
O filme Michael, dirigido por Antoine Fuqua e estrelado por Jaafar Jackson, sobrinho do astro, já ultrapassou a marca de US$ 700 milhões nas bilheterias mundiais e consolidou-se como um dos maiores sucessos de 2026. A cinebiografia celebra o talento incomparável de Michael Jackson, revive momentos icônicos de sua carreira e emociona fãs ao redor do mundo com performances arrebatadoras. No entanto, ao terminar a narrativa no auge da turnê Bad, em 1988, o longa deixa de fora capítulos inteiros da vida do Rei do Pop — alguns dos mais polêmicos, marcantes e conhecidos pelo público.
É o verão de 1988. Michael Jackson domina a cultura pop global. Thriller, de 1982, segue como o álbum mais vendido da história. A era Bad transforma estádios em espetáculos grandiosos. É nesse ponto alto da carreira que o filme para. O que viria depois — as acusações de abuso sexual, as transformações físicas, os casamentos, a paternidade, Neverland e os anos finais — simplesmente não existe na tela. O resultado é uma obra que exalta o gênio musical, mas levanta discussões acaloradas sobre tudo aquilo que foi deliberadamente deixado de fora.
Uma das ausências mais comentadas envolve as acusações de abuso sexual que marcaram os anos 1990 e 2000. O roteiro original, escrito por John Logan, incluía referências ao caso de Jordan Chandler, o menino que acusou Michael de abuso em 1993. No entanto, essas cenas foram removidas após refilmagens e intervenções legais. Segundo a Lionsgate Studios, o conteúdo entrava em conflito com um acordo firmado entre a família Chandler e o espólio do cantor, que proíbe comentários públicos sobre o assunto. O produtor Graham King admitiu ao Wall Street Journal que a equipe precisou reescrever o final do filme depois das filmagens já concluídas. “Foi algo bastante louco e surreal”, disse King. “Nunca tinha passado por uma situação em que você termina um filme e depois descobre que não tinha os direitos legais para contar aquela história”.
As cenas cortadas incluíam até a invasão policial ao Rancho Neverland. Sem abordar as acusações, o filme termina com a mensagem “Sua história continua”, abrindo espaço para uma possível sequência. Ainda não se sabe se um segundo filme enfrentará os processos judiciais e as denúncias que perseguiram Michael até o fim de sua vida.
Outra ausência sentida pelos fãs foi a de Janet Jackson, uma das irmãs mais próximas de Michael e uma das maiores artistas da música pop. Nem mesmo nas cenas da infância com os Jackson 5 ela aparece. La Toya Jackson revelou que Janet foi convidada para participar, mas recusou autorizar sua representação no filme. A decisão da cantora gerou repercussão e frustração entre quem esperava ver a dinâmica familiar completa.
Diana Ross, figura fundamental na trajetória de Michael, também sumiu da versão final. Em 2024, a Variety havia anunciado que Kat Graham interpretaria a lendária cantora. No entanto, todas as suas cenas foram cortadas por questões jurídicas, conforme a própria atriz explicou nas redes sociais. A relação entre Diana e Michael começou ainda na Motown, quando ele era criança. Ela atuou como mentora, amiga próxima e, em muitos momentos, como uma figura maternal. Michael já declarou publicamente que Diana era o amor de sua vida. Os dois trabalharam juntos em O Mágico Inesquecível e dividiram sucessos como “Upside Down” e “Ease On Down the Road”. Após a morte de Michael, em 2009, foi revelado que ele havia indicado Diana Ross como guardiã de seus filhos caso Katherine Jackson não pudesse assumir a responsabilidade. Sua ausência no filme foi sentida como uma grande lacuna emocional.
Ao parar em 1988, Michael também deixa de fora fases decisivas da vida do artista. Não há menção ao Rancho Neverland, às cirurgias plásticas mais radicais, às especulações sobre sua aparência, ao casamento com Lisa Marie Presley, à paternidade de Prince, Paris e Blanket, nem aos anos 1990 e 2000, marcados por controvérsias, problemas financeiros e saúde fragilizada. A passagem pelo Brasil em 1996, para gravar o clipe de “They Don’t Care About Us” no Rio de Janeiro e em Salvador, dirigido por Spike Lee, também ficou de fora — um ponto especialmente doloroso para os fãs brasileiros que esperavam ver seu país representado na tela.
Mesmo celebrando a música com performances incríveis, o filme deixou de fora várias canções importantes. Clássicos de fases posteriores, experimentações sonoras e faixas que marcaram o final da carreira não ganharam espaço. O foco ficou concentrado nos grandes hits até a era Bad, o que reforça a sensação de que o filme optou por uma narrativa mais segura e celebrativa, evitando os capítulos mais complexos e controversos.
A escolha de terminar em 1988 pode ser compreendida do ponto de vista comercial e jurídico. Contar a história completa de Michael Jackson exigiria lidar com processos, acordos de confidencialidade, direitos de imagem de terceiros e uma polarização que ainda divide a opinião pública décadas depois. Antoine Fuqua e a produção priorizaram o talento, o espetáculo e a jornada de um menino pobre de Gary, Indiana, até o topo do mundo. Jaafar Jackson entrega uma interpretação impressionante, capturando maneirismos, voz e presença de palco do tio com fidelidade impressionante. As sequências musicais são o grande destaque do longa.
No entanto, para muitos fãs e críticos, essa abordagem “segura” acaba deixando um retrato incompleto. Michael Jackson foi muito mais do que os anos 1980. Ele foi um artista que evoluiu, sofreu, mudou fisicamente, enfrentou acusações gravíssimas, tornou-se pai, quebrou recordes e viveu sob pressão constante da fama. Omitir esses elementos pode agradar parte do público que prefere lembrar apenas do gênio musical, mas frustra quem esperava uma cinebiografia mais corajosa e abrangente.
O debate sobre o que deve ou não ser mostrado em cinebiografias ganhou força com Michael. Filmes sobre artistas como Freddie Mercury (Bohemian Rhapsody) e Elton John (Rocketman) também optaram por versões suavizadas de controvérsias. No caso de Michael Jackson, a complexidade das acusações de abuso torna a tarefa ainda mais delicada. O espólio, que controla o legado, parece priorizar a preservação da imagem positiva do artista, o que influencia diretamente as escolhas narrativas.
Apesar das omissões, o filme cumpre um papel importante: apresenta Michael Jackson para uma nova geração que não viveu sua era de ouro. Jovens descobrem agora a voz única, a dança revolucionária e o impacto cultural que o Rei do Pop teve. As músicas voltam a tocar nas plataformas, shows antigos ganham visualizações recorde e o catálogo inteiro ganha novo fôlego. Nesse sentido, Michael funciona como celebração e porta de entrada.
Ainda assim, a pergunta permanece: até que ponto uma cinebiografia pode omitir partes difíceis da história sem perder sua essência? Michael Jackson foi um gênio, mas também um homem cercado de polêmicas, dor, solidão e acusações graves. Contar apenas a parte luminosa pode ser confortável, mas não é o retrato completo.
O filme termina com “Sua história continua”, o que sugere que uma sequência pode vir. Se isso acontecer, talvez o segundo capítulo enfrente os temas mais espinhosos que ficaram de fora. Por enquanto, Michael entrega um espetáculo visual e musical grandioso, mas deixa um vazio para quem esperava ver o artista em toda a sua complexidade humana.
O Rei do Pop merecia, talvez, uma narrativa mais corajosa. Por enquanto, o público terá que continuar buscando nas documentações, reportagens e arquivos a parte da história que o cinema preferiu não mostrar. Michael Jackson continua sendo um dos maiores ícones da cultura pop. Sua música transcende o tempo. Suas controvérsias também. E o debate sobre o que ficou de fora de Michael só prova que, mesmo 17 anos após sua morte, o Rei do Pop ainda move multidões, gera polêmica e acelera corações ao redor do mundo.