia confirmação disso, mas também não estava vivo no sentido prático. Era como se existisse numa dimensão paralela, presente na memória, mas ausente da realidade.
Robson, que já estava no segundo ano do ensino médio, arrumou um emprego de meio período numa loja de autopeças para ajudar com as despesas.
Rafaela, que sempre foi uma aluna brilhante, começou a ter dificuldades na escola. As notas caíram, ela ficou mais retraída, perdeu interesse nas atividades que antes adorava. Eu só queria saber o que aconteceu com ele”, disse Marlene numa das muitas conversas que teve com a irmã Conceição.
Se ele morreu, eu quero enterrar o corpo. Se ele está vivo em algum lugar, eu quero saber onde. Essa incerteza está me matando. Conceição, que sempre foi a irmã mais prática, tentava convencer Marlene a seguir em frente. Marlene, já faz mais de um ano. Você precisa pensar nos meninos.
Eles precisam da mãe inteira, não dessa sombra que você virou.
Como eu vou seguir em frente sem saber o que aconteceu com o Roberto? Questionava Marlene. Como eu explico para os filhos que o pai simplesmente sumiu do mundo?
Era uma pergunta para a qual ninguém tinha resposta. No segundo ano após o desaparecimento, Marlene já havia se acostumado com a rotina de ligações para a polícia, hospitais e postos de combustível. Toda semana, religiosamente, ela fazia as mesmas ligações, perguntava as mesmas coisas, recebia as mesmas respostas negativas.
O delegado Martins, que inicialmente havia sido otimista, agora recebia Marlene com um olhar compassivo, mas resignado. Dona Marlene, já investigamos tudo o que era possível investigar. Não há vestígios do seu marido, nem do caminhão em lugar nenhum. É como se eles tivessem desaparecido do mundo.
Mas isso é impossível, insistia Marlene.
Um caminhão não some assim. É uma máquina de 40 toneladas. Como pode sumir sem deixar rastro?
Eu sei que é difícil de aceitar, mas às vezes essas coisas acontecem. O Brasil é um país continental. Há lugares remotos onde um caminhão pode ficar perdido por anos sem ser encontrado. Marlene saía da delegacia sempre com a mesma sensação de frustração e impotência, mas não desistia. Não podia desistir. Foi numa terça-feira, exatamente dois anos depois do desaparecimento de Roberto, que tudo mudou. Marlene estava no trabalho, limpando os corredores do hospital quando recebeu uma ligação no celular.
Era um número desconhecido de Rondônia.
“Alô, estou falando com Marlene Mendes”, perguntou uma voz masculina. Sotaque típico do norte. Sou eu, respondeu Marlene com o coração já acelerado.
Ligações de números desconhecidos sempre a deixavam ansiosa. Meu nome é Sebastião Rodriguez, sou policial rodoviário aqui de Porto Velho, Rondônia. A senhora é esposa de Roberto Mendes, dono de um Scania azul, placa do Rio de Janeiro.
Marlene quase deixou cair o telefone.
Sou Oceu? Vocês encontraram meu marido?
Senhora, a situação é um pouco complicada. A senhora poderia vir aqui a Rondônia ou tem algum parente que possa vir? Encontramos o caminhão do seu marido. Encontraram o caminhão? E o Roberto? Onde ele está? Houve uma pausa do outro lado da linha. Senhora, é melhor conversarmos pessoalmente, mas posso adiantar que o caminhão estava abandonado. Não havia ninguém nele.
Abandonado onde? Perguntou Marlene a voz tremendo. Numa estrada vicinal perto da fronteira com a Bolívia, muito longe da rota que ele deveria ter feito para chegar em Belém. Marlene sentiu as pernas bambearem. Porto Velho ficava na direção completamente oposta a Belém. Se Roberto estava indo para o Pará, o que seu caminhão estava fazendo em Rondônia?
Eu eu preciso ir até aí”, disse Marlene.
“Preciso ver o caminhão.” “A senhora pode vir sim, mas é importante que venha acompanhada e se prepare psicologicamente.
A situação é muito estranha.” Marlene desligou o telefone e imediatamente ligou para a Conceição, que veio buscá-la no hospital. Juntas foram até a casa de Marlene contar a novidade para os filhos.
Encontraram o caminhão do papai?
Perguntou Rafaela, os olhos brilhando de esperança. E o papai está com ele?
Marlene abraçou a filha, tentando encontrar as palavras certas. Não sabemos ainda, meu amor. O caminhão estava vazio, mas isso já é um começo.
Vamos descobrir o que aconteceu.
Robson, que agora estava com 18 anos e havia amadurecido muito nos últimos do anos, fez a pergunta que todos estavam pensando. Mãe, o que o caminhão do pai estava fazendo em Rondônia? Ele ia para Belém?
Não sei, filho, mas vamos descobrir. No dia seguinte, Marlene e Conceição pegaram um voo para Porto Velho. Era a primeira vez que Marlene saía do Rio de Janeiro desde o desaparecimento de Roberto. O coração batia acelerado durante toda a viagem.
O policial Sebastião as esperava no aeroporto. Era um homem de uns 50 anos, moreno, com bigode grisalho e uma expressão séria, mas gentil. Dona Marlene, perguntou se aproximando. Sou o investigador Sebastião. Muito prazer e sinto muito pela situação.
Obrigada por ternos ligado disse Marlene, apertando a mão dele. Onde está o caminhão do meu marido? está no pátio da polícia rodoviária, mas antes de ver o caminhão, gostaria de explicar como ele foi encontrado.
Eles foram para uma lanchonete no aeroporto, onde Sebastião contou a história. Na semana passada, recebemos uma denúncia de fazendeiros da região.
Havia um caminhão abandonado numa estrada vicinal que dá acesso a algumas propriedades rurais perto da fronteira com a Bolívia. A estrada é pouco movimentada, então o caminhão ficou lá muito tempo sem ser notado.
Quanto tempo? Perguntou Marlene, pelos sinais de deterioração. Pelo menos um ano, talvez mais. Estava coberto de mato, com pneus vazios, vidros sujos.
Parecia estar ali há muito tempo.
Conceição franziu a testa. Mas que estrada é essa? O Roberto estava indo para Belém, não para a Bolívia.
“Essa é a parte estranha”, disse Sebastião. A estrada onde encontramos o caminhão fica a mais de 300 km de Porto Velho, na direção oposta a qualquer rota que levaria para Belém. É uma estrada que só leva a fazendas de gado e de soja. Não há motivo nenhum para um caminhão vindo do Rio de Janeiro ir parar lá. Marlene sentiu um frio na espinha. E meu marido? Não havia nenhum sinal dele? Sebastião balançou a cabeça.
Nada. O caminhão estava vazio, mas havia algumas coisas estranhas dentro da cabine. Que tipo de coisas? É melhor a senhora ver pessoalmente. Vamos até o pátio. O pátio da Polícia Rodoviária Federal em Porto Velho era um grande terreno cercado, cheio de veículos apreendidos e acidentes.
No fundo, próximo a uma cerca, estava o Scania azul de Roberto. Marlene reconheceu o caminhão imediatamente, mesmo coberto de poeira e mato. Era impossível confundir aquele tom específico de azul claro, a configuração da cabine, os detalhes cromados que Roberto fazia questão de manter brilhando, mas o caminhão que estava diante dela era uma versão fantasmagórica do Scania que conhecia. A pintura estava desbotada e suja, os pneus estavam vazios e rachados, vidros embaçados pela umidade e poeira.
Plantas pequenas haviam crescido ao redor dos pneus, indicando que o veículo estava ali há muito tempo mesmo. “Meu Deus”, murmurou Marlene, se aproximando do caminhão. “É realmente o caminhão do Roberto”.
Sebastião abriu a porta da cabine com uma chave. “A senhora pode entrar e ver?” Marlene subiu na cabine, seguida por Conceição.
O interior estava empoeirado, mas surpreendentemente bem conservado. No painel, as imagens de Nossa Senhora Aparecida e São Cristóvão continuavam no lugar. Em a carteira de trabalho de Roberto estava no compartimento lateral junto com óculos de sol e alguns CDs de música sertaneja.
Está tudo como ele deixou”, disse Marlene, a voz embargada. “Mas onde ele está, dona Marlene?”, disse Sebastião.
“Tenho uma coisa que preciso mostrar para a senhora.” Ele apontou para o velocímetro. Marlene olhou e ficou confusa. Não viu nada de anormal. “Olhe a quilometragem”, disse Sebastião.
Marlene leu o número no odômetro, 487.32.
322 km.
Não entendia o que havia de estranho nisso. Qual era a quilometragem quando seu marido saiu de casa? Perguntou Sebastião. Marlene pensou um pouco.
Roberto sempre anotava a quilometragem antes de viajar para controle de consumo de combustível.
Era 485.000 e pouco. Ele tinha anotado no caderninho dele. Então, o caminhão rodou apenas cerca de 2000 km desde que saiu do rio disse Sebastião.
Mas a distância do Rio de Janeiro até aqui é de mais de 2.500 km.
Isso seguindo a rota mais direta. Se ele tivesse ido primeiro para Belém e depois viesse para cá, seriam mais de 4.000 km.
Marlene olhou novamente para o odômetro, tentando entender. Isso não faz sentido.
Tem mais, continuou Sebastião.
Encontramos combustível no tanque, quase meio tanque. Se o caminhão tivesse vindo rodando de tão longe, deveria estar quase vazio. Conceição, que havia permanecido calada, finalmente falou: “Vocês estão querendo dizer que esse caminhão apareceu aqui? Como? Por mágica? Sebastião deu de ombros. Não sei explicar. Só sei que os números não batem. E tem mais uma coisa.
Ele levou as duas mulheres até a carreta. A lona que cobria a carga estava rasgada em vários pontos, mas ainda era possível ver o que havia embaixo. “A carga”, disse Sebastião, “est aqui.” Marlene olhou para a carreta cheia de materiais de construção, as mesmas ferragens, tubos e fios elétricos que Roberto havia carregado em Queimados do anos antes. “Ele não entregou a carga”, murmurou Marlene. “Por que não entregou a carga? E porque a carga está em perfeito estado”, acrescentou Sebastião. “Se esse caminhão estivesse abandonado aqui a do anos, chuva, sol, umidade, a carga deveria estar deteriorada, mas está praticamente intacta”.
Marlene sentou-se no para-choque traseiro da carreta, tentando processar tudo aquilo. Nada fazia sentido. Como o caminhão de Roberto havia parado numa estrada vicinal em Rondônia, na direção oposta ao destino da viagem, como a quilometragem era tão baixa, como a carga estava preservada e principalmente onde estava Roberto, investigador Sebastião, disse Marlene. O senhor tem alguma teoria sobre o que aconteceu?
Sebastião coçou o bigode pensativo.
Dona Marlene, em 25 anos de polícia rodoviária, eu já vi de tudo. Acidentes, assaltos, sequestros, contrabando, mas nunca vi nada parecido com isso. O que o senhor acha que pode ter acontecido?
Honestamente, não sei. É como se o caminhão tivesse sido transportado para cá. Não chegou dirigindo, chegou de alguma outra forma. Conceição soltou uma risada nervosa.
Transportado como por aliens. Sebastião não riu. Sei que parece absurdo, mas não tenho outra explicação.
Eles passaram o resto da tarde examinando o caminhão e conversando com os fazendeiros da região. Todos confirmaram a mesma história. O caminhão havia aparecido na estrada vicinal durante a noite, cerca de um ano antes.
Ninguém o havia visto chegando, simplesmente estava lá na manhã seguinte. Era estranho”, disse um dos fazendeiros, “Um senhor de uns 60 anos chamado João. A gente conhece todos os veículos que passam por aqui. É uma estrada pequena, só leva as nossas propriedades.” Quando vi aquele caminhão azul parado lá, pensei que algum motorista tinha se perdido, mas depois que vi que não havia ninguém, ficou esquisito. “Por que não chamaram a polícia antes?”, perguntou Conceição. João deu de ombros. Aqui no interior a gente não se mete muito nos assuntos dos outros. Pensamos que o dono viria buscar. Como não veio, foi ficando.
E nunca viram o motorista, insistiu Marlene. Nunca. O caminhão simplesmente apareceu vazio naquela noite no hotel em Porto Velho. Marlene não conseguiu dormir. Ficou olhando para o teto, tentando entender o que havia acontecido com Roberto. Todas as teorias que conseguia imaginar eram impossíveis.
Se Roberto havia sofrido um acidente, onde estava o corpo? Se havia sido vítima de violência, porque deixaram o caminhão intacto com a carga valiosa? Se havia simplesmente abandonado a família, por que deixar o caminhão, seu meio de sobrevivência, abandonado numa estrada no meio do nada? Na manhã seguinte, Sebastião as levou para conhecer a estrada onde o caminhão foi encontrado.
Era uma estrada de terra batida, bem conservada, que serpenteava por fazendas de gado e plantações de soja. A paisagem era bonita, mas desolada. Casas eram raras. separadas por muitos quilômetros.
O local exato onde o Scania foi encontrado era numa curva da estrada, próximo a uma porteira que dava acesso a uma fazenda. Não havia nada de especial ali, nenhuma marca no chão, nenhum sinal de que algo extraordinário tivesse acontecido.
“Foi aqui”, disse Sebastião, apontando para uma área próxima à porteira.
O caminhão estava parado exatamente aqui, como se alguém tivesse estacionado com cuidado.
Marlene olhou ao redor. Era um lugar absolutamente comum. Pasto de um lado, plantação do outro, estrada de terra passando no meio. Nada que explicasse como ou por o caminhão de Roberto havia parado ali. Investigador, disse Marlene, eu quero levar o caminhão de volta para o rio. É possível? Claro. Vamos liberar o veículo. Só preciso que a senhora assine alguns documentos, mas vai precisar contratar um guincho ou um motorista para trazê-lo. Eu arranjo.
Quero que meus filhos vejam o caminhão do pai. Talvez nos ajude a entender o que aconteceu.
Conceição tocou no braço da irmã.
Marlene, você tem certeza? Pode ser muito doloroso para os meninos.
Eles têm direito de ver”, disse Marlene determinada. “É o caminhão do pai deles e quem sabe encontramos alguma pista que a polícia não viu.” Três dias depois, Marlene estava de volta ao Rio de Janeiro, mas sua cabeça continuava em Rondônia.
havia contratado um caminhoneiro conhecido para buscar o Scania e trazê-lo para o rio. A previsão era que chegasse na semana seguinte. Contar a história para Robson e Rafaela foi uma das coisas mais difíceis que Marlene já teve que fazer na vida. Como explicar que o caminhão do pai havia aparecido a 16 km na direção errada, sem explicação lógica?
Mãe, disse Robson, isso não é possível.
Um caminhão não se transporta sozinho.
Eu sei, filho, mas foi o que aconteceu.
Rafaela, agora com 15 anos, fez a pergunta que doía mais. Isso quer dizer que o papai está morto? Marlene abraçou a filha. Não sabemos, meu amor. O que sabemos é que ele não estava no caminhão quando foi encontrado.
Mas para onde ele foi? Insistiu Rafaela.
Era uma pergunta para a qual Marlene não tinha resposta. Quando o Scania chegou ao rio, Marlene pediu ao motorista que o levasse para um pátio perto de casa.
Queria examinar o caminhão com calma, procurar alguma pista que pudesse ter passado despercebida.
A primeira coisa que fez foi abrir o compartimento onde Roberto guardava seus documentos pessoais. Estava tudo lá.
Carteira de motorista, documentos do caminhão, alguns recibos de combustível, mas havia algo novo que ela não havia notado em Porto Velho. Um caderno pequeno de capa preta que ela não conhecia. Marlene pegou o caderno com mãos trêmulas e o abriu. Era a letra de Roberto, sem dúvida.
Mas o que estava escrito não fazia nenhum sentido. Dia um, a estrada mudou.
Não reconheço mais onde estou. O GPS parou de funcionar depois de Palmas. Dia 2. Tentei voltar, mas as placas estão todas erradas. Cidades que não existem nos mapas. Parei num posto que não deveria estar ali. Dia 3. Encontrei outros caminhoneiros perdidos. Dizem que estão presos aqui há semanas, alguns há meses. Dia 4, a gasolina não acaba, o caminhão roda, mas o ponteiro do combustível não desce. Isso não é normal. Dia 5. Viu pai hoje. Ele morreu há 10 anos. Conversamos por uma hora.
Ele disse que eu preciso escolher.
Marlene sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Roberto nunca havia escrito diários e aquelas anotações pareciam delirantes. Continuou lendo. Dia 7, o homem de branco apareceu novamente. Diz que posso voltar para casa, mas tenho que deixar o caminhão ou posso ficar aqui para sempre com ele. Dia 8. Decidi.
Não posso abandonar a Marlene e os meninos. Vou aceitar a proposta dele.
Dia 9. Ele disse que o caminhão vai aparecer perto de casa. Mas eu não posso voltar. É o preço, o caminhão ou eu escolhi minha família. Última anotação.
Se alguém encontrar este caderno, digam para a Marlene que eu a amo, que amo as crianças, que nunca quis abandonar vocês. Eu estou em paz agora. Estou onde preciso estar.
As últimas páginas do caderno estavam em branco. Marlene leu e releu as anotações tentando entender. Roberto havia escrito aquilo, parecia sua letra, mas o conteúdo era impossível.
Estradas que mudavam, combustível que não acabava, pessoas mortas. Seria delírio? Teria Roberto sofrido algum tipo de surto psicótico? Ela ligou imediatamente para Sebastião em Porto Velho. Investigador, encontrei um caderno no caminhão com anotações do meu marido. O senhor precisa ver isso.
Que tipo de anotações?
Marlene leu algumas passagens.
Sebastião ficou em silêncio por um longo tempo. Dona Marlene, disse finalmente, a senhora pode mandar fotos dessas anotações. Quero mostrar para um especialista aqui. Especialista em quê?
Em casos estranhos. Temos um antropólogo aqui na universidade que estuda relatos inexplicáveis na região amazônica.
Marlene mandou as fotos via WhatsApp.
Duas horas depois, Sebastião ligou de volta. Dona Marlene, o professor Carlos quer conversar com a senhora. Ele disse que já ouviu relatos parecidos.
Relatos parecidos de pessoas que desaparecem nas estradas da região norte e depois reaparecem ou seus veículos reaparecem em lugares impossíveis.
Isso é real? Aparentemente há histórias assim há décadas. caminhoneiros, principalmente que entram numa espécie de dimensão paralela nas estradas.
Marlene riu nervosamente.
Investigador, com todo respeito, isso parece história de filme. Eu sei como soa, mas há documentos, relatórios, não são casos isolados.
Duas semanas depois, o professor Carlos veio ao Rio de Janeiro para examinar pessoalmente o caderno e o caminhão. Era um homem de uns 55 anos, cabelos grisalhos, óculos, aparência de intelectual, mas levava o assunto muito a sério. “Dona Marlene”, disse ele, “há pelo menos 50 casos documentados como o do seu marido só nos últimos 20 anos.
Casos como caminhoneiros que desaparecem em determinados trechos de estrada e depois seus veículos aparecem em lugares impossíveis.
Sempre na região norte, sempre em condições similares as do caminhão do Roberto. Professor Carlos mostrou uma pasta cheia de documentos, relatórios policiais, depoimentos, fotografias, todos descrevendo situações parecidas com a de Roberto. “Este aqui”, disse apontando para um relatório, “desapareceu em 2018 indo de Manaus para Boa Vista. O caminhão apareceu seis meses depois no Acre, na direção oposta.
O motorista nunca foi encontrado e este, continuou virando a página, sumiu em 2019 na BR230.
A família procurou por um ano. O caminhão apareceu abandonado numa estrada vicinal no Amazonas com a carga intacta e combustível no tanque. Marlene foliou os documentos cada vez mais impressionada. eram dezenas de casos similares. “Professor”, disse ela, “O que o senhor acha que acontece?” Carlos ajustou os óculos. Há várias teorias.
Algumas pessoas acreditam que existem pontos nas estradas amazônicas onde, como posso explicar, onde a realidade funciona de forma diferente, tipo uma zona mística, algo assim. Os povos indígenas da região têm lendas sobre isso há séculos. Falam de caminhos que levam para outros mundos, de estradas que existem e deixam de existir.
Conceição, que estava presente na conversa, fez uma cara cética.
Professor, com todo respeito, isso não parece muito científico. Eu entendo o ceticismo, respondeu Carlos. Mas quando você tem 50 casos similares, documentados, investigados pela polícia, com testemunhas, não pode ignorar. Há alguma coisa acontecendo nessas estradas que não entendemos. E o que acontece com as pessoas? perguntou Marlene. Baseado nos relatos e nos cadernos que alguns deixaram, parece que elas entram numa espécie de realidade alternativa.
Um lugar onde as leis físicas funcionam diferente, onde encontram pessoas que já morreram, onde tem que fazer escolhas.
E que tipo de escolhas?
Voltar para casa ou ficar lá? Mas sempre há um preço. Marlene pensou nas últimas anotações de Roberto. Ele havia escolhido enviar o caminhão de volta, mas ficar onde estava. Então, meu marido está vivo em outro lugar. Carlos hesitou. Não posso afirmar isso, mas baseado nos padrões que observei, é possível que ele esteja em outro estado de existência.
Era muito para processar. Marlene pediu uma pausa na conversa e saiu para tomar ar. Robson a seguiu. Mãe, disse ele, você acredita nisso? Não sei, filho, mas preciso acreditar em alguma coisa. Viver sem respostas está me matando. E se for verdade? E se o papai está vivo, mas numa dimensão paralela ou sei lá o quê?
Marlene olhou para o filho. Robson havia crescido muito nos últimos dois anos.
Não era mais o adolescente assustado que havia se tornado quando o pai desapareceu.
Era um jovem adulto, tentando entender um mundo que não fazia sentido. “Se for verdade”, disse Marlene, “pel sabemos que ele nos ama, que não nos abandonou por vontade própria.” Quando voltaram para dentro, o professor Carlos estava examinando o interior do caminhão com uma lupa.
Achei algo interessante”, disse ele. No painel, próximo às imagens de Santos, havia uma pequena marca que não estava lá antes. Parecia uma queimadura circular do tamanho de uma moeda. “Esa marca não estava aqui quando Roberto saiu de casa”, disse Marlene. “Tenho certeza”.
E não estava quando examinamos o caminhão em Porto Velho, acrescentou Conceição. Carlos fotografou a marca de vários ângulos. Em outros casos, encontramos marcas similares, sempre próximas a símbolos religiosos, como se alguma energia tivesse interagido com a fé do motorista. Energia? Não sei explicar cientificamente, mas há um padrão. O professor passou mais duas horas examinando o caminhão e o caderno, fez fotografias, anotações, medições.
Ao final, sentou-se com a família para dar suas conclusões. Baseado no que vi aqui e no que conheço de casos similares, acredito que Roberto entrou num fenômeno que chamamos de deslocamento dimensional.
Ele foi transportado para um local onde as leis físicas são diferentes. E onde é esse local? Perguntou Rafaela. Não sabemos. Pode ser uma dimensão paralela, pode ser um estado de consciência alterado, pode ser algo que nossa ciência ainda não consegue explicar. Mas ele está vivo”, insistiu Marlene, “Pelos padrões que observei, sim, mas não nosso mundo.” Ele fez uma escolha consciente de ficar onde estava para que o caminhão, o sustento da família pudesse voltar. Marlene começou a chorar, não de tristeza, mas de alívio. Pela primeira vez, em dois anos, tinha uma explicação.
Não era científica, não era lógica, mas era uma explicação.
Então, ele não nos abandonou, disse ela.
Não apenas não abandonou como fez o maior sacrifício possível, respondeu Carlos. Abriu mão de voltar para casa para garantir que vocês tivessem como sobreviver.
Robson olhou para a irmã. Rafaela, o papai é herói. Rafaela a sentiu também chorando.
Sempre soube que ele não tinha nos abandonado. Nos meses seguintes, a vida da família mudou completamente. Não porque a situação havia se resolvido, mas porque agora tinham respostas.
Roberto não havia morrido num acidente, nem os havia abandonado. Havia feito uma escolha difícil para proteger a família.
Marlene decidiu vender o caminhão. Não conseguia olhar para ele sem se emocionar e além disso, precisava do dinheiro. Um caminhoneiro de Minas Gerais ofereceu um bom preço, dizendo que sempre havia sonhado com um Scania daquele modelo.
“Só uma coisa”, disse Marlene para o comprador. Mantenha as imagens de Santos no painel. Elas protegeram meu marido quando ele mais precisou. O homem a sentiu respeitoso. Pode deixar, dona.
Vou cuidar bem do caminhão. Com o dinheiro da venda, Marlene conseguiu quitar as dívidas e ainda sobrou para ajudar Robson a entrar na faculdade.
Rafaela, que havia superado as dificuldades na escola, voltou a ser a aluna brilhante de antes. Um ano depois da descoberta do caminhão, Marlene recebeu uma ligação inesperada. era o comprador do Scania de Minas Gerais.
“Dona Marlene”, disse ele queria contar uma coisa estranha que aconteceu. O que foi? Estava dirigindo o caminhão ontem à noite numa estrada aqui perto de casa, quando vi um homem acenando na beira da estrada. Parei para ver se precisava de ajuda. Marlene sentiu o coração acelerar. E aí o homem se aproximou da janela e perguntou se eu conhecia a Marlene Mendes do Rio de Janeiro. Disse que tinha um recado para ela. Que recado? Que ele está bem, que encontrou paz e que um dia vocês vão se encontrar novamente. Marlene sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto. Como era esse homem? uns 45 anos, altura média, cabelo escuro, usava uma camisa xadrez azul, parecia, sei lá, dona Marlene, parecia em paz. Era Roberto. Marlene tinha certeza. De alguma forma, do lugar onde estava, ele havia conseguido mandar um recado. Ele disse mais alguma coisa?
disse para a senhora ser feliz para cuidar dos filhos e para não se preocupar com ele, porque ele está onde precisa estar. Depois de desligar o telefone, Marlene sentou-se no sofá e olhou para as fotos de Roberto espalhadas pela sala. Pela primeira vez em três anos, sorriu ao vê-las.
Obrigada, amor”, murmurou por tudo, por não ter nos abandonado, por ter escolhido nossa felicidade.
Naquela noite, Marlene tirou o luto que usava há 3 anos, não porque Roberto havia morrido, mas porque finalmente entendia que ele estava em paz.
Robson se formou em engenharia mecânica e hoje trabalha numa empresa de transportes, sempre lembrando dos ensinamentos do pai sobre respeitar a estrada e ajudar quem precisa. Rafaela se tornou psicóloga e se especializou em ajudar famílias que passaram por perdas inexplicáveis.
Marlene voltou a sorrir, voltou a namorar, voltou a viver, mas sempre manteve um lugar especial no coração para Roberto, sabendo que em algum lugar, em alguma dimensão, ele continuava cuidando da família. E às vezes em noites de lua cheia, quando o vento bate na janela de forma especial, Marlene sente a presença dele. Uma sensação calorosa, protetora, como se ele estivesse dizendo: “Estou aqui, sempre estarei aqui”. O professor Carlos continuou estudando os casos de desaparecimentos inexplicáveis nas estradas brasileiras.
já catalogou mais de 100 casos similares ao de Roberto. Criou um instituto para investigar esses fenômenos e ajudar as famílias que passam por situações parecidas.
“O que aprendi com esses casos,” diz ele, “É que o amor verdadeiro transcende as dimensões. Mesmo quando as pessoas desaparecem fisicamente, o amor permanece. E às vezes esse amor é forte o suficiente para enviar sinais de volta. A história de Roberto Mendes se tornou lenda entre os caminhoneiros brasileiros. Contam que ele aparece ocasionalmente nas estradas do norte, sempre à noite, sempre para ajudar quem está em dificuldades.
Alguns dizem que já ouviram, outros que só ouviram falar.
Mas todos concordam numa coisa. Ele é o protetor dos caminhoneiros perdidos. E na estrada vicinal em Rondônia, onde o Scania azul foi encontrado, os fazendeiros locais ergueram uma pequena capela, não para Roberto especificamente, mas para todos os viajantes que se perderam nas estradas misteriosas da Amazônia. Na capela há uma placa simples para aqueles que escolheram o amor acima de tudo. Todo dia 15 de março, aniversário do desaparecimento de Roberto, Marlene acende uma vela na capela da igreja próxima à sua casa. Não é uma vela de luto, mas de gratidão.
Gratidão por ter sido amada por um homem capaz de sacrificar tudo pela família. E em algum lugar, em alguma dimensão, Roberto Mendes continua dirigindo pelas estradas eternas, levando esperança para quem perdeu o rumo, protegendo quem precisa de proteção, provando que o amor verdadeiro não conhece fronteiras nem limitações.
Sua jornada não terminou quando desapareceu. Na verdade, apenas começou uma nova fase, numa estrada que não aparece nos mapas. Mas existe no coração de todos que acreditam que o amor é mais forte que a morte, mais duradouro que a vida, mais real que a própria realidade.
E quando outros caminhoneiros desaparecem nessas estradas misteriosas, suas famílias podem ter a certeza de que não estão sozinhas.
E há alguém lá do outro lado cuidando deles, guiando-os, mostrando que mesmo na separação mais dolorosa, o amor permanece. Porque algumas estradas levam a destinos que não estão nos mapas.
Algumas jornadas transcendem o tempo e o espaço, e alguns amores são eternos, viajando por dimensões que nossa mente não consegue compreender, mas nosso coração sabe que existem.
Roberto Mendes encontrou uma dessas estradas.
Embora tenha desaparecido do mundo físico, sua presença continua real, protegendo, cuidando, amando, provando que nem mesmo os mistérios mais inexplicáveis podem separar uma família unida pelo amor verdadeiro. Nas estradas brasileiras, especialmente nas que cortam a vastidão amazônica, há histórias que desafiam a lógica.
histórias de pessoas que desaparecem e reaparecem, de dimensões que se sobrepõem, de escolhas que transcendem a compreensão humana. A história de Roberto Mendes é uma delas.
Uma história de amor, sacrifício e mistério. Uma prova de que a realidade é muito mais complexa e bela do que podemos imaginar. E para todos os caminhoneiros que rodam pelas estradas brasileiras, a história de Roberto é um lembrete. Cuidem das famílias, amem sem medida e saibam que mesmo quando a estrada parecer levar para o desconhecido, o amor sempre encontra um caminho de volta para casa, porque no final, não importa quantos quilômetros separaram dois corações, o que importa é a força do vínculo que os une. E esse vínculo quando é verdadeiro, é indestrutível, eterno, capaz de atravessar qualquer dimensão.
Roberto Mendes provou isso e sua história continua inspirando famílias, caminhoneiros e todos aqueles que acreditam que o amor verdadeiro não tem limites. Nas estradas infinitas do coração, Roberto continua a sua jornada.
E um dia, quando chegar a hora, toda a família se reunirá novamente numa dimensão onde não há separação, onde não há dor, onde só existe o amor eterno que os une. Até lá, a vida continua, mas com a certeza de que alguns amores são tão fortes que nem mesmo os mistérios mais profundos do universo conseguem quebrá-los. A estrada continua, o amor permanece.
E a história de Roberto Mendes ecoa pelas rodovias brasileiras como um hino de esperança para todos que acreditam no poder transformador do amor verdadeiro.