Há vinte e três anos, Fernanda Duarte desapareceu após mais um dia de trabalho nas piscinas termais de Caldas Novas, sem deixar rastros. O desaparecimento mergulhou sua família em uma tragédia profunda e a comunidade no caos absoluto. A polícia considerou diversas possibilidades, mas não conseguiu solucionar o crime, causando indignação na família, que nunca perdeu a esperança e lutou incansavelmente para que a verdade viesse à tona.
Era 15 de janeiro de 2002, uma terça-feira sufocante em Caldas Novas. O termômetro marcava 38º na sombra, e as águas termais da cidade estavam repletas de turistas em busca de alívio para o calor escaldante do cerrado goiano.
Entre os parques aquáticos e hotéis que pontilhavam a paisagem, uma figura familiar caminhava com desenvoltura. Fernanda Duarte, 25 anos, carregando sua tradicional bolsa de biquínis e saídas de praia coloridas. Filha de Conceição e João Duarte, pequenos comerciantes locais, Fernanda havia transformado o comércio ambulante em arte.
Ela conhecia cada canto e recanto dos principais complexos termais. Sabia exatamente quando abordar os turistas e como oferecer seus produtos sem parecer intrusiva. Sua simpatia natural e conhecimento das atrações turísticas da região a tornavam mais do que apenas uma vendedora. Ela era quase uma guia informal para os visitantes.
Naquela manhã, Fernanda saiu de casa às 7h30, como sempre fazia durante a alta temporada. Vestia um vestido floral, azul e rosa, sandálias rasteiras e carregava sua inseparável bolsa marrom onde guardava o dinheiro das vendas. Sua mãe, Conceição, lembra de ter oferecido o café da manhã, mas Fernanda estava com pressa. Ela disse que queria aproveitar o movimento matinal no Hotel Termas. Conceição recorda disso, ainda emocionada depois de todos esses anos.
O complexo do Hotel Termas era o destino favorito de Fernanda durante os finais de semana e feriados prolongados. Com suas múltiplas piscinas de águas termais, toboáguas e extensa área de lazer, o lugar atraía centenas de famílias em férias. Para uma vendedora ambulante experiente como Fernanda, representava a oportunidade de ouro da temporada.
Testemunhas relataram tê-la visto por volta das 9h, caminhando pela área da piscina infantil, onde as mães costumavam comprar biquínis para os filhos. Seu movimento era o de sempre. Ela se aproximava discretamente dos grupos familiares, mostrava as peças com entusiasmo genuíno e sempre conseguia fazer algumas vendas.
Marcos Pereira, um salva-vidas do complexo na época, lembra de ter tido uma breve conversa com ela por volta das 10h30. Fernanda era conhecida por todos que trabalhavam na indústria do turismo; ela era sempre educada e sorridente. Naquele dia, ela parecia normal. Marcos, agora aposentado e ainda impactado pelo que descobriria anos depois, conta:
“Ela disse que estava vendendo bem, que ia passar nos outros hotéis depois do almoço.”
Por volta das 11h45, Fernanda foi vista pela última vez na área da lanchonete do complexo, conversando com um homem que ninguém conseguiu identificar com precisão. As descrições variavam. Alguns falavam de um homem de cabelos escuros, outros de alguém usando boné e óculos de sol. O que todos concordavam era que a conversa parecia amigável, sem sinais de tensão ou desconforto.
Quando o relógio marcou 14h e Fernanda não apareceu para a sua habitual ronda da tarde, os funcionários do hotel acharam estranho. Ela era extremamente pontual e nunca perdia os horários de pico. Mesmo antes que a notícia se espalhasse, a preocupação começou a tomar conta dos trabalhadores do setor de turismo. João Silva, um segurança do complexo, decidiu verificar os arredores.
Ele encontrou a bolsa marrom de Fernanda abandonada perto do estacionamento com todo o dinheiro das vendas da manhã intacto, cerca de R$ 280, uma quantia considerável para a época. Seus produtos, no entanto, haviam desaparecido junto com ela. A descoberta da bolsa com o dinheiro intacto imediatamente descartou qualquer teoria de roubo. Fernanda simplesmente havia sumido, deixando para trás apenas mais perguntas do que respostas.
O estacionamento, cercado por uma densa vegetação típica do bioma Cerrado, oferecia múltiplas rotas de fuga para qualquer um que quisesse deixar a área sem ser detectado. Quando o sol se escondeu atrás das montanhas que cercam Caldas Novas e Fernanda não voltou para casa, Conceição Duarte soube que algo terrível havia acontecido.
Sua filha nunca passaria uma noite fora sem avisar. Ela nunca abandonaria seu trabalho no auge da temporada. Nunca deixaria sua família sem notícias. A noite de 15 de janeiro de 2002 marcou o início de um pesadelo que duraria por mais de duas décadas. Nas águas termais que prometiam cura e renovação, uma jovem havia desaparecido sem deixar rastros, dando início a um dos casos mais perturbadores da história de Caldas Novas.
Um mistério cujas respostas só seriam encontradas quando menos se esperava. A madrugada de 16 de janeiro de 2002 chegou sem trazer Fernanda Duarte de volta para casa. Conceição e João não conseguiram dormir, revezando-se em ligações para hospitais, amigos e conhecidos que trabalhavam no setor de turismo. Às 6h da manhã, quando já não havia mais dúvidas de que algo grave havia acontecido, a família foi à delegacia de polícia civil em Caldas Novas para registrar o desaparecimento.
O detetive Renato Monteiro, encarregado do caso, recebeu a família com o ceticismo típico de quem já havia lidado com dezenas de casos semelhantes durante as temporadas turísticas. Segundo ele, jovens que desapareciam em cidades turísticas geralmente estavam fugindo de problemas familiares, relacionamentos conturbados ou dívidas. A possibilidade de um crime raramente era considerada nos primeiros dias de investigação. Suas palavras ficaram gravadas na memória da mãe de Fernanda:
“Dona Conceição, vamos esperar 48 horas. A Fernanda é maior de idade, pode ter conhecido alguém, pode ter decidido viajar. Essas coisas acontecem muito aqui durante a temporada.”
Conceição tentou explicar que sua filha nunca faria isso, que ela era responsável e dedicada ao seu trabalho, mas suas palavras pareciam ecoar no vazio. O boletim de ocorrência foi registrado como um caso de pessoa desaparecida, possivelmente uma fuga voluntária, uma classificação que limitaria drasticamente os recursos e a urgência dedicados ao caso.
A investigação inicial consistiu em entrevistas superficiais com alguns funcionários do Hotel Termas e uma busca rápida nos arredores do estacionamento onde a bolsa havia sido encontrada. Durante os três primeiros dias após o desaparecimento, apenas dois investigadores foram designados para o caso: os policiais civis Roberto Augusto e Marina Santos.
Roberto, um veterano próximo da aposentadoria, via a investigação como apenas mais uma rotina burocrática. Marina, recém-formada e ainda idealista, seria a única a demonstrar preocupação genuína com o destino de Fernanda. As entrevistas iniciais revelaram informações cruciais que, infelizmente, não foram adequadamente exploradas.
Além de Marcos Pereira, o salva-vidas, outras três pessoas haviam visto Fernanda conversando com o homem desconhecido perto da lanchonete. Carla Mendes, uma turista de Brasília que estava no complexo com sua família, forneceu a descrição mais detalhada do suspeito. Ele era um homem de aproximadamente 35 a 40 anos, de pele morena, com cabelos escuros, vestindo shorts jeans e uma camisa polo branca. Carla contou durante seu depoimento:
“Ele usava óculos escuros e tinha uma tatuagem no braço direito, mas não consegui distinguir o que era. Eles estavam conversando de forma amigável. Ela até riu algumas vezes.”
A informação sobre a tatuagem era potencialmente vital, mas não foi documentada adequadamente. O investigador Roberto simplesmente anotou a existência da tatuagem no braço direito sem solicitar mais detalhes ou tentar criar um retrato falado. A família de Carla voltou para Brasília no dia seguinte, e suas informações de contato se perderam nos arquivos da delegacia. Marina Santos tentou aprofundar as investigações, visitando outros complexos turísticos onde Fernanda costumava trabalhar.
No Aquapark em Roma, ela descobriu que Fernanda havia mencionado a alguns funcionários que estava preocupada com alguém que estava sendo muito insistente em suas abordagens. A informação registrada no relatório de Marina indicava que Fernanda estava sendo incomodada por alguém nas semanas que antecederam seu desaparecimento. A funcionária Jéssica Alves, que trabalhava na recepção do Aquapark Roma, lembrou-se de uma conversa específica com Fernanda cerca de uma semana antes do sumiço:
“Ela disse que tinha um cara que sempre aparecia onde ela estava trabalhando, que ficava observando-a de longe e às vezes tentava puxar assunto. Ela achava estranho porque ele nunca comprava nada, só ficava olhando.”
Esses detalhes claramente apontavam para a possibilidade de perseguição, um comportamento que poderia ter evoluído para algo mais grave. No entanto, quando Marina apresentou suas descobertas ao Detetive Monteiro, foi aconselhada a não criar teorias da conspiração e a focar em explicações mais simples e prováveis. A busca física nos arredores do Hotel Termas foi limitada e mal coordenada. A densa vegetação do Cerrado ao redor do complexo oferecia inúmeros locais onde evidências poderiam ser escondidas, mas apenas uma área de aproximadamente 200 metros foi superficialmente inspecionada.
Nenhum cão farejador foi usado, não houve busca aquática nas lagoas próximas, e a investigação limitou-se a áreas de fácil acesso. Durante a primeira semana de buscas, a família de Fernanda organizou mutirões com amigos e conhecidos para vasculhar a região. Eles encontraram alguns itens pessoais que poderiam pertencer à jovem, um brinco de ouro e fragmentos de tecido florido, mas os itens não foram recolhidos adequadamente pela polícia e acabaram contaminados ou perdidos.
O ponto de virada negativo na investigação ocorreu no décimo dia após o desaparecimento, quando um comerciante de Goiânia afirmou ter visto Fernanda em sua cidade comprando roupas em uma loja do centro. A informação não confirmada, provavelmente resultante de confusão com outra pessoa, foi o suficiente para o Detetive Monteiro declarar o caso como uma fuga voluntária confirmada.
Em 30 de janeiro de 2002, exatamente 15 dias após o desaparecimento, o caso foi oficialmente encerrado. O relatório final, de apenas três páginas, concluiu que Fernanda Duarte havia abandonado voluntariamente sua casa e cidade, provavelmente buscando novas oportunidades em outro estado. Evidências que apontavam para um possível crime foram sumariamente ignoradas. Marina Santos, a única investigadora que levou o caso a sério, foi transferida para outro distrito dois meses depois.
Antes de partir, ela deixou uma cópia de seus relatórios com a família de Fernanda, em uma demonstração silenciosa de que acreditava ter havido negligência na investigação. O encerramento prematuro do caso representou não apenas uma falha do sistema de justiça, mas também o início de uma longa provação para a família Duarte.
Sem uma investigação ativa, sem respostas, sem um desfecho, eles teriam que conviver com a terrível incerteza sobre o destino de Fernanda por mais de duas décadas. Com o caso oficialmente arquivado e a polícia considerando o desaparecimento uma fuga voluntária, a família Duarte se viu completamente sozinha em sua busca por respostas. Conceição, a mãe de Fernanda, transformou sua dor em uma missão obsessiva: manter a memória de sua filha viva e pressionar as autoridades a reabrir o caso.
João Duarte, pai de Fernanda, reagiu ao trauma de forma completamente diferente da esposa. O comerciante, que sempre fora extrovertido e sociável, tornou-se uma pessoa introspectiva e amargurada. Ele fechou o pequeno comércio que mantinha no centro de Caldas Novas e começou a evitar as áreas turísticas da cidade, incapaz de suportar as lembranças que cada piscina termal trazia de sua filha desaparecida. Conceição relembra:
“Meu marido morreu um pouco a cada dia depois que encerraram o caso. Ele não conseguia aceitar que nossa filha havia simplesmente desaparecido do mundo e que ninguém se importava em buscar a verdade. Ele começou a beber, parou de falar, parou de viver.”
Conceição, por outro lado, canalizou sua angústia para a ação. Ela começou a frequentar todos os complexos turísticos de Caldas Novas, mostrando a foto de Fernanda para turistas, funcionários e visitantes. Ela criou um caderno onde anotava qualquer informação, por menor que fosse, sobre possíveis avistamentos ou pistas relacionadas ao desaparecimento de sua filha.
Em 2003, um ano após o desaparecimento, Conceição buscou a ajuda de um advogado particular, Dr. Carlos Mendonça, especializado em direitos humanos. Com os recursos limitados da família, ele conseguiu entrar com um pedido de reabertura da investigação, argumentando que a investigação inicial havia sido superficial e negligente. O pedido foi negado pelo juiz da comarca, que manteve a posição de que não havia evidências suficientes para caracterizar um crime.
Dr. Mendonça recorreu da decisão, mas o processo se arrastou por 3 anos no sistema judicial antes de ser definitivamente arquivado em 2006. Durante esse período, Conceição desenvolveu uma rede informal de informantes entre os trabalhadores do setor de turismo de Caldas Novas. Garçons, recepcionistas, seguranças, salva-vidas, faxineiros. Todos conheciam a história de Fernanda e prometiam relatar qualquer informação estranha ou suspeita que pudesse estar relacionada ao caso.
Em 2005, três anos após o desaparecimento, João Duarte sofreu um ataque cardíaco fatal aos 52 anos. Os médicos disseram que seu coração simplesmente parou, mas Conceição sempre soube que o marido havia morrido de tristeza. Com a voz embargada, ela diz:
“Ele não suportava viver sem saber o que aconteceu com nossa menina.”
A morte do marido intensificou ainda mais a determinação de Conceição. Agora, viúva e sem outros filhos, ela tinha apenas um motivo para viver: descobrir a verdade sobre Fernanda. Ela vendeu a casa onde sua família havia vivido por 20 anos e se mudou para um pequeno apartamento perto do centro turístico, de onde podia manter vigilância constante.
Em 2007, cinco anos após o desaparecimento, Conceição começou a organizar eventos públicos anuais em 15 de janeiro, data do sumiço de Fernanda. Inicialmente, apenas alguns amigos e parentes compareceram à pequena manifestação na Praça Central de Caldas Novas. Com o passar dos anos, outras famílias de pessoas desaparecidas começaram a se juntar ao movimento.
A persistência de Conceição chamou a atenção de organizações não governamentais especializadas em casos de pessoas desaparecidas. Em 2009, o Instituto Brasileiro de Segurança Pública incluiu o caso de Fernanda Duarte em um relatório sobre investigações mal conduzidas em cidades turísticas brasileiras. O relatório apontou várias falhas na investigação inicial: falta de exame pericial adequado no local onde a bolsa foi encontrada, falha na coleta de material genético, falta de uso de cães farejadores, descarte prematuro de evidências e, mais importante, a pressa em classificar o caso como uma fuga voluntária sem esgotar todas as possibilidades investigativas.
Conceição usou esse relatório para apresentar um novo pedido de reabertura do caso em 2010, 8 anos após o desaparecimento. Desta vez, ela conseguiu convencer o novo delegado responsável pela região, Dr. Eduardo Silva, que decidiu revisar superficialmente os arquivos do caso.
Dr. Silva confirmou que a investigação inicial havia sido deficiente, mas argumentou que, após tanto tempo, as chances de encontrar novas evidências eram mínimas. Mesmo assim, ele autorizou uma busca com cães farejadores na área do Hotel Termas, a primeira ação investigativa realizada no caso desde 2002.
A busca, realizada em março de 2010, não encontrou vestígios de Fernanda, mas descobriu restos humanos em uma área arborizada densa, a aproximadamente 800 metros de onde a bolsa havia sido encontrada. Os ossos, no entanto, pertenciam a um homem idoso que havia desaparecido na década de 1990, resolvendo outro caso antigo na região. A descoberta casual reforçou a convicção de Conceição de que sua filha também poderia estar enterrada em algum lugar próximo e que buscas mais extensas deveriam ser realizadas.
Ela intensificou seus esforços de lobby, ganhando apoio de deputados estaduais e organizações de direitos humanos. Em 2012, 10 anos após o desaparecimento, Conceição criou o movimento Fernanda Vive, que reuniu famílias de pessoas desaparecidas de todo o estado de Goiás. O movimento organizou marchas, petições e campanhas de conscientização sobre a importância de investigações adequadas em casos de desaparecimento.
A determinação inabalável de Conceição transformou o caso de Fernanda Duarte em um símbolo da luta contra a negligência policial e judicial em casos de pessoas desaparecidas. Mesmo sem recursos financeiros significativos, sem apoio institucional e enfrentando o ceticismo das autoridades, ela manteve viva a esperança de que um dia a verdade sobre sua filha viesse à tona.
Ao longo de todos esses anos, Conceição manteve o quarto de Fernanda exatamente como estava no dia de seu desaparecimento. Roupas no armário, produtos de beleza na penteadeira, livros na mesa de estudos. Ela dizia aos que questionavam sua atitude:
“Quando ela voltar, ou quando eu descobrir o que aconteceu com ela, vou arrumar tudo. Enquanto isso, ela continua morando aqui comigo.”
A fé e a persistência de uma mãe que se recusou a aceitar o silêncio das autoridades mantiveram acesa uma chama de esperança que, décadas depois, finalmente iluminaria os cantos escuros onde a verdade estava escondida. Entre 2012 e 2018, o caso de Fernanda Duarte entrou em um período que a própria Conceição mais tarde descreveria como os anos de silêncio mortal.
Apesar dos esforços do movimento Fernanda Vive e da pressão constante exercida pela mãe da jovem desaparecida, as autoridades mantiveram uma postura indiferente beirando o desdém. Durante esses seis anos, Caldas Novas continuou a prosperar como destino turístico. Novos resorts foram construídos, a infraestrutura urbana foi modernizada e a cidade recebeu milhões de visitantes em busca das propriedades terapêuticas de suas águas termais.
Paradoxalmente, quanto mais a cidade crescia e se desenvolvia, mais o caso de Fernanda Duarte parecia ser empurrado para as profundezas do esquecimento oficial. A investigadora Marina Santos, que havia demonstrado preocupação genuína com o caso em 2002, retornou a Caldas Novas em 2013 como delegada adjunta. Agora, com mais experiência e autoridade, ela reabriu discretamente os arquivos do caso e ficou chocada com a superficialidade da investigação inicial.
Ela decidiu realizar uma revisão não oficial do caso, trabalhando em seu tempo livre. Marina localizou Carla Mendes, a turista de Brasília, que havia fornecido a descrição mais detalhada do homem visto conversando com Fernanda. Carla, agora advogada e mãe de dois filhos, lembrava-se claramente do episódio e concordou em fornecer detalhes adicionais sobre a tatuagem que havia observado durante a entrevista com Marina em 2014:
“Era a tatuagem de uma âncora com uma corda enrolada no antebraço direito. Eu me lembro porque achei curioso, já que estávamos no cerrado, longe do mar.”
Essa informação específica nunca havia sido adequadamente documentada na investigação original. Com essa nova pista, Marina iniciou uma investigação discreta entre tatuadores de Caldas Novas e cidades vizinhas. Ela descobriu que o desenho descrito por Carla era relativamente comum e havia sido feito por pelo menos três profissionais diferentes na região durante a década de 1990. No início dos anos 2000, um dos tatuadores, Rogério Silva, lembrou-se de ter feito uma tatuagem semelhante em um homem que trabalhava ocasionalmente no setor de turismo da cidade. Rogério relatou:
“Ele era um cara meio estranho, sempre dizendo que conhecia todos os hotéis de Caldas Novas, que tinha contatos em todo lugar. Não lembro o nome dele, mas ele devia ter uns 35 ou 40 anos na época.”
Marina tentou obter mais informações, mas Rogério havia perdido os registros de seus clientes em um incêndio que destruiu seu estúdio em 2008. A pista inicialmente promissora mais uma vez esbarrou na falta de documentação adequada e na passagem do tempo, que havia apagado traços importantes. Durante esse período, Conceição continuou seus esforços de busca, mas começou a mostrar sinais claros de exaustão física e emocional. Aos 58 anos, ela havia dedicado mais da metade da década de 2010 à incansável busca por informações sobre a filha.
Sua saúde se deteriorou, mas sua determinação permaneceu inabalável. Em 2015, 13 anos após o desaparecimento, um evento aparentemente sem relação trouxe nova esperança ao caso. Durante as obras de expansão de um dos principais hotéis de Caldas Novas, operários encontraram roupas femininas enterradas em uma área que havia sido usada como depósito de materiais de construção nos anos 2000.
As roupas, um vestido florido, calcinha e um par de sandálias, foram enviadas para análise forense, mas os testes falharam em estabelecer uma ligação definitiva com Fernanda. O tecido estava muito deteriorado pelo tempo e pelas condições do solo, tornando impossível uma análise conclusiva de DNA. Conceição, no entanto, tinha certeza absoluta de que as roupas pertenciam à sua filha e declarou na época:
“Eu reconheci o vestido na hora. Foi um que eu mesma comprei para ela no Natal de 2001. Tinha exatamente aquela estampa floral, azul e rosa.”
A descoberta reacendeu o interesse da mídia local pelo caso, mas não foi suficiente para convencer as autoridades a reabrir oficialmente a investigação. O laudo pericial concluiu que não havia evidências suficientes para estabelecer a identidade da dona das roupas encontradas.
Mais uma frustração em uma série interminável de quase-descobertas. Marina Santos, que acompanhou de perto a análise das roupas, convenceu-se de que a investigação original havia sido seriamente falha e que Fernanda provavelmente havia sido vítima de feminicídio. Ela começou a pressionar seus superiores por uma reabertura formal do caso, mas encontrou resistência institucional significativa. Marina confidenciou anos depois:
“Ninguém queria tocar em um caso desses. Era um caso antigo, especialmente um que poderia expor a incompetência da investigação original. Caldas Novas tinha uma imagem turística a proteger, e um caso de assassinato mal resolvido não era bom para os negócios.”
Em 2016, Marina obteve permissão para realizar uma busca mais extensa na área onde as roupas haviam sido encontradas. Usando equipamentos de última geração, incluindo radar de penetração no solo, a equipe vasculhou um perímetro de 500 metros ao redor do local da descoberta. A busca revelou várias anomalias no subsolo, mas nenhuma provou estar relacionada ao caso de Fernanda. Mais entulhos de construção, canos velhos e até restos de animais foram encontrados, mas nada que pudesse lançar luz sobre o destino da jovem desaparecida.
O ano de 2017 trouxe um golpe devastador para Conceição. Ela foi diagnosticada com câncer de mama, uma doença que ela atribuiu diretamente ao estresse e à angústia de décadas de buscas sem respostas. Ela declarou na ocasião:
“Meu corpo está doente porque minha alma está doente. Enquanto eu não souber o que aconteceu com a Fernanda, não terei paz.”
Durante o tratamento quimioterápico, Conceição teve que reduzir drasticamente suas atividades de busca. O movimento Fernanda Vive perdeu força, os eventos anuais se tornaram menores e, pela primeira vez em 15 anos, parecia que o caso poderia finalmente ser esquecido pela comunidade. Marina Santos, observando o declínio da saúde de Conceição e a perda de interesse público no caso, tomou uma decisão arriscada.
Em 2018, ela decidiu vazar informações sobre as falhas na investigação original para um jornalista investigativo de Goiânia, na esperança de que a pressão da mídia estadual pudesse forçar a reabertura do caso. A estratégia de Marina estava prestes a desencadear uma série de eventos que finalmente trariam à luz a verdade sobre o desaparecimento de Fernanda Duarte.
Os anos de silêncio estavam chegando ao fim, mas as revelações que se seguiriam chocariam não apenas Caldas Novas, mas todo o estado de Goiás. No final de 2018, 16 anos após o desaparecimento de Fernanda Duarte, uma série de eventos aparentemente desconectados começou a formar um padrão, o que atrairia a atenção de investigadores especializados em casos arquivados.
A primeira rachadura na parede de silêncio que cercava o caso veio de uma fonte inesperada: um detento cumprindo pena por tráfico de drogas na penitenciária de Aparecida de Goiânia. Ademir Santos, 45 anos, estava prestes a progredir para o regime semiaberto quando abordou o capelão da prisão, alegando ter informações importantes sobre um crime antigo em Caldas Novas.
Santos havia sido preso em 2015 por liderar uma pequena rede de tráfico de drogas que abastecia hotéis e pousadas na região turística e, por anos, havia permanecido em silêncio sobre outras atividades criminosas das quais tinha conhecimento. O capelão, Padre Antônio Ferreira, inicialmente tratou o relato de Ademir com ceticismo. Não era incomum que prisioneiros próximos da condicional inventassem histórias para atrair atenção ou tentar acelerar seus processos.
No entanto, quando Ademir mencionou especificamente o nome de Fernanda Duarte e detalhes sobre seu desaparecimento que não haviam sido divulgados publicamente, o padre decidiu relatar o assunto às autoridades. Marina Santos, que mantinha vigilância desde 2013, embora não houvesse declaração oficial sobre qualquer informação relacionada ao caso, foi informada sobre o testemunho de Ademir em janeiro de 2019.
Quando se encontrou com o prisioneiro, ela ficou imediatamente intrigada com o nível de detalhes que ele possuía sobre a investigação original e sobre aspectos do caso que apenas pessoas muito próximas aos eventos poderiam saber. Ademir sabia de coisas que nunca foram divulgadas na imprensa. Ele sabia da bolsa encontrada no estacionamento, do dinheiro que estava intacto, da conversa com o homem tatuado.
Mas o mais impressionante, ele sabia detalhes sobre a condução da investigação que apenas os policiais envolvidos poderiam conhecer. Marina lembra que, durante três sessões de depoimento realizadas na própria penitenciária, Ademir revelou que, no início dos anos 2000, trabalhava ocasionalmente como facilitador para turistas que buscavam drogas e prostituição em Caldas Novas.
Sua rede de contatos incluía recepcionistas de hotel, seguranças, taxistas e trabalhadores do setor de entretenimento noturno da cidade. Ademir afirmou que, no dia do desaparecimento de Fernanda, foi abordado por um homem que conhecia superficialmente, alguém que havia utilizado seus serviços algumas vezes nos meses anteriores. Ademir relatou durante seu depoimento:
“Ele chegou no meu apartamento por volta das 17h, todo suado, dizendo que tinha feito uma burrice e precisava sair de Caldas Novas urgente. Ele me ofereceu R$ 500, muito dinheiro na época, para arranjar uma carona para ele até Goiânia.”
Ademir descreveu o homem como tendo aproximadamente 38 anos, cabelos escuros, com uma tatuagem de âncora no braço direito. Exatamente a mesma descrição dada pela turista Carla Mendes em 2002. Mais importante, ele conseguiu fornecer o nome pelo qual conhecia o suspeito, Márcio, embora suspeitasse que não fosse seu nome verdadeiro. Durante os anos que se seguiram ao desaparecimento de Fernanda, Ademir continuou a encontrar Márcio ocasionalmente em Caldas Novas, mas notou que seu comportamento havia mudado drasticamente. O homem, que antes era sociável e extrovertido, tornou-se retraído e paranoico, evitando contato visual e conversas prolongadas. Ademir explicou:
“Depois de 2002, o Márcio começou a agir estranho, sempre olhando por cima do ombro, como se tivesse medo de alguma coisa. Sempre que a gente se esbarrava na rua, ele fingia que não me conhecia. Isso me fez suspeitar que ele tinha se metido em alguma encrenca séria.”
Marina Santos ficou fascinada com as revelações, mas precisava de mais informações para considerá-las críveis. Ela pediu a Ademir que descrevesse o suspeito com mais detalhes, tanto fisicamente quanto comportamentalmente, e as informações fornecidas provaram ser muito consistentes e específicas para serem inventadas.
Ademir relatou que Márcio tinha uma pequena cicatriz na testa, resultado de um acidente de moto na juventude, sempre usava uma corrente de ouro no pescoço com um pingente de São Cristóvão e tinha o hábito de mascar constantemente um palito de dente. Detalhes aparentemente insignificantes, mas que poderiam ser cruciais para uma identificação positiva.
Mais importante ainda, Ademir forneceu informações sobre os lugares que Márcio frequentava e as pessoas com quem tinha contato. Segundo ele, o suspeito trabalhava ocasionalmente como guia turístico informal, levando visitantes em passeios para cachoeiras e pontos turísticos menos conhecidos da região. Ademir afirmou durante o depoimento:
“Ele conhecia todos os caminhos, todas as trilhas, todos os lugares escondidos onde nenhum turista ia. Se alguém quisesse esconder alguma coisa na região, o Márcio saberia exatamente onde.”
Marina decidiu investigar discretamente as informações fornecidas por Ademir. Ela começou visitando os estabelecimentos que ele havia mencionado como pontos de encontro frequentados pelo suspeito. Em um bar perto do terminal rodoviário, ela conseguiu confirmar que um homem com as características descritas de fato havia frequentado o local no início dos anos 2000. O dono do bar, Sr. Joaquim, lembrava-se vagamente de um cliente que correspondia à descrição física:
“Tinha um rapaz que vinha sempre aqui, sempre sozinho, sempre meio calado, usava uma corrente de ouro e ficava mastigando um palito. Ele parou de aparecer de repente. Deve ter sido lá por 2003 ou 2004.”
A confirmação, independentemente dos detalhes específicos mencionados por Ademir, aumentou significativamente a credibilidade de seu testemunho. Marina começou a perceber que havia finalmente encontrado uma pista consistente que poderia levar à solução do caso de Fernanda Duarte. No entanto, transformar essas informações em uma investigação oficial exigiria habilidade política e persistência.
Marina sabia que precisaria construir um caso sólido antes de apresentá-lo aos seus superiores, que por anos demonstraram relutância em reabrir investigações antigas. A primeira rachadura no silêncio havia se aberto, mas muito trabalho ainda seria necessário para transformá-la na avalanche de revelações que finalmente traria justiça para Fernanda Duarte e paz para sua mãe, Conceição.
Com as informações fornecidas por Ademir Santos, Marina Santos iniciou uma investigação paralela e confidencial para tentar identificar o misterioso Márcio. Usando seu tempo livre e seus próprios recursos, ela começou um trabalho de detetive que se provaria crucial para a resolução do caso.
Marina sabia que sua investigação não oficial era arriscada do ponto de vista profissional, mas sua consciência não permitia que ignorasse as primeiras pistas consistentes que o caso produzia em 17 anos. Ela desenvolveu uma metodologia sistemática. Durante os finais de semana, ela visitava estabelecimentos comerciais e antigos moradores de Caldas Novas, mostrando um retrato falado baseado nas descrições de Ademir e Carla Mendes.
O trabalho de campo provou ser mais produtivo do que Marina havia imaginado. Em três meses de investigação, ela conseguiu confirmar a existência de um homem que correspondia às descrições físicas em pelo menos cinco estabelecimentos diferentes na cidade. Mais importante, descobriu-se que ele havia trabalhado ocasionalmente como guia turístico informal entre 1999 e 2003.
A primeira confirmação significativa veio de Dona Celeste, dona de uma pequena pousada no centro de Caldas Novas. Ela lembrava-se claramente de um homem que levava turistas em passeios para as cachoeiras e pontos menos conhecidos da região. Dona Celeste disse:
“Ele aparecia por aqui de vez em quando, oferecendo passeios para os hóspedes. Era educado, conhecia bem a região, mas tinha algo estranho nele. Os turistas gostavam dos passeios, mas eu sempre tive minhas reservas. Ele dizia que se chamava Márcio, mas nunca mostrou nenhum documento. Sempre pagava tudo em dinheiro e nunca deixava nenhum contato. Depois de 2002, ele parou de aparecer por aqui. Na época, não pensei muito nisso, mas agora que você está perguntando, achei estranho ele desaparecer tão de repente.”
Marina descobriu que o suspeito usava um Volkswagen Gol branco, um modelo do final dos anos 1990, para transportar turistas. Várias pessoas lembraram-se do veículo que tinha adesivos promocionais de pontos turísticos colados no vidro traseiro.
Esse detalhe era importante porque os carros usados para o transporte informal de turistas geralmente eram registrados nas autoridades municipais. Uma investigação nos arquivos da Secretaria de Turismo de Caldas Novas revelou que, entre 1999 e 2001, 17 pessoas haviam se registrado como guias turísticos informais. Os registros não eram confiáveis, mas Marina conseguiu identificar três indivíduos que possuíam veículos semelhantes aos descritos pelas testemunhas.
O primeiro suspeito, Carlos Eduardo Silva, foi rapidamente descartado. Ele ainda morava em Caldas Novas, trabalhava como taxista, e não correspondia às descrições físicas fornecidas. O segundo, José Antônio Pereira, havia se mudado para Brasília em 2001 e também não se encaixava no perfil. O terceiro nome da lista era Márcio Henrique dos Santos.
Os registros indicavam que ele havia se registrado como guia turístico em março de 1999 e possuía um Volkswagen Gol branco de 1998. O endereço fornecido no registro era uma casa alugada em um bairro de classe trabalhadora que havia sido demolida para dar lugar a um condomínio residencial. Marina tentou localizar informações adicionais sobre Márcio Henrique dos Santos em bancos de dados policiais, mas não encontrou registros criminais ou qualquer documentação que pudesse confirmar sua verdadeira identidade.
Era como se ele tivesse se materializado em Caldas Novas em 1999 e desaparecido completamente depois de 2002. A investigação sobre o passado de Márcio Henrique levou Marina a uma descoberta perturbadora. Ela encontrou registros semelhantes de homens com o mesmo nome e características físicas em outras cidades turísticas de Goiás durante a década de 1990.
Pirenópolis, cidade de Goiás e Chapada dos Veadeiros. Em todos esses locais, havia registros de um guia turístico informal que correspondia à mesma descrição. Ainda mais alarmante, Marina descobriu que em cada uma dessas cidades havia casos não resolvidos de mulheres jovens que desapareceram durante o período em que Márcio Henrique esteve presente.
As conexões eram circunstanciais, mas o padrão era muito perturbador para ser uma coincidência. Em Pirenópolis, Sandra Oliveira, de 23 anos, desapareceu em julho de 1997 após ser vista conversando com um homem perto das cachoeiras. Na cidade de Goiás, Patrícia Lima, de 26 anos, desapareceu durante o festival de inverno de 1998. Na região da Chapada dos Veadeiros, duas jovens, Renata Costa, 24, e Juliana Ferreira, 22, desapareceram em ocasiões diferentes durante o ano de 2000.
Marina percebeu que estava diante de um possível assassino em série que usava sua profissão de guia turístico para atrair vítimas para locais isolados. A descoberta foi ao mesmo tempo empolgante e aterrorizante. Empolgante porque havia finalmente uma pista consistente no caso de Fernanda, e aterrorizante porque sugeria que outras famílias haviam sofrido a mesma tragédia.
A investigadora decidiu que era chegada a hora de formalizar suas descobertas. Em setembro de 2019, ela elaborou um relatório detalhado sobre suas investigações e solicitou uma reunião com o delegado regional, Dr. Roberto Farias. O relatório de 47 páginas documentou meticulosamente todas as evidências coletadas e as conexões entre os casos.
O Dr. Farias, inicialmente cético, ficou impressionado com a qualidade e a consistência das provas apresentadas por Marina. Após analisar o relatório por uma semana, ele autorizou a reabertura oficial da investigação sobre o desaparecimento de Fernanda Duarte, 17 anos após o caso ser encerrado. A reabertura foi comunicada a Conceição Duarte em uma manhã fria de outubro de 2019.
A mãe de Fernanda, agora com 62 anos e visivelmente enfraquecida pelo câncer, chorou por quase uma hora ao receber a notícia. Em meio às lágrimas, ela disse:
“Eu sempre soube que um dia a verdade viria à tona. Minha filha não me deixaria desistir.”
A investigação oficial sobre Márcio Henrique dos Santos estava prestes a começar, e com ela a real possibilidade de que o caso de Fernanda Duarte fosse finalmente resolvido. Mas as descobertas que se seguiriam seriam ainda mais chocantes do que Marina havia imaginado.
Com a reabertura oficial do caso em outubro de 2019, Marina Santos finalmente teve acesso a recursos investigativos que haviam sido negados durante sua busca solitária. O Detetive Roberto Farias designou uma equipe especializada em casos arquivados para trabalhar sob a coordenação dela, incluindo dois investigadores experientes e um analista de inteligência.
A primeira ação da equipe foi solicitar à Polícia Federal uma análise detalhada dos padrões de desaparecimento em cidades turísticas de Goiás entre 1995 e 2005. O pedido era justificado pela suspeita de que Márcio Henrique dos Santos pudesse estar envolvido em múltiplos crimes semelhantes em locais diferentes.
A resposta da Polícia Federal chegou em dezembro de 2019 e confirmou os piores temores da investigação. O relatório identificou 17 casos de mulheres jovens que desapareceram em oito cidades turísticas. O documento detalhava os desaparecimentos ocorridos em Goiás durante o período analisado. Em 13 desses casos, havia registros de um homem com características físicas semelhantes trabalhando como guia turístico informal na época dos sumiços. Marina lembra do momento em que recebeu o relatório federal:
“Quando vi os números, fiquei em choque. Não estávamos lidando apenas com o caso da Fernanda, mas possivelmente com o assassino mais prolífico da história de Goiás.”
A equipe decidiu se concentrar inicialmente no caso de Fernanda, mas mantendo a atenção nas conexões com os outros desaparecimentos. Marina viajou a Brasília para reentrevistar Carla Mendes, a turista que havia fornecido a descrição mais detalhada do suspeito. 17 anos depois, Carla ainda se lembrava claramente do homem e pôde fornecer detalhes adicionais em sua nova entrevista:
“Quando a detetive me mostrou fotos de outros casos parecidos, eu me arrepiei. O padrão era sempre o mesmo. Um homem sozinho, abordando jovens que trabalhavam no setor de turismo, conversas aparentemente amigáveis. É como se ele tivesse um método bem definido.”
Enquanto isso, a equipe iniciou uma busca sistemática por Márcio Henrique dos Santos, utilizando bancos de dados nacionais. O nome aparecia em registros de diferentes estados, sempre associado a atividades no setor de turismo, mas nunca com documentação suficiente para estabelecer sua verdadeira identidade ou localização atual.
O investigador Paulo César Rocha, especialista em crimes em série, juntou-se à equipe em janeiro de 2020 e imediatamente identificou as características típicas de assassinos em série organizados no modus operandi do suspeito. Ele escolhia vítimas vulneráveis, trabalhava sozinho, mudava de cidade após cada crime e mantinha uma fachada de normalidade trabalhando como guia. Paulo explicou:
“É um perfil clássico.”
A primeira pista concreta sobre a localização atual de Márcio Henrique veio de uma fonte inesperada. Em fevereiro de 2020, a Receita Federal informou que um homem com esse nome havia declarado imposto de renda em Palmas, no Tocantins, entre 2015 e 2019, listando sua profissão como prestador de serviços turísticos.
A equipe viajou imediatamente para Palmas e descobriu que Márcio Henrique dos Santos havia trabalhado como guia na região da Ilha do Bananal e do Jalapão entre 2014 e 2019. Mais uma vez, ele usou documentação inadequada e manteve um perfil discreto, evitando formar relações duradouras com colegas ou empregadores.
A investigação em Palmas revelou que o suspeito havia deixado a cidade abruptamente em dezembro de 2019, exatamente na mesma época em que a investigação do caso de Fernanda fora reaberta oficialmente. O momento sugeria que ele poderia estar monitorando notícias sobre casos antigos ou que possuía algum informante. O investigador Paulo César especulou:
“Descobrimos que ele tinha o hábito de acompanhar notícias policiais online, especialmente sobre casos arquivados sendo reabertos. Ele também mantinha contatos em várias cidades onde havia trabalhado. É possível que alguém o tenha alertado sobre nossa investigação.”
A equipe conseguiu localizar o último endereço conhecido de Márcio Henrique em Palmas, um pequeno apartamento em um bairro periférico que ele havia alugado por 4 anos. O proprietário, Sr. Geraldo, descreveu-o como um inquilino exemplar:
“Ele sempre pagava o aluguel em dia, mantinha o apartamento limpo, mas raramente recebia visitas ou fazia barulho. Ele era muito reservado, quase invisível. Às vezes eu ficava semanas sem vê-lo. Quando conversávamos, era sempre educado, mas nunca falava de família ou amigos. Achei estranho quando ele apareceu no final do ano passado dizendo que ia se mudar e precisava quebrar o contrato.”
A perícia no apartamento abandonado encontrou poucos pertences pessoais, mas descobriu algo significativo: recortes de jornais sobre casos de pessoas desaparecidas, incluindo um artigo sobre o movimento Fernanda Vive, publicado em 2018. Havia também mapas detalhados de várias regiões turísticas do Centro-Oeste brasileiro.
Ainda mais perturbadora foi a descoberta de um caderno com anotações manuscritas, contendo informações detalhadas sobre mulheres jovens que trabalhavam no setor de turismo em diferentes cidades. As anotações incluíam nomes, idades, rotinas de trabalho e características físicas. Um verdadeiro catálogo de potenciais vítimas.
O caderno continha uma entrada específica sobre Fernanda Duarte: Fernanda, 25 anos, ambulante, Termas, terças e quintas, bolsa marrom, família no Centro-Oeste. A precisão das informações confirmou que Márcio Henrique havia observado e planejado sua abordagem à jovem. Analisando as evidências encontradas no apartamento, Marina declarou:
“Quando vi aquelas anotações, percebi que estávamos lidando com um predador extremamente organizado e calculista. Ele não agia por impulso, mas planejava cuidadosamente cada ação.”
A descoberta do caderno foi um ponto de virada na investigação. Além de confirmar o envolvimento de Márcio Henrique no desaparecimento de Fernanda, forneceu pistas sobre pelo menos outras 15 jovens que poderiam ter sido suas vítimas ao longo de duas décadas. A equipe solicitou que a Polícia Federal emitisse um mandado de prisão preventiva contra Márcio Henrique dos Santos pelos crimes de sequestro e homicídio qualificado no caso de Fernanda Duarte.
Ao mesmo tempo, foi emitido um alerta nacional para sua localização e captura. Em março de 2020, exatamente 18 anos após o desaparecimento de Fernanda, sua foto foi incluída na lista dos criminosos mais procurados do país. A caçada ao homem que aterrorizou famílias por todo o Centro-Oeste brasileiro estava oficialmente em andamento.
A busca em todo o país por Márcio Henrique dos Santos durou sete meses intensos, durante os quais a Polícia Federal coordenou operações em 12 estados brasileiros. Ao longo de duas décadas, o criminoso demonstrou uma capacidade impressionante de desaparecer e reinventar sua identidade. Mas a pressão investigativa finalmente começou a estreitar suas opções de fuga.
A primeira pista sobre seu paradeiro atual veio de uma fonte improvável. Em agosto de 2020, durante a pandemia de Covid-19, o sistema de auxílio emergencial do governo federal detectou uma tentativa de registro fraudulento, usando documentos em nome de Márcio Henrique dos Santos em Cuiabá, Mato Grosso.
Embora o cadastro tenha sido rejeitado por inconsistências, ele forneceu às autoridades uma localização aproximada. A equipe de Marina Santos viajou imediatamente a Cuiabá e iniciou uma investigação discreta na região onde a tentativa de registro havia ocorrido. Eles descobriram que um homem correspondente à descrição física do suspeito havia sido visto trabalhando como vendedor ambulante de artesanato perto do mercado do porto, uma das principais áreas turísticas da cidade. O investigador Paulo César, que participou da operação de busca, relatou:
“Ele havia mudado completamente o seu modus operandi. Não trabalhava mais como guia turístico, mas como vendedor ambulante. Tinha deixado a barba crescer, estava mais magro e usava óculos, mas a tatuagem de âncora ainda estava lá.”
Por duas semanas, a equipe manteve uma vigilância discreta na área do mercado. Em 3 de setembro de 2020, eles finalmente avistaram um homem que correspondia às características físicas de Márcio Henrique. Ele vendia pulseiras e colares artesanais para turistas e mantinha o mesmo comportamento observador e calculista descrito por testemunhas em casos anteriores.
A abordagem foi cuidadosamente planejada para evitar que o suspeito fugisse ou resistisse à prisão. Às 14h30 de uma quinta-feira ensolarada, enquanto ele estava distraído atendendo um casal de turistas, agentes da Polícia Federal se aproximaram e efetuaram a prisão sem incidentes. O agente federal Carlos Augusto, que liderou a abordagem, lembra:
“Quando mostrei minha identificação policial e disse que ele estava preso, ele não pareceu surpreso. Era como se ele estivesse esperando por esse momento há muito tempo. Ele não resistiu, não tentou fugir, apenas perguntou:”
“É sobre as garotas, não é?”
O homem, identificado como Márcio Henrique dos Santos, de 56 anos, natural de Anápolis, Goiás, foi levado para a sede da Polícia Federal em Cuiabá. Durante a revista pessoal, os agentes encontraram documentos falsos sob três nomes diferentes, cerca de R$ 800 em dinheiro e um celular com fotos de jovens que pareciam ter sido fotografadas sem o conhecimento delas.
O primeiro interrogatório foi conduzido por Marina Santos, que havia dedicado quase dois anos de sua vida para capturar esse homem. Márcio Henrique inicialmente tentou negar envolvimento nos crimes, mas, quando confrontado com as evidências encontradas em seu apartamento em Palmas e os depoimentos das testemunhas, sua postura mudou completamente. Descrevendo o momento da confissão, Marina diz:
“Depois de 20 minutos de conversa, percebi que ele queria confessar. Era como se ele carregasse um peso enorme por décadas e finalmente tivesse encontrado alguém para dividir.”
Márcio Henrique revelou que iniciou suas atividades criminosas em 1995, em Pirenópolis, onde cometeu seu primeiro homicídio contra Sandra Oliveira. Durante 25 anos, ele se moveu sistematicamente por cidades turísticas do Centro-Oeste, assumindo identidades falsas e usando sua aparência confiável para se aproximar de jovens vulneráveis.
A confissão sobre Fernanda Duarte foi particularmente detalhada e perturbadora. Segundo Márcio Henrique, ele havia observado a jovem durante várias semanas antes de 15 de janeiro de 2002, estudando suas rotinas e horários de trabalho. Visivelmente emocionada ao recordar os detalhes, Marina conta:
“No dia do crime, ele a abordou no Hotel Termas, oferecendo-se para comprar todos os seus produtos por um preço acima do valor de mercado. Ele disse que convenceu a Fernanda a acompanhá-lo até o estacionamento para pegar o dinheiro no carro. Chegando lá, ele a forçou a entrar no veículo usando uma faca e a levou para uma área isolada na zona rural de Caldas Novas.”
Márcio Henrique levou os investigadores até o local onde havia enterrado o corpo de Fernanda, uma área de mata densa a aproximadamente 15 km do centro de Caldas Novas. O local era praticamente inacessível por estradas convencionais, o que explicava por que as buscas anteriores nunca haviam alcançado a região.
A exumação dos restos mortais de Fernanda Duarte ocorreu em 12 de setembro de 2020, 18 anos e 8 meses após seu desaparecimento. O exame forense confirmou a identidade por meio da arcada dentária fornecida pela família, encerrando finalmente décadas de incerteza sobre o seu destino. Durante as semanas seguintes, Márcio Henrique confessou o envolvimento em outros 13 homicídios cometidos entre 1995 e 2015.
Cada confissão foi meticulosamente verificada por investigadores que localizaram os corpos de mais oito vítimas em diferentes regiões do Centro-Oeste brasileiro. A notícia da prisão de Márcio Henrique dos Santos e da descoberta do corpo de Fernanda Duarte chegou a Conceição em uma manhã de setembro de 2020. Marina Santos fez questão de informar pessoalmente a mãe da jovem sobre os desdobramentos, ela que havia esperado por aquela resposta por 18 anos e 8 meses.
Conceição, agora com 63 anos e visivelmente debilitada por sua longa batalha contra o câncer, chorou incontrolavelmente ao saber que finalmente poderia enterrar sua filha e que o responsável pelo crime havia sido capturado. Suas primeiras palavras após receber a notícia foram:
“Minha filha pode descansar em paz agora, e eu também.”
O velório de Fernanda Duarte foi realizado em 15 de setembro de 2020, exatamente 18 anos e 8 meses após o seu desaparecimento. Centenas de pessoas compareceram à cerimônia, incluindo muitas que haviam ajudado Conceição durante os anos de buscas. O caixão estava coberto de flores azuis e rosas, as cores favoritas de Fernanda, e uma foto sua sorrindo foi colocada na tampa.
Durante o velório, Marina Santos fez um discurso emocionado sobre a importância da persistência de Conceição na resolução do caso:
“Se não fosse pela fé inabalável de uma mãe que se recusou a aceitar o silêncio das autoridades, Márcio Henrique continuaria livre, fazendo novas vítimas. Conceição Duarte nos ensinou a todos que a justiça pode demorar, mas ela sempre encontra o seu caminho.”
O julgamento de Márcio Henrique dos Santos começou em março de 2021 no Tribunal do Júri de Caldas Novas. Devido à gravidade e ao impacto do caso, foi necessário reforçar a segurança do fórum, e a sessão foi transmitida ao vivo pela internet, permitindo que familiares de outras vítimas acompanhassem o processo. Durante os três dias de julgamento, a acusação apresentou provas devastadoras contra o réu.
Além de sua confissão detalhada, as provas apresentadas incluíram objetos encontrados em seu apartamento, depoimentos de testemunhas de diversos casos e laudos periciais que confirmavam o seu envolvimento nos crimes. A defesa tentou alegar insanidade, mas exames psiquiátricos atestaram que Márcio Henrique era plenamente capaz de compreender a natureza de seus atos. Especialistas o descreveram como um psicopata organizado, que planejou meticulosamente seus crimes ao longo de décadas.
Conceição Duarte, mesmo enfraquecida pela doença, fez questão de comparecer ao julgamento. Em seu depoimento como assistente de acusação, ela descreveu os 18 anos de sofrimento e incerteza que sua família havia enfrentado:
“Eu não quero vingança, quero justiça, para que esse homem nunca mais faça outras famílias passarem pelo que nós passamos.”
Em 18 de março de 2021, o júri condenou Márcio Henrique dos Santos a 35 anos de prisão, inicialmente em regime fechado, pelo homicídio qualificado de Fernanda Duarte. O veredito foi recebido com aplausos no tribunal, marcando o fim de uma das mais longas e complexas investigações da história de Goiás.
Mais tarde, Márcio Henrique foi julgado e condenado pelos demais homicídios que havia confessado, recebendo penas que totalizaram mais de 400 anos de prisão. Ele morrerá na prisão sem a possibilidade de liberdade condicional. A resolução do caso teve impactos profundos nas políticas de segurança em Goiás. Foi criado o protocolo Fernanda Duarte, estabelecendo procedimentos obrigatórios para a investigação de desaparecimentos, incluindo ações investigativas que devem começar nas primeiras 24 horas e proibindo a classificação de casos como fuga voluntária sem investigação adequada.
Marina Santos foi promovida a investigadora-chefe e recebeu diversos prêmios por sua dedicação ao caso. Ela continua trabalhando em casos arquivados e se tornou uma referência nacional na investigação de pessoas desaparecidas. Conceição Duarte faleceu pacificamente enquanto dormia em dezembro de 2021, nove meses após o julgamento de Márcio Henrique.
Segundo os médicos, ela havia cumprido sua missão e finalmente permitiu que seu corpo descansasse. Foi enterrada ao lado de Fernanda no cemitério de Caldas Novas, finalmente reunida com a filha que ela nunca deixou de procurar. O movimento Fernanda Vive permanece ativo, agora coordenado por outras famílias de pessoas desaparecidas e apoiado pela Secretaria de Estado de Segurança Pública de Goiás.
Ele já ajudou a solucionar mais de 30 casos arquivados e se tornou um símbolo da luta contra a negligência investigativa. A história de Fernanda Duarte se tornou um marco na luta por justiça no Brasil, provando que a persistência das famílias e o trabalho investigativo dedicado podem superar décadas de abandono institucional.
Nas águas termais de Caldas Novas, onde tudo começou, há hoje um memorial em homenagem a todas as vítimas de crimes não resolvidos, um lembrete de que algumas feridas só podem ser curadas pela verdade. O caso, que começou com o desaparecimento de uma jovem vendedora ambulante, acabou expondo um dos maiores serial killers da história do Brasil e mudando para sempre a forma como o país lida com pessoas desaparecidas. A justiça chegou tarde para Fernanda, mas chegou completa, forte e transformadora.
Obrigado por acompanhar a história de Fernanda Duarte.