
Era 14 de setembro de 2019, exatamente às 7:43 da manhã, quando Renata Oliveira Santos enviou a última mensagem de texto da sua vida. Ela dizia simplesmente: “Mãe, estamos a caminho da trilha. Ligo-te amanhã quando chegar a casa.” Esta mensagem ficou sem resposta durante 387 dias. 387 dias de silêncio. 387 dias de perguntas sem resposta.
Passaram-se 387 dias, até que um drone pilotado por um fotógrafo amador, que nem sequer conhecia as duas mulheres, revelou o que centenas de pessoas, helicópteros, cães farejadores e equipas de resgate não conseguiram encontrar durante um ano inteiro de buscas. O que aconteceu à Renata e à Camila naquela manhã de setembro ainda é discutido hoje em grupos de caminhada.
Fóruns de montanhismo e mesas de bar em Alto Paraíso de Goiás. Porque esta história não é apenas sobre duas amigas que se perderam na floresta. É sobre como decisões aparentemente pequenas podem selar destinos inteiros. É sobre como a natureza, por mais bela que seja, não perdoa erros.
E é principalmente sobre como a verdade às vezes demora muito a vir ao de cima. Mas quando aparece, muda completamente tudo o que pensávamos saber. Renata tinha 35 anos na época. Era professora de biologia numa escola pública em Brasília, casada com Marcos há 8 anos e mãe de dois filhos, Pedro, de 6 anos, e Isabela, de 4.
Camila, a sua amiga desde a faculdade, tinha 33 anos. Era enfermeira no hospital regional de Taguatinga, solteira, sem filhos, mas com planos de adotar. As duas conheceram-se em 2006 na Universidade de Brasília durante uma aula de anatomia. Sentaram-se lado a lado por acaso e, como acontece muitas vezes nestas coincidências, que parecem insignificantes mas não são, tornaram-se inseparáveis.
A amizade delas resistiu a tudo. Resistiu à formatura de Camila anos antes da de Renata. Resistiu ao casamento de Renata. Resistiu à mudança de Camila para o outro lado da cidade; resistiu às obrigações da vida adulta que normalmente afastam as pessoas. Uma vez por mês, religiosamente, encontravam-se para o que chamavam de “o nosso dia”.
Às vezes era um almoço num restaurante simples, outras vezes era um café da tarde numa padaria, ou então uma caminhada num parque nos arredores de Brasília. Foram precisamente essas trilhas mensais que plantaram a semente para o que estava para vir. Camila era a mais aventureira das duas. “Desde adolescente que sou fascinada pelo ecoturismo, por caminhar na natureza, em lugares onde não há sinal de telemóvel e o silêncio é quebrado apenas pelo som dos pássaros e da água a correr,” dizia ela.
Renata inicialmente ia mais pela companhia do que por vocação, mas com o tempo também se apaixonou por isso. Ela descobriu que aquelas horas no meio do Cerrado, longe do barulho da cidade, longe das exigências dos seus alunos, longe da rotina doméstica, eram o único momento em que conseguia respirar verdadeiramente.
A Chapada dos Veadeiros sempre esteve na lista de sonhos de ambas. Fica localizada a pouco mais de 200 km de Brasília, mas para quem vive o quotidiano agitado da capital federal, parece outro mundo. Abrange mais de 65.000 hectares de cerrado preservado, cascatas escondidas entre desfiladeiros, formações rochosas que parecem ter sido esculpidas pelas mãos de gigantes, e trilhas que vão desde caminhadas de lazer de 2 horas até expedições de vários dias que exigem preparação física, equipamento adequado e, acima de tudo, conhecimento do terreno.
As duas planeavam esta viagem há quase dois anos. Acontecia sempre alguma coisa para a impedir. Uma vez, a Renata teve uma gripe forte. Noutra ocasião, a Camila teve um turno extra que calhou no fim de semana que tinham planeado. Noutra vez, foi o aniversário de um dos filhos. A vida adulta tem este talento cruel para adiar indefinidamente os planos que realmente importam.
Mas em agosto de 2019, tudo pareceu finalmente encaixar-se. Marcos, o marido de Renata, tinha uma viagem de negócios marcada para 14 de setembro, um sábado. A mãe de Renata, Dona Aparecida, ia para São Paulo e não voltaria até terça-feira, por isso, ofereceu-se para ficar com as crianças durante o fim de semana. Camila conseguiu trocar o turno de domingo com um colega.
“Os astros”, como a Camila costumava brincar, “estão finalmente alinhados.” O plano era simples. Elas sairiam de Brasília na sexta-feira à noite, dia 13. Iam fazer-se à estrada logo após o turno da Renata na escola. Chegariam a Alto Paraíso de Goiás por volta das 22h. Dormiriam numa pousada que já tinha sido reservada.
Acordariam cedo no sábado. Fariam a trilha durante o dia. Regressariam à pousada ao final da tarde, descansariam na manhã de domingo e voltariam para Brasília na tarde de domingo. Regressariam a tempo de a Renata ir buscar as crianças a casa da mãe antes do anoitecer. Simples, uma rotina para quem está familiarizado com a região.
Milhares de pessoas fazem viagens semelhantes todos os anos sem o menor problema, mas algo correu mal. Sim, algo correu muito mal. A última pessoa a ver as duas com vida, além dos funcionários da pousada onde estavam hospedadas, foi um vendedor ambulante chamado Seu Juvenal. Um homem de 67 anos que vendia doces caseiros numa banca à entrada do Parque Nacional.
Ele lembrava-se bem de ambas. Ele disse que elas chegaram animadas, a rir e a tirar fotografias com os telemóveis. A Renata comprou um pacote de doce de coco, e a Camila pediu informações sobre a trilha do Vale da Lua, uma das mais famosas da região. O Sr. Juvenal explicou o caminho.
Ele disse que era uma trilha de dificuldade moderada, cerca de 3 horas de caminhada ida e volta se feita a um ritmo normal. Ele perguntou se elas tinham alguma experiência. Camila respondeu: “Sim, fazemos trilhas regularmente em Brasília.” Ele deu alguns conselhos básicos: “Levem muita água, apliquem protetor solar e prestem atenção às marcações da trilha, não se desviem do caminho principal.“
As duas agradeceram-lhe, pagaram os doces e seguiram o seu caminho. Eram aproximadamente 8 horas da manhã. O dia estava limpo e soalheiro, com uma temperatura agradável para a época do ano. Não havia previsão de chuvas fortes ou tempestades. Não havia nenhum motivo aparente para preocupação. O que aconteceu nas horas seguintes permaneceu um mistério durante 387 dias.
Quando Renata não ligou à mãe no domingo, a Dona Aparecida achou estranho, mas não ficou imediatamente alarmada. Pensou que a filha tinha chegado tarde, cansada, e decidiu descansar antes de entrar em contacto. Ela enviou uma mensagem a perguntar: “Está tudo bem?” Não recebeu qualquer resposta. Ligou, mas foi para o correio de voz.
Foi novamente para o correio de voz. Ao final da tarde de domingo, a preocupação começou a transformar-se em angústia. Dona Aparecida tentou contactar o Marcos, mas ele ainda estava em São Paulo numa reunião que se prolongou pelo domingo adentro. Quando finalmente conseguiu falar com o genro, por volta das 19h, o Marcos também achou estranho. Ele ligou para o telemóvel da Renata, mas foi para o correio de voz.
Ligou para o telemóvel da Camila, mas foi para o correio de voz. Foi também o Marcos quem ligou para a pousada em Alto Paraíso. O rececionista que atendeu confirmou que as duas tinham feito o check-in na sexta-feira à noite. Disse: “Elas saíram cedo no sábado de manhã, por volta das 7h, e não voltaram desde então.” Os pertences das duas mulheres ainda estavam no quarto. As camas estavam por fazer.
O carro da Renata, um Fiat Palio prateado de 2015, ainda estava estacionado no parque de estacionamento da pousada. Às 21h47 de domingo, 15 de setembro de 2019, Marcos apresentou uma queixa de desaparecimento para Renata Oliveira Santos e Camila Ferreira Alves na esquadra de polícia mais próxima, em Alto Paraíso de Goiás. O que se seguiu foi uma das maiores operações de busca e resgate alguma vez realizadas na história da região da Chapada dos Veadeiros.
Se tens acompanhado esta história até aqui, preciso de te pedir uma coisa. Subscreve o canal. Sei que pode parecer apenas mais um pedido genérico, mas não é. O que acabei de contar foi apenas o começo. A parte mais difícil, complexa e perturbadora desta história ainda está para vir. E se és o tipo de pessoa que se interessa por casos como este, que quer entender o que realmente aconteceu, que não se contenta com respostas superficiais, então este é o canal certo para ti.
Subscreve e ativa as notificações, porque vais querer ver o que vem a seguir. A primeira equipa de resgate chegou à área na madrugada de segunda-feira. Eram seis homens do Corpo de Bombeiros de Goiânia, especializados em operações em áreas de floresta densa. Juntamente com eles, vieram dois cães farejadores treinados para localizar pessoas desaparecidas.
Nas horas seguintes, mais equipas chegaram. Bombeiros de Brasília, voluntários da Defesa Civil e residentes locais que conheciam as trilhas como a palma das suas mãos. O primeiro passo foi refazer o caminho que a Renata e a Camila teoricamente teriam feito. A trilha do Vale da Lua é uma das mais populares na Chapada dos Veadeiros.
Começa no distrito de São Jorge, a cerca de 6 km de Alto Paraíso. A partir daí, segue por um caminho relativamente bem marcado até às formações rochosas esculpidas pelo rio São Miguel. Em condições normais, é uma trilha que qualquer pessoa com um nível mínimo de aptidão física consegue completar sem grandes dificuldades. Mas a Chapada dos Veadeiros não é apenas o Vale da Lua e o Parque Nacional.
As áreas de proteção ambiental que a rodeiam formam um labirinto de trilhas oficiais, trilhas não oficiais, caminhos que se cruzam e bifurcações que podem confundir até os guias mais experientes. E, além das trilhas conhecidas, existe um mundo de floresta densa, desfiladeiros profundos, cascatas escondidas e formações rochosas onde uma pessoa pode desaparecer a poucos metros de distância, sem que ninguém a veja ou oiça.
Os cães farejadores detetaram o cheiro da Renata e da Camila nas primeiras horas de busca. O rasto levava em direção ao Vale da Lua, como esperado. Mas num determinado ponto, a cerca de 2 km do início da trilha, os cães começaram a ficar confusos. A trilha dividia-se, ou melhor, parecia que a trilha original continuava pelo caminho principal, mas também havia indícios de que alguém se tinha desviado para um caminho lateral menos marcado, que levava a uma área mais isolada, conhecida localmente como Morro da Capivara.
Este foi o primeiro grande dilema da operação de resgate. A equipa devia ser dividida entre os dois caminhos ou os esforços deviam ser concentrados apenas num? O comandante da operação, um capitão chamado Rogério Mendes, com 20 anos de experiência em resgates na região, tomou a decisão de se separarem.
Metade da equipa seguiria pela trilha principal até ao Vale da Lua, verificando cada centímetro do caminho e cada local possível onde alguém pudesse ter sofrido um acidente ou estar escondido. A outra metade seguiria pela trilha alternativa em direção ao Morro da Capivara. Os resultados iniciais foram desanimadores. A equipa que foi para o Vale da Lua não encontrou nenhum vestígio significativo.
Eles falaram com outros caminhantes que estavam na área no sábado. Mostraram fotografias da Renata e da Camila. Perguntaram: “Alguém viu estas duas mulheres?” A maioria das pessoas não conseguia lembrar-se de nada específico. Uma caminhante de Goiânia, uma mulher de meia-idade chamada Eliana, disse que poderia ter visto duas mulheres parecidas com as da fotografia, mas não tinha a certeza.
Ela disse: “Foi por volta do meio-dia, as duas pareciam estar a descansar numa rocha perto de uma das cascatas mais pequenas.” Mas, quando questionada sobre detalhes, Eliana foi vaga e disse: “Eu estava atenta ao meu próprio caminho, não parei para falar, dei apenas uma vista de olhos.” A equipa que foi para o Morro da Capivara teve um resultado mais concreto, mas igualmente frustrante.
A cerca de 1,5 km da bifurcação da trilha, encontraram uma garrafa de água vazia deitada entre as rochas. Era uma garrafa de plástico transparente de uma marca comum, daquelas que se compram em qualquer bomba de gasolina ou loja de conveniência. Podia ser de qualquer pessoa que tivesse passado por lá nas últimas semanas, mas os cães ficaram agitados perto dela.
A garrafa foi recolhida e enviada para análise. Dias depois, os resultados confirmaram o que os socorristas temiam. As impressões digitais na garrafa pertenciam a Camila Ferreira Alves. Isso significava que as duas mulheres, num determinado momento daquele sábado, se tinham desviado da trilha principal e seguido em direção a uma área muito menos visitada, muito menos mapeada e muito mais perigosa.
O Morro da Capivara não é uma atração turística oficial; não aparece em guias de viagem, não tem sinalização e carece de qualquer infraestrutura de apoio. É uma formação rochosa localizada a cerca de 5 km da trilha principal, acessível apenas por caminhos improvisados que mudam de configuração a cada estação das chuvas. A vegetação em redor é densa e o terreno é irregular.
E existem pelo menos três pontos onde penhascos com mais de 20 metros de altura se escondem por entre as árvores, invisíveis até se estar a poucos passos da beira. Moradores de longa data da região chamam àquela área o “cemitério dos encantos”. Não porque muitas pessoas morreram lá, pelo menos não oficialmente, mas porque as histórias de pessoas que desceram por aqueles caminhos e nunca mais voltaram são antigas, repetidas em conversas de final de tarde, sussurradas como um aviso para aqueles não familiarizados com a terra.
Seu Juvenal, o vendedor de doces que tinha falado com a Renata e a Camila na manhã de sábado, foi novamente procurado pelos investigadores. Eles perguntaram-lhe: “Avisou as duas sobre os perigos de sair da trilha principal?” Ele disse: “Sim, eu aviso sempre todos os turistas, é uma das primeiras coisas que digo”, mas admitiu que não sabia se elas tinham prestado atenção.
Ele disse: “Elas pareciam confiantes, falavam como se já soubessem o que estavam a fazer.” E talvez tenha sido precisamente essa confiança o problema. A Renata e a Camila eram experientes em caminhadas, sim, mas experientes em trilhas ao redor de Brasília, trilhas bem marcadas, com infraestrutura de apoio, com sinal de telemóvel em boa parte do percurso, e com outros caminhantes a passar constantemente.
A Chapada dos Veadeiros é uma realidade completamente diferente. Exige um tipo de preparação diferente, um tipo de cautela diferente. E nenhuma das duas, ao que tudo indicava, tinha esse tipo de treino. A família da Renata chegou a Alto Paraíso de Goiás na terça-feira, dois dias após o seu desaparecimento. Marcos tinha conseguido voltar à pressa de São Paulo no domingo à noite e estava na região desde segunda-feira, a acompanhar as buscas, a dar entrevistas a jornais locais e a implorar por qualquer informação que ajudasse a encontrar a sua esposa.
Dona Aparecida ficou em Brasília a cuidar das crianças. Ela tentou manter uma aparência de normalidade para o Pedro e a Isabela, mas o esforço era visível. As crianças perguntavam pela mãe todos os dias. Dona Aparecida não sabia o que responder. A mãe da Camila, Dona Marlene, uma mulher de 58 anos que vivia sozinha desde que o seu marido morreu de um ataque cardíaco três anos antes, chegou na quarta-feira.
Ela não se sentia bem. Tinha problemas cardíacos, tomava vários medicamentos, não devia estar a fazer aquela viagem debaixo daquele nível de stress. Mas ninguém a conseguia convencer a ficar em casa enquanto a filha estava desaparecida. A operação de busca continuou ao longo daquela semana. Helicópteros sobrevoaram a região, mas a vegetação densa dificultava a visibilidade.
Equipas no solo vasculharam quilómetros de floresta, a gritar os nomes das duas mulheres, à espera de qualquer resposta que nunca chegou. Os voluntários juntaram-se às buscas nos fins de semana, formando correntes humanas que cobriam as trilhas menos conhecidas, mas nada, nenhum outro vestígio foi encontrado além daquela garrafa de água. Os dias transformaram-se em semanas, e as semanas em meses.
A operação oficial de busca foi oficialmente suspensa a 15 de outubro de 2019. Exatamente um mês após o desaparecimento, os bombeiros alegaram que, após 30 dias sem novas pistas, as probabilidades de encontrar as duas mulheres com vida eram estatisticamente próximas de zero. Os recursos precisavam de ser realocados para outras emergências.
Marcos não aceitou a decisão. Contratou uma equipa de buscas privada usando dinheiro emprestado por familiares. Eram três homens especializados em localizar pessoas desaparecidas em áreas arborizadas. Cobravam preços elevados, mas tinham a reputação de obter resultados onde as equipas oficiais falhavam. Trabalharam na região durante duas semanas.
Usaram equipamento de última geração, incluindo drones com câmaras térmicas que, em teoria, poderiam detetar o calor de um corpo humano mesmo sob a copa das árvores. Exploraram áreas às quais as equipas oficiais não tinham conseguido aceder. Desceram em desfiladeiros que não apareciam em nenhum mapa. O relatório final foi devastador.
Não encontraram mais nenhum vestígio da Renata ou da Camila. Não encontraram corpos, nem roupas, nem equipamento, nada que indicasse onde as duas poderiam estar. A equipa privada concluiu que as duas mulheres tinham, muito provavelmente, sofrido algum tipo de acidente numa área tão remota e de tão difícil acesso que seria preciso uma enorme sorte para as encontrar.
Marcos regressou a Brasília no final de outubro. Tinha perdido 8 kg. Não conseguia dormir mais de duas ou três horas por noite. Ele olhava para os filhos e via os olhos da Renata refletidos neles. Tentava manter a sua rotina, levar as crianças à escola, ir para o trabalho, fingir que a vida continuava, mas por dentro estava destruído.
Dona Marlene, a mãe da Camila, foi hospitalizada em novembro com um grave ataque cardíaco. Os médicos disseram que o stress tinha acelerado a deterioração do seu coração. Ela passou três semanas no hospital. Quando teve alta do hospital, já não era a mesma pessoa. Andava lentamente, falava pouco e passava a maior parte do dia a olhar fixamente para a parede do seu quarto, a segurar uma fotografia da filha.
O caso da Renata e da Camila acabou nos meios de comunicação social nacionais. Foram feitas reportagens pelo Fantástico, pelo Jornal Nacional e por vários programas de televisão dedicados a casos de pessoas desaparecidas. A história das duas amigas de Brasília que desapareceram na Chapada dos Veadeiros comoveu o país. Milhares de pessoas partilharam as suas fotografias nas redes sociais, a implorar por informações.
Grupos de voluntários formaram-se espontaneamente, a organizar expedições de busca aos fins de semana, mas nenhuma destas iniciativas produziu resultados. Os meses de novembro e dezembro passaram. O Natal chegou e as famílias tiveram de celebrar com dois lugares vazios à mesa. O novo ano de 2020 começou sem qualquer novidade no caso.
Janeiro, fevereiro, março, a pandemia de Covid-19 chegou ao Brasil e, de repente, todas as atenções voltaram-se para uma crise muito maior. As buscas pela Renata e pela Camila, que já tinham arrefecido, pararam praticamente. Marcos tentou agarrar-se à esperança. Criou uma página no Facebook dedicada à busca das duas mulheres. Publicava regularmente, partilhando fotografias, pedindo às pessoas para não esquecerem, implorando por qualquer informação que pudesse ajudar.
A página atingiu mais de 50.000 seguidores, pessoas de todo o Brasil e até de outros países que acompanhavam o caso e enviavam mensagens de solidariedade. Mas a solidariedade não traz as pessoas de volta. Em julho de 2020, quase 10 meses após o desaparecimento, Marcos tomou uma decisão difícil. Procurou aconselhamento jurídico e instaurou um processo para declarar a morte presumida de Renata.
Era um procedimento legal que, segundo o advogado, demoraria vários anos a ser concluído, mas que lhe permitiria, eventualmente, receber os benefícios do seguro de vida da sua esposa, para poder vender os bens que estavam em seu nome, e para poder legalmente seguir em frente. Marcos chorou no escritório do advogado.
Ele disse: “Eu não estou a desistir. Nunca vou desistir de a encontrar.” Mas também disse: “Preciso de pensar nas crianças.” O Pedro e a Isabela precisavam de estabilidade. Precisavam de um pai que pudesse cuidar deles, que não se afundasse constantemente em depressão, que não gastasse todo o dinheiro da família em buscas que não davam a lado nenhum.
O advogado compreendeu e disse: “É uma decisão corajosa. Muitas pessoas na sua posição teriam tomado essa decisão muito mais cedo.” E assim, o caso das duas amigas que desapareceram na Chapada dos Veadeiros foi sendo lentamente esquecido pelo público em geral, mas não pelo mundo inteiro.
Havia um homem que não conhecia a Renata, que não conhecia a Camila, que não tinha qualquer ligação às suas famílias, mas que estava prestes a mudar completamente o rumo deste caso. O seu nome era Roberto Bianque. Roberto tinha 52 anos. Era um engenheiro reformado, divorciado e pai de dois filhos adultos que viviam em São Paulo e raramente o visitavam.
Ele vivia sozinho numa casa nos arredores de Pirenópolis, uma pequena cidade turística a cerca de 100 km de Brasília, e passava a maior parte do seu tempo livre a explorar a paisagem natural do cerrado goiano. O passatempo de Roberto era a fotografia de paisagem. Não era fotógrafo profissional, não vendia as suas imagens, não tinha grandes pretensões artísticas; fotografava porque gostava, porque era uma forma de se ligar à natureza, porque preenchia as longas horas de solidão que a reforma antecipada tinha trazido. E algures em 2019, Roberto tinha comprado um drone.
Era um modelo intermédio; não era nem o mais barato nem o mais caro do mercado. Tinha uma câmara de boa qualidade, um tempo de voo de cerca de 30 minutos e um alcance de aproximadamente 2 km. Roberto usava o drone para fotografar cascatas, formações rochosas e vistas panorâmicas que seriam impossíveis de capturar de outra forma.
A 5 de outubro de 2020, 387 dias depois da Renata e da Camila terem desaparecido, Roberto decidiu fazer uma expedição fotográfica a uma área da Chapada dos Veadeiros que nunca tinha explorado antes. Era uma região a leste do Morro da Capivara, ainda mais isolada, ainda mais difícil de aceder. Roberto tinha ouvido dizer por um amigo que conhecia a região que havia ali uma cascata escondida, sem nome oficial, que quase ninguém conhecia.
Uma cascata que formava uma piscina natural de água cristalina, rodeada por paredes de rocha que refletiam a luz do sol de uma forma espetacular. Para um fotógrafo de paisagens, era irresistível. Roberto saiu de casa às 4 da manhã e conduziu durante quase três horas para chegar o mais perto possível da área. A partir daí, caminhou durante mais duas horas por trilhas improvisadas, a carregar uma mochila com o seu equipamento fotográfico, o drone, baterias extra, água e comida.
Chegou ao local por volta das 9h30 da manhã. A cascata era tudo o que o seu amigo tinha prometido. Era impressionante. A cascata tinha cerca de 15 metros de altura e a piscina natural no fundo era de um azul tão intenso que parecia irreal. As paredes rochosas circundantes formavam um anfiteatro natural, ampliando o som da água e criando uma acústica que fazia com que Roberto se sentisse dentro de uma catedral.
Ele passou a manhã inteira a tirar fotografias. A usar uma câmara convencional, capturou imagens da cascata de vários ângulos. Esperou que a luz do sol entrasse de diferentes ângulos, a criar sombras e reflexos únicos. Estava satisfeito com os resultados, mas sentia que faltava alguma coisa. As fotografias a partir do solo, por mais belas que fossem, não conseguiam capturar toda a grandiosidade do local.
Foi então que decidiu usar o drone, ligou-o, verificou os comandos e fez o aparelho levantar voo. O drone ganhou altitude rapidamente e, no ecrã de controlo, Roberto viu a imagem aérea do local a revelar-se em toda a sua magnitude. Era ainda mais impressionante quando visto de cima.
A cascata formava um fio branco de espuma que contrastava com o verde intenso da vegetação e o azul profundo da água. Roberto guiou o drone em círculos largos, a capturar fotografias e vídeos de diferentes ângulos. Estava completamente absorvido na tarefa, fascinado pela beleza que a câmara revelava. A um certo ponto, decidiu explorar um pouco mais longe.
Ele direcionou o drone para seguir o curso do riacho, que fluía da piscina natural, filmando a paisagem que se estendia para além do que os seus olhos conseguiam ver do chão. O drone afastou-se. 1 km, 1,5 km. Roberto estava a monitorizar a bateria, a calcular quanto tempo lhe restava antes de precisar de trazer o aparelho de volta. Ele estava a aproximar-se do limite do seu alcance quando algo no ecrã lhe chamou a atenção.
Era uma cor que não combinava com o ambiente. No meio da vegetação verde e à beira de uma ravina que o drone sobrevoava, havia uma mancha de uma cor diferente. Parecia ser algo azul, ou talvez vermelho. Era difícil dizer com certeza, porque a câmara estava longe e a imagem não tinha resolução suficiente para ver os detalhes.
Roberto moveu o drone para mais perto. À medida que o dispositivo descia e se aproximava do ponto colorido, a imagem tornava-se mais clara. O que Roberto viu fê-lo parar o coração. Era uma mochila, uma mochila azul e vermelha deitada por entre as rochas, à beira de um precipício. Roberto sentiu um arrepio correr-lhe pela espinha. Lembrou-se vagamente de ter ouvido algo sobre duas mulheres que tinham desaparecido na Chapada dos Veadeiros mais de um ano antes.
“Não prestei muita atenção na altura, estava demasiado ocupado com os meus próprios problemas,” pensou. Mas agora, a olhar para aquela mochila isolada num lugar onde ninguém deveria estar, o pensamento voltou-lhe à mente. Ele guiou o drone ainda mais perto. A bateria estava a entrar na zona de aviso. Tinha talvez três ou quatro minutos antes de precisar de trazer o dispositivo de volta, ou arriscava-se a perdê-lo.
Mas Roberto precisava de ver, precisava de entender para o que estava a olhar. O drone desceu mais alguns metros, e então Roberto viu, ao lado da mochila, parcialmente coberto por uma vegetação rasteira que tinha crescido em redor, um corpo, ou melhor, o que restava de um corpo. Depois de mais de um ano exposto aos elementos, não havia muito para ver, maioritariamente ossos, roupas rasgadas e desbotadas pelo sol e pela chuva, mas era inconfundível.
Era uma pessoa, ou melhor, tinha sido uma pessoa. E Roberto ficou paralisado durante alguns segundos, com os olhos fixos no ecrã do comando, a sua mente a tentar processar o que estava a ver. O apito persistente do drone, a avisar que a bateria estava fraca, trouxe-o de volta à realidade.
Ele registou as coordenadas de GPS que apareciam no ecrã. Tirou várias capturas de ecrã do vídeo, certificando-se de que as imagens eram claras o suficiente para mostrar o que tinha encontrado. Então, com as mãos a tremer, ordenou ao drone que regressasse. A viagem de volta a casa foi a mais longa da vida do Roberto. Ele não sabia o que fazer, não sabia a quem ligar.
Pensou em ligar para a polícia, mas não tinha a certeza de qual esquadra seria responsável por aquela área. Considerou procurar na Internet por informações sobre as mulheres desaparecidas para ter a certeza de que era realmente o caso de que se lembrava. E quando chegou a casa, já era de noite. Ligou o computador, ligou o drone e transferiu todas as imagens e vídeos que tinha capturado.
Ele viu o vídeo várias vezes, a pausar em diferentes pontos e a ampliar a imagem para tentar ver mais detalhes. “Cada vez que via, tinha mais certeza de que tinha encontrado algo importante,” disse ele. A seguir, pesquisou no Google por “Mulheres desaparecidas, Chapada dos Veadeiros, 2019.” Os resultados confirmaram o que ele suspeitava.
Renata Oliveira Santos, 35 anos, professora. Camila Ferreira Alves, 33 anos, enfermeira. Desaparecidas desde 14 de setembro de 2019, nunca encontradas. Roberto encontrou a página de Facebook que Marcos tinha criado. Passou muito tempo a olhar para as fotografias das duas mulheres, para as mensagens de esperança publicadas pelos familiares, para os apelos desesperados por informações.
Sentiu o peso do que tinha descoberto a cair sobre os seus ombros. Não dormiu naquela noite. Na manhã seguinte, às 6 da manhã, ligou para a polícia. O operador que atendeu a chamada ficou cético. No início. Recebiam regularmente denúncias de pessoas que alegavam ter informações sobre casos antigos, mas a maioria não levava a lado nenhum.
Mas quando Roberto mencionou que tinha imagens de um drone, que tinha as coordenadas exatas de GPS, que podia mostrar exatamente onde era o lugar, o tom da conversa mudou. Três horas depois, dois polícias civis estavam na casa do Roberto, a analisar as imagens. O que eles viram foi suficiente para desencadear uma nova operação.
Por essa altura, já se tinham passado quase 13 meses desde que as buscas oficiais tinham sido suspensas. Muitos dos envolvidos na operação original já tinham sido transferidos para outras funções ou reformado-se. Ah, mas alguns ainda por lá estavam. O Capitão Rogério Mendes, que tinha liderado as buscas iniciais, já estava reformado, mas quando oube a notícia, ofereceu-se para ajudar.
A nova equipa de resgate chegou às coordenadas indicadas por Roberto no dia 8 de outubro de 2020. Não foi fácil lá chegar. O local situava-se numa área de acesso extremamente difícil. Não havia trilha que levasse diretamente até lá. Era preciso descer uma ravina íngreme, atravessar um trecho de floresta densa e escalar uma formação rochosa traiçoeira.
Mesmo para equipas de resgate experientes, com equipamento profissional, foi uma jornada de quase 6 horas. Quando finalmente chegaram ao local indicado pelo drone do Roberto, o que encontraram confirmou os seus piores receios. Não havia apenas um, mas sim dois corpos. Estavam a apenas a alguns metros de distância um do outro, à beira de um precipício com aproximadamente 25 metros de altura.
O estado de decomposição era avançado, como seria de esperar passado mais de um ano, mas havia elementos suficientes para a identificação: roupas, acessórios e, mais importante, os pertences que elas tinham consigo. A mochila azul e vermelha que Roberto tinha visto no drone continha uma carteira com documentos. O cartão de identidade lá dentro estava deteriorado, mas ainda legível.
O nome no documento? Camila Ferreira Alves. Ao lado do outro corpo estava uma bolsa mais pequena, parecida com uma pochete. Também tinha documentos lá dentro. Renata Oliveira Santos. Os corpos foram retirados com extremo cuidado ao longo dos dois dias seguintes. O exame forense foi complicado devido ao estado de decomposição, mas alguns detalhes importantes puderam ser determinados.
Ambos os corpos apresentavam múltiplas fraturas consistentes com uma queda de grande altura. A teoria inicial, que mais tarde viria a ser confirmada por uma investigação mais detalhada, era que as duas mulheres tinham caído do penhasco. Mas isto levantou uma questão óbvia: Como? Como puderam duas mulheres adultas, em plena luz do dia e com experiência em caminhadas, cair de um penhasco? A investigação que se seguiu demorou meses.
Peritos, geólogos, especialistas em acidentes em áreas naturais, psicólogos forenses — todos foram consultados. Os testemunhos foram novamente recolhidos. A jornada das duas mulheres naquele dia fatídico foi reconstruída passo a passo, usando todas as provas disponíveis. A história que surgiu foi simultaneamente trágica e instrutiva.
Com base nas provas físicas encontradas perto dos corpos e numa análise detalhada do terreno, os investigadores conseguiram reconstruir o que provavelmente aconteceu a 14 de setembro de 2019. Renata e Camila tinham começado a trilha normalmente, a seguir o caminho para o Vale da Lua, conforme planeado. Mas, a um certo ponto, cerca de 2 horas após o início da caminhada, decidiram fazer um desvio.
Um guia local entrevistado durante a investigação explicou que esse ponto específico da trilha era conhecido por confundir os visitantes. Havia uma bifurcação onde o caminho principal ia para a esquerda em direção ao Vale da Lua. Mas também havia uma trilha secundária, menos marcada, que ia para a direita. Esta trilha secundária não levava a nenhum local turístico oficial e era usada principalmente por residentes locais que colhiam frutos do Cerrado e por aventureiros ocasionais à procura de lugares com menos gente.
O problema era que a trilha secundária, se percorrida durante muito tempo, acabava por levar a uma área extremamente perigosa de ravinas. Não havia placas de aviso sobre o perigo. Não havia cercas, grades ou qualquer tipo de proteção. Era simplesmente a paisagem aberta e acidentada, com toda a sua beleza e todos os seus riscos.
Os investigadores acreditam que a Renata e a Camila apanharam a trilha secundária por engano, ou talvez por curiosidade. Talvez tenham visto algo interessante ao longe e decidiram explorar. Talvez tenham pensado que a trilha os levaria a alguma cascata escondida, do tipo das que aparecem nos posts de Instagram de viajantes aventureiros.
Talvez se tenham simplesmente enganado no caminho e, em vez de voltarem para trás quando perceberam o erro, decidiram continuar a avançar, demasiado confiantes nas suas próprias capacidades. A garrafa de água encontrada pela equipa de resgate original, aquela com as impressões digitais da Camila, estava no início desta trilha secundária.
Era um indício claro de que, a dada altura, pelo menos uma das duas mulheres tinha ali parado. A partir desse ponto, a trilha tornava-se cada vez mais difícil. O terreno era irregular, com pedras soltas e vegetação que, em algumas secções, bloqueava completamente a visão do caminho. Não havia marcas, não havia setas a indicar a direção, nada a não ser o instinto de quem caminhava.
Os investigadores estimam que a Renata e a Camila tenham percorrido esta trilha durante aproximadamente 4 horas. E, durante quatro horas, afastaram-se cada vez mais da civilização. Durante quatro horas, o sinal de telemóvel foi ficando cada vez mais fraco até desaparecer completamente. Durante quatro horas, a trilha tornou-se cada vez mais perigosa, sem que elas se apercebessem da gravidade da situação.
Quando finalmente chegaram à área dos desfiladeiros, já era final da tarde. A luz do sol estava a começar a diminuir. As sombras alongaram-se, tornando mais difícil distinguir o terreno mais à frente. E foi provavelmente nesse momento que a tragédia ocorreu. A análise do local onde os corpos foram encontrados revelou um detalhe crucial.
A apenas alguns metros da beira do precipício, havia uma formação rochosa que parecia perfeitamente segura para pisar. A rocha era plana. Era larga e parecia resistente. Qualquer um que olhasse para ela pensaria que era um lugar seguro para caminhar, ou até mesmo para se sentar e descansar. Mas as aparências enganavam. Quando a rocha foi examinada detalhadamente pelos peritos, descobriu-se que estava completamente corroída por baixo.
Anos de erosão provocada pela água da chuva tinham escavado a base da formação, deixando apenas uma fina camada de rocha a suportar a superfície. Para quem olhava de cima parecia sólida, mas apenas um peso adicional foi suficiente para a fazer ceder. Os peritos encontraram sinais recentes de quebra na borda da formação rochosa. As marcas eram consistentes com o colapso de uma secção de rocha, e as medições coincidiam com o que seria necessário para provocar a queda de dois adultos.
A teoria final oficialmente aceite pela investigação foi a seguinte: Renata e Camila, perdidas, cansadas, talvez já desidratadas e exaustas, chegaram àquela área no final da tarde de 14 de setembro. Estariam provavelmente à procura de um lugar para descansar ou, quem sabe, de um ponto mais alto de onde pudessem tentar avistar algum ponto de referência que as ajudasse a encontrar o caminho de volta.
A formação rochosa perto do precipício parecia ideal para isso. Uma delas, ou talvez ambas ao mesmo tempo, pisou na superfície que parecia firme. A rocha cedeu. A queda de 25 metros foi provavelmente fatal instantaneamente. As múltiplas fraturas encontradas nos corpos eram consistentes com um impacto violento.
Não havia sinais de que nenhuma delas tivesse sobrevivido tempo suficiente para pedir ajuda ou tentar sair de lá. Morreram juntas, no mesmo instante, a poucos metros uma da outra, e permaneceram ali escondidas, no fundo daquela ravina, durante 387 dias. Vejam, os corpos não foram encontrados durante as buscas originais porque o local era simplesmente inacessível usando métodos convencionais.
As equipas de helicópteros tinham sobrevoado a área, mas a copa das árvores era demasiado densa para permitir qualquer visibilidade do solo. As equipas de terra não tinham conseguido chegar sequer perto daquela área, bloqueadas pelo terreno extremamente difícil. Foi preciso um golpe de sorte. Um fotógrafo amador com um drone a explorar uma região que nunca tinha visitado antes, no momento certo, a olhar na direção certa para, finalmente, revelar onde a Renata e a Camila estavam.
A notícia da descoberta dos corpos foi divulgada pelos meios de comunicação no dia 10 de outubro de 2020. A reação foi imensa. O caso tinha afetado profundamente o país. E muitas pessoas que tinham acompanhado a história desde o início sentiram uma mistura de alívio e tristeza ao saber que os corpos tinham sido finalmente encontrados. Alívio, porque as famílias teriam finalmente respostas.
Tristeza, porque essas respostas confirmavam o pior. Marcos soube da notícia através de um telefonema do inspetor responsável pelo caso. Estava em casa a preparar o pequeno-almoço para o Pedro e a Isabela quando o telefone tocou. As crianças, que na altura já tinham oito anos, estavam na sala a ver televisão.
Marcos atendeu a chamada na cozinha. Longe dos ouvidos deles. O inspetor foi direto, a dizer que tinham encontrado os corpos da Renata e da Camila. Ele disse: “A identificação foi confirmada por documentos encontrados com os restos mortais. Os corpos serão transferidos para o Instituto de Medicina Legal em Goiânia, onde passarão por uma autópsia formal e, de seguida, serão libertados para as famílias.”
Marcos não conseguiu responder durante muito tempo. Ficou em silêncio, a segurar o telefone, enquanto as lágrimas lhe escorriam pelo rosto incontrolavelmente. O polícia perguntou: “O senhor está bem?” Marcos disse: “Sim, só preciso de um momento.” Desligou o telefone e sentou-se no chão da cozinha. Ficou ali deitado durante quase uma hora, a chorar silenciosamente, a tentar processar o fim de uma esperança que, no fundo, ele sabia que já tinha morrido há muito tempo.
Dona Aparecida, a mãe da Renata, soube da notícia pelo Marcos. Ele foi a casa dela pessoalmente, a deixar as crianças com um vizinho para lhe contar o que tinha acontecido. E a Dona Aparecida ouviu em silêncio. Ela não chorou, pelo menos não naquele momento. Ela simplesmente assentiu, como se estivesse a confirmar algo que já sabia.
Ela disse simplesmente: “Pelo menos agora posso enterrar a minha filha.” Dona Marlene, a mãe de Camila, foi informada por telefone por uma tia que vivia em Goiânia e que tinha visto a notícia no jornal local. A sua reação foi mais intensa. Gritou, chorou, praguejou e perguntou: “Por que é que demorou tanto tempo? Por que é que ninguém procurou em condições? Por que é que a minha filha teve de morrer de uma forma tão horrível, sozinha, longe de todos os que a amavam?”
As perguntas não tinham respostas, mas ela precisava de as fazer. Nos dias seguintes, os corpos foram formalmente identificados através de testes de ADN, que confirmaram o que os documentos já indicavam. A autópsia determinou que a causa da morte de ambas foi um politraumatismo resultante de uma queda em altura.
Não havia qualquer indício de crime, de envolvimento de terceiros, de nada além de um acidente trágico. Os funerais realizaram-se no dia 15 de outubro de 2020. Por coincidência, ou talvez por ironia do destino, foi exatamente um ano e um mês após o dia em que a operação oficial de busca tinha sido concluída. Os corpos da Renata e da Camila foram velados em capelas separadas.
em Brasília e em Taguatinga, respetivamente. Mas as famílias fizeram questão de se visitarem. Marcos levou o Pedro e a Isabela ao velório da Camila, a explicar às crianças que a “Tia Cami”, como lhe chamavam, tinha sido uma amiga muito boa da mãe deles e merecia que se despedissem com carinho. O enterro de Renata aconteceu ao final da tarde no cemitério Campo da Esperança em Brasília, e centenas de pessoas compareceram: colegas da escola onde lecionava, antigos alunos que tinham sido impactados pelas suas aulas de biologia,
parentes distantes que ela não via há anos, e também dezenas de desconhecidos — pessoas que tinham acompanhado o caso pelos meios de comunicação social e queriam prestar uma última homenagem. Marcos fez um breve discurso, a agradecer a todos pelo apoio durante aquele ano de angústia. Ele disse: “A Renata foi a melhor esposa que eu poderia ter pedido, a melhor mãe que o Pedro e a Isabela poderiam ter tido, a melhor amiga que alguém poderia encontrar.”
Disse que ela tinha morrido a fazer algo que amava, num lugar que sempre quis visitar, ao lado da pessoa que mais amava depois da família. Ele disse: “Apesar da dor, encontro algum conforto nisso.” O enterro da Camila teve lugar no dia seguinte, no cemitério de Taguatinga. Dona Marlene, que continuava com a saúde fragilizada, precisou de ser amparada durante toda a cerimónia.
Não fez nenhum discurso, apenas permaneceu ao lado do caixão, a segurar a mão da filha, que já não conseguia sentir o seu toque, a murmurar palavras que ninguém conseguia ouvir. Seis meses após o funeral, a Dona Marlene faleceu. Os médicos disseram que foi o seu coração, que finalmente cedeu após tantos anos de problemas, mas as pessoas mais próximas sabiam que a verdadeira causa era outra.
Dona Marlene tinha morrido de saudades, tinha morrido de um tipo de dor que nenhum remédio pode curar. Roberto Bianque, o fotógrafo que encontrou os corpos, foi amplamente reconhecido pela sua contribuição para o caso. A família da Renata e a família da Camila fizeram questão de se encontrarem com ele pessoalmente para lhe agradecerem. Marcos disse que, embora a notícia fosse devastadora, o facto de finalmente saber o que tinha acontecido e poder enterrar a sua esposa tinha-lhe trazido uma paz que ele não conseguia descrever.
Roberto sentiu-se desconfortável com a atenção. Ele dizia: “Eu não fiz nada de especial, foi apenas uma coincidência, qualquer pessoa no meu lugar teria feito o mesmo.” Recusou convites para dar entrevistas em programas de televisão e preferiu regressar à sua vida discreta de fotógrafo amador.
Mas nunca mais voou o seu drone naquela região. Ele disse numa das poucas entrevistas que deu a um jornal local: “A imagem daquele corpo entre as rochas assombra-me. Já não consigo olhar para as paisagens naturais da mesma forma, a beleza que eu tanto amava foi manchada por algo que eu nunca vou conseguir esquecer.”
O caso de Renata e Camila teve repercussões importantes para a segurança na região da Chapada dos Veadeiros. Nos meses que se seguiram à descoberta dos corpos, o ICMBio, órgão responsável pela gestão do Parque Nacional, implementou uma série de mudanças. Foram instaladas novas placas de sinalização em pontos críticos das trilhas, com avisos sobre os perigos de se afastarem dos caminhos principais.
Foram colocadas barreiras físicas em áreas próximas de desfiladeiros. Foi implementado um sistema de registo obrigatório para os caminhantes, a exigir que todos os visitantes comunicassem a sua rota planeada antes de entrarem no parque. Foram também realizadas campanhas de sensibilização, a utilizar a história de Renata e Camila como exemplo dos riscos que a natureza pode apresentar.
Algumas pessoas criticaram estas medidas por serem tardias, mas argumentaram que se estas precauções tivessem sido tomadas mais cedo, talvez a tragédia pudesse ter sido evitada. Talvez a Renata e a Camila não se tivessem desviado do caminho. Talvez se tivessem registado o seu percurso, alguém se tivesse apercebido mais cedo de que elas estavam em perigo.
Mas “talvez” é uma palavra que não traz ninguém de volta. Marcos continuou a viver em Brasília, a criar o Pedro e a Isabela o melhor que pôde. Dois anos após a morte de Renata, ele conheceu uma mulher chamada Fernanda, uma colega de trabalho que o ajudou a sair da depressão profunda em que tinha caído. A relação deles evoluiu lentamente, com respeito pelo luto que o Marcos ainda carregava.
Em 2023, casaram-se numa cerimónia discreta apenas para a família e os amigos mais próximos. Pedro e Isabela, que já eram adolescentes nessa altura, aceitaram Fernanda com uma mistura de cautela e esperança. Ainda sentiam a falta da mãe todos os dias, mas compreenderam que o seu pai merecia ser feliz, que a vida precisava de continuar, e que amar outra pessoa não significava esquecer aquela que se tinha perdido.
Na casa de Marcos, há uma fotografia da Renata num lugar de destaque na sala de estar. É uma fotografia dela a sorrir, tirada durante uma caminhada que fizeram juntos, anos antes da tragédia. Ao lado da fotografia, há uma pequena placa com uma frase que a Renata costumava dizer: “A natureza não é boa nem má. Ela simplesmente é.”
“Cabe-nos a nós respeitá-la.” A página de Facebook que o Marcos tinha criado para procurar a Renata e a Camila ainda existe. O último post é de outubro de 2020, a informar que os corpos tinham sido encontrados e a agradecer a todos pelo apoio. A página tem mais de 80.000 seguidores, incluindo pessoas que nunca conheceram a Renata ou a Camila pessoalmente, mas que se ligaram à sua história de alguma forma.
Algumas destas pessoas ainda deixam mensagens de vez em quando, comentários como: “Nunca esquecerei esta história.” Ou: “Que descansem em paz.” Ou ainda: “Sempre que faço uma trilha, penso nelas e tenho mais cuidado.” São pequenos testemunhos de que, apesar de tudo, as mortes de Renata e Camila não foram em vão. A sua história continua a alertar outras pessoas, continua a lembrar-nos de que a natureza merece respeito, continua a mostrar que decisões aparentemente pequenas podem ter consequências enormes.
Em última análise, o que aconteceu a Renata Oliveira Santos e Camila Ferreira Alves foi um acidente. Não houve vilão, nem crime, nada a não ser uma combinação fatal de circunstâncias… e uma trilha que confundia os visitantes. Uma decisão de explorar um caminho desconhecido, uma formação rochosa que parecia segura, mas não era.
Um momento de azar num local de difícil acesso. Qualquer um de nós poderia ter tomado as mesmas decisões. Esta é talvez a parte mais assustadora desta história. Elas não eram pessoas imprudentes, não eram aventureiras irresponsáveis, não eram jovens à procura de adrenalina. Eram duas mulheres adultas, experientes em caminhadas, que simplesmente cometeram um erro num momento que lhes custou as vidas.
Se não fosse por um fotógrafo amador com um drone a explorar um local que nunca tinha visitado antes, talvez nunca viéssemos a saber o que lhes aconteceu. Talvez ainda estivessem lá no fundo daquela ravina, à espera de serem encontradas. Quero deixar-te algo para pensar, a ti, pessoa que está a ouvir esta história. A natureza é bela, a natureza é poderosa, a natureza pode ser extremamente perigosa.
E a linha entre uma experiência maravilhosa e uma tragédia irreversível pode ser muito mais ténue do que imaginamos. A Renata e a Camila saíram de casa naquele sábado com a expectativa de regressar no domingo. Elas esperavam conversar sobre as cascatas que tinham visto, as fotografias que tinham tirado, os momentos que tinham partilhado. Nunca imaginaram que essa seria a sua última aventura.
Se esta história te fez pensar, se te fez refletir sobre as decisões que tomas quando estás na natureza, se te fez valorizar mais os momentos com as pessoas que amas, então cumpriu o seu propósito. Agora, antes de terminarmos, preciso de te pedir uma coisa. Se chegaste até aqui, se acompanhaste esta história do princípio ao fim, és exatamente o tipo de pessoa para quem este canal foi feito. Inscreve-te.
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