
3 HISTÓRIAS ASSUSTADORAS QUE O POVO DA ROÇA NÃO QUER TE CONTAR – RELATOS ASSUSTADORES
Antes de começar o vídeo, por favor, curta e se inscreva no canal. Isso me ajudará a fazer mais vídeos para vocês. E depois de assistir, comente qual história você mais gostou. [Música] Era o inverno de 1987, quando a seca castigava as terras do interior de Minas. Não chovia há quase seis meses, e o riacho do sapo, que dava nome ao vilarejo, agora era apenas um fio de lama no chão rachado.
A comunidade nem aparecia nos mapas oficiais; era apenas um punhado de casas simples, uma igrejinha de adobe com a torre inclinada, uma venda que servia de mercado, bar e ponto de encontro, e muita gente trabalhadora que acordava com as galinhas e ia dormir quando o corpo não aguentava mais o peso da enxada.
As casas ficavam espalhadas ao longo de uma estrada de terra vermelha que serpenteava entre colinas cobertas de capim seco e árvores esparsas. Durante a época das chuvas, tudo ali era verde e cheio de vida, mas naquele ano a seca chegara mais forte e mais cedo. Os antigos diziam que era castigo de Deus.
Outros diziam que era apenas coisa da natureza, que sempre houve tempos bons e tempos ruins. O que ninguém podia negar era que a vida, já difícil naquele lugar remoto, tinha se tornado ainda mais dura. Dona Sebastiana vivia sozinha em uma pequena casa de adobe no final da estrada de terra, bem perto do cemitério velho, que fora abandonado depois que construíram o novo lá na cidade.
Sua casa ficava afastada das outras, em um terreno grande, cercado por uma cerca de madeira de aroeira que já estava meia caída. Tinha um quintal grande onde algumas galinhas magras ciscavam o dia todo em busca de minhocas, que já não existiam naquele solo ressequido. Um poço de água nos fundos do quintal, que por misericórdia divina ainda não tinha secado, garantia que ela e os animais não morressem de sede.
Ela era uma mulher franzina, de cabelos brancos, sempre presos em um coque apertado, e mãos calejadas de tanto trabalhar na roça. Já passava dos 70 anos, mas tinha uma força que muitos rapazes invejavam. Seu rosto era um mapa de rugas profundas, especialmente ao redor dos olhos, de tanto encarar o sol enquanto trabalhava no campo.
Mas os olhos em si, azul-claros, herdados de uma bisavó portuguesa, mantinham um brilho vivo e atento que não combinava com sua idade avançada. Dona Sebastiana tinha criado seis filhos naquela casa, cinco meninos e uma menina, todos já crescidos e vivendo na cidade. O mais velho, Tonho, trabalhava em uma fábrica de sapatos em Franca.
Zé e Joaquim tinham ido para São Paulo, onde trabalhavam na construção civil. Antônio e Pedro estavam em Belo Horizonte, um como motorista de ônibus, o outro como segurança de banco. A filha mais nova, Maria do Carmo, tinha se casado com um comerciante de Uberaba e era a única que vinha visitar a mãe com alguma regularidade, uma vez a cada dois ou três meses.
Ela nunca quis sair daquela casa, mesmo depois que os filhos insistiram para que ela se mudasse para a cidade. “É aqui que eu vou morrer”, ela dizia sempre com uma determinação inegável. “Meu umbigo está enterrado neste quintal, debaixo daquela goiabeira.” “Não posso deixar esta terra.” Seu marido, Juvenal, morrera há mais de 15 anos, vítima de uma pneumonia que contraiu após cair em uma lagoa enquanto pescava em um dia de chuva.
Desde então, vivia sozinha apenas com a companhia de dois cachorros vira-latas: Totó, um bicho grande de pelo amarelado, e Pipoca, uma cachorrinha branca com uma mancha preta, além das galinhas no quintal. A vida seguia um ritmo lento e previsível. Dona Sebastiana acordava antes do sol nascer, acendia o fogão a lenha, passava um café forte e comia um pedaço de broa de milho que ela mesma assava duas vezes por semana.
Depois cuidava das galinhas, dava comida aos cachorros e trabalhava na pequena horta que mantinha nos fundos da casa, onde plantava couve, alface, cebolinha e algumas ervas que usava tanto para temperar a comida quanto para fazer remédios caseiros. À tarde, sentava-se na varanda em sua cadeira de balanço, fazendo crochê ou descascando alguns legumes, vendo o sol se pôr atrás das colinas.
Às vezes recebia a visita de sua amiga Lourdes, uma vizinha que morava a um quilômetro subindo o morro, ou do Zé Pequeno, o benzedor local, que sempre aparecia para um café e uma conversa sobre as coisas da comunidade. O problema começou quando Dona Sebastiana teve que ir para o hospital da cidade por causa de uma pneumonia grave. Começou com uma tosse persistente, depois veio a febre alta e a falta de ar.
Foi Maria do Carmo quem, em uma visita de rotina, encontrou a mãe ardendo em febre e chamou a ambulância do posto de saúde da cidade vizinha. Dona Sebastiana ficou internada por quase duas semanas, resistindo com a mesma força que demonstrara ao enfrentar todas as dificuldades da vida.
Os médicos chegaram a temer o pior, dada a idade avançada e a gravidade da infecção, mas, como ela mesma diria mais tarde, “ainda não era a minha hora”. Maria do Carmo quis levar a mãe para sua casa em Uberaba após a alta, para cuidar dela durante a recuperação. Mas Dona Sebastiana foi irredutível. “Meu lugar é na minha casa, com meus bichos e minhas coisas. É lá que eu me entendo.”
“Vou me recuperar direitinho”, afirmou com aquela teimosia que só os velhos têm. A filha acabou cedendo, mas deixou a amiga Lourdes encarregada de passar o dia todo na casa de Dona Sebastiana para garantir que ela estivesse bem e tomando os remédios corretamente. Quando voltou para casa após a internação, Dona Sebastiana percebeu imediatamente que algo estava errado.
A casa estava limpa, um trabalho que Maria do Carmo fizera antes de voltar para Uberaba, mas havia uma sensação estranha no ar, como se alguém tivesse ocupado o espaço durante sua ausência. E não era apenas uma sensação. Ela notou que alguém andara mexendo em suas coisas. Nada tinha sido roubado, mas tudo estava fora do lugar.
As panelas que ela guardava sempre em uma ordem específica na prateleira, as maiores atrás, as menores na frente, estavam todas trocadas. O terço de contas azuis que seu falecido marido trouxera de uma romaria a Aparecida e que ficava pendurado sobre a cabeceira da cama, estava em cima da mesa da cozinha.
Os retratos da família que enfeitavam o aparador da sala, fotos dos filhos quando pequenos, do seu casamento com… Seu neto mais velho, Juvenal, estavam todos virados para a parede, como se alguém não quisesse ser observado por aqueles olhos congelados no tempo. “Devem ter sido os moleques aqui do vilarejo aprontando alguma”, pensou ela.
E decidiu não dar importância. No vilarejo, todos se conheciam e as casas raramente ficavam trancadas. Não seria de estranhar se algum menino curioso tivesse entrado para espiar, já que a casa ficara vazia durante sua internação. A comadre Lourdes só passava uma vez por dia para dar comida aos bichos, mas não ficava muito tempo.
Dona Sebastiana colocou tudo de volta no lugar, resmungando sobre a falta de respeito da juventude de hoje, e seguiu sua vida. Estava mais fraca do que antes da doença, o que era de se esperar, e os remédios a deixavam um pouco sonolenta, mas mesmo assim insistia em manter sua rotina de sempre, ainda que em um ritmo mais lento.
Mas na primeira noite após seu retorno, Dona Sebastiana começou a ouvir barulhos estranhos na casa. Passava da meia-noite. Ela tinha certeza porque o velho relógio de parede da sala… a herança do avô, acabara de badalar quando o primeiro barulho a acordou. Pareciam passos no corredor, o som inconfundível das tábuas do assoalho rangendo sob o peso de alguém.
Depois, o arrastar de uma cadeira na cozinha. Os cachorros, que normalmente faziam uma algazarra terrível quando sentiam a presença de um estranho, estavam absolutamente silenciosos, como se estivessem com medo ou como se conhecessem o visitante. “Tem alguém aí?”, perguntou Dona Sebastiana, acendendo a lamparina de querosene que ficava ao lado de sua cama, já que a eletricidade naquela região era rara e só funcionava de vez em quando, quando a prefeitura lembrava de dar manutenção no gerador que abastecia o vilarejo.
Silêncio, apenas o sussurro do vento nas folhas secas do quintal. Ela se levantou, pegou um pedaço de pau que sempre guardava perto da cama para se defender. “Nunca se sabe quando vai precisar”, costumava dizer, e foi conferir. O chão de madeira rangia sob seus pés descalços e a lamparina projetava sombras fantasmagóricas nas paredes de adobe.
Não encontrou ninguém na sala, nem no pequeno corredor que levava aos dois quartos da casa. Mas quando chegou à cozinha, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. A cadeira da mesa de jantar, aquela que fora do seu falecido marido e na qual ninguém sentava desde a sua morte, tinha sido arrastada para o meio do cômodo, bem debaixo da lâmpada do teto, que ela nunca usava para economizar querosene.
Dona Sebastiana não era de ter medo por qualquer coisa. Tinha enfrentado muitas dificuldades na vida, incluindo uma enchente que quase levou sua casa quando os filhos ainda eram pequenos, e a morte prematura do marido, que a deixou sozinha para terminar de criar a prole. Colocou a cadeira de volta no lugar, rezou um Pai Nosso e uma Ave Maria e voltou para a cama.
“Amanhã vou pedir para o Seu Zé Pequeno vir benzer a casa”, pensou antes de pegar no sono novamente, atribuindo os barulhos estranhos a algum animal que devesse ter entrado na casa. Talvez um gambá ou um rato, ou até mesmo sua própria fraqueza após a doença que estaria causando alucinações. Na manhã seguinte, quando foi tratar dos cachorros, encontrou os dois encolhidos debaixo do…
O galpão de lenha tremia como se tivessem apanhado. Não queriam nem sair para comer. Ela teve que deixar as tigelas de comida perto deles. Os animais, que sempre foram corajosos, especialmente o Totó, que costumava enfrentar até onças que desciam do morro na época da seca, agora pareciam dois filhotes assustados. Mais tarde naquela manhã, a comadre Lourdes veio ver como Dona Sebastiana estava se recuperando.
Quando a amiga lhe contou sobre os barulhos da noite e o comportamento estranho dos cachorros, a comadre Lourdes fez o sinal da cruz e disse que chamaria o Zé Pequeno para dar uma olhada na casa. “Quando a gente adoece, fica fraca, não só do corpo, mas da aura também”, explicou a comadre Lourdes, que além de parteira também era conhecedora das coisas do invisível, como ela chamava.
“É aí que os espíritos ruins aproveitam para encostar. É bom dar uma benzida na casa e na senhora também, só por garantia.” Seu Zé Pequeno, o benzedor local, veio naquela mesma tarde. Era um homem velho, talvez até mais que Dona Sebastiana, negro de cabelos brancos cortados rente ao crânio e um cavanhaque ralo no queixo.
Conhecedor de rezas fortes e dos mistérios do além, era respeitado por todos no riacho do sapo e até nas comunidades vizinhas. Ele sempre carregava um cajado de madeira esculpida com um símbolo que ninguém sabia decifrar, e uma bolsa de couro onde guardava seus apetrechos, um galho de ruda, água benta, uma vela, a imagem de um santo e outros objetos que usava em suas benzeduras e rituais de cura.
Zé Pequeno andou por toda a casa, aspergindo água benta nos cantos e murmurando orações em voz baixa. Às vezes parava e fechava os olhos, como se estivesse ouvindo algo que ninguém mais conseguia ouvir. Quando chegou ao quarto de Dona Sebastiana, parou de repente. Seu rosto, já vincado pelos anos, ficou ainda mais sério e seus olhos se arregalaram como se tivesse visto algo terrível.
“A senhora recebeu uma visita enquanto estava no hospital”, disse ele com voz grave. “Uma visita?” “Que visita?”, perguntou Dona Sebastiana, sentindo um frio no pé do estômago. “Alguém que não é deste mundo”, respondeu o benzedor, fazendo o sinal da cruz. “E, pelo jeito, não foi embora.”
Seu Zé Pequeno explicou que, quando uma casa fica vazia por muito tempo, às vezes coisas do lado de lá aproveitam e entram. E se gostam do lugar, decidem ficar. São como visitas que não sabem a hora de ir embora. “Mas minha casa só ficou vazia por duas semanas”, protestou Dona Sebastiana, que não queria acreditar que seu lar, seu refúgio por tantos anos, pudesse estar ocupado por algo sobrenatural.
“Para nós é pouco tempo, para eles é uma eternidade”, respondeu o velho com um olhar distante que parecia ver além das paredes daquela casa simples. “E tem mais: o que veio para cá não veio por acaso. Veio porque tem alguma coisa com a senhora ou com esta casa.” Ele fez mais algumas rezas, acendeu uma vela em cada cômodo da casa e deixou uma garrafa de água benta que ele mesmo preparara especialmente com ervas colhidas na lua cheia e abençoadas na igreja da cidade.
Instruiu Dona Sebastiana a borrifar um pouco dessa água nos cantos da casa todas as noites antes de dormir, especialmente debaixo da cama e perto da janela e da porta. Deu-lhe também um rosário bento que, segundo ele, ajudaria a protegê-la durante a noite. “Se a coisa aparecer de novo”, disse ele antes de partir, “não demonstre medo.
O medo é o que eles mais gostam de sentir. Pergunte o que quer, mas não prometa nada. Não faça nenhum trato.” Dona Sebastiana agradeceu e ficou observando o velho benzedor se afastar pelo caminho de terra. Sua silhueta esguia recortada contra o céu alaranjado do entardecer. Dentro dela, misturavam-se sentimentos contraditórios. Uma parte queria acreditar que era tudo bobagem, que os barulhos tinham sido apenas fruto da imaginação de uma velha doente.
Outra parte, porém, lembrava dos retratos virados para a parede, da cadeira no meio da cozinha e dos cachorros tremendo de medo sob o parapeito da janela. Por três dias nada aconteceu. Os cachorros continuavam assustados, mas pelo menos estavam comendo normalmente e até tinham voltado a patrulhar o quintal, embora se recusassem a entrar na casa, algo que antes adoravam fazer.
Dona Sebastiana seguiu as instruções de Seu Zé Pequeno à risca, aspergindo a água benta pela casa todas as noites e dormindo com o rosário enrolado na mão. Começou a acreditar que o problema tinha sido resolvido até aquela quarta-feira. Era uma noite sem lua, com o céu encoberto que não deixava nem as estrelas aparecerem.
Uma camada espessa de nuvens baixas cobria tudo, trazendo uma escuridão quase palpável. Dona Sebastiana tinha ido para a cama mais cedo do que o habitual, pois se sentia mais cansada que o normal. “Talvez ainda seja efeito da doença”, pensou ela. No meio da noite, acordou subitamente com uma sensação estranha.
Mesmo antes de abrir os olhos, percebeu que havia alguém no quarto. Não foi um som ou um movimento que lhe deu essa certeza, mas uma presença que ela podia sentir como um peso no ar. Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, seu coração quase parou. Havia alguém sentado na beirada de sua cama. Podia ver a silhueta escura contra a janela.
Podia sentir o peso afundando o colchão de palha. Não era uma impressão, era real. “Quem está aí?”, perguntou ela, com o coração disparado, apertando o rosário na mão direita com tanta força que as contas chegavam a machucar a palma. Ninguém respondeu, mas o peso continuou ali, imóvel. E agora Dona Sebastiana podia sentir um cheiro forte no ar, um cheiro que não pertencia à sua casa limpa.
Era um cheiro de terra molhada, misturado com flores mortas, como se estivesse em um velório ou em um cemitério depois da chuva. Tentou acender a lamparina com as mãos trêmulas, mas ela caiu no chão, quebrando o vidro e apagando a pequena chama que mal começara a iluminar o quarto. Na escuridão, ouviu uma respiração.
Não era uma respiração normal; era pesada, como se a pessoa tivesse corrido muito ou estivesse com dificuldade para respirar. Um chiado estranho acompanhava cada fôlego, como o som de quem está com água nos pulmões. Um som que Dona Sebastiana conhecia bem após sua recente crise de pneumonia. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Começou a rezar em voz alta, lembrando do conselho do seu amigo Zé Pequeno para não demonstrar medo. Foi então que sentiu uma mão gélida tocar seu braço, uma mão tão fria que parecia queimar a pele, como tocar em gelo por muito tempo. Os dedos eram finos e longos, com unhas que pareciam ter crescido demais.
A mão subiu pelo braço de Dona Sebastiana, depois pelo ombro, até chegar ao pescoço. Com um grito que deve ter acordado até os mortos do cemitério vizinho, ela saltou da cama e correu para a porta. A casa estava na mais completa escuridão, mas ela conhecia cada canto após viver ali tantos anos. Atravessou o corredor às cegas, tropeçando nos próprios pés, sentindo algo a seguindo, o cheiro de terra molhada e flores mortas ficando cada vez mais forte.
Entrou na cozinha e, com as mãos trêmulas, acendeu a lamparina reserva que estava sobre a mesa. A luz fraca iluminou o cômodo, criando mais sombras do que claridade, mas foi o suficiente para Dona Sebastiana sentir seu sangue congelar. Sentada na cadeira que estava sempre fora do lugar, a cadeira de seu falecido marido, estava uma mulher, mas não era uma mulher comum.
Seus cabelos eram brancos como a neve e tão longos que chegavam ao chão, espalhando-se como uma poça de leite ao redor da cadeira. Seu rosto estava parcialmente coberto pelos fios de cabelo, mas dava para ver que era extremamente pálido, quase translúcido, como se não houvesse sangue correndo sob sua pele.
Vestia um vestido branco simples, de mangas compridas e gola alta, como os que se usavam antigamente para enterrar os mortos. As mãos descansavam no colo, aquelas mesmas mãos frias que haviam tocado Dona Sebastiana momentos antes. “O que você quer de mim?”, perguntou Dona Sebastiana, com a voz trêmula, segurando o rosário com força, lembrando da instrução de Seu Zé Pequeno para perguntar diretamente.
A figura não respondeu imediatamente, permanecendo imóvel, seu único movimento sendo a leve respiração pesada, indicando que de alguma forma impossível ela ainda vivia, se é que essa era a palavra certa. Depois do que pareceu uma eternidade, a figura levantou lentamente a cabeça. Foi então que Dona Sebastiana viu que onde deveriam estar os olhos, havia apenas duas cavidades escuras e profundas, como se tivessem sido arrancados.
Não havia sangue, apenas escuridão, um vazio tão profundo que parecia sugar toda a luz da lamparina. A boca da aparição estava costurada com o que parecia ser uma linha grossa e escura, mas alguns pontos haviam se rompido, revelando dentes apodrecidos e uma língua enegrecida. A figura apontou uma mão esquelética em direção à janela, rumo ao cemitério velho.
O dedo indicador, mais longo que o normal, tremia levemente, como se o esforço para manter o braço erguido fosse enorme. Dona Sebastiana seguiu a direção indicada pelo olhar, mas não conseguiu ver nada além da escuridão da noite lá fora. Quando voltou os olhos para a aparição, viu que ela se levantara e agora estava a apenas 1 metro de distância, o cheiro de terra e flores mortas tão forte que lhe deu vontade de vomitar.
A figura abriu a boca, rompendo mais alguns dos pontos que a mantinham fechada, em um grito silencioso que fez a luz da lamparina vacilar e quase apagar. Por um momento, Dona Sebastiana pensou ter visto algo se movendo dentro da boca aberta da aparição, como se vermes estivessem se contorcendo em sua garganta. No instante seguinte, como se nunca tivesse existido, a figura desapareceu, deixando apenas o cheiro persistente de terra úmida e flores mortas.
Dona Sebastiana caiu de joelhos no chão da cozinha, tremendo incontrolavelmente, o rosário ainda apertado na mão com tanta força que sangrava. Começou a rezar todas as orações que conhecia, uma atrás da outra, sem parar, até que sua voz ficasse rouca. Não conseguia se mexer dali. Não tinha coragem de voltar para o quarto.
Ficou sentada no chão da cozinha, encostada em uma parede, rezando e esperando o sol nascer. Lá fora, os cachorros uivavam de um jeito que nunca haviam feito antes, um som triste e arrepiante que parecia lamentar não só o que acontecera naquela noite, mas todas as dores do mundo. Assim que o dia amanheceu, Dona Sebastiana lavou o rosto com a água do poço, vestiu sua roupa mais limpa, aquela que usava para ir à missa na cidade uma vez por mês, e foi direto para a casa do Seu Zé Pequeno.
Encontrou o velho benzedor tratando de suas galinhas no quintal. Ele só precisou olhar para o rosto dela para saber que algo sério havia acontecido. “Ela voltou, não foi?”, perguntou ele, conduzindo Dona Sebastiana para dentro de sua casa simples, mas muito limpa e organizada. Dona Sebastiana contou tudo em detalhes minuciosos.
O peso na cama, a mão fria, a mulher na cozinha com os olhos arrancados e a boca costurada, o dedo apontando para o cemitério. Zé Pequeno ouviu tudo em silêncio, balançando a cabeça de vez em quando, como se confirmasse algo que já sabia. “Ela está pedindo ajuda”, disse ele finalmente depois que Dona Sebastiana terminou sua história. “Ajuda?” “Como posso ajudar alguém que já morreu?”, perguntou Dona Sebastiana, confusa e ainda assustada. “Algumas almas ficam presas neste mundo quando têm assuntos inacabados”, explicou o benzedor, acendendo seu cachimbo de barro e soltando uma nuvem de fumaça perfumada. Eu argumentei. Algo não resolvido na vida precisa ser resolvido após a morte para que a alma possa seguir sua jornada.
“E o que ela quer de mim? Eu nem sei quem ela é.” “A senhora não sabe, mas a casa sabe”, respondeu Seu Zé Pequeno de forma enigmática. “As paredes têm memórias, o chão lembra cada passo, e às vezes o passado e o presente se encontram no mesmo lugar.” Naquela mesma tarde, Seu Zé Pequeno e Dona Sebastiana foram ao cemitério abandonado. Não era um lugar grande.
Córrego do Sapo sempre fora um vilarejo pequeno, mas estava em um estado de conservação terrível. Era um lugar triste, com cruzes tortas, algumas de madeira já apodrecidas pelo tempo, outras de ferro enferrujado. O mato crescia alto por toda parte, escondendo muitas das sepulturas antigas. E a maioria das lápides estava quebrada ou coberta de musgo.
Andaram entre as covas, procurando, mas pelo quê? Não sabiam exatamente. Zé Pequeno disse que reconheceriam quando encontrassem, o que não ajudava muito. Dona Sebastiana estava ficando cada vez mais nervosa, olhando constantemente por cima do ombro, como se esperasse ver a aparição da noite anterior ali entre as túmulos também.
Foi então que ela sentiu aquele mesmo cheiro de terra molhada e flores mortas. Era inconfundível. Seguiu o cheiro como um cão de caça segue um rastro, com Zé Pequeno logo atrás. O odor os levou a um canto isolado do pequeno cemitério, onde o capim estava mais alto que em qualquer outro lugar, chegando à cintura de Dona Sebastiana.
Ali, quase totalmente coberta pela vegetação, estava uma sepultura. Diferente da maioria no cemitério, não tinha cruz, apenas uma lápide de pedra rachada ao meio. O mato tinha crescido sobre parte da lápide, mas parte do nome ainda era legível. “Maria das Dores”, completou Zé Pequeno, que conhecia todas as famílias antigas da região.
Seu rosto ficou ainda mais sério, quase preocupado. “Eu me lembro dela. Morreu há mais de 50 anos. Era uma moça bonita, diziam, até se casar com o Tonico Ferreira, um homem violento que bebia demais.” “O que aconteceu com ela?”, perguntou Dona Sebastiana, sentindo um calafrio percorrer sua espinha, apesar do calor da tarde.
“Foi assassinada pelo marido”, respondeu o benzedor, abaixando-se para limpar um pouco do mato que cobria a lápide. “Ele a matou em uma noite de bebedeira. Dizem que foi por ciúmes, e depois ele fugiu. Nunca encontraram o corpo dele. Alguns dizem que ele foi para o sul, outros que morreu no caminho. Ninguém mais teve notícias.”
Dona Sebastiana sentiu um arrepio. “Por que ela está me procurando?” “Talvez porque a senhora vive na casa que foi dela!”, respondeu o benzedor. Foi como se um raio tivesse atingido Dona Sebastiana. É claro, a casa onde ela morava era muito antiga, tinha sido construída muito antes dela nascer.
Tinha pertencido a várias famílias antes de seu marido comprá-la logo após o casamento. Ele nunca tinha perguntado quem eram os donos anteriores, e o que tinha acontecido com eles. “Quer dizer que minha casa foi onde ela morreu?”, perguntou ela, sentindo um nó na garganta. “É provável”, confirmou Zé Pequeno. “E se minha suspeita estiver certa, o marido dela também.”
“Como assim? Não disse que ele fugiu?” “Isso foi o que disseram na época. Mas às vezes o que se diz não é exatamente o que aconteceu.” “O que fazemos agora?”, perguntou ela, olhando apreensiva para a cova abandonada. “Primeiro vamos limpar a sepultura dela, mostrar respeito, depois acender uma vela e rezar. Depois a senhora terá que falar com ela, perguntar o que ela quer.”
E assim fizeram. Passaram o resto da tarde limpando o túmulo abandonado de Maria das Dores. Arrancaram o mato, varreram as folhas secas, consertaram a cruz caída e acenderam uma vela. Zé Pequeno fez uma reza fervorosa, pedindo paz para a alma atormentada de Maria das Dores.
Dona Sebastiana juntou-se às preces, sentindo uma mistura de medo e pena daquela mulher que morrera de forma tão violenta e agora vagava sem descanso. Quando terminaram, já estava escurecendo. No caminho de volta, Seu Zé Pequeno explicou o que Dona Sebastiana deveria fazer. “Ela vai voltar esta noite. É tão certo quanto o sol nascer amanhã.”
“Quando ela aparecer, a senhora deve manter a calma. Pergunte o que ela quer. Se for o que eu estou pensando, ela vai indicar onde está enterrado o corpo do marido. Se for o caso, prometa ajudar a encontrá-lo, mas não demonstre medo, entende? O medo alimenta essas coisas.” Naquela noite, Dona Sebastiana voltou para casa com o coração pesado.
Sabia que ia receber outra visita e, apesar dos conselhos de Zé Pequeno, não conseguia deixar de sentir medo. Preparou-se da melhor forma possível. Acendeu velas em todos os cômodos e colocou um copo de água sobre a mesa da cozinha. Zé Pequeno dissera que as almas atormentadas têm sempre sede.
Espalhou o galho de ruda pelos cantos da casa e sentou-se na cozinha para esperar. Os cachorros que normalmente dormiam sob a varanda estavam inquietos. Primeiro começaram a latir sem parar, depois passaram a uivar como lobos e, finalmente, correram para se esconder nos fundos do quintal, sob o beiral, tremendo como se tivessem apanhado.
Bem à meia-noite, os cachorros começaram a uivar de um jeito de gelar o sangue, um som tão triste e aterrorizante que não parecia vir de um animal, mas sim de alguma criatura das profundezas. Logo depois, aquele cheiro familiar encheu a casa: terra molhada e flores mortas. Dona Sebastiana, sentada na cozinha com o rosário nas mãos, viu a água no copo começar a girar, como se estivesse fervendo, embora estivesse fria ao toque.
E então ela apareceu, a mesma mulher da noite anterior, com o vestido branco de defunto, os longos cabelos brancos de leite espalhados pelo corpo e buracos negros no lugar dos olhos. Ficou parada no portal da cozinha, as mãos cruzadas sobre o peito, como era o costume ao preparar os mortos para o enterro.
“Maria das Dores”, disse Dona Sebastiana na voz mais firme que conseguiu, embora seu coração estivesse batendo tão forte que parecia querer pular do peito. “O que você quer de mim?” A aparição ficou imóvel por um longo momento, como se decidisse se respondia ou não. Depois, lentamente, levantou um braço e apontou para o chão da cozinha, bem no canto perto do fogão a lenha.
“Tem alguma coisa enterrada ali?”, perguntou Dona Sebastiana, começando a entender. A figura assentiu afirmativamente, um movimento lento e mecânico, como uma boneca de porcelana movida por fios invisíveis. “O que é? O corpo do seu marido?” Outro aceno, mais enérgico desta vez, fazendo os fios de cabelo branco flutuarem ao redor do rosto sem olhos.
Dona Sebastiana engoliu seco, sentindo um calafrio percorrer sua espinha. “Está lá embaixo, no chão da minha cozinha.” A aparição assentiu mais uma vez e então, pela primeira vez, falou. Sua voz era como o vento passando pelas folhas secas, quase inaudível, um sussurro que parecia vir de muito longe. “Justiça!” A palavra pairou no ar como fumaça e, junto com ela, veio um frio intenso que embaçou o vidro da lanterna e fez a chama da vela vacilar.
Dona Sebastiana viu sua própria respiração formar nuvens de condensação, como se fosse o auge do inverno e não o calor do fim de outono. “Eu vou te ajudar”, prometeu Dona Sebastiana, lembrando do conselho de Zé Pequeno. “Vou chamar as autoridades amanhã. Vou garantir que encontrem seu marido e deem a ele um enterro digno.” A aparição pareceu satisfeita com a promessa, inclinando a cabeça levemente em um gesto que parecia ser de gratidão.
Então, como na noite anterior, simplesmente desapareceu, deixando para trás apenas o cheiro característico e uma temperatura gélida que levou horas para se dissipar. Dona Sebastiana não conseguiu dormir o resto da noite. Ficou sentada na cozinha, olhando fixamente para o canto que a aparição indicara, imaginando que debaixo daquele piso de cimento bruto jazia o corpo do assassino de Maria das Dores, enterrado por décadas.
No dia seguinte, assim que o sol nasceu, Dona Sebastiana foi até a venda do Seu Gumercindo, o único lugar do vilarejo que tinha telefone. Pediu que ele chamasse o delegado da cidade mais próxima. O delegado, Jeremias, era um homem de meia-idade com fama de justo, embora fosse cético em relação a histórias de fantasmas.
Mesmo assim, ele veio, mais por respeito a Dona Sebastiana, que era conhecida como uma mulher séria e honesta, do que por acreditar na história. “A senhora tem certeza disso?”, perguntou o oficial quando ela explicou a situação. Estavam na cozinha de Dona Sebastiana, olhando para o canto perto do fogão a lenha.
“Vai ter que quebrar o chão da sua cozinha. E se eu não encontrar nada?” “Eu tenho certeza”, respondeu ela com firmeza. “E se não encontrar nada, eu mesma conserto depois. Mas vamos encontrar.” Com a ajuda de dois auxiliares que tinham vindo junto, o delegado começou a quebrar o piso de cimento bruto no canto indicado por Dona Sebastiana.
Era um trabalho duro e logo o suor escorria pelo rosto dos homens. Não precisaram cavar muito fundo. Logo após remover a camada de cimento, começaram a encontrar ossos. Ossos humanos. O oficial ordenou que parassem imediatamente e seguiram o procedimento correto. Chamou mais gente da cidade, incluindo o perito legista.
Foi um alvoroço no pequeno vilarejo. Nunca nada parecido tinha acontecido por ali. Todos queriam ver o que estava acontecendo na casa de Dona Sebastiana. A notícia espalhou-se rapidamente pela região. O corpo encontrado na casa de Dona Sebastiana era mesmo o de Tonico Ferreira, o marido de Maria das Dores, que todos pensavam ter fugido após matar a esposa.
Os antigos da comunidade relembraram a história após matar Maria das Dores por ciúmes. Ele achava que ela o traía com um mascate que passava pela região vendendo tecidos e quinquilharias. Tonico simplesmente desapareceu. Agora sabiam que ele nunca tinha saído daquela casa. A teoria do delegado, após analisar os ossos com a ajuda de um especialista da capital, era que Tonico fora morto logo após assassinar a esposa, provavelmente por algum parente dela que fez justiça com as próprias mãos.
Um exame mais detalhado revelou uma fratura no crânio, indicando que ele sofrera um golpe violento na cabeça. O assassino, quem quer que fosse, enterrou o corpo ali mesmo e espalhou a história de que Tonico tinha fugido. Os ossos foram levados para a cidade e enterrados no cemitério novo, seguindo todos os trâmites legais.
Dona Sebastiana insistiu em comparecer ao enterro, embora nunca tivesse conhecido Tonico Ferreira. Durante a cerimônia simples, observou tudo com expressão séria, rezando baixinho pela alma daquele homem, apesar de ele ter sido um assassino em vida. Naquela mesma noite, ela estava sentada na cozinha, que agora tinha um piso novo instalado pela prefeitura, quando sentiu aquele cheiro familiar de terra úmida e flores mortas. Não sentiu medo.
Sabia quem era. A aparição de Maria das Dores surgiu uma última vez, mas agora estava diferente. O buraco negro onde deveriam estar os olhos fora substituído por olhos normais, de um castanho escuro profundo. Sua boca não estava mais costurada e os lábios, antes roxos, agora tinham uma cor mais natural.
Seus cabelos continuavam brancos, mas não pareciam mais tão desgrenhados. E havia um leve sorriso nos lábios, algo que Dona Sebastiana nunca vira antes. “Obrigada”, disse ela, sua voz como o vento sussurrando entre as folhas, mas agora um pouco mais clara, mais presente. “Vá em paz”, respondeu Dona Sebastiana, também sorrindo.
A aparição deu um leve aceno com a cabeça, como se se despedisse de uma velha amiga, e começou a tornar-se transparente, desaparecendo aos poucos como neblina ao sol da manhã. O cheiro de terra úmida e flores mortas foi substituído por um aroma suave de rosas frescas que permaneceu na casa por vários dias. Depois daquele episódio, Dona Sebastiana nunca mais foi incomodada por qualquer presença sobrenatural.
Os cachorros voltaram ao normal, voltando a entrar na casa e dormindo aos pés de sua cama, como faziam antes. As coisas pararam de mudar de lugar. E as noites voltaram a ser tranquilas naquela casinha no final da estrada de terra. Dona Sebastiana viveu ali por muitos anos mais. Recuperou-se totalmente da pneumonia e voltou a ter o bom humor de antes.
Seus filhos, especialmente Maria do Carmo, continuavam insistindo para que ela se mudasse para a cidade, mas ela sempre recusava. “Esta terra me conhece e eu conheço ela”, dizia. “Não tenho mais medo de nada aqui.” Sempre que alguém perguntava sobre a história do corpo encontrado em sua cozinha e da aparição de Maria das Dores, ela contava tudo em detalhes minuciosos, sem esconder nada.
Inicialmente, alguns duvidaram, achando que era apenas história de “velha caduca”, mas o fato de o corpo ter sido realmente encontrado dava credibilidade ao seu relato. Com o tempo, muita gente da região começou a visitar o túmulo de Maria das Dores no cemitério velho, que foi totalmente restaurado pelos moradores locais. Até uma pequena capela foi construída ali perto, onde as pessoas iam acender velas e fazer pedidos.
A história ganhou fama além do riacho do sapo. Pessoas de cidades vizinhas vinham especialmente para conhecer Dona Sebastiana e ouvir a história diretamente dela. Um jornalista de um jornal da capital chegou a aparecer uma vez para fazer uma matéria, mas ela recusou. “Não quero aparecer no jornal”, disse ela. “Só quero que a história da Maria das Dores não seja esquecida.”
Anos depois, quando Dona Sebastiana já beirava os 90 anos, mas ainda lúcida e ativa, o ex-delegado Jeremias, agora aposentado, veio visitá-la. Depois de tomarem um café e relembrarem o caso, ele confessou algo que nunca contara a ninguém. “Sabe, Dona Sebastiana, eu sempre fui um homem da ciência, não acreditava nessas coisas de assombração.”
“Mas naquela noite, depois que levamos o corpo do Tonico Ferreira, eu voltei aqui sozinho para buscar uma pasta que tinha esquecido. Quando entrei, vi uma mulher de vestido branco parada na sua cozinha. Pensei que fosse a senhora, mas quando ela se virou, não tinha olhos, apenas dois buracos escuros.” Dona Sebastiana sorriu sem surpresa. “Era ela se despedindo.”
Dizem que até hoje, quem passa pela estrada perto da casa de Dona Sebastiana, que faleceu há anos, mas cuja casa foi preservada pelos filhos como uma espécie de memorial, às vezes a vê à meia-noite, especialmente em noites sem lua. Uma mulher de vestido branco caminha em direção ao cemitério. Ela nunca olha para ninguém, nunca fala, apenas segue seu caminho com passos leves, como se mal tocasse o chão.
E quem a vê sente um perfume suave de rosas no ar. O caso da aparição de Maria das Dores e do corpo encontrado na casa de Dona Sebastiana tornou-se um dos contos mais famosos da região. É contado de geração em geração, em volta de fogueiras nas festas juninas ou em noites de apagão, quando a escuridão deixa as pessoas mais receptivas a histórias do outro mundo.
Até o delegado Jeremias, que era tão cético, nunca mais duvidou de histórias de fantasmas depois daquele dia. Tornou-se mais respeitoso com as crenças populares e, dizem, passou a levar flores regularmente ao túmulo de Maria das Dores até o fim de sua vida. E Dona Sebastiana, sempre que contava essa história, terminava com a mesma frase: “Os mortos só querem descanso.”
“Às vezes, para conseguir isso, eles precisam da nossa ajuda para obter a justiça que não conseguiram em vida. É nosso dever ajudar, porque um dia nós também vamos precisar de descanso.” No sertão de Goiás, escondido entre colinas cobertas de capim dourado e cerrados densos, o pequeno vilarejo de Riacho das Pedras vivia em harmonia com o ritmo lento do campo.
A chuva acabara de parar naquela primavera de 1976, deixando tudo verdejante e o ar carregado com o aroma de terra úmida e flores silvestres. Era um lugar onde todos se conheciam, onde as portas ficavam destrancadas e onde os barulhos mais altos eram o canto dos pássaros e o mugido ocasional de uma vaca. Dona Clotilde era a moradora mais antiga do vilarejo.
Ninguém sabia ao certo quantos anos ela tinha. Alguns diziam que passava dos 90, outros achavam que era mais. Mas a própria Clotilde apenas sorria quando questionada, mostrando as gengivas onde restavam apenas três dentes frontais amarelados. “Já perdi a conta”, respondia com uma voz que parecia o sussurro de folhas secas no chão. Vivia sozinha em uma casa de adobe no topo de uma colina, de onde podia ver todo o vilarejo.
Era uma construção antiga, com uma janela pequena, telhado de palha e chão de terra batida. Um caminho de pedras levava da estrada principal até lá, serpenteando entre árvores retorcidas e arbustos espinhosos. Poucas pessoas ousavam subir até a casa de Dona Clotilde, não pela dificuldade do caminho, mas pelas histórias que contavam sobre ela.
Diziam que Clotilde era uma curandeira, uma mulher que conhecia os segredos das ervas e sabia fazer remédios que curavam desde dor de dente até mau-olhado. Mas também sussurravam, sempre olhando por cima do ombro para garantir que ninguém estava ouvindo, que ela fizera um pacto com o diabo e que em noites de lua cheia saía nua para dançar com os demônios no meio da mata.
A maioria dessas conversas era bobagem, claro, inventada por gente que não tinha muito o que fazer além de especular sobre a vida alheia. A verdade era que Dona Clotilde conhecia mais sobre as plantas e suas propriedades do que qualquer pessoa em um raio de 100 km. Quando os médicos da cidade grande não conseguiam resolver um problema, era para lá que o povo se voltava.
E ela nunca negava ajuda, mesmo aos que falavam mal dela pelas costas. Tudo corria bem no seu ritmo pacato até o dia em que a família Mendonça chegou ao Riacho das Pedras. Diziam que vinham da capital, fugindo da agitação da cidade grande. O pai, Euclides Mendonça, comprara uma propriedade que fazia divisa com a de Dona Clotilde.
Era uma terra boa, com água abundante e solo fértil. Os antigos donos a venderam barato após a morte súbita do patriarca da família. Disseram que fora problema de coração, mas os mais supersticiosos alegavam que fora feitiçaria, porque o homem nunca tivera problemas de saúde antes. A família Mendonça — Euclides, sua esposa Lourdes e seus dois filhos adolescentes, Marcelo e Sandra — rapidamente se instalou e começou a preparar a terra para o plantio.
Eram pessoas trabalhadoras e logo conquistaram a simpatia dos moradores do vilarejo, exceto de Dona Clotilde. Desde o primeiro dia, quando os Mendonças chegaram em um jipe empoeirado e barulhento, Dona Clotilde observou tudo de sua varanda no alto da colina, balançando a cabeça negativamente. Quando o Seu Antônio, dono da venda, perguntou o que ela achava dos novos vizinhos, ela simplesmente respondeu: “Eles não deveriam ter voltado.”
Ninguém entendeu o que ela quis dizer com aquilo. Voltado de onde? Era a primeira vez que a família Mendonça pisava no Riacho das Pedras. Mas logo as pessoas notaram que Dona Clotilde se recusava a ter qualquer contato com a família recém-chegada. Quando Lourdes Mendonça subiu a colina para se apresentar e levar uma broa de milho de presente, Dona Clotilde nem sequer abriu a porta, embora todos soubessem que ela estava em casa.
Duas semanas após a chegada da família Mendonça, eventos estranhos começaram. Primeiro, suas galinhas foram encontradas mortas pela manhã, todas com o pescoço torcido, formando um círculo perfeito no meio do quintal. Não faltava nenhuma. Logo, não fora um animal tentando comê-las. Parecia mais um ritual.
“Deve ter sido uma raposa”, disse Seu Antônio quando Euclides mencionou o incidente na venda. “Uma raposa que coloca galinhas mortas em círculo?”, questionou Euclides, balançando a cabeça. “Eu nunca vi nada igual.” No dia seguinte, o cavalo da família Mendonça, um garanhão alazão forte que trouxeram da capital, apareceu morto no pasto.
Não tinha marcas no corpo, nenhuma ferida visível. Era como se tivesse simplesmente parado de viver. “Pode ter sido cobra”, sugeriu a comadre Josefa, que conhecia bichos peçonhentos. “Algumas picadas mal deixam marca.” Euclides não pareceu convencido, mas aceitou a explicação. O que mais poderia ser? Então veio a primeira noite de lua cheia após a chegada dos Mendonças.
Lourdes acordou no meio da noite com uma sensação estranha. Havia um barulho lá fora, como se alguém estivesse andando no quintal. Foi até a janela e espiou. O que viu fez seu sangue congelar. Uma figura estava parada no meio do quintal, olhando diretamente para a casa. Era uma mulher velha, magra, vestindo um vestido branco esvoaçante.
Mesmo de longe, Lourdes reconheceu Dona Clotilde. Mas algo estava errado. A velha parecia diferente, mais alta, talvez. E o que eram aquelas coisas se movendo ao redor dela na escuridão? Lourdes acordou o marido, mas quando Euclides chegou à janela, o quintal estava vazio. Ele disse que devia ter sido um sonho, ou quem sabe algum animal que Lourdes confundira na escuridão, mas ela tinha certeza do que vira.
Na manhã seguinte, descobriram que toda a plantação que haviam iniciado — milho, feijão, mandioca — estava destruída. As plantas tinham sido arrancadas e espalhadas pelo campo, com as raízes para cima, como se uma mão gigante tivesse revirado a terra. Euclides foi até a delegacia da cidade vizinha dar queixa. O delegado prometeu investigar, mas sem muita convicção.
“Deve ser vandalismo de algum moleque”, disse ele. “Ou talvez alguém que não gostou de vocês comprarem aquela terra.” Foi então que Sandra, a filha dos Mendonças, começou a se comportar de maneira estranha. A menina, que sempre fora alegre e falante, agora passava horas em silêncio olhando para o nada. Vagava pela casa no meio da noite, dizendo que uma velha tinha entrado no seu quarto e ficara ali no pé da cama, só observando.
Quando perguntavam quem era a velha, Sandra apontava para o topo da colina, onde ficava a casa de Dona Clotilde. Preocupada com a filha, Lourdes levou a menina para a cidade grande para ver um médico. Ele diagnosticou estresse devido à mudança, receitou um calmante e a mandou de volta para casa.
Mas Sandra não melhorou; pelo contrário, começou a emagrecer rapidamente, como se algo estivesse sugando sua energia. Uma noite, Marcelo, o filho mais velho, voltava de uma festa no vilarejo quando viu algo que o deixou paralisado de medo. Na estrada entre o vilarejo e a fazenda, havia uma encruzilhada marcada por uma figueira grande.
Era um lugar que sempre dava arrepios, mesmo de dia. E lá, debaixo da figueira, estava Dona Clotilde, ajoelhada no chão. Marcelo se escondeu atrás de um arbusto e observou. A velha parecia estar desenhando algo no chão com um pedaço de carvão. De vez em quando murmurava palavras que ele não conseguia entender.
Ao redor dela, no chão, havia pequenos embrulhos de pano amarrados com linha vermelha. De repente, Dona Clotilde parou o que estava fazendo e virou lentamente a cabeça na direção onde Marcelo estava escondido. Mesmo na escuridão, ele sentiu que ela podia vê-lo perfeitamente. Um sorriso se formou no seu rosto enrugado, revelando aqueles três dentes frontais amarelados.
Sem pensar duas vezes, Marcelo saiu correndo e só parou quando chegou em casa, ofegante e suando frio. Quando contou ao pai o que vira, Euclides franziu a testa. “Já chega”, disse ele, batendo o punho na mesa. “Vou acabar com essa história hoje mesmo.” Pegou a espingarda que mantinha para caçar e seguiu em direção à casa de Dona Clotilde, ignorando os apelos da esposa para não fazer nada precipitado.
Marcelo quis ir junto, mas o pai ordenou que ficasse cuidando da mãe e da irmã. Euclides não voltou naquela noite, nem na manhã seguinte. A família desesperada reuniu alguns homens do vilarejo e foi à sua procura. Seguiram o caminho até a casa de Dona Clotilde, mas quando chegaram, encontraram a porta aberta e a casa vazia.
Não havia sinal da velha, nem de Euclides. Vasculharam tudo, cada canto da propriedade. Nos fundos da casa encontraram uma horta bem cuidada, com todo tipo de ervas medicinais. E atrás da horta, quase escondido entre árvores altas, havia um terreno circular onde a terra parecia ter sido mexida recentemente.
“Parece que alguém andou cavando aqui”, disse um dos homens, fincando o pé na terra fofa. Não precisaram cavar muito para descobrir o horror que jazia ali enterrado. Primeiro apareceram ossos humanos, depois pedaços de roupas apodrecidas. Não era apenas um corpo, mas vários enterrados ao longo dos anos.
Homem, mulher, criança, impossível dizer quantos. O cheiro era terrível, uma mistura de decomposição e algo mais, algo químico. “Meu Deus!”, murmurou o velho Antônio, fazendo o sinal da cruz. O que aquela mulher andava fazendo aqui na parede interna da casa, atrás de um armário pesado que tiveram que mover? Encontraram algo ainda mais perturbador.
Era uma espécie de altar decorado com velas pretas, ossos pequenos, alguns que pareciam ser de dedos humanos, e fotografias, muitas fotografias amareladas pelo tempo. E entre elas, surpresa das surpresas, estava uma foto antiga da família Mendonça. Não era a família atual, claro, era de outra geração, talvez o avô ou bisavô de Euclides.
Na foto, um homem de bigode imponente estava ao lado de uma mulher de expressão séria e três crianças bem vestidas. Atrás da foto, uma data, 1902, e os nomes: Família Mendonça, Fazenda Esperança. Fazenda Esperança era o nome antigo da propriedade que Euclides comprara, explicou o Seu Antônio, antes de se tornar Fazenda São Jorge.
Enquanto os homens absorviam essa informação chocante, ouviram um grito vindo de fora. Correram para ver o que era e encontraram um dos rapazes que tinha ido fazer buscas nos arredores. Ele estava pálido e tremia da cabeça aos pés. “Achei, achei o Seu Euclides”, gaguejou ele, apontando para o pomar de mangueiras, que ficava a uns 200 metros da casa.
O que encontraram lá foi uma cena que assombraria seus pesadelos pelo resto da vida. Euclides estava pendurado de cabeça para baixo em uma mangueira velha, amarrado pelos tornozelos. Seu corpo estava completamente exangue, sem uma gota de sangue, branco como papel. E abaixo dele, no chão, havia um grande cocho de madeira, daqueles usados para alimentar porcos, cheio até a borda com um líquido vermelho escuro.
“O sangue dele”, murmurou alguém. Ela colheu todo o sangue. Não havia sinal de Dona Clotilde em lugar nenhum. Procuraram por toda parte, na mata, nas fazendas vizinhas, no vilarejo. Nada. Era como se a terra a tivesse engolido por inteiro. Eventualmente, a polícia da capital chegou, fez a perícia e levou os corpos.
A conclusão oficial foi de que Dona Clotilde era uma assassina em série que matara dezenas de pessoas ao longo de décadas e que agora fugira. Mas o povo de Riacho das Pedras sabia que a história era mais complicada. Depois de muita conversa e investigação própria, juntando fragmentos de histórias antigas contadas pelos velhos, descobriram a verdade, ou pelo menos o que acreditavam ser a verdade.
Em 1902, a família Mendonça era uma das mais poderosas da região. Tinham vindo do Nordeste e comprado grandes extensões de terra, incluindo áreas que os moradores locais consideravam sagradas. Uma dessas áreas era justamente onde Dona Clotilde vivia, um lugar que os indígenas da região usavam para rituais muito antes do homem branco chegar.
Segundo os relatos, a família Mendonça expulsou os habitantes originais dessas terras, usando a violência quando necessário. Muitos morreram resistindo, outros foram embora. Entre eles, uma menina indígena de apenas 10 anos, que presenciou seus pais serem assassinados pelos capangas dos Mendonça quando tentavam defender seu pedaço de chão.
Aquela menina, diziam, jurou vingança. Desapareceu na mata e só retornou muitos anos depois. Já uma mulher feita, conhecedora das ervas e dos rituais, que aprendera vivendo com tribos mais distantes, instalou-se discretamente no topo da colina e começou seu plano de vingança contra a família Mendonça.
Primeiro causou doenças no gado, depois fez as plantações murcharem misteriosamente. Por fim, começou a levar os membros da família, um por um. Não todos de uma vez, isso chamaria atenção demais, mas ao longo dos anos foi eliminando toda a linhagem, fazendo parecer acidente ou doença súbita. O último dos Mendonça originais fugiu da região em 1945, jurando nunca mais voltar.
E assim ficou por mais de 30 anos, até que Euclides, o bisneto daquele Mendonça da foto, sem saber da história da família na região, resolveu voltar às raízes e comprou a antiga propriedade da família para Dona Clotilde, ou fosse qual fosse o seu nome real, pois ninguém mais acreditava que ela fosse quem dizia ser.
Aquilo foi como atiçar um fogo que estava quase apagando. A vingança que ela acreditava ter completado agora tinha um novo capítulo, e ela não perdeu tempo. O que ninguém conseguia explicar era a idade de Dona Clotilde. Se a história fosse verdade, ela teria bem mais de 100 anos. Alguns diziam que o pacto com o diabo a mantinha viva.
Outros acreditavam que não era a mesma pessoa, mas talvez a filha ou neta daquela menina original, que continuara a missão de vingança da família. Depois que a polícia terminou as investigações e foi embora, Lourdes Mendonça vendeu a propriedade pelo primeiro preço que ofereceram e voltou para a capital com os filhos.
Sandra, a menina, nunca mais foi a mesma. Continuou tendo pesadelos e, segundo relatos, até hoje acorda gritando no meio da noite, falando de uma velha que está parada no pé de sua cama. A casa de Dona Clotilde no alto da colina foi demolida e o terreno onde os corpos foram encontrados foi cercado e deixado intocado, já que ninguém quis construir ou plantar nada ali.
Com o tempo, o mato tomou conta, escondendo as cicatrizes daquela terra manchada de sangue. Mas a história não termina aí. Um ano após os acontecimentos, o Seu Antônio estava fechando sua venda quando viu uma figura familiar caminhando pela estrada principal do vilarejo. Era uma mulher velha, magra, vestindo um vestido branco esvoaçante.
Seu coração quase parou ao reconhecer Dona Clotilde. Ela olhou diretamente para ele, sorriu, mostrando aqueles três dentes amarelados, e depois seguiu seu caminho em direção à colina. Seu Antônio correu para contar aos outros, mas ninguém acreditou. “Você bebeu demais”, diziam. “Está vendo fantasma.” Mas ele não foi o único.
Nos meses e anos seguintes, vários moradores relataram ter visto Dona Clotilde caminhando pela região, sempre à noite, sempre sozinha. Alguns diziam que ela aparecia especialmente quando alguma nova família tentava se instalar na antiga propriedade dos Mendonça, que ficou conhecida como terra amaldiçoada pelos locais. Nenhum dono conseguia parar lá por muito tempo.
Ou desistiam após uma série de infortúnios, ou morriam em circunstâncias misteriosas. Hoje, a antiga fazenda São Jorge, ou fazenda Esperança como era chamada antigamente, está abandonada e coberta pelo mato. O vilarejo de Riacho das Pedras cresceu, tornou-se um distrito e tem até posto de saúde e escola nova. Mas uma coisa não mudou.
Ninguém sai de casa em noite de lua cheia. E se por acaso precisar sair, evita passar perto da encruzilhada da figueira ou olhar para o topo da colina. Porque dizem que em noites assim, quando a lua está redonda e brilhante no céu, é possível ver uma silhueta solitária no topo do morro, onde ficava a casa de Dona Clotilde.
Uma mulher idosa e magra, de vestido branco esvoaçante, olhava fixamente para o vale lá embaixo, como se esperasse que alguém voltasse. Os antigos da região ensinam aos mais novos a nunca, jamais, mencionarem o nome Mendonça em voz alta após o pôr do sol. “Nomes têm poder”, dizem eles. “E há pessoas que, mesmo na morte, continuam ouvindo.”
E todo mês, sem falta, alguém deixa uma oferenda na entrada da antiga propriedade onde ficava a casa de Dona Clotilde. Uma vela, uma flor, às vezes comida ou bebida. Não por devoção ou carinho, mas por medo. Medo de que, se for esquecida, ela resolva se fazer lembrar.
As autoridades da cidade grande riem dessas superstições de “povo da roça”, como chamam. Explicam que Dona Clotilde foi apenas uma assassina comum que provavelmente morreu fugindo pela mata fechada. Mas quem nasce e se cria no Riacho das Pedras sabe que a verdade é mais complicada, porque há coisas que acontecem no sertão que a ciência da cidade grande não explica.
E quando o vento assobia nas árvores da colina em noite de lua cheia, os moradores mais antigos juram que é possível ouvir, misturado ao sussurro das folhas, uma risada fina e aguda e o som de três dentes batendo uns nos outros, como se alguém estivesse mastigando algo duro, algo como osso. Na região do Vale do Ribeira, entre São Paulo e Paraná, existe um pequeno vilarejo chamado São Bento do Brejo Grande, que nem aparece direito nos mapas.
É um punhado de casas espalhadas ao longo de uma estrada de terra que serpenteia entre um morro coberto de mata fechada e uma área de pântano. Terra boa para quem sabe trabalhar nela, mas difícil para quem não conhece os segredos do lugar. Foi ali, por volta de 1992, que aconteceu esta história, quando ainda não havia luz elétrica direito naquela área, apenas um gerador velho que funcionava das 18h até as 22h, quando o combustível acabava e tudo mergulhava em uma escuridão tão densa que dava para cortar com uma faca.
Dona Antônia vivia em uma casinha simples no final da estrada principal, bem na divisa onde começava o brejo. Era uma construção de madeira feita sobre palafitas, como era o costume na região, para evitar que a água invadisse em épocas de cheia. A casa tinha três cômodos pequenos: um quarto, uma sala que também servia de cozinha e uma dispensa nos fundos onde ela guardava suas coisas de valor.
Uma varanda larga cercava a frente e uma das laterais, onde ela colocava uma velha cadeira de balanço para contemplar o pôr do sol, refletindo-se nas águas paradas do brejo. Ninguém sabia ao certo a idade de Dona Antônia. Ela mesma dizia que passava dos 60, mas havia gente na comunidade que jurava que ela era muito mais velha.
Seu corpo era pequeno e curvado pelos anos, o rosto marcado por rugas profundas que pareciam contar uma história sem precisar de palavras. No entanto, eram os olhos que mais chamavam a atenção, de um verde-claro, quase transparentes, como água de riacho raso, olhos que pareciam enxergar além do que os outros viam. Dona Antônia vivia sozinha desde que o marido, Seu Tibúrcio, desaparecera nas águas do brejo 15 anos antes.
Ele saíra para pescar em uma noite de lua cheia e nunca mais voltou. Encontraram apenas o barco virado, preso em um galho perto da margem, e o chapéu de palha que ele sempre usava. O corpo nunca foi encontrado, o que não era incomum. O brejo era profundo e com vegetação densa, se alguém se afogasse ali, raramente era achado.
O casal não tivera filhos próprios, mas criara um sobrinho órfão, Juvêncio, que agora morava na cidade grande e vinha visitar a tia duas ou três vezes por ano. Mas Dona Antônia se virava sozinha, plantando uma pequena horta nos fundos de casa, criando algumas galinhas e vendendo ervas medicinais que colhia no brejo e na mata.
Era conhecida em toda a região pelos seus remédios caseiros e chás que curavam desde dor de cabeça até problemas mais sérios, como reumatismo e pressão alta. O povo respeitava Dona Antônia. Alguns tinham até um pouco de medo. Sussurravam que ela tinha um dom. Sabia de coisas que os outros não sabiam; previa acontecimentos.
Às vezes parecia que estava conversando com pessoas que não estavam lá, mas ninguém duvidava que ela fosse uma pessoa boa. Nunca negava ajuda a quem batesse na sua porta, fosse dia ou fosse noite. A tranquilidade daquele lugar foi quebrada quando começaram as obras da estrada nova. O governo decidira construir uma rodovia que ligaria dois municípios vizinhos, passando bem perto de São Bento do Brejo Grande.
No início, o povo ficou animado. Estradas significavam progresso, facilitariam a vida de todo mundo, mas nem todos compartilhavam desse otimismo. “Vão mexer onde não devem.” Foi o que Dona Antônia disse ao saber da notícia, balançando a cabeça preocupada. “Tem coisas que é melhor deixar quieto.” Ninguém deu muita importância ao seu aviso na época.
Estavam mais interessados nas promessas de empregos e melhorias que a obra traria. E de fato, logo chegaram os engenheiros, com as máquinas pesadas e os operários vindos de fora da região. O vilarejo pacato subitamente fervilhou de atividade. Foi montado um acampamento para abrigar os trabalhadores da construção civil. A maioria era de fora, não conhecia os costumes nem a história local.
Entre eles estava o engenheiro-chefe, Dr. Maurício, um homem de uns 40 anos, vindo de São Paulo, que administrava a obra com eficiência, mas com pouca sensibilidade para lidar com os moradores locais. Os problemas começaram quando as máquinas chegaram à área do brejo. A estrada precisava atravessar uma porção dele, o que significava drenar uma área considerável e construir um aterro.
Foi então que os operários começaram a se queixar de algo estranho. No início, era apenas uma sensação. Muitos relatavam se sentir observados enquanto trabalhavam perto do brejo. Outros falavam de um cheiro forte e desagradável que aparecia e desaparecia sem explicação. Um cheiro de podre, de algo que está morto há muito tempo. Depois vieram os ruídos.
Um sussurro que não parecia humano, um som abafado, como se alguém estivesse chamando debaixo d’água. O mestre de obras, Seu Olímpio, um homem experiente e nada supersticioso, foi falar com o engenheiro depois que três operários pediram as contas na mesma semana. “Dr. Maurício, tem alguma coisa errada com esse lugar”, disse ele, tirando o capacete e coçando a cabeça suada.
“Os homens estão assustados demais, dizem que tem visagem no brejo.” O engenheiro riu com desprezo. “Isso é conversa de gente ignorante, Seu Olímpio. Não existem fantasmas. O que temos aqui é muita cachaça e pouca instrução.” Mas os incidentes continuaram e pioraram.
Um operador de retroescavadeira jurou ter visto um vulto humano se movendo dentro da água do brejo, em um lugar onde era impossível uma pessoa normal caminhar devido à profundidade e à lama. Outro operário abandonou o posto no meio do turno, tremendo e balbuciando sobre vozes que chamavam seu nome, convidando-o para entrar na água. A situação chegou ao limite quando um dos trabalhadores, o Zé Pequeno, desapareceu.
Ele fora trabalhar normalmente em uma terça-feira de manhã e, na hora do almoço, ninguém mais o encontrou. Procuraram por toda parte. Seu almoço estava intocado onde deixara as ferramentas espalhadas no chão, como se tivesse largado tudo às pressas. A única pista eram pegadas que levavam diretamente para o brejo e simplesmente desapareciam na água.
Organizaram uma busca. Homens com varas longas sondaram a área rasa do brejo. Outros foram de barquinho, procurando entre a vegetação aquática. Nada de Zé Pequeno por aqui. Era como se o pântano o tivesse engolido por inteiro. Foi então que o Dr. Maurício, finalmente abalado pelos acontecimentos, decidiu procurar Dona Antônia.
Já ouvira falar dela pelos locais. Sabia que ela conhecia o brejo melhor do que ninguém. A casa de Dona Antônia estava como sempre, limpa, organizada, com o cheiro característico das ervas que ela secava penduradas no teto. Ela não pareceu surpresa ao ver o engenheiro na sua porta. “Estava esperando o senhor”, disse ela, indicando a cadeira na varanda.
“Sabia que ia precisar de ajuda.” O Dr. Maurício, um homem acostumado a liderar e dar ordens, sentiu-se subitamente pequeno diante daquela senhora franzina e de olhar penetrante. Contou os eventos estranhos, o desaparecimento do Zé Pequeno e o medo que se espalhara entre os trabalhadores. Dona Antônia ouviu tudo em silêncio, balançando-se devagar em sua cadeira de balanço.
Quando ele terminou, ela ficou quieta por um longo tempo, como se estivesse ouvindo algo que só ela conseguia perceber. “O senhor está construindo a estrada em cima de um cemitério”, disse ela finalmente, em uma voz calma que contrastava com a gravidade do que dizia: “Não de gente do nosso tempo, gente de muito tempo atrás.”
Explicou que, segundo a história passada por gerações, aquela área do pântano fora habitada por indígenas muito antes dos europeus chegarem. Era um lugar sagrado para eles, onde enterravam seus mortos em pequenas ilhas naturais espalhadas pelo brejo.
Acreditavam que a água protegia os espíritos dos mortos e garantia a passagem deles para o outro mundo. Quando o senhor mandou drenar parte do brejo e começou a cavar com aquelas máquinas, perturbou o sono deles. “Dona Antônia continuou.” Agora tão inquietos, tão bravos, o Dr. Maurício quis rir, mas algo no olhar sereno e ao mesmo tempo perturbador de Dona Antônia o impediu.
Além disso, ele era um homem prático. Precisava resolver o problema, fosse ele causado por um fantasma ou por algo mais racional. “E o que a senhora sugere que eu faça?”, perguntou ele, tentando manter um tom cético. “Mude o traçado da estrada”, respondeu ela com simplicidade, “evite o brejo.” “Vai custar mais caro, vai demorar mais, mas é o único jeito.” O engenheiro explicou que não era assim tão simples. O projeto já estava aprovado, a verba fechada. Mudar agora significaria atrasos enormes, prejuízos, talvez até o cancelamento da obra. “Então o senhor vai perder mais gente”, disse Dona Antônia, olhando não para ele, mas para o brejo que se estendia além de sua varanda.
“Eles estão com sede, sede de vida.” Dr. Maurício saiu dali perturbado, mas não convencido. Era um homem da ciência e, afinal, decidiu reforçar a segurança no canteiro de obras. Ninguém mais trabalharia sozinho, especialmente perto do pântano. A iluminação no acampamento foi aumentada e um vigia foi contratado para a ronda noturna.
Quanto ao traçado da estrada, era impossível mudá-lo naquele ponto. Os operários estão com a nova medida de segurança. Por alguns dias, tudo correu bem. Os trabalhadores continuavam nervosos, mas a presença constante dos colegas e a iluminação melhorada ajudaram a dissipar o medo.
Dr. Maurício começou a achar que exagerara na importância dada à superstição local. Foi quando a chuva começou, não uma chuva normal, mas tempestades violentas que caíam principalmente à noite e transformavam o canteiro de obras em um lamaçal. O nível do brejo subiu rapidamente, inundando áreas que já tinham sido drenadas e destruindo parte do trabalho feito.
Em uma dessas noites de tempestade, dois vigias desapareceram. Estavam fazendo a ronda no perímetro do acampamento e simplesmente não voltaram para bater o ponto no final do turno. Quando deram por falta deles, já era manhã. A chuva tinha dado uma trégua, mas o solo estava tão lamacento que era impossível encontrar pegadas ou qualquer outro rastro.
Novamente organizaram uma busca e novamente não encontraram nada. Mas um dos operários envolvidos na busca fez uma descoberta macabra. Perto da margem do brejo, semienterrado na lama, estava um crânio humano. Não era recente; parecia ter cem anos de idade. E ao lado dele, um pedaço de cerâmica antiga decorada com um padrão que ninguém ali reconheceu.
A notícia espalhou-se rapidamente. Os operários, já assustados, entraram em pânico. Muitos se recusaram a continuar. Pegaram seus pertences e foram embora. Mesmo sem receber o pagamento, outros exigiam que a polícia fosse chamada, que as autoridades investigassem os desaparecimentos. O Dr. Maurício tentou manter a calma, chamou a polícia, que veio, examinou o crânio encontrado e concluiu que era muito antigo, provavelmente de um sítio arqueológico indígena, como Dona Antônia dissera.
Quanto aos desaparecidos, a teoria oficial foi de que tinham desertado do trabalho, talvez assustados pelas próprias histórias de fantasmas que circulavam no acampamento. Mas o engenheiro sabia que aquilo não explicava tudo. Os pertences pessoais dos homens continuavam nos alojamentos. Ninguém vai embora sem pelo menos seus documentos e dinheiro.
Algo estava muito errado. Naquela noite, sem conseguir dormir apesar do cansaço, o Dr. Maurício sentou-se na varanda do seu escritório improvisado, observando o pântano iluminado pela lua cheia, que aparecia ocasionalmente entre as nuvens pesadas. Foi quando ele ouviu. No início era apenas um sussurro, quase imperceptível.
Poderia ser apenas o vento balançando os juncos e taboas do pântano, mas aos poucos foi se intensificando até se tornar distinto. Vozes, dezenas, talvez centenas de vozes falando em uma língua que ele não conhecia. Não vinham de nenhum lugar em particular. Pareciam vir de todo o brejo, como se a própria água estivesse falando.
Dr. Maurício sentiu os pelos da nuca se arrepiarem. Nunca acreditara em nada sobrenatural, mas o que estava ouvindo desafiava qualquer explicação racional. As vozes pareciam chamá-lo, convidando-o a se aproximar da água. Sem perceber direito o que estava fazendo, deu por si levantando-se e caminhando em direção ao brejo.
Foi quando uma mão firme segurou seu braço, virou-se assustado e viu Dona Antônia ao seu lado. Nem a ouvira se aproximar. “Não vá”, disse ela com urgência. “É assim que eles pegam, vão chamando até a pessoa perder o sentido, depois puxam para dentro da água.” “Quem?” “O que são eles?”, perguntou o Dr. Maurício, com a voz tremendo de um jeito que não combinava com sua personalidade normalmente tão segura.
“Os antigos”, respondeu Dona Antônia, “os que estavam aqui antes de todos nós. Eles protegem o lugar sagrado e agora estão chamando o senhor porque é o senhor que comanda a destruição.” Naquele momento, as nuvens se abriram completamente e a lua iluminou o brejo como se fosse dia. O que o Dr. Maurício viu fez seu sangue congelar. Na superfície da água, refletidos pela luz prateada da lua, havia rostos, dezenas deles emergindo levemente da água, como se estivessem boiando logo abaixo da superfície. Não eram rostos normais; eram máscaras de morte, com olhos vazios e expressões congeladas em um grito silencioso.
“Meu Deus”, murmurou ele, sentindo as pernas fraquejarem. “O senhor precisa parar a obra”, disse Dona Antônia, ainda segurando o braço dele com firmeza. “Ou isso vai continuar até que não sobre mais ninguém.” O Dr. Maurício passou o resto daquela noite na casa de Dona Antônia, tremendo como uma criança assustada, apesar do chá calmante que ela lhe deu.
Ao amanhecer, tomou sua decisão, ligou para a construtora em São Paulo e, usando toda a sua autoridade como engenheiro-chefe, ordenou a suspensão imediata das obras. “Encontramos um sítio arqueológico importante”, explicou, omitindo o verdadeiro motivo de sua decisão. “Precisamos de um estudo de impacto ambiental e cultural antes de prosseguir.” A construtora não ficou feliz, mas aceitou a decisão. Afinal, continuar sem os estudos necessários poderia resultar em processos judiciais e multas ainda maiores. As máquinas foram retiradas, o acampamento desmontado e os operários dispensados. Em poucas semanas era como se nunca tivessem estado ali, exceto pelas marcas deixadas no solo que a vegetação logo começou a reclamar.
Dr. Maurício deveria ter voltado para São Paulo com os outros, mas algo o mantinha ali, uma necessidade de entender, de confirmar que não estava ficando louco. Alugou um quarto na pequena pousada do vilarejo e passou a visitar Dona Antônia quase diariamente, ouvindo suas histórias sobre o brejo e suas crenças. “Como a senhora sabia?”, perguntou ele uma vez. “Como sabia que eles estavam lá?” Dona Antônia ficou em silêncio por um momento, seus olhos verde-claros fixos na distância, balançando-se em sua cadeira de balanço. “Meu marido não desapareceu por acidente”, disse ela finalmente. “Ele também foi chamado. Eu avisei, como avisei ao senhor, mas o Tibúrcio era teimoso. Achou que podia pescar em uma parte do brejo onde ninguém nunca pescava, uma parte onde em noite de lua cheia se ouvem cantos que não são deste mundo.” Ela explicou que, depois que o marido desaparecera, começara a estudar as histórias antigas da região, conversando com os indígenas das reservas próximas, com o velho que se lembrava de histórias contadas pelos avós. Descobriu que o brejo não era apenas um cemitério, era um lugar de sacrifício. Os antigos habitantes acreditavam que as oferendas de sangue mantinham o equilíbrio entre o mundo dos vivos e dos mortos.
“Quando o brejo pede sangue, alguém tem que ir”, concluiu ela. “Desde que entendi isso, passei a fazer oferendas, pequenas, mas o suficiente. Um galo preto na lua nova, uma erva especial que jogo na água. Isso basta para mantê-los calmos. Mas quando o senhor chegou com suas máquinas, revirando a terra, perturbando os ossos, aí oferenda nenhuma ia bastar.” Dr. Maurício sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Parte dele ainda queria racionalizar tudo, encontrar uma explicação científica para os eventos. Outra parte, no entanto, sabia que testemunhara algo que ia além da ciência que conhecia. “E agora?”, perguntou ele. “Será que os menos deixaram em paz?” “Por enquanto”, respondeu Dona Antônia. “Mas o senhor perturbou o que estava quieto há muito tempo. Vai levar um tempo para as águas se acalmarem de novo.” Dr. Maurício acabou ficando mais tempo do que o planejado em São Bento do Brejo Grande. Algo naquele lugar, naquela história, na própria Dona Antônia, o fascinava e assustava ao mesmo tempo.
Ele começou a ajudá-la em pequenas tarefas, consertando o telhado que vazava, reforçando as fundações da casa. Em troca, ela ensinava-lhe sobre as ervas medicinais e contava mais sobre a história do lugar. Foi em uma dessas tardes, enquanto os dois estavam sentados na varanda contemplando o pôr do sol refletido nas águas do brejo, que o Dr. Maurício notou algo estranho. Conforme o sol mergulhava no horizonte e as sombras se alongavam, vultos pareciam se formar na superfície da água. Não era como da outra vez; não havia rostos nem máscaras. Eram silhuetas indistintas, como pessoas caminhando devagar na água, emergindo e submergindo. “A senhora está vendo aquilo?”, perguntou ele, apontando discretamente.
Dona Antônia nem precisou olhar na direção indicada. “Vejo todos os dias a esta hora”, respondeu ela com calma. “É quando a luz fica entre o dia e a noite que a divisão entre os mundos fica mais fina.” “Quem são os antigos?” “Alguns sim, outros são mais recentes.” Ela hesitou por um momento. “O seu Tibúrcio está ali entre eles.” Os olhos do Dr. Maurício se arregalaram, tentando distinguir as figuras. “A senhora consegue ver o seu marido ali?” “Não, eu apenas o vejo. Converso com ele às vezes”, disse ela com naturalidade, como se falasse do tempo. “Foi ele quem me avisou quando o senhor começou a obra. Foi ele quem me mandou ir atrás do senhor naquela noite.” Um calafrio correu pela espinha de Maurício. “E os outros que desapareceram, o Zé Pequeno, os vigias também estão lá, mas ainda não se acostumaram. Estão com raiva ainda por terem sido levados antes da hora.” Ela virou-se para encará-lo, os olhos verde-claros brilhando no crepúsculo. “O senhor teve sorte. Eles queriam o senhor mais do que qualquer um, o chefe, o responsável pela destruição. Se eu não tivesse chegado naquela hora…” Dr. Maurício engoliu em seco. “Por que a senhora me salvou?” “Se eu era o responsável pela perturbação, não seria justo que eu fosse levado?” Dona Antônia sorriu levemente. “A justiça não é igual para todo mundo. O senhor não sabia o que estava fazendo e, quando soube, parou. Isso conta para alguma coisa.” Levantou-se da cadeira de balanço, apoiando-se em um cajado de madeira escura que sempre carregava. “Vou fazer um chá antes que escureça de vez. Esta não é uma hora boa para ficar olhando muito para o brejo. Os olhos que estão lá podem ver a gente também.” Enquanto ela entrava na casa, Dr. Maurício continuou observando as silhuetas na água, que agora pareciam mais nítidas conforme a escuridão aumentava. Teve a impressão de que uma delas acenou para ele com um movimento lento, como se estivesse debaixo d’água. Sem pensar, levantou a mão para retribuir o aceno. Foi nesse momento que sentiu mais do que ouviu as vozes novamente. Não como da outra vez. Não era um chamado, era um aviso. Palavras em uma língua que ele não conhecia, mas cujo significado ele de alguma forma compreendia.
“Você agora pertence ao brejo, marcado. Um dia chamaremos e você irá.” Dr. Maurício voltou para São Paulo uma semana depois. Abalado pela experiência, mas determinado a retomar sua vida normal, contou na empresa que sofrera um esgotamento nervoso devido à pressão do trabalho, o que explicava seu comportamento errático. Ficou afastado por um tempo, fez terapia, acabou voltando a trabalhar em outros projetos, mas nunca mais foi o mesmo. Não conseguia chegar perto de qualquer corpo d’água — lagoa, represa, até piscina — sem sentir pânico. Tinha pesadelos recorrentes onde se afogava em água turva enquanto mãos esqueléticas o puxavam para o fundo.
E na lua cheia, mesmo no seu apartamento no vigésimo andar, no meio de São Paulo, ele conseguia ouvir, distante mas inconfundível, o sussurro daquelas vozes que não eram deste mundo. Cinco anos depois dos eventos, Dr. Maurício recebeu uma carta. Não tinha remetente, apenas o seu nome e endereço escritos com letra trêmula. Dentro havia um pequeno pedaço de papel com poucas palavras. “O brejo está chamando. O Tibúrcio disse que chegou a sua hora. Se quiser se despedir, venha antes da próxima lua cheia.” Estava assinada simplesmente: Antônia. Ele não queria ir. Sabia que era loucura voltar àquele lugar, mas algo dentro dele, algo que despertara naquela semana em São Bento do Brejo Grande, não lhe deu escolha. Era como se um fio invisível o puxasse de volta. Chegou ao vilarejo em uma tarde de céu limpo. Muita coisa mudara. A estrada que nunca fora terminada fora retomada, mas com um traçado diferente, contornando o brejo em vez de atravessá-lo. Havia mais casas, uma escola nova, até uma pracinha com coreto. São Bento do Brejo Grande estava crescendo, entrando no mapa. A casa de Dona Antônia, porém, continuava a mesma: solitária no final da estrada sobre as palafitas à beira do pântano. Conforme se aproximava, viu a velha senhora sentada na varanda como se estivesse à sua espera. “Sabia que viria”, disse ela sem se levantar da cadeira de balanço. Parecia mais velha, mais frágil do que antes, mas os olhos verde-claros mantinham o mesmo brilho inquietante. “Por que a senhora me chamou?”, perguntou ele, parando diante dela sem aceitar o convite implícito para se sentar. “Porque o brejo vai te levar de qualquer jeito”, respondeu ela com simplicidade, “melhor que seja aqui onde eu posso ajudar na passagem do que em São Paulo sozinho.” O Dr. Maurício sentiu o coração disparar. “Do que a senhora está falando? Eu não vou morrer.” “Eu não disse que ia morrer. Eu disse que o brejo ia te levar.” Ela suspirou, como quem explica algo óbvio para uma criança teimosa. “Quando o senhor saiu daqui, levou um pedaço do brejo com o senhor. Está dentro do senhor agora, crescendo, não notou?” E ele notara, sim, os pesadelos, a sensação constante de afogamento mesmo quando não havia água por perto, a impressão de que algo crescia no seu interior, algo frio e úmido que não pertencia ao seu corpo. “O que eu posso fazer?”, perguntou ele, com a voz quase inaudível. “Aceitar”, respondeu Dona Antônia. “Vá até a beira do brejo esta noite. Ele vai te mostrar o caminho.” Dr. Maurício passou o resto do dia na pequena pousada do vilarejo, lutando entre fugir o mais rápido possível ou fazer o que Dona Antônia sugerira. Finalmente, quando a noite caiu e a lua começou a despontar no horizonte, ele se viu caminhando em direção ao pântano, como se seus pés tivessem vontade própria. A lua refletia nas águas escuras, criando um caminho prateado que parecia convidá-lo a seguir. E conforme se aproximava da margem, as vozes recomeçaram. Aquele sussurro em uma língua desconhecida que ele de alguma forma conseguia entender. Estava tão concentrado nas vozes que nem percebeu Dona Antônia se aproximar por trás. Ela trazia na mão um objeto pequeno que brilhou brevemente sob a luz da lua. “O senhor tem duas escolhas”, disse ela, fazendo-o virar-se assustado. “Pode ir por vontade própria, entrar no brejo agora e se juntar aos que estão lá. Ou pode lutar, mas aviso que a luta é dolorosa e não há garantia de vitória.” “Lutar como?”, perguntou ele, desesperado por qualquer alternativa que não fosse se entregar às águas escuras. Dona Antônia estendeu a mão. Nela estava uma pequena faca com cabo de osso esculpido com um símbolo estranho. “O que está crescendo dentro do senhor precisa ser cortado fora”, explicou ela. “É como um tumor, mas não é doença que os médicos conheçam. É um pedaço do brejo, um filamento que liga o senhor a ele.” Dr. Maurício sentiu o estômago embrulhar só de pensar em se cortar. “Não tem outro jeito, algum remédio, alguma oração?” Dona Antônia balançou a cabeça negativamente. “Quando o brejo marca alguém, só existem dois caminhos: ir ou lutar.” Ele olhou para a faca, depois para as águas escuras do pântano, onde agora conseguia ver aquelas silhuetas movendo-se devagar, como em uma dança subaquática. Uma delas parecia mais próxima da margem, como se estivesse esperando especialmente por ele. “Se eu for, o que acontece?” “O senhor não morre. Não do jeito que as pessoas pensam”, respondeu Dona Antônia. “O senhor se torna parte do brejo, vive entre os dois mundos. É uma existência diferente, nem boa nem má, simplesmente é.” O Dr. Maurício estendeu a mão trêmula e pegou a faca. “E se eu lutar?” “Vai doer, vai sangrar e o senhor vai ter que encontrar o que cresceu dentro de si e cortar. Se conseguir, estará livre.” “E se não conseguir?” Ela olhou significativamente para o brejo. Ele olhou mais uma vez para as águas, para as silhuetas que pareciam cada vez mais nítidas sob o luar. Por um momento, pensou reconhecê-las. Um dos vigias desaparecidos e, logo atrás, o Zé Pequeno acenando devagar para ele. Foi então que tomou sua decisão. O que aconteceu depois? Poucos sabem ao certo. Alguns moradores relataram ter ouvido gritos vindos da direção do brejo naquela noite. Outros disseram ter visto luzes estranhas dançando sobre a água. Pela manhã, encontraram Dona Antônia sentada em sua varanda, como sempre, olhando para o brejo com seus olhos verde-claros insondáveis. Do Dr. Maurício nunca mais se teve notícia. A família em São Paulo deu queixa do desaparecimento. A polícia veio, investigou, mas como acontece muitas vezes nesses casos isolados, logo o processo foi arquivado por falta de pistas. Seu carro foi encontrado na pousada, com a mala ainda feita, como se ele tivesse apenas saído para um passeio rápido e pretendesse voltar. Oficialmente, o Dr. Maurício Augusto da Costa entrou para a estatística dos desaparecidos. Mais um, porém. O vilarejo cresceu. A estrada foi terminada, contornando o brejo, como Dona Antônia sugerira desde o início, e a vida seguiu seu curso. Mas os moradores mais antigos de São Bento do Brejo… Grande, sabem que em noites de lua cheia, especialmente quando o céu está limpo e a luz prateada ilumina as águas paradas, é possível ver silhuetas se movendo devagar na superfície do pântano. E entre elas, uma que não estava lá antes: um homem de estatura média, vestindo o que parece ser um terno de engenheiro, caminhando eternamente sobre águas que nunca mais o deixaram ir. Dona Antônia continuou vivendo na sua casa sobre as palafitas, vendendo suas ervas medicinais, ajudando quem precisava com seu conhecimento. Dizem que, quando a velhice finalmente a alcançou, muitos anos depois, não houve corpo para enterrar. Na manhã seguinte à noite em que as luzes da sua casa se apagaram pela última vez, a cadeira de balanço na varanda continuava lá. Mas à noite, quando a lua ilumina o brejo, os pescadores que ainda se atrevem a aventurar-se naquelas águas rasas, dançando devagar na superfície, conseguem ver uma senhora pequena e curvada, de olhos verde-claros, como água de riacho raso, finalmente reunida com o seu amado depois de tanto tempo separados. E os mais sábios da região sabem que, quando passar pelo brejo e sentir aquele arrepio repentino, quando ouvir um sussurro que não consegue entender direito, o melhor é seguir caminho sem olhar para trás, porque existem coisas neste mundo que é melhor deixar quieto. Existem segredos que a água guarda e não gosta de revelar. E existem chamados que, se você responder, não tem mais volta. M.