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Em 1989, Vaqueiro some no Mato Grosso, 14 anos depois, ao trocar o curral encontram o impossível

Em 1989, vaqueiro some no Mato Grosso; 14 anos depois, ao trocar o curral, encontram o impossível

“Benedito sempre volta antes do almoço”, disse Dona Conceição pela vigésima vez naquela tarde de março, enxugando as mãos no avental enquanto olhava o horizonte pela janela da cozinha. O sol já começava a se inclinar para o oeste, tingindo de dourado as pastagens da fazenda Santa Rita, e ainda não havia sinal de seu marido.

Era 15 de março de 1989, uma quarta-feira como tantas outras, no coração do Mato Grosso, a 80 km de Cáceres. Benedito Moreira da Silva, 34 anos, havia saído antes do amanhecer para verificar o gado no pasto do fundo, como fazia há mais de uma década. Ele conhecia cada centímetro daquelas terras como a palma da mão. O calor úmido grudava em sua pele como mel, típico da época das chuvas, que se arrumava mais do que o esperado.

As cigarras cantavam ensurdecedoras nos ipês-amarelos, e o cheiro de terra molhada misturava-se ao aroma doce do capim-colonião. Benedito havia montado em seu fiel cavalo baio, o Trovão, levando apenas seu alforje com rapadura, paçoca e uma garrafa d’água, além do facão preso à cintura e o laço enrolado na sela.

“Pai sempre volta”, murmurou Josemar, o filho mais velho de 12 anos, tentando tranquilizar a mãe, mas sua voz traía uma inquietação que crescia a cada hora que passava. A fazenda pertencia ao coronel Antônio Mendes desde 1962. Um homem respeitado na região que tratava bem seus funcionários. Benedito era considerado o melhor peão da propriedade, capaz de laçar um boi bravo no meio da mata fechada ou encontrar uma rês perdida onde outros nem pensariam em procurar.

Ele havia nascido e crescido naquelas terras, filho de um ex-capataz, e conhecia cada córrego, cada árvore centenária, cada trilha aberta pelo gado. Quando o sol tocou o horizonte sem que Benedito aparecesse, Conceição sentiu um frio no estômago, que nada tinha a ver com a brisa noturna que começava a soprar.

Ela conhecia o marido há 16 anos, desde que se casaram na pequena igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Cáceres. E nunca, em todos aqueles anos, ele havia ficado fora de casa sem avisar ninguém. O coronel Antônio chegou à casa dos funcionários por volta das 20h, trazendo mais três peões. Eles organizaram tochas e lanternas e partiram em direção ao pasto do fundo, seguindo a trilha que Benedito costumava fazer.

O grupo cavalgou por horas na escuridão, gritando o seu nome, ouvindo apenas o eco de suas próprias vozes, perdendo-se na imensidão do cerrado. Eles encontraram Trovão pastando calmamente perto do córrego das pedras brancas, ainda com a sela e a armação intactas. O alforje estava amarrado normalmente, mas quando o abriram, encontraram tudo exatamente como Benedito havia arrumado naquela manhã.

A comida estava guardada, a água ainda fresca na garrafa. O facão estava no chão, a poucos metros do cavalo, como se tivesse caído de sua cintura durante uma queda, mas não havia sangue, nem sinais de luta, nem pegadas indicando para onde Benedito havia ido. Ele tinha sumido. Era como se ele simplesmente tivesse desmontado do cavalo e desaparecido.

Naquela noite, enquanto os homens reviam a área com lanternas piscando na escuridão, Conceição ficou acordada na cozinha, preparando café para quando o marido voltasse, porque ele voltaria, ele tinha que voltar. Benedito conhecia aquela terra melhor do que qualquer homem vivo. Mas quando o sol nasceu, em 16 de março de 1989, Benedito Moreira da Silva continuava desaparecido, e a fazenda Santa Rita nunca mais seria a mesma. Ele não desapareceu simplesmente.

Um homem como o Benedito não some assim, repetia o coronel Antônio para quem quisesse ouvir. Mas sua voz já não transmitia a mesma convicção dos primeiros dias. Duas semanas haviam se passado desde o seu desaparecimento e a operação de busca havia se tornado a maior mobilização já vista na região.

Peões de fazendas vizinhas, bombeiros de Cuiabá, polícia militar e até alguns índios bororos uniram forças para revistar cada metro quadrado de mata, cada ravina, cada buraco onde um homem pudesse ter caído. Dona Conceição não conseguia… Ela precisava comer mais. Ela havia perdido tanto peso que suas roupas pareciam penduradas em seu corpo como trapos em um espantalho.

Ela passava os dias caminhando pela fazenda, chamando pelo marido com uma voz cada vez mais rouca, até que Josemar ou uma de suas filhas mais novas a traziam de volta para casa à força. “Mãe, você precisa comer alguma coisa”, implorou Rosimar, de 10 anos, oferecendo um prato de arroz com pequi que o vizinho havia preparado. Mas Conceição apenas balançou a cabeça, com os olhos fixos na estrada de terra, onde Benedito deveria aparecer a qualquer momento.

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As teorias multiplicaram-se como ervas daninhas. Alguns diziam que ele havia sido atacado por uma onça, embora não houvesse sinais de sangue ou luta. Outros sussurravam sobre dívidas de jogo ou envolvimento com contrabandistas que cruzavam a fronteira com a Bolívia. Houve até quem murmurasse sobre maldições indígenas, já que a fazenda havia sido construída sobre antigos cemitérios bororos.

O delegado Firmino Cavalcante, um homem prático de 50 anos que conhecia bem os problemas da região, não acreditou em nenhuma daquelas versões. “Um peão como o Benedito não cai em buracos, não se perde no mato e não foge da família”, disse, acendendo outro cigarro Continental enquanto estudava o mapa da fazenda pela centésima vez.

A investigação revelou detalhes perturbadores. Na manhã de seu desaparecimento, Benedito havia sido visto conversando com um homem desconhecido perto do curral principal, por volta das 5 da manhã. A testemunha era João Batista, outro peão da fazenda, mas sua descrição do estranho era vaga. Um homem alto, de chapéu, falava de um jeito meio incomum.

Ele não era daquela região. Quando questionado por que não havia mencionado isso antes, João Batista baixou os olhos. “Achei que não fosse importante, doutor. O Benedito conversava com muita gente.” As buscas estenderam-se para além dos limites da fazenda. Mergulhadores revistaram o rio Paraguai e seus afluentes. Cães farejadores foram trazidos de Campo Grande, mas sempre perdiam o rastro no mesmo lugar, perto do córrego das Pedras Brancas, onde o Trovão havia sido encontrado.

Seis meses depois, quando as chuvas de outubro começaram a castigar a região, as buscas oficiais foram suspensas. O coronel Antônio continuou financiando expedições particulares por mais um ano, mas até a sua determinação começou a diminuir diante da imensidão do cerrado e da completa ausência de pistas. A vida na fazenda Santa Rita continuou, mas nunca mais foi a mesma.

Conceição envelhecia visivelmente a cada dia, os cabelos ficando grisalhos prematuramente, as mãos sempre tremendo levemente. As crianças cresceram carregando o peso da ausência do pai e Josemar, aos 13 anos, já trabalhava como peão para ajudar no sustento da família. Em 1991, dois anos após o desaparecimento, um homem apareceu na fazenda afirmando ter visto Benedito em uma cidade do interior de Rondônia.

Conceição vendeu suas duas vacas para pagar a viagem até lá, mas encontrou apenas um homem parecido com ele e que não era seu marido. Em 1993, foi a vez de um garimpeiro jurar que havia trabalhado com Benedito em um garimpo ilegal perto da fronteira. Outra viagem, outra decepção, outro pedaço da alma de Conceição que se estilhaçava.

Os anos passaram como páginas arrancadas de um calendário: 1994, 1995, 1996. O coronel Antônio morreu de ataque cardíaco em 1997 e seus filhos venderam a fazenda para um grupo de empresários de São Paulo. A nova administração não teve paciência para histórias do passado e demitiu vários funcionários antigos. Conceição e seus filhos foram obrigados a se mudar para a periferia de Cáceres, onde ela conseguiu trabalho como empregada doméstica.

Josemar tornou-se soldado do exército. As meninas casaram-se jovens e espalharam-se pelo Brasil. A família desmoronou como um punhado de terra seca jogada ao vento, mas Conceição nunca parou de procurar. Mesmo morando na cidade, ela voltava à fazenda todos os meses, percorrendo os mesmos caminhos, chamando o mesmo nome, esperando pelo mesmo milagre que nunca vinha.

Em março de 2003, exatamente 14 anos após o desaparecimento, ela estava lá novamente, uma mulher de 52 anos que aparentava 70, quando ouviu o barulho de tratores e maquinário pesado vindo da sede da fazenda. Os novos proprietários haviam decidido modernizar as instalações e foi aí que o impossível aconteceu.

“Cuidado com essa tábua, ela está podre!”, gritou Valdecir, o encarregado contratado para a reforma, quando seus homens começaram a desmontar o curral principal da fazenda. Era uma estrutura antiga feita de madeira de aroeira, que havia resistido ao teste do tempo por mais de 40 anos. Era a manhã de 18 de março de 2003 e o cronograma estava apertado. Os novos donos da fazenda queriam tudo pronto antes do início da estação seca, em maio.

Currais modernos, cercas de arame galvanizado, sistema de identificação eletrônica do gado — tudo para transformar a antiga fazenda Santa Rita em um empreendimento do século XX. Conceição havia chegado cedo, como sempre fazia naquele mês. Observava o trabalho de longe, com o coração apertado ao ver aqueles homens derrubando pedaços da história onde Benedito havia trabalhado por tantos anos.

Cada tábua que caía era como um pedaço de suas memórias sendo arrancado. “A senhora não pode ficar aqui”, disse o encarregado. “Não, sem maldade. É perigoso. Tem maquinário pesado trabalhando.” Mas ela não se moveu. Permaneceu ali, sob a sombra de um pé de pequi, assistindo ao desmantelamento de sua vida passada.

Foi Toninho, um dos pedreiros da equipe, que notou algo estranho quando retiraram as tábuas do fundo do curral. ‘Ei, Valdecir, vem cá ver isso’, chamou. A voz estranha apontou para uma das vigas de sustentação. Valdecir aproximou-se e franziu a testa. Entre duas vigas de aroeira, no canto mais escuro do curral, havia algo que não deveria estar ali, uma cavidade artificial, como se alguém tivesse removido parte da madeira com cuidado para criar um esconderijo.

‘Isso não é cupim’, murmurou o encarregado, passando a mão sobre a abertura. A madeira havia sido cortada com precisão, formando um buraco retangular de cerca de 30 cm por 20 cm. E dentro, envolto em lona plástica, amarelada pelo tempo, havia um objeto. Valdecir retirou a embalagem com cuidado. Era… pesado, do tamanho de uma caixa de sapatos.

A lona estava bem amarrada com barbante e, ao ser desfeita, revelou algo que silenciou todos os homens. Uma caixa de madeira esculpida à mão com a tampa pregada com pequenos pregos enferrujados. Na tampa, marcadas a ferro quente, estavam as iniciais BMS: Benedito Moreira da Silva. “Jesus Cristo!”, sussurrou Toninho, fazendo o sinal da cruz.

A notícia espalhou-se pela fazenda como fogo em palha. Conceição, que havia sido afastada pelos trabalhadores, soube do achado ao ver os homens correndo em sua direção, todos falando ao mesmo tempo, gesticulando excitadamente. Quando entendeu o que estava acontecendo, suas pernas falharam. Josemar, que havia chegado de Campo Grande para visitar a mãe, teve que ampará-la enquanto ela tropeçava em direção ao curral, com o coração batendo tão forte que parecia que ia saltar do peito.

A caixa estava sobre uma tábua improvisada, cercada pelos trabalhadores que a observavam com uma mistura de curiosidade e respeito. Conceição aproximou-se lentamente, como se fosse uma relíquia sagrada que pudesse desmoronar ao menor toque. “São as iniciais dele”, disse ela. A voz, um fio de som. “BMS. Benedito Moreira da Silva.

Meu marido sempre assinava documentos assim.” Valdecir olhou para Josemar, que assentiu. Usando uma chave de fenda, o encarregado removeu cuidadosamente os pregos da tampa. O rangido da madeira seca ecoou no silêncio absoluto que se instalou ao redor do curral. Dentro, arrumados com o cuidado de quem sabia que estava deixando uma mensagem para o futuro, estavam os objetos que contariam a verdade sobre o desaparecimento de Benedito Moreira da Silva: um caderno escolar de capa dura azul, com as páginas amareladas pela umidade, mas ainda legíveis. Uma carteira de identidade em nome de

Benedito. Uma foto de família, um terço de madeira que Conceição reconheceu imediatamente — era o que ela havia dado ao marido de presente de casamento — e, no fundo da caixa, envolto em um pedaço de tecido que um dia fora branco, um revólver calibre .38 com apenas quatro balas no tambor.

Mas foi quando Josemar abriu o caderno que o silêncio se transformou em algo quase palpável. Na primeira página, com a caligrafia caprichada que Conceição conhecia tão bem, estava escrito: “Se alguém está lendo isso, é porque já estou morto e finalmente encontraram a minha mensagem. Meu nome é Benedito Moreira da Silva e preciso contar a verdade sobre o que aconteceu naquele dia, 15 de março de 1989.

Não posso morrer sem que minha família saiba que eu não os abandonei. Eu jamais os abandonaria.” Conceição desatou a chorar, mas não eram lágrimas de tristeza, eram lágrimas de alívio. Depois de 14 anos, ela finalmente saberia a verdade. O detetive Cavalcante, já aposentado, mas ainda morando em Cáceres, chegou à fazenda no final da tarde.

Aos 64 anos, ele caminhava mais devagar e seus cabelos estavam completamente brancos. Mas seus olhos continuavam atentos e perceptivos. Quando Josemar ligou para lhe contar sobre a descoberta, ele não hesitou em percorrer os 80 km até a fazenda. “Em 30 anos de polícia, nunca vi nada parecido”, disse ele, folheando cuidadosamente as páginas do caderno.

“É como se ele soubesse que ia morrer” e decidiu deixar um testemunho. Conceição estava sentada na varanda da antiga sede da fazenda, agora transformada em escritório da nova administração. Ela segurava o terço de Benedito entre os dedos enquanto Josemar lia em voz alta os trechos mais importantes do diário. A história que emergiu das páginas amareladas era muito diferente de tudo o que haviam imaginado durante aqueles 14 anos.

15 de março de 1989, 4:00 da manhã, começava a primeira anotação. “Não consegui dormir a noite toda. Ontem à tarde, quando fui buscar o gado no pasto do fundo, vi algo que não deveria ter visto. Agora não sei o que fazer.” A caligrafia de Benedito, sempre meticulosa, começou a tremer mais à medida que avançava na narrativa.

“Vi o coronel Antônio conversando com três homens que eu não conhecia. Homens da cidade, de terno e gravata. Eles não eram fazendeiros. Estavam perto do pasto onde o gado sempre morre. Aquela área que o coronel não deixa ninguém chegar perto, dizendo que é perigoso. Consegui ouvir parte da conversa.

Eles estavam falando sobre mercadoria enterrada, realocação. Problema resolvido. Um dos homens entregou um envelope grosso ao coronel. Dinheiro, com certeza. Agora entendo por que o gado morre naquela área. Não é doença. Eles enterraram algo lá, algo que mata os animais quando eles se aproximam.” Josemar parou de leitura e olhou para a mãe.

“Mãe, você se lembra daquele pasto onde o coronel não deixava ninguém entrar?” Conceição assentiu lentamente. Seu pai sempre achou estranho. Ele dizia que não fazia sentido deixar um bom pasto sem uso, principalmente um pasto com terra preta boa para capim. O delegado Cavalcante interveio. “Continue lendo, rapaz. Isso está ficando interessante.”

“5:30 da manhã. O coronel apareceu na minha casa e disse que queria falar comigo antes de eu sair para o trabalho. Ele perguntou se eu tinha visto algo estranho ontem. Fingi que não, mas ele continuou me olhando com desconfiança. Ele disse que alguns homens da cidade viriam aqui hoje à tarde para resolver alguns problemas para mim.

Ele pediu que eu os acompanhasse até o pasto do fundo e lhes mostrasse os locais onde o gado costuma pastar. Estou com medo, Conceição. Se alguma coisa me acontecer, quero que saiba que é porque descobri algo que não devia. O coronel sempre foi bom para mim, mas hoje havia algo diferente em seus olhos.” A voz de Josemar falhou ao chegar à próxima parte.

“Escondi este caderno e minhas coisas no curral. Se eu não voltar para casa hoje, significa que algo deu errado. Procure no curral principal, na viga dos fundos, lado esquerdo. Você é tudo para mim. Eu não queria te deixar, mas não posso fingir que não vi o que vi. Conceição, meu amor, cuide bem dos meninos. Josemar, seja um homem bom e proteja sua mãe e suas irmãs.

Rosimar, estude muito para ser alguém na vida. Cleomar e Josimar, obedeçam sempre à sua mãe. Se você está lendo isso, é porque Deus quis que a verdade viesse à tona. Não procurem vingança. Apenas saibam que os amei até o último momento da minha vida.” O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelos gritos de urubus e pelos sons distantes do gado pastando.

O delegado fechou o caderno lentamente e suspirou: “Dona Conceição, a senhora tem ideia do que seu marido possa ter visto naquele pasto?” Ela balançou a cabeça, enxugando as lágrimas com o lenço. “Nunca soube de nada, doutor. O coronel sempre foi bom para nós. Mas agora, pensando bem, ele morreu muito rico para quem só tinha gado e lavoura.”

Josemar pegou o caderno das mãos do delegado. “Ainda tem mais uma coisa aqui no final”, disse ele, folheando até a última página escrita. “15 de março, 11:00 da manhã. Voltei do pasto. Vi o que eles enterraram lá. Tambores de metal com símbolos que não reconheço. Forte cheiro químico que arde os olhos.

Agora entendo por que o gado morre. O coronel me ofereceu dinheiro para esquecer tudo. Muito dinheiro. Ele disse que era melhor para mim e para minha família, mas não posso aceitar dinheiro sujo. Não posso fingir que não vi. Falarei com o delegado Cavalcante amanhã de manhã. Ele é um homem honesto. Saberá o que fazer. Se eu não puder falar com ele, se algo me acontecer antes disso, pelo menos este testemunho ficará.

A verdade sempre vem à tona, mais cedo ou mais tarde.” O delegado levantou-se, com o rosto sério. “Dona Conceição, seu marido era um homem íntegro. Ele morreu porque descobriu algo que poderia ter mudado muita coisa nesta região.” Ele olhou para o horizonte, onde o sol começava a se pôr atrás das colinas.

“Agora precisamos descobrir onde ele está enterrado e o que aconteceu com aqueles tambores.” Três dias após a descoberta do diário, uma operação conjunta entre a Polícia Federal, o IBAMA e o Ministério Público desembarcou na fazenda Santa Rita. O caso havia tomado proporções que ninguém imaginava quando Benedito escreveu suas últimas palavras naquele caderno escolar.

O Dr. Fernando Leal, procurador federal especializado em crimes ambientais, estava encarregado das investigações. Era um homem meticuloso, de óculos grossos e jeito de falar comedido, que havia visto casos semelhantes em outras regiões do país durante os anos 80 e 90. “Na época do desaparecimento de seu marido”, explicou ele a Conceição, “era comum empresas estrangeiras pagarem a fazendeiros para enterrar lixo tóxico em áreas rurais.

O Brasil não tinha fiscalização adequada e muita gente ganhou dinheiro fácil com isso.” As escavações no “Pasto da Morte”, como os vizinhos já chamavam a área, começaram na manhã de 22 de março. Equipamentos especiais de detecção química confirmaram a presença de substâncias tóxicas no solo, enterradas a aproximadamente 2 metros de profundidade.

Quando as máquinas trouxeram à superfície o primeiro tambor de metal, corroído pela ferrugem e com símbolos de caveira pintados na lateral, todos souberam que Benedito havia pago com a vida por uma descoberta que poderia ter evitado uma catástrofe ambiental. Eram 47 tambores no total, contendo resíduos químicos altamente tóxicos de uma empresa farmacêutica alemã.

O coronel Antônio havia recebido o equivalente a R$ 200.000 (duzentos mil reais) na época para permitir o despejo clandestino em suas terras. “Seu marido salvou muitas vidas”, disse o Dr. Fernando a Conceição, enquanto observavam as equipes especializadas retirando os tambores com equipamentos de proteção. “E se essa contaminação tivesse chegado ao lençol freático, poderia ter envenenado toda a região.”

Mas a pergunta que atormentava Conceição há 14 anos continuava sem resposta: onde estava o corpo de Benedito? A resposta veio três semanas depois, por meio de um telefonema inesperado. O padre Anselmo, da igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Cáceres, pediu para falar com urgência com a família de Benedito. “Recebi uma confissão que preciso compartilhar”, disse o padre, um homem de 78 anos que conhecia Benedito desde a infância.

“O senhor Manuel Torres está internado em estado grave com câncer no fígado. Ele pediu para chamá-los.” Manuel Torres havia sido capataz da fazenda vizinha à Santa Rita, homem respeitado na região, casado, pai de quatro filhos, que frequentava a missa todos os domingos e nunca havia dado motivos para suspeitas.

No Hospital São Luís, em Cáceres, ele estava irreconhecível. O câncer havia consumido seu corpo robusto, restando apenas pele e osso, mas seus olhos ainda brilhavam com a urgência de quem precisava aliviar a consciência antes de partir. “Dona Conceição!”, disse ele, com a voz fraca, mas firme. “Eu matei seu marido.

Não posso morrer sem pedir perdão.” Conceição sentiu o mundo girar ao seu redor, mas forçou-se a ficar de pé. Josemar segurou sua mão, dando-lhe forças para ouvir o que precisava ser ouvido. “O coronel Antônio me pagou para resolver o problema do Benedito”, continuou Manuel, lutando para falar entre crises de tosse. “Ele disse que ele tinha visto coisas que poderiam destruir todos nós.

Ele me deu 50.000 cruzeiros e disse que era pelo bem da região. Encontrei o Benedito no córrego das Pedras Brancas no dia 15 de março. Disse a ele que tinha um serviço para ele fazer longe da fazenda. Quando ele desceu do cavalo para conversarmos melhor, atirei pelas costas.” Conceição fechou os olhos, respirando fundo. Depois de 14 anos, ela finalmente sabia como seu marido havia morrido.

“Eu o enterrei no cemitério da minha fazenda, embaixo da mangueira atrás da casa sede. Ninguém nunca desconfiou de nada. Toda semana eu levava flores lá, fingindo que era para enfeitar o jardim.” Manuel Torres morreu dois dias depois, carregando consigo o peso de um crime que havia guardado por 14 anos. Mas sua confissão finalmente permitiu que Benedito fosse encontrado e sepultado com a dignidade que merecia.

O corpo estava exatamente onde Manuel havia dito. Preservado pela terra argilosa da região, ainda foi possível identificá-lo pelas roupas que Conceição reconheceu imediatamente e pela aliança que ele nunca havia tirado do dedo. Em 15 de abril de 2003, exatamente 14 anos e um mês após o seu desaparecimento, Benedito Moreira da Silva foi sepultado no cemitério municipal de Cáceres com honras de herói.

Centenas de pessoas compareceram ao funeral, incluindo autoridades federais, ambientalistas e vizinhos que finalmente entenderam por que aquele homem simples havia desaparecido. Na lápide, Conceição mandou gravar uma frase simples que resumia toda a história: “Benedito Moreira da Silva morreu defendendo a verdade.”

O coronel Antônio já havia falecido quando a verdade veio à tona, mas seus filhos foram obrigados a indenizar as famílias afetadas pela contaminação e a pagar uma multa milionária por crimes ambientais. A empresa alemã responsável pelos resíduos também foi processada internacionalmente. Conceição continuou morando em Cáceres, mas agora com a paz de quem finalmente sabe a verdade.

Aos 52 anos, ela decidiu que ainda tinha muito o que viver. Voltou a sorrir, a fazer planos e a acreditar que a vida valia a pena novamente. “Ele não nos abandonou”, dizia ela sempre que alguém perguntava sobre Benedito. “Ele morreu sendo o homem íntegro que sempre foi. E isso é tudo o que importa.” Em 2010, 7 anos após a descoberta do diário, a área da antiga fazenda Santa Rita foi transformada em reserva ambiental.

Uma placa na entrada conta a história de Benedito Moreira da Silva, o peão que sacrificou a vida para proteger o meio ambiente. Às vezes, quando o vento sopra forte pelas pastagens do Mato Grosso, os moradores mais antigos da região juram ouvir o som de cascos de cavalo ecoando no horizonte.

Dizem que é Benedito, montado em seu Trovão, ainda vigiando aquelas terras que amou até o último dia. Mas talvez isso seja apenas uma lenda. A verdade, porém, esteve escondida no curral por 14 anos, esperando o momento certo para vir à tona. E quando veio, mudou para sempre a vida de todos que a conheceram.

FIM.