
Na manhã de 14 de agosto de 1981, às 6:42, o trem de passageiros número 307 da linha Santos para Napiacaba partiu da estação central de Santos com 95 pessoas a bordo. Era uma sexta-feira comum de inverno. O céu estava fechado, mas não chovia. A viagem durava em média 1:15.
O trem passava por sete túneis escavados na rocha da serra do mar antes de chegar ao alto. O último contato com a composição foi registrado às 7:29, quando o maquinista José Reinaldo de Almeida confirmou por rádio que tinha acabado de passar pelo túnel CCO e que seguia dentro do horário. 3 minutos depois, o trem entrou no túnel 6, conhecido entre os ferroviários como túnel da grota funda, um corte de 1340 m, escavado na década de 1920, nunca saiu do outro lado. Quando a composição não apareceu na estação seguinte e o supervisor de tráfego achou que tinha havido atraso mecânico. às 8:10 tentou contato por rádio. Ninguém respondeu. Às 9:30, uma equipe de manutenção foi enviada. O túnel estava vazio. Não havia destroços, não havia corpos, não havia trilho arrancado, nem sinal de descarrilamento.
Havia apenas os dois trilhos de aço estendidos no escuro, intactos, sem uma gota de óleo, sem uma marca de freio.
Esta é a história de um trem que desapareceu com 95 pessoas dentro de um túnel da serra do mar, em plena ditadura militar. e que voltou a ser investigado em 2019, quando imagens captadas por um drone comercial mostraram algo dentro daquele túnel que ninguém esperava encontrar. A serra do mar corta o litoral de São Paulo como uma muralha de pedra e mata fechada. é uma das regiões mais íngremmes do país. Entre Santos e o Planalto, aí a altitude sobe mais de 700 m em menos de 15 km. A ferrovia foi construída entre 1860 e 1937, num esforço que custou centenas de vidas. Os túneis eram estreitos, úmidos, frios. Alguns tinham mais de 1 km.
Dentro não havia luz natural, não havia ventilação adequada, só o barulho do trem ecoando contra a pedra. A serra era daquele tipo de lugar que as pessoas da cidade usavam sem pensar muito. Pegavam o trem, atravessavam o outro lado e seguiam a vida.
Não prestavam atenção no mato fechado lá fora, nas pedras cobertas de liquen, nos riachos que desciam invisíveis entre as árvores. Era só paisagem, era só o caminho. José Reinaldo de Almeida tinha 41 anos e 23 de ferrovia. tinha começado como ajudante de manutenção em 1958 e trabalhado devagar até chegar à cabine, lhe conhecia aquela linha de cor, sabia onde a velocidade tinha que cair, onde o trilho vibrava diferente, onde o vento entrava pela fresta da janela. Tinha mulher, Neusa, que trabalhava num salão de cabeleireiro em Cubatão.
Três filhos, Reinaldinho, de 16 anos, Celinha de 13 e o caçula Paulinho de 8.
Casa própria num bairro simples de Cubatão, com quintal, um cachorro e uma horta de couve que Neusa cuidava todo o fim de semana. Não era homem de falhar, era homem de rotina, de horário, de palavra dada.
Naquela manhã de sexta-feira, levava o trem com calma, como sempre fazia, e entrou num túnel de onde nunca voltou.
Nada na vida de José Reinaldo fazia pensar que terminaria assim. Não havia sinal, não havia aviso. Era uma manhã comum, de trabalho comum, num trecho que ele conhecia melhor do que o caminho de casa. E se esse tipo de história te faz questionar o que você acredita? saber sobre o Brasil que existiu antes das câmeras em todo lugar e da internet nos bolsos.
A partir daqui, a história avança devagar. Tudo o que aconteceu naquela manhã de agosto e nos anos que vieram depois precisa ser contado sem pressa.
Há perguntas que essa história levanta e que não tem resposta fácil. O que faz um governo lacrar um lugar e não explicar porquê? Em que momento uma família comum aceita que o Estado não vai devolver o que levou? O que acontece com 95 pessoas que entram num túnel e não saem? E o que significa encontrar, 38 anos depois uma marca humana fundida na pedra de uma parede que ninguém tocou? Estamos na Serra do Mar, no inverno de 1981, e não havia telefone celular, não havia internet, não havia câmera de segurança em estação nenhuma. A ditadura militar estava nos últimos anos, mas ainda controlava o que saía nos jornais e o que ficava dentro de gavetas fechadas com cadeado. A rede ferroviária federal era uma estatal gigante, com poder de polícia próprio, autonomia administrativa e capacidade de decidir o que virava notícia e o que desaparecia nos arquivos internos. Era esse o Brasil de agosto de 1981.
E foi dentro desse Brasil que o trem 37 entrou num túnel e nunca mais saiu. Às 7:29 da manhã de 14 de agosto de 1981, a voz do maquinista José Reinaldo de Almeida soou no rádio da sala de controle da estação de Paranapiacaba, com a mesma cadência de sempre.
firme, clara, sem pressa. Confirmou que tinha passado pelo túnel C sem intercorrência. Já lhe informou que o trem seguia dentro do horário previsto e desligou. Era a última transmissão registrada.
O supervisor de tráfego Osvaldo Ferreira Lima, anotou o horário no livro de registros com caneta azul, fechou o livro e voltou ao café que esfriava na caneca de alumínio do lado do rádio.
Osvaldo tinha 53 anos e trabalhava naquele posto havia 12. Já tinha ouvido centenas de rádios iguais à aquele, centenas de confirmações de passagem, centenas de horários anotados com caneta azul, centenas de cafés que esfriavam na caneca enquanto ele escrevia. Era procedimento de rotina. Nada naquela voz indicava nervosismo. Nada naquele dia indicava que algo estava fora do lugar.
O livro foi fechado, o café foi bebido e o mundo seguiu por mais alguns minutos, como se nada tivesse acontecido. Ti o túnel da grota Funda ficava a 3,m5 de Paranapiacaba, numa das partes mais fechadas e mais úmidas da serra. Era o cesto de sete túneis que o trem precisava atravessar antes de chegar ao alto. Tinha sido escavado entre 1921 e 1924, por operários, em sua maioria imigrantes italianos e espanhóis, muitos dos quais morreram durante a construção por colapso de rocha, gases internos e infecções.
1340 m de buraco na montanha, aberto à mão, a picareta e dinamite controlada. Dentro a temperatura ficava em torno de 12º, mesmo no verão. O ar era pesado, com cheiro de terra molhada, enxofre e ferro oxidado. Quando um trem passava em velocidade normal, o som das rodas contra os trilhos criava um eco que durava até 6 segundos. Depois que a composição já tinha saído do outro lado, os ferroviários mais velhos chamavam aquele eco de assinatura do túnel. Era o jeito que a grota funda dizia que o trem tinha passado. Naquela manhã de agosto, o eco não veio. O trem 307 era composto por uma locomotiva diesel da série 3000, fabricada na década de 1960 pela General Motors do Brasil e quatro vagões de passageiros de segunda classe.
Não era trem de luxo, nem de conforto.
Era trem de gente que precisava ir de um lugar para outro. As poltronas eram de madeira envernizada, com encosto reto e assento duro. Nas janelas, vidros corrediços que não fechavam direito e deixavam entrar vento frio nas curvas da serra. cheirava óleo diesel, poeira de trilho e o ranço acumulado de muitos anos de uso diário. Era uma sexta-feira de manhã e os vagões estavam em torno de 70% da capacidade.
Havia comerciantes carregando sacolas de mercadoria, donas de casa com cestinha de compras, estudantes com pasta de couro gasto, operários da refinaria de Cubatão, que moravam em Paranapiacaba e desciam para o trabalho. Aposentados que iam resolver coisa em cartório. Um casal de mais idade sentado junto, ela com o terço na mão, ele com o chapéu no colo.
gente comum. Gente que acordou cedo naquela sexta-feira, tomou café com pão, fechou a porta de casa e foi pegar o trem. 95 pessoas.
Dessas, a rede ferroviária só tinha registro de nome completo de 63, porque as outras haviam comprado passagens sem apresentar documento, o que era prática comum e aceita na época.
32 pessoas entraram naquele trem sem que ninguém soubesse exatamente quem eram. E quando o relógio de parede da estação de Paranapiacaba marcou 8:05 e o trem 307 ainda não tinha chegado, o agente de plantão, Mário Henrique Braga olhou para os trilhos vazios lá fora e franziu a testa. Tinha 46 anos e trabalhava naquela estação a via 8.
Conhecia o horário dos trens melhor do que o horário dos filhos. 6, se minutos de atraso não eram incomuns naquela linha. A serra tinha suas variações, suas neblinas, seus trechos de trilho que exigiam velocidade reduzida, mas costumava haver aviso. José Reinaldo era conhecido exatamente por isso. Se ia atrasar, avisava. Mário pegou o rádio portátil e chamou.
Ninguém respondeu. Chamou de novo com o indicativo correto. Silêncio. Uma terceira vez. Nada. Ele largou o rádio na mesa, levantou a cadeira, saiu para a plataforma e ficou ali parado, de braços cruzados, olhando para o vazio da curva de onde o trem sempre vinha. O vento frio da serra batia na lona desgastada do toldo da plataforma. fazendo um ruído seco e repetido. O chão de madeira da plataforma estava úmido. A névoa da manhã ainda não tinha levantado do todo entre as árvores do outro lado do trilho. Havia três passageiros esperando.
Uma mulher com duas crianças pequenas sentadas num banco de madeira coberto com um pano de saco. A mulher com uma sacola de pano no colo e as crianças encostadas uma na outra. Todos olhavam para o mesmo lugar, para a curva vazia, para o silêncio que vinha da direção da serra.
Às 8:15, Mário voltou para dentro e ligou para essa estação anterior em Campo Grande.
Perguntou se o trem 307 tinha saído no horário. Disseram que sim, que tinha saído às 7:19 dentro do horário regular com composição completa. Perguntou se tinha havido qualquer problema técnico reportado.
Disseram que não, que o maquinista não tinha comunicado nada. Mário desligou e ficou olhando para o telefone de baquelite preto pousado na mesa. Do lado de fora, as crianças começaram a chorar.
A mulher entrou e perguntou se o trem ia demorar muito, que as meninas estavam com fome. Mário disse que devia estar chegando a qualquer momento, que devia ser um atraso pequeno. Essas coisas aconteciam.
A mulher voltou para o banco. Mário olhou de novo para o relógio. 8:22 43 minutos desde o último contato de José Reinaldo. Tempo demais para ser só atraso. Às 8:40, Mário tomou a decisão de ligar para o supervisor de tráfego. Osvaldo Ferreira Lima atendeu no segundo toque e ouviu o relato sem interromper. ficou em silêncio por uns três segundos e depois pediu que Mário repetisse. Mário repetiu. Osvaldo disse que ia verificar e desligou. Ligou para a central de operações em Santos. A central confirmou que o trem 307 tinha saído de Santos às 6:42, que tinha passado por todas as estações intermediárias dentro do horário e que o último registro de contato era o rádio de José Reinaldo às 7:29, confirmando passagem pelo túnel 5. A central perguntou se queriam enviar uma composição de manutenção para verificar o trecho. Osvaldo disse que sim. Pediu urgência. A central disse que ia levar uns 50 minutos para organizar a equipe.
Enquanto isso, Mário ficou na plataforma esperando. A mulher com as crianças tinha ido comprar um pão numa venda próxima e voltado. As meninas comiam em silêncio.
Mário ficou de pé. Olhando para os trilhos e com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco de lã cinza. A névoa tinha baixado um pouco mais. Do lado da serra não havia nenhum som além do vento entre as árvores e o gotejo de água num cano de drenagem lá embaixo. Nenhum ronco de motor diesel chegando, nenhum som de freio, nenhum sinal de que qualquer coisa estava a caminho. Às 9:47 da manhã, uma locomotiva pequena de manutenção entrou devagar pelo lado sul do túnel da grota funda, carregando cinco homens da equipe técnica e dois supervisores.
Iam preparados para o que normalmente se encontrava nessas situações.
Um trem parado por pane elétrica, um problema nos freios de emergência, talvez um descarrilamento parcial que tivesse bloqueado a passagem. Levavam lanternas de mão, ferramentas básicas, cabos de reboque e rádios portáteis com bateria nova. que o engenheiro chefe da equipe era Valdir Couto Ramos, 56 anos, 32 de rede ferroviária, tinha entrado na estatal em 1949 como office boy e chegado a engenheiro por concurso interno. Conhecia a Serra do Marcos, conhecia o túnel da grota Funda como a palma da mão. Tinha feito inspeção naquele trecho várias vezes ao longo dos anos.
sabia onde a parede pingava mais, onde o trilho tinha uma leve torção, onde o teto ficava mais baixo. Entrou sem ansiedade. Era trabalho de rotina. A locomotiva de manutenção avançou devagar, a 10 km/h, com os dois faróis dianteiros acesos, cortando a escuridão úmida do interior do túnel. O som do motor ecoava contra as paredes de pedra e voltava amplificado, criando uma camada densa de ruído que tornava difícil ouvir qualquer outra coisa. E pingos de água caíam do teto e batiam no teto da cabine com um som metálico irregular.
O cheiro era de mofo, de terra encharcada e de ferro que enferrujava devagar. Valdir ficou na cabine com os olhos fixos na frente, analisando cada metro de trilho que os faróis iluminavam. 100 m, 200. Os trilhos apareciam na luz intactos, limpos, sem nenhuma deformação visível. 300. A parede direita passava a 30 cm da cabine. Quatro centenas, 500. Nada.
Nenhum sinal de frenagem de emergência, nenhuma marca de rodas bloqueadas, nenhum pedaço de metal, nenhum objeto no chão. 600 m, 700. Valdir pediu que o maquinista fosse mais devagar ainda. A velocidade caiu para 6 km/h, 800 m, 900.
A equipe técnica atrás da cabine estava em silêncio absoluto. 1000 m. 1100. Um dos técnicos abriu a janela lateral e apontou a lanterna para a parede. Pedra, musgo, infiltração, mais pedra. 10000 m, 1300.
Lá na frente, um ponto de luz branca começou a crescer, a boca norte do túnel. O outro lado, 1340 m. A locomotiva saiu para a luz do dia.
O túnel estava vazio. Não havia trem, não havia nada. Quando saíram para o ar livre do lado norte, o silêncio dentro da cabine era diferente do silêncio do túnel. Era o silêncio de pessoas que estavam tentando entender o que os olhos tinham acabado de confirmar. Valdir ficou parado uns 15 segundos. olhando para a boca do túnel que tinham acabado de atravessar. Depois, sem dizer nada, pediu ao maquinista que desse meia volta. O maquinista olhou para ele com uma expressão de quem queria perguntar alguma coisa, mas não perguntou. Deu meia volta. Entraram de novo agora pelo lado norte, no sentido inverso. Foram os mesmos 1340 m, agora com dois técnicos nas janelas laterais apontando lanternas para as paredes, procurando qualquer coisa, uma mochila esquecida, um pedaço de ferragem, uma mancha de óleo, uma marca nos trilhos que indicasse frenagem de emergência, qualquer coisa que dissesse que algo tinha acontecido ali dentro.
Não encontraram nada. Quando saíram do lado sul pela segunda vez, Valdir desceu da locomotiva, colocou as mãos nos bolsos e ficou de pé na boca do túnel, olhando para dentro daquela escuridão que não devolvia nada. Um dos técnicos se aproximou e perguntou o que deviam fazer agora. Valdir não respondeu imediatamente, ficou olhando. No depois disse que iam voltar para me da estação e que ele ia ligar para Santos pessoalmente.
A locomotiva de manutenção chegou a para na piacaba às 11:20.
Osvaldo Ferreira Lima estava esperando na plataforma com mais dois funcionários e um rádio na mão. Valdir desceu e foi direto até ele. Disse em voz baixa que o túnel estava vazio, que eles tinham passado duas vezes nos dois sentidos, que não havia trem, não havia destroços, não havia sinal de acidente, não havia absolutamente nada. Osvaldo ficou olhando para ele por uns 5 segundos sem falar. Depois perguntou se eles tinham verificado os outros túneis do trecho.
Valdir disse que não, que a ordem era verificar o túnel seis. Osvaldo perguntou se podiam ter confundido de túnel. Valdir olhou para ele com uma expressão que dispensava resposta e disse que não, que era o túnel seis e que ele conhecia aquele lugar há 30 anos, que não tinha como confundir.
Osvaldo entrou para a sala de controle e trancou a porta. Ficou lá dentro durante 22 minutos.
Quando saiu, disse que ia ligar para a diretoria em Santos e que ninguém devia comentar nada com ninguém até que houvesse uma orientação oficial. Na tarde daquele mesmo dia, a direção regional da rede ferroviária federal convocou uma reunião de emergência num escritório do terceiro andar do prédio administrativo na rua do comércio, no centro de Santos. Sala sem janela, com ar pesado de cigarro e papel velho.
Estavam presentes o diretor regional, dois superintendentes operacionais, o chefe do departamento jurídico, mais dois advogados da estatal e um assessor do Ministério dos Transportes, que tinha chegado de São Paulo de carro naquele mesmo dia e sem que ninguém tivesse explicado porque ele vinha. A reunião durou 3:20.
A ata lavrada pelo secretário às 16:20 registra os pontos discutidos em linguagem técnica e burocrática, mas alguns trechos são reveladores mesmo assim. Há uma passagem que menciona a necessidade de verificar se houve erro no sistema de registro de passagem das composições entre estações.
Outra que fala em aguardar laudo técnico completo antes de qualquer comunicação externa. E há uma linha quase no final da ata que diz: “Foi levantada a hipótese de desvio não registrado da composição 307 para um ramal secundário a ser verificado pela equipe de campo.
Havia um problema com essa hipótese. Não existia ramal secundário naquele trecho.
A linha era simples, sem bifurcação, do túnel C ao túnel S. Não havia para onde desviar.
A linha constava assim nas plantas de 1926 e nas de 1971.
A decisão final da reunião foi registrar ocorrência interna, enviar nova equipe de inspeção ao trecho completo entre os túneis 5 e 7 e aguardar 48 horas antes de acionar qualquer autoridade externa.
O boletim de ocrência formal foi lavrado numa delegacia de Santos três dias depois. Foi classificado como desaparecimento de bem móvel, não de pessoas, de bem móvel. Durante os cinco dias seguintes ao desaparecimento, a estação central de Santos foi se tornando, aos poucos, um ponto de concentração de famílias. Não foi organizado, não foi convocado, foi acontecendo naturalmente.
À medida que as pessoas que tinham alguém no trem 307 começaram a entender que não havia outra fonte de informação além daquela porta de madeira envernizada no centro da cidade.
chegavam de manhã cedo com criança no colo e sacola na mão, perguntavam na bilheteria, levavam a mesma resposta vaga e ficavam. Aguardavam, voltavam no dia seguinte, foram chegando mais. Até o quinto dia havia pelo menos 50 pessoas concentradas na área da estação, algumas dormindo nos bancos da sala de espera, outras paradas na calçada de fora com guarda-chuva aberto contra o frio úmido da Baixada Santista. Não havia lista oficial de passageiros divulgada. A rede ferroviária dizia que estava levantando os nomes, que era um processo demorado porque muita gente viajava sem documento. Não havia porta-voz da empresa que saísse para dar informações claras e com horário fixo. Aparecia de vez em quando um funcionário menor com uma folha de papel na mão, que lia um comunicado curto e voltava para dentro antes que alguém tivesse tempo de perguntar alguma coisa.
O comunicado dizia sempre a mesma coisa, que o incidente estava sendo investigado e que a empresa informaria assim que houvesse novidades.
Não dizia o que era o incidente. Não dizia onde estavam os passageiros. Cle Aparecida dos Santos tinha 28 anos naquele agosto de 1981.
Morava num apartamento de quartos no bairro Baré, em Santos. trabalhava meio período como auxiliar de enfermagem no hospital Guilherme Álvaro. O marido, Jairo Augusto dos Santos, 31 anos, trabalhava numa gráfica na Vila Belmiro e completava a renda fazendo pequenos serviços de encadernação em casa. Eles tinham um filho de 3 anos, Marcos, que ainda usava fralda. Na manhã de sexta-feira, Jairo tinha acordado mais cedo que o normal. e tomado café com Cid, pegado a bolsa que ela tinha preparado com uma muda de roupa e comida para a viagem e saído para pegar o trem.
Ia a para na piacaba visitar a mãe, dona Conceição, que estava com pneumonia.
Disse que voltava à noite depois do almoço. Deu um beijo em Marcos, que ainda dormia. Fechou a porta. Cleviu os passos dele descer à escada. Depois ouviu o portão. Depois nada. Ela foi à estação no sábado de manhã com Marcos no colo e perguntou se tinha acontecido alguma coisa com o trem da véspera. O funcionário da bilheteria disse que não tinha informação. Ela foi no domingo.
Disseram a mesma coisa. Na segunda-feira levou uma sacola com roupa, comida e fraldas para Marcos e ficou. Não foi para o trabalho, não voltou para casa, sentou num banco da sala de espera com o filho no colo e ficou esperando. Ninguém mandou ela embora. O banco era de madeira dura, pintado de verde, com uma tábua faltando no encosto. Cle ficou naquele banco durante os cinco primeiros dias. dormia encostada na parede com Marcos deitado no seu colo. De manhã cedo, uma senhora que morava perto da estação e que tinha ouvido falar do caso começou a aparecer com garrafas térmicas de café e pão com manteiga para as famílias que dormiam lá. Clay tomava o café sem levantar, agradecia sem olhar para a mulher. Na quarta-feira, 19 de agosto, cinco dias depois do desaparecimento, um funcionário administrativo da rede ferroviária saiu pela porta lateral da estação, entrou na sala de espera e leu um comunicado em voz alta. Dizia que o trem 307 tinha sofrido um problema técnico não especificado durante o trajeto do que os passageiros estavam sendo assistidos pelas equipes da empresa e que os familiares seriam contactados individualmente assim que o processo de identificação estivesse concluído. Não dizia onde os passageiros estavam, não dizia em que condição estavam, não dizia quando iriam para casa. Clay levantou do banco e perguntou em voz alta onde estava o marido dela. O funcionário disse que não podia dar informações individuais. Ela perguntou de novo. Ele repetiu. Uma mulher mais velha do outro lado da sala começou a chorar. O funcionário dobrou o papel, colocou no bolso e foi embora. Clay ficou de pé no meio da sala de espera por um tempo que ela depois disse não saber calcular.
Depois sentou de novo, pegou o Marcos no colo e ficou olhando para a porta pela qual o funcionário tinha saído. No dia 21 de agosto de 1981 e s dias depois do desaparecimento, as coisas mudaram de patamar. Uma equipe do exército brasileiro chegou pela manhã cedo ao trecho da ferrovia próximo ao túnel da grota Funda. Vieram em dois caminhões militares e um jeip soldados armados e um oficial que não se identificou para os poucos moradores da área que viram a movimentação.
Num período de horas, toda a zona de acesso ao túnel foi isolada. Cordas de arame farpado foram esticadas nas duas bocas.
Duas guaritas de madeira foram erguidas, uma de cada lado, com soldados de plantão em revezamento de 8 horas. Um aviso de interdição foi fixado nos postes de iluminação próximos. Área restrita proibida a entrada de civis.
Nenhuma numeração de portaria, nenhum carimbo de órgão público identificável, só o aviso e os soldados. A ferrovia foi interrompida naquele trecho, sem comunicado prévio às estações. Os trens que vinham de Santos foram desviados por uma linha alternativa mais ao norte, que contornava a serra por um caminho mais longo e plano, aumentando o tempo de viagem em 40 minutos. Os passageiros foram comunicados do desvio pelo trem altante sem explicação de motivo.
Disse-se apenas que havia interdição técnica no trecho. A linha alternativa era mais velha, com trechos de trilho desgastado e os trens rangiam mais nela.
Os maquinistas que a percorreram naqueles primeiros dias depois do isolamento disseram que a vista do alto dava para ver de longe o movimento dos soldados na boca do túnel, mas de longe, sem detalhe. Não havia explicação pública, não havia coletiva de imprensa, não havia nota do exército, nem do Ministério dos Transportes e nem de nenhum outro órgão. O único comunicado veio da rede ferroviária, publicado em letra miúda no jornal A Tribuna de Santos, na edição de sábado, 22 de agosto. Dizia apenas que o túnel da grota funda estava temporariamente interditado por questões de segurança estrutural e que uma equipe de engenharia estava avaliando as condições da obra. Não mencionava o trem 307, não mencionava os 95 passageiros, não mencionava os soldados na boca do túnel.
Em outubro de 1981, dois meses depois do desaparecimento, o engenheiro civil Hélio Tavares de Azevedo recebeu uma ordem de serviço da Rede Ferroviária Federal para realizar inspeção técnica completa no túnel da Grota Funda. Hélio tinha 52 anos, 30 de profissão.
Formado pela Escola Politécnica da USP em 1952 tinha currículo de obras. Pontes sobre o rio Tieté, não viadutos na rodovia Anhangueira, trabalhos de contenção de encosta na serra da Cantareira. Era homem de precisão e de caderneta sempre na mão. A ordem de serviço que recebeu era técnica. pedia a avaliação das condições estruturais da obra, teto, paredes, base, drenagem, estado geral dos trilhos. Não havia menção ao trem desaparecido, não havia nenhuma instrução fora do padrão, era um laudo de manutenção, como tantos outros que ele tinha feito ao longo da carreira.
Mas havia um detalhe. A ordem dizia que a equipe devia entrar sozinha, sem acompanhamento militar numa data específica, numa janela de 8 horas, o que sugeria que em todas as outras horas havia restrição de acesso. Hélio entrou num sábado de outubro, às 8 da manhã.
Com ele iam três ajudantes jovens, recémformados, com equipamento de topografia, trena a laser, teudolito e nível ótico, câmera fotográfica analógica e cadernetas de campo. Os soldados ainda estavam na boca do túnel, mas se afastaram quando o oficial viu a ordem de serviço. Entraram pelo lado sul. O interior estava exatamente como as equipes anteriores tinham descrito, escuridão, umidade, cheiro de mofo e pedra velha. Mas havia uma diferença em relação às inspeções normais. O silêncio era diferente. Hélio notou isso desde o começo. Era um silêncio mais pesado que o normal. Num túnel em operação, mesmo quando não passa trem, há pequenos ruídos, gotejo, corrente de ar, vibração residual dos trilhos. Naquele dia, dentro do túnel da grota funda, não havia nada. Era como se o ar tivesse parado. Mediram o túnel de ponta a ponta, foram meticulosos. A extensão oficial era de 1340 m, conforme as plantas de 1926.
Nem a medição de hélio deu 1338 m, uma diferença de 2 m. dentro da margem de erro tolerável para uma obra daquela época, quando a tecnologia de medição era menos precisa e as plantas eram feitas à mão, Hélio anotou a diferença, acrescentou a ressalva metodológica e passou para a próxima etapa. Verificaram o estado dos trilhos normais, com desgaste compatível com a idade e o uso. Verificaram o teto. Havia infiltrações em seis pontos, mas nenhuma com risco imediato de colapso.
Verificaram as paredes. A parede sul estava em bom estado geral. A parede norte apresentava umidade mais intensa em alguns trechos, musgo em abundância e num ponto específico, uma fissura. A fissura estava no quilômetro 0,7, exatamente no ponto médio do túnel. Era vertical lá com cerca de 2 m de altura e uns 15 cm de largura na abertura maior.
A rocha estava separada, como se tivesse rachado de dentro para fora por pressão interna. Hélio pediu que apontassem as lanternas, aproximou-se, passou a mão na borda da fissura. A superfície estava estranhamente lisa, não áspera como costuma ser rocha rachada, lisa, quase polida. Ele tentou enfiar uma trena para medir a profundidade. A trena entrou uns 40 cm antes de tocar em algo e não ir mais fundo. Hélio pediu que tirassem foto. O ajudante fotografou de vários ângulos com flash manual. Hélio anotou na caderneta: fissura vertical, parede norte, qum 0,7, aproximadamente 200 cm de altura, 15 cm abertura máxima, superfície interna anormalmente lisa, profundidade mínima 40 cm, sem correspondência em relatórios anteriores consultados, mas depois ficou um momento olhando para a fissura sem falar.
Um dos ajudantes perguntou se ela era perigosa. Hélio disse que ia analisar.
Continuaram a inspeção até o final do túnel. Saíram pelo lado norte, entraram de volta pelo lado norte e terminaram do outro lado. Quando Hélio saiu pela boca sul no final do dia, sentou numa pedra, tirou o capacete e ficou olhando para o chão durante um tempo. O ajudante mais velho perguntou se estava bem. Ele disse que estava cansado. Três semanas depois, o laudo que entregou a rede ferroviária dizia que a estrutura do túnel estava em condições aceitáveis de uso, com ressalvas sobre infiltração e sobre a fissura da parede norte, que deveria ser monitorada periodicamente.
A fissura nunca foi monitorada. Nenhum relatório de acompanhamento foi produzido nos anos seguintes, em março de 1983 e 1 ano e 7 meses depois do desaparecimento do trem 307, o túnel da grota Funda foi reaberto ao tráfego ferroviário.
Não houve comunicado prévio às estações.
Não houve vistoria pública com representantes das famílias dos desaparecidos. Não houve cerimônia de nenhum tipo. Simplesmente, numa segunda-feira cedo, as guaritas foram desmontadas, os soldados foram embora, a linha foi reativada e os trens voltaram a passar pelo túnel seis, como se os últimos 19 meses não tivessem existido.
A vida operacional voltou ao normal. Os horários foram ajustados. O desvio pela linha alternativa foi encerrado. Os passageiros que pegavam o trem naquela semana provavelmente nem sabiam que estavam passando pelo mesmo lugar de onde um trem inteiro tinha desaparecido menos de do anos antes. Mas entre os maquinistas que trabalhavam naquela linha de havia um entendimento não escrito que ninguém precisou formalizar.
Ninguém entrava naquele túnel sozinho.
Se havia só um maquinista escalado para a viagem, alguém aparecia voluntariamente para acompanhar na cabine, sem figurar na escala. O rádio ficava ligado o tempo todo durante a travessia, transmitindo voz constante para da estação mais próxima, mesmo que não houvesse nada para comunicar. A velocidade era reduzida ao entrar, mesmo quando não havia instrução de redução, e todo mundo entrava com a mão na alavanca de emergência. Era o código dos que sabiam o que tinha acontecido ali, que não eram poucos. Valdemar Augusto Pinheiro tinha 43 anos em março de 1983.
Maquinista desde 1975, com 8 anos de linha santos para Napiacaba, era um dos mais experientes daquele trecho. Conhecia cada curva, cada rampa, lá, cada variação de temperatura dentro de cada um dos sete túneis. Quando o túnel da grota Funda foi reaberto, Valdemar fez a primeira viagem pelo trecho de volta na manhã da segunda-feira. Entrou com um auxiliar ao lado, rádio ligado, velocidade reduzida.
Saiu do outro lado, não disse nada. Duas semanas depois, pediu transferência para a linha do Vale do Ribeira. Era uma linha mais longa, com horários piores, com salário de base menor, porque a categoria era diferente. O supervisor de escalas ficou surpreso e perguntou por quê. Valdemar disse que era motivo pessoal. Insistiram.
Perguntaram se tinha algum problema de saúde, se tinha questão familiar, se precisava de algum ajuste de escala. Ele disse que não, que era só uma decisão. A transferência foi aprovada sem maiores obstáculos. Valdemar trabalhou no Vale do Ribeira até se aposentar até em 1991.
Nunca mais pisou na linha da serra do mar. O cunhado de Valdemar, Raimundo Ferreira Coutinho, também ferroviário, trabalhava na área de manutenção de trilhos. Anos depois, numa conversa que Raimundo contou para o filho adolescente e que o filho repetiu para um jornalista de São Paulo em 2019, Valdemar tinha dito numa tarde de churrasco de família, já com uns copos de cerveja no corpo, que tinha visto algo se mexer na parede do túnel na manhã em que voltou a passar por ali depois da reabertura.
disse que era às 6 da manhã, neblina lá fora, dentro do túnel completamente escuro, exceto pelos faróis, que alguma coisa na parede perto do meio do túnel tinha se movido, que ele não sabia dizer se era sombra, se era o reflexo dos faróis numa irregularidade da rocha, se era coisa de quem estava com pouco sono e muito medo, mas que ele tinha visto, que tinha reduzido a veloc cidade que tinha ficado olhando e que depois tinha acelerado de volta e não tinha mais parado até sair do outro lado. Valdemar morreu em novembro de 1996 de infarto em casa aos 56 anos.
nunca falou mais no assunto depois daquele churrasco.
Durante toda a década de 1980, um grupo de 12 familiares de pessoas desaparecidas no trem 307 continuou se encontrando regularmente. No início era todo mês, depois a cada dois meses, depois de três em três, mas continuaram se encontrando. O ponto de reunião era a casa de Cleide, Aparecida dos Santos, no bairro em Baré, em Santos. O apartamento era pequeno. A sala comportava com dificuldade as 12 pessoas que vinham.
Havia quem ficava em pé encostado na parede. O filho de Cleid, Marcos, cresceu vendo aquelas reuniões. Eu ficava no quarto, mas ouvia tudo. As vozes baixas, o papel sendo aberto e fechado, o choro contido, a mesma história sendo contada e recontada sem nunca chegar a nenhum lugar novo. Eles juntaram dinheiro da forma que puderam.
5.000 cruzeiros daqui, 10.000 dali nas épocas de inflação que comiam o valor antes mesmo de juntar. contrataram o advogado Sebastião Moreira Pinto, que tinha escritório na rua Amador Bueno, em Santos, e que aceitou trabalhar pelo mínimo, porque achou que a história não fechava e que havia algo que o Estado estava escondendo.
Em 1983, entraram com pedido de acesso à documentação interna da rede ferroviária relativa ao incidente de 14 de agosto de 1981.
Foram negados administrativamente.
Recorreram, foram negados de novo.
Entraram com mandado de segurança na justiça federal em São Paulo. O processo demorou. Em 1986 foi negado em primeira instância.
Recorreram ao Tribunal Regional Federal.
Em 1987, o desembargador federal Antônio Lúcio Marques Pimentel assinou uma liminar determinando que a Rede Ferroviária Federal SA entregasse cópia integral de toda a documentação relativa ao desaparecimento da composição 307 em 14 de agosto de 1981, incluindo atas de reunião, boletins de ocorrência internos, laudos técnicos, relatórios de inspeção e qualquer comunicação oficial ou interna que fizesse referência ao evento. A rede ferroviária cumpriu a liminar três meses depois de Intimada.
Enviou uma caixa de papelão pardo, lacrada com fita adesiva amarela com o nome do advogado escrito à mão com caneta hidrocó.
Sebastião abriu a caixa no escritório com Cleid e mais três familiares presentes. Dentro havia 43 páginas numeradas, metade e 21 páginas estava censurada com tinta preta espessa, aplicada em camadas, do tipo que não deixa ler absolutamente nada por baixo, nem contra luz, nem em scanner. Estava censurado o texto, a numeração interna dos documentos, as datas em alguns casos, os nomes dos signatários.
Em certas páginas, a tinta preta cobria linhas inteiras e parágrafos inteiros, deixando visível apenas o cabeçalho com o timbre da estatal e as iniciais do departamento.
A outra metade das páginas era documentação operacional rotineira, memorando sobre manutenção de trilhos, planilhas de gastos com combustível, escalas de funcionários dos meses de agosto e setembro de 1981.
Um relatório de troca de dormentes no trecho entre as estações de Campo Grande e Paranapiacaba.
Nenhuma página fazia referência direta ao trem 307.
Nenhuma página mencionava os 95 passageiros.
Nenhuma página respondia a qualquer das perguntas que o grupo de familiares havia passado 6 anos fazendo. Sebastião entrou com recurso pedindo que as páginas censuradas fossem entregues sem censura. O recurso foi negado com a justificativa de que o conteúdo censurado era protegido por questões de segurança nacional, conforme legislação vigente à época dos documentos. Outro recurso, outra negativa. Em 1990, o processo foi arquivado por falta de novas provas e por esgotamento das instâncias disponíveis. Sebastião devolveu os documentos para Clea nova caixa de papelão. Disse que tinha feito tudo o que estava ao seu alcance. Ela agradeceu.
Ele foi embora. Clevou a caixa para casa e colocou debaixo da cama, no lado onde Jairo costumava dormir. Na ficou ali durante 29 anos até 2019.
Naquele mesmo ano de 2019, a rede ferroviária federal já havia sido extinta há mais de duas décadas. A ferrovia da Serra do Mar tinha passado por várias concessões e mudado de mãos mais de uma vez. O trem de passageiros da linha Santos para Napiacaba continuava funcionando, agora sob outra administração, com composições mais novas e horários reduzidos.
O túnel da grota funda continuava sendo usado normalmente, como havia sido desde a reabertura de 1983.
38 anos tinham passado. A maioria das pessoas que sabia o que tinha acontecido em agosto de 1981 estava morta ou tinha mais de 70 anos. O caso nunca tinha sido retomado oficialmente, nunca tinha sido reaberto por nenhuma comissão de investigação, nem mesmo depois da redemocratização, mas nem depois da Lei de Ao Informação de 2011, que em teoria permitia solicitar documentos que antes eram protegidos por sigilo de segurança nacional. Cleid tinha tentado em 2013 fazer um novo pedido de acesso com base na nova lei. Recebeu a resposta de que os documentos relativos ao evento de agosto de 1981 tinham sido destruídos em processo de desgaste de acervo em 1998, conforme protocolo de descarte de arquivos com mais de 15 anos de guarda.
Ela guardou a resposta junto com o resto da caixa debaixo da cama. Em junho de 2019, um cinegrafista de 32 anos chamado Rafael Ortiz Mendonça, morador de São Bernardo do Campo, resolveu filmar o interior do túnel da grota Funda. Rafael trabalhava com filmagem de eventos desde os 20 anos, casamentos, formaturas, aniversários de 15 anos, com fraternizações de empresa. nas horas vagas produzia vídeos para um canal no YouTube chamado Brasil Esquecido, onde documentava lugares abandonados, histórias obscuras e casos que tinham sumido da memória pública. O canal tinha uns 40.000 inscritos crescendo devagar, sem algoritmo favorável, sem patrocínio, sem grande estrutura. Era ele, um drone, uma câmera de mão e um microfone de lapela gravando comentários enquanto andava. Tinha ouvido a história do trem 307 num episódio do podcast Casos Arquivados, produzido por um jornalista de Campinas, e tinha ficado pensando nisso durante semanas.
Não era a primeira história de desaparecimento que ele cobria, mas era a primeira que envolvia um trem inteiro e um túnel que ainda estava em operação.
Ele foi numa tarde de sábado de junho, saiu de São Bernardo às 10 da manhã pela rodovia Anchieta, desceu até Santos e pegou a via Anchieta antiga que subia à serra e encontrou a estrada de terra que dava acesso ao lado sul do túnel. por uma trilha que não estava em nenhum mapa digital. Chegou à Boca Sul às 3:20 da tarde. O sol estava forte lá fora, mas a sombra da rocha tornava da entrada do túnel imediatamente escura. A linha ainda funcionava. Rafael tinha checado o horário dos trens antes de sair de casa.
O próximo passava às 18:10.
tinha tempo. Montou o drone ali fora na beira do trilho. Era um DJI Mavic Air 2 compacto com câmera 4K e dois faróis LED de alta potência que ele tinha adaptado manualmente para filmagem em ambientes fechados. Calibrou os sensores, ajustou a câmera para modo noturno, acendeu os faróis. O drone levantou-a uns 2 metros de altura e avançou para dentro do túnel. Rafael ficou do lado de fora, me controlando pelo celular, acompanhando a imagem ao vivo na tela com fone de ouvido.
Os primeiros 680 m foram exatamente o que ele esperava encontrar.
As paredes de pedra apareciam cobertas de musgo escuro e infiltrações de água que escorriam em filetes finos pela rocha. O teto baixo e irregular refletia os faróis de um jeito o que criava sombras em movimento. Mas era só o ângulo da luz. Os trilhos abaixo, duas linhas de aço paralelas que se perdiam no fundo escuro. Pingos de água caíam no chão de pedra com som regular. O eco do motor do drone enchia o espaço e voltava levemente distorcido. Rafael comentou em voz baixa para o microfone de lapela, descrevendo o que via. Rochas, musgo, água, escuridão, nada de anormal. Aos 700 m, o drone estava na região central do túnel e Rafael estava prestando atenção no teto, que parecia ter uma rachadura pequena que queria registrar.
Nesse momento, o quadro da câmera passou pela parede esquerda, a parede norte, e Rafael viu algo que fez ele apertar o botão de pausa do drone. A imagem ficou estática. Ele aumentou o zoom no celular. Na parede esquerda, a uns me de altura do chão, havia algo. Rafael ficou olhando para a tela por uns 10 segundos, tentando entender o que estava vendo.
Depois aumentou mais o zoom. E então ficou claro, era uma mão, o contorno perfeito de uma mão humana adulta, com cinco dedos abertos, impressa na pedra, como se alguém tivesse apoiado a palma contra a rocha molhada e a forma tivesse ficado ali gravada. Só que não era uma marca de sujeira nem de tinta, era a superfície da própria pedra que estava moldada naquele formato, né? como se a rocha tivesse estado mole no momento em que a mão foi apoiada e depois tivesse endurecido.
Rafael gravou aquele ponto durante 48 segundos. Mudou o ângulo do drone três vezes para capturar a imagem de diferentes perspectivas.
Com o zoom máximo, a definição era suficiente para ver as linhas da palma da mão dentro da impressão, para ver o contorno de cada dedo, para ver a marca do polegar ligeiramente separado dos outros. Era uma mão direita. Rafael recuou o drone lentamente, tirou o drone do túnel, desligou e ficou sentado na beira do trilho por uns 15 minutos antes de voltar para o carro. Em casa, passou o vídeo para o computador e assistiu de novo no monitor maior. Depois assistiu uma segunda vez, pausando quadro a quadro no trecho da mão. Depois ficou sentado na cadeira de frente para a tela.
e sem fazer nada por um tempo. Era sábado à noite. Editou o vídeo durante a madrugada, adicionou as legendas com os dados históricos que tinha pesquisado sobre o trem 307. Colocou Narração em voz baixa e publicou no YouTube no domingo de manhã às 9:15.
Em 3s dias o vídeo tinha 700.000 visualizações.
Em uma semana 2.200.000.
Os comentários somavam mais de 40.000.
Jornalistas de São Paulo e do Rio entraram em contato. Uma emissora de televisão mandou equipe para refazer a filmagem do túnel. Um geólogo da Unicamp deu entrevista dizendo que a formação era impossível sob.
Uma entidade de famílias de desaparecidos entrou em contato com Clay Aparecida dos Santos para contar o que tinha aparecido na internet. Foi a filha de Cle Gabriela, hoje com 38 anos, de que mostrou o vídeo para a mãe. Cleiu duas vezes em silêncio na cozinha do apartamento no embaré com a tela do celular da filha na mão. Depois colocou o celular na mesa. Ficou olhando para a janela da cozinha durante um tempo. A rua lá embaixo tinha o barulho normal de uma tarde de domingo em Santos.
Crianças, moto passando, um rádio lá longe. Depois, Clear, abaixou, puxou a caixa de papelão de debaixo da cama e ficou segurando ela no colo, sentada na beirada do colchão.
Eram 29 anos de espera dentro daquelas 43 páginas, metade cobertas de tinta preta, 29 anos de reuniões na sala pequena de recursos negados.
de advogado que fez o que pôde, de um marido que tinha saído para visitar a mãe doente numa sexta-feira de agosto e nunca tinha voltado. E agora tinha uma imagem de uma mão dentro de uma pedra capturada por um rapaz que não tinha nascido quando o trem desapareceu.
Cle ficou assim com a caixa no colo por um tempo, que Gabriela, que estava na porta do quarto, disse não saber calcular. Depois a mãe disse em voz baixa que queria que alguém fosse olhar aquilo direito, que alguém me disse, que alguém fosse lá dentro de verdade e não saísse sem resposta. Gabriela disse que ia tentar. Cle disse obrigada e ficou com a caixa no colo. A marca na pedra foi analisada por três especialistas diferentes entre julho e dezembro de 2019. Um geólogo da Unicamp, o professor Marcelo Henrique Vaz, disse em nota técnica que a formação não correspondia a nenhum processo geológico identificável.
A rocha naquele trecho era granito, uma das mais duras da crosta terrestre e com formação estimada em 320 milhões de anos. Não há processo natural conhecido capaz de imprimir a forma de uma palma humana no granito sem ferramentas, sem calor extremo e sem pressão equivalente a toneladas por cm qu.
Uma segunda análise feita por um perito criminal aposentado da Polícia Federal chamado João Batista Correia de Menezes, descartou a hipótese de fabricação da marca por meios químicos ou mecânicos comuns. disse que para criar uma impressão com aquela profundidade e aquela definição, seria necessário o equipamento industrial, que não poderia ser levado ao interior de um túnel ferroviário em operação, sem deixar marcas no piso ou nos trilhos. Uma terceira análise feita por um pesquisador independente que pediu anonimato, sugeriu que a marca poderia ser anterior ao desaparecimento de 1981 e que poderia ter sido feita durante a construção do túnel entre 1921 e 1924, que algum operário poderia ter apoiado a mão numa mistura de cimento ainda fresco que depois foi coberta pela rocha natural. Mas essa hipótese não explicava porque a superfície da impressão era de granito puro, sem traço de cimento ou argamassa. E por a profundidade da marca era uniforme em toda a extensão da palma, algo impossível, numa impressão em material moldável. Em janeiro de 2020, um deputado estadual de São Paulo entrou com requerimento na Assembleia Legislativa, pedindo que a Secretaria de Segurança Pública reaberta as investigações sobre o desaparecimento do trem 307.
O requerimento foi protocolado, recebeu número, foi encaminhado para a comissão competente e nunca mais foi pautado. Em março de 2020, o Brasil entrou em pandemia e o assunto foi engolido pelo tamanho do que veio a seguir. O vídeo de Rafael ficou no YouTube. Continua lá. O túnel da grota funda continua em operação. Os trens continuam passando. A marca continua na parede, no 707, lado esquerdo, a m de altura, exatamente onde a câmera de Rafael a encontrou em junho de 2019.
Ninguém colocou cercado, ninguém instalou câmera de monitoramento, ninguém da administração atual da ferrovia respondeu a nenhum dos pedidos de entrevista feitos por jornalistas e pesquisadores desde então. Resposta padrão quando há alguma, é que a empresa não tem documentação sobre eventos anteriores à concessão atual e que qualquer investigação histórica deve ser dirigida ao acervo do Ministério da Infraestrutura.
O acervo do Ministério da Infraestrutura não tem documentação sobre o evento de agosto de 1981, relativa ao túnel da Grota Funda.
Confirmaram isso por escrito a um jornalista do estado de São Paulo em outubro de 2019. Disseram que a documentação não foi localizada.
Cleade, Aparecida dos Santos, tem hoje 70 anos. Mora no mesmo apartamento do bairro em Baré, em Santos. onde morava quando Jairo saiu para pegar o trem naquela sexta-feira de agosto de 1981.
O apartamento tem dois quartos. O quarto maior é dela. O quarto menor era de Marcos, que cresceu, casou e foi morar em São Vicente. Marcos tem 42 anos e uma filha de 12. A caixa de papelão não está mais debaixo da cama, está numa prateleira do armário do corredor entre caixas de sapato e cobertores guardados em saco plástico. Cleade a abriu mais duas vezes depois de 2019. Mam vez para mostrar para um jornalista.
Uma vez sem motivo, tarde da noite sozinha. José Reinaldo de Almeida tinha 41 anos quando entrou no túnel da Grota Funda pela última vez. Neusa Ra esposa esperou durante 5 anos antes de aceitar a presunção de morte para fins legais.
Em 1986, os três filhos cresceram. Reinaldinho tem hoje 58 anos e trabalha com construção civil em Cubatão. Celinha tem 55. e mora em Praia Grande. Paulinho tem 48 e é o único que ainda mora em Cubatão, no bairro do pai. A casa com quintal, cachorro e horta de couve não existe mais. No lugar onde ficava, há um condomínio de quatro andares construído nos anos 90. Neusa morreu em 2014, de câncer aos 72 anos.
Nunca soube o que tinha acontecido com o marido. Nunca soube se ele tinha sofrido e se tinha tido tempo de entender, se tinha tentado sair, se tinha visto alguma coisa antes de desaparecer.
Ninguém sabe isso. Até hoje.