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Jovem noiva desaparece em 1994 em Goiás, 18 anos depois, obras em casa revelam segredo guardado

Jovem noiva desaparece em 1994 em Goiás, 18 anos depois, obras em casa revelam segredo guardado

E se você estivesse prestes a se casar em três dias e simplesmente desaparecesse no meio da manhã, deixando para trás apenas pegadas na poeira vermelha de uma pequena cidade? Esta é a pergunta que assombra Trindade, em Goiás, desde outubro de 1994. Mariana Ferreira tinha 23 anos quando sua vida se tornou um dos mistérios mais perturbadores do interior de Goiás.

Castanho sempre preso em um rabo de cavalo, um sorriso largo que iluminava as manhãs na padaria da família. Ela era conhecida por acordar antes do galo cantar e varrer a calçada enquanto cumprimentava os vizinhos que passavam a caminho do trabalho. Naquela terça-feira, 18 de outubro, Trindade acordou envolta na típica neblina do Cerrado, no final da estação seca.

O ar trazia o cheiro de terra rachada e poeira grudada nas roupas. As ruas de paralelepípedo ainda guardavam a umidade das primeiras horas da manhã quando Mariana saiu de casa às 7h30, carregando uma caixa de papelão branca nas mãos. Dentro da caixa estava seu vestido de noiva, um modelo simples de cetim com mangas compridas e gola alta, costurado por Dona Conceição, a melhor costureira da cidade.

O casamento com Antônio Carlos, filho de comerciantes locais, estava marcado para o sábado seguinte. Era para ser apenas um ajuste final na barra. Ela estava radiante. Lembra da Dona Neusa? Que vendia pão de açúcar na esquina da praça? Ela disse que passaria no correio depois da costureira para enviar o convite para seus parentes em Brasília.

Ele disse que voltaria para o almoço. A costureira morava a apenas quatro quarteirões da casa da família Ferreira, na rua que levava à igreja matriz. Era um caminho que Mariana percorria de olhos fechados, familiarizada com cada paralelepípedo, cada portão azul ou verde das casas coloniais que ainda resistiam à passagem do tempo. Às 8h15, a mulher, que morava do outro lado da rua da costureira, viu Mariana batendo palmas no portão.

Dona Conceição atendeu a porta, pegou a caixa e elas entraram na casa. Quinze minutos depois, Mariana saiu, agora de mãos vazias, acenou para a costureira e caminhou em direção ao centro da cidade. Essa foi definitivamente a última vez que alguém a viu. O almoço passou e a tarde chegou. Às 17h, quando Mariana não apareceu para ajudar a fechar a padaria, seus pais começaram a se preocupar.

Dona Aparecida, sua mãe, saiu pelas ruas perguntando se alguém tinha visto sua filha. As respostas foram confusas e contraditórias. “Eu a vi perto do banco, conversando com um homem”, disse uma pessoa. “Não, ela estava caminhando sozinha em direção à rodoviária”, corrigiu outra. “Acho que a vi entrando em um Fusca azul”, acrescentou uma terceira pessoa.

Quando a noite caiu sobre Trindade e os postes iluminaram as praças, Mariana Ferreira havia se transformado em um fantasma. Ela estava lá de manhã, tão real quanto a poeira vermelha do Cerrado. A noite era meramente uma ausência que começava a doer no coração daqueles que a conheciam. O vestido permaneceu na costureira, esperando por uma noiva que nunca voltou para buscá-lo.

As primeiras 48 horas de uma busca determinam se uma pessoa será encontrada com vida ou se tornará apenas uma lembrança. Em Trindade, essas horas se estenderam em dias, semanas, meses de angústia coletiva. Na delegacia da cidade, que funcionava em uma pequena sala anexa à prefeitura, o delegado Osvaldo Pires recebeu o boletim de ocorrência na madrugada de quarta-feira.

Um homem de meia-idade, mais acostumado a brigas de bar e furtos de bicicletas, viu-se diante do primeiro caso de desaparecimento de sua carreira. Por dentro, “todo mundo conhece todo mundo”, dizia ele, ajeitando os óculos enquanto anotava as informações que os pais de Mariana forneciam, com as vozes trêmulas. Se ela tivesse fugido, alguém a teria visto.

Se algo tivesse acontecido, alguém teria ouvido. As buscas começaram na quinta-feira. Voluntários percorreram as estradas de terra que ligavam Trindade aos municípios vizinhos. Eles revistaram os eucaliptais plantados pelos agricultores, as capelas rurais abandonadas e os lagos que pontilhavam a região.

Os bombeiros de Anápolis vieram com cães farejadores, mas a pista desapareceu na praça central, como se Mariana tivesse simplesmente se dissolvido no ar quente do Cerrado. Antônio Carlos, o noivo, tornou-se o principal suspeito. Era natural. Estatisticamente, a maioria dos crimes contra as mulheres é cometida por parceiros ou ex-parceiros. Ele foi interrogado três vezes na primeira semana, mas sua história nunca mudou.

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Na manhã do desaparecimento, ele estava na loja do pai, atendendo clientes e organizando o estoque para a aproximação da estação chuvosa. “Temos 12 testemunhas que confirmam que ele estava lá”, observou o delegado. Clientes, funcionários, até seu próprio pai. Não há brecha em seu álibi. Ainda assim, a suspeita agarrou-se a Antônio Carlos, como poeira grudada em roupas, em conversas de esquina, em reuniões de chimarrão nas tardes de domingo, em missas de domingo.

Seu nome sempre aparecia seguido de reticências. “Será que ele não… Mas você não acha… Dizem que eles brigaram semana passada?” A família de Mariana começou a se desintegrar sob o peso da incerteza. Seu pai, Sebastião, um homem de poucas palavras que acordava às 4 da manhã para assar pão, começou a perambular pela cidade até altas horas da noite, parando em cada esquina para perguntar se alguém tinha visto algo novo.

Dona Aparecida parou de comer, começou a rezar o terço cinco vezes ao dia e via sua filha em cada jovem que passava pela rua de longe. Três meses depois, quando as primeiras chuvas de verão começaram a lavar as ruas empoeiradas de Trindade, as cartas chegaram. A primeira foi entregue na casa da família Ferreira em janeiro de 1995.

Papel liso, caligrafia cursiva cuidadosa, sem remetente. “Ela está bem. Ele foi embora porque quis. Não procure mais.” A segunda chegou uma semana depois. “Mariana pediu para eu dizer que está feliz estando longe daqui. Respeite a escolha dela.” Dona Aparecida levou as cartas à delegacia, com as mãos trêmulas.

“Essa não é a caligrafia da minha filha”, repetia ela. “Eu conheço as letras dela melhor do que ninguém. Isso é mentira.” Mas a cidade queria acreditar. Era mais fácil imaginar que Mariana havia fugido, talvez com um amor secreto, talvez cansada da vida pacata em Trindade, do que aceitar que algo terrível pudesse ter acontecido ali, naquelas ruas tranquilas onde todos se conheciam.

Os anos passaram, as buscas tornaram-se mais esporádicas e depois pararam completamente. O nome de Mariana Ferreira desapareceu das conversas diárias, permanecendo apenas nas orações de domingo na igreja matriz e na dor que seus pais carregavam como uma pedra no coração. Antônio Carlos casou-se com uma professora de Anápolis em 1998. Ele nunca mais falou publicamente sobre Mariana, mas quem o conhecia sabia que a sombra dela nunca o deixou por completo.

Em 18 de março de 2012, a casa número 47 da rua 7 de Setembro, no centro de Trindade, estava sendo reformada pela terceira vez em 40 anos. Era uma construção típica do interior do estado de Goiás na década de 1960. Paredes grossas de tijolos, telhado de barro e pé-direito alto, que mantinham o interior fresco mesmo nos dias mais quentes.

A casa tinha uma história peculiar. Pertencia a Joaquim Moreira, um tio distante de Antônio Carlos, que havia morrido em 2010 sem herdeiros diretos. Após uma batalha judicial de dois anos, o imóvel foi vendido a uma família de Goiânia, que queria transformá-lo em uma pousada para turistas que visitavam o santuário do Divino Pai Eterno.

Valdecir Santos, um pedreiro experiente de 52 anos, estava trabalhando na reforma da cozinha quando a descoberta ocorreu. Era uma manhã de segunda-feira e ele estava removendo uma parede divisória que separava a cozinha da área de serviço. A parede provavelmente havia sido construída na década de 1980, usando tijolos mais novos que o resto da casa.

“Enquanto eu martelava a terceira fileira de tijolos, senti que havia um vazio lá dentro”, relata Valdecir, limpando as mãos no pano que sempre carregava no cinto. “Não era normal. Tijolo maciço não faz esse som oco.” Ele abriu um pequeno buraco com a ponta e vislumbrou algo dentro da cavidade. Chamou seu colega de trabalho, José Roberto, e juntos removeram mais tijolos até conseguirem alcançar o interior.

O que encontraram fez os dois homens se entreolharem em silêncio por longos segundos. Era uma caixa de madeira, do tamanho de uma caixa de sapatos, envolta em plástico grosso. O plástico estava amarelado pelo tempo, mas ainda mantinha o conteúdo protegido da umidade. Valdecir a removeu com cuidado, como quem tira um pássaro ferido do ninho.

“Minha primeira reação foi pensar que era dinheiro escondido”, lembra. “Casas mais antigas sempre têm uma surpresa escondida nas paredes. Meu avô escondeu suas economias dentro do sótão da casa.” Mas quando abriram a caixa na mesa da cozinha, iluminada pela forte luz da manhã que entrava pela janela sem cortinas, o que viram os deixou sem fala.

No topo, cuidadosamente envolta em um tecido que já fora branco, estava uma aliança de casamento de ouro fina e simples, com uma gravação na parte interna. “M F + A C 22 10 1994”. As iniciais de Mariana Ferreira e Antônio Carlos, junto com o que seria a data do casamento deles. Embaixo do anel, uma fotografia em preto e branco, parcialmente queimada nas bordas.

A imagem mostrava uma jovem sorridente com o cabelo preso em um rabo de cavalo, usando um vestido floral. Mesmo com os danos do fogo, era possível reconhecer o rosto de Mariana. No fundo da caixa, um pequeno buquê de flores secas, rosas brancas que haviam ficado marrons com o tempo, mas ainda mantinham seu formato original. Eram as mesmas flores que Mariana havia escolhido para seu buquê de noiva.

Dona Conceição havia mencionado isso a várias pessoas na época do desaparecimento. Não havia carta, sem explicação, sem confissão, apenas aqueles objetos guardados dentro da parede por 18 anos. Valdecir e José Roberto levaram a caixa para a delegacia na mesma tarde.

O delegado atual, um jovem que havia assumido o cargo há poucos anos, abriu uma nova investigação sobre o caso Mariana Ferreira. A notícia se espalhou por Trindade como fogo em palha. Em poucas horas, a casa da rua 7 de Setembro estava cercada por curiosos. Dona Aparecida, agora com 68 anos e cabelos completamente brancos, foi até lá acompanhada pelo marido.

Ela segurou a aliança de casamento da filha nas mãos trêmulas e chorou em silêncio. “Sempre soube que ela não tinha fugido”, disse ela entre lágrimas. “Minha filha nunca deixaria esse anel para trás. Era o presente mais importante que ela tinha.” Mas a descoberta, em vez de trazer respostas, multiplicou as perguntas. Se Mariana havia morrido, onde estava seu corpo? Ela havia sido assassinada? Quem escondeu aqueles objetos na parede? Por que na casa do tio de seu ex-noivo? E quando exatamente aquela parede havia sido construída? A cidade que passou 18 anos tentando esquecer Mariana Ferreira descobriu que o tempo não apaga certos mistérios, apenas os enterra mais fundo. A verdade às vezes vem em fragmentos como pedaços de um espelho que, mesmo quando montados, nunca formam uma imagem completamente clara. Foi assim que, três semanas após a descoberta da caixa, Trindade começou a desmantelar um quebra-cabeça de 18 anos.

A primeira peça veio de uma fonte inesperada. Dona Eulália, vizinha da casa reformada, apareceu na delegacia em uma tarde chuvosa de abril. Aos 74 anos, ela caminhava devagar, apoiada em uma bengala de madeira, mas seus olhos ainda eram vivos e atentos. “Eu me lembro de quando eles fizeram aquilo.”

“Aquela parede”, disse ela ao detetive, sentando-se com cuidado na cadeira de plástico. “Era novembro de 1994. Lembro-me porque foi logo depois que a menina desapareceu e todo mundo ainda estava falando sobre isso.” Sua memória era surpreendentemente precisa. Joaquim Moreira, tio de Antônio Carlos, havia contratado um pedreiro de fora da cidade para fazer algumas reformas na casa.

“Ele disse que era para modernizar a cozinha, para dividir melhor os espaços, mas achei estranho porque a casa já era boa do jeito que estava.” O detetive anotou cada palavra. Novembro de 1994, apenas um mês após o desaparecimento de Mariana. A segunda informação veio dos registros da prefeitura.

A reforma da casa de Joaquim Moreira havia sido oficialmente registrada em 15 de novembro de 1994, mas não havia registro do pedreiro responsável. A licença havia sido solicitada pelo próprio Joaquim, que declarou que faria as modificações com sua própria mão de obra. Mas Joaquim Moreira era comerciante, vendia materiais de construção, nem sabia trocar uma lâmpada, segundo quem o conhecia.

Alguém havia construído. Essa parede era para ele, alguém que não queria deixar vestígios. A terceira peça chegou em uma ligação anônima para a rádio local. Uma voz masculina, claramente disfarçada, disse apenas: “Pergunte a Antônio Carlos onde ele estava na tarde de 18 de outubro de 1994. Não de manhã, à tarde.” O delegado convocou Antônio Carlos para um novo depoimento.

Agora com 42 anos, cabelo ralo e dono de uma loja de roupas que herdou do pai, ele parecia muito diferente do jovem de 24 anos que ia se casar com Mariana. “Já disse mil vezes onde eu estava”, repetiu nervosamente, ajeitando os óculos constantemente. “De manhã eu estava na loja, todo mundo pode confirmar isso.”

“E à tarde?”, perguntou o detetive. Antônio Carlos hesitou. Foi um silêncio de apenas 3 segundos, mas o suficiente para mudar toda a investigação. “À tarde eu saí mais cedo, fui cuidar de algumas coisas do casamento.” “Que coisas?” “Não me lembro exatamente. Faz muito tempo.” “Onde você foi?” Outro silêncio.

Antônio Carlos olhou para as próprias mãos. “Fui na casa do meu tio Joaquim. Ele ia me emprestar algumas cadeiras para a festa. Conversamos sobre os preparativos.” Foi a primeira vez em 18 anos que Antônio Carlos admitiu ter estado na casa onde os pertences de Mariana foram encontrados no dia do seu desaparecimento.

Dois dias depois, Joaquim Moreira Júnior, filho de um primo de Joaquim Moreira, que havia falecido, apareceu na delegacia com uma caixa de documentos do falecido. Entre recibos antigos e papéis sem importância, ele encontrou algo que fez o caso tomar um rumo definitivo. Era uma nota manuscrita datada… 20 de outubro de 1994, com a caligrafia trêmula de Joaquim.

“Antônio veio aqui muito nervoso. Ele disse que Mariana teve um acidente, que bateu a cabeça e morreu, que não foi intencional. Eu não acreditei nele, mas ele estava desesperado. Ele disse que se a polícia descobrisse, pensariam que ele a matou de propósito. Ele me pediu para ajudá-lo a esconder o corpo. Eu não queria saber os detalhes. Nós apenas a enterramos no pasto atrás da casa. Deus me perdoe.” No final da nota, uma segunda caligrafia, mais firme: “Guardei essas coisas dela antes de enterrá-la. Não sei por quê. Talvez um dia alguém precise saber a verdade. C.”

Confrontado com a nota, Antônio Carlos desmoronou. Não foi um colapso dramático, mas um colapso lento, como um muro velho que não consegue mais suportar o peso do tempo.

“Ela veio me procurar na loja”, disse ele, com a voz baixa, quase inaudível. “Ah, ela disse que tinha descoberto algo sobre mim, que ia cancelar o casamento, que eu havia mentido para ela sobre algo importante. Nós discutimos, ela saiu chateada.” Ele a seguiu até a casa de seu tio, que estava vazia.

Joaquim tinha saído para resolver negócios em Goiânia. A discussão continuou lá. “Eu só queria explicar. Ela não me deixava falar. Ela disse que ia contar a tudo mundo, que ia me envergonhar na frente da cidade inteira. Eu a empurrei só para ela me ouvir. Ela tropeçou, bateu a cabeça na quina da mesa da cozinha.”

Antônio Carlos parou de falar, olhou para as próprias mãos, como se pertencessem a outra pessoa. “Quando o tio Joaquim chegou, horas depois, ela já estava morta. Eu estava em pânico.” Ele disse que o ajudaria, que ele lhe devolveria esse favor pelo resto da vida. O corpo de Mariana foi enterrado no pasto atrás da casa, em uma cova profunda, coberto com cal.

A área foi posteriormente plantada com eucaliptos e nunca mais foi tocada. Joaquim construiu a parede na cozinha e escondeu a aliança, a foto e o buquê dentro como um túmulo simbólico. As cartas: as cartas anônimas que a família recebeu foram cunhadas pela cunhada de Joaquim, que sabia parte da história e achou que seria mais compassivo fazer os pais acreditarem que sua filha havia fugido.

Em maio de 2012, o corpo de Mariana Ferreira foi encontrado exatamente onde Antônio Carlos disse que estava. Ela foi enterrada no cemitério de Trindade em uma cerimônia com a presença de centenas de pessoas. Seus pais, agora com mais de 70 anos, puderam finalmente se despedir de sua filha. Antônio Carlos foi condenado a 12 anos de prisão por homicídio culposo e ocultação de cadáver.

Durante o julgamento, ele nunca revelou o segredo que Mariana havia descoberto que levou à discussão fatal. Hoje, a casa na rua 7 de Setembro funciona como uma pequena pousada. A cozinha foi completamente reformada, mas os hóspedes às vezes relatam um sentimento estranho ao passar por lá, como se as paredes ainda guardassem memórias que prefeririam esquecer.

Dona Aparecida acende uma vela para sua filha todo domingo na igreja matriz. “18 anos de espera”, diz ela, olhando para a foto de Mariana no altar. Mas no final, ela voltou para casa. Na lápide simples do cemitério, está escrito apenas: “Mariana Ferreira 1971-1994. Amada filha que nunca foi esquecida.”

O que levou à discussão fatal entre Mariana e Antônio Carlos naquela tarde de outubro continua sendo um mistério. Alguns segredos, mesmo depois de revelados, permanecem enterrados. Seis meses após o julgamento de Antônio Carlos, uma descoberta inesperada mudaria para sempre a forma como Trindade via toda a história. Era dezembro de 2012, e o padre Mário, pároco da Igreja Matriz há mais de 30 anos, estava organizando os antigos arquivos da paróquia para digitalização quando encontrou algo que o fez sentar pesadamente na cadeira de madeira em seu escritório.

Entre os registros de batismo de 1993, havia uma nota manuscrita que não estava nos livros oficiais. Era uma folha solta guardada dentro de um envelope lacrado com a caligrafia inconfundível do padre José, antecessor do padre Mário, falecido em 2005. A nota dizia: “Confissão de A.C. em 15 de setembro de 1994. Pecado de adultério, relacionamento com L.S., casada há 8 meses. Ele teme que sua noiva descubra antes do casamento. Ele pediu orientação sobre como confessar à família da moça. Aconselhei sinceridade, mas ele disse que preferia cancelar o casamento a envergonhar a todos. Que Deus o perdoe e o ilumine.”

Padre Mário leu e releu aquelas linhas, sentindo o peso da revelação. A.C.: Antônio Carlos Mendonça. L.S.: Certamente Lúcia Silva, que na época era casada com um dos vereadores da cidade e hoje morava em Goiânia como viúva. Esse era o segredo que Mariana havia descoberto, o motivo da discussão fatal que custou sua vida e destruiu a vida de Antônio Carlos.

Mas o padre Mário viu-se diante de um dilema moral que o atormentou por semanas. O sigilo da confissão é sagrado na Igreja Católica. Mesmo com o padre José morto e Antônio Carlos já condenado, revelar essa informação seria quebrar um dos preceitos mais fundamentais de sua fé. Por outro lado, a família de Mariana, especialmente seus pais, que agora tinham mais de 70 anos, passaram 18 anos sem saber por que sua filha havia morrido.

Eles não sabiam por que ela saiu de casa naquela manhã feliz para ajustar seu vestido de noiva e nunca mais voltou. Eles não sabiam que o último dia de sua vida foi marcado pela descoberta de uma traição que estilhaçou seus sonhos. Por três noites consecutivas, o padre Mário não conseguiu dormir. Ele rezou, pediu orientação a Deus, consultou textos teológicos.

No quarto dia, ele tomou uma decisão que mudaria sua própria vida. Ele procurou Dona Aparecida. Era uma tarde de sexta-feira quando ele bateu na porta da casa dos Ferreira. Dona Aparecida o recebeu com seu afeto habitual. O padre Mário havia oficiado o funeral de Mariana e era considerado parte da família.

“Aparecida”, disse ele, sentado na sala simples, decorada com fotografias de sua falecida filha. “Preciso te contar algo sobre Mariana, algo que pode te trazer paz, mas também pode te causar mais dor.” Ela olhou para ele com aqueles olhos que já haviam derramado todas as lágrimas imagináveis. “Padre, qualquer verdade é melhor do que essa dúvida que me corrói há tantos anos.”

E então, considerando cuidadosamente cada palavra, violando o sigilo de confissão pela primeira vez em 40 anos de sacerdócio, o padre Mário contou a nota do padre José. Ele disse que Antônio Carlos estava traindo Mariana há 8 meses. Ele disse que ela havia descoberto a traição na manhã do dia 18 de outubro, provavelmente por meio de uma carta ou de alguém que lhe contou e o confrontou.

Dona Aparecida ouviu em silêncio. Quando o padre Mário terminou, ela permaneceu imóvel por vários minutos, encarando a fotografia de sua filha na prateleira. “Minha menina morreu defendendo sua própria dignidade”, disse ela finalmente, com a voz firme apesar das lágrimas escorrendo pelo rosto. “Ela não fugiu, não se suicidou. Ela descobriu que o homem com quem ia casar era um mentiroso e foi cobrar satisfações. Esse era o jeito dela, sempre direta, sempre sincera.”

O padre Mário esperava raiva, esperava revolta, mas o que viu no rosto de Dona Aparecida foi algo parecido com alívio. “Sabe, Padre, todos esses anos eu me perguntei se tinha falhado como mãe, se Mariana tinha algum problema que eu não tinha notado, alguma tristeza escondida que a fazia querer desaparecer. Agora eu sei que ela morreu sendo exatamente quem sempre foi, uma jovem honesta que não aceitaria ser enganada.”

A notícia da traição de Antônio Carlos se espalhou discretamente por Trindade. Não houve escândalo, não houve manifestações. Era como se a cidade finalmente entendesse toda a dimensão da tragédia e preferisse mantê-la em silêncio respeitoso.

Lúcia Silva, confrontada por um jornalista de Goiânia que conhecia a história, confirmou o relacionamento em poucas palavras. “Foi um erro da minha juventude. Eu era infeliz no meu casamento e Antônio Carlos me deu atenção. Quando soube que Mariana havia morrido, me senti culpada pelo resto da vida. Se eu não tivesse me envolvido com ele, ela estaria viva hoje.”

Antônio Carlos, na prisão, recebeu a visita de um advogado que lhe perguntou se queria fazer uma declaração pública sobre o motivo da discussão. Ele recusou. “Já causei sofrimento demais. Que cada um tire suas próprias conclusões.”

O padre Mário nunca se arrependeu de ter quebrado o sigilo da confissão, mas a decisão o atormentou pelo resto da vida. Três anos depois, ele pediu transferência para uma paróquia em Brasília, citando problemas de saúde. Ele morreu em 2018, levando para o túmulo o peso de ter escolhido a compaixão humana em detrimento da obediência religiosa.

Hoje, quando os moradores de Trindade falam sobre o caso Mariana Ferreira, o fazem com um tom diferente. Não é mais o mistério sombrio de uma jovem que desapareceu sem explicação. É a história triste, mas compreensível, de uma jovem que descobriu estar sendo traída na véspera do casamento e confrontou o noivo. Infiel, ela morreu defendendo sua dignidade.

Na igreja matriz, Dona Aparecida continua acendendo uma vela para sua filha todo domingo, mas agora ela sorri quando olha para a fotografia de Mariana no altar. “Minha filha não foi uma vítima”, costuma dizer a quem pergunta. “Ela foi uma guerreira que morreu lutando pelo que acreditava, e isso me dá orgulho dela.”

O vestido de noiva ainda está guardado na casa de Dona Conceição, a costureira que se recusa a vendê-lo ou doá-lo. Um dia, ela diz: “Quando toda essa história desaparecer, vou queimar esse vestido em uma fogueira no Dia de São João para libertar a alma da Mariana de uma vez por todas.” Até lá, o vestido continua sendo uma testemunha silenciosa de um amor que terminou em tragédia, em uma cidade pequena onde todos conhecem todos, mas nem todos conhecem a verdade inteira. Pzie.