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Chica da Silva: A Escrava que Enterrou uma Rainha e Viveu como Dona no Tejuco

Em 15 de fevereiro de 1796, uma mulher de aproximadamente sessenta e poucos anos morreu no arraial do Tejuco, nas montanhas de Minas Gerais. O funeral reuniu todos os sacerdotes do arraial. O corpo foi acompanhado à sepultura por quatro irmandades religiosas diferentes. Quarenta missas foram encomendadas por sua alma. E ela foi enterrada na tumba número dezesseis da Igreja de São Francisco de Assis — um privilégio reservado quase exclusivamente aos brancos mais ricos da região. Só que essa mulher tinha nascido escrava.

A história de como Francisca da Silva de Oliveira — a Chica da Silva — saiu de uma senzala em Milho Verde e chegou ao assoalho de São Francisco é muito mais impressionante do que qualquer novela ou filme já contou. Para entender a Chica real, é preciso esquecer a personagem da televisão. Esquecer a mulata sedutora do filme de 1976. Esquecer a “Xica” com X. A historiadora Júnia Ferreira Furtado, da Universidade Federal de Minas Gerais, passou anos mergulhada em documentos de arquivos no Brasil e em Portugal. O que ela encontrou foi uma história completamente diferente: Chica não foi uma exceção improvável. Ela foi o exemplo mais bem-sucedido de um fenômeno amplo. No Tejuco da segunda metade do século XVIII, mais de cinquenta por cento dos chefes de domicílio eram mulheres libertas — ex-escravas que viviam como senhoras, com companheiros brancos, propriedades e até escravos próprios. Chica fez isso melhor que qualquer outra.

Em 1729, a descoberta de diamantes no norte de Minas Gerais provocou uma corrida desenfreada. A Coroa Portuguesa, alarmada com a queda dos preços na Europa, tomou uma medida radical: em 1734, criou o Distrito Diamantino, um território controlado diretamente de Lisboa. Leis próprias, administração própria, controle rigoroso de entrada e saída. Nem o governador de Minas Gerais tinha autoridade ali. A exploração funcionava por contratos: um particular pagava uma fortuna à Coroa pelo direito de extrair as pedras por alguns anos. Era o lugar mais rico e mais vigiado do Brasil colonial.

Foi nesse mundo fechado e opulento que nasceu Francisca, entre 1731 e 1735. Filha de Maria da Costa, africana provavelmente da Costa da Mina, e do português Antônio Caetano de Sá, capitão das ordenanças. Como a mãe nunca foi alforriada, Francisca nasceu escrava. Seu primeiro dono registrado foi Domingos da Costa, um liberto de Milho Verde. Depois foi vendida para o médico e sargento-mor Manuel Pires Sardinha, homem de posição social, juiz e presidente do Senado da Câmara da Vila do Príncipe. Com Sardinha, Francisca teve Simão Pires Sardinha, nascido em 1751. O menino foi alforriado na pia batismal e reconhecido como herdeiro no testamento do pai. Anos depois, Simão foi para Portugal, formou-se em Artes na Universidade de Coimbra, tornou-se naturalista e correspondente da Real Academia de Ciências de Lisboa. Chegou a ser cavaleiro da Ordem de Cristo e, segundo pesquisas, alertou Tiradentes sobre sua prisão iminente às vésperas da Inconfidência Mineira.

Em agosto de 1753 chegou ao Tejuco um jovem de vinte e poucos anos: João Fernandes de Oliveira. Filho de uma das famílias mais poderosas do Império Português, formado em Direito Canônico em Coimbra, desembargador aos 24 anos e cavaleiro da Ordem de Cristo. Ele vinha administrar os negócios da família no Distrito Diamantino. Uma das primeiras ações de João Fernandes foi comprar Francisca de Pires Sardinha. Poucos meses depois, em dezembro de 1753, ele fez algo raro: alforriou-a em vida. Em abril de 1754, ela já aparecia em documentos como “Francisca da Silva, parda forra”. O sobrenome “Silva” era usado por quem queria apagar o passado. Francisca escolheu exatamente isso.

Com o nascimento da primeira filha, Francisca de Paula, em 1755, ela passou a assinar “Francisca da Silva de Oliveira”. O casal se estabeleceu em uma casa próxima à Intendência dos Diamantes. Ao longo de dezessete anos, tiveram treze filhos — nove meninas e quatro meninos. João Fernandes registrou todos como seus no batismo e conseguiu que o próprio rei Dom José I legitimasse a prole, abrindo caminho para títulos e casamentos na elite. As nove filhas foram enviadas ao Recolhimento de Macaúbas, o melhor colégio feminino da região, onde receberam educação reservada à aristocracia. O casal mandou construir uma casa ao lado do recolhimento para as visitas. Na chácara da Palha, promoviam saraus, peças de teatro e óperas. João Fernandes mantinha uma banda de músicos e financiou a construção da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, que recebeu o primeiro órgão construído no Brasil.

Chica pertencia a quatro irmandades ao mesmo tempo — São Francisco de Assis e Carmo (de brancos ricos), Mercês (de pardos) e Rosário (de negros). Na Irmandade das Mercês, chegou ao cargo de juíza. Ao longo da vida, foi proprietária de pelo menos 104 escravos, alugando parte deles para o contrato dos diamantes. Era tratada como “Dona Francisca da Silva de Oliveira”.

Em 1770, João Fernandes precisou voltar a Portugal para resolver a herança do pai. Levou os filhos homens. Chica ficou no Tejuco administrando sozinha as propriedades. Quando ele morreu em 1779, o testamento não a mencionava — uma estratégia para proteger os filhos da discriminação por causa da origem escrava da mãe. Ainda assim, deixou bens consideráveis para ela. Francisca da Silva de Oliveira morreu em 15 de fevereiro de 1796. O funeral foi grandioso: todos os sacerdotes do arraial, acompanhamento de quatro irmandades, quarenta missas encomendadas. Foi sepultada na tumba número dezesseis da Igreja de São Francisco de Assis — um espaço reservado à elite branca.

Sua história ficou esquecida por décadas até ser resgatada por Joaquim Felício dos Santos em 1868, nas Memórias do Distrito Diamantino. A imagem que ele construiu — uma mulher caprichosa e dominadora — foi depois romantizada no cinema e na televisão, criando o mito da “Xica” sedutora. A Chica real não foi rainha nem megera. Foi uma mulher que, nascida na pior condição possível, usou os mecanismos disponíveis — concubinato estável, acumulação de bens, educação dos filhos, inserção nas irmandades e adoção dos códigos da elite — para se tornar uma das figuras mais respeitadas do Tejuco. Estratégia, persistência e inteligência.

Quando seu cortejo fúnebre cruzou as ruas do arraial acompanhado por todas as irmandades, ninguém ali precisava de novela para entender quem ela era: uma ex-escrava que morreu como dona. A história de Chica da Silva não é apenas a ascensão de uma mulher. É o retrato de um tempo em que, mesmo sob o peso da escravidão e do preconceito, era possível — para poucos e com muito custo — reescrever o próprio destino.