
A 14 de novembro de 2019, às 06h12, Renata Bastos Mourão ligou para a sua mãe a partir de um telefone público à entrada de São Roque de Minas, no sudoeste de Minas Gerais. A chamada durou 47 segundos. Renata disse que ela e o marido, Osvaldo Pires Mourão, estavam bem, que iam passar o fim de semana a acampar na Serra da Canastra, e que voltariam a Ribeirão Preto na segunda-feira.
A mãe perguntou se eles tinham trazido roupa quente que chegue. Renata riu e disse que sim. Depois desligou. Essa foi a última vez que alguém da família ouviu a voz dela.
O Fiat Palio cinzento do casal foi encontrado 11 dias mais tarde. Estacionado numa zona de gravilha perto da Cascata Casca D’Anta, com os vidros fechados e uma fina camada de pó vermelho a cobrir o capô. No banco de trás estava uma geleira com restos de comida estragada, dois sacos de cama enrolados e um exemplar gasto de um guia de trilhos do parque. As chaves não estavam no carro. Nenhum dos telemóveis voltou a emitir qualquer sinal.
A queixa de pessoas desaparecidas foi apresentada pela mãe da Renata na esquadra de polícia de Ribeirão Preto na quarta-feira, 20 de novembro.
O agente que preencheu o relatório policial perguntou se o casal tinha problemas conjugais.
A mãe disse: “Não.”
O agente perguntou se eles tinham dívidas.
A mãe disse: “Não sei.”
O agente anotou a informação, pediu uma foto recente e disse que o caso seria encaminhado.
Três anos e quatro meses depois, de madrugada, a 18 de março de 2023, um motorista de camião que transportava calcário ao longo da autoestrada MG-050, no troço entre Piumhi e Capitólio, avistou duas figuras a caminhar na berma da estrada. Eram cerca das 3h30 da manhã. Não havia iluminação pública naquele troço.
O motorista abrandou e ligou os máximos. Eram um homem e uma mulher. Caminhavam devagar, lado a lado, sem mochilas, sem casacos, descalços. O motorista apitou. Nenhum deles olhou para o lado. Ele continuou a viagem e não parou.
Dois dias depois, uma moradora da zona rural de Capitólio encontrou uma mulher sentada no alpendre de um barracão abandonado a 6 km da autoestrada. A mulher estava suja, magra e com os pés feridos. Não falava. Ao lado dela, deitado no chão de terra batida, estava um homem de barba comprida e olhos abertos, a olhar fixamente para o teto sem pestanejar. Eram Renata e Osvaldo Mourão, o casal que tinha desaparecido na Serra da Canastra em novembro de 2019.
Esta não é uma história de uma fuga planeada, não é uma história de um crime passional, não é uma história que a polícia tenha conseguido encaixar numa categoria conhecida. É a história de dois adultos comuns. Ela, uma técnica de enfermagem, 31 anos. Ele, um eletricista industrial de 34 anos, foi acampar num dos parques nacionais mais conhecidos do Brasil e desapareceu da vida organizada durante mais de 3 anos, sem contacto, sem deixar rasto, sem uma explicação plausível do princípio ao fim.
A cordilheira da Serra da Canastra abrange quase 200.000 hectares no sudoeste de Minas Gerais. É aqui que nasce o rio São Francisco. Os planaltos no topo atingem altitudes de 1496 m, cobertos por campos rochosos e vegetação de cerrado de altitude. Os trilhos oficiais estão bem marcados, os não oficiais nem tanto. Existem ravinas e vales estreitos e fechados, e extensões de floresta densa onde o terreno desce de repente, e onde um grito não consegue chegar ao trilho mais próximo.
Em novembro, o calor já é intenso. As chuvas começam a intensificar-se ao final da tarde, e a vegetação cresce rapidamente, o suficiente para cobrir qualquer rasto em poucas semanas. Renata e Osvaldo conheciam a região. Já tinham estado no parque pelo menos três vezes. Tinham equipamento básico, experiência em acampamentos e o hábito de avisar as famílias quando iam para o mato.
Naquele fim de semana, eles avisaram: Disseram para onde iam. Disseram que voltavam, mas não voltaram. E quando reapareceram, mais de três anos depois, a caminhar descalços numa autoestrada escura a meio da noite, o que trouxeram com eles não foram respostas. Foram perguntas que continuam por responder até hoje.
Se este tipo de história o faz parar e pensar no que pode acontecer quando duas pessoas simplesmente desaparecem num país do tamanho do Brasil, pode subscrever o canal e deixar a sua opinião nos comentários. A partir daqui, a história avança devagar, porque tudo o que aconteceu entre aquela chamada de um telefone público e aquela madrugada na MG-050 tem de ser contado com cuidado.
O que acontece a uma família quando o telefone deixa de tocar e ninguém sabe porquê? A que ponto a esperança deixa de ser esperança e passa a ser apenas rotina? O que significa reencontrar alguém que regressou, mas que não consegue explicar de onde veio? O que faz com que um casal inteiro desapareça durante 3 anos numa região que tem estradas, cidades, habitantes e estações de serviço?
Estamos em São Roque de Minas, novembro de 2019. A época das chuvas está a começar. Este parque ainda recebe visitantes, mas os guardas já recomendam precaução perto das nascentes dos rios. O telefone público à entrada da cidade ainda funciona, e um Fiat Palio cinzento acabou de passar pelo portão do Parque Nacional da Serra da Canastra com dois ocupantes, uma geleira, e sem pressa.
Osvaldo Pires Mourão pediu folga na sexta-feira, 15 de novembro, feriado que comemora a Proclamação da República. A ideia era juntar o feriado com o fim de semana e regressar na segunda-feira de manhã cedo, a tempo de picar o ponto às 7h00 na fábrica de peças de automóveis onde trabalhava há 6 anos, na zona industrial de Ribeirão Preto.
Renata não precisou de negociar a sua dispensa. Trabalhava por turnos na unidade de cuidados de saúde primários do Jardim Paulistano e já tinha trocado de turno com uma colega. Os dois organizaram o carro na quinta-feira à noite depois do jantar, mas não com a facilidade metódica de quem já o tinha feito antes. A mochila do Osvaldo era sempre a mesma, uma mochila Deer verde escura que ele tinha comprado em 10 prestações numa loja de artigos de desporto no centro comercial Santa Úrsula, como sempre.
Lanterna de cabeça, canivete suíço, 2 litros de água, barras de cereais, protetor solar e uma cama de rede que ele amarrava entre dois ramos de árvore quando queria descansar a meio do trilho. A Renata leva menos coisas. Um boné, um casaco leve para a noite, um carregador de telemóvel e um nécessaire com analgésicos básicos, medicamentos para alergias e pomada para picadas de insetos. Ela dizia sempre que se acontecesse alguma coisa grave, seria ela a tratar do assunto, porque era a responsável pela saúde da casa.
O casal morava num apartamento com dois quartos no Jardim Macedo, um bairro de classe média-baixa na zona sul de Ribeirão Preto. O prédio tinha três andares sem elevador, com uma garagem ao ar livre e um portão de metal que rangia sempre que se abria. O apartamento ficava no segundo andar. A sala tinha um sofá cinzento, uma televisão de 32 polegadas, uma estante com alguns livros e uma fotografia de casamento emoldurada em cima do aparador. Tinham-se casado em 2016 numa cerimónia simples no Registo Civil do centro da cidade, seguida de um almoço para 20 pessoas num restaurante estilo buffet no bairro.
Não tinham filhos. Não por decisão definitiva. A Renata disse que queria esperar um pouco mais, poupar mais dinheiro, e talvez mudar-se primeiro para um apartamento novo. O Osvaldo concordou sem insistir. Era um homem de poucas palavras e muitos acordos. Na quinta-feira à noite, depois de carregar o carro, os dois comeram arroz, feijão e um ovo frito na pequena cozinha do apartamento.
O Osvaldo lavou a loiça. A Renata verificou o percurso no guia de trilhos e marcou com uma caneta a entrada pela parte baixa da Casca D’Anta, que era a que eles preferiam, menos íngreme, com acesso mais fácil e uma zona de campismo informal perto do rio. Trancaram o apartamento por volta das 22h00. Foram até às bombas de gasolina na Avenida Caramuru. Encheram o depósito e compraram gelo para a geleira, e seguiram pela autoestrada SP-332 em direção a Franca.
De Franca seguiriam pela BR-146 até Araxá e de lá desceriam pela MG-341 até São Roque de Minas. Uma viagem de pouco mais de 5 horas que os dois já tinham feito antes e que, naquela noite de novembro, parecia tão segura como qualquer outra. Chegaram a São Roque de Minas antes do amanhecer. A cidade estava a dormir; até as ruas de empedrado não estavam vazias. O único movimento era o de um padeiro a abrir a porta de uma padaria na rua principal.
O Osvaldo estacionou o carro perto do largo da igreja e os dois esperaram que fosse dia. Foi lá que a Renata saiu, andou até ao telefone público na esquina e ligou à mãe. 06h12, 47 segundos.
“Está tudo bem, mãe? Trouxemos roupa quente. Estamos de volta na segunda-feira.”
Depois do telefonema, os dois tomaram café na padaria. Pão francês, manteiga, café com leite. O Osvaldo pagou em dinheiro. O funcionário não se conseguiu lembrar da cara dele quando lhe perguntaram sobre isso semanas mais tarde. Ela disse que àquela hora passava muita gente, pessoas de fora, pessoas a caminho do parque, e que não estava a prestar atenção a toda a gente.
Eles saíram de São Roque de Minas pela estrada de terra que leva à entrada inferior do parque e à chamada entrada Casca D’Anta. O percurso é de cerca de 20 km de estrada não pavimentada, com troços de gravilha solta e pó fino que se levanta atrás do carro como uma cortina vermelha. Nos dias de chuva, a estrada fica escorregadia e os buracos enchem-se de água lamacenta. Naquela sexta-feira, o tempo estava bom. Sol radiante desde o início da manhã, céu limpo, sem previsão de chuva até ao final da tarde. Condições normais para novembro.
O carro foi registado à entrada do parque às 07h38. O guarda anotou a matrícula, o número de ocupantes e o destino declarado. Zona de campismo perto da cascata Casca D’Anta. Não havia nada de anormal no registo. O guarda disse mais tarde que o casal parecia relaxado, que a mulher sorriu quando ele lhe desejou uma boa caminhada, e que o homem apenas acenou com a cabeça.
Eles entraram no parque e seguiram pela estrada interna até ao parque de estacionamento. A partir deste ponto, já não há mais registos. Não há câmaras na zona de estacionamento, não há controlo de saída, e não há obrigação de informar o parque na hora de sair. O casal chegou, estacionou o carro, pegou no que precisava e caminhou em direção ao trilho. Dois adultos saudáveis, experientes no bioma Cerrado, num dia de sol, num parque nacional aberto ao público, e depois o silêncio.
O telefone público situava-se na esquina da Rua Direita e o largo da igreja matriz de São Roque de Minas, a poucos metros da padaria onde a Renata e o Osvaldo tinham tomado café. Era uma cabine telefónica azul, daquelas que ainda funcionavam com cartões telefónicos, instalada num poste de betão baixo com o logótipo desbotado do operador e uma lista telefónica de plástico pendurada por um cabo de aço.
Em 2019, já havia muito poucos telefones públicos a funcionar no interior de Minas Gerais. Aquele funcionava, e a Renata usou-o. A mãe dela, a Dona Lourdes Bastos, vivia sozinha num apartamento de dois quartos na Rua Visconde de Inhaúma, no centro de Ribeirão Preto. Tinha 63 anos. Era reformada do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social do Brasil) e viúva desde 2011.
O marido dela, o Hélio Bastos, tinha morrido de um ataque cardíaco fulminante na casa de banho de casa, numa manhã de sábado, enquanto se barbeava antes de ir ao supermercado. Desde então, a Sra. Lourdes vivia sozinha. A Renata era a filha mais velha. Havia um filho mais novo, o Leandro, que vivia em Campinas e trabalhava como motorista de viagens partilhadas.
Os três falavam frequentemente, mas era a Renata quem ligava mais vezes. Todas as semanas, pelo menos duas vezes, às vezes três. A Sra. Lourdes tinha o hábito de acordar cedo. Às 05h30 já estava de pé, a aquecer o café no fogão, a regar as plantas na varanda. Fetos, espada-de-são-jorge, uma orquídea branca que nunca dava flor, mas que ela fazia questão de manter.
O telefone fixo estava na mesa da sala de estar, ao lado de uma moldura com uma fotografia da Renata no dia do seu casamento. Quando a campainha tocou às 06h12 do dia 14 de novembro, a Sra. Lourdes atendeu ao segundo toque.
“Não achou a hora estranha?”
Conhecia a filha. Sabia que a Renata ligaria cedo quando viajava, antes de entrar numa zona sem rede, para a avisar de que estava tudo bem. A conversa não foi nada de especial. A Renata disse que tinham chegado, que a estrada era boa e que o tempo estava bom. A mãe perguntou por roupas quentes, perguntava sempre por roupas quentes, mesmo no calor, porque achava que ficava muito frio à noite no mato.
A Renata riu-se. Disse que sim, que as tinham levado.
A mãe disse: “Tem cuidado, filha.”
A Renata disse: “Podes deixar comigo”, e desligou.
Durou 47 segundos. A Dona Lourdes não sabia naquele momento que aquele telefonema se tornaria o último ponto de referência concreto da sua filha no mundo organizado. Não sabia que ia repetir o conteúdo daquela conversa dezenas de vezes. Para agentes da polícia, para bombeiros, para jornalistas, para vizinhos, para o psicólogo que as começou a ver um ano depois.
Não sabia que aqueles 47 segundos iam ser analisados, transcritos e arquivados num inquérito que nunca chegou a lado nenhum. Naquela altura, ela apenas pousou o telefone, terminou o seu café e foi regar as plantas. O dia continuou, como qualquer outro dia de novembro em Ribeirão Preto, quente e seco, com o barulho dos autocarros a passar na rua e o som distante de uma obra no quarteirão de baixo. A Dona Lourdes almoçou sozinha, viu as notícias das duas horas, adormeceu na sua poltrona e esperou que o dia passasse.
Não tentou ligar à Renata. Sabia que não havia rede no parque. Iou esperar até segunda-feira, como sempre fazia. A segunda-feira chegou, a Renata não ligou. A Sra. Lourdes esperou até ao meio-dia, depois ligou. O telemóvel da Renata foi diretamente para o voicemail; ligou ao Osvaldo. A mesma coisa. Ligou de novo às 15h00, de novo às 18h00 e de novo às 21h00.
Nenhuma resposta, nenhuma mensagem, nenhum sinal. Nessa noite, a Sra. Lourdes não dormiu. Ficou sentada na poltrona da sala de estar com o telefone no colo, a olhar fixamente para a porta como se alguém pudesse bater a qualquer momento.
Ninguém apareceu, e o Fiat Palio foi identificado por um guarda do ICMBio durante uma patrulha de rotina na área da Casca D’Anta, na parte baixa do parque. O nome do guarda era Antônio Ferreira Lima. Tinha 44 anos e trabalhava na unidade de conservação há mais de uma década. Conhecia todas as estradas, todos os trilhos, todos os pontos de paragem daquela região. Sabia reconhecer os carros dos residentes locais, guias, investigadores e turistas habituais. Aquele Palio cinzento não pertencia a ninguém que ele conhecesse.
O carro estava trancado, estacionado de marcha-atrás, encostado a um barranco de terra vermelha coberto de relva alta. Não havia sinais de entrada forçada, nem de acidente, nem de tentativa de roubo. Os vidros estavam fechados. O para-brisas tinha uma camada fina e uniforme de poeira, do tipo que se acumula quando um veículo fica no mesmo lugar durante vários dias sem ser tocado. O Antônio deu a volta ao carro, olhou pelo vidro traseiro e viu a geleira, os sacos de cama e o guia do trilho. Anotou a matrícula num caderno de campo e continuou o seu caminho com a Honda.
“Fim do dia de trabalho,” anunciou a administração do parque.
A administração registou a informação, mas não contactou imediatamente a polícia. Era comum os visitantes deixarem os carros estacionados durante dois ou três dias quando faziam viagens longas dentro do parque. O protocolo interno ditava que devíamos esperar antes de tratar a situação como uma irregularidade.
Passaram mais dois dias. O carro continuava lá. Ninguém apareceu para o ir buscar. Ao quinto dia, a administração verificou a matrícula no sistema e identificou o proprietário como Osvaldo Pires Mourão, residente em Ribeirão Preto. Tentaram contactá-lo por telefone usando o número registado no sistema de voicemail. Só nessa altura é que o Parque notificou a Polícia Civil de São Roque de Minas.
O chefe da polícia da cidade, que também prestava serviço no distrito vizinho de Vargem Bonita, ordenou a inspeção do veículo. O carro foi aberto por um serralheiro local na presença de dois polícias. No interior, estava tudo em ordem. A geleira continha restos de comida, pão, queijo e um pedaço de fruta pisada, já em estado de decomposição. O cheiro era forte. Os sacos de cama estavam limpos e enrolados, como se nunca tivessem sido usados.
O guia do trilho tinha uma página marcada com um clipe, a página que mostrava o mapa do trilho para a parte baixa da Casca D’Anta. No porta-luvas, encontraram-se os documentos do carro, talvez a carta de condução do Osvaldo e um pacote de rebuçados de menta. Nada no banco do passageiro. Na consola central, um carregador de telemóvel estava ligado ao isqueiro, mas não havia nenhum telemóvel ligado na outra extremidade.
As chaves do carro não se encontravam em lado nenhum, nem as chaves do apartamento, nem os telemóveis da Renata e do Osvaldo. Os pertences pessoais, as carteiras, os documentos da Renata e as mochilas também não se encontravam no veículo. Isto significava que em algum momento os dois tinham saído do carro com tudo o que transportavam e tinham entrado no parque, mas não tinham regressado.
Os sacos de cama intactos no banco de trás sugeriam algo que ninguém disse em voz alta naquele momento, mas que pairava no ar. Aparentemente, o casal não montou acampamento, ou se montou, não utilizou o equipamento que tinha no carro. O que levantava uma pergunta simples e sem resposta: se não acamparam onde dormiram? E se não dormiram, o que fizeram durante a noite?
Passaram-se onze dias entre a entrada do casal no parque e a abertura formal do caso. Durante 11 dias o carro ficou parado, o pó acumulou-se, a comida apodreceu, e a chuva foi e veio. E ninguém contactou as duas pessoas que tinham dito à sua família que voltariam na segunda-feira. A Sra. Lourdes tentou ligar à sua filha no domingo, 17 de novembro. O telemóvel da Renata foi diretamente para o voicemail. Tentou novamente na segunda-feira à noite. Nada. Tentou na terça-feira. Nada. Ligou ao Osvaldo, mas foi para o voicemail. Ligou para o número fixo do apartamento do casal, no Jardim Macedo. Ninguém atendeu. O telefone tocou até ir para o voicemail. A Dona Lourdes estava sentada na poltrona da sala com o aparelho na mão, a olhar fixamente para o ecrã como se este pudesse mudar por si só.
Na manhã de quarta-feira, 20 de novembro, a Sra. Lourdes apanhou um autocarro interurbano para Franca. A Dona Carmen Pires, a mãe do Osvaldo, estava à espera na estação rodoviária. As duas mulheres conheciam-se desde os casamentos dos filhos, mas nunca tinham sido íntimas. Trocavam mensagens em ocasiões especiais, partilhavam refeições em reuniões familiares e tratavam-se com respeito e distanciamento. Naquela manhã, no banco de trás de um táxi que as levava de volta a Ribeirão Preto, elas não precisavam de intimidade, precisavam de uma esquadra de polícia.
Chegaram à esquadra da polícia civil do terceiro distrito de Ribeirão Preto, por volta das 10 da manhã. O edifício ficava numa rua sem sombra, com a fachada de tinta descascada e um balcão de atendimento protegido por um vidro. O rececionista era um homem jovem, com uma camisa de botões e uma placa de identificação pendurada ao pescoço. Ouviu o que as duas mulheres tinham para dizer, anotou alguma informação num pedaço de papel e informou-as de que, para o registo formal do desaparecimento de um adulto, era necessário aguardar 72 horas desde o último contacto.
A Dona Lourdes olhou para o rapaz e disse, com uma voz firme, mas sem levantar o tom, que já tinham passado cinco dias, que a sua filha e o seu genro tinham ido para um parque nacional e não tinham voltado, que os telefones estavam mortos, e que ninguém sabia de nada. O rapaz consultou alguém nas traseiras, regressou e disse que o relatório da polícia podia ser preenchido.
Pediu uma foto recente do casal, os números dos seus documentos, uma descrição do veículo e a sua última localização conhecida. A Dona Lourdes tinha trazido tudo numa pasta de plástico transparente. Fotos impressas, uma cópia da identificação da Renata, o número da matrícula do carro anotado e o endereço do apartamento. A Dona Carmen tinha uma foto do Osvaldo no seu telemóvel.
O relatório policial foi preenchido às 11h14 da manhã, sob o número que permaneceria arquivado durante os próximos 3 anos. O agente que preencheu o formulário fez as perguntas da praxe. Se o casal tinha problemas conjugais, se havia historial de depressão, se usavam drogas, se tinham dívidas, se alguém na família tinha motivos para acreditar que os dois podiam ter saído de livre vontade.
A Dona Lourdes respondeu a todas firmemente: “Não, não, não, não, não.”
A Dona Carmen permaneceu em silêncio, a apertar a mala com as duas mãos, a olhar fixamente para o chão.
Quando saíram da esquadra, o sol de novembro estava no seu zénite. Ribeirão Preto estava a ferver no calor seco do interior do estado de São Paulo. As duas mulheres pararam no passeio, sem saberem o que fazer a seguir. A Dona Lourdes disse que ia ligar ao Leandro, o seu filho, que morava em Campinas, para lhe contar o que se estava a passar. A Dona Carmen disse que ia voltar para Franca e esperar.
“Esperar porquê?”
Ninguém o disse, mas era o único verbo disponível. O relatório da polícia foi inserido no sistema da Polícia Civil de São Paulo. Daí, foi reencaminhado para a Polícia Civil de Minas Gerais, uma vez que a última localização conhecida do casal foi no estado vizinho. O reencaminhamento demorou mais quatro dias. A máquina institucional estava a trabalhar, mas ao seu ritmo habitual: lentamente, sem urgência, sem ninguém a pressionar. Entretanto, o Fiat Palio continuava estacionado na zona de gravilha da Casca D’Anta, a acumular pó.
A operação de busca começou no dia 25 de novembro, 11 dias após o desaparecimento. O atraso não foi causado por negligência deliberada, mas pela acumulação de procedimentos, comunicações entre estados e pela lentidão inerente a um sistema que não trata o desaparecimento de adultos com a mesma prioridade com que trata homicídios ou raptos. No Brasil, o desaparecimento é um acontecimento administrativo antes de ser considerado uma emergência.
Os bombeiros de Piumhi mobilizaram duas equipas com cães pisteiros. A Polícia Militar Ambiental entrou no parque pelo lado sul. Voluntários da região, agricultores, trabalhadores rurais, guias locais que conheciam cada ravina e cada riacho, juntaram-se por sua própria iniciativa, sem convite formal, porque era assim que as coisas funcionavam naquela parte de Minas Gerais. Quando alguém desaparecia no mato, os vizinhos saíam para procurar antes de qualquer instituição.
A vegetação do cerrado já estava alta em novembro. Em muitos troços, o capim alto chegava à cintura de um homem adulto. Os campos rochosos no topo da serra tinham vegetação mais rasteira, mas o terreno era irregular, cheio de afloramentos rochosos, fendas estreitas e encostas que não eram visíveis até se estar no topo delas. As ravinas em redor da Casca D’Anta estavam cheias de água turva, alimentadas pelas primeiras chuvas da estação.
Os cães pisteiros trabalharam a partir do carro, a tentar captar qualquer cheiro no parque de estacionamento e ao longo do trilho principal. Captaram alguma coisa nos primeiros 200 metros, um cheiro que os conduziu a uma bifurcação do caminho, onde o trilho oficial se separava de um caminho secundário mais estreito que descia até à margem do rio. Depois disso, nada.
A pista morreu. As equipas fizeram buscas na zona da Casca D’Anta durante seis dias. Seguiram trilhos, desceram até às ravinas e entraram em florestas ripárias. Verificaram abrigos naturais debaixo de rochas. Inspecionaram as margens do rio São Francisco nos troços acessíveis. Não encontraram mochilas, nem roupas, nem restos de uma fogueira, nem pegadas preservadas.
A chuva que caíra nos dias anteriores tinha levado tudo. Ao terceiro dia de buscas, um dos guias voluntários encontrou um pedaço de tecido preso a um ramo, a cerca de 4 km do parque de estacionamento, numa zona de floresta densa, fora de qualquer trilho oficial. O tecido era de uma cor indefinida. Podia ser azul ou cinzento; estava sujo e desbotado. Foi recolhido e enviado para análise. Nunca foi confirmado se pertencia à Renata ou ao Osvaldo. O relatório foi inconclusivo.
No quinto dia, um helicóptero do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais sobrevoou a área; a cordilheira era uma extensão contínua de verde e castanho, com paredes de rocha expostas e vales profundos cobertos de vegetação. O piloto disse mais tarde que procurar duas pessoas naquele terreno era como procurar dois grãos de areia numa praia. A comparação era exagerada, mas o significado era exato. A Serra da Canastra é demasiado grande e isolada para uma busca convencional com os recursos disponíveis.
No sexto dia, o coordenador da operação, um capitão dos Bombeiros de Piumhi, convocou uma conferência de imprensa informal na sede da administração do parque. Estavam lá dois repórteres de jornais regionais e um operador de câmara de uma estação de televisão de Passos. O capitão disse que a área era muito grande, que as condições do terreno dificultavam qualquer progresso significativo, e que as buscas ativas seriam suspensas temporariamente, mas poderiam ser retomadas se surgissem novas informações. Ele usou a palavra temporariamente. Ninguém ali acreditou que fosse temporário.
A Dona Lourdes viu a entrevista no telemóvel do seu filho Leandro, que ele tinha gravado a partir de uma página local do Facebook. Eu estava sentada na poltrona da sala do meu apartamento em Ribeirão Preto com um copo de água na mão. Quando o capitão disse a palavra “suspensas”, ela não chorou, não gritou, não praguejou; poisou o copo na pequena mesa, levantou-se e foi à cozinha para aquecer o seu café. O café já estava pronto, mas ela voltou a aquecê-lo porque precisava de fazer alguma coisa com as mãos.
O Leandro ficou em Ribeirão Preto por mais três dias. Depois voltou para Campinas, pois tinha corridas para fazer e contas para pagar. Antes de sair, abraçou a sua mãe à porta do apartamento e disse que tudo ia ficar bem. A Dona Lourdes acenou com a cabeça, mas não respondeu. Eu já tinha passado a fase de acreditar em frases de consolo.
O inquérito foi aberto pela Polícia Civil de Minas Gerais, sob a jurisdição do distrito de São Roque de Minas. O polícia responsável estava encarregue de três distritos judiciais e tinha 16 inquéritos em curso. O caso Mourão foi adicionado à fila. A Dona Lourdes regressou ao seu apartamento em Ribeirão Preto. A Dona Carmen regressou a Franca.
As duas começaram a falar ao telefone todas as noites às 21h, num ritual que nenhuma das duas tinha acordado formalmente, mas que não quebraram durante 3 anos. Era sempre a Sra. Lourdes que ligava. A Dona Carmen atendia ao primeiro ou segundo toque. A conversa raramente durava mais de 10 minutos. Não havia novidades, nem progressos. Apenas a confirmação mútua de que as duas ainda ali estavam, à espera, acordadas.
Nos primeiros meses, as conversas tinham alguma substância. A Dona Lourdes dizia que tinha telefonado para a esquadra e que o funcionário tinha dito que não havia novidades. A Dona Carmen contou que tinha pedido a um sobrinho que vivia em Uberlândia para ir a São Roque de Minas e perguntar na cidade se alguém tinha visto alguma coisa. O sobrinho foi e perguntou na padaria, no posto de gasolina e na pousada na entrada da cidade. Ninguém se lembrava do casal, ou se lembravam, não tinham nada de útil para dizer.
Após os primeiros meses, as conversas ficaram mais curtas. O conteúdo foi reduzido ao mínimo.
“Como está a senhora?”
“Estou bem. E a senhora também?”
“Está bem então. Boa noite.”
“Boa noite.”
Ela leu um fio fino que as mantinha ligadas ao mesmo vazio. Cortar esse fio significaria admitir que já não havia nada a esperar. Nenhuma delas estava pronta para isso. A rotina da Dona Lourdes continuou com a disciplina silenciosa de pessoas que não sabem o que fazer, mas que não deixam de o fazer. Acordava cedo, regava as plantas, bebia café e ia ao mercado.
Regressava a casa, preparava o almoço para uma pessoa, lavava a louça, via as notícias, tentava ler mas não conseguia, adormecia, acordava, ligava à Dona Carmen e voltava a dormir. No dia seguinte, a mesma coisa acontecia. O apartamento permaneceu exatamente como estava. A Dona Lourdes não mudou em nada.
A moldura com a foto de casamento da Renata permaneceu na mesa da sala. O frigorífico continuava a ter o íman recordação da região da Serra da Canastra que a Renata tinha trazido de uma viagem anterior. Um pequeno íman de plástico com uma imagem da cascata da Casca D’Anta e a palavra “Canastra” em letras azuis. A Dona Lourdes não o tirou, mas também não olhava para ele.
Sempre que abria o frigorífico, os seus olhos iam diretos para as prateleiras no interior, como se o íman não existisse. Em Franca, a Dona Carmen lidou com o vazio de outra forma. Quase não falava do Osvaldo com ninguém. Quando um vizinho perguntava se tinha notícias do filho, ela respondia que não e mudava de assunto.
Ia à missa todos os domingos, sentava-se no mesmo banco de sempre, rezava com os olhos fechados e voltava para casa sem falar com o padre. Havia uma foto do Osvaldo em criança, colada na porta do armário; um rapazinho de cerca de 7 anos em calções e t-shirt, a segurar um papagaio de papel num caminho de terra. Ela olhava para esta foto todas as noites antes de ir dormir.
E o tempo passava com aquela lentidão específica que só quem espera sem um prazo de fim conhece. Natal de 2019, Ano Novo de 2020, a pandemia. O isolamento foi algo inédito para muitos, mas para a Sra. Lourdes já era rotina. O telefone fixo manteve-se na mesa da sala, o volume no máximo.
Ela nunca o desligou, nunca o colocou em silêncio. Mesmo a meio da noite, mesmo enquanto dormia, o telefone estava sempre lá, pronto para tocar.
“Porquê? E se fosse a Renata? E se fosse de um hospital? E se fosse a polícia? E se fosse alguém a dizer que os tinha encontrado?”
O telefone nunca tocou com essa notícia, mas a Sra. Lourdes nunca desistiu.
Havia dias em que acordava e, por um momento, antes de abrir totalmente os olhos, esquecia. Esquecia-se que a filha tinha desaparecido, esquecia-se que já tinham passado meses. Depois abria os olhos, via o teto do quarto e a luz do dia a entrar pela frincha da cortina, e a memória regressava por inteiro, como um peso que alguém lhe tinha colocado no peito.
Naqueles dias, ela passava mais tempo na cama. Não porque estivesse doente, mas porque levantar-se significava começar um novo dia que ia ser exatamente igual ao anterior. O irmão da Renata, o Leandro, ligava todas as semanas, às vezes duas. Perguntava se a mãe precisava de alguma coisa, se queria que ele fosse a casa, e se estava a comer bem.
A Dona Lourdes dizia que sim, que estava tudo bem, que não era preciso ele ir. O Leandro sabia que algo não estava bem, mas também sabia que a mãe não ia admitir. Ela era uma mulher de outra geração, criada no interior de Minas Gerais, habituada a suportar em silêncio o que a vida lhe trouxesse. Algo no seio daquela família tinha deixado de funcionar a 14 de novembro de 2019, e nunca mais voltaria a ser igual.
Em fevereiro de 2020, um morador de Sacramento, cidade a cerca de 140 km de São Roque de Minas, foi à esquadra local e disse ter visto um casal parecido com a Renata e o Osvaldo a pedir boleia na BR-262, perto do entroncamento para Araxá. De acordo com o morador, o homem usava um boné e levava uma mochila escura.
A mulher era magra, de cabelo comprido e amarrado. Os dois estavam na berma da estrada, perto de uma bomba de gasolina desativada, com os braços esticados para os camiões que passavam. O morador disse que reduziu a velocidade, mas não parou. Disse que só relacionou a informação com o caso do casal desaparecido quando viu uma reportagem num jornal regional.
Três semanas depois, a Polícia Civil de Sacramento registou o depoimento e enviou-o para a esquadra de São Roque de Minas. Um investigador deslocou-se ao trevo de Araxá e falou com os funcionários das bombas de gasolina vizinhas. Mostrou fotografias do casal. Ninguém o reconheceu. Não havia câmaras no local indicado.
A pista morreu aí sem confirmação ou desenvolvimentos adicionais. Em julho de 2020, uma denúncia anónima chegou ao Disque 100, o número de telefone nacional para queixas de direitos humanos. O autor da chamada, que nunca foi identificado, disse que duas pessoas com as descrições da Renata e do Osvaldo viviam numa comunidade rural isolada no município de Delfinópolis, a cerca de 80 km de São Roque de Minas.
Segundo a denúncia, o casal vivia numa tenda improvisada perto de uma fazenda de gado e trabalhava em troca de comida e alojamento. A Polícia Civil de Delfinópolis deslocou-se ao local indicado com uma equipa de dois polícias e um agente da Proteção de Menores. Encontraram uma família de rendeiros, um homem e uma mulher e três crianças, que viviam em condições precárias numa propriedade rural sem registo formal.
O homem estava na casa dos 30 e a mulher aparentava ter a mesma idade, mas não tinham qualquer ligação ao caso Mourão. Eram originários do Carmo do Rio Claro e estavam ali há mais de dois anos. A acusação era ou falsa ou um erro. Nunca se soube qual das duas era. Em outubro de 2020, a Sra. Lourdes recebeu uma chamada de um número desconhecido.
Era uma mulher que se identificou como médium espírita de Uberaba e que disse ter recebido uma mensagem durante uma sessão sobre o paradeiro da Renata e do Osvaldo. Disse que os dois estavam vivos, que estavam num lugar rodeado de água e pedras, e que voltariam quando fosse o momento certo.
A Dona Lourdes escutou em silêncio, agradeceu e desligou. Não contou à Dona Carmen, não contou ao Leandro. Guardou o assunto para si, sem saber se devia acreditar ou não, mas sem forças para descartar qualquer coisa que oferecesse sequer um vislumbre de possibilidade.
Em março de 2021, mais de um ano após o desaparecimento, o Ministério Público de Minas Gerais solicitou um relatório de progresso à Polícia Civil. O relatório de sete páginas descrevia as ações realizadas: inspeção do veículo, buscas no parque, recolha de depoimentos, análise das denúncias, e concluía que, até àquele momento, não havia indícios suficientes para apontar para crime, acidente ou saída voluntária. O caso manteve-se em aberto.
O Ministério Público recomendou a inclusão da Renata e do Osvaldo no Sinalid. O Sistema Nacional de Localização e Identificação de Pessoas Desaparecidas. A inclusão foi feita em abril de 2021, 17 meses após o desaparecimento. Em setembro de 2021, o Leandro foi a São Roque de Minas por conta própria. Pegou no carro em Campinas, conduziu durante 7 horas, chegou ao final da tarde e ficou numa pousada nos arredores da cidade.
Durante os dois dias seguintes, percorreu o comércio local, bares, pousadas e fazendas perto do parque. Mostrou fotos da sua irmã e do seu cunhado a dezenas de pessoas. A maioria dizia não se lembrar. Alguns disseram que se lembravam vagamente de um casal de jovens que tinha passado pela cidade, mas não conseguiam precisar a data ou dar qualquer detalhe útil.
Um guia de trilhos independente da região disse que por vezes os turistas saíam dos trilhos oficiais e entravam em áreas do parque que não eram vigiadas. Vales profundos, matas de galeria, trechos onde o cerrado (savana brasileira) se fechava, e onde era possível caminhar durante horas sem encontrar ninguém.
Ele disse que já tinha ouvido histórias de pessoas que se perdiam e eram encontradas dias mais tarde, desorientadas, desidratadas, sem ideia de quanto tempo tinha passado, mas nunca tinha ouvido falar de ninguém que tivesse desaparecido durante mais de um ano. O Leandro voltou para Campinas sem respostas. No caminho de volta, parou no acostamento da BR-146, perto de Araxá.
Desligou o carro e ficou lá parado durante 20 minutos, com as mãos no volante, a olhar fixamente para a estrada vazia. Depois ligou o carro e prosseguiu viagem. Não contou à mãe o que tinha feito.
“Não queria dar esperança, mas também não queria tirar.”
As pistas continuaram a chegar esporadicamente ao longo de 2022. Todas seguiram o mesmo padrão. Alguém dizia ter visto algo. A polícia verificava, não encontrava nada, e o arquivo aumentava sem se registar qualquer progresso. Um agricultor do Capitólio disse ter visto um homem semelhante ao Osvaldo a comprar tabaco numa loja à beira da estrada. Uma professora de Piumhi disse ter visto uma mulher parecida com a Renata sentada numa paragem de autocarro nos arredores da cidade.
Um pescador do lago de Furnas disse que avistou um casal a acampar numa ilha na albufeira. Mas quando ele regressou ao local no dia seguinte, já não lá estava ninguém. Nenhuma destas pistas foi confirmada. Nenhuma conduziu a qualquer progresso concreto. A investigação continuou aberta, mas na prática estava parada. O agente encarregue do caso tinha sido transferido para outro distrito.
O novo chefe de polícia herdou o caso juntamente com 17 outras investigações pendentes. O caso Mourão foi apenas mais um pedaço de papel numa pilha. E assim passou o tempo, sem um corpo, sem um crime, sem uma explicação. Resta-nos a ausência contínua de duas pessoas que em tempos lá estiveram e que deixaram subitamente de estar. O nome do camionista era Geraldo Antunes Prata.
Tinha 58 anos e fazia a rota Piumhi-Capitólio três vezes por semana há mais de uma década. Eu conhecia cada curva, cada buraco, cada trecho daquela estrada sem berma. Sabia onde o asfalto estava remendado, onde a estrada estreitava, onde os animais atravessavam à noite. Era aquele tipo de motorista que conduzia em piloto automático, com a mente a divagar, a ouvir rádio AM e a pensar na vida, mas sem nunca perder o foco no que aparecia à frente dos seus faróis.
Na madrugada de 18 de março de 2023, Geraldo partiu de Piumhi por volta das 3h00, transportando calcário para uma obra no Capitólio. A noite estava escura, com lua nova e sem iluminação pública, no trecho rural da rodovia MG-050. Os faróis do camião cortavam a estrada como duas faixas de luz num túnel infinito.
O rádio tocava um programa religioso de uma estação de Passos. Geraldo conduzia com a janela lateral ligeiramente aberta, desfrutando do cheiro a vegetação e terra húmida que entrava com a brisa matinal. Foi perto do quilómetro 284, numa reta entre duas curvas largas, que viu aquilo. Duas figuras no acostamento do lado direito da estrada, caminhando na mesma direção que o camião, de costas para ele.
Geraldo abrandou instintivamente. Era perigoso haver peões naquela zona, sem refletores, sem lanternas, na escuridão total. Ele ligou os máximos. Eram um homem e uma mulher. Eles caminhavam lado a lado a um passo que Geraldo mais tarde descreveu como estranho. Não era rápido, não era lento, era um ritmo constante e mecânico, como se os dois estivessem a caminhar há muito tempo e tivessem finalmente encontrado um ritmo que já não exigia pensamento. A mulher vestia uma t-shirt suja, de cor clara, que parecia muito grande para ela, e estava descalça. O homem usava umas calças compridas, também sujas, que davam a impressão de estarem largas, como se ele tivesse perdido peso desde que as vestiu.
Também descalço, nenhum deles transportava mochila, saco ou qualquer objeto visível. Geraldo tocou a buzina duas vezes, uma vez brevemente, e depois mais uma vez. Nenhum dos dois olhou para o lado, nenhum dos dois virou a cabeça. Nenhum deles alterou a sua velocidade. Eles continuaram a andar, olhando em frente, como se o camião não existisse.
Geraldo passou por eles lentamente, olhando pelo espelho retrovisor. Ele viu as duas silhuetas encolherem na escuridão atrás do camião até desaparecerem. Ele sentiu um desconforto no estômago que não conseguiu explicar.
“Não foi medo”, disse ele mais tarde.
Era algo estranho, uma sensação de que algo não estava certo, de que aquelas duas pessoas não deviam estar ali àquela hora, naquele estado.
Ele pensou em parar, pensou em dar-lhes água se precisassem de ajuda, mas não parou. Ele disse que não sabia porquê. Ele disse que a situação lhe causou um desconforto que ele não conseguiu traduzir em palavras. Ele seguiu a sua viagem. Ao chegar a Capitólio, por volta das 4h30 da manhã, ele estacionou o camião no pátio de construção e ligou para a sua esposa, Dona Marta, que vivia em Piumhi.
Ela acordou e ele contou-lhe o que tinha visto. A Dona Marta perguntou se ele tinha parado. Ele disse que não. Ela perguntou porquê. Ele não sabia a resposta. A Dona Marta disse que ele devia ter parado.
Geraldo disse: “Eu sei.”
Ele depois desligou a chave e sentou-se na cabina do camião durante uns minutos, com o motor desligado, a olhar para a escuridão do pátio. No dia seguinte, Geraldo não voltou a pensar no assunto. Fez a viagem de regresso a Piumhi, dormiu, jantou e viu o noticiário. Foi só dois dias depois, quando a notícia sobre o casal encontrado no galpão em Capitólio começou a circular em grupos de WhatsApp da região, que Geraldo fez a ligação.
Ele ligou para a Polícia Rodoviária Estadual e deu o seu depoimento. Ele disse que tinha visto os dois na autoestrada MG-050 na madrugada de 18 de março, caminhando pelo acostamento, descalços, sujos e sem olhar para os lados. O depoimento de Geraldo foi o único registo de Renata e Osvaldo entre o seu desaparecimento em novembro de 2019 e o seu reencontro no armazém em março de 2023.
Três anos e 4 meses de vazio. A única testemunha foi um camionista que passou por eles no escuro e não parou. O morador que os encontrou chamava-se Aparecida de Fátima Borges. Ele tinha 62 anos. Ela era casada com Joaquim Borges há 37 anos e vivia numa pequena fazenda na área rural de Capitólio, a 6 km da rodovia MG-050, no final de uma estrada de terra que não aparecia em nenhum mapa digital.
A propriedade contava com uma simples casa de alvenaria, um antigo terreiro de secagem de café, um pomar com mangueiras e jabuticabeiras e um galinheiro com cerca de 30 galinhas, das quais a Aparecida cuidava sozinha todas as manhãs, desde que o marido fez uma cirurgia no joelho e não conseguia mais se abaixar. O barracão ficava a cerca de 150 metros da casa principal, em uma clareira de terra batida rodeada por capim alto.
Era um edifício de alvenaria sem porta, com telhado de fibrocimento e piso de cimento irregular. Foi usado anos atrás para guardar ferramentas, sacos de adubo e peças de tratores. Após o Sr. Joaquim parar de plantar, o galpão esvaziou-se. Às vezes, um trabalhador que passava por ali pedia para passar a noite. A Aparecida nunca dizia que não.
Ele deixava um balde d’água e um pedaço de sabão lá fora e não fazia perguntas. Na manhã do dia 20 de março de 2023, uma quinta-feira, a Aparecida saiu de casa por volta das 6h30 para soltar as galinhas. O dia estava nublado, com aquele calor abafado típico de março no sudoeste de Minas Gerais, quando o calor é forte, mas o sol não aparece.
Ela caminhou em direção ao galinheiro, abriu a porta de arame, atirou o milho no chão e começou a recolher os ovos. Foi então que ele ouviu um som vindo do galpão. Não era um som definido, era mais uma presença e um movimento, algo que não deveria estar lá. Aparecida caminhou em direção ao galpão com o balde de ovos na mão.
Ele chegou na entrada sem portas e olhou lá dentro. A primeira coisa que ele viu foram os pés. Pés de mulher descalços, sujos de terra e sangue seco, com cortes na sola e pele grossa e rachada, como o pé de alguém que caminha descalço há muito tempo. A mulher estava sentada no canto esquerdo do galpão, encostada na parede, com as mãos no colo e de olhos abertos.
Ele não estava a olhar para a Aparecida, olhava em frente, para um ponto indefinido no ar. A Aparecida entrou e viu o segundo corpo. Um homem deitado no chão de terra batida, de costas, com a cabeça virada de lado e os olhos abertos. A sua barba era longa, suja e emaranhada. As roupas estavam sujas e rasgadas em vários sítios.
Ele não se mexia, mas respirava. A Aparecida viu o peito da mulher subir e descer devagar, a um ritmo que lembrava o de alguém a dormir de olhos abertos. A Aparecida não gritou, não correu, poisou o balde com os ovos no chão, deu dois passos para trás e chamou o marido em voz alta. O Joaquim apareceu a coxear na porta de casa e ela disse que havia gente no galpão.
O Sr. Joaquim foi lá, olhou para dentro, olhou para a mulher e disse: “Vou ligar para o Toninho.”
Toninho era o vizinho mais próximo, a cerca de 1 km pela estrada de terra. O Sr. Joaquim foi de moto. O Toninho chegou de camionete. Os dois olharam para dentro do galpão, entreolharam-se e Toninho disse: “Vou ligar para a polícia.” O carro da polícia de Capitólio chegou 45 minutos depois.
Dois soldados desceram, entraram no galpão e tentaram falar com a mulher. Ela não respondeu. Ela olhava em frente com as mãos no colo, sem demonstrar qualquer reação visível. Um dos soldados agachou-se perto do homem e perguntou o seu nome. O homem moveu os lábios, mas não emitiu som. O soldado repetiu a pergunta.
O homem disse uma palavra que o soldado não entendeu. Em seguida, fechou os olhos. Ambos foram removidos pelo SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e levados para o hospital municipal em Capitólio. A mulher foi colocada numa maca e coberta com um cobertor. Ele não resistiu, não falou, não chorou.
O homem precisava de ajuda para ficar de pé. Ele estava fraco. Ele tropeçou ao dar os primeiros passos e precisou de apoio de dois paramédicos para chegar à ambulância. A Aparecida ficou à porta do barraco, vendo a ambulância afastar-se pela estrada de terra. O Sr. Joaquim ficou ao seu lado com a mão no seu ombro.
Nenhum dos dois disse nada por um longo tempo. Então, Aparecida olhou para o chão do barraco, para as marcas dos corpos na poeira, para as pegadas, para o cheiro de suor e vegetação, e disse suavemente, mais para si mesma do que para o marido.
“Estas pessoas caminharam muito.”
Renata e Osvaldo foram encaminhados para o hospital municipal de Capitólio e posteriormente transferidos para a Santa Casa de Passos, que apresentava melhor estrutura para uma avaliação clínica completa. A transferência aconteceu no mesmo dia, por volta das 16h, em uma ambulância do SAMU. Ela percorreu os 70 km de estrada que separam as duas cidades com os pacientes deitados em macas paralelas, separados por uma divisória de lona. No hospital da Santa Casa, ambos deram entrada em quartos separados na enfermaria clínica.
Os exames preliminares revelaram desidratação moderada, desnutrição leve a moderada, perda de massa muscular e ferimentos nos pés consistentes com caminhadas prolongadas em terrenos acidentados sem sapatos. A Renata havia perdido em torno de 12 kg, comparado com o peso registrado na sua última consulta médica, em setembro de 2019. O Osvaldo havia perdido mais, em torno de 19 kg.
Ambos apresentavam marcas de picadas de insetos antigas em várias partes dos seus corpos — braços, pernas, pescoço, tornozelos — cicatrizando em diferentes fases, o que indica uma exposição prolongada ao meio ambiente do Cerrado. O Osvaldo apresentou-se em estado de desorientação que os médicos inicialmente classificaram como um estado dissociativo. Ele não respondia a perguntas diretas, não fazia contato visual, não reconhecia onde estava.
Quando uma enfermeira lhe perguntou o nome, ele repetiu a mesma palavra que tinha tentado dizer no barraco — uma sílaba curta e indistinta que poderia ser um nome, um lugar ou absolutamente nada. Nos dias que se seguiram, a equipa médica tentou várias abordagens. O Osvaldo reagia a estímulos básicos. Ele comia quando lhe davam comida, bebia água e utilizava a casa de banho quando lhe pediam, mas não entrava em diálogo.
Ela olhava para as paredes, para o teto, para as mãos. Por vezes, movia os lábios sem emitir som. A Renata falava, mas de forma fragmentada. Respondia a algumas perguntas com frases curtas, frequentemente fora de contexto. Quando lhe perguntavam onde estivera, dizia no mato. Quando questionada quanto tempo, disse não saber.
Quando lhe perguntaram se tinha acontecido alguma coisa a ela e ao Osvaldo, ela ficou em silêncio por mais de um minuto e depois disse: “Caminhámos muito.” A L repetiu esta frase várias vezes ao longo dos primeiros dias. Caminhámos muito, como se fosse a única informação que conseguíssemos organizar. Nenhum dos dois demonstrava sinais de uso de substâncias: álcool, drogas ilícitas ou medicamentos psicotrópicos.
Os exames toxicológicos deram negativo. Exames neurológicos não indicaram lesão cerebral, tumor ou qualquer alteração estrutural que justificasse a desorientação. Um psiquiatra que os avaliou na Santa Casa anotou nos processos que ambos apresentavam sinais compatíveis com perturbação dissociativa, possivelmente desencadeada por uma exposição prolongada a condições de extremo stress, contudo ressalvou que o diagnóstico era preliminar e exigia acompanhamento a longo prazo.
Nenhum deles tinha documentos. Não levavam carteira, identidade, cartões de banco ou telemóveis. As roupas que envergavam não correspondiam à descrição do relatório da polícia. A Renata estava a usar uma camisola de algodão branca, lisa, de tamanho grande, que era maior do que a que costumava usar. O Osvaldo vestia umas calças de fato de treino cinzentas sem marca aparente e uma camisola escura rasgada no ombro esquerdo.
Não se sabe de onde vieram estas roupas. Não se sabe quem as providenciou. A Polícia Civil do Capitólio foi avisada nesse mesmo dia e enviou um investigador ao Hospital da Santa Casa para recolher testemunhos. A Renata não conseguiu apresentar uma explicação coerente. Ele repetiu as mesmas frases. Caminhámos durante muito tempo pelo mato, não sei quanto tempo, e de repente parámos de conversar.
O Osvaldo não respondeu a nenhuma das questões e o investigador arquivou os depoimentos alegando que foram dificultados pelo estado de saúde dos declarantes. Enviou a comunicação para a delegacia de São Roque de Minas, onde se encontrava a investigação original. A Dona Lourdes foi avisada por telefone na noite de 20 de março.
A chamada teve origem num número associado ao Hospital Santa Casa de Passos. Uma assistente social avisou que a doente que deu entrada tinha sido identificada como Renata Bastos Mourão, pelo que a família se podia deslocar ao hospital. A Dona Lourdes esteve em silêncio durante uns segundos.
De seguida perguntou: “Ela está viva?” A assistente social disse que sim.
A Dona Lourdes perguntou: “E o Osvaldo…” A assistente social também confirmou. A Dona Lourdes sentou-se na berma da cama, com o telefone colado ao ouvido, e não sabe quanto tempo permaneceu lá. Depois ligou para a Sra. Carmen. Eram 21:16, mais de 16 minutos do que o normal. A Dona Carmen atendeu à primeira.
A Dona Lourdes disse: “Encontraram-nos.” A Dona Carmen permaneceu calada. A Dona Lourdes repetiu: “Dona Carmen! Encontraram o Osvaldo e a Renata. Eles estão vivos. Estão no hospital em Passos.” A Dona Carmen desatou a chorar. Chorava em silêncio, sem soluços. Uma voz tranquila que a Dona Lourdes pôde escutar do outro lado do fio, como se as vozes tivessem sido libertadas após os longos anos retidas em cativeiro.
O Leandro conduziu de Campinas a Ribeirão Preto naquela mesma noite. Agarrou na sua mãe e conduziu em direção a Passos. Chegaram ao hospital pelas quatro da manhã. A Dona Carmen não demorou muito a chegar. O seu sobrinho levou-a desde a cidade de Franca de carro. Ambas se encontraram no corredor das instalações médicas, num local onde a luz florescente deixava um ténue sussurro e, nesse momento, abraçaram-se. Ninguém abriu a boca.
Elas pararam ali abraçadas, quando uma enfermeira comunicou que podiam entrar. Dona Lourdes visitou logo o quarto de Renata. Encontrou a filha acordada, enrolada num lençol de hospital. Estava magra. O seu rosto não se tinha alterado em nada. No entanto, o seu corpo não era mais o mesmo. Ombro O braço diminuiu o peso, tornando os ossos da maçã do rosto ainda mais marcados e evidentes.
A Dona Lourdes caminhou até à beira da cama: “Filha”. O pescoço de Renata encurvou-se de lado vagarosamente para poder vislumbrar a mãe. Contudo, ela não teve capacidade de sorrir. Os seus olhos nem encheram-se de lágrimas, tal que tivesse dificuldade a compreender as caras novas desde uma vasta distância. Mais tarde respondeu calmamente: “Olá mãe”. A Lourdes estendeu-lhe o braço. As suas mãos fecharam em torno uma da outra.
A mão da Renata encontrava-se áspera, seca e com a pele calejada e assinalada com bastantes cicatrizes. Era difícil para a Dona Lourdes afirmar de vez que aquela é que era a mão que esteve habituada; apenas com aquela mesma filha debaixo dos seus braços, os 3 anos e os quatro meses da agonia dissiparam-se na dor como já tivesse terminado. Ao lado de Dona Carmen do quarto em frente, podia-se espreitar pela janela da mesma porta, Osvaldo estava à sua espera, também a fechar os olhos por causa dos comprimidos. Mesmo se estivesse de cabelo deitado antes daquele instante, podia ser verificado pelos ferimentos severos ao vento do rosto em que, certamente, estiveram bastantes dias sem qualquer teto a cobri-los sob o sol e vento sem ajuda das árvores da mesma natureza.
Tanto assim foi a exposição ao céu limpo, a epiderme começou a engrossar por marcas e lesões recém nascidas, nunca dantes sentidas nas dobras cutâneas. Dona Carmen aproximou-se à beira da cama usando logo a cadeira que foi preparada de parte, no mesmo quarto, que pertencia à vizinhança na porta à esquerda, de seguida aproximou as orelhas ao quarto lado a lado enquanto fixava o olhar, pois não dizia palavras, mas mais, logo estendeu os dois dedos pelo pulso nas bochechas dele “Meu rapaz.” O Osvaldo nem um suspiro teve. Acabou simplesmente com a força das lágrimas fechando-se perante o tom e o calor do amor de uma vida e familiar.
Os seguintes dois a cinco dias tornaram os desenvolvimentos mais sérios. Para já nas aplicações nas contas privadas na internet da localidade do Sul de Minas; Pium, o do Rock de Minas, o de Capitólio, de seguida publicaram um grande cartaz e umas belas fotografias do casal nos jornais “Casal de Viajantes. Vistos pela estrada com morada nas fazendas no fim de longas semanas da estrada do Capitólio 3 e longo do país e sem uma vida anterior à vida passada.” E todo o povo percebeu toda as palavras de sempre como uma bela lenda viva com a vida na qual as pessoas da vila partilhavam aos vizinhos numa repetição a tudo sem haver mais pormenores, sendo esta também, partilhadas desde do 1º caso em diante e da época familiar da vila toda como sempre tem um relato simples de todas essas pessoas, e nada os pode substituir.
Para iniciar, foi enviada a declaração judicial onde afirmavam a polícia investigativa à retoma na mesma busca das evidências para averiguar se não haveria crimes para lá ou até aqui da aldeia a ser declaradas no momento atual da história da sua estadia na família a fim da reavaliação dos comportamentos sem falha com as despesas da comunidade psiquiatria ao acompanhamento com peritos locais no intuito às averiguações aos relatos, logo que os jovens a retomaram a palavra em pequeno passo com a vida a partilhar e à história deles. Renata por causa destas memórias começou com os traços das pequenas lembranças como dizia os sítios mais recônditos do rio perto das habitações selvagens da encosta da lagoa, ou da floresta de onde estarem da margem a pé e na mata fechada de norte do Sul sem mapa, e por sua vez e na qual encontram poço nas correntes a correr nos penhascos até mais lá onde dormem nas grutas escuras. Ela jamais sabia das noites da história que passaram entre 1 ou talvez 2 na contagem das mesmas nas quais andaram em viagem nas grutas sem conta a mais nos períodos mais quentes as viagens da lua cheia também na chuva até de sol a pique e à sombra no inverno aos tempos que encontram o vento e até o frio no mar. Mais tarde ela hesitou o caminho aos quais andou no meio onde esteve a pé a fazer ou nas casas até que os percursos das encostas ela andou nos trilhos sem fim nas montanhas à terra batida sem se avistar sem norte ao fim, em busca dos perigos ou das surpresas sem rumo à sua chegada aos braços longos na noite para não andar no mato até quando se deitam e do seu acordar logo de cara ao dia onde a mata escura encontram os abrigos a não sentir medo da floresta de norte à encosta para os percursos sem mais da montanha do fim do mundo como do local não sei de quantas semanas que ficavam a ver das semanas às pessoas da selva a tentar saber a resposta por fim da pergunta e que disse por onde havia onde dizia ela aos homens os amigos as terras como encontrava a viver até hoje nas palavras da selva com que lhe falou na voz.
Enquanto ela respondia em silêncio às palavras na sala da comunidade, Osvaldo recomeça e volta a falhar e de forma desordenada nos pequenos avanços e por semanas e mais, os relatórios para os detalhes com respostas pequenas nos pormenores do tempo anterior com perguntas, os mesmos avançaram a falar de pequeno e de vez, ao pouco a idade como cidade de berço, do lugar em como o seu local de partida sem resposta anterior ao desaparecimento da estrada da longa vida passada da serra que nem na mesma nem sabia mais quando encontrou aos campos dos pântanos dos grandes trilhos de poços.
Na consulta o psiquiatra da ala médica diz do registo como não deve insistir das falhas na doença psicológica, que a mesma causou uma reação a memória protetora com os dias no mundo de stress como foi uma doença nos limites onde tem a força para viver e à qual sem qualquer falha que na vida da serra como foram até onde os deixou da sua roupa de origem na rua onde os encontram naquele espaço pequeno, onde nem das pessoas aos homens lhes pudessem perguntar do mesmo e mais ao dia até no corpo até da cabeça à cor que não tem de si de novo a vida de ontem nas roupas simples do povo com a marca ao local no lugar até sem saber onde a deitou o homem como do tecido onde vestiu e os trapos da mesma e até aos dias à serra com tudo do norte ou a chuva.
Dos registos ao homem Osvaldo de ontem de um homem à camisola em cores na marca e com o buraco aos buracos sem nada do pano de fábrica nas compras de roupa no país a sua sem registos para onde se foi e a qual do mundo em Ribeirão Preto de sempre de anos do que não sabemos, como não se via sem roupas até na fuga ao mundo do sol a 1 dia ou anos à terra o povo onde nem ao caminho do tempo na lua de novembro a norte de sul sem qualquer resposta no mês aos amigos onde lhes deram como à mesma como do dia da viagem em 3 meses de tempo e de meses como um homem sem a palavra ao nome da roupa e também da morada ao caminho da rua à porta da casa sem se perguntar sem a sua volta no final do mundo até a sua resposta sem os mesmos.
De quem? Onde, como? Ninguém sabia a resposta. Outros exames médicos revelaram mais detalhes que não se encaixavam no cenário simples de duas pessoas perdidas na floresta. A Renata tinha uma cicatriz no antebraço direito que não existia antes do desaparecimento. Pequena, linear, como se tivesse sido feita por um corte limpo, não por um galho ou uma pedra.
O Osvaldo tinha duas marcas semelhantes nas costas da mão esquerda. Quando questionados sobre as cicatrizes, nenhum deles soube explicar. A Renata disse que não se lembrava. O Osvaldo não respondeu. A Polícia Civil consultou as bases de dados de hospitais, delegacias e abrigos de toda a região: Passos, Piumhi, Capitólio, São Roque de Minas, Araxá, Uberaba, Uberlândia.
Nenhum registro de atendimento, detenção ou abrigo de pessoas com as características de Renata e Osvaldo foi encontrado em qualquer um desses municípios durante o período de seu desaparecimento. Duas pessoas não haviam sido atendidas em nenhum pronto-socorro, não haviam sido presas, não haviam sido acolhidas por nenhuma instituição pública, não haviam usado nenhum serviço que deixasse vestígios no sistema por 3 anos e 4 meses para todos os efeitos oficiais, e Renata e Osvaldo Mourão não existiam.
O delegado responsável pela reabertura do caso deu uma conferência de imprensa em maio de 2023. Afirmou que a investigação estava em curso, que novas diligências estavam a ser realizadas e que o caso apresentava elementos que dificultavam uma conclusão definitiva. Questionado por um repórter se havia suspeita de crime, o delegado respondeu que todas as hipóteses estavam a ser investigadas.
Quando outro repórter perguntou se o casal tinha sido vítima de alguém, o delegado respondeu que não havia provas para afirmar isso naquele momento. Questionado se os dois poderiam ter saído de livre vontade, o delegado disse que esta hipótese também não podia ser descartada. Saiu da conferência de imprensa sem dizer nada de concreto, não porque estivesse a esconder informações, mas porque não havia informações suficientes para formular uma resposta.
A Renata teve alta da Santa Casa de Passos em abril de 2023. Foi para o apartamento. Da sua mãe em Ribeirão Preto. O Osvaldo teve alta duas semanas depois e foi para a casa da Dona Carmen em Franca. O casal, que tinha entrado junto no Parque Nacional da Serra da Canastra, não saiu junto do hospital, não por causa de uma decisão formal de separação.
Cada um foi para a casa da sua própria mãe porque isso fazia sentido naquele momento, porque era o único lugar do mundo onde poderiam ser recebidos sem perguntas. Nos meses seguintes, Renata e Osvaldo fizeram acompanhamento psicológico e psiquiátrico regular. A Renata melhorou gradualmente, recuperou a fluência na fala, reconheceu rotinas e participou nas tarefas domésticas. Mas havia falhas.
Havia momentos em que ela parava a meio da frase e olhava pela janela como se estivesse a ouvir algo que mais ninguém conseguia ouvir. Havia noites em que ela acordava a meio da noite, sentava-se na beira da cama e ficava lá até de madrugada, sem acender a luz, sem fazer barulho.
A Dona Lourdes aprendeu a não fazer perguntas. Quando encontrava a filha sentada no escuro, sentava-se simplesmente ao lado dela e esperava. O Osvaldo demorou mais tempo. A sua recuperação foi lenta, com pequenos avanços e recuos frequentes. Em Franca, em casa da sua mãe, passava a maior parte do dia em silêncio, sentado no alpendre das traseiras, a olhar para o quintal.
A Dona Carmen servia as refeições, lavava a roupa, cuidava de tudo, sem se queixar e sem fazer perguntas. Às vezes à noite, ouvia o filho chorar no quarto dele, um choro baixo e contido que parecia vir de um lugar mais profundo do que a sua garganta. Ela não entrava. Ficava à porta, com a mão encostada à madeira, a ouvir até o choro parar.
Renata e Osvaldo falaram ao telefone algumas vezes nos primeiros meses. Conversas curtas, quase formais, como se estivessem a reaprender a linguagem que tinham em comum. Depois, as chamadas tornaram-se menos frequentes. Depois, pararam. Ninguém falou em divórcio, ninguém falou em reconciliação. O casamento permaneceu num lugar indefinido, suspenso no mesmo limbo em que tinham vivido durante 3 anos e 4 meses.
A investigação policial permaneceu aberta durante todo o ano de 2023. Foram feitas novas averiguações. Todos os esforços incluíram a análise de imagens de satélite da região e a consulta de registos de fazendas e propriedades rurais próximas do parque. Li entrevistas com moradores de áreas remotas nos municípios de Delfinópolis, São João Batista do Glória e Capitólio.
Nada de concreto foi encontrado. Nenhuma testemunha que tivesse visto o casal durante a sua ausência. Nenhum registo de abrigo, trabalho ou residência em qualquer local identificável. Três anos e quatro meses de silêncio absoluto entre a entrada no parque e a sua aparição na autoestrada MG-050. Em setembro de 2023, o Ministério Público de Minas Gerais emitiu um parecer recomendando o arquivamento do inquérito por falta de elementos para classificação criminal.
O parecer reconheceu que o caso apresentava circunstâncias atípicas e que os depoimentos dos envolvidos foram insuficientes para o esclarecimento dos factos, mas concluiu que, não havendo indícios de crime, o inquérito não poderia prosseguir, tendo o arquivamento sido deferido pelo juiz da comarca em outubro do mesmo ano.
A Dona Lourdes recebeu a notícia por telefone de um funcionário do cartório criminal. Ela agradeceu e desligou o telefone. De seguida sentou-se na poltrona da sala de estar, a mesma poltrona. Onde ele se sentara tantas noites à espera de uma chamada que nunca chegou, e ali permaneceu em silêncio, a olhar fixamente para a foto de casamento emoldurada da Renata.
O caso estava encerrado, pelo menos no papel. Na vida real, nada estava encerrado, nada estava explicado, nada estava resolvido. Até hoje, a Renata Bastos Mourão vive no apartamento da mãe em Ribeirão Preto. Regressou ao trabalho em regime de meio-tempo numa clínica de fisioterapia no bairro, a fazer trabalho administrativo. Não voltou à enfermagem, não fala sobre o que aconteceu.
Quando alguém pergunta, e cada vez menos pessoas perguntam, ela só diz que não se lembra de tudo e que prefere não pensar nisso. O Osvaldo Pires Mourão permanece em Franca, na casa da Dona Carmen. Não regressou ao trabalho. Ele recebe benefícios de assistência social que a Defensoria Pública ajudou a família a solicitar.
Ele fala mais do que nos primeiros meses, mas nunca sobre a serra, nunca sobre os três anos, nunca sobre o que aconteceu entre a trilha da Casca D’Anta e a escura rodovia MG-050. O psiquiatra que o atende diz que ele teve um progresso significativo, mas que há áreas… De memórias que permanecem inacessíveis. Se devido a um trauma, bloqueio ou escolha, ninguém pode afirmar com certeza.
As famílias aprenderam a viver com aquilo que não sabem. A Dona Lourdes ainda rega as plantas na sua varanda todas as manhãs, e o íman da Serra da Canastra permanece no frigorífico. A Dona Carmen ainda vai à missa todos os domingos e ainda olha para a foto de infância do Osvaldo antes de dormir. As duas continuam a falar ao telefone às 21h.
Agora a conversa é um pouco diferente. Tem um pouco mais de conteúdo, um pouco mais de vida, mas o tom é o mesmo. O tom de duas mulheres que passaram por algo que não tem nome e que aprenderam a carregá-lo sem reclamar. Porque no interior do Brasil é assim que se carregam as coisas que não podem ser consertadas.
O caso nunca apareceu no noticiário nacional, nunca se tornou numa reportagem no Fantástico, nunca recebeu a atenção que outros desaparecimentos mais urbanos, mais fotogénicos e que se encaixavam mais facilmente nas narrativas dos media, receberam. Era um caso do interior, de pessoas comuns, não de uma serra demasiado grande e de um sistema que faz o que pode com o que tem, o que muitas vezes não é suficiente.
Passaram anos e a Serra da Canastra continua lá. O rio São Francisco continua a nascer na mesma gruta rochosa. A cascata D’Anta continua a cair dos seus 186 metros de altura com aquele baque surdo que se ouve antes de se ver. Os campos rochosos continuam a florescer em setembro e a secar em junho. Os turistas continuam a chegar, estacionando os seus carros no mesmo cascalho, tirando as mesmas fotos, percorrendo as mesmas trilhas.
Ninguém que chega hoje sabe o que aconteceu ali em novembro de 2019. Ninguém precisa de saber. A serra não guarda memórias, a serra não deve explicações. Mas há uma família em Ribeirão Preto e outra em Franca que sabem, que vivem com isto, e que acordam todos os dias a saber que duas pessoas que amam partiram inteiras para um fim de semana na floresta e regressaram de uma forma que ninguém consegue explicar, que o tempo perdido não volta, que as respostas que não vieram provavelmente não virão, e que a vida ainda assim continua.
Com o pequeno-almoço, com as plantas na varanda, Com o telefonema das 21h e o silêncio que preenche os espaços onde antes havia certeza. Hoje, quando fechamos a porta da frente e sabemos onde cada pessoa que amamos está, é fácil esquecer o que significa não saber, o que significa ligar para um número e ouvir o correio de voz, o que significa olhar para um prato vazio na mesa de jantar e não ter a quem servir, o que significa esperar não por dias, não por semanas, mas por anos, sem saber se a espera terá fim ou se a própria espera se tornou vida.
A história da Renata e do Osvaldo Mourão não acaba com uma explicação, não acaba com uma revelação, não acaba com uma cena no tribunal, nem com uma confissão gravada. Termina com uma mulher sentada numa poltrona em Ribeirão Preto, com o telefone ao seu lado, no volume máximo, a olhar para a porta, e com outra mulher ao fundo, a rezar de olhos fechados num banco de igreja, guardando dentro de si uma pergunta que não faz a ninguém, porque sabe que ninguém lhe pode responder.
“O que aconteceu naquelas montanhas?”
Ninguém sabe e talvez ninguém venha a saber, mas as mães continuam à espera, porque é isso que é. O que as mães fazem, o que elas esperam, mesmo quando já não há mais nada a esperar.