
Em 12 de novembro de 2019, às 6:41 da manhã, Renata Bastos Moreira postou uma foto nos stories do Instagram.
Aparecia sorrindo entre duas amigas na porta de uma pousada em lençóis na Bahia. A legenda dizia apenas: “Primeiro dia e a gente já tá assim”. A foto mostrava mochilas no chão, garrafas d’água, botas de trilha amarradas nos pés.
O sol ainda estava baixo. Ao fundo, a fachada descascada de uma pousada que cobrava R$ 90 a diária pelo quarto triplo. A mãe de Renata viu a foto às 7:12 enquanto tomava café no apartamento em Feira de Santana. Deu um like, não respondeu. Não precisava. A filha tinha 26 anos. Era professora de educação física, fazia trilhas desde os 19. e conhecia a Chapada Diamantina melhor do que a maioria dos guias credenciados.
As duas amigas que estavam com ela, Juliana Prado, evangelista, ex 28 anos, fisioterapeuta, e Camila de Souza Reis, 25, estudante de biologia, também não eram inexperientes.
Juliana tinha feito o Vale do Pat duas vezes. Camila estava no terceiro semestre de um curso de resgate voluntário em ambiente natural. As três se conheciam desde a adolescência.
cresceram juntas num bairro de classe média em Feira de Santana e compartilhavam uma rotina de caminhadas longas pelo interior baiano, desde que tinham idade para dirigir. Aquela terça-feira planejavam fazer uma trilha de dois dias pela região do Gerais do Vieira, um trecho menos frequentado ao sul do Parque Nacional da Chapada Diamantina, onde o terreno é aberto, rochoso, cortado por riachos rasos e por uma vegetação de campo rupestre que muda de cor conforme a altitude.
Disseram na pousada que voltavam na quinta-feira à tarde. Deixaram parte da bagagem no quarto, pagaram adiantado.
O carro de Juliana, um Fiat Pio Weekend Cinza, placa de Feira de Santana, ficou estacionado numa rua de terra a dois quarteirões da Praça Central de Lençóis.
Na quinta-feira não voltaram. Na sexta-feira o dono da pousada tentou ligar para os três números que constavam na ficha de registro. Nenhum atendeu. No sábado de manhã, a mãe de Renata ligou para a Polícia Militar de Lençóis. A viatura foi até a pousada. O carro ainda estava lá. As mochilas com roupas limpas continuavam sobre a cama de solteiro.
Três pares de chinelos de dedo enfileirados ao lado da porta. Essa não foi uma tragédia de montanha com explicação técnica. Não foi um caso de turistas desorientadas que pegaram a trilha errada num dia de chuva. E não foi um desaparecimento que o Corpo de Bombeiros resolveu em 72 horas com cães farejadores e helicóptero.
Foi a história de três mulheres jovens e preparadas que entraram a pé numa das paisagens mais conhecidas do Brasil e desapareceram por completo, sem vestígios, sem sinais. sem explicação durante 4 anos.
Até que em fevereiro de 2024, um drone operado por um grupo de geólogos da Universidade Federal da Bahia sobrevoou um platô remoto a 18 km da última trilha, conhecida das três, e registrou algo que não deveria estar ali. Símbolos enormes desenhados com pedras escuras sobre a rocha clara, visíveis apenas do alto, dispostos numa sequência que ninguém conseguiu decifrar. Nada na vida dessas três mulheres fazia prever o que aconteceu. Tinham empregos, tinham família, tinham planos para o fim do ano. Não estavam fugindo de nada, não tinham motivo para desaparecer. E no entanto, a chapada diamantinas engoliu numa manhã de novembro, como se elas nunca tivessem existido. Se esse tipo de história te faz questionar o que você acredita saber sobre lugares que parecem familiares, você pode se inscrever no canal e deixar sua opinião. A partir daqui, a história avança devagar. Tudo o que aconteceu precisa ser contado sem pressa. O que acontece quando três famílias descobrem ao mesmo tempo que o sistema de busca não foi feito para encontrar pessoas em lugares onde ninguém está olhando? Em que momento uma mãe para de esperar notícias e começa a procurar sozinha?
O que significam símbolos desenhados num lugar onde teoricamente ninguém esteve nos últimos 4 anos?
Estamos na Chapada Diamantina em novembro de 2019. O Parque Nacional tem mais de 72.000 haar. A parte sul, onde as três entraram não tem guarita, não tem controle de acesso, não tem sinal de celular e não tem trilha sinalizada depois do quilômetro 12. O corpo de bombeiros mais próximo fica em Itaberaba há quase 2 horas de estrada. Renata, Juliana e Camila não eram o tipo de pessoa que preocupava a família quando saía para o mato. Pelo contrário, eram elas que os outros chamavam quando precisavam de orientação sobre qual trilha fazer, que bota comprar, quanto de água levar por quilômetro.
Renata mantinha uma planilha no celular com todas as trilhas que já tinha feito na chapada, classificadas por dificuldade, tempo de caminhada e disponibilidade de água potável. Juliana era a que dirigia, a que organizava o transporte e a que sempre levava um kit de primeiro socorros completo e com atadura, antisséptico, analgésico e soro fisiológico.
Camila era a mais nova, a mais calada e a que levava os mapas impressos. por não confiava em GPS dentro do parque, onde o sinal desaparecia sem aviso? As três formavam um grupo que funcionava por hábito e confiança mútua, e quem as conhecia sabia que se houvesse um problema na trilha, elas provavelmente seriam as últimas a precisar de resgate.
Renata era filha de dona Marlene Bastos, funcionária pública aposentada, e de seu Osvaldo Moreira, motorista de ônibus intermunicipal que fazia a linha Feira de Santana Salvador havia 23 anos. A casa deles ficava no bairro Cidade Nova, numa rua asfaltada com mangueiras dos dois lados, onde todo mundo conhecia todo mundo e onde a porta da frente ficava aberta até às 8 da noite. Renata cresceu jogando queimada na rua e tomando banho de mangueira no quintal dos vizinhos e subindo nos morros do entorno com os primos nos fins de semana.
Quando tinha 19 anos, fez a primeira trilha organizada na Chapada, o Vale do Capão, e voltou diferente. A mãe notou.
Disse depois que a filha voltou com os olhos mais abertos, como se tivesse descoberto um lugar que sempre existiu, mas que ninguém tinha mostrado para ela.
A partir dali, Renata passou a fazer trilhas a cada dois meses, sempre com planejamento, sempre com companhia, sempre avisando onde ia e quando voltava. Era disciplinada, era metódica, era o tipo de pessoa que conferia a mochila duas vezes antes de sair e que deixava um bilhete na mesa da cozinha com o nome da trilha, o horário previsto de volta e o número do posto de saúde mais próximo. Juliana era diferente, mais extrovertida e mais impulsiva nas decisões pequenas, mas rigorosa nas grandes. tinha se formado em fisioterapia pela Universidade Estadual de Feira de Santana e trabalhava numa clínica no centro da cidade, atendendo pacientes de reabilitação motora. Morava com a mãe, dona Teresa Prado, num sobrado no bairro do Tomba, um dos mais antigos de feira, com ruas estreitas, casas geminadas e um comércio de porta que abria às 6 da manhã e fechava quando o dono bem entendia. Juliana era a que tinha carro.
O Fiat Palio e Ken Cinza era o veículo oficial das trilhas. O banco traseiro vivia com poeira vermelha e o porta-malas tinha cheiro permanente de protetor solar e repelente de inseto.
Era ela quem decidia os horários, quem calculava o combustível e quem negociava o preço da pousada. As amigas brincavam que Juliana era a gerente da expedição.
Ela não discordava. Camila era a mais reservada das três. Falava pouco, observava muito. Tinha entrado no curso de biologia na UEFS depois de do anos trabalhando como atendente numa loja de material de construção no centro de Feira. A mãe, dona Cásia de Souza, era auxiliar de enfermagem no hospital Cleriston Andrade e criou a filha sozinha desde os 4 anos. O apartamento onde moravam era pequeno, dois quartos, sala, cozinha e um banheiro com chuveiro elétrico que esquentava só quando queria. Camila guardava os mapas das trilhas num tubo de PVC atrás da porta do quarto. Tinha 17 mapas impressos.
todos anotados à mão, com caneta vermelha, marcando pontos de água, trechos de sombra e áreas onde o terreno ficava instável na época de chuva. era a mais cuidadosa das três em relação ao terreno e era a que mais respeitava os limites do corpo. Quando alguém do grupo sugeria esticar a trilha mais um pouco, Camila era a primeira a dizer que não, que o planejado era o planejado.
Ninguém discutia. As três tinham uma regra não escrita que repetiam entre si como se fosse um mantra de segurança. A gente avisa quando sai e avisa quando chega, sempre, sem exceção. E durante 7 anos de trilhas juntas nunca falharam com isso. Até aquela terça-feira de novembro, o dono da pousada serra morena, seu Newton, como era chamado na rua, lembrava com clareza do momento em que as três saíram. Era por volta das 7:15 da manhã. O sol já estava forte, mas a temperatura ainda estava amena, coisa de 20 e poucos graus.
Ele estava varrendo a calçada quando as viu descerem as escadas com as mochilas nas costas e os bastões de caminhada na mão. Renata acenou e disse que voltavam na quinta à tarde. Juliana perguntou se ele podia deixar o portão do quintal aberto, porque talvez chegassem depois das 6. Camila não disse nada. estava ajustando a alça da mochila e olhando para o céu. Seu Newton disse que sim, que podia deixar e voltou a varrer. Não perguntou para onde iam. Não era o tipo de pousada que pede roteiro. E as três não eram o tipo de hóspede que dava trabalho. Lençóis naquela época viviam novembro quente e seco. A temporada de chuvas ainda não tinha começado com força, mas embora nos dias anteriores tivesse caído uma pancada rápida no fim da tarde que deixou as ruas de terra com aquele cheiro de poeira molhada que qualquer pessoa do interior da Bahia conhece de memória. A cidade estava num ritmo de entreafra turística, pousadas com quartos vagos, restaurantes com meia lotação, guias locais sentados nas cadeiras de plástico da praça Horácio de Matos, esperando que alguém aparecesse pedindo roteiro. As três não contrataram guia, nunca contratavam. Conheciam a região e preferiam caminhar no próprio ritmo, sem compromisso de horário nem conversa obrigatória com desconhecido.
A trilha que escolheram, a que levava aos Gerais do Vieira, começava numa estrada de terra acessível por carro até o qu, onde uma porteira de arame farpado marcava o início do trecho a pé. Dali em diante, e o caminho seguia por campo aberto, com vegetação baixa de cerrado rupestre, pedras soltas no chão e um horizonte largo que dava a sensação de estar caminhando dentro de uma pintura.
Nos primeiros quilômetros, a trilha era clara e bem pisada.
Depois do quilômetro 8 começava a se desfazer. O capim crescia sobre o caminho. As marcações de tinta nas pedras ficavam cada vez mais espaçadas e a partir do quilômetro 12 não havia mais sinalização nenhuma. Quem seguia adiante precisava de mapa, bússola, um conhecimento real do terreno. As três tinham os três. Seu Newton contou depois que não estranhou quando elas não voltaram na quinta à tarde. Disse que era comum os hóspedes se atrasarem um dia, às vezes dois, especialmente os que faziam trilhas longas. A chapada era assim. O tempo lá dentro parecia andar diferente e as pessoas voltavam quando o corpo e o terreno deixavam.
Ele só começou a se preocupar na sexta-feira à noite, quando percebeu que o quarto continuava exatamente como elas tinham deixado, com as mochilas de roupa limpa sobre a cama, os chinelos ao lado da porta e uma sacola plástica com três barras de cereal e um pacote de castanha de caju em cima da mesinha do canto.
Naquela noite, ele tentou ligar para os números da ficha, nenhum atendeu. Os três celulares iam direto para a caixa postal. Na manhã do sábado, seu Newton avisou a PM local. A viatura passou pela pousada, conferiu o carro no estacionamento, anotou a placa e registrou a ocorrência como abandono de veículo com suspeita de atraso no retorno de atividade de trilha. Não foi classificado como desaparecimento.
Ainda não. E quando dona Marlene, mãe de Renata, ligou para a delegacia de lençóis naquele mesmo sábado de manhã, ouviu do plantonista, que era procedimento padrão, aguardar 72 horas antes de registrar um desaparecimento de adultos. Ela respondeu que já tinham se passado mais de 72 horas desde a quinta-feira, quando as meninas deveriam ter voltado. O plantonista pediu que ela fosse até a delegacia presencialmente.
Dona Marlene morava em Feira de Santana, a quase 400 km de distância.
disse que não tinha como ir naquele momento. O plantonista anotou o nome completo de Renata e disse que encaminharia a informação. Quando dona Marlene desligou o telefone, ficou parada na cozinha durante alguns minutos com a mão apoiada na bancada. Es olhando para a geladeira onde ainda estava presa com um ímã. A foto das três na formatura de Juliana.
Algo dentro dela já sabia que ninguém ia procurar com a urgência que aquele silêncio exigia. Dona Marlene ligou para dona Teresa na mesma hora. A conversa durou menos de 3 minutos. Não houve choro, não houve grito. Houve um silêncio denso entre as frases, como se as duas estivessem medindo cada palavra para não transformar em realidade, o que ainda podia ser apenas um atraso. Dona Teresa disse que ia ligar para o irmão de Juliana, que morava em Salvador, e talvez pudesse ir até lençóis mais rápido. Dona Marlene disse que ia tentar falar com a mãe de Camila. Desligaram sem se despedir, não por grosseria, por pressa, por medo de que cada segundo gasto no telefone fosse um segundo a menos de alguma coisa que nenhuma das duas sabia nomear. E dona Cásia, mãe de Camila, atendeu o telefone no corredor do hospital Cleriston Andrade, entre um plantão e outro. Estava de jaleco, com o cabelo preso e com olheiras de quem tinha dormido 4 horas. Quando dona Marlene explicou a situação, que as meninas não tinham voltado, que os celulares estavam desligados, que a polícia pedia 72 horas, dona Cásia não respondeu imediatamente.
Ficou encostada na parede do corredor, olhando para o chão de linóleo verde desbotado, com o telefone colado na orelha e a mão livre segurando a borda do jaleco, como se precisasse se apoiar em alguma coisa.
Depois de alguns segundos, disse apenas: “Eu saio daqui às duas. Me liga de novo quando souber mais”. A voz era firme, mas a mão tremia. No domingo, o irmão mais velho de Juliana, Marcos Prado, evangelista, 33 anos de corretor de imóveis em Salvador, dirigiu até Lençóis num Gol Prata e foi direto à delegacia.
registrou o boletim de ocorrência presencialmente com os dados das três. O delegado plantonista, que atendia sozinho num prédio sem ar- condicionado na entrada da cidade, ouviu o relato, anotou as informações e disse que iria acionar o corpo de bombeiros de Itaberaba.
Marcos perguntou quanto tempo levaria. O delegado disse que dependia da disponibilidade da equipe. Marcos insistiu. O delegado repetiu: “Depende da disponibilidade.” Marcos saiu da delegacia, sentou no banco da praça em frente, ligou para a mãe e disse: “Dona Teresa, aqui o negócio é devagar. A senhora precisa se preparar. O Corpo de Bombeiros de Itaberaba foi acionado na segunda-feira, 18 de novembro. Cinco dias depois de as 3 terem saído da pousada, Twichipe chegou a Lençóis na terça pela manhã com dois veículos, um cão farejador e sete bombeiros.
O comandante da operação era um sargento com 17 anos de experiência em busca e salvamento no interior da Bahia, que já tinha participado de resgates em grotas, cachoeiras e trilhas por toda a chapada.
Ele conhecia o terreno e sabia que cinco dias sem contato, numa região sem sinal e sem trilha sinalizada, era tempo suficiente para que qualquer pista de superfície tivesse sido apagada pelo vento, pela chuva ou pelo capim que cresce rápido naquela época do ano. A busca cobriu os primeiros 8 km da trilha que levava aos Gerais do Vieira, seguindo o trajeto mais provável com base nas informações que o dono da pousada e os familiares forneceram.
O cão farejador, um pastor belga chamado Bravo, extreinado em Jequier, seguiu um rastro até o quilômetro 6 e depois perdeu a pista num trecho de pedra lisa, onde o chão não guardava cheiro. Os bombeiros dividiram a equipe em dois grupos. Um seguiu pela trilha principal, o outro desceu para um vale lateral, onde havia uma nascente que os trilheiros costumavam usar como ponto de parada. Não encontraram nada na nascente, nenhuma marca de acampamento, nenhum lixo, nenhum sinal de presença humana recente. No terceiro dia de busca, encontraram uma garrafa d’água de plástico transparente, sem rótulo, presa entre duas pedras à margem de um córrego raso, a cerca de 7 km da porteira de entrada. A garrafa estava, amassada e com uma tampa azul que não correspondia ao modelo. Não havia como confirmar se pertencia às três. Foi recolhida e fotografada e incluída no relatório como item inconclusivo.
No quinto dia, um dos bombeiros localizou uma marca de bota na lama seca, perto de uma bifurcação, no quilômetro 8. A marca era de um solado de trilha compatível com o tipo de bota que as três usavam. Mas a chuva dos dias anteriores tinha comprometido qualquer possibilidade de rastro contínuo. A marca estava isolada. Não havia outras ao redor, como se alguém tivesse pisado ali uma única vez e depois desaparecido.
Do sexto ao nono dia, a busca foi ampliada para um raio de 4 km ao redor da bifurcação, incluindo grotões, trechos de mata ciliar e formações rochosas onde seria possível se abrigar.
Nenhum vestígio adicional foi encontrado.
Nenhuma peça de roupa, nenhum objeto pessoal, nenhuma marca de fogueira.
No nono di e a coordenação encerrou a operação de campo com um relatório de três páginas que dizia em linguagem técnica que as buscas foram inconclusivas e que não havia elementos suficientes para determinar a direção do deslocamento das desaparecidas após o quilm da trilha principal. Marcos ligou para dona Teresa e leu o relatório em voz alta. Dona Teresa ouviu em silêncio.
Quando ele terminou, ela perguntou: “E agora?” Marcos não soube responder.
Ninguém soube. Depois que a busca oficial foi encerrada, cada família voltou para casa com o mesmo vazio. Mas o vazio não era igual em cada casa. Era o mesmo buraco, mas cada uma caía de um jeito diferente. Dona Marlene, em Feira de Santana, passou a dormir com o celular debaixo do travesseiro, sempre no volume máximo, sempre carregando.
Maltava de madrugada para conferir se havia alguma ligação perdida.
cheva o WhatsApp da filha várias vezes por dia, olhando o último acesso. 12 de novembro de 2019, às 9:23, como se aquele horário fosse um relógio parado que a qualquer momento pudesse voltar a funcionar.
Seu Osvaldo, o pai de Renata, continuou trabalhando. Pegava o ônibus na rodoviária de feira às 5 da manhã, fazia a linha até Salvador, voltava à noite.
Não falava sobre a filha no trabalho, não falava sobre a filha em casa. Passou a fumar de novo depois de 14 anos sem cigarro. Dona Marlene encontrava as bitucas no quintal perto do tanque, sempre no mesmo canto, e não dizia nada.
Dona Teresa Prado, no sobrado do Tomba, parou de assistir ao noticiário da noite. O Jornal Nacional que ela acompanhava desde os anos 80, sem falhar um dia, e passou a ser insuportável.
Qualquer reportagem sobre pessoa desaparecida, acidente em área rural ou operação de busca fazia o estômago dela revirar. Ela trocou o horário do jantar para mais cedo, para não correr o risco de estar na cozinha quando o jornal começasse. O quarto de Juliana continuou exatamente como estava. A cama feita, a escrivaninha com os livros de fisioterapia empilhados, o jaleco pendurado atrás da porta. Dona Teresa entrava no quarto uma vez por dia, sempre no mesmo horário. Depois do almoço, ficava em pé no meio do cômodo durante alguns minutos e saía sem mexer em nada. Era um ritual que ela não explicava e que ninguém perguntava.
Dona Cásia, mãe de Camila, que vivia sozinha no apartamento pequeno no centro de feira, começou a ir à igreja toda manhã antes do trabalho. Não era a igreja grande da praça e era uma capela menor na rua de trás do hospital, com bancos de madeira escura e um cheiro de vela queimada que ficava impregnado na roupa. Dona Cásia entrava, sentava no último banco, ficava ali por 10 ou 15 minutos e saía sem falar com ninguém.
Não ia por fé renovada, ia porque precisava de um lugar onde o silêncio fosse aceito, sem explicação. Um lugar onde uma mulher sozinha podia chorar, olhando para a frente, sem que ninguém se aproximasse para perguntar o que havia acontecido.
As três mães se conheciam, tinham os números umas das outras, tinham sentado juntas em churrascos de aniversário, em formaturas, em almoços de domingo. Mas durante as primeiras semanas depois do fim da busca, quase não se falaram, não por distância, não por mágoa, por medo.
E medo de que uma ligação entre elas significasse confirmar o que nenhuma queria aceitar.
Medo de que, ao ouvir a voz da outra, a coisa toda ficasse real demais para aguentar. Cada uma carregava o peso sozinha dentro da própria casa, no próprio silêncio, como se dividir a dor fosse o mesmo que admitir que a dor era permanente.
Em janeiro de 2020, 2 meses depois do desaparecimento, dona Marlene quebrou esse silêncio. criou um grupo de WhatsApp com as outras duas mães, dois primos de Renata, o irmão mais velho de Juliana e um amigo de Camila, que trabalhava com geoprocessamento na Universidade Estadual de Feira de Santana. O grupo não tinha nome, ninguém sugeriu um, ninguém achou que precisava.
A primeira mensagem de dona Marlene foi direta, escrita em letras minúsculas, sem pontuação excessiva.
E no tom de quem já tinha pensado naquilo por semanas antes de digitar. Se o estado não vai procurar, a gente procura. Ninguém respondeu imediatamente.
A mensagem ficou ali lida por todos durante quase uma hora. Depois, dona Teresa mandou um áudio curto dizendo que concordava e que o Marcos podia ajudar com logística. Dona Cásia mandou apenas um OK. O amigo de Camila, Thiago Cerqueira, 27 anos, técnico em geoprocessamento, mandou uma mensagem longa oferecendo ajuda com mapas de satélite e imagens aéreas da região. E Alessandro, primo de Renata, 32 anos, eletricista autônomo, que morava no mesmo bairro da tia, mandou uma mensagem que dizia: “Tia, me diz quando e eu vou.” A partir dali, o grupo passou a se reunir a cada 15 dias numa mesa de plástico branca no quintal da casa de dona Marlene, na debaixo de uma mangueira que dava sombra até às 3 da tarde. As reuniões tinham sempre a mesma estrutura. Café coado na hora, mapas impressos abertos sobre a mesa, um caderno onde dona Marlene anotava tudo com uma caneta azul e uma conversa que durava entre duas e 3 horas. Não havia coordenação formal, não havia líder eleito, mas todo mundo sabia que era dona Marlene quem segurava as pontas.
Era ela quem ligava para confirmar a reunião. Era ela quem cobrava os avanços. Era ela quem, quando o desânimo batia e alguém sugeria que talvez fosse hora de aceitar, olhava para por a pessoa com aqueles olhos firmes de mulher do sertão baiano e dizia, sem levantar a voz: “Aceitar o quê?” Tiago trouxe para a segunda reunião uma série de imagens de satélite da região do Gerais do Vieira. e impressas em folhas, a três que ele tinha imprimido no laboratório da universidade sem pedir autorização.
As imagens mostravam o terreno visto de cima, com uma resolução razoável, mas não suficiente para identificar pessoas ou objetos pequenos. Ele explicou que o Google Earth tinha imagens daquela área com atraso de meses, às vezes anos, e que as imagens comerciais de melhor resolução custavam dinheiro que nenhum deles tinha. Mesmo assim, marcou nas impressões os pontos que os bombeiros tinham coberto, os pontos que não tinham sido visitados e os trechos onde o terreno mudava de forma abrupta.
Despenhadeiros, grotões fundos, formações rochosas que poderiam servir de abrigo ou que poderiam esconder o que ninguém queria imaginar. Alessandro foi o primeiro a ir até Lençóis por conta própria. Pegou o carro numa sexta-feira de fevereiro. Mod dirigiu às quase 6 horas de estrada. Dormiu no banco traseiro num posto de gasolina na entrada da cidade e no sábado de manhã entrou na trilha sozinho com uma mochila, 3 L de água, uma bússola emprestada e o mapa de Thago dobrado no bolso da calça. Percorreu durante três dias os trechos que os bombeiros não tinham coberto. vales laterais, formações de pedra ao norte da bifurcação, um trecho de mata fechada que descia para um rio de pedras, onde a água corria rasa e fria, mesmo no calor de fevereiro. Não encontrou nada, nenhum rastro, nenhum objeto, nenhuma marca.
voltou para a Feira de Santana com as botas destruídas, a pele queimada de sol e uma certeza que passou a repetir em todas as reuniões seguintes. Elas não estão na trilha principal, isso eu garanto. Se estivessem, alguém já tinha achado. Elas foram para outro lugar.
Esse um lugar que a gente ainda não sabe qual é. Ao longo de 2020, Alessandro fez mais quatro viagens a lençóis. sempre sozinho, sempre com o próprio dinheiro, sempre dormindo no carro. Na terceira viagem, Marcos, o irmão de Juliana, foi junto. Os dois cobriram um trecho novo ao sudoeste, seguindo uma indicação de um morador da zona rural de Palmeiras, que disse ter visto três mulheres caminhando por uma estrada de terra no final de novembro de 2019.
A informação não se confirmou. O morador, quando pressionado, admitiu que não tinha certeza da data e que poderiam ter sido outras pessoas.
Alessandro anotou o depoimento no caderno e seguiu adiante. Não tinha tempo para frustração, tinha tempo apenas para a próxima tentativa. Entre 2020 e 2023, a investigação policial foi arquivada e reaberta duas vezes. Isso a primeira reabertura aconteceu em meados de 2021, depois que dona Teresa enviou uma carta manuscrita ao Ministério Público Estadual. pedindo providências.
A carta tinha quatro páginas escritas em letra miúda e cuidadosa, e descrevia com detalhes a cronologia dos fatos, as falhas na busca, a demora no acionamento dos bombeiros e a ausência de qualquer retorno por parte da delegacia de lençóis nos meses seguintes ao arquivamento. O promotor que recebeu a carta determinou a reabertura do inquérito e solicitou à Polícia Civil que realizasse novas diligências. A polícia civil respondeu com um ofício, informando que não havia fatos novos que justificassem novas linhas de investigação. O inquérito foi reaberto formalmente, mas na prática nada mudou.
Nenhum depoimento novo foi colhido, nenhuma área nova foi visitada, nenhum perito foi enviado ao local. A segunda reabertura aconteceu em 2022, após um vereador de lençóis, eleito com votos do setor de turismo, citar o caso numa sessão da Câmara Municipal, argumentando que o desaparecimento de três turistas sem resolução afetava a imagem da cidade e a confiança dos visitantes.
fala gerou breve repercussão na imprensa local. Um jornal de Itaberaba publicou uma matéria de meia página. Uma rádio de Feira de Santana fez uma entrevista de 10 minutos com dona Marlene, que falou com voz calma, sem chorar, repetindo os fatos como quem já os tinha decorado de tanto contar. A repercussão durou duas semanas. Depois o silêncio voltou. O inquérito acumulou 86 páginas de depoimentos, relatórios de busca, laudos negativos e ofícios trocados entre delegacias de comarcas diferentes.
Nenhuma linha nova de investigação foi aberta depois de 2021.
O caso existia no papel, mas na prática estava morto. Durante esses anos, a vida ao redor das três famílias continuou andando. Vizinhos pararam de perguntar.
Colegas de trabalho mudaram de assunto.
Os amigos de infância de Renata, Juliana e Camila foram seguindo com as próprias vidas. Casamentos, filhos, mudanças de cidade, novos empregos. O nome de Renata deixou de aparecer nos grupos de trilheiros no WhatsApp. O perfil de Instagram de Camila ficou congelado em novembro de 2019, com a última foto sendo uma imagem do pô do sol visto do mirante da fumaça, com 37 curtidas e um comentário de Juliana que dizia: “Quando a gente volta aqui e o carro de Juliana, o Fiat Pio Weekend Cinza, retirado de lençóis seis meses depois do desaparecimento, Lo ficou estacionado na garagem do sobrado de dona Teresa, coberto por uma lona azul que ninguém tirava. Dona Teresa passava por ele todos os dias quando saía para a rua. nunca tocava na lona, nunca abria a porta, mas também nunca deixou que ninguém sugerisse vender. O grupo de WhatsApp sem nome continuou ativo durante todo esse período, embora as mensagens tivessem se tornado cada vez mais espaçadas.
Em 2021, havia mensagens quase diárias, em 2022 semanais. em 2023 mensais. As reuniões no quintal de dona Marlene passaram de quinzinais para mensais, depois para esporádicas. Não porque o grupo tivesse desistido, porque não havia mais o que planejar. Todos os trechos acessíveis da trilha tinham sido percorridos. Todas as informações disponíveis tinham sido checadas. Todas as portas institucionais tinham sido batidas e todas tinham sido fechadas com a mesma frase educada.
Não há elementos novos no momento. O cansaço era real, a dor era constante e a esperança, que no primeiro ano era como uma brasa acesa no peito, tinha se transformado numa coisa mais parecida com teimosia, menos quente, menos luminosa, mas igualmente impossível de apagar. Dona Marlene continuou anotando tudo no caderno. Tinha três cadernos cheios até o final de 2023.
Datas, nomes, números de protocolo, resumos de conversas com delegados, promotores e bombeiros.
guardava os cadernos na gaveta do criado mudo ao lado da Bíblia e de um terço de madeira que tinha sido da mãe dela. Toda noite, antes de dormir, abria o caderno mais recente na última página escrita, lia o que tinha anotado e fechava. Era o único ritual que mantinha todos os dias sem falta, como se fechar o caderno, significasse que o dia havia terminado, mas a busca não. Em 14 de fevereiro de 2024, uma equipe de quatro geólogos da Universidade Federal da Bahia realizava um levantamento aerofotogramétrico de formações rochosas na região sul da Chapada Diamantina. Era um projeto de pesquisa sobre erosão diferencial em arenitos, financiado pelo CNPQ, que não tinha nenhuma relação com desaparecimentos, buscas ou investigações policiais.
A equipe estava acampada desde o dia anterior numa clareira perto do rio Muco Gezinho, num trecho sem acesso por estrada a 18 km da última trilha conhecida das três amigas.
Nenhum membro da equipe conhecia o caso.
Nenhum sabia que três mulheres tinham desaparecido na região 4 anos antes. E o drone, um modelo DJ e Mavic 3 com câmera de alta resolução, sobrevoava um platô extenso a 120 m de altitude, quando o operador, um doutorando chamado Rafael Tourinho Lima, percebeu algo na tela do controle remoto que o fez parar o giro automático da câmera e manter o enquadramento fixo sobre a superfície clara da rocha arenítica, aquela pedra esbranqu Ada quase dourada, que cobre grandes extensões da chapada como um açoalho antigo. Havia formas escuras dispostas em sequência. Não eram manchas naturais de liquen, não eram sombras de vegetação projetadas pelo ângulo do sol.
Não eram variações na cor da rocha causadas pela humidade. Eram pedras menores, de tom ferruginoso e escuro, quase marrom avermelhado, organizadas em desenhos grandes, visíveis apenas de cima. É, Rafael gravou o trecho inteiro em vídeo de alta definição. Fez o drone passar três vezes sobre o mesmo ponto em altitudes diferentes, 120 m. 80 e 50 m.
As imagens ficavam mais nítidas a cada passagem. Quando a equipe voltou ao acampamento no final da tarde e Rafael ampliou as imagens no laptop, sentado numa cadeira de camping com o suor secando na testa, contou sete formas distintas dispostas numa linha que seguia o contorno da borda do platô.
Algumas tinham mais de 4 m de extensão, outras eram menores com cerca de 2 m.
Todas tinham sido feitas com o mesmo tipo de pedra escura, colocada sobre a rocha clara, com uma precisão que não podia ser acidental.
Os quatro geólogos olharam para as imagens durante vários minutos sem dizer nada. E o orientador da equipe, professor Antônio Marcos Veloso, 56 anos, especialista em geomorfologia, foi o primeiro a falar. Disse que nunca tinha visto nada parecido naquela região. Disse que a disposição era claramente intencional e disse que aquilo não era da competência deles. Rafael perguntou o que deviam fazer. O professor respondeu que deviam documentar tudo e informar as autoridades competentes. As imagens foram enviadas por e-mail para o Departamento de Arqueologia da UFBA na segunda-feira seguinte. De lá chegaram à Polícia Civil de Lençóis em menos de uma semana e em menos de duas semanas chegaram ao Ministério Público Estadual, que reconheceu imediatamente a proximidade geográfica entre o local dos símbolos e a área onde as três amigas tinham desaparecido em 2019. E ninguém no grupo de WhatsApp sem nome soube de nada durante os primeiros dias. A informação circulou entre instituições antes de chegar às famílias. Foi Thago Cerqueira, o amigo de Camila, que trabalhava com geoprocessamento na UEFS.
Quem soube primeiro? Um colega da UFBA, que conhecia o caso, mencionou as imagens numa conversa informal no corredor de um congresso em Salvador.
Thiago pediu para ver. O colega mandou duas fotos por WhatsApp. Thaago olhou para as imagens no celular, ampliou com os dedos, ficou parado durante um tempo que ele depois não soube calcular e ligou para Alessandro. Dona Marlene atendeu o telefone às 21:47 de uma quarta-feira de março de 2024.
estava na cozinha lavando a louça do jantar, com a televisão ligada na sala, passando um programa que ninguém assistia. Do outro lado da linha era Alessandro e o primo de Renata, que tinha recebido a informação de Thaago havia menos de uma hora. A voz dele estava diferente. Não era euforia, não era medo, era algo entre os dois que ele próprio não sabia nomear. havia uma urgência contida, como se ele estivesse escolhendo cada palavra com cuidado para não dizer mais do que devia, nem menos do que precisava. Ele disse apenas: “Tia, acharam umas marcas numa pedra lá na chapada, feitas com pedra menor em cima da pedra grande e não tem como ser natural”. Dona Marlene ficou em silêncio. Alessandro contou depois que ficou olhando o cronômetro da ligação, sem saber se a tia ainda estava na linha. 11 segundos de silêncio absoluto.
Não dava para ouvir nem a respiração dela, nem a televisão ao fundo, nada.
Quando ela voltou a falar e disse só uma coisa, eu sempre soube que elas estavam tentando dizer alguma coisa. Não chorou, não gritou, não pediu detalhes. Disse que ia desligar, que ia ligar para dona Teresa e para dona Cácia e que queria ver as imagens. Alessandro mandou as fotos pelo WhatsApp assim que desligaram. Dona Marlene abriu a primeira imagem, ampliou com os dedos e ficou olhando para a tela do celular encostada na bancada da cozinha, com a água da torneira ainda correndo durante mais de 5 minutos. Seu Osvaldo apareceu na porta da cozinha, viu a mulher parada, olhando para o celular com a torneira aberta e perguntou o que tinha acontecido. Dona Marlene virou o celular para ele e disse: “Olha isso.” Seu Osvaldo olhou, não disse nada, sentou na cadeira da cozinha, tirou os óculos de leitura do bolso da camisa e pediu para ver de novo, mais de perto. E naquela mesma noite, o grupo de WhatsApp sem nome voltou à vida. Mensagens de áudio, fotos reenviadas, perguntas sem resposta, links de notícias que ainda não existiam. Dona Teresa mandou um áudio de 40 segundos em que a voz falhava no meio, mas que terminava com uma frase clara: “Se aquilo foi feito por mão humana, alguém esteve lá. E se alguém esteve lá, pode ter sido uma delas. Dona Cásia não mandou mensagem, mandou apenas uma foto do tubo de PVC, onde Camila guardava os mapas que continuava atrás da porta do quarto, no mesmo lugar de sempre. Não escreveu nada, não precisava. Nos meses seguintes à divulgação das imagens, três equipes diferentes analisaram os símbolos registrados pelo drone. O processo foi lento, fragmentado e cercado de silêncios institucionais que as famílias já conheciam de core. A primeira equipe foi um grupo de arqueólogos da UFBA, coordenado por uma professora com 20 anos de experiência em sítios rupestres do semiárido baiano. A equipe analisou as imagens de alta resolução e em abril de 2024 enviou dois pesquisadores ao platô para uma verificação em loco. A expedição até o local levou dois dias a pé, partindo de um ponto de acesso no Vale do rio Mucugezinho.
Os pesquisadores confirmaram que as formas eram compostas por pedras de laterita ferruginosa, comuns na região, mas normalmente dispersas pelo terreno.
não organizadas em padrões geométricos, descartaram a hipótese de arte rupestre ou registro indígena. A técnica de disposição não correspondia a nenhum padrão catalogado na Chapada Diamantina, nem em nenhuma outra região do Brasil.
As formas não eram pictogramas, não eram petroglifos e não se encaixavam em nenhuma tipologia conhecida.
O relatório da equipe entregue em maio de 2024 concluía com uma frase que as famílias leram dezenas de vezes: “A disposição é inequivocamente intencional e não corresponde a nenhum fenômeno natural ou registro arqueológico previamente documentado na região. A segunda equipe foi da Polícia Federal, chamada depois que o Ministério Público Estadual solicitou a reabertura formal do caso e a ampliação da competência investigativa.
Dois peritos federais foram ao platô em junho de 2024, acompanhados por um guia local e por um bombeiro militar que conhecia a região. coletaram amostras das pedras deslocadas e da superfície rochosa onde estavam depositadas.
Na análise laboratorial realizada em Brasília confirmou que a oxidação das pedras deslocadas, o padrão de ferrugem na face inferior e onde tinham sido arrancadas do solo original era compatível com um período de 2 a 5 anos.
Ou seja, alguém tinha movido aquelas pedras entre 2019 e 2022.
O relatório da PF não foi divulgado publicamente. As famílias tiveram acesso a um resumo por meio do Ministério Público após dona Marlene protocolar um pedido formal de informação. A terceira equipe foi um grupo independente de cartografia digital, formado por três pesquisadores de uma universidade do Sudeste que se interessaram pelo caso após as imagens circularem em fóruns especializados na internet.
Eles sobrepuseram as formas registradas pelo drone a bancos de dados de simbologia conhecida, desde alfabetos antigos até sistemas de sinalização de emergência. passando por marcações cartográficas e códigos militares e padrões de comunicação visual usados por grupos de resgate em diferentes países, não encontraram correspondência com nenhum sistema catalogado.
formas, não eram letras, não eram números, não eram setas, não eram sinais internacionais de socorro, eram outra coisa, algo que alguém quis comunicar, mas que ninguém conseguiu ler. Ninguém conseguiu afirmar com certeza quem fez aquilo, quando fez, porque fez ou o que significa.
O platô onde os símbolos foram encontrados fica numa área sem trilha de acesso conhecida, sem registro de passagem humana recente nos bancos de dados do ICM bio, sem cobertura de celular e sem qualquer vestígio adicional nas imediações.
Nenhuma peça de roupa, nenhum objeto pessoal, nenhum resto de fogueira, nenhum abrigo improvisado, nenhum osso, nenhum sinal de que alguém viveu, dormiu e comeu ou morreu ali.
Apenas pedras, apenas os desenhos, apenas o silêncio enorme da chapada ao redor, com seus paredões de arenito dourado, seus campos de sempre viva, balançando com o vento, e seus horizontes tão largos que uma pessoa pode gritar com toda a força dos pulmões e não ser ouvida por ninguém. O caso foi formalmente reaberto em julho de 2024, desta vez sob a competência da Polícia Federal e com acompanhamento do Ministério Público. As famílias foram notificadas por ofício. Dona Marlene recebeu o documento numa terça-feira à tarde, entregue por um oficial de justiça que estacionou o carro na frente da casa e tocou a campainha como se fosse uma visita qualquer. Ela leu o papel inteiro de pé na varanda sem convidar o oficial para entrar. Quando terminou de ler, dobrou o documento e guardou no bolso do avental e disse apenas: “Demorou”. Depois entrou em casa, fechou a porta e ligou para dona Teresa. Até o momento em que esta história é contada, os símbolos não foram decifrados, as três mulheres não foram encontradas.
Os sete desenhos no platô continuam lá, expostos ao sol e ao vento, visíveis apenas para quem olha de cima, de um drone, de um helicóptero, de um lugar onde nenhuma das três deveria estar. A investigação continua aberta, as famílias continuam esperando e a chapada diamantina continua lá com seus 72.000 1000 haares de pedra, água e silêncio, guardando o que quer que tenha acontecido naquela semana de novembro de 2019, com a mesma indiferença com que guarda tudo, as chuvas, os rios, os séculos, as pessoas que entram e as pessoas que não voltam. Passaram-se os anos. Assim, as três casas em Feira de Santana continuam habitadas pelas mesmas pessoas. Os quartos das três continuam arrumados. Os objetos continuam nos mesmos lugares. Os celulares das três continuam cadastrados nas contas de família, com os números ativos pagos todos os meses por mães, que não conseguem cancelar uma linha telefônica que pertence a alguém que ainda não foi declarado morto. Dona Marlene ainda anota tudo no caderno. Está no quinto caderno agora. A letra ficou um pouco menor, um pouco mais apertada, como se o espaço tivesse que durar mais, porque as informações novas são cada vez mais escassas. Dona Teresa ainda entra no quarto de Juliana depois do almoço.
Ainda fica de pé no meio do cômodo durante alguns minutos, ainda sai sem mexer em nada. E dona Cásia ainda vai à capela todas as manhãs, ainda senta no último banco, nem ainda fica ali por 10 ou 15 minutos antes de seguir para o hospital. Quando fechamos a porta de casa à noite e sabemos onde está cada pessoa que amamos, é fácil esquecer o que significa não saber, o que significa mandar uma mensagem e não receber resposta. O que significa olhar para um mapa e imaginar que em algum ponto daquele emaranhado de linhas e curvas de nível está alguém que você criou, que você viu crescer, que você ensinou a amarrar o sapato e a olhar dos dois lados antes de atravessar a rua. Ninguém sabe o que aconteceu com Renata, Juliana e Camila. Ninguém sabe o que significam os símbolos no platô. Ninguém sabe se foram elas que os fizeram, se foi outra pessoa, se foi um pedido de ajuda, um mapa, uma mensagem, ou apenas a marca silenciosa de alguém que precisava dizer que esteve ali, né? A história não termina com uma explicação, termina com sete formas desenhadas numa pedra que ninguém consegue ler, com três quartos arrumados que ninguém consegue desarrumar e com três mães que aprenderam a viver dentro de uma pergunta que não tem resposta e que mesmo assim se recusam a parar de perguntar.