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Sombra sobre a Seleção: O triunfo sobre o Haiti expõe fraquezas crônicas que podem custar o sonho do hexacampeonato.

A vitória por 3 a 0 sobre o Haiti, na segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo, deveria ser motivo de celebração absoluta, um momento para o torcedor brasileiro soltar o grito e acreditar na força do elenco. No entanto, o clima nos bastidores e nas mesas de análise aponta para uma realidade muito mais complexa e, para muitos, preocupante. O resultado, construído quase inteiramente em um primeiro tempo de ímpeto, não esconde as cicatrizes de um time que ainda busca uma identidade consolidada sob o comando de sua comissão técnica. Desde o apito inicial, ficou evidente que o Brasil não pretende ser uma equipe de posse de bola cadenciada ou de trocas infinitas de passes. A estratégia é clara: velocidade, transição rápida e o aproveitamento do talento individual de jogadores que, no um contra um, desequilibram qualquer sistema defensivo. A partida contra o Haiti, uma equipe tecnicamente inferior, serviu como um laboratório perfeito para essa proposta.

O primeiro gol, que abriu a porteira, foi o retrato fiel desse estilo. Vinícius Júnior, com sua capacidade característica de condução, teve o espaço necessário para flutuar entre a direita e a esquerda, testando a marcação até encontrar a brecha para o arremate que culminou no gol de Mateus Cunha. O Haiti, talvez por uma ingenuidade tática custosa, tentou jogar de igual para igual em momentos desnecessários, oferecendo as costas da sua defesa como um banquete para as arrancadas brasileiras. Cada lançamento em profundidade parecia levar perigo, revelando um Brasil que, quando encontra o campo aberto, é letal. Contudo, essa facilidade é uma faca de dois gumes. O que o Haiti cedeu por descuido, seleções mais estruturadas e com linhas compactas, como a Escócia, dificilmente oferecerão. O desafio do Brasil daqui para frente é justamente o que fazer quando o espaço desaparece e o adversário decide fechar as portas com uma retranca rígida.

O segundo tempo foi onde as críticas começaram a ganhar corpo. Com uma vantagem confortável, a Seleção Brasileira simplesmente tirou o pé. O que era uma pressão constante no primeiro tempo transformou-se em uma descompressão perigosa. A equipe finalizou apenas duas vezes na etapa final, um número que contrasta drasticamente com as sete finalizações haitianas no mesmo período. Esse “apetite” reduzido foi duramente questionado. Em um formato de Copa do Mundo onde o saldo de gols é o critério decisivo para a definição da liderança da chave, a economia de esforços do Brasil pode ter custado caro. Enquanto o Marrocos, concorrente direto pelo topo do grupo, joga com intensidade total, o Brasil parece ter desperdiçado uma oportunidade de ouro para construir uma gordura importante no saldo de gols. O medo é que essa postura conservadora, muitas vezes disfarçada de gestão de energia, comprometa a logística da equipe na fase de mata-mata.

A dependência de Vinícius Júnior também emergiu como uma preocupação central. O atacante é, sem dúvida, o motor dessa equipe; ele abre defesas, cria assistências e finaliza com frieza, mas a equipe parece orbitar quase que exclusivamente ao seu redor. Quando ele é bem marcado, a criatividade do meio-campo, que muitas vezes limita-se a ser um mero “carimbador” de bolas, entra em colapso. O setor de criação do Brasil, historicamente talentoso, parece estar em um momento de transição de safra onde a magia deu lugar à burocracia. Bruno Guimarães e Paquetá tentaram organizar o jogo, e houve momentos de brilho, mas a falta de um articulador que dite o ritmo contra defesas fechadas ainda é uma lacuna latente. A entrada de Mateus Cunha no time titular trouxe mais movimentação e inteligência tática, facilitando a vida dos pontas, mas não resolveu a ausência de um volume de jogo mais robusto que não dependa apenas do erro adversário.

Além dos problemas táticos, as questões físicas também começam a assombrar o departamento médico. Rafinha, que participou ativamente das jogadas de ataque, saiu com um incômodo, e a incerteza sobre sua condição física para a próxima rodada adiciona um elemento de tensão à preparação. Ao mesmo tempo, o fato de ter tido gols anulados por impedimento — tanto de Rafinha quanto de Endrick — mostra que a equipe ainda precisa ajustar o timing de suas corridas. O excesso de vontade em busca do passe longo acaba muitas vezes em erros simples de posicionamento que, contra adversários mais organizados, podem gerar contra-ataques letais. O Brasil de hoje é um time que vive de espasmos de talento, mas que ainda não consegue manter o controle psicológico e tático durante os 90 minutos de um confronto de Copa do Mundo.

A próxima parada é a Escócia, um time que, ao contrário do Haiti, sabe exatamente qual é o seu papel no tabuleiro. Os escoceses certamente observarão o vídeo dessa partida e identificarão que, mesmo com um 3 a 0 no placar, o Brasil permitiu aproximações perigosas, inclusive com bola aérea, exigindo defesas atentas de Alisson. O jogo de chutões e a busca por lances de bola parada da Escócia podem se transformar em uma armadilha, especialmente se o Brasil continuar demonstrando a mesma apatia do segundo tempo contra o Haiti. A liderança do grupo, que parecia garantida, agora está em xeque. Se o Brasil não encontrar uma forma de ser mais incisivo e menos dependente de transições rápidas, a disputa com Marrocos pelo primeiro lugar pode reservar uma eliminação precoce ou, no mínimo, um caminho muito mais difícil no mata-mata. O torcedor brasileiro, com razão, espera mais. O talento individual existe e é inegável, mas na história das Copas, apenas o talento raramente é suficiente. É preciso consistência, agressividade e, acima de tudo, o reconhecimento de que, em um torneio desta magnitude, nenhum resultado é construído apenas por nomes estampados nas camisas.