Posted in

MISTÉRIO ARREPIANTE: Barco com 12 Pessoas Desaparece no Amazonas em 2009 — 15 Anos Depois Achado à Noite com Luzes Acesas… O Que Aconteceu com a Tripulação?

Em 17 de agosto de 2009, às 6:15 da manhã, o barco regional Estrela do Norte partiu do porto de Parentins, no Amazonas, rumo à comunidade de São José do Amatari, no rio Andirá. Era uma segunda-feira de céu limpo, com previsão de rio calmo e vento fraco. A bordo estavam 12 pessoas, o piloto, um auxiliar, sete passageiros adultos e três crianças. A viagem deveria durar 6 horas. O barco nunca chegou ao destino.
Não houve pedido de socorro. Não houve mensagem de emergência. Não houve destroços, manchas de combustível, nem sinais de naufrágio. Durante 15 anos, o Estrela do Norte foi um dos casos de desaparecimento fluvial mais intrigantes da região norte. Até que em 12 de outubro de 2024, uma equipe de fiscalização ambiental encontrou o barco encostado numa margem de Igapó, a 42 km do ponto onde deveria ter passado. Com as luzes de navegação acesas, o motor desligado e ninguém a bordo. Esta é a história de 12 pessoas que sumiram num trajeto que faziam regularmente, num rio que conheciam bem, numa manhã comum de agosto e de um barco que reapareceu 15 anos depois, em condições que nenhum perito conseguiu explicar de forma conclusiva.
O rio Andirá fica na região do baixo Amazonas, entre Parentins e Barreirinha.
É um rio escuro, de águas lentas, margeado por floresta de vársia que alaga metade do ano. As comunidades ribeirinhas dependem de barcos regionais para tudo: transporte, abastecimento, comunicação.
Não há estradas, não há telefone fixo na maioria dos lugares. Em 2009, celular ainda era raro naquela região e sinal de operadora, mais raro ainda. O Estrela do Norte era um barco de madeira com 12 m de comprimento, motor de 15 HP, toldo de lona encerada e bancos laterais. Pertencia a Osvaldo Reis da Silva, piloto de 53 anos. Casado, pai de sete filhos, conhecido em Parentins como alguém que navegava aquele trecho havia mais de 20 anos.
Osvaldo não era descuidado, não bebia durante as viagens, não aceitava sobrecarga de passageiros, nem de carga.
Era o tipo de piloto que adiava a saída se a previsão não estivesse boa. Naquela segunda-feira de agosto, a previsão estava boa. Não foi uma tempestade súbita. Não foi um acidente com troncos submersos testemunhado por outros barcos. Não foi um caso que a capitania dos portos resolveu em semanas, e foi a história de 12 pessoas comuns que desapareceram numa rota de 6 horas e de um barco que voltou sozinho 15 anos depois, sem explicação que feche até hoje. Nada na lista de passageiros fazia pensar que terminaria assim.
Havia uma professora que ia visitar a mãe doente. Havia um comerciante que levava mercadoria para revender na comunidade. Havia uma família de quatro pessoas voltando de uma consulta médica em Parentins.
Havia três crianças que iam passar férias escolares com os avós. Gente comum, viagens comuns. E esse tipo de história te faz questionar o que você acredita saber sobre os lugares onde vivemos e sobre o que acontece quando alguém desaparece longe das capitais?
Você pode se inscrever no canal e deixar a sua opinião nos comentários.
A partir daqui, a história avança devagar e tudo o que aconteceu e tudo o que não conseguiram explicar precisa ser contado sem pressa. Por quanto tempo uma família ribeirinha consegue esperar antes de aceitar o que a capitania diz que é verdade?
Em que momento uma comunidade inteira decide que vai procurar por conta própria o que o Estado não encontrou? O que significa encontrar um barco 15 anos depois, intacto, com as luzes acesas, sem ninguém dentro. Estamos no rio Andirá, em agosto de 2009.
Não há cobertura de celular na maior parte do trajeto. A capitania dos portos de Parentinsim só é acionada quando alguém chega até a cidade e avisa pessoalmente que um barco não chegou ao destino. O Estrela do Norte saiu do porto de Parentins às 6:15 da manhã. 15 minutos depois do horário previsto, Osvaldo Reis da Silva havia conferido o motor ainda no escuro, desdequanto os primeiros barcos de pesca voltavam com as redes molhadas e o cheiro de peixe fresco se espalhava pelas docas de madeira.
Ele tinha abastecido com 40 L de combustível misturado, gasolina e óleo dois tempos, na proporção de 25 para um, como se fazia naquele tipo de e arrumado a carga no fundo do barco, com o cuidado de quem conhece o equilíbrio de uma embarcação pequena.
Havia três caixas de papelão com alimentos não perecíveis: arroz, feijão, macarrão, latas de sardinha e pacotes de café. Havia dois sacos de ração para galinhas, encomendados por um morador de São José do Amatari, que criava aves no quintal. Havia uma caixa de isopor lacrada com fita adesiva transparente, cheia de peixes frescos que a professora Carmen levava de presente para a mãe. Os passageiros embarcaram aos poucos, carregando sacolas de pano com roupas limpas, mochilas escolares das crianças, dois galões de água mineral de 5 L e uma bolsa térmica com mamadeiras e biscoitos.
Ninguém estava apressado, ninguém parecia preocupado.
As crianças conversavam baixo, ainda com sono. Os adultos ajustavam as malas embaixo dos bancos de madeira, procuravam sombra debaixo do toldo de lona verde escura que Osvaldo tinha costurado à mão dois anos antes. Era uma segunda-feira comum, com o rio calmo como uma chapa de metal escuro e o céu ainda rosado no horizonte, com nuvens finas que não prometiam chuva. Osvaldo deu a partida no motor. O barulho seco da ecoou pelo porto. Ele acenou para um conhecido que vendia café numa barraquinha de tábuas na beira do rio e soltou a corda que prendia o barco ao pier. O estrela do norte se afastou devagar, debalançando leve com o movimento da água, e seguiu o rio abaixo em direção à fo do Paraná Ramos. O sol ainda não tinha nascido completamente. A água estava lisa, sem ondas, refletindo o céu que começava a clarear. Ninguém no porto reparou em nada de diferente.
Ninguém achou que aquela partida era diferente das centenas de outras que aconteciam todos os dias naquele mesmo lugar. Era apenas mais um barco regional, saindo para mais uma viagem de rotina. Além de Osvaldo, piloto e dono do barco, havia Jonas Cardoso Mendes, de 27 anos, ajudante de Conv, que fazia aquele trajeto havia 3 meses. Jonas era primo distante de Osvaldo pelo lado materno e estava aprendendo a pilotar barco regional com a intenção de comprar o próprio nos anos seguintes.
Ele era magro, moreno, falava pouco e tinha jeito para mecânica e sabia trocar correia de motor, limpar carburador, consertar vazamento de combustível com pedaços de borracha e arame. Osvaldo tinha começado a ensinar a ele os segredos da navegação no andirá, onde ficavam os bancos de areia que apareciam na seca, onde o rio fazia curva fechada e era preciso reduzir a velocidade, onde havia troncos submersos que podiam furar o casco de madeira se o piloto não prestasse atenção. Entre os passageiros estavam Carmen Oliveira Santos, de 34 anos, professora da rede municipal de Parentins, que dava aulas de português e matemática para crianças do ensino fundamental.
Carmen era filha única, morena Clara, cabelo curto, preso com grampo, óculos de grau com armação fina. Ela tinha nascido em São José do Amatari, estudado em Parentins com bolsa de uma igreja evangélica. Morse formado em pedagogia numa faculdade particular e voltado para a cidade para trabalhar. Visitava a mãe uma vez por mês. Levava sempre alguma coisa. Remédio para pressão alta, peixe fresco do mercado, roupas que não usava mais, dinheiro para ajudar nas despesas.
A mãe dela, dona Francisca, tinha 68 anos e morava sozinha numa casa de madeira na beira do rio, a 50 m da escola onde Carmen tinha estudado quando criança. Também estava a bordo Manoel Teixeira Lima, de 41 anos, comerciante autônomo que revendia produtos de limpeza e alimentos nas comunidades do rio Andirá. Manuel morava em Parentins, mas passava metade do mês viajando de comunidade em comunidade, vendendo sabão em pó, detergente, amaciante, shampoo, pasta de dente, pilhas alcalinas, cadernos escolares de canetas esferográficas e bolachas recheadas.
Ele comprava tudo no atacado em Parentins e revendia com uma margem pequena. o suficiente para pagar as despesas de casa e sustentar a esposa e os três filhos. Não era um homem rico, não tinha conta em banco. Guardava o dinheiro no envelope preso com um elástico dentro de uma pasta de documentos que levava sempre consigo.
Naquela segunda-feira, ele carregava duas caixas grandes de papelão, cheias de mercadoria e uma sacola com roupas limpas para três dias fora de casa.
A família Ferreira de Souza também estava no barco. Raimundo, de 36 anos, trabalhava como operário na construção civil em Parentins. A esposa Luciana, de 33, era diarista e passava roupas para fora duas vezes por semana. Os dois filhos, Mateus, de 8 anos, e Ana Clara, de 5, não tinham ido a Parentins na sexta-feira anterior para uma consulta pediátrica no posto de saúde da cidade.
Mateus tinha tido febre alta durante uma semana. A médica pediu exames de sangue, receitou antibiótico e orientou que a família voltasse em 15 dias para mostrar os resultados.
Ana Clara tinha aproveitado a viagem para ganhar um sorvete de cupoçu que a mãe comprou numa sorveteria perto da praça central. As duas crianças estavam animadas. Iam passar uma semana na casa dos avós em São José do Amatari, brincando no rio, subindo em árvores, ajudando a avó a dar milho para as galinhas. Os outros três passageiros eram Edilson Ramos Costa, de 52 anos, lavrador que tinha ido a Parentins vender uma saca de farinha de mandioca e comprar sementes de melancia para plantar na roça. Francisca das Chagas, Monteiro, lá de 61 anos, benzedeira respeitada em São José do Amatari, conhecida por rezar quebranto, mal olhado e espinhela caída. E Beatriz, de 7 anos, neta de Francisca, que tinha passado uma semana em Parentins na casa de uma tia, que morava num bairro perto do mercado municipal.
Beatriz voltava para casa com uma mochila nova, cor- de rosa com estampa de personagem de desenho animado que a tia tinha comprado de presente. 12 pessoas ao todo, gente comum, histórias comuns, nenhuma delas voltou para casa.
O trajeto entre Parentins e São José do Amatari era direto e conhecido. Saída do porto da cidade, descida pelo Paraná do Ramos, um braço largo do rio Amazonas, que corria paralelo à margem direita até a fo rio Andirá. A foz ficava aproximadamente uma hora de navegação.
Depois, entrada no andirá pela margem direita, de navegação riu acima por cerca de 2 horas até a altura da comunidade de Santa Maria do Lago, que ficava numa curva larga, onde o rio abria e formava um pequeno lago natural cercado de vitórias régias, de Santa Maria do Lago até São José do Amatari.
Mais 1 hora 40 minutos de navegação tranquila, passando por três comunidades menores, duas praias de areia branca que apareciam na época da seca e um trecho de mata fechada, onde os guaribas gritavam de manhã cedo. Era uma rota conhecida, feita regularmente três vezes por semana por pelo menos cinco barcos regionais diferentes.
Osvaldo conhecia cada detalhe. sabia onde o rio fazia a curva fechada e era preciso desviar da margem para não bater nos galhos das árvores que pendiam sobre a água. E sabia onde havia bancos de areia submersos que apareciam quando o rio baixava e sumiam quando subia. sabia onde ficavam os barrancos mais altos, onde o barranco tinha desmoronado na última cheia e onde os pescadores costumavam armar redes de pesca durante a noite. Não havia trechos perigosos naquele período do ano. Agosto era mês de seca. O rio estava baixo, mas ainda navegável para embarcações pequenas. As corredeiras ficavam mais ao norte, num outro afluente do Andirá, que descia da serra e formava cachoeiras nos trechos de pedra. O Andirá, naquele trecho entre Parentins e São José do Amatari era calmo, largo e previsível.
A água corria devagar. Não havia redemoinhos, não havia troncos grandes flutuando que pudessem representar perigo real para um piloto atento.
Osvaldo havia feito aquela viagem centenas de vezes nos últimos 20 anos.
Conhecia o rio de cor. Sabia a que horas o sol batia em cada curva. Sabia onde dava para encostar o barco se precisasse fazer um reparo no motor. Sabia onde ficavam as casas de conhecidos. que podiam oferecer água, comida ou abrigo em caso de necessidade.
Não havia motivo técnico para esperar qualquer problema. A previsão do tempo para aquela segunda-feira indicava céu claro, temperatura em torno de 32º, umidade alta, vento fraco de Nordeste.
Não havia aviso de tempestade, não havia frente fria descendo do sul, não havia nada que justificasse adiar a viagem. O barco saiu no horário. As pessoas embarcaram sem pressa. O motor funcionava bem. O combustível estava abastecido. A carga estava distribuída de forma equilibrada. Tudo estava normal. E a comunidade de São José do Amatari fica numa clareira às margens do rio Andirá, a cerca de 6 horas de barco de Parentins.
É uma comunidade pequena, com cerca de 250 habitantes, a maioria pescadores, lavradores e professores da escola municipal. As casas são de madeira, erguidas sobre palafitas para proteger das cheias. Há uma escola municipal de ensino fundamental que funciona em dois turnos, com quatro salas de aula, uma cozinha onde servem merenda, um pátio de chão batido, onde as crianças jogam futebol na hora do intervalo. Há um posto de saúde sem médico fixo, atendido uma vez por mês por uma enfermeira que vem de Parentins. Há uma igreja católica de madeira pintada de branco, com um sino pequeno no alto e bancos de tábua corrida que acomodam até 60 pessoas. Há uma bodega que vende o básico, arroz, feijão, eóleo, sal, açúcar, sabão, pilhas, velas e refrigerante quente. O dono da bodega também vende fiado e anota as dívidas num caderno de capa dura que guarda embaixo do balcão. Não havia telefone público em 2009.
A comunicação com Parentins era feita por Rádio Amador, instalado na casa do presidente da Associação Comunitária ou por recado levado nos próprios barcos regionais.
Quando alguém precisava mandar uma mensagem urgente, escrevia num papel e entregava para o piloto de confiança, que entregava na cidade e trazia a resposta na viagem seguinte. Era assim que as coisas funcionavam. Não havia pressa, não havia tecnologia, havia confiança, costume e paciência. Quando o Estrela do Norte não chegou ao meio-dia, ninguém se alarmou imediatamente.
Atros de uma ou duas horas eram comuns.
O rio podia estar mais baixo que o esperado, leu obrigando o piloto a reduzir a velocidade para evitar bancos de areia.
O motor podia ter falhado, obrigando a uma parada para conserto. O piloto podia ter parado para ajudar outro barco com problema mecânico ou para dar carona a alguém que apareceu no caminho. Essas coisas aconteciam, eram normais, faziam parte da vida no rio. Mas quando chegou o fim da tarde, por volta das 5 horas, quando o sol começava a amarelar e as sombras das árvores se alongavam na água e o barco continuava sem aparecer. A mãe de Carmen, dona Francisca, começou a perguntar. Ela foi até a beira do rio três vezes antes de escurecer. ficou parada na margem, com a mão fazendo sombra nos olhos, olhando o rio abaixo, esperando ver o toldo de lona verde do Estrela do Norte aparecer na curva logo depois da praia de areia.
perguntou para os vizinhos se alguém tinha visto o barco passar. perguntou para os pescadores se tinham ouvido barulho de motor. Ninguém tinha visto, ninguém tinha ouvido. Quando escureceu de vez, dona Francisca acendeu um lampião a quererosene na varanda de casa e ficou sentada numa cadeira de balanço, olhando para o rio. Não jantou, não conversou com ninguém, apenas ficou ali esperando com o lampião aceso para o caso de o barco chegar à noite e precisar de luz para encostar na margem.
O barco não chegou. No interior da Amazônia, em 2009, a comunicação de um desaparecimento fluvial não era imediata.
Não havia como ligar para a polícia, não havia como ligar para a capitania dos portos.
Não havia telefone, não havia internet, não havia rádio que alcançasse parentins daquela distância. Era preciso que alguém fizesse a viagem de volta até a cidade, de barco, porque não havia outra forma, para avisar pessoalmente que um barco não tinha chegado. Na manhã de terça-feira, dia 18 de agosto, o presidente da Associação Comunitária de São José do Amatari, seu Raimundo Nonato, embarcou num barco de linha que ia para Parentins.
Era um barco maior que o Estrela do Norte, com capacidade para 30 passageiros, motor de centro, cobertura de alumínio e bancos estofados.
Seu Raimundo pagou a passagem, sentou num banco perto da proa e ficou calado durante toda a viagem. Chegou à cidade por volta das 2as da tarde, desceu no porto, atravessou a rua de paralelepípedos sujos de lama seca e foi direto à sede da Capitania dos Portos, um prédio térrio de alvenaria pintado de branco ou com uma bandeira do Brasil desbotada, tremulando num mastro de ferro na frente. Ele entrou, tirou o boné, pediu para falar com alguém responsável. Foi atendido por um agente de plantão, um homem de meia idade, uniforme azul marinho, que estava sentado atrás de uma mesa de madeira coberta de papéis. Seu Raimundo informou que o Estrela do Norte, barco do piloto Osvaldo Reis da Silva, havia saído de Parentins na segunda-feira de manhã com destino a São José do Amatari e não tinha chegado ao destino.
Informou que havia 12 pessoas a bordo, incluindo três crianças.
informou que ninguém na comunidade tinha visto o barco, nem ouvido notícia dele em qualquer ponto do trajeto.
Informou que a viagem era de 6 horas e que já tinham se passado mais de 24. O agente de plantão anotou os dados num formulário impresso e pediu uma lista com os nomes dos passageiros, o nome completo do piloto, a descrição do barco e o horário aproximado da saída.
Seu Raimundo deu todas as informações que sabia. O agente disse que a busca seria organizada a partir do dia seguinte, quarta-feira, assim que conseguissem reunir embarcações disponíveis e uma equipe de resgate.
disse que era procedimento padrão esperar 48 horas antes de acionar busca oficial, mas que, dada a quantidade de pessoas a bordo e a presença de crianças iam tentar antecipar, seu Raimundo perguntou se não dava para começar naquele mesmo dia. O agente disse que não, que já era tarde, que o rio ia ficar escuro em poucas horas, que busca noturna era perigosa e pouco eficiente.
Disse que era melhor esperar amanhecer, organizar direitinho e fazer uma busca completa com condições adequadas. E seu Raimundo saiu da capitania, voltou para o porto e pegou carona num barco que ia de volta para São José do Amatari.
Chegou à comunidade já de noite, foi até a casa de dona Francisca e informou que a capitania tinha sido avisada e que a busca ia começar no dia seguinte.
Dona Francisca não disse nada, apenas balançou a cabeça, agradeceu e voltou a sentar na cadeira de balanço da varanda com o lampião aceso, olhando para o rio.
As buscas começaram na manhã de quarta-feira, 19 de agosto, 48 horas depois do desaparecimento.
Três barcos da capitania dos portos e quatro barcos de pescadores voluntários saíram de Parentins antes das 7 da manhã. E percorreram toda a rota oficial entre a cidade e São José do Amatari.
Iam devagar, vasculhando as margens, os remansos, as entradas de igarapés. Deu os trechos de igapó, onde um barco podia ter encalhado ou ficado preso entre troncos. Levavam binóculos, rádios, comunicadores, cordas, ganchos e uma maca desmontável.
Procuraram destroços. Procuraram manchas de óleo na superfície da água.
Procuraram pedaços de madeira pintada.
Procuraram roupas, sapatos, mochilas, qualquer coisa que pudesse indicar naufrágio ou acidente. Não encontraram nada. Nos dias seguintes, a busca foi ampliada. Subiram o rio Andirá, além de São José do Amatari. chegaram até comunidades mais ao norte, até lugares onde o rio estreitava e a floresta fechava nas duas margens. Desceram também, voltaram até a Foz, entraram em afluentes menores, percorreram lagos de Vársia, onde o mato crescia dentro da água e formava labirintos verdes que pareciam não ter fim. Interrogaram moradores ribeirinhos, depararam em todas as comunidades do trajeto.
Perguntaram se alguém tinha visto um barco de madeira com todo verde com 12 pessoas a bordo passando na segunda-feira de manhã. Perguntaram se alguém tinha ouvido barulho de motor, grito de socorro, explosão, qualquer coisa fora do normal. Ninguém tinha visto, ninguém tinha ouvido, ninguém sabia de nada. O estrela do norte tinha simplesmente desaparecido em algum ponto entre Parentins e a comunidade de destino, num rio que estava calmo, numa manhã que estava clara, sem tempestade, sem acidente testemunhado, sem deixar vestígio. A capitania chegou a cogitar pirata fluvial, um problema conhecido na região na época.
Havia quadrilhas que abordavam barcos isolados, roubavam motores, cargas e pertences dos passageiros e às vezes matavam quem reagia. Mas nos casos de pirataria, e sempre sobravam destroços, sempre apareciam corpos, sempre havia algum sinal, nesse caso, não havia nada.
Cogitaram também naufrágio súbito por falha estrutural do casco. Madeira podre que cedeu, tábua que abriu, água entrando rápido, barco afundando em questão de minutos. Mas o estrela do norte era mantido com cuidado. Osvaldo trocava as tábuas do fundo a cada dois anos, calafetava as frestas com estopa e piche, passava verniz protetor na madeira exposta. O barco estava em boas condições, não fazia água, não tinha rachadura visível e mesmo que tivesse afundado, alguma coisa deveria ter boiado. Galões de água, caixas de isopor, mochilas, sandálias, pedaços de madeira, algo. Nada apareceu em Parentins. As famílias dos desaparecidos começaram uma rotina que duraria meses, todos os dias. É, alguém ia até a capitania perguntar se havia novidade.
Todos os dias a resposta era a mesma.
Nada ainda. As buscas continuam.
Qualquer informação nova a gente avisa.
As famílias começaram a se conhecer na sala de espera. Sentavam nos mesmos lugares, trocavam informações, compartilhavam o silêncio. A esposa de Osvaldo, dona Raimunda, vendia a sair numa barraca perto do mercado municipal.
Trabalhava desde as 5 da manhã, batendo o açaí no liquidificador, coando na peneira, servindo em cuas de plástico com farinha de tapioca e açúcar. Era o sustento da família.
Osvaldo ganhava com o barco, mas o dinheiro não era fixo. Dependia da quantidade de passageiros, da frequência das viagens, da época do ano. O açaí de dona Raimunda pagava o aluguel, a luz, a comida do dia a dia. Depois do desaparecimento, ela parou de trabalhar.
Não conseguia. ficava sentada na varanda de casa, olhando para a rua, esperando que o marido aparecesse na esquina, com a camisa suada, o boné desbotado, o sorriso cansado de quem passou o dia no rio. Os sete filhos do casal, com idades entre 9 e 28 anos, passaram a se revesar para não deixar a mãe sozinha. A filha mais velha, Clarice, assumiu a barraca de açaí. Os outros ajudavam como podiam, lavavam roupa, faziam comida, cuidavam dos irmãos mais novos. A casa ficou em silêncio. Ninguém ligava a televisão, ninguém ouvia rádio, ninguém falava alto. As crianças brincavam no quintal, mas sem grito, sem correria. A sensação era de velório sem corpo, de luto sem enterro. O telefone celular de Osvaldo, que ele tinha deixado em casa porque não pegava sinal no rio, ficou em cima da mesinha da sala junto com a carteira de couro gasto. Ol o relógio de pulso com pulseira de metal que ele não usava quando pilotava e um maço de documentos pessoais.
Identidade, CPF, título de eleitor, carteira de habilitação de amador para embarcações. Dona Raimunda não deixava ninguém mexer naquelas coisas. Ela limpava a poeira ao redor, mas não tocava nos objetos. Dizia que quando Osvaldo voltasse, tudo tinha que estar do jeito que ele tinha deixado. Dizia que ele ia voltar, que tinha certeza, que sentia. Os meses foram passando e a certeza dela não mudou. As buscas oficiais duraram 23 dias. A capitania mobilizou barcos, mergulhadores, voluntários. Percorreram mais de 200 km de rio e afluentes. Vasculharam margens, ilhas, praias, trechos de floresta alagada. Interrogaram dezenas de moradores, recolheram relatos, boatos, suposições. Nada levou a lugar nenhum.
Diz: “No começo de setembro de 2009, a Capitania dos Portos emitiu um comunicado oficial informando que as operações de busca ativa estavam encerradas, mas que qualquer informação nova seria investigada.
O comunicado não ofereceu explicação, não apresentou laudo técnico, não concluiu nada, apenas informou que após esforços extensivos não foram encontrados vestígios da embarcação Estrela do Norte, nem de seus ocupantes, e que o caso permaneceria em aberto para futuras investigações.
Não houve conclusão oficial sobre o que tinha acontecido. Não houve laudo pericial. Não houve certidão de óbito coletiva. As famílias ficaram num vazio jurídico. Os desaparecidos não estavam mortos oficialmente, mas também não estavam vivos em lugar nenhum. Não podiam ser enterrados, não podiam ser declarados mortos, não podiam ser esquecidos. Mas para conseguir pensão por morte e herança, benefícios assistenciais ou qualquer procedimento que dependesse de comprovação de óbito, era preciso entrar com pedido de morte presumida na justiça. O processo era longo, exigia advogado, exigia documentos, exigia provas de que a pessoa tinha desaparecido em circunstâncias que tornavam a morte provável. Exigia tempo, exigia dinheiro que a maioria das famílias não tinha.
Algumas famílias entraram com o pedido, outras não. Algumas conseguiram a declaração de morte presumida depois de do anos. Outras desistiram no meio do processo. A mãe de Carmen, dona Francisca, nunca aceitou assinar papel nenhum, nunca foi ao cartório, nunca procurou advogado, nunca entrou na justiça. Ela dizia que enquanto não visse o corpo da filha, a filha estava viva em algum lugar. Dizia que Carmen ia voltar e que era só uma questão de tempo, que Deus ia trazer ela de volta.
Passou os anos seguintes esperando.
Todas as segundas-feiras de manhã acordava cedo, tomava banho, vestia roupa limpa, ia até a beira do rio e ficava olhando os barcos que chegavam.
Ficava ali parada, em pé, com a mão fazendo sombra nos olhos, olhando cada barco que aparecia na curva. Quando o barco encostava e as pessoas desembarcavam, ela olhava uma por uma procurando o rosto da filha. fez isso durante 15 anos. Os vizinhos se acostumaram. As crianças da comunidade cresceram vendo dona Francisca na beira do rio toda segunda de manhã. Algumas perguntavam para as mães porque ela ficava ali. As mães explicavam, as crianças entendiam e paravam de perguntar. Dona Francisca nunca faltou.
Chuva, sol, calor, vento. Toda segunda-feira ela estava lá. No na noite de 12 de outubro de 2024, uma equipe de fiscalização ambiental do ICM Bio navegava pelo rio Andirá numa operação de rotina contra pesca ilegal em área de preservação.
Eram três agentes federais numa voadeira de alumínio com motor de popa de 40 HP, equipados com lanternas de longo alcance, GPS portátil, rádio comunicador e colete salvavidas.
A operação tinha começado no fim da tarde e seguiria pela madrugada, porque era a noite que os pescadores clandestinos costumavam agir. Por volta das 21:30, num trecho de Igapó, a 42 km ao sul de São José do Amatari, portanto fora da rota direta entre Parentins e a comunidade, um dos agentes viu uma luz fraca piscando entre os troncos alagados. Era uma luz amarelada, intermitente, que aparecia e desaparecia conforme o movimento da água balançava a vegetação.
E pensaram que era um barco de pesca clandestina, talvez um pescador usando lamparina ou lanterna para atrair peixe.
Era técnica comum, mas proibida naquela área. se aproximaram devagar, sem fazer barulho, com o motor da voadeira reduzido ao mínimo, com as lanternas apagadas. Não queriam assustar, queriam flagrar. A estratégia era chegar perto, acender as lanternas de uma vez, identificar os infratores e lavrar o alto. Quando chegaram a cerca de 20 m, um dos agentes acendeu a lanterna de longo alcance. O facho de luz atravessou a escuridão e iluminou um barco de madeira antigo, encostado num tronco grosso de suma uma caída. O barco estava parcialmente coberto por cpó e folhas. O toldo de lona, que um dia tinha sido verde, estava apodrecido, rasgado, pendurado em farrapos. Eis as luzes de navegação, duas pequenas lâmpadas incandescentes presas em suportes de metal na proa e na popa, estavam acesas.
A luz era fraca, amarelada, piscava como se a bateria estivesse no fim. Não havia ninguém a bordo. O motor estava preso na popa, coberto de ferrugem, com o hélice quebrado. Não havia barulho, não havia movimento, apenas o barco encostado ali com as luzes acesas sozinho no meio do igapó. Os agentes se entreolharam, acharam estranho.
Aproximaram a voadeira com cuidado, amarraram na lateral do barco velho, subiram a bordo um de cada vez. testando se a madeira aguentava o peso. O piso rangeu, mas não cedeu. Iluminaram o interior do barco com as lanternas.
Viram os bancos laterais podres cobertos de lodo. Viram restos de lona pendurados nas laterais. Viram cordas apodrecidas, pedaços de madeira solta e folhas secas acumuladas no fundo. Um dos agentes iluminou a lateral do casco, procurando identificação.
A tinta estava quase toda desbotada, comida pelo tempo, pela água, pelo sol, mas ainda dava para ler em letras trêmulas, quase apagadas, Estrela do Norte. O agente mais velho que trabalhava na região havia 12 anos conhecia a história. Tinha ouvido falar do barco que tinha sumido em 2009 com 12 pessoas. Tinha ouvido falar das buscas que não encontraram nada. Tinha ouvido falar das famílias que ainda esperavam.
Ele pegou o rádio comunicador e acionou a base do ICM Bio em Parentins.
Informou as coordenadas. informou que tinham encontrado uma embarcação abandonada em área de igapó. Informou o nome pintado no casco, pediu que verificassem nos registros antigos se havia alguma ocorrência.
A resposta veio 40 minutos depois. Havia barco Estrela do Norte, registrado em nome de Osvaldo Reis da Silva, desaparecido em 17 de agosto de 2009 com 12 pessoas a bordo, caso nunca resolvido. Os agentes do ICM Bill passaram a noite no local esperando amanhecer. Não mexeram em nada. Apenas ficaram ali na voadeira, iluminando o barco de vez em quando, tentando entender como uma embarcação que tinha sumido 15 anos antes tinha aparecido num lugar que não ficava na rota original, num trecho de igapó de difícil acesso, com as luzes de navegação ainda acesas.
Na manhã seguinte, acionaram a capitania dos portos de Parentins. Uma equipe de perícia foi enviada ao local com um rebocador.
O barco foi amarrado, rebocado até Parentins e levado para um galpão da capitania, onde foi feita a inspeção técnica completa. E o casco estava íntegro. Não havia sinais de colisão, não havia marcas de fogo, não havia furos de bala, não havia indícios de violência. A madeira estava envelhecida, manchada pela água, pelo lodo, pela ação do tempo, mas a estrutura estava firme.
As tábuas do fundo estavam inchadas, mas não estavam quebradas. As cavernas, as peças internas que sustentam o casco estavam no lugar. O barco tinha envelhecido, mas não tinha afundado, não tinha sido destruído, apenas tinha ficado ali parado durante 15 anos. O motor estava preso na popa, enferrujado, mas completo. O tanque de combustível estava vazio. A hélice estava quebrada, mas não arrancada.
Parecia que o motor tinha sido desligado normalmente e simplesmente não tinha sido religado. Dentro do barco, além dos bancos podres e dos restos de lona, eles encontraram três objetos que chamaram a atenção dos peritos. O primeiro era uma mochila escolar infantil, encharcada, coberta de lodo, mas ainda reconhecível.
Era cor- de rosa com estampa de personagem de desenho animado. A estampa não tinha desbotado completamente, mesmo depois de 15 anos. Dentro da mochila havia um caderno escolar desfeito pela umidade, restos de lápis de cor e uma caixinha de suco vazia. O segundo objeto era um par de sandálias de borracha femininas, tamanho 36, presas entre duas tábuas do piso, como se alguém as tivesse deixado ali e saído descalço.
As sandálias estavam sujas, mas inteiras. A borracha tinha resistido ao tempo. O terceiro objeto era o mais perturbador, um rádio portátil à pilha, preso com arame ao banco da proa. O arame estava enferrujado, mas firme. É como se alguém tivesse amarrado o rádio de propósito para que não caísse. As pilhas dentro do rádio estavam completamente corroídas, vazadas, cobertas de zinabre branco, mas o mostrador ainda estava visível. O ponteiro estava parado numa frequência que não correspondia a nenhuma estação de rádio comercial da região. Era uma frequência vazia, uma frequência onde só deveria haver estática. E as luzes de navegação, alimentadas por uma bateria de chumbo ácido, que deveria ter descarregado em no máximo seis meses, ainda estavam acesas quando o barco foi encontrado. Fracas, piscando, mas acesas.
Os peritos tiraram a bateria para a análise. Era uma bateria comum de 12 V, usada em barcos pequenos, motocicletas e no brakes. Deveria ter durado no máximo alguns meses ligada continuamente.
Depois disso, no descarregaria completamente e as luzes apagariam.
A bateria foi testada. ainda tinha carga residual, não o suficiente para funcionar normalmente, mas o suficiente para manter as lâmpadas fracamente acesas. Ninguém soube explicar como.