
mulher caminhoneira, achava que era só um carregamento de contêiner quando chegou perto e ouviram um rugido assustador. Eu sou Carla Anete. Passo mais tempo na cabine da minha Axor 254, a rainha da serra do que na minha própria casa. Sou transportadora de cargas secas e refrigeradas e meu escritório é a BR16.
Amo o meu trabalho, mas odeio o trecho da Serra das Araras, no Rio de Janeiro.
É um caminho lindo de dia, com mata atlântica densa, mas a noite, sob a neblina é um inferno de curvas fechadas e medos antigos. Naquela noite de terça-feira, eu estava puxando uma carga que me dava arrepios só de pensar. Era um contêiner frigorífico de 40 pés, teoricamente cheio de cortes nobres de exportação, mas o manifesto estava estranho. A temperatura interna era mantida em um frio extremo, muito abaixo do padrão para carne, e o documento vinha com um código de urgência da Receita Federal que eu nunca tinha visto. O cliente era uma empresa fictícia e o ponto de entrega, um armazém abandonado em Duque de Caxias.
Eu chamei a carga de O pesadelo da BR.
Eu estava sozinha, subindo à serra por volta das 23 ré. A neblina era tão densa que meus faróis pareciam duas bolhas amarelas flutuando no nada. O rádio estava chiando, sem sinal de nada, além de estática. Foi nessa hora que o alarme da carreta disparou. Não era o alarme de segurança, era o indicador de temperatura do contêiner. O display de bordo começou a piscar. Pabensas.
Impossível, murmurei para mim mesma batendo no painel. Um frigorífico na estrada jamais pode estar a 30 gins. Se estava com defeito, toda a carga estaria perdida, ou pior, estragando rapidamente. O calor interno indicava um problema elétrico grave ou ou que algo dentro estava gerando calor. E eu não queria pensar nessa segunda opção. Eu parei o caminhão no único recuo que encontrei, um pequeno acostamento de cascalho perto de um mirante abandonado.
Desci, peguei minha lanterna mais potente e fui inspeccionar o contêiner.
O baú de metal estava quente ao toque, o que era bizarro para um frigorífico. O painel externo do compressor estava piscando em vermelho, indicando falha total do sistema de resfriamento. Eu precisava abrir a porta traseira. Não podia continuar rodando com a carga super aquecendo, correndo o risco de explosão ou incêndio. Eu tinha que tentar reativar o compressor manualmente. Respirei fundo, peguei meu pé de cabra no kit de emergência e fui para a traseira do contêiner. As travas de segurança estavam intactas, mas havia um cheiro estranho de dentro. Não era cheiro de carne podre, era um cheiro adocicado, de glicerina queimada, misturado com algo que lembrava ferro velho e perfume floral barato. Um perfume forte e enjoativo que não combinava com nada em uma BR suja e fria. O cadeado estava congelado na aste. Eu tive que bater com força com o pé de cabra para quebrar a fina camada de gelo e abrir o mecanismo. A trava girou com um rangido metálico que pareceu gritar na noite. Eu me preparei para o pior, talvez uma explosão de gás ou fumaça. Mas quando abri a primeira porta, o frio me atingiu. Um ar glacial saiu, misturado com o cheiro de perfume e o vapor da neblina. O interior do contêiner estava absurdamente frio, não aimonese, como o sensor dizia, mas em uma temperatura que devia estar próxima aa 10 de silis. O display de bordo estava mentindo. Mas por quê? O interior estava estranhamente limpo. Não havia caixas nem paletes de carne, apenas o chão de metal nervurado e as paredes brancas de isolamento térmico, totalmente vazio, ou quase.
Lá no fundo, há uns 12 m de distância, no meio do contêiner vazio, havia uma figura. Era uma garota. Ela estava parada, de costas para mim, a uns 5 m da porta. Vestia um vestido de festa simples e amassado, azul claro, que parecia totalmente fora de lugar. O cabelo preto, liso e longo, cobria a maior parte das suas costas. Ela parecia jovem, talvez adolescente. Meu coração disparou. Tráfico, sequestro? Eu gritei, a voz ecuando no vazio de metal. Ei, quem está aí? Você está bem? A garota não se moveu, continuou de costas. Eu sou a caminhoneira. Não vou te machucar.
Você está congelando?
Eu dei um passo para dentro do contêiner, a luz da minha lanterna tremendo. O frio me cortava, mas o calor do medo me mantinha acordada. Por favor, saia daí. Vou chamar a polícia. Naquele momento, ela se moveu. Não o corpo inteiro, apenas a cabeça. Lentamente, a garota virou a cabeça sobre o ombro, mas ela não virou o corpo junto. O movimento foi de exatos 180º.
O rosto dela agora estava olhando diretamente para mim, com o corpo ainda de costas. Era um movimento fisicamente impossível. O som foi de cartilagem e vértebra, se instalando como galhos secos. O rosto dela não era humano, era pálido, branco como a neve, com os lábios rachados e azuis de frio. Mas os olhos os olhos estavam totalmente pretos e dilatados, sem nenhuma parte branca, fixos em mim. E então o detalhe, o detalhe que fez a realidade se partir. A garota estava flutuando, não muito, talvez uns 10 cm acima do chão de metal nervurado e congelado do contêiner. Os tornozelos estavam balançando no ar frio. Ela não tinha pés, ou eles estavam escondidos pelo vestido, mas não havia sombra sob o tecido. Ela estava suspensa no ar. A boca dela se abriu e ela sorriu, um sorriso largo e azulado que não era de alegria, e a voz? Uma voz fina e infantil, mas vazia, como se viesse de um gravador que estava ficando sem bateria, sussurrou: “Eu estou esperando você, Carl Anete. Entre. O frio está delicioso. O sensor de temperatura no painel externo que eu tinha acabado de ler explodiu em um flash de luz e fumaça, soltando um cheiro de ozônio. O alarme disparou novamente, mas agora com um novo código.
Carga viva detectada. Eu bati a porta do contêiner com uma força que quase deslocou meu outro braço. Corri para a cabine da Axor com os gritos da garota eando em minha cabeça. Ela não estava sequestrada. Ela era a carga. Eu saltei para dentro da cabine da Axor, batendo a porta com força e travando-a. Minhas mãos tremiam tanto que levei três tentativas para enfiar a chave na ignição. O motor pegou no tranco. Eu não olhei para os retrovisores. Eu só pisei fundo no acelerador, sentindo os pneus da carreta patinarem no cascalho antes de agarrarem o asfalto frio da BR116.
Eu estava fugindo de uma criança que flutuava e girava a cabeça. Isso era a coisa mais insana que tinha acontecido nos meus 15 anos de estrada. O pesadelo da BR não era a carga, era a criatura que estava dentro dele e ela sabia meu nome. O caminhão estava a mais de 90 km, descendo a serra em uma sucessão perigosa de curvas. Eu não me importava com o risco de capotar. A única coisa que importava era a distância entre eu e aquele contêiner. Eu tentei ligar para a transportadora, para a polícia, para quem fosse. O celular continuava sem sinal. A única coisa que eu conseguia ouvir o barulho ensurdecedor do meu próprio medo e o rangido metálico da carreta. E então o som começou a vir do baú. Não era o som do compressor quebrado, era o som de algo grande se debatendo dentro do contêiner. O barulho começou como pancadas abafadas, como um lutador de sumô batendo os punhos nas paredes. Bam, bam, bam. O som era tão poderoso que fazia toda a cabine vibrar.
A Axor, 254 é um monstro de aço, mas estava tremendo como um fusca na buraqueira. A garota não estava mais parada e sorrindo. Ela estava tentando sair. Eu acelerei ainda mais. Minha esperança era chegar a uma área com sinal de celular ou um posto da Polícia Rodoviária Federal antes que ela conseguisse abrir caminho. O contêiner começou a guinchar, não mais as pancadas. Agora o som era de metal sendo esticado e rasgado. Grin.
O mesmo som de arame farpado sendo puxado por uma força sobrenatural. Eu podia imaginar as pequenas mãos da garota, talvez com garras, rasgando o aço naval da porta traseira. Olhei rapidamente pelo retrovisor direito. A neblina era espessa, mas por um segundo vi algo que me fez sentir um calafrio na espinha. A porta traseira do pesadelo da BR estava levemente empenada, não apenas amassada, mas curvada para fora, com uma pequena abertura por onde saía a fumaça gelada do interior. Eu sou uma caminhoneira. Eu sei a espessura daquele metal. Não era para um ser humano, mesmo o mais forte, conseguir fazer aquilo. O que estava dentro não era humano. De repente, as luzes de freio da carreta, que ficavam na parte traseira do contêiner, piscaram e se apagaram. A força das pancadas e o estiramento do metal provavelmente tinham rompido a fiação. Agora, o baú era uma massa escura e silenciosa, exceto pelo som do metal sendo destruído. Eu comecei a gritar. Uma descarga de pavor enquanto o caminhão entrava na curva mais perigosa do trecho. Eu joguei a marcha para baixo, engolindo a fumaça dos freios.
Crunch! Um som seco e agudo veio de trás. Não era metal, era o som da tampa de um dos reservatórios de óleo hidráulico que ficava na lateral do contêiner sendo arrancada. O baú ficou em silêncio por 2 segundos. um silêncio assustador, prenunciando algo pior. E então eu ouvi um som de sucção seguido por um engasgo úmido. Era o som de algo que estava bebendo ou se alimentando do óleo. O contêiner estava se alimentando do caminhão. O painel de controle do motor piscou em vermelho. Pressão do óleo baixa. O motor da Axor, que me levava para a segurança, começou a perder potência. Eu olhei para o painel.
A velocidade estava caindo drasticamente. A criatura não precisava me alcançar. Ela estava desabilitando meu veículo de dentro da carga. Eu não tinha mais tempo. Eu tinha que me livrar da carga.
Em um ato desesperado, eu enfiei a mão embaixo do banco e agarrei a alavanca de emergência do engate da quinta roda, o mecanismo que separa a cabine do semibreboque. Eu puxei a alavanca com toda a minha força. O mecanismo soltou um clang alto e seco. Axor soltou o pesadelo da BR. O contêiner e o reboque com a garota faminta dentro começaram a deslizar pela BR16 em direção à curva mais fechada. A cabine do meu caminhão, agora livre e leve, ganhou velocidade. Eu olhei pelo retrovisor. A luz vermelha do caminhão iluminava o contêiner vazio rolando, mas ele não estava vazio. A porta traseira, agora totalmente aberta, revelou a garota. Ela estava parada na abertura, de costas, na mesma posição flutuante, mas agora a túnica azul claro estava manchada de óleo hidráulico. O contêiner estava descendo a serra. A garota virou a cabeça a 180º.
Seus olhos pretos me fitaram com uma fúria gélida e ela fez um gesto com a mão pálida, como se estivesse me chamando para voltar. O caminhão dela, o pesadelo da BR, atingiu a curva em alta velocidade. O reboque se inclinou e a última coisa que vi antes de o contêiner desaparecer no abismo da mata atlântica foi a garota flutuando na porta, sem pés, desaparecendo na escuridão, antes do som de aço se retorcendo e árvores sendo quebradas. Eu parei o caminhão a uns 2 km de distância, ofegante, chorando de alívio e pavor. A polícia rodoviária chegou meia hora depois, alertada pelos motoristas que viram a carreta desgovernada. Mas a história não acabou aí. US SGT. Roberto, um policial mais velho e cético, me olhava com desconfiança. Minha história de uma menina flutuante e de um contêiner que bebia óleo não estava ajudando meu caso.
Eles suspeitavam de desengate criminoso e fraude de seguro. Senora Zanete, entendemos que o estresse é grande, mas a senhora tem certeza de que soltou o reboque sozinha? E por que não havia sinal de vida no contêiner? Ele perguntou enquanto descíamos a encosta íngreme. Eu soltei e eu disse: “Não havia vida humana, havia algo.” Minha voz estava seca. Chegamos ao ponto de impacto. O reboque havia caído em uma área de mata fechada, onde o terreno cedia para um riacho. O contêiner de 40 pés estava lá, amassado e retorcido, com a porta totalmente escancarada, jogado de lado como uma lata amassada. Estava coberto de lama e galhos quebrados. A cena era caótica, mas o que me chamou a atenção não foi a destruição, foi o frio. Apesar do sol da manhã e da umidade típica da mata, havia uma camada fina de gelo e geada cobrindo a vegetação em um raio de 10 m ao redor do contêiner. O ar estava estranhamente parado e gelado, com o mesmo cheiro adocicado de perfume e glicerina que eu senti na noite anterior. Veja isso, SGT.
Roberto, eu apontei para a Geada. O sistema frigorífico estava desligado, mas está tudo congelado aqui. O policial franziu a testa sem resposta. Ele se aproximou da porta aberta do contêiner.
O interior estava em péssimo estado, mas totalmente vazio. Não havia carne, não havia cortes nobres de exportação, não havia absolutamente nada, exceto a sujeira. E no centro do chão, uma grande mancha de óleo hidráulico seco, vazio.
Não tem nenhuma carga. Senora Zanete, seu manifesto era falso. O policial concluiu registrando a informação. Não há corpo. Não tinha algo. Uma garota.
Ela estava aqui. Eu insisti desesperada.
SGT. Roberto revirou os olhos e deu a volta no contêiner para checar o outro lado, o que estava virado para o chão.
Foi quando eu gritei, não por medo, mas por constatação. A lateral do contêiner que estava para cima tinha uma série de cortes profundos. Não eram cortes aleatórios da queda. Eram linhas simétricas, como se tivessem sido feitos por uma serra circular. eram os cortes que a criatura fez para esticar o metal, mais importante que os cortes. Na parte de baixo do contêiner, onde a chapa de aço encontrava o chão de terra úmida, havia um buraco. Um buraco que tinha sido rasgado de dentro para fora. Não era um buraco limpo, mas uma ruptura irregular, com o aço naval virado para o exterior. Eu me aproximei e olhei. O buraco levava diretamente para a terra.
E a terra, bem ali, não estava úmida, estava congelada. Eu apontei para o buraco e para o chão. Ela não estava flutuando no ar, SGT, Roberto. Ela estava flutuando no vazio que ela criou, na ausência de chão. Ela estava cavando a estrutura do contêiner com o próprio corpo para se mover. E agora ela saiu. O policial se agachou e olhou para o buraco na terra que havia sido exposto pela queda. Era um buraco profundo com as bordas cobertas por uma fina camada de gelo. “Senora Zanete, isso é um bueiro de drenagem da estrada. Olhe de novo”, eu insisti pegando um galho e enfiando no buraco. O galho desceu por mais de 1 m e parou. Não era um boiro, era um túnel. Um túnel gelado que levava para a escuridão sobre a terra. E o que quer que fosse a garota sem pés, ela havia usado a queda para se livrar do pesadelo da BR e entrar na subsuperfície da serra. O policial ficou pálido, não pelo buraco, mas por algo que estava agarrado na borda do aço naval perto da ruptura, um pedaço de tecido azul claro, do mesmo vestido que eu vi a garota usando. E ao lado do tecido, uma pequena mancha viscosa e transparente. Ele olhou para a mata, depois para o buraco gelado e para o contêiner vazio. “Chame a base”, ele gritou para o seu parceiro que estava na estrada. Isolamento imediato, acidente com possível contaminação biológica. não identificada e mande uma equipe de sondagem aqui.
Naquele momento, eu soube que a história estava sendo tomada pelo governo. O pesadelo da BR não era uma lenda, mas uma carga biológica perdida. e eu a tinha libertado. Eu estava sendo interrogada por um agente do governo, um homem com terno cinza e olhos frios, que só queria saber de uma coisa, onde o contêiner havia sido carregado. Eu dei a ele o nome do porto, mas a última pergunta dele me fez tremer. A garota Ela estava com frio. Ela pediu para você entrar? Sim. Ela disse que o frio estava delicioso. O agente suspirou, tirou um papel do bolso e o estendeu para mim.
Era um desenho, um esboço a carvão, datado de 1958, de uma garota com cabelo preto em um vestido azul flutuando em um poço.
Título no desenho: O espírito sem pés da serra. Ela é conhecida por aqui, Carla, há décadas, só que ela nunca conseguiu sair da área de mata. O frigorífico não a transportava, ele a continha. Ele a mantinha em temperatura estável para evitar que ela usasse o calor para acelerar a mutação. Mutação? Sim, a criatura se alimenta de fluidos mecânicos e energia térmica. Ela usa a temperatura baixa para se manter estável. Você a super aqueceu e ela usou a força para se alimentar do óleo do seu caminhão. Você a libertou e a despertou para uma nova fase. O frio já não assegura mais. Posso continuar com o próximo bloco da história? Número 10 adaptada. O agente de terno cinza, que se identificou apenas como o Dr. Elias, me levou para um isolamento temporário em uma base secreta da Polícia Federal na Serra. Eles queriam ter certeza de que eu não tinha sido infectada pela criatura. Eles chamavam a garota de um miasma frígido. A teoria era aterrorizante. A criatura era uma forma de vida que absorvia o calor e a energia mecânica para manter seu corpo em um estado de congelamento constante, usando fluidos como o óleo hidráulico para se alimentar e se locomover. O contêiner, o pesadelo da BR, não era uma prisão, era um cobertor gelado. Ao super aquecer o baú, eu a obriguei a despertar e a evoluir, cavando seu caminho para a liberdade. Ela está na subsuperfície da serra, Carla. Ela vai para onde houver energia térmica concentrada. Dr. Elias, explicou, mostrando mapas do subsolo.
Onde há calor, a vida. E onde há vida, há alimento. E onde ela vai? Minha voz mal saía para a cidade, para o Rio de Janeiro. E o caminho mais rápido é a BR16.
Ela vai usar a estrada como um túnel de caça. Eu fui liberada dois dias depois, sob um termo de sigilo que, se quebrado, me levaria à prisão por tempo indeterminado. Eles me deram dinheiro e uma passagem de ônibus para longe da região serrana. Minha Scânia, a rainha da serra, foi confiscada como evidência biológica. Tentei voltar para minha vida normal em São Paulo, mas o medo me paralisava. Cada sombra, cada corrente de ar frio, cada barulho de estalo me fazia lembrar dos tornozelos flutuantes.
Eu não conseguia mais dirigir. O som do motor diesel se transformou no som da respiração daquela coisa. Seis meses se passaram. Eu estava trabalhando como caixa em um supermercado em Piracicaba, a quilômetros de distância do rio, quando uma notícia de rádio me atingiu como um tiro. O noticiário anunciava um evento bizarro na BR116, na descida Serra das Araras. Um engavetamento de proporções inéditas paralisou a rodovia Presidente Dutra.
Mais de 10 caminhões frigoríficos se envolveram e a causa do acidente é misteriosa. Testemunhas relatam que todos os caminhões pararam ao mesmo tempo com falha total de motor e no sistema hidráulico. O mais estranho é que no local do engavetamento, todos os caminhões estavam cobertos por uma camada espessa de gelo, apesar da temperatura ambiente de 28º.
O corpo de bombeiros isolou a área, mas há relatos de sumiço de motoristas.
O miasma frígido estava de volta. Ela não estava mais se alimentando de um caminhão. Ela estava se alimentando de uma frota inteira. Eu joguei o rádio no chão do supermercado. Eu sabia o que estava acontecendo. Naquela noite eu recebi uma ligação no meu celular. Era um número restrito. Eu atendi tremendo.
Alô. O som que veio do outro lado não era de um telefone, era um som ambiental, como se a pessoa estivesse dentro de um túnel ou de um contêiner frigorífico vazio. E no meio do eco veio uma voz familiar, uma voz fina e vazia, como a de uma criança gravada em cassete. Carlos, Anete, meu corpo congelou. Você me abandonou no frio.
Agora eu estou voltando para o calor, mas o frio me segue. Eu consegui forçar as palavras. Como você conseguiu meu número? O rádio do seu caminhão. Eu me alimentei de tudo. O GPS, a fiação, seus contatos, o caminhão. É um delicioso ninho. O som da sucção retornou, mais forte e grotesco do que na BR. Mas eu sinto falta do seu cheiro. Você é um calor muito forte. Eu preciso de você, Carla. Eu estou na sua cidade. Procure por mim. Procure pelo caminhão que não tem pneus. Eu vou te levar para o nosso lar no contêiner vazio. A ligação caiu.
Eu tentei ligar para o Dr. Elias, mas o número que ele me deu não existia mais.
Eu estava sozinha. Naquela mesma noite, eu estava voltando para o meu apartamento alugado quando vi algo estacionado na minha rua. Era um semeboque, só o baú, sem a cabine, estava escuro e o metal estava pingando gelo no asfalto quente. Era um contêiner frigorífico de 40 pés da mesma empresa fictícia que contratei. Ele estava sem pneus, com os eixos raspando no chão, e, na lateral, com uma pintura nova e fresca, o nome de batismo estava ali, o pesadelo da BR. A porta traseira estava entreaberta e eu juro, juro que vi no chão uma pegada, uma mancha de óleo e lama, e no meio da mancha a pequena marca do tornozelo sem pé da garota que flutuava. Ela não estava me esperando na estrada, ela me perseguiu até em casa. O pesadelo da BR se tornou o pesadelo da minha vida. Eu sei que ela está lá dentro, esperando que eu sinta a curiosidade, que eu sinta o medo e que eu abra a porta para entrar no frio delicioso. Eu moro com a porta trancada, coberta por cobertores, ligando o aquecedor no máximo, tentando manter o máximo de calor possível, tentando afastar o frio que me persegue. Mas às vezes, no meio da noite, eu ouço o rangido de metal e o cheiro doce e enjoativo de perfume floral. E eu sei que ela está logo ali flutuando na porta do meu apartamento, me convidando para entrar no congelador.