
Olá, queridos. Como vocês estão? Espero que bem. Hoje eu trouxe uma história muito especial. Uma história que tocou o coração de milhões de brasileiros e que continua a encantar até os dias de hoje. É a história da Escrava Isaura, exatamente essa, do clássico de Bernardo Guimarães, publicado em 1875. Muitos de vocês provavelmente já ouviram falar dela. Alguns até leram o livro ou assistiram à telenovela que marcou uma era na televisão brasileira. Mas hoje eu vou lhes contar todos os detalhes desta história incrível de uma mulher corajosa que lutou três vezes pela sua liberdade. Preparem seus corações, pois esta narrativa vai impactar nossas emoções de uma forma profunda. Peguem um café, fiquem confortáveis e vamos juntos nessa jornada. Vamos lá.
O ano era 1850, nas terras férteis de uma próspera fazenda no interior do Brasil, onde os cafezais se estendiam até onde a vista alcançava, formando um mar verde que ondulava ao sabor do vento. Ali, em meio à rotina cruel e desumana da escravidão, vivia uma jovem que desafiava todas as expectativas que a sociedade tinha de uma pessoa escravizada. Seu nome era Isaura e sua história começou de uma maneira que poucos poderiam imaginar. Imaginem uma mistura de beleza e tragédia que marcaria sua vida para sempre.
Isaura não tinha a pele retinta como a maioria das pessoas escravizadas que trabalhavam sob o sol escaldante das plantações. Sua pele era tão branca quanto a neve. Seus cabelos eram castanhos e sedosos, descendo em ondas suaves pelos seus ombros delicados, e seus olhos claros refletiam uma inteligência e sensibilidade extraordinárias. Filha de uma escrava mulata e de um homem branco com posses, Isaura herdou a aparência europeia, mas em suas veias corria o sangue que a condenava à escravidão. Pois naquela época cruel, a condição de escravo era herdada da mãe. Não importava quem fosse o pai.
Sua mãe, Juliana, morreu quando Isaura era apenas uma criança de 7 anos, deixando-a sozinha e vulnerável em um mundo que não conhecia a misericórdia para com os fracos. Mas a esposa de seu senhor, Dona Maria, uma mulher de coração bondoso e sensibilidade refinada, movida pela beleza e fragilidade da menina que chorava silenciosamente nos cantos da senzala, decidiu criá-la na casa grande. Educou-a como se fosse uma dama da sociedade, com todos os privilégios que isso envolvia. Sob a tutela de Dona Maria, Isaura aprendeu a ler e escrever com perfeição, a tocar piano com dedos talentosos que arrancavam das teclas melodias que enchiam a casa de emoção, a bordar desenhos delicados em tecidos nobres, a falar francês fluentemente e a comportar-se com a elegância de uma verdadeira dama.
Ela tinha modos finos, uma voz doce e melódica e uma educação que superava a de muitas moças ricas da região. Vestia roupas finas, comia à mesa com talheres de prata e dormia em um quarto confortável na casa grande. Mas, apesar de toda essa educação privilegiada, com todo o luxo que a diferenciava dos outros escravos, Isaura nunca esqueceu sua verdadeira condição. Ela era uma escrava e isso era um fardo pesado que ela carregava como uma corrente invisível, presa não aos seus pés, mas à sua alma atormentada. Todas as noites, antes de dormir, ela olhava para as próprias mãos e se perguntava por que o destino era tão cruel, dando-lhe a aparência de uma mulher livre, mas a condição de uma propriedade.
Quando Dona Maria faleceu, vítima de uma febre que a consumiu em poucos dias, a vida de Isaura mudou completamente, como se o sol tivesse desaparecido do céu. O filho do casal, Leôncio, um homem de cerca de 30 anos, alto, forte, com bigodes bem cuidados e um olhar penetrante, herdou a fazenda e tudo o que nela havia, incluindo os escravos que ali trabalhavam, inclusive Isaura. Leôncio era o oposto de sua mãe em todos os sentidos. Cruel, arrogante, perverso e acostumado a ter tudo o que desejava, ele viu em Isaura não apenas uma escrava, mas uma obsessão que consumia seus pensamentos dia e noite, transformando-se em uma paixão mórbida e perigosa.
Desde o momento em que assumiu o controle da propriedade, ainda durante o velório de sua mãe, Leôncio já lançava olhares diferentes sobre Isaura. Olhares que faziam a jovem sentir um calafrio na espinha. Ele desejava Isaura de uma maneira doentia, possessiva e não estava acostumado a limites ou respeito. Para ele, ela era sua propriedade e, portanto, deveria submeter-se a todos os seus caprichos e desejos. A jovem, porém, resistia com toda a dignidade e força de seu caráter. Por mais que Leôncio tentasse seduzi-la com promessas vazias de uma vida melhor, com roupas ainda mais caras, joias brilhantes ou uma posição privilegiada como sua amante oficial, Isaura recusava categoricamente suas investidas, mantendo-se firme em seus princípios.
“Prefiro morrer a entregar-me a um homem que não respeita nem minha condição, nem minha vontade, que me vê apenas como um objeto de seu desejo desonesto.”
Ela dizia com voz firme, o que enfurecia ainda mais o senhor, fazendo seus olhos brilharem de uma raiva contida. Leôncio, acostumado desde criança a conseguir tudo o que queria, não aceitava a rejeição de uma simples escrava. Quanto mais Isaura o repelia, mais ele a desejava, em uma espiral de obsessão que crescia a cada dia. Sua obsessão doentia transformou-se em ira profunda e sua ira em crueldade calculada. Ele passou a persegui-la como um predador persegue sua presa, aparecendo em seus aposentos sem aviso, ameaçando-a sutilmente e prometendo que, mais cedo ou mais tarde, ela seria sua, querendo ela ou não.
A situação tornou-se absolutamente insustentável quando Leôncio, por pressão da família e interesses financeiros, casou-se com Malvina, uma bela e delicada jovem da sociedade local, filha de um fazendeiro rico. Mas nem mesmo o casamento, nem os votos feitos diante do altar, diminuíram sua obsessão doentia por Isaura. Pelo contrário, parecia que a impossibilidade de tê-la apenas aumentava seu desejo. Malvina, a esposa legítima, era gentil, ingênua e amava seu marido. Ela não entendia por que Leôncio passava tanto tempo próximo daquela escrava branca de olhos tristes que vivia na casa. Leôncio escondia seus verdadeiros sentimentos e intenções perversas da esposa, mantendo uma fachada respeitável diante dela.
Mas todos na fazenda sabiam da perseguição e das crueldades que Isaura sofria. Os outros escravos olhavam para ela com uma mistura de pena e admiração, pois viam nela uma coragem extraordinária que poucos possuíam para enfrentar o todo-poderoso senhor. Foi então que ocorreu a primeira fuga, um ato desesperado de coragem em uma noite de lua nova, quando a escuridão cobria os campos como um manto protetor, e até as estrelas pareciam se esconder atrás das nuvens. Isaura juntou seus poucos pertences, algumas roupas simples, um xale que fora de sua mãe, uma pequena quantia em dinheiro que conseguira economizar bordando secretamente durante anos para as damas da vizinhança e um retrato desbotado de Dona Maria.
Com o coração batendo tão forte que parecia querer pular do peito, ela deixou a fazenda pelas portas dos fundos, caminhando em silêncio absoluto. Seus pés descalços tocavam o solo frio e úmido da estrada de terra. Ela não sabia exatamente para onde ir, sabia apenas que precisava fugir daquele inferno em que sua vida se transformara. Precisava colocar a maior distância possível entre ela e Leôncio. A cada passo que dava, sentia-se um pouco mais livre, mas também com mais medo, pois sabia que o castigo para escravos fugitivos era severo, brutal, às vezes mortal. Isaura viajou por dias inteiros, escondendo-se durante o dia em celeiros abandonados ou matas densas, qualquer lugar que oferecesse proteção contra olhares curiosos, e caminhando à noite por estradas desertas, sempre atenta a qualquer som que indicasse perseguição.
Seus pés sangravam, seu corpo doía, mas sua determinação era inabalável. Chegou finalmente a uma cidade distante, a mais de 100 km da fazenda, onde encontrou abrigo na casa de uma família abolicionista de comerciantes que se apiedou de sua história trágica. Ali, protegida por pessoas bondosas que acreditavam que a escravidão era uma abominação, ela usou um nome falso, Elvira, e tentou reconstruir sua vida do zero, trabalhando como professora de piano e música para as filhas de famílias ricas da cidade. Naqueles meses preciosos, ela conheceu algo que nunca experimentara em toda a sua vida: a paz verdadeira, a sensação de poder dormir sem medo, a capacidade de sorrir sem o peso na consciência.
Mas a paz de Isaura durou muito pouco, tragicamente muito pouco. Leôncio, consumido pelo ódio obsessivo e pela fixação que o impedia de dormir à noite, contratou os melhores capitães-do-mato da região, homens brutais e experientes, especializados em caçar escravos fugitivos e trazê-los de volta. Ele ofereceu uma recompensa extremamente generosa, uma fortuna por qualquer informação sobre uma escrava branca de traços raros. Não demorou muito para que alguém, tentado pelo dinheiro, a reconhecesse e denunciasse sua localização exata. Quando os caçadores de escravos chegaram à elegante casa onde Isaura estava escondida, ela estava justamente dando aulas de piano para as jovens filhas de uma família respeitada da cidade, tocando uma suave melodia de Mozart.
O horror absoluto tomou conta do ambiente quando homens armados invadiram a sala de música com fúria e agarraram seus braços com força brutal. As partituras caíram ao chão. Isaura gritou desesperadamente, implorando por ajuda, mas todos os apelos foram em vão. Ela foi arrastada de volta para a fazenda como se fosse um animal selvagem, com os pulsos amarrados e os tornozelos acorrentados, humilhada publicamente pelas ruas da cidade. O retorno à fazenda foi terrível, uma experiência traumática que marcaria sua alma para sempre.
Leôncio, fingindo magnanimidade e bondade diante dos outros fazendeiros e de sua esposa Malvina, não a castigou fisicamente com chicotadas, como era o costume com escravos fugitivos e como todos esperavam. Mas o castigo psicológico que ele aplicou foi infinitamente pior, mais cruel e prolongado. Ele a trancou em um quarto pequeno e escuro na casa grande, totalmente isolada de todos, sem contato com ninguém, e passou a visitá-la diariamente, às vezes duas ou três vezes por dia, insistindo obsessivamente que ela se entregasse a ele, prometendo riquezas e uma vida confortável. A pressão psicológica era devastadora, esmagadora, quase insuportável.
“Você nunca será livre, Isaura. Nunca. Está me ouvindo? Você é minha propriedade legal, está registrada em cartório e será minha até o fim dos seus dias ou até que eu me canse de você.”
Ele dizia com um sorriso cruel e perverso nos lábios, aproximando seu rosto do dela. Mas Isaura não quebrou, não se rendeu. Sua força interior era muito maior do que Leôncio poderia imaginar ou compreender. Ela manteve-se firme, rezando todas as noites, pedindo a Deus forças e lembrando-se de sua mãe e de Dona Maria. E foi essa força, essa resiliência extraordinária e convicção inabalável que a levou a uma segunda fuga, ainda mais arriscada que a primeira. Desta vez, ela foi infinitamente mais cuidadosa, planejou melhor.
Conseguiu a ajuda secreta de Rosa, uma escrava mais velha e sábia que trabalhava na cozinha há mais de 30 anos e que sempre fora carinhosa com ela, como uma mãe. Rosa, que também detestava Leôncio por sua crueldade, forneceu-lhe roupas de homem para esconder sua identidade e aparência, e informações detalhadas sobre rotas de esconderijos usadas por outros fugitivos. Em uma noite de tempestade violenta, quando os trovões ensurdecedores abafavam qualquer ruído e a chuva torrencial tornava impossível enxergar a poucos metros de distância, Isaura escapou novamente pela janela de seu quarto-prisão.
Viajou ainda mais longe desta vez, chegando a uma província distante onde ninguém certamente a conhecia ou sequer ouvira falar dela. Desta vez, aprendendo com o erro da primeira fuga, ela assumiu a identidade de uma jovem viúva empobrecida e conseguiu trabalho honesto como governanta em uma fazenda progressista. Ali viveu por quase um ano em relativa tranquilidade, sempre com o medo constante da descoberta, sempre olhando por cima do ombro, sempre assustada com qualquer batida na porta. Foi nessa cidade pacata e arborizada que Isaura conheceu Álvaro, um jovem advogado abolicionista de apenas 28 anos, com ideias progressistas e um coração verdadeiramente generoso.
Álvaro vinha de uma família rica e influente, mas, ao contrário de outros homens de sua classe, acreditava fervorosamente na liberdade universal, na igualdade entre todos os seres humanos e lutava incansavelmente pelos direitos dos escravizados através das leis e dos tribunais, defendendo-os gratuitamente. Ao conhecer aquela jovem e misteriosa governanta de olhos tristes, mas profundos e modos tão delicados e refinados, Álvaro sentiu-se imediatamente atraído, não apenas por sua beleza singular, mas por sua inteligência aguda e sensibilidade. Eles começaram a conversar durante saraus literários na cidade sobre livros, música, filosofia, e Álvaro percebeu que havia algo especial naquela mulher, um segredo que ela guardava cuidadosamente.
Isaura, por sua vez, tentava desesperadamente resistir aos sentimentos profundos que começavam a brotar em seu coração ferido. Como poderia se permitir amar alguém quando sua própria liberdade era uma mentira frágil? Como poderia entregar seu coração quando seu corpo ainda pertencia legalmente a outro homem tão cruel? Mas Álvaro foi persistente, respeitoso, cavalheiro e verdadeiramente apaixonado de uma forma que ela nunca experimentara antes.
“Não importa de onde você veio ou quem foi no passado. O que importa é quem você é agora, neste momento, esta mulher extraordinária que vejo diante de mim, digna de todo o amor e respeito que um homem pode oferecer.”
Ele disse, visivelmente emocionado, segurando as mãos delicadas dela com ternura infinita, olhando profundamente em seus olhos. Isaura, pela primeira vez em toda a sua vida de sofrimento, permitiu-se sonhar. Permitiu-se abrir o coração. Permitiu-se imaginar um futuro real ao lado daquele homem bom e honesto, uma vida em liberdade verdadeira, em amor e dignidade. Finalmente, ela contou-lhe toda a verdade sobre sua condição, sobre Leôncio, sobre as fugas. Álvaro, longe de se afastar assustado, abraçou-a com força e prometeu protegê-la. Mas o destino seria mais uma vez cruel, testando sua coragem.
Leôncio nunca havia desistido de encontrá-la. Continuou sua busca implacável e obsessiva, gastando fortunas consideráveis com detetives particulares, espiões e informantes espalhados por diversas províncias. Quando finalmente descobriu onde Isaura se escondia através de um comerciante que a reconheceu, ele sentiu uma mistura intensa de raiva, triunfo e satisfação mórbida. Viajou pessoalmente até aquela cidade distante, acompanhado de documentos oficiais que provavam sua posse legal e de homens armados. O confronto foi absolutamente devastador. Uma cena terrível.
Álvaro, ao descobrir que a mulher que amava intensamente era uma escrava fugitiva procurada, ficou inicialmente chocado e confuso, mas sua convicção abolicionista e seus princípios morais falaram muito mais alto do que qualquer preconceito. Ele imediatamente se ofereceu para comprar a liberdade de Isaura, oferecendo a Leôncio uma quantia muito considerável, o suficiente para comprar várias fazendas. Mas Leôncio, movido unicamente pelo orgulho ferido e pela obsessão, impulsionado por uma sede mórbida de vingança, recusou a oferta prontamente.
“Ela não está à venda por preço nenhum neste mundo. Isaura é minha por direito e voltará comigo hoje mesmo, nem que seja à força.”
Ele declarou, apresentando friamente os papéis registrados em cartório com carimbos e selos. Isaura foi brutalmente obrigada a retornar à fazenda mais uma vez, arrancada dos braços de Álvaro, que clamava aos céus. Mas desta vez algo profundo havia mudado dentro dela, em sua alma. Ela conhecera o amor verdadeiro, conhecera um homem extraordinário e o que significava ser tratada como ser humano pleno, e não apenas como propriedade ou objeto de desejo. Essa experiência transformadora dera-lhe uma força renovada, uma determinação de aço.
A terceira e última fuga foi a mais arriscada e dramática de todas. Isaura sabia perfeitamente que Leôncio nunca a deixaria em paz enquanto vivesse. Sabia que ele preferiria vê-la morta a vê-la livre e feliz. Mas sabia também, com absoluta certeza, que não poderia continuar vivendo daquela forma degradante e desumana. Com a ajuda secreta e corajosa de Malvina, a própria esposa de Leôncio — que finalmente descobrira as verdadeiras intenções perversas do marido e sentira uma profunda compaixão por Isaura, vendo nela uma irmã em desespero —, ela conseguiu fugir pela terceira e última vez.
Malvina, que também sofria horrores nas mãos do marido violento e cruel, forneceu recursos financeiros consideráveis de suas próprias economias secretas e documentos falsos muito bem feitos.
“Fuja para onde ele nunca te alcance e seja feliz de verdade. Você merece toda a liberdade e todo o amor que eu nunca terei nesta vida miserável.”
Ela disse chorando, abraçando a jovem escrava por um longo tempo, em um gesto emocionante de solidariedade feminina que transcendia totalmente as barreiras sociais impostas. Isaura correu de volta para a cidade onde Álvaro vivia e trabalhava. Ao bater à sua porta ao amanhecer, estava exausta, faminta, com os pés sangrando, mas absolutamente decidida a conquistar sua liberdade de uma vez por todas. Álvaro recebeu-a de braços abertos, chorando de emoção e alívio, e desta vez tomou uma decisão final e irrevogável.
Ele usaria todo o seu vasto conhecimento jurídico, todas as suas conexões políticas influentes e todos os seus recursos financeiros consideráveis para proteger Isaura para sempre. O jovem advogado iniciou imediatamente um complexo processo judicial, questionando com argumentos sólidos a legalidade da escravização de Isaura, argumentando brilhantemente que, sendo ela filha de pai livre e tendo vivido como pessoa livre em diversos momentos documentados de sua vida, ela tinha um direito legal e inquestionável à liberdade.
Foram meses longos de batalhas jurídicas intensas, de tensão constante e esmagadora, com Leôncio usando toda a sua considerável influência política e financeira para impedir que Isaura escapasse definitivamente de suas garras possessivas. No entanto, o destino finalmente reservava uma reviravolta extraordinária e justa. Durante o processo meticuloso, examinando documentos antigos e empoeirados na fazenda, foi descoberta uma folha de papel valiosa que mudaria tudo completamente.
O pai biológico de Isaura, um comerciante rico que nunca a assumira publicamente mas que, cheio de remorso em seu coração, em seu leito de morte anos antes, havia assinado um documento oficial de carta de alforria para ela, libertando-a legalmente da escravidão. O documento fora guardado cuidadosamente entre os papéis pessoais de Dona Maria, que pretendia registrá-lo, mas morrera antes e isso nunca fora oficializado no cartório, mas possuía plena validade jurídica perante a lei.
Quando o juiz solene leu o documento autenticado e declarou Isaura oficialmente e definitivamente livre perante a lei, a jovem caiu de joelhos no chão do tribunal chorando como nunca chorara em toda a sua vida. Eram lágrimas de alívio profundo, de felicidade incontrolável, de libertação não apenas física, mas espiritual e emocional. Álvaro abraçou-a com força, ajoelhando-se ao seu lado, e prometeu solenemente que ela nunca mais teria que fugir, nunca mais teria que ter medo de homem nenhum, pois ela não pertenceria a ninguém.
Leôncio, ao saber da decisão judicial final, entrou em uma fúria absolutamente cega e destrutiva. Tentou desesperadamente recorrer da decisão, tentou usar toda a sua influência restante, tentou subornar juízes, mas a lei estava claramente do lado de Isaura. Desta vez, totalmente consumido pelo ódio crescente da obsessão frustrada e pela humilhação pública, Leôncio afundou-se cada vez mais em vícios terríveis e em uma vida de autodestruição consciente. Sua fazenda, antes próspera, começou a decadência rápida. Seus negócios faliram um após o outro. Sua esposa, Malvina, o abandonou e ele morreu apenas alguns anos depois, amargurado, sozinho, odiado por todos, destruído completamente pela própria crueldade que sempre cultivara.
Isaura e Álvaro casaram-se em uma cerimônia emocionante, simples mas profundamente significativa, cercados por amigos abolicionistas e por pessoas que acreditavam na justiça. Ela, finalmente livre de verdade, pôde viver o amor pleno e verdadeiro que sempre mereceu, mas que a vida lhe negara por tanto tempo. Juntos, tornaram-se defensores extremamente ativos e dedicados à causa abolicionista, usando a história inspiradora de Isaura como um testemunho vivo e poderoso das injustiças terríveis da escravidão.
Isaura passou a dar palestras emocionantes em diversas cidades, a dar aulas de música gratuitas para jovens negros e mestiços pobres, ajudando ativamente outros escravizados a alcançarem o seu tão sonhado sonho da liberdade. Ela nunca esqueceu de onde viera, nunca esqueceu os longos anos de sofrimento indescritível, as três fugas desesperadas e perigosas, o medo constante que acompanhava seus dias e noites, mas também nunca esqueceu a lição mais importante de todas: a de que a liberdade, quando finalmente conquistada através da luta e da coragem, era infinitamente mais doce e valiosa do que qualquer coisa que ela pudesse imaginar em seus sonhos mais ousados.
Meus queridos, esta é uma história emocionante. O que acabei de contar para vocês não é apenas um conto de ficção criado pela imaginação. É baseado fielmente no romance “A Escrava Isaura”, escrito pelo talentoso Bernardo Guimarães e publicado originalmente em 1875. Um dos livros mais importantes, influentes e emocionantes da literatura brasileira de todos os tempos. Bernardo Guimarães foi um escritor e poeta romântico que viveu entre 1825 e 1884, nascido em Ouro Preto, Minas Gerais, e que usou corajosamente sua obra literária para denunciar as crueldades indescritíveis da escravidão no Brasil Império.
Embora Isaura seja uma personagem fictícia criada pela mente brilhante do autor, sua história retrata com precisão a realidade dolorosa de milhares, talvez milhões de mulheres escravizadas que viveram no Brasil durante os séculos de escravidão. Muitas delas eram filhas de senhores brancos com suas escravas, muitas tinham a pele clara devido à miscigenação forçada, mas continuavam sendo consideradas propriedade legal, podendo ser vendidas, trocadas, herdadas como qualquer objeto.
A escravidão no Brasil foi uma das mais longas e brutais das Américas, durando mais de 350 anos terríveis, de cerca de 1500 até 1888, quando foi finalmente abolida pela histórica Lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel. A história emocionante de Isaura nos lembra poderosamente que a liberdade é um direito humano fundamental e inalienável, que nunca, sob circunstância nenhuma, deve ser negado a ninguém, independentemente da cor da pele, da origem ou da condição. Mostra-nos claramente a força extraordinária das mulheres que resistiram bravamente, que lutaram incansavelmente, que fugiram quantas vezes foram necessárias para conquistar sua dignidade e sua humanidade.
E nos ensina de forma profunda que o amor verdadeiro, o respeito mútuo e a justiça devem sempre prevalecer sobre a crueldade, a opressão e a desumanização. O livro revolucionário de Bernardo Guimarães foi publicado apenas 13 anos antes da abolição definitiva da escravidão, em um momento histórico crucial em que o movimento abolicionista ganhava força crescente no Brasil, mobilizando intelectuais, artistas, religiosos e pessoas de todas as classes sociais. A obra teve um impacto absolutamente enorme na sociedade da época, comovendo profundamente milhares de leitores e fazendo muitos refletirem seriamente sobre a profunda imoralidade da escravidão e a necessidade urgente de sua abolição.
Foi adaptada diversas vezes para o teatro, cinema e televisão, sendo a telenovela de 1976, exibida pela Rede Globo, a mais famosa e inesquecível, transmitida para mais de 80 países e encantando públicos ao redor do mundo todo. A importância histórica e moral desta história permanece absolutamente relevante até os dias de hoje, pois nos recorda constantemente de um período extremamente sombrio e vergonhoso da nossa história nacional que nunca deve ser esquecido ou minimizado. Devemos manter viva a memória sagrada de todos aqueles que sofreram terrivelmente sob o jugo desumano da escravidão e garantir firmemente que as injustiças terríveis e os erros do passado nunca mais se repitam sob forma alguma.
A luta corajosa de Isaura pela liberdade é a luta universal de todos aqueles que buscam dignidade, respeito, humanidade e o direito fundamental de serem donos de suas próprias vidas. Eu espero sinceramente que esta história tenha tocado o coração de vocês profundamente, assim como tocou o meu ao contar tudo isso com tanto carinho. Muito obrigada por assistirem até o final, por dedicarem seu tempo precioso a esta história. Um grande abraço a todos vocês. Fiquem com Deus e até a próxima história.