
A Polícia Federal reforçou nesta terça-feira uma tese investigativa que ganha cada vez mais força: os aportes bilionários realizados por fundos de previdência, especialmente o Rio Previdência, no Banco Master não foram motivados por critérios técnicos, mas por alinhamento político e relações pessoais indevidas. Segundo a corporação, o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e o banqueiro Daniel Vorcaro mantiveram um relacionamento próximo que influenciou diretamente a decisão de investir quase R$ 3 bilhões em letras financeiras e fundos estruturados do banco entre 2023 e 2025.
As investigações apontam que, entre outubro de 2023 e julho de 2024, o Rio Previdência aportou R$ 970 milhões em letras do Banco Master. Em seguida, entre dezembro de 2024 e outubro de 2025, foram realizados novos aportes que chegaram a R$ 2 bilhões. A PF destaca que essas decisões dependiam de “alinhamento político” com o ex-governador e de encontros frequentes entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro, inclusive em ambientes privados e no exterior, com despesas custeadas pelo banqueiro.
Essa nova fase da operação, batizada de Compliance Zero e autorizada pelo ministro André Mendonça, incluiu pelo menos 10 mandados de busca e apreensão, um deles na residência do próprio ex-governador Cláudio Castro. As apurações indicam elevada coincidência temporal entre os encontros e os aportes bilionários, o que reforça a suspeita de que critérios técnicos foram preteridos em favor de interesses políticos.
Enquanto o caso avança no Rio de Janeiro, em São Paulo os aliados do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) intensificam a estratégia de blindagem. Fontes próximas ao Palácio dos Bandeirantes confirmam que a orientação é clara: evitar agendas conjuntas com Flávio Bolsonaro e agora também reduzir qualquer exposição desnecessária relacionada ao caso Banco Master, que se expande para outros nomes da direita. O objetivo é proteger a imagem de Tarcísio na corrida pela reeleição em 2026.
Tarcísio, que já havia sido pego de surpresa pelos áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro no financiamento do filme “Dark Horse”, vê o cenário se complicar ainda mais com o envolvimento de Cláudio Castro. Apesar de manter índices elevados de aprovação — acima de 50% na maioria dos cenários —, uma pesquisa recente do Paraná Pesquisas captou oscilação negativa pontual após o pico de notícias sobre o caso.
Aliados explicam que o governador prefere manter o foco na gestão eficiente de São Paulo, com ênfase em infraestrutura, segurança pública e atração de investimentos. Um auxiliar próximo afirmou que Tarcísio foi claro internamente: as investigações devem correr até o final, “doa a quem doer”, repetindo o tom equilibrado que tem adotado publicamente. No entanto, nos bastidores o incômodo é grande com o risco de efeito dominó dentro da direita.
A decisão de reduzir agendas conjuntas com Flávio Bolsonaro não representa rompimento, mas uma distância estratégica calculada. Tarcísio continua reconhecendo a lealdade à família Bolsonaro — ele foi ministro da Infraestrutura no governo Jair Bolsonaro —, porém prioriza construir uma imagem de gestor técnico e moderado, capaz de atrair eleitores além da base bolsonarista.
Especialistas em comunicação política avaliam que essa postura é inteligente. Em momentos de crise, o eleitor tende a valorizar lideranças que demonstram independência e foco na administração. Tarcísio tem conseguido transmitir essa mensagem, o que explica por que ainda lidera com folga os cenários de reeleição em São Paulo, principal colégio eleitoral do país.
A movimentação não passou despercebida no campo bolsonarista. Setores mais radicais cobram maior engajamento de Tarcísio na pré-candidatura de Flávio à Presidência, enquanto os pragmáticos defendem a cautela como forma de preservar o capital político do governador para 2026 e além.
O escândalo do Banco Master ganhou dimensão nacional ao envolver não apenas Flávio Bolsonaro e o financiamento de produções cinematográficas, mas agora aportes previdenciários de grande volume em vários estados. A PF investiga se houve lobby articulado para direcionar recursos de fundos como o Rio Previdência e possivelmente outros, levantando a questão de quem teria orientado ou facilitado essas operações.
Flávio Bolsonaro nega qualquer irregularidade e afirma que todas as transações foram legais. Cláudio Castro também é investigado e ainda não se manifestou publicamente sobre os novos desdobramentos. O caso levanta debates sobre governança de fundos previdenciários, influência política sobre instituições financeiras e a relação entre poder e decisões de investimento público.
Para Tarcísio de Freitas, o desafio atual é delicado: equilibrar a lealdade histórica à família Bolsonaro com a necessidade de proteger seu projeto político próprio. Analistas apontam que ele busca consolidar uma direita mais técnica e menos exposta a polêmicas, o que justifica a estratégia de blindagem adotada por seu entorno.
Com a campanha de 2026 se aproximando, a tendência é que Tarcísio intensifique sua agenda pelo interior de São Paulo, reforçando laços com prefeitos e empresários, enquanto evita associações diretas que possam trazer desgaste. Aliados avaliam que, se a crise atual for superada sem grandes danos colaterais, ele manterá a trajetória ascendente.
A Polícia Federal segue avançando nas investigações, e novos capítulos devem surgir nos próximos meses. A forma como Tarcísio e seus aliados lidam com essa turbulência será decisiva para definir não apenas sua reeleição, mas também seu papel no tabuleiro nacional da centro-direita