
Mulher caminhonera é morta após ser flagrada com esposa de amigo. Marido armou emboscada com cúmplice. Meu nome é Ricardo Alves. Eu tinha 38 anos quando tudo aconteceu e por fora eu parecia o típico homem de negócios bem-sucedido de São Paulo. Morava em um apartamento caro na Vila Olímpia, dirigia um sedã importado e fingia que minha vida estava sob controle. Mas por dentro eu era uma teia de nervos desfiada. Há anos eu sofria de ataques de pânico terríveis que pareciam surgir do nada. Eu tinha pesadelos vívidos, onde eu estava em um ambiente escuro, ouvindo o som de um motor a diesel e sentindo um cheiro forte de gracha e sangue. Eu nunca conseguia distinguir o que era. Meu médico me diagnosticou com TEPT, transtorno de estresse pós-traumático, mas não havia trauma óbvio. Minha infância foi normal, meus pais eram amorosos. Eu não tinha servido em guerra, nem sofrido acidentes graves.
Foi aí que me indicaram o doutor Eitor Bittenencur, um psicólogo renomado, especialista em regressão e hipnose. Sua clínica ficava em um casarão antigo em higienópolis, com cheiro de madeira e incenso. Na nossa terceira sessão, Dr.
Eitor me propôs a regressão hipnótica.
Ele acreditava que a origem dos meus ataques estava enterrada tão fundo que só a hipnose poderia trazer à tona. Eu hesitei, mas estava desesperado para dormir uma noite inteira sem acordar gritando. A sala era escura e silenciosa. O doutor Heitor falava com uma voz suave e monótona, me guiando para um estado de relaxamento profundo.
Você está seguro, Ricardo? Deixe sua mente ir. Volte para o último momento em que você se sentiu realmente feliz. Ele instruiu. Minha mente viajou para um dia na praia quando eu era adolescente. Era agradável, mas ele não estava satisfeito. Não, Ricardo, vá mais fundo para um momento antes da felicidade, antes da sua vida atual. Encontre o ponto de ruptura. A voz dele ficou mais firme. Eu senti meu corpo ficar pesado.
Meu pescoço começou a doer. Eu estava voltando. De repente, a praia sumiu. A escuridão dos meus pesadelos me engoliu.
Eu não estava mais em São Paulo. Eu estava em um lugar úmido, frio, com cheiro de mato e diesel. Eu podia sentir o vento gelado no meu rosto. Eu estava em uma cabine de caminhão. Eu não estava dirigindo. Eu estava sentado no banco do passageiro. A luz do painel iluminava o interior. Eu podia ver o motorista. Era um homem forte, de barba por fazer, com uma tatuagem de águia no braço. O nome dele era Tobias. Tobias da Silva Gomes, um antigo colega da faculdade que eu não via há anos, mas que nos meus pesadelos era um rosto constante. Ele vai chegar logo, Tobia. Certeza que ela vem por essa rota? Eu ouvi a minha própria voz, mas ela estava mais grossa, mais agressiva. Ela vem, Ricardinho. A Sandra Lemiguedes é previsível. Ela sempre pega essa rota com o Scan azul dela quando está vindo de Minas. E quando ela parar para dormir, a gente ataca. Aquele desgraçado vai pagar por ter ficado com a minha Carla. Tobias rosnou, apertando o volante. A cena era vívida. Eu era o cúmplice. Eu estava participando de uma emboscada. O meu trauma não era meu. Era a culpa reprimida de um crime que eu ajudei a cometer e que minha mente apagou. Senti náuseas, mas não podia sair da hipnose. O que vocês estão esperando? O Dr. Heitor sussurrou no meu ouvido. Sua voz agora parecia vir de dentro do caminhão. A gente tá esperando a caminhoneira, a Sandra Lemiguedes. Eu respondi ainda como meu eu reprimido.
Então, na estrada deserta à frente, sob a luz dos faróis, surgiu um caminhão.
Era um Scania azul, grande e imponente.
É ela. É o Scania dela. Lembra do plano, Ricardinho? Você fica com a faca. Eu dou conta da porta”, Tobias, disse, desligando o motor e apagando os faróis.
O Scania azul parou a uns 50 m. Eu vi a porta do motorista se abrir. Uma mulher alta e forte, de cabelo preso, desceu.
Era Sandra. Tobias me deu um empurrão.
Vai agora. Eu saí do caminhão cambaleando. A faca estava na minha mão.
Eu estava correndo em direção à Sandra Lemigedes, que estava de costas abrindo a lateral do baú. O que você vê agora, Ricardo? O que você faz? A voz do Dr.
Eitor era um chicote. Eu senti uma urgência desesperada. Eu tinha que impedi-lo. Tinha que gritar um aviso para a Sandra, mas meu corpo na regressão não era meu. Eu corri até ela, gritei seu nome e levantei a faca.
Aquele foi o ponto de ruptura. A faca desceu, mas antes que atingisse Sandra, eu ouvi um grito que não era meu, nem da Sandra, nem do Tobias. Era um som animalesco, um berro úmido e gutural. Eu senti uma força descomunal me puxar para trás, me tirando da cena. A hipnose se quebrou. Eu abri os olhos. Eu não estava mais na cadeira confortável da clínica.
Eu estava no chão, em um quarto escuro e desconhecido. Meus pulsos e tornozelos estavam amarrados firmemente com cordas de couro a uma cama de ferro. A luz fraca da rua entrava por uma fresta. Eu estava chorando, mas não eram lágrimas de medo, eram soluços desesperados.
Minha visão estava embaçada e eu não conseguia me mover. A boca estava seca e o corpo em chamas. E então o cheiro não era graxa ou diesel, era um cheiro forte de pelos e terra molhada, um cheiro de animal selvagem. Tentei me debater, mas a corda me segurava. Olhei para o meu corpo amarrado. Meu corpo não parecia normal. Meu peito e braços estavam cobertos por uma camada de pelos escuros e grossos. Minhas unhas estavam alongadas e curvas como garras. Eu não estava só. Eu ouvi um som vindo do canto do quarto. Era o Dr. Eitor. Ele estava sentado em uma poltrona na escuridão, observando-me, mas ele não estava sozinho. Sentado no colo dele estava uma figura pequena que parecia uma criança.
A criança estava acariciando a minha cabeça e eu sentia o calor da respiração dela na minha orelha. Ele acordou o Dr.
Heitor. A criança sussurrou. O trauma se manifestou. A sensação de ter pelos crescendo no meu corpo, misturada com o cheiro selvagem e a paralisia das cordas, era o cúmulo da minha alucinação. Mas a presença do Dr. Reitor e daquela criança no quarto escuro era aterrorizante demais para ser um mero delírio. O que O está acontecendo comigo? Eu gemi. A voz rasgando a garganta. O Dr. Reitor não respondeu imediatamente. Ele tinha um sorriso calmo e perturbador no rosto. Ele acendeu um cigarro e o cheiro de fumaça invadiu o quarto, misturando-se ao cheiro de pelos e mofo. “Você foi fundo demais, Ricardo”, ele disse, exalando a fumaça. “Você encontrou o que procurava, a origem do seu pânico. Você ajudou Tobias da Silva Gomes a cometer um crime ediondo? Você participou do assassinato de Sandra Lemigedes, a caminhoneira do Scania azul, por motivos de ciúmes e vingança, e sua mente escolheu apagar o seu papel naquilo. O TPT não era um trauma, era a sua alma tentando vomitar a culpa. Não, eu não faria isso. Eu não sou um assassino. Eu lutei contra as cordas, sentindo a dor escruciante nas minhas entranhas. O pânico de ser um cúmplice de assassinato era quase tão grande quanto o terror de estar amarrado. Você não fez. Foi a coisa em você que fez. A criança disse, e sua voz, embora infantil, carregava um peso antigo. O Dr. Heitor acariciou a cabeça da criança. Essa é a alma cúmplice, Ricardo. Você reprimiu a culpa de forma tão violenta que o seu lado animalesco, o predador, se manifestou para absorver o ato. O seu trauma não é uma memória, é uma entidade parasita que nasceu da sua covardia e cresceu com a sua culpa.
Durante a hipnose, quando você estava prestes a repetir o crime, ela tentou te proteger, te tirando da cena e ela se manifestou. Por isso os pelos, por isso a agressividade no trânsito, por isso os pesadelos com diesel e sangue. Eu olhei para os meus braços, os pelos eram reais, grossos, cobrindo minha pele. O terror era palpável. Eu tinha me transformado em algo. Onde? Onde está o Tobias? Preso. O Dr. Leitor respondeu com satisfação sádica. A polícia encontrou o corpo de Sandra Lemiguedes e o Tobias confessou o crime. Mas ele não diz que tinha um cúmplice. Ele sabia que você era o elo fraco. Por isso ele te ligava. Por isso você o via nos seus pesadelos. Ele está tentando te puxar de volta para o ato que vocês compartilharam. Por que você está me fazendo isso? Por que me prendeu? Porque a alma cúmplice, é valiosa. Ela é a manifestação mais pura da culpa humana.
Um poder oculto que eu e meu assistente podemos usar, ele disse, fazendo um aceno para a criança. A criança desceu do colo do Dr. Heitor e se aproximou da cama. Ela era pequena, talvez cinco ou se anos, mas usava um sorriso de dentes serrilhados. Você tem o cheiro do medo, Ricardo, e o seu medo é alimento. Nós precisamos de você para atrair mais almas cúmplices. Eu sou o cobrador da culpa a criança sussurrou e eu senti um ar gelado em meu rosto. O doutor Heitor se levantou, jogou o resto do cigarro no chão e o apagou com o sapato. A alma cúmplice, é poderosa, mas instável. Ela precisa ser dominada. Ele se aproximou da cabeceira da cama. Na parede havia desenhos estranhos feitos com giz de cera, figuras humanas distorcidas, cabeças de animais e o que parecia ser um caminhão Scânia azul. No centro de um dos desenhos havia um símbolo, uma espiral dupla. Eu vou te hipnotizar novamente, Ricardo, mas desta vez o objetivo não é a terapia, é a transferência. Eu vou te colocar de volta no dia do crime, no exato momento em que você levantou a faca para Sandra Lemiguedes e vou obrigar a alma cúmplice a se manifestar completamente. Então ela será minha. O pânico atingiu um pico. Eu tentei gritar, mas o Dr. Leitor colocou um pano com cheiro forte de éter no meu rosto. Relaxe, Ricardo. Lembre-se do diesel. Lembre-se do sangue. Lembre-se da caminhoneira no chão. Eu senti a minha mente escorregar para o abismo, arrastada pelo éter e pela voz monótona dele. A imagem do Scania azul e do rosto aterrorizado de Sandra voltaram com força total. Você está correndo. Você está com a faca. Tobias está rindo. A caminhoneira está de costas. Ela não vê.
Ela não sente, ela não tem medo. A voz do Dr. He reitor ecoava, cada palavra me puxando para o abismo da culpa. Eu senti uma força, não minha, mas minha, se manifestar. Os pelos no meu corpo se arrepiaram e senti meus músculos se contraírem com força sobreumana. Eu estava me transformando. A alma cúmplice. Estava assumindo o controle total. Eu senti as cordas estalarem. Eu ouvi um som de rasgo. A última coisa que vi antes de ser engolido pela alma cúmplice foi o rosto do Dr. Eitor. Ele estava sorrindo, vitorioso, esperando para absorver o meu monstro. Mas eu não estava na cena do crime. Eu estava no quarto e a alma cúmplice não queria ser dominada. Ela queria vingança. A força que me dominou não era minha, mas era alimentada pela minha culpa reprimida. A alma cúmplice era o meu eu predador, aquele que foi capaz de levantar a faca para Sandra Lemiguedes. Ela não queria mais ser um segredo enterrado. Ela queria liberdade e, como o Dr. Eitor percebeu tarde demais, ela não se submeteria à transferência. As cordas de couro se partiram com a violência da minha transformação. O som do rasgo ecoou no quarto escuro. Meus ossos rangeram, meus dentes se alongaram em presas e meus olhos ardiam com uma fúria primal. Eu me levantei da cama, agora inteiramente coberto por pelos escuros.
E o cheiro de selvagem e graxa que me assombrava nos pesadelos era agora o meu próprio cheiro. Eu era o monstro que a culpa criou. O Dr. Zeitor, pego de surpresa, perdeu o sorriso sádico. Ele estava pálido. Não, a transferência não estava completa. Você deve se acalmar, Ricardo. Você não pode fazer isso. Ele gritou, tentando manter a voz de comando, mas ela falhava. A criança, o cobrador da culpa, que estava parada ao lado dele, não parecia surpresa. Ela apenas sorriu mais. Aquele sorriso de dentes serrilhados. A alma cúmre-se não vai para você, doutor. Ela é um predador que você libertou. A criança sussurrou e seus olhos fixaram-se em mim com uma fome macabra. Eu ataquei não com a razão de Ricardo Alves, mas com a fúria cega da minha alma cúmplice. O Dr. Heitor tentou fugir paraa porta, mas eu era rápido. Eu o agarrei pelo braço. Senti o tecido da camisa dele rasgar sob minhas garras. Ele gritou: “A hipnose! Volte paraa hipnose. Lembre-se da caminhoneira. Volte paraa cena.” Ele berrava. A menção de Sandra Lem Guedes fez a alma cúmplice recuar por um instante. A cena voltou, o Scania azul, a faca na minha mão, mas agora, em vez de dor e culpa, senti uma raiva direcionada não à vítima, mas ao meu cúmplice e ao meu carrasco. Eu soltei o Dr. reitor. Ele caiu no chão, apavorado.
A criança, o cobrador, não correu. Ela veio até mim, levantando as mãos em um gesto de súplica. Não me machuque, Ricardo. Eu sou a manifestação do seu trauma infantil, o abandono, a negligência. Eu sou a raiz de tudo. Me absorva e a alma cúmplice. Terá poder total. Eu olhei para ela, nos seus olhos vi algo que não era demoníaco, mas infinitamente triste. Vi uma criança real, a representação do meu medo de ser abandonado. Mas o Dr. Reitor não queria me curar. Ele queria a alma cúmplice.
Ele havia usado a criança como um escudo ou um atrativo. Eu não toquei na criança. Em vez disso, meus olhos voltaram para a parede, para os desenhos de giz de cera. No centro da espiral dupla, o símbolo de transferência, havia uma mancha escura. Era sangue seco.
Naquele momento, um pensamento lúcido atravessou o véu da minha transformação.
Outros vieram antes de mim. Outras almas cúmplices foram roubadas aqui. O Dr.
reitor rastejou até o telefone, mas eu o chutei para longe. Você vai me devolver à minha mente. Minha voz saiu como um rosnado animal misturado com a minha voz humana. A sua mente é o preço, Ricardo.
O escane azul não vai te livrar do que você fez. Você é um assassino. Ele gritou desesperado. Eu o arrastei pelo chão, levando-o para o centro do quarto, onde os desenhos do crime e da alma cúmplice estavam rabiscados na parede.
Eu o forcei a olhar para o desenho do caminhão Scania azul. Fomos nós que a matamos”, eu disse, a culpa esmagadora voltando por um segundo. “Mas você tentou roubar o meu remorço e agora você vai pagar pelo meu crime e pelo seu.” Eu o empurrei contra a parede. Ele soltou um gemido de dor. Onde está o corpo? Eu exigi, sabendo que a alma cúmplice precisava de fechamento, de redenção, mesmo que fosse através da violência, no mato, na divisa de Campinas, perto de uma rodovia. Me solta, eu te dou o que você quiser. Eu senti a minha alma cúmplice rir. Eu soltei o Dr. Heitor e ele caiu, convulsionando de terror. Eu olhei para o cobrador da culpa. A criança estava parada, observando tudo sem medo. O ciclo não acaba aqui, Ricardo. Ele só muda de mestre. A sua culpa é o meu playground”, ela disse. Eu sabia que não podia matar a criança sem matar o meu trauma infantil, mas eu podia neutralizar o Dr. reitor. Eu rasguei um pedaço do lençol da cama e o usei para amarrar o Dr. reitor, não na cama, mas na cadeira que ele usava para me hipnotizar. Eu o deixei amarrado com o pano do éter na boca para abafar os gritos. Eu olhei para os meus braços, os pelos estavam recuando, o controle voltava lentamente. A manifestação havia se acalmado. Eu precisava sair dali, encontrar o corpo de Sandra Lemiguedes e tentar espiar a culpa que me criou.
Peguei as chaves do consultório do Dr.
reitor, abri a porta e saí do quarto escuro, carregando o peso da alma cúmplice e o cheiro de pelos no meu corpo. Eu estava livre, mas não curado.
Eu era um fugitivo. Enquanto eu descia as escadas do casarão de higienópolis, senti uma mão pequena tocar a minha. Era o cobrador da culpa, a criança. Eu vou com você, Ricardo. Eu sou o seu medo. E agora? A sua bússola. Você precisa encontrar o Scania azul. Ela sussurrou.
E eu senti um arrepio gelado. Eu olhei para ela. Eu sabia que ela não era um anjo da guarda. Ela era o meu novo tormento. Eu saí do casarão do Dr. Eitor Bitencur, acompanhado pela alma cúmplice em forma de uma criança. Eu me sentia como um homem dividido. Ricardo Alves, o covarde que ajudou Tobias e o monstro peludo que ele havia se tornado e que agora buscava a redenção violenta. O cobrador da culpa, como a criança se autodenominava, me guiava. Sua presença era um tormento constante. Ela sussurrava os piores medos e a dor de Sandra Lemiguedes em meu ouvido, mas era o único elo que eu tinha com o crime que minha mente apagou. Para a rodovia, Ricardo, o corpo dela está lá. O Scania azul também está esperando. Ela guiava sentada no banco do passageiro do meu sedã enquanto eu dirigia em alta velocidade. Chegamos à divisa de Campinas, um trecho de estrada de terra perto da rodovia dos Bandeirantes, a mesma rodovia mal assombrada da história nove, o que me causou um arrepio. Eu parei o carro, seguindo as instruções do cobrador em uma área de mata fechada.
Aqui, a criança disse descendo do carro.
O cheiro de gracha e arrependimento está forte. O corpo de Sandra está no poço.
Caminhamos pela mata densa. Eu com um facão na mão que havia pegado no carro.
A criança andando na frente, vestida em roupas escuras que pareciam absorver a luz. Eu parecia um homem em busca de uma sepultura, guiado pelo meu próprio trauma personificado. Chegamos a uma pequena clareira. No centro havia um poço abandonado com a boca coberta por tábuas podres e musgo. O cheiro de decomposição era sufocante. O Tobias jogou o corpo aqui depois de você. A criança disse sorrindo. Ele te ligou, Ricardo. Você foi o cúmplice perfeito.
Neste momento, a alma cúmplice me dominou novamente. Eu não era mais Ricardo, mas uma fúria peluda. Arranquei as tábuas do poço com força bruta, olhei para dentro. A água era negra. No fundo, flutuando estava o corpo. Era Sandra Lemiguedes, inchada com a camisa xadrez rasgada. A visão me trouxe de volta à realidade, mas com uma culpa ainda maior. O trauma agora tinha um rosto e um nome. “Você não pode deixá-la aqui”, eu sussurrei, sentindo as lágrimas misturadas aos pelos do meu rosto. O cobrador riu. Não se preocupe. Ela não está sozinha. Ele está chegando. De repente, a neblina invadiu a clareira. O cheiro de diesel e graxa, o mesmo dos meus pesadelos, ficou insuportável. E então ouvi o som. O rugido pesado de um motor a diesel, lento, como um coração cansado. O scânia azul de Sandra Lemigedes emergiu da névoa. Ele parou a poucos metros do poço. O motorista abriu a porta e desceu. Não era Tobias, era o Dr. Heitor Bitencur, completamente ensanguentado e machucado. Ele havia se libertado das amarras e estava segurando um pedaço de ferro ensanguentado.
Seus olhos estavam selvagens, não de terror, mas de posse. Eu sabia que você viria para cá, Ricardo. Eu sabia que a alma cúmplice precisava de um fechamento. Ele berrou. Ela é minha. Eu vou te colocar de volta na hipnose e te roubar tudo. O Dr. Heitor investiu contra mim, mas eu não estava sozinho. O cobrador da culpa, a criança, saltou na frente do Dr. Eitor. Ele não é o mestre.
A alma cúmplice. Tem que ser livre. O Dr. Heitor, cego pela ganância, não hesitou. Ele bateu com o pedaço de ferro na criança. O som do impacto foi seco, mas não houve sangue. A criança dissolveu-se no ar em uma nuvem de fumaça cinza, soltando um grito agudo que rasgou meus tímpanos. No mesmo instante, o Dr. Heitor sentiu uma dor escruciante. Ele caiu no chão, gritando: “O cobrador não tinha sido destruído, tinha sido transferido. O Dr. Heitor, que queria roubar a alma cúmplice, agora estava sendo consumido pelo meu trauma infantil personificado. Os gritos de Heitor foram interrompidos pela abertura da porta do Scania azul. De lá saiu Sandra Lemiguedes. Ela estava completamente encharcada, escorrendo água do poço. Seu corpo estava pálido e frio. Ela olhou para o Dr. Leitor e depois para mim. Ela estava de pé, mas estava morta. A alma cúmplice que eu havia libertado agora era dela. Sandra caminhou até o Dr. Heitor, que ainda se contorcia no chão possuído. Ela o pegou pelo colarinho com uma força sobrenatural. Você queria a alma cúmplice, doutor? Aqui está. A voz de Sandra era agora um misto de minha voz e a dela, grave e rouca. Sandra, dominada pela minha alma cúmplice, arrastou o Dr.
Leitor, que chorava e gemia, até o poço e o jogou lá dentro. Um splash occo e depois silêncio. Eu estava parado com o facão na mão, assistindo aterrorizado.
Sandra, agora o avatar da minha culpa e da vingança da vítima olhou para mim.
Você está livre, Ricardo, mas sua culpa é o motor do meu Scania. Eu vou dirigi-lo para sempre. Ela se virou, entrou na cabine do caminhão e deu partida no motor. O escane azul acelerou e desapareceu na neblina, levando a alma cúmplice e a história de terror. Eu chamei a polícia, contei tudo, exceto a parte da criança e do monstro. Relatei que havia encontrado o corpo de Sandra Lemiguedes e que o Dr. reitor, em um surto, o jogou no poço e fugiu. A polícia encontrou o corpo do Dr. reitor no poço e com a confissão prévia de Tobias Gomes, o caso foi fechado. Eu nunca mais senti os ataques de pânico. A alma cúmplice se foi, transferida para o Scania azul. Hoje eu vivo uma vida normal, mas a cada aniversário da morte de Sandra Lemigeds, eu recebo um presente anônimo, uma nota de R$ 285, o valor que Ricardo Faria da história anterior pagou pela sua dívida e o valor que minha alma cumple-se usava como moeda. E de vez em quando, quando estou na estrada, eu vejo um Scania azul. Ele está sempre no acostamento, parado, com o motor ligado. Eu sei que ele está esperando por um novo caminhoneiro cansado. E o novo cobrador não é mais uma criança, nem um frentista. É uma mulher que sorri, coberta de pelos, com os olhos vermelhos. E ela está sempre pronta para fazer a próxima entrega.