
A confiança normalmente não se quebra de uma vez só. Às vezes começa com uma simples mensagem, um convite para uma festa que parece inocente, algo que qualquer adolescente recebe o tempo todo. Mas em certos lugares, sob circunstâncias dominadas pelo terror das facções criminosas, até uma pequena decisão pode levar a um desfecho brutal e inimaginável. Foi exatamente isso que aconteceu com Joyelen dos Santos Moreira, de 15 anos, e Maria Eduarda, de 16 anos, duas adolescentes comuns de Teresina, no Piauí, que foram atraídas para um verdadeiro tribunal do crime conduzido por mulheres de uma facção impiedosa. O caso, que ganhou repercussão nacional em 2021, expõe a crueldade extrema dos “tribunais do crime” praticados por organizações como o Bonde dos 40, onde suspeitas viram sentenças de morte, e as vítimas são obrigadas a cavar suas próprias covas antes de serem executadas.
Facções criminosas têm imposto sua “justiça paralela” em diversos estados brasileiros, com humilhações, torturas e execuções filmadas para servir de exemplo. Em muitos casos, os acusados cavam suas próprias sepulturas enquanto são interrogados e humilhados. Foi isso que aconteceu com essas duas jovens. O Bonde dos 40, também conhecido como B40, surgiu em São Luís do Maranhão e expandiu sua influência, estabelecendo alianças perigosas com o PCC de São Paulo e a ADA do Rio de Janeiro. Essa organização não apenas trafica drogas e domina territórios, como também realiza seus próprios julgamentos clandestinos, onde não existe defesa, advogado ou direito de apelar.
Tudo começou de forma aparentemente normal. Joyelen e Maria Eduarda cresciam no mesmo bairro em Teresina, frequentavam os mesmos lugares e compartilhavam os mesmos círculos de amizade. Na tarde de 20 de março de 2021, as duas saíram juntas depois de receberem um convite para uma festa em um local fora da cidade. Ninguém imaginou que aquele seria o último dia em que seriam vistas com vida. O convite havia chegado dias antes, através de alguém próximo, e parecia inofensivo. Festas assim eram comuns entre as jovens da idade delas. O que ninguém sabia era que não existia festa nenhuma. O verdadeiro destino era Timon, no Maranhão, a apenas 13 quilômetros de Teresina, mas em outro estado – uma distância estratégica para dificultar investigações.
Para entender a tragédia de Joyelen e Maria Eduarda, é preciso voltar algumas semanas. A história tem raízes na morte de outra jovem: Gisele Vitória Silva Sampaio, de 17 anos, conhecida nas redes sociais como Sereia. Gisele morava na zona norte de Teresina e, nos dias que antecederam seu desaparecimento em abril de 2021, demonstrava claro medo. Ela contou para familiares que estava sendo ameaçada e monitorada. Numa madrugada, simplesmente não voltou para casa. O pai registrou boletim de ocorrência. Dias depois, imagens horrendas começaram a circular em grupos de WhatsApp: Gisele dentro de uma cova rasa, imóvel. Seu corpo só foi encontrado fisicamente semanas mais tarde. A investigação apontou que ela foi atraída por alguém de confiança, submetida a um tribunal do crime e executada. As imagens serviram como demonstração de poder do Bonde dos 40.
A morte de Sereia não ficou isolada. Ela contribuiu diretamente para o destino de Joyelen e Maria Eduarda. O Bonde dos 40 disputava território com o Primeiro Comando da Capital (PCC), que atuava principalmente em Teresina. A fronteira entre Piauí e Maranhão era também a linha de frente entre essas duas organizações. As duas adolescentes transitavam por territórios dominados por grupos rivais e tinham o hábito de fazer sinais de facção em fotos, inclusive em áreas controladas por inimigos. Para quem vive dentro dessas regras implacáveis, isso não era simples ingenuidade – era considerado provocação grave. Além disso, circulava a suspeita de que as jovens estariam repassando informações para o lado rival. Nenhuma prova concreta, mas no tribunal do crime, mera suspeita já basta.
Havia ainda um detalhe que pesou fortemente contra Maria Eduarda: ela teria se envolvido romanticamente com um homem ligado a uma facção inimiga. Dentro da lógica distorcida das organizações, isso era traição coletiva. O convite para a “festa” veio de alguém de confiança: Liane de Souza Santos, conhecida como Japa, que fazia parte do círculo próximo de Maria Eduarda. Essa proximidade foi o que tornou o convite crível e o que facilitou o sequestro.
Quando Joyelen e Maria Eduarda chegaram ao terreno no bairro Parque Aliança, em Timon, seus celulares foram imediatamente tomados. Não haveria registro do que aconteceria ali, exceto pelas filmagens feitas pelos próprios algozes. O julgamento foi conduzido majoritariamente por mulheres. Dentro do Bonde dos 40, mulheres exerciam papéis operacionais importantes, inclusive de liderança. Érica, apontada como uma das figuras centrais, teria recebido as adolescentes. O que se seguiu foi gravado em vídeo e depois circulou como aviso.
Nas imagens, as duas jovens aparecem segurando pás, cavando o buraco onde seriam enterradas. Enquanto trabalhavam, eram bombardeadas com perguntas: “Quem matou a Sereia? Quem foi que falou? Quem pegou a irmã? Quem repassava informações?” As respostas que davam eram torcidas para confirmar o que já estava decidido. Uma das adolescentes apontou um nome, dizendo que ele havia saído com Sereia no dia do desaparecimento. A interrogadora respondia com agressividade, mostrando que não importava o que elas dissessem – não havia saída.
“Falou? Quem foi que falou? Quem foi que pegou? Quem foi que cala a boca? E quem foi que pegou a irmã?”
As agressões físicas começaram enquanto elas ainda cavavam. Joyelen, em determinado momento, disse em voz alta que queria morrer, que preferia que tudo acabasse logo. Seu desejo não foi atendido imediatamente. Os golpes continuaram. Depois vieram os tiros. Uma das adolescentes ainda estava viva quando foi colocada dentro da cova. Mesmo assim, o buraco foi fechado. A crueldade não parou por aí. Os algozes usaram os celulares das vítimas para enviar mensagens às famílias, revelando a tragédia da forma mais dolorosa possível. Parte do grupo ainda foi fotografada em um bar, comemorando o crime.
O caso explodiu na mídia nacional. A combinação de adolescentes, tribunal do crime comandado por mulheres, vídeos circulando e a brutalidade das execuções transformou o episódio em um dos mais comentados de 2021. A polícia de Timon e Teresina atuou de forma integrada e identificou 14 envolvidos. Entre eles estavam Brenda Emanuele Silva Oliveira, a Baixinha, que foi julgada em 2024 e condenada por integrar a organização, mas absolvida da acusação de homicídio. Micaele Fernandes da Silva, a Charmosa, foi presa com drogas, solta por falha processual e nunca mais localizada. Karina Helen do Carmo Souza também participou do julgamento, segundo o inquérito.
Outros nomes pesados surgiram: Johnny Willer Rodrigues de Souza, o Mentor, e Antônio de Deus Ferreira Neto, o Fantasmão, apontados como líderes do Bonde dos 40. Luzilene Ferreira dos Santos, a Morena, e diversas outras pessoas foram procuradas. A investigação revelou que o alvo principal era Maria Eduarda, mas Joyelen pagou o preço por estar no lugar errado com a pessoa errada.
Além dessas duas, outras jovens apareceram como possíveis vítimas do mesmo padrão de tribunal do crime na região: Valdirene Melo, Tatiana Graziela e a própria Sereia. Seria coincidência ou parte de uma mesma onda de violência? O debate ainda corre em grupos e comentários.
Esse caso desnuda a realidade brutal dos territórios dominados por facções. Meninas de 15 e 16 anos, sem envolvimento formal com o crime, foram julgadas, torturadas e enterradas vivas por suspeitas vagas, ciúmes e supostas traições. Mulheres atuando como algozes principais mostram como a violência não tem gênero dentro dessas organizações. O poder paralelo das facções substitui o Estado, impondo sua própria lei com crueldade calculada.
Anos depois, as famílias de Joyelen e Maria Eduarda ainda carregam uma dor sem fim. As condenações chegaram para alguns, mas muitos envolvidos permanecem foragidos ou foram beneficiados por falhas no sistema. O Bonde dos 40 continua atuante, e os “tribunais do crime” seguem acontecendo em diferentes estados.
Que essa história sirva de alerta máximo para pais, jovens e toda a sociedade. Um convite inocente pode esconder um abismo. Em ambientes controlados pelo crime, amizade, romance ou simples presença no lugar errado podem custar a vida. As imagens das duas adolescentes cavando suas covas enquanto eram interrogadas por mulheres da facção devem ficar gravadas na memória de quem assiste: é assim que a violência paralela opera, sem piedade, sem justiça e sem volta.
Que Deus console as famílias das vítimas e que o Brasil consiga, um dia, vencer esse monstro que cresce nas sombras de nossas cidades. A ingenuidade custa caro demais. A vida de Joyelen e Maria Eduarda foi interrompida de forma covarde, mas sua tragédia precisa servir para salvar outras vidas.