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TERROR NO CÂNION: Jovem Desaparece no Guartelá e 5 Anos Depois é Encontrado de Cabeça para Baixo Preso em Fenda Assustadora!

Em 14 de novembro de 2018, às 6:42 da manhã, Rafael Teixeira Brandão mandou um áudio de WhatsApp para o irmão mais velho. Durava 11 segundos. Dizia que já estava na estrada, que o dia tinha amanhecido limpo e que ia aproveitar para descer até o fundo do canon antes do meio-dia. O irmão ouviu o áudio às 7:15, respondeu com um falou: “Se cuida lá embaixo”. E foi trabalhar. Rafael tinha 26 anos. Morava em Ponta Grossa, trabalhava como técnico em refrigeração e conhecia o canion do Guartelá como conhecia o caminho de casa. Tinha ido lá dezenas de vezes desde os 17. sabia onde o terreno cedia, onde a pedra ficava lisa depois da chuva, onde o sinal de celular morria de vez. Não era um turista de fim de semana. Esse era um rapaz dos campos gerais que cresceu ouvindo o barulho do rio e a pó lá embaixo e que tratava aquele paredão de arenito como quintal.
Rafael nunca voltou. O carro dele, um Gol Prata 2011, com um adesivo de trilha no vidro traseiro, foi encontrado dois dias depois no estacionamento de terra batida próximo à portaria do Parque estadual do Guartelá, em Tibaji. A mochila estava no banco de trás. Dentro dela, duas garrafas de água, uma cheia e uma pela metade, um pacote de paçoca, protetor solar, uma lanterna de cabeça e o carregador do celular. As chaves do apartamento estavam no console central.
O celular não foi encontrado no carro. A última conexão registrada foi às 9:21 da manhã numa torre próxima a entrada do parque. Depois disso, silêncio. E esta é a história de um jovem que desapareceu numa quarta-feira de novembro num dos maiores canions do Brasil e que foi encontrado 5 anos depois, de cabeça para baixo, preso numa fenda estreita entre rochas de arenito, a 140 m de profundidade, num trecho que as equipes de busca disseram ter vistoriado mais de uma vez. O canyon do Guartelá fica no município de Tibagi, nos campos gerais do Paraná. Tem mais de 30 km de extensão e paredes que chegam a 180 m de altura.
é considerado um dos maiores canions em rocha de arenito do mundo. De cima, a paisagem é aberta, com campos limpos e cerrado ralo. Mas lá embaixo, onde o rio e a pó corre entre pedras escuras, o terreno muda, as fendas se multiplicam, as paredes se estreitam, a vegetação fecha, o som da água encobre qualquer grito. E é um lugar que engole quem não conhece. e que, como essa história mostra, também engole quem conhece.
Rafael saiu sozinho naquele dia. Não era o costume dele, mas também não era a primeira vez. O irmão só começou a estranhar quando na quinta-feira à noite ligou duas vezes e as duas foram direto pra caixa postal. Na sexta-feira de manhã, ligou para a mãe. A mãe ligou para a namorada. A namorada ligou para o melhor amigo. Ninguém tinha notícia. Às 11 horas da manhã de sexta-feira, 16 de novembro de 2018, a família registrou um boletim de ocorrência na delegacia de Ponta Grossa. O atendente perguntou se Rafael tinha histórico de sumir, se tinha dívidas, se tinha problemas com alguém. A mãe respondeu que não, que o filho era trabalhador, que tinha saído para fazer trilha e que não era de ficar sem dar notícia. E o agente anotou tudo com calma e explicou que o procedimento padrão era aguardar. Dona Marilene Teixeira entendeu naquela cadeira de plástico da delegacia que a urgência que ela sentia não cabia no formulário que o homem estava preenchendo. Se esse tipo de história faz você repensar o que significa não ter resposta, considere se inscrever no canal e deixar o seu comentário. A partir daqui, a história avança devagar e tudo o que aconteceu precisa ser contado sem pressa. Por quanto tempo uma mãe aguenta repetir a mesma história em delegacias diferentes antes de perceber que ninguém está realmente procurando?
O que acontece com uma busca quando o terreno é grande demais, fundo demais e perigoso demais para que alguém desça onde precisa descer? E o que significa encontrar alguém 5 anos depois e num lugar onde já se olhou, preso numa posição que nenhum laudo conseguiu explicar por completo? Estamos no canon do Guartelá em novembro de 2018. O calor dos campos gerais já castiga desde cedo.
O cerrado está seco. As pedras de arenito expostas ao sol racha em camadas finas que se soltam sob o peso de uma bota. Lá embaixo, o rio corre indiferente e um rapaz de 26 anos que conhecia cada metro daquele lugar está prestes a desaparecer dentro dele.
Rafael Teixeira Brandão nasceu em Ponta Grossa em 1992.
filho de Marilene Teixeira, auxiliar de cozinha num restaurante por quilo do centro, e de Osvaldo Brandão, motorista de caminhão que fazia a rota Ponta Grossa Paranaguá e passava mais tempo na estrada do que em casa. cresceu num sobrado alugado no bairro de Uvaranas, dividindo o quarto com o irmão mais velho, Leandro. E eu ia aprendendo desde cedo que tempo livre se gastava do lado de fora, porque dentro de casa não tinha espaço nem para respirar direito. O sobrado ficava numa rua de paralelepípedo com meio fio quebrado, onde os cachorros dormiam no meio da calçada e as crianças jogavam bola até escurecer. A mãe saía cedo e voltava com cheiro de óleo e cebola frita. O pai aparecia a cada três ou quatro dias, deixava dinheiro na gaveta da cômoda, tomava banho quente e saía de novo antes do sol nascer. Leandro, 4 anos mais velho, cuidava de Rafael quando a mãe estava no trabalho. Esquentava o almoço, conferia o dever de casa, mandava dormir. Os dois tinham essa dinâmica.
Leandro era o que segurava, Rafael era o que escapava.
Aos 12 anos, Rafael já pedalava até o Parque estadual de Vila Velha com os amigos do colégio. Eram 10 e 12 km de estrada, dependendo do caminho que pegavam. Voltavam sujos de terra vermelha, com os joelhos ralados e a sede de quem passou o dia inteiro correndo entre formações de arenito sem beber água direito. A mãe reclamava, mas sem firmeza. sabia que aquilo era melhor do que deixar o menino trancado num apartamento pequeno demais, vendo televisão o dia inteiro. Aos 15, Rafael conheceu o Guartelá numa excursão da escola. O ônibus saiu de madrugada, lotado de adolescentes que mais queriam saber de fone de ouvido e salgadinho do que de geologia. Rafael não. Rafael encostou na grade do mirante, olhou para baixo e ficou parado. O professor de geografia teve que chamar duas vezes para ele voltar pro grupo. Naquela noite em casa, Rafael disse pro irmão que queria voltar lá. Leandro perguntou por quê. Rafael não soube explicar e disse só que lá embaixo tinha um rio que fazia um barulho diferente de tudo que ele já tinha ouvido. A partir dos 17, Rafael começou a ir ao Guartelá por conta própria, primeiro com amigos, depois sozinho. Conheceu trilheiros mais velhos na região, gente de Castro, de Tibag, de Telêmaco Borba, que subia e descia aquelas paredes com a naturalidade de quem sobe escada.
Aprendeu a usar corda, a ler o tempo pelo vento, a identificar os pontos onde o arenito era firme e onde se esfarelava como biscoito velho. Nunca fez curso formal de escalada, mas tinha o tipo de conhecimento que se ganha com o corpo, errando, caindo, voltando.
Aos 20 já era o cara que os amigos chamavam quando queriam descer até o rio. Aos 23 tinha um mapa mental do canion que poucos moradores da região teriam. De sabia onde ficavam as fendas largas que serviam de passagem, onde a vegetação de serrado dava lugar à mata de galeria, onde o chão ficava escorregadio depois de três dias de chuva. conhecia o Guartelá de cor e talvez por isso nunca imaginou que aquele lugar pudesse se fechar sobre ele. Aos 24, Rafael terminou o curso técnico em refrigeração no SENAI de Ponta Grossa e começou a trabalhar numa empresa de manutenção de ar condicionado que atendia comércios e escritórios na região central. O salário não era alto, mas dava para dividir um apartamento com a namorada Jéssica Almeida, que ele conheceu num churrasco de amigos em comum no bairro do Oficinas. Jéssica era técnica de enfermagem, trabalhava no hospital universitário e fazia turnos rotativos que nem sempre coincidiam com os de Rafael. Os dois se acertavam como podiam, deixavam bilhete na geladeira, mandavam áudio de manhã cedo, jantavam juntos quando dava. Não era uma vida de novela, era uma vida de gente que trabalha, paga a conta e tenta encaixar o resto no tempo que sobra. E o resto para Rafael era sempre o canion. Na manhã de 14 de novembro de 2018, Rafael acordou antes das 6. O apartamento no Jardim Carvalho era pequeno. Sala, quarto, cozinha americana e um banheiro com box de plástico que vivia emperrando. Jéssica tinha chegado do turno da noite por volta das 3 da madrugada e dormia pesado. Rafael tomou café com leite e pão com manteiga em pé encostado no balcão da cozinha, olhando pela janela o estacionamento vazio do prédio da frente. Lavou a caneca. secou com o pano de prato e deixou um bilhete no balcão, mal escrito à caneta num pedaço de papel de caderno. Fui pro Guartelá, volto de noite. Tem arroz na geladeira? Não assinou, não precisava.
Jéssica conhecia a letra e conhecia o hábito. Rafael saía assim, de mansinho, quando tinha folga no meio da semana e o tempo estava bom. pegava a mochila, enchia as garrafas de água, jogava tudo no banco de trás do gol e ia embora antes de o trânsito começar. A mochila era a mesma sempre, uma deer velha azul marinho, com as alças remendadas com fita adesiva preta.
dentro o kit que ele levava toda vez, duas garrafas de água de 1 L, uma cheia e uma pela metade, um pacote de paçoca, protetor solar fator 50, uma lanterna de cabeça com pilhas novas e o carregador do celular. Não levou barraca nem saco de dormir. O plano era descer até o fundo do canion pela manhã, almoçar alguma coisa em Tibage e voltar para Ponta Grossa antes de escurecer. Um programa de um dia que já tinha feito dezenas de vezes. Nada fora do comum, nada que justificasse preocupação. A PR340 que liga a Ponta Grossa a Tibag é uma estrada de pista simples que corta os campos gerais passando por fazendas de soja, pastagens cercadas de arame farpado e trechos de cerrado ralo, onde o vento bate seco e constante.
Em novembro, o calor já é forte desde cedo. O asfalto treme no horizonte e os caminhões levantam uma nuvem de poeira vermelha que gruda no para-brisa.
Rafael conhecia cada curva daquela estrada. Sabia onde o asfalto era ruim, onde os buracos apareciam depois da chuva, onde os caminhões de madeira travavam na subida e obrigavam a fila a andar a 40 por hora. Naquele dia, a estrada estava vazia.
Ninugol Prata cobriu os 90 km em pouco mais de uma hora. Às 8:15 mais ou menos, Rafael deve ter estacionado no terreno de terra batida próximo à portaria do Parque Estadual do Guartelá. O registro da torre de celular mostra que o aparelho se conectou pela última vez às 9:21 da manhã numa antena localizada a menos de 2 km da entrada do parque. Depois disso, o telefone sumiu da rede. Pode ter ficado sem bateria, pode ter perdido sinal na descida, pode ter caído, ninguém sabe. O celular nunca foi encontrado. O que se sabe é que Rafael entrou no parque naquela manhã e não saiu. Ninguém o viu na trilha principal.
Nenhum funcionário do parque se lembrou do rosto dele. Nenhum outro visitante relatou ter cruzado com um rapaz de mochila azul, descendo em direção ao rio. É possível que tenha usado um acesso alternativo de fora da trilha oficial, coisa que fazia com frequência.
Segundo o irmão, é possível que tenha descido por um dos pontos que só ele e meia dúzia de trilheiros locais conheciam.
É possível que naquele dia tenha escolhido um caminho que nunca tinha tentado antes. O canyon oferece essa tentação. Cada descida revela uma fenda nova, um corredor de pedra que não estava visível de cima, uma passagem que parece levar a algum lugar e às vezes leva e às vezes não. Na quinta-feira à noite, Leandro Brandão ligou para o irmão pela primeira vez. O telefone foi direto para a caixa postal. A voz gravada da operadora repetiu a frase que todo brasileiro já ouviu. O número chamado não pode ser completado no momento. E Leandro desligou sem pensar muito. Rafael às vezes ficava sem sinal quando descia até o fundo do canon. Às vezes dormia em Tibage e na casa de um conhecido e só voltava no dia seguinte.
Não era motivo de alarme, era só o jeito do irmão. Mas quando ligou de novo na sexta-feira de manhã, antes de sair pra oficina e o resultado foi o mesmo, alguma coisa mudou. Não era medo ainda.
Era aquela sensação que qualquer brasileiro conhece quando liga para alguém que sempre atende e de repente o telefone só toca no vazio. Uma coisa menor que o pânico, mas maior que a preocupação.
Uma coisa que não tem nome, mas que faz a pessoa largar o que está fazendo e ligar pra mãe. Leandro ligou pra dona Marilene às 7:40 da manhã. A mãe atendeu no segundo toque, com a voz de quem já estava de pé há tempo, provavelmente arrumando a cozinha antes de sair pro restaurante.
Leandro perguntou se ela tinha falado com Rafael. Marilene disse que não, que não falava com ele desde terça-feira. De Leandro contou que tinha ligado duas vezes e que o celular estava desligado.
Houve um silêncio curto na linha, desses que duram dois ou três segundos. mas que pesam como se durassem um minuto.
Marilene disse que ia ligar para Jéssica. Jéssica, que tinha chegado do turno da noite e estava dormindo, acordou com o telefone tocando e atendeu com a voz grog. disse que Rafael tinha saído na quarta de manhã pro Guartelá e que não tinha voltado. Disse que tinha achado estranho, mas que ele já tinha feito isso antes, dormir em Tibage e voltar no dia seguinte. Só que agora já era sexta, dois dias sem notícia. A cadeia de ligações continuou. Jéssica ligou para Davi, o melhor amigo de Rafael, que morava no oficinas e trabalhava numa distribuidora de bebidas. Davi não sabia de nada, não tinha falado com Rafael desde o domingo anterior. Leandro ligou para dois amigos de trilha do irmão. Nenhum estava com ele. Nenhum sabia que ele tinha ido ao Guartelá naquela semana. Às 10 da manhã, Leandro pegou o carro e foi até o apartamento de Rafael, no Jardim Carvalho. O bilhete ainda estava no balcão. Fui pro guartelá, volto de noite. Tem arroz na geladeira. A letra era firme, sem pressa. O arroz ainda estava na geladeira e Rafael não estava em lugar nenhum. O boletim de ocorrência foi registrado na manhã de sexta-feira, 16 de novembro. Na 13ª Subdivisão policial de Ponta Grossa, o prédio da delegacia ficava numa rua movimentada do centro, com fachada de pintura descascada e um estacionamento pequeno, onde os carros da polícia se espremiam entre motos e bicicletas.
Dona Marilene foi acompanhada por Leandro e por Jéssica. Deus três sentaram em cadeiras de plástico branco num corredor estreito, com cheiro de café requentado e produto de limpeza. O piso de cerâmica estava manchado. O ventilador de teto girava devagar, fazendo um barulho de engrenagem cansada.
Na parede, um cartaz amarelado informava os direitos do cidadão em caso de flagrante. Do outro lado do balcão, um escrivão de meia idade, com camisa social de manga curta e caneta Bic azul presa no bolso, pegou um formulário e começou a fazer as perguntas de Prash.
Nome completo do desaparecido. Data de nascimento. Altura. Peso. Cor dos olhos.
Cor do cabelo, sinais particulares.
Marilene respondeu tudo com precisão.
Disse que o filho media 1,78, pesava 72 kg. Tinha cabelo castanho escuro cortado curto, olhos castanhos, uma cicatriz fina no queixo do lado esquerdo, o de quando caiu de bicicleta aos 9 anos e uma tatuagem pequena no antebraço esquerdo, uma bússola feita aos 21 anos num estúdio do centro de Ponta Grossa. O escrivão anotou, perguntou a roupa que Rafael usava quando saiu de casa. Marilene para Jéssica. Jéssica disse que não tinha certeza porque estava dormindo, mas que provavelmente era a bermuda Cque e a camiseta cinza que ele sempre usava paraa trilha com um par de botas marrons de cano médio. O escrivão perguntou se Rafael tinha histórico de transtorno psiquiátrico. Marilene disse que não.
Perguntou se usava drogas. Marilene disse que não. Perguntou se tinha dívida, se estava envolvido em alguma situação de risco, se tinha conflito com alguém. Marilene respondeu a tudo com não, com a voz firme e os olhos secos.
Quando perguntou o que ia acontecer agora, Letão explicou que o caso seria registrado como desaparecimento, que seria encaminhado à polícia civil e que, dependendo da localização provável do desaparecido, o corpo de bombeiros poderia ser acionado.
Explicou também que era recomendável que a família procurasse a delegacia de Tibag, já que o desaparecimento teria ocorrido naquele município.
Marilene ouviu tudo em silêncio. Leandro perguntou quanto tempo ia levar. O escrivão disse que dependia. disse que cada caso era um caso. Disse que a família deveria manter contato e aguardar orientação.
Dona Marilene saiu da delegacia com a via do boletim de ocorrência dobrada dentro da bolsa. No caminho até o carro, não disse nada. Jéssica chorava baixo com a mão na boca. Leandro andava dois passos à frente com as chaves na mão e o maxilar travado. Nenhum dos três disse o que os três estavam pensando, que aquele formulário era o começo de alguma coisa que ninguém queria ter começado, que a partir daquele momento, o nome do Rafael existia num sistema, não como filho, irmão ou namorado, mas como uma ocorrência, um número, um caso entre centenas de outros casos de pessoas que sumiram e que alguém em algum lugar estava tentando encontrar ou não.
Na segunda-feira, 19 de novembro, 5 dias depois do desaparecimento, uma equipe do Corpo de Bombeiros do primeiro subgrupamento de Tibaji iniciou as buscas na área do Parque Estadual do Guartelá. Eram seis homens, dois cães farejadores da raça pastor belga e um drone com autonomia de 20 minutos de voo. O comandante da operação era um tenente de 30 e poucos anos que conhecia o parque e que sabia antes mesmo de começar e o tamanho do problema. O canion do Guartelá tem mais de 30 km de extensão. As paredes de arenito, em alguns trechos, são verticais e ultrapassam os 150 m de altura. O acesso ao fundo, onde o rio e a pó corre entre blocos de pedra e vegetação densa, exige rapel em pontos específicos, caminhadas de horas por dentro de mata fechada e equipamento que a maioria das unidades de bombeiros do interior do Paraná simplesmente não possui. A equipe fez o que pôde com o que tinha. Nos três primeiros dias, vasculharam a trilha principal do parque, o mirante, os acessos conhecidos ao rio e dois pontos alternativos de descida que a família indicou como lugares frequentados por Rafael. Os cães farejadores trabalharam com uma camiseta usada de Rafael que Jéssica trouxe do apartamento. O drone sobrevoou os trechos superiores do canon, capturando imagens aéreas das bordas e das plataformas de rocha visíveis de cima. Os bombeiros desceram de rapel em dois pontos até uma profundidade de 40 a 60 m e percorreram a margem do rio num trecho de aproximadamente 4 km. Não encontraram nada, nenhum rastro, nenhuma peça de roupa, nenhum sinal de passagem recente, nenhum objeto pessoal. Os cães não acusaram nada de consistente. Farejaram em algumas direções, mas sem a insistência que indica uma pista firme.
O problema, como o tenente explicou depois a família era de escala. O canyon é grande demais. As fendas são muitas.
Algumas têm menos de meio metro de largura e se aprofundam verticalmente por dezenas de metros, impossíveis de acessar sem equipamento, especializado de espelologia, e outras ficam escondidas atrás de blocos de rocha desmoronada, cobertas por vegetação, que cresce rápido no calor úmido do fundo do vale. Vasculhar cada fenda, cada reentrância, cada metro quadrado daquele terreno exigiria semanas de trabalho com dezenas de homens e equipamento que não existia disponível. Os bombeiros fizeram o possível. Voltaram três vezes na semana seguinte. Na terceira vez, os cães já não mostravam reação. O drone já tinha coberto todos os ângulos acessíveis.
O relatório começou a tomar forma.
Leandro acompanhou dois dias de busca de longe do estacionamento de terra batida, onde o gol prata do irmão tinha sido encontrado. Ficava de pé, com os braços cruzados, olhando os bombeiros entrarem no mato e voltarem horas depois com as mãos vazias.
Não perguntava muito, não atrapalhava.
Nem mais quem olhasse para ele via um homem que estava entendendo devagar e em silêncio, que o lugar onde o irmão tinha desaparecido não ia devolver nada fácil, que aquele canion tinha um fundo que ninguém conseguia alcançar e que cada dia que passava sem encontrar Rafael era um dia em que o canion ganhava. 30 dias depois do desaparecimento, a busca oficial foi encerrada.
O relatório do Corpo de Bombeiros, datado de 19 de dezembro de 2018, registrou que a área havia sido percorrida dentro das possibilidades operacionais disponíveis e que não foram localizados vestígios do desaparecido.
O documento tinha três páginas e meia escritas em linguagem técnica, com coordenadas geográficas, descrição dos trechos vistoriados e uma lista de equipamentos utilizados.
Na última página, né, uma linha que dizia: “Recomenda-se o encaminhamento do caso à Polícia Civil para continuidade das diligências investigativas.
Para quem escreveu era um procedimento padrão. Para a família Brandão, aquela frase foi uma porta fechando.
Dona Marilene recebeu a notícia por telefone. Não chorou na hora. Perguntou se isso queria dizer que tinham desistido.
O bombeiro do outro lado da linha explicou que não era desistência, que era encerramento da fase de busca ativa por falta de novos elementos.
e que o caso continuava aberto na Polícia Civil. Marilene agradeceu, desligou, sentou na cadeira da cozinha e ficou olhando para o telefone como se esperasse que ele tocasse de novo com uma notícia diferente. O telefone não tocou. A partir daquele momento, a família assumiu o que o estado não conseguiu continuar. dona Marilene e que até então tinha ido a Tibag três vezes por semana, pegando carona com Leandro, com vizinhos, com quem pudesse porque não dirigia, decidiu que não ia parar.
Passou a ir aos fins de semana, levando comida num pote de plástico e passando o dia inteiro na borda do canon, perguntando a trilheiros, a funcionários do parque, a moradores da zona rural, se alguém tinha visto alguma coisa.
se alguém tinha ouvido alguma coisa, se alguém sabia de algum lugar onde um rapaz pudesse ter caído e não sido encontrado.
A maioria das pessoas ouvia com respeito. Algumas desviavam o olhar.
Ninguém tinha resposta.
Leandro tirou férias do trabalho na oficina mecânica do Neves, onde era empregado há 6 anos, e passou a organizar buscas voluntárias.
montou um grupo de WhatsApp com amigos de trilha de Rafael, de colegas de trabalho e gente que se ofereceu depois que a história apareceu num jornal local de Ponta Grossa. Nos três primeiros fins de semana, foram entre e 12 pessoas.
Desciam até onde conseguiam, gritavam o nome de Rafael, vasculhavam fendas acessíveis, tiravam fotos de trechos que pareciam suspeitos. No quarto fim de semana foram cinco, no quinto três. A vida das pessoas vai cobrando, as obrigações voltam. A solidariedade tem um prazo que nem sempre é longo bastante. Jéssica criou uma página no Facebook com o nome Encontre Rafael Brandão. Postou fotos dele no canon, no churrasco, na formatura do Senai, com a mochila azul nas costas e aquele sorriso de canto que tinha. colocou a descrição física, o número do boletim de ocorrência, o contato da delegacia de Tibag. A página teve 300 curtidas na primeira semana e depois o movimento foi caindo. As postagens continuaram, mas os comentários foram rareando. De vez em quando aparecia alguém dizendo que ia orar, alguém sugerindo um vidente, alguém perguntando se já tinham procurado no rio. Jéssica respondia a tudo com educação e com uma paciência que vinha de um lugar que ela mesma não sabia explicar. A família Brandão fez o que milhares de famílias brasileiras fazem todos os anos quando o Estado diz que fez o possível. assumiu o impossível por conta própria, sem treinamento, sem equipamento, sem verba, com gasolina do próprio bolso, comida de casa e uma teimosia que não é coragem. É a impossibilidade de parar quando se trata de alguém que saiu para fazer trilha e simplesmente não voltou. O primeiro Natal sem Rafael foi em 2018, pouco mais de 40 dias depois do desaparecimento.
Dona Marilene montou a mesa, como sempre, toalha branca por cima da de plástico, pratos de porcelana que só saíam do armário em dezembro, o arroz com passas que Rafael detestava, mas comia para não desagradar a mãe. Leandro foi com a esposa. Jéssica apareceu mais tarde com uma travessa de farofa e os olhos inchados.
Ninguém colocou o prato no lugar de Rafael. Ninguém falou nisso. Mas todo mundo olhou pra cadeira vazia pelo menos uma vez durante a noite. Às 11:30, dona Marilene pediu licença, foi até o banheiro e ficou lá dentro por 10 minutos. Quando voltou, tinha o rosto lavado e os olhos secos. sentou, serviu o peru e disse que estava bom, que podia comer. O segundo Natal foi parecido, mas com menos gente. O terceiro, Marilene fez só um almoço simples com Leandro. O quarto quase não celebrou. E a data foi perdendo o sentido, não porque a família tivesse desistido de Rafael, mas porque a ausência dele era grande demais para caber numa celebração.
Era como tentar festejar dentro de um cômodo onde faltava uma parede. Com o tempo, a dor não diminuiu, apenas mudou de forma. Nos primeiros meses era aguda.
Cortava o peito no meio da noite.
Acordava dona Marilene às 4 da manhã, com a certeza de que tinha ouvido a porta abrindo. Depois virou uma coisa mais pesada e mais lenta, um cansaço que não passava com sono, uma distração que tomava conta no meio de uma conversa, um jeito de olhar pro vazio que os outros percebiam mas não comentavam. Dona Marilene parou de ir a Tibag semana.
Passou a ir uma vez por mês, depois a cada dois meses. Não porque tivesse desistido e mas porque o corpo foi cobrando o que a cabeça se recusava a aceitar. As caronas ficaram mais difíceis, a estrada ficou mais longa, o canyon ficou igual, enorme, silencioso, indiferente. Cada ida era uma repetição do mesmo ritual: chegar, olhar para baixo, perguntar as mesmas perguntas para as mesmas pessoas e voltar para casa sem resposta. Em algum momento, a repetição deixou de ser busca e virou penitência. O quarto de Rafael no sobrado de Uvaranas, onde ele já não morava fazia anos, mas onde ainda tinha caixas guardadas com coisas da adolescência, ficou fechado. Ninguém abriu a porta depois de dezembro de 2018. As caixas continuaram onde estavam: Troféus de campeonato de futsal do colégio, revistas velhas, uma coleção de pedras que ele juntou entre os 13 e os 16 anos. Dona Marilene passava pela porta todo dia, nem no caminho do banheiro, e todo dia fazia a mesma coisa. Olhava paraa maçaneta e seguia em frente. Jéssica ficou mais um ano morando no apartamento do Jardim Carvalho antes de decidir que não aguentava mais. Não foi uma decisão dramática. Foi o tipo de decisão que uma pessoa toma quando percebe que está dormindo toda a noite, olhando pra porta esperando alguém que não vai entrar. Ela juntou as coisas de Rafael numa caixa, entregou para Leandro e se mudou para um apartamento menor no Nova Rússia.
continuou mantendo a página no Facebook por mais um ano, mas as postagens foram ficando mais espaçadas.
Em 2021, parou de postar. A página ficou lá parada com a última publicação dizendo três anos sem resposta, três anos de saudade Leandro voltou ao trabalho na oficina, mas os colegas notaram que ele tinha mudado. Ficou mais quieto, há mais seco nos gestos, ria menos, falava menos. fazia o serviço com a mesma competência de sempre, mas sem aquela leveza que tinha antes. Aquela coisa de quem assobia enquanto troca uma correia, de quem conta piada na hora do almoço, de quem pergunta do jogo. Os amigos da oficina diziam entre eles que o Leandro parecia carregar uma peça pesada demais no bolso o dia inteiro.
Ninguém comentava com ele. O Brasil, entre homens de oficina, esse tipo de dor se respeita em silêncio. A cidade de Ponta Grossa seguiu funcionando. Os ônibus passavam na frente do sobrado de Uvaranas, no mesmo horário. O restaurante por quilo, onde dona Marilene trabalhava, continuou servindo o mesmo prato feito de sempre: arroz, feijão, bife acebolado, salada e farofa.
O terminal rodoviário tinha o mesmo barulho, o mesmo cheiro de diesel e com o mesmo movimento de gente indo e vindo.
O mundo não parou porque Rafael Teixeira Brandão desapareceu.
O mundo nunca para. Quem para é a família. E a família Brandão parou naquele 14 de novembro de 2018 e nunca conseguiu voltar a andar no mesmo ritmo.
Em outubro de 2023, quase 5 anos depois do desaparecimento de Rafael, um grupo de escalada técnica de Curitiba entrou em contato com o IAT, Instituto Água e Terra do Paraná, para solicitar a autorização de acesso a um trecho pouco explorado da parede sul do canon do Guartelá, a cerca de 7 km da trilha principal do parque. O grupo se chamava Vertigo Escalada. Era formado por quatro membros fixos e atuava havia mais de 10 anos em paredes de rocha no Paraná.
Santa Catarina e São Paulo. Não estavam ali por causa de Rafael. não sabiam da história dele e estavam ali porque aquele trecho específico da parede sul nunca havia sido mapeado do ponto de vista técnico. E o grupo queria documentar as vias de escalada possíveis para um projeto de guia digital que vinham montando havia 2 anos.
Os quatro escaladores. Brunoquec Tanaca, de 32 anos, engenheiro civil. Cláudia Rúbia Martins, de 29, instrutora de escalada. Felipe Augusto Werner de 35, fotógrafo e montanhista, e Diego Lopes Santana de 31, bombeiro civil, chegaram ao parque numa sexta-feira de manhã com equipamento completo, cordas de 60 m, mosquetões, freios, capacetes com lanterna de LED, rádiocomunicador portátil, sacos estanques e dois dias de suprimento. A autorização do IAT permitia acesso ao trecho sul entre sexta e domingo, muoasse por GPS todos os pontos de ancoragem utilizados.
Na sexta-feira fizeram o reconhecimento da borda e montaram a primeira via de descida. No sábado, começaram a descer pela parede sul, num trecho de rocha íngreme, com inclinação de quase 90º em alguns pontos.
O arenito ali era diferente do que se via na trilha principal, mais friável, com camadas que se soltavam em placas finas, exigindo a tensão redobrada em cada apoio. A descida foi lenta. A cada 20 m paravam para avaliar a rocha, ajustar os pontos de ancoragem e fotografar a parede. Foi no segundo dia de descida, por volta das 2as da tarde, que Bruno Rideec Tanca notou algo numa fenda vertical estreita, a aproximadamente 140 m de profundidade em relação à borda superior do canon.
Nebruno estava ancorado numa saliência de rocha, ajustando o mosquetão, quando virou a lanterna de cabeça para a esquerda e iluminou uma abertura na parede que se estreitava para baixo, como um funil invertido.
A princípio, pareceu um galho seco, enroscado entre as paredes de arenito, um pedaço de madeira preso numa fresta, coisa comum naquele tipo de formação.
Mas quando ajustou o foco da lanterna e olhou com mais atenção, percebeu que a textura não era de madeira, era de tecido. E por baixo do tecido, algo que não deveria estar ali. Bruno não tocou em nada, chamou Cláudia pelo rádio.
Cláudia desceu até o mesmo nível, olhou e disse em voz baixa que aquilo parecia um corpo. Os dois ficaram parados por quase um minuto, ancorados na rocha.
olhando para a fenda sem dizer nada.
Felipe, que estava 10 m acima, lhe perguntou pelo rádio o que estava acontecendo.
Bruno respondeu com quatro palavras: “Acho que achamos alguém”. O grupo interrompeu a descida, marcou as coordenadas GPS do ponto exato e subiu de volta até a borda. No estacionamento do parque, Bruno ligou para o 193 e relatou o que tinham encontrado. A ligação durou 7 minutos. Do outro lado da linha, o atendente do corpo de bombeiros pediu descrição detalhada da localização, profundidade aproximada e condição aparente do que haviam visto.
Bruno falou com a voz controlada de quem está acostumado a situações de altura, mais que nunca tinha encontrado um corpo preso numa fenda de arenito a 140 m do chão. A equipe do Corpo de Bombeiros do primeiro subgrupamento de Tibag chegou ao parque na manhã de segunda-feira, 16 de outubro de 2023, e vieram acompanhados por peritos do Imel de Ponta Grossa e por um oficial do BPMOA, batalhão de Polícia Militar de Operações Aéreas, que coordenou o apoio de um helicóptero para o transporte de equipamento pesado até a borda do canyon.
A operação de resgate, ou mais precisamente de remoção, levou três dias. O corpo estava de cabeça para baixo, com o tronco encaixado entre duas paredes de arenito, que se estreitavam progressivamente até menos de 40 cm na parte mais apertada.
As pernas estavam acima, parcialmente dobradas, presas por atrito contra a rocha. Os braços estavam comprimidos acima da cabeça ou abaixo, dependendo da perspectiva, espremidos contra a superfície irregular do arenito. A posição era invertida. O rosto apontava para o fundo da fenda, os pés apontavam para o céu. Noir os bombeiros não conseguiram acessar o corpo por cima. A fenda era estreita demais na abertura superior para que um homem equipado passasse.
Tiveram que montar uma via de acesso lateral, cortando parcialmente a borda de uma placa de arenito adjacente com ferramentas de precisão, criando uma abertura suficiente para que um resgatista magro, equipado com arnês e corda, descesse de lado até o ponto onde o corpo estava.
O resgatista que desceu, um cabo do corpo de bombeiros de 27 anos, relatou depois que a fenda cheirava a terra úmida e a decomposição antiga, e que o corpo estava tão encaixado na rocha que parecia ter sido moldado por ela. A remoção foi feita com o uso de macas flexíveis e sistemas de polias.
Levou quase se horas só para desprender o corpo da fenda sem danificar os restos. De helicóptero do BPMOA transportou a maca até uma área de pouso improvisada no estacionamento do parque, de onde o corpo seguiu para o IBML de Ponta Grossa numa viatura da Polícia Civil. Os peritos do IML registraram que o estado de decomposição era avançado, compatível com vários anos de exposição ao ambiente. A roupa no fragmentos de tecido sintético que correspondiam a uma camiseta e uma bermuda estava degradada, mas parcialmente preservada pelo confinamento na fenda. Não foram encontrados calçados, não foi encontrado celular, não foi encontrada mochila, nem qualquer outro objeto pessoal, além dos restos de roupa. Os peritos observaram que a posição do corpo, de cabeça para baixo, com encaixe progressivo numa fenda que se afunilava, era compatível com uma queda vertical, seguida de deslizamento por gravidade. Hum. O peso do corpo teria empurrado o tronco para baixo à medida que a fenda se estreitava, até que o atrito entre a rocha e o corpo impedisse qualquer movimento. Era uma armadilha geológica, o tipo de coisa que não se vê de cima e que não se escapa de baixo. Os peritos registraram também que, dada a posição invertida e o grau de encaixe, era provável que a pessoa tivesse ficado presa com vida por um período indeterminado antes de morrer. A causa da morte não poôde ser estabelecida com precisão. A decomposição e a ação do tempo sobre os tecidos tornavam impossível qualquer conclusão definitiva.
Mas a hipótese mais provável, segundo o laudo, era uma combinação de trauma por queda, compressão torácica pela posição invertida e desidratação.
Em outras palavras, Rafael, se aquele era Rafael, pode ter ficado preso naquela fenda de de cabeça para baixo, consciente, durante horas, talvez dias, sem conseguir se mover, sem conseguir gritar alto o suficiente para que alguém ouvisse, com o som do rio e a pó cobrindo qualquer voz que subisse das pedras. A identificação demorou 11 dias.
O estado de decomposição impedia reconhecimento visual. Não havia impressões digitais viáveis. O exame de DNA foi solicitado, mas a comparação dependia de material de referência da família. E esse processo no Paraná, como em quase todo o Brasil, leva semanas quando não meses. O que acelerou a identificação foi o exame odontológico.
A família forneceu o nome do dentista que Rafael frequentava em Ponta Grossa, um consultório no centro, perto da catedral, e o prontuário odontológico foi comparado com a arcada dentária dos restos encontrados.
A correspondência foi positiva. Além disso, e no antebraço esquerdo, numa área onde a pele estava parcialmente preservada pelo contato com a rocha, os peritos identificaram fragmentos de pigmento subcutâneo compatíveis com uma tatuagem. O desenho não era mais legível por completo, mas o formato e a localização correspondiam à bússola que dona Marilene havia descrito 5 anos antes, sentada numa cadeira de plástico da 13ª Subdivisão Policial de Ponta Grossa. Quando o delegado responsável pelo caso ligou para a família, no dia 27 de outubro de 2023, Leandro atendeu.
Estava na oficina debaixo de um carro com as mãos sujas de graxa. limpou a mão no pano, pegou o celular e ouviu o delegado dizer que haviam encontrado restos humanos no canon do Guartelá e que a identificação era compatível com Rafael Teixeira Brandão. Leandro não respondeu imediatamente. Isto ficou em silêncio por quase um minuto, tempo suficiente para que o delegado perguntasse ele ainda estava na linha.
Leandro disse que sim. disse que ia avisar a mãe. Desligou, sentou no chão da oficina, encostou a cabeça na roda do carro e ficou ali por um tempo que ele mesmo não soube calcular. Dona Marilene recebeu a notícia na cozinha do sobrado de Uvaranas. estava de pé, encostada no balcão, cortando cebola para o almoço.
Leandro entrou pela porta dos fundos com o rosto lavado. Tinha passado água no rosto antes de entrar para não chegar com a cara de quem vai dar a pior notícia da vida de alguém. Mas Marilene viu. As mães vêm. Antes de Leandro abrir a boca, ela já tinha parado de cortar.
segurava a faca na mão direita, com a lâmina apontada para baixo, e olhava pro filho mais velho, como se esperasse que ele dissesse outra coisa. E qualquer outra coisa. Leandro disse que tinham encontrado o Rafael. Disse onde? disse como não disse tudo. Não disse a posição do corpo, não disse o tempo que ele pode ter ficado preso com vida, porque há coisas que um filho não tem obrigação de contar paraa mãe. Dona Marilene ouviu, não gritou, não caiu, largou a faca na pia, se apoiou no balcão com as duas mãos e ficou olhando pela janela da cozinha, como se estivesse vendo alguma coisa do lado de fora que mais ninguém via. Ficou assim por um tempo. Depois disse com a voz baixa: “Pelo menos agora eu sei onde ele está”. A pergunta que ficou e que até hoje não tem resposta é como Rafael chegou àela fenda. O ponto onde o corpo foi encontrado ficava a 7 km da trilha principal do parque, num trecho da parede sul que não faz parte de nenhuma rota conhecida e oficial ou alternativa.
Não há trilha que leve até lá. Não há caminho marcado. O acesso por cima exigiria caminhada de horas por campo aberto e cerrado denso, seguida de uma aproximação à borda do canion num ponto sem qualquer referência visível. O acesso por baixo pelo rio exigiria subir a parede de rocha por fora, coisa que nem escaladores experientes fariam sem equipamento completo. Rafael não levou o equipamento de escalada naquele dia. A mochila estava no carro. Dentro dela as garrafas de água, a paçoca, a lanterna.
Nada que sugerisse que ele planejava descer a parede por uma via técnica. Ele foi a pé com a roupa do corpo e as botas de trilha. A hipótese mais provável, a que o inquérito da Polícia Civil de Tibagi acabou adotando é que Rafael caminhou até a borda do canion num ponto fora da trilha, lhe talvez explorando um acesso que nunca tinha tentado antes e que escorregou ou pisou numa placa de arenito que cedeu sob o peso. A queda teria sido vertical, direta para dentro da fenda, que de cima é quase invisível.
Uma abertura de menos de 1 m de largura, parcialmente coberta por vegetação rala e blocos de rocha solta. Mas essa hipótese não explica tudo. Não explica porque Rafael foi até aquele ponto tão longe da trilha que conhecia. Não explica por não avisou ninguém que ia explorar uma área nova. Não explica porque a mochila ficou no carro. Se ele pretendia passar o dia no canon, por que não levou água, comida, lanterna?
E não explica uma coisa que a família nunca aceitou e que o relatório dos bombeiros de 2018 registra com clareza: “A parede sul, incluindo o trecho onde o corpo foi encontrado, no constava como área vistoriada durante as buscas iniciais.
Os bombeiros disseram que vistorearam a parede sul. O corpo estava na parede sul e o corpo não foi encontrado em 2018. É possível que a fenda vista de cima ou de um ângulo lateral fosse simplesmente invisível. É possível que os bombeiros tenham passado a metros do ponto exato sem perceber a abertura coberta por vegetação e sombra. É possível que o drone, com seus 20 minutos de autonomia e sua câmera limitada não tenha capturado nada de relevante naquele trecho. É possível. Tudo é possível quando o bu terreno é grande demais e o tempo é curto demais e os recursos são poucos demais. Mas paraa família Brandão, essa possibilidade nunca foi suficiente como resposta. Porque possibilidade não é a mesma coisa que explicação. Ni, explicação é tudo o que uma família quer quando passa 5 anos olhando para um canion esperando que ele devolva alguém. O inquérito da Polícia Civil de Tibaji foi concluído em março de 2024.
O delegado responsável classificou o caso como morte acidental, queda seguida de confinamento em fenda rochosa e recomendou o arquivamento.
O Ministério Público do Paraná acatou a recomendação.
O caso foi arquivado sem indiciamento, sem suspeitos, sem novas diligências. O laudo do IML foi anexado ao processo como peça principal. A causa da morte ficou registrada como indeterminada, com hipótese de trauma e compressão. O celular nunca foi encontrado. A mochila ficou no carro e foi devolvida à família junto com as chaves e os pertences que estavam dentro do Gol Prata, que passou 5 anos num pátio da polícia em Tibag e coberto de poeira e folhas secas até que Leandro foi buscar. Dona Marilene não contestou o arquivamento, não procurou o advogado, não foi à imprensa. Quando Leandro perguntou se ela queria fazer alguma coisa, ela disse que não adiantava. Disse que o filho já tinha sido encontrado e que agora o que restava era enterrar direito e rezar. O sepultamento foi feito no cemitério municipal de Ponta Grossa numa tarde de novembro de 2023, quase exatamente 5 anos depois do desaparecimento.
Foram dona Marilene, Leandro, a esposa de Leandro, dois primos de Varanas, e Davi, o melhor amigo de Rafael. Jéssica não foi. Mandou uma mensagem para Leandro, dizendo que não conseguia.
Leandro respondeu que entendia. O caixão era fechado. O padre disse poucas palavras. O vento dos campos gerais soprava seco e constante, lhe levantando poeira vermelha do caminho de terra entre os túmulos. Dona Marilene ficou de pé durante todo o enterro, com a bolsa pendurada no braço e os olhos fixos na cova. Não chorou na hora. chorou depois em casa sozinha, sentada na mesma cadeira da cozinha, onde 5 anos antes tinha recebido a notícia de que a busca oficial havia sido encerrada. Há coisas que o tempo não resolve. Há perguntas que nenhum inquérito responde. E há famílias que aprendem, não por escolha, mas por necessidade, a conviver com o vazio que uma pessoa deixa quando desaparece sem explicação e reaparece sem resposta. Dona Marilene Teixeira continua morando no sobrado de Varanas.
O quarto de Rafael continua fechado. As caixas continuam lá dentro. os troféus, as revistas, as pedras que ele juntava quando era menino. Na cozinha, perto do telefone e há uma foto de Rafael com a mochila azul nas costas sorrindo de canto com o canion do guartelá ao fundo.
A foto está colada na parede com fita adesiva, levemente amarelada pelo tempo.
Leandro voltou à oficina, voltou a trabalhar, a pagar conta, a levar os filhos paraa escola.
Mas quem convive com ele diz que há momentos no meio de um serviço na hora do almoço, num silêncio qualquer em que ele para, olha pro chão e fica assim por alguns segundos, como se estivesse ouvindo alguma coisa que só ele escuta.
Depois volta, pega a ferramenta, continua. Jéssica refez a vida, mudou de cidade, trabalha num hospital de Londrina. Não fala sobre o assunto. A página do Facebook Encontre Rafael Brandão ainda existe. A última postagem continua lá, datada de 2021. 3 anos sem resposta, 3 anos de saudade. Ninguém a atualizou para dizer que o Rafael foi encontrado.
Talvez porque encontrar nesse caso não significou o que a palavra normalmente significa.
Encontrar deveria ser alívio, deveria ser resposta, deveria ser o fim da espera. Mas quando o que se encontra é um corpo de cabeça para baixo, numa fenda de arenito, preso há 5 anos, a 140 m de profundidade, encontrar é só o começo de uma dor diferente. O canion do Guartelá continua lá. O rio e a pó continua correndo entre as pedras escuras do fundo. As paredes de arenito continuam se erguendo verticais, silenciosas, indiferentes. Os trilheiros continuam descendo. Os turistas continuam tirando foto no mirante. O parque continua aberto. A fenda onde Rafael ficou preso por 5 anos continua existindo. Uma abertura estreita na parede sul, quase invisível de cima, recoberta por vegetação rala e sombra. Quem passa por ali não vê nada, não ouve nada, não imagina nada. E talvez seja isso o que mais incomoda nessa história. Não é o mistério, não é a falta de explicação.
É a ideia de que um rapaz de 26 anos que conhecia aquele lugar como poucos, que tinha subido e descido aquelas pedras dezenas de vezes, pode ter caído numa fenda a poucos metros da superfície e ficado lá preso de cabeça para baixo, possivelmente consciente, possivelmente gritando, enquanto o rio abafava qualquer som e o mundo lá em cima continuava girando. Alguém estacionando o carro, alguém tirando foto, alguém mandando áudio de WhatsApp dizendo que o dia estava bonito. Quando fechamos a porta de casa à noite e sabemos onde está cada pessoa que amamos, é fácil esquecer o que significa não saber. O que significa um telefone que vai pra caixa postal dia após dia? O que significa uma cadeira vazia no Natal? O que significa olhar para um canyon e saber que a resposta está lá embaixo em algum lugar, mas que ninguém consegue descer fundo o bastante para encontrar.
A família Brandão esperou 5 anos e quando a resposta finalmente veio, não trouxe alívio, trouxe um corpo, um laudo inconclusivo, um inquérito arquivado e um silêncio novo, diferente do anterior, mas não menor. O silêncio de quem sabe onde a pessoa está, mas não sabe o que aconteceu. O silêncio de quem tem um túmulo para visitar, mas não tem uma história que feche. O silêncio de quem aprendeu, que às vezes encontrar é apenas outra forma de perder. A história de Rafael Teixeira Brandão não termina com uma explicação, termina com uma fenda numa rocha, né?
com uma família que aprendeu a viver com o peso do que não se resolve, e com um canion que guarda dentro de si coisas que o mundo lá de cima prefere não saber.