O verão de 2026 chegou a Balneário Camboriú com aquela generosidade exagerada que só o litoral de Santa Catarina sabe oferecer. O calor era intenso desde a manhã, o céu permanecia sem nuvens até o final da tarde, e a praia central fervilhava com o barulho misturado de crianças, vendedores ambulantes e o rugido constante das ondas quebrando na areia branca.
Era exatamente o tipo de lugar que Rodrigo Mendes vinha prometendo à sua filha há meses. Rodrigo tinha 52 anos, cabelos grisalhos nas têmporas e mãos grandes que pareciam mais acostumadas a carregar caixas do que a digitar. Embora ele passasse boa parte de seus dias fazendo exatamente isso, atrás de uma mesa de escritório em Curitiba, onde trabalhava como supervisor de logística em uma distribuidora de materiais de construção.
Ele era um homem de poucas palavras em público e muitas palavras em casa, especialmente quando o assunto era Ana Luísa. A filha tinha 14 anos e uma personalidade que desconcertava qualquer pessoa que a conhecesse pela primeira vez. Ela falava com vocabulário de adulto, fazia perguntas que envergonhavam os professores e tinha o hábito de anotar tudo o que considerava digno de ser lembrado em cadernos.
Frases que ouvia na rua, descrições de lugares, pensamentos perdidos que a acordavam no meio da noite. A mãe, Cláudia, costumava dizer: “A Ana Luísa nasceu prestando atenção no mundo.” Rodrigo concordava silenciosamente, com aquele orgulho particular dos pais que não sabem bem como expressar o que sentem. Cláudia não havia viajado.
Professora do ensino fundamental em Curitiba, ela havia perdido o prazo para solicitar férias na escola municipal onde trabalhava e ficou com aquele misto de sentimentos de enviar os entes queridos para longe e esperar que tudo corresse bem. Na manhã da partida, eles encheram uma sacola com lanches para o carro, escreveram uma lista de coisas a fazer que Rodrigo guardou no porta-luvas sem ler, como sempre fazia, e abraçaram Ana Luísa por tempo demais na calçada em frente de casa.
Eles chegaram a Balneário Camboriú na tarde do dia 3 de janeiro, após quase 6 horas de viagem pela rodovia BR-101. Ficaram hospedados em um apart-hotel a duas quadras da praia principal, no 10º andar, com uma varanda de frente para o mar. Ana Luísa jogou a sua mochila na cama, foi direto para a varanda e ficou ali, olhando fixamente para o horizonte por vários minutos sem dizer nada.
Rodrigo se aproximou dela com dois copos de água e perguntou o que ela achava. Ela respondeu sem tirar os olhos do mar. “É maior do que eu imaginava.” Os primeiros dias foram exatamente o que as férias deveriam ser. Mergulhos na piscina do hotel, sorvete na praia, um passeio de teleférico até o mirante do morro, jantares em restaurantes onde Ana Luísa experimentava pratos que nunca havia pedido antes e anotava suas impressões no caderno azul que carregava na bolsa.
Rodrigo fotografava tudo, não casualmente, mas com aquela pressa afetuosa de quem quer capturar o momento antes que ele escape. Foi Ana Luísa quem encontrou o panfleto. Estava no saguão do hotel, cercada por brochuras de turismo e cartões de visita de restaurantes. O panfleto anunciava um passeio de escuna para as ilhas próximas, com partida do píer central de Balneário Camboriú às 8h.
Retorno previsto para o início da tarde. Havia fotos de água verde-turquesa, rochas cobertas de vegetação e crianças fazendo mergulho com snorkel. Ana Luísa mostrou ao pai com o tipo de entusiasmo que indicava que não esperava uma resposta negativa. Rodrigo olhou o folheto, olhou o céu pela janela do saguão, olhou para a filha e concordou.
Eles reservaram para o dia 7 de janeiro. Cláudia ficou sabendo pela mensagem que Rodrigo enviou naquela noite, uma foto do panfleto com a legenda: “Amanhã nós iremos aqui”, e ela respondeu com um emoji de coração e pediu que ele mandasse fotos. Rodrigo prometeu que enviaria. A manhã do dia 7 amanheceu diferente. Rodrigo acordou às 6h, foi até a janela e passou algum tempo olhando o mar.
A superfície estava agitada, as ondas mais altas do que nos dias anteriores e uma linha de nuvens pesadas se formava no horizonte sul. Ele hesitou, enviou uma mensagem a Cláudia dizendo que o tempo parecia estar ficando ruim, mas que Ana Luísa estava animada e que os barcos certamente não sairiam se houvesse algum risco.
No píer, quando chegaram às 7h40, a atividade era intensa. Famílias carregando malas, crianças correndo, vendedores vendendo chapéus e protetor solar. O responsável pela embarcação era um homem chamado Sérgio, de cerca de 45 anos. Queimado de sol, ele falava rápido e com a confiança de quem faz a mesma viagem há anos.
Rodrigo perguntou sobre o tempo. Sérgio olhou para o horizonte, acenou com a mão no ar e disse que era apenas uma nuvem passageira, coisa de verão, e que não havia alertas ativos da marinha para aquela região. A embarcação, uma escuna de madeira chamada Estrela do Sul, deixou o píer às 8h15, com 23 passageiros a bordo.
Ana Luísa sentou-se na proa com os joelhos dobrados e o caderno azul no colo. Ela abriu em uma nova página, escreveu a data, o nome do barco e uma frase que Cláudia leria semanas depois, com as mãos trêmulas. “O mar está agitado hoje, mas lindo. Pai, você está ao meu lado. Tudo bem.” A tempestade chegou sem aviso formal, mas com todos os sinais que qualquer pessoa familiarizada com o litoral catarinense consegue reconhecer.
O horizonte sul escureceu primeiro, depois o vento mudou de direção abruptamente e as ondas, que até então batiam em um ritmo previsível, começaram a se amontoar com uma irregularidade que tornou o casco da escuna instável. Passava das 9h quando Sérgio desacelerou o barco e começou a manobrar em direção à costa mais próxima, tentando cortar caminho antes que o mar piorasse.
Não foi o suficiente. Em menos de 20 minutos, o que havia começado como uma ondulação moderada se transformou em uma densa ressaca com ondas que ultrapassavam os 2 metros de altura. A chuva caiu de repente, espessa e fria, e o vento uivou pela estrutura de madeira da escuna com um som que os passageiros jamais esqueceriam. Crianças choravam, adultos agarravam-se às grades laterais.
Alguns tentaram ligar para os parentes, mas não conseguiram sinal. Rodrigo pegou o colete salva-vidas embaixo do assento e o colocou em Ana Luísa com movimentos firmes e calculados. O tipo de resiliência que os pais desenvolvem quando precisam parecer inteiros por dentro enquanto algo está desmoronando. Ela não conseguiu resistir.
Ela olhou para ele com aqueles olhos grandes e sérios, sem chorar, sem gritar, apenas perguntando com o rosto o que estava acontecendo. Rodrigo colocou o próprio colete, segurou o pulso da filha e colocou a boca no ouvido dela para ser ouvido acima do barulho. “Fique ao meu lado, não solte minha mão.” Às 9h53, Rodrigo ligou para Cláudia.
Ela estava em casa, em Curitiba, dobrando roupas na sala com a televisão ligada em volume baixo. Quando ela viu o nome dele na tela, atendeu sem urgência, esperando uma mensagem de viagem mundana. O que ela ouviu a fez parar no meio do movimento, com as roupas ainda na mão. A voz de Rodrigo soou muito controlada para a situação que ele descrevia.
Esse controle deliberado foi o que a assustou mais. Ele disse que a embarcação estava com problemas, que havia uma tempestade, que Ana Luísa estava usando um colete salva-vidas e que era necessário ligar para a capitania dos portos em Itajaí. Ele repassou as informações que tinha. Saída do píer central de Balneário Camboriú.
Embarcação Estrela do Sul, em direção às ilhas. Partida às 8h15. Cláudia perguntou se poderia falar com Ana Luísa. Havia um ruído de fundo. Água, vento, vozes sobrepostas. E então a voz da filha surgiu pelo telefone, clara e próxima, como se ela estivesse em qualquer outro lugar. “Mãe, o pai está bem aqui do meu lado. Não chora.” A ligação caiu então.
Cláudia ficou parada, olhando fixamente para a tela preta do celular por alguns segundos. Depois, ela correu para o quarto, entrou no carro e começou a fazer ligações enquanto dirigia para lugar nenhum, porque ainda não havia lugar para onde fizesse sentido ir. A escuna Estrela do Sul foi encontrada à deriva por pescadores locais no final da tarde daquele mesmo dia, a aproximadamente 14 km de seu ponto de partida, inclinada para o lado esquerdo com parte de sua estrutura de proa comprometida.
Não havia ninguém a bordo. Nos dias seguintes, 18 passageiros foram encontrados vivos. Alguns foram encontrados na areia de praias próximas, outros foram resgatados por barcos particulares que estavam na área. Sérgio, o condutor, estava entre os sobreviventes. Três passageiros permaneceram desaparecidos por mais de uma semana, dois dos quais foram encontrados mais tarde sofrendo de hipotermia em uma praia no município de Porto Belo.
Rodrigo Mendes e Ana Luísa Mendes não foram encontrados. Cláudia chegou a Balneário Camboriú nas primeiras horas do dia 8, com o cunhado dirigindo e o filho mais velho, Felipe, de 24 anos, no banco de trás. Ela não chorou durante a viagem. Felipe me contou isso meses depois, ainda com aquele olhar de quem descreve algo que não sabe como encaixar em uma frase.
“Minha mãe passou a viagem inteira com o telefone na mão, ligando para números que não atendiam e anotando em uma folha de papel os nomes de todos com quem ela havia falado, o horário de cada ligação e o que cada pessoa havia dito.” A capitania dos portos de Itajaí havia sido contatada no início daquela tarde do dia 7. O Corpo de Bombeiros de Balneário Camboriú havia lançado equipes de buscas aquáticas.
A Marinha do Brasil ativou protocolos de emergência para embarcações em perigo na região. Até aquele momento, a estrutura estava funcionando como deveria. O que veio depois não seguiu o mesmo padrão. Na manhã do dia 8, quando Cláudia e Felipe se apresentaram na sede da Capitania para acompanhar as buscas, foram recebidos por um oficial que lhes entregou um formulário de registro de desaparecidos e lhes pediu que aguardassem o contato.
Quando Cláudia perguntou exatamente onde eles estavam procurando e quantos barcos estavam sendo usados, o oficial respondeu que as operações estavam seguindo o protocolo estabelecido e que quaisquer atualizações seriam comunicadas assim que estivessem disponíveis. Não havia nenhum mapa para mostrar, nenhuma coordenada para compartilhar, apenas o formulário e a instrução para esperar.
Felipe tentou uma abordagem diferente. Ele conhecia um repórter de uma emissora de TV em Florianópolis que havia feito uma reportagem sobre sua empresa meses antes. Ele ligou para o repórter naquele mesmo dia. O repórter atendeu, ouviu atentamente a história e disse que investigaria. Horas depois, ele enviou uma mensagem curta: “Cara, falei com o chefe.”
“Disseram que há um comunicado oficial da capitania dos portos sobre o acidente com a escuna e que, enquanto a busca estiver ativa, qualquer cobertura paralela pode interferir. Disseram-me para aguardar a declaração oficial. Desculpe.” Felipe leu a mensagem duas vezes e não respondeu. Ele mostrou-a à mãe.
Cláudia leu, dobrou o telefone no colo e disse uma frase que Felipe repetiu para mim, quase palavra por palavra. “Isso não é protocolo, isso é um ensaio.” Em 10 de janeiro, a Marinha emitiu um comunicado informando que as buscas na área do incidente estavam em andamento e que, até aquele momento, não havia relatos de novos sobreviventes além daqueles já confirmados.
A nota não mencionava Rodrigo ou Ana Luísa pelo nome. Apenas listava o número total de pessoas desaparecidas. Duas. Duas. Como se fossem uma estatística. Cláudia postou duas fotos nas redes sociais. Uma de Rodrigo na varanda do hotel, com o mar ao fundo, tirada dois dias antes do acidente.
Outra foto de Ana Luísa no primeiro plano da cena, de costas para a câmera e com o cabelo ao vento, tirada quando saíam do píer pelo próprio Rodrigo, que a havia enviado a Cláudia pelo WhatsApp com a legenda: “Olha para ela.” A postagem foi compartilhada mais de 800 vezes nas primeiras horas. Grupos de moradores de Balneário Camboriú começaram a encaminhar a informação.
Alguém criou um perfil de busca usando fotos dos dois. A história começou a ganhar forma nas redes sociais antes de ganhar força nos noticiários. E então, na tarde do dia 11, algo estranho aconteceu. Duas das postagens que Cláudia havia feito em grupos locais do Facebook foram removidas sem aviso ou explicação dos administradores dos grupos.
Ela não obteve resposta às mensagens que enviou questionando o motivo. O perfil de buscas, criado por um voluntário desconhecido, foi retirado do ar após acumular mais de 2.000 seguidores em dois dias, com a justificativa automática de violação das diretrizes da plataforma — uma justificativa genérica que não explicava nada de concreto.
Felipe tentou entrar em contato com os administradores dos grupos. Ninguém respondeu. Cláudia estava sentada no corredor do apart-hotel onde estavam hospedados. Ela havia pedido para manter o apartamento porque não conseguia imaginar ir embora sem Rodrigo e Ana Luísa, quando uma mulher parou na frente dela. Tinha cerca de 50 anos, cabelos curtos e uma expressão que misturava determinação com cautela.
Ela disse que se chamava Mariana, que vira as fotos antes que elas desaparecessem, que morava em Balneário Camboriú há 16 anos e que vira coisas naquele mar que precisava contar a alguém que tivesse motivos para ouvir. Cláudia olhou para ela por um segundo e disse: “Sente-se aqui.” Mariana Souza não era jornalista nem ativista.
Ela era dona de uma pequena pousada no bairro da Barra Sul, casada com um pescador aposentado e mãe de dois filhos adultos que haviam deixado Balneário Camboriú para estudar e ficado em suas cidades de destino. Ela era o tipo de mulher que conhece uma cidade não pelos seus cartões-postais, mas por suas costuras, pelos becos que não aparecem nos folhetos turísticos, pelos rostos que se repetem no mercado toda a semana, pelas histórias que circulam entre os pescadores antes do nascer do sol.
Ela sentou-se ao lado de Cláudia no corredor do apart-hotel e não começou pelo começo, começou pelo que havia visto. Na tarde do dia 7 de janeiro, horas depois da tempestade, Mariana estava no píer nos fundos da pousada, um velho píer de madeira que seu marido usava para guardar equipamentos de pesca e onde ela costumava se sentar no final do dia para tomar chimarrão e olhar o mar.
Ela estava lá quando avistou, com a luz do final da tarde já tingindo o horizonte de laranja, uma embarcação de tamanho médio movendo-se em uma direção que não fazia sentido de acordo com qualquer rota conhecida. Não era um barco de turismo; não tinha as características dos barcos de pesca profissionais que ela aprendera a reconhecer em 16 anos no litoral.
Era escuro, sem nenhuma identificação visível na lateral, e movia-se muito lentamente para o tipo de casco que parecia ter. O que chamou sua atenção não foi a embarcação em si, mas seu comportamento. Ele parou por alguns minutos em uma área que Mariana sabia ser muito rasa para embarcações daquele tamanho em condições normais.
Depois, retomou o movimento e desapareceu em direção ao sul, para além do morro careca. Ela havia mencionado isso ao marido naquela noite. Ele ouviu, balançou a cabeça e disse que provavelmente era algum barco de aluguel particular mudando de curso por causa da tempestade. Mariana havia deixado o assunto de lado até ver as fotos de Rodrigo e Ana Luísa no dia 11 e reconhecer, a partir do local estimado do naufrágio que circulava nos grupos, que a área onde a estranha embarcação havia parado coincidia aproximadamente com a rota que o Estrela do Sul deveria ter feito.
Cláudia ouviu tudo sem interromper. Quando Mariana terminou, perguntou se ela havia relatado isso a alguma autoridade. Mariana desviou o olhar por um segundo antes de responder. “Eu liguei para a capitania dos portos no dia 12 e pedi para falar com o encarregado das buscas.”
“Eles anotaram meu nome e disseram que entrariam em contato. Ninguém retornou a ligação.” Cláudia pediu licença, foi ao banheiro, fechou a porta e ficou ali por dois minutos com as costas encostadas na parede. Não era fraqueza, era a pausa que alguns corpos precisam antes de poderem continuar funcionando.
Quando retornou, ela tinha o caderno na mão, o mesmo caderno onde havia registrado cada telefonema desde a madrugada do dia 8, e pediu a Mariana seu nome completo, endereço e número de telefone. Felipe, por sua vez, passara os últimos dias construindo uma lista que ninguém havia pedido, mas que estava se provando necessária. Era uma lista de nomes.
Os 18 sobreviventes da Estrela do Sul que haviam sido publicamente identificados. Ele conseguiu seis contatos diretos por meio de grupos de WhatsApp de turistas e moradores locais. Quatro não responderam. Um respondeu dizendo que preferia não falar sobre o assunto a conselho de um advogado que a família havia contratado. O sexto, um homem de 58 anos chamado Dirceu, um aposentado de Porto Alegre, concordou com uma videochamada na noite do dia 13.
Dirceu estava no Estrela do Sul com a esposa, que também havia sobrevivido. Ele falava com uma calma que parecia difícil de manter, como alguém que havia ensaiado o que diria e o que não diria. Confirmou o caos da tempestade, os coletes salva-vidas, o casco batendo contra as ondas. Ele confirmou que viu Rodrigo de pé no barco, segurando Ana Luísa pelo braço.
E então, após uma pausa que durou tempo demais para parecer natural, ele disse algo que Felipe anotou palavra por palavra. “Antes de cair na água, vi uma lancha se aproximando pelo lado direito da escuna. Não era um resgate. Veículos de resgate têm sirenes e luzes. Aquela não tinha nada disso. Ele chegou, ficou ao nosso lado por um tempo e depois foi embora.”
“Quando voltei à superfície e me agarrei a um pedaço do casco, olhei para o lado e vi que o homem que estava ali não estava mais, nem a menina.” Felipe perguntou se ele havia relatado isso às autoridades. Dirceu ficou em silêncio por alguns segundos. Depois disse: “Dei um depoimento dois dias depois do acidente.”
“O cara que me atendeu anotou tudo, pediu para eu assinar um documento e disse que seria encaminhado para a investigação. Semana passada eu liguei para saber o andamento. Disseram que meu depoimento estava nos autos e que o caso havia sido classificado como acidente climático. Perguntei sobre a lancha. Me disseram que não havia registro de nenhuma embarcação não identificada na área.”
Ele desligou 10 minutos depois, alegando cansaço. Mas antes de desligar, com uma voz rápida e baixa, quase como se estivesse dizendo algo para si mesmo em vez de para Felipe, ele acrescentou: “Cuida da sua mãe e não a pressione muito, ok? Minha esposa tem estado assustada desde que voltamos para Porto Alegre, e eu a entendo.”
Felipe ficou muito tempo olhando fixamente para a tela preta do seu celular. Na manhã do dia 14, um pescador chamado Benedito Luz procurou Mariana na pousada. Tinha 67 anos, pescava na região há mais de quatro décadas e era conhecido entre os colegas como um homem de poucas palavras e de observação aguçada.
Mariana o conhecia desde que ele chegara a Balneário Camboriú. Ele sabia que ela havia falado com a família dos desaparecidos, pois, em uma cidade litorânea, as conversas viajam tão rápido quanto o vento sul. Ele sentou-se na varanda da pousada e falou por 20 minutos sem que Mariana precisasse fazer muitas perguntas. Benedito havia saído para pescar na noite do dia 6 para o dia 7, antes de a tempestade se formar.
Estava a cerca de 12 km da costa quando percebeu a mudança no tempo e decidiu voltar. Durante a viagem de regresso, num ponto que ele localizava com a precisão de quem navega de cor e pelos astros, cruzou-se com uma embarcação que não devia estar ali. Era demasiado grande para aquele troço.
Navegava sem luzes e seguia numa direção que não correspondia a nenhuma rota de pesca ou de turismo que ele conhecesse. O que o manteve em silêncio durante dias foi o que viu ao passar mais perto, antes de perceber que era melhor não passar tão perto. Na popa da embarcação, sob uma lona azul que o vento havia levantado parcialmente, havia volumes grandes e irregulares, do tipo que não corresponde a cargas convencionais de pesca ou transporte comercial.
Benedito era um pescador experiente o suficiente para reconhecer quando algo não pertencia ao mar, a julgar pela forma como estava sendo transportado. Ele ficou em silêncio porque tinha 67 anos, três netos e não tinha ilusões sobre o que acontecia com pescadores que falavam sobre coisas que certos barcos preferiam que não fossem vistas.
Mas ele procurou Mariana porque Ana Luísa tinha 14 anos. “E isso,” disse ele, olhando para o mar em vez de para ela, “era algo que eu não conseguia simplesmente engolir em silêncio.” Mariana documentou tudo. Quando Benedito foi embora, ela sentou-se na varanda por alguns minutos, observando o fluxo e refluxo das ondas, com a expressão de quem está organizando dentro de si algo que ainda não tem uma forma definitiva.
Naquela tarde, ela foi ao apart-hotel e pediu para falar com Cláudia e Felipe juntos. Os três se sentaram na pequena sala com o ventilador girando e o som da praia subindo pela janela. Mariana relatou o que Benedito havia dito sem dramatizar nem omitir nada. Felipe foi o primeiro a quebrar o silêncio que se seguiu.
“Isso significa que a lancha que o Dirceu viu não estava passando por ali por acaso.” As mãos de Cláudia estavam espalmadas sobre seu caderno, os dedos imóveis. Quando ela falou, sua voz saiu baixa e firme, assim como estivera nas últimas semanas, com aquela calma que não é serenidade, mas um instinto de sobrevivência. “Nós precisamos de alguém que saiba o que fazer com isso, porque nós três sozinhos não chegaremos a lugar nenhum.”
Mariana assentiu lentamente. “Eu conheço alguém,” disse ela. “Ela não é daqui, mas está cobrindo a costa sul há muito tempo e escreveu coisas que pessoas poderosas prefeririam que não fossem escritas.” Cláudia virou o caderno para uma página em branco. “Nome.” O nome que Mariana escreveu no caderno de Cláudia foi Tatiana Rocha, 43 anos, nascida em Joinville, moradora de Florianópolis há quase duas décadas.
Uma repórter investigativa freelancer, que colaborava com portais de jornalismo independente do sul e com uma plataforma digital sediada em São Paulo, especializada em reportagens de interesse público. Tinha o tipo de currículo que não impressiona em jantares sociais, mas que faz certos assessores de imprensa engolirem em seco quando o seu nome aparece na lista de jornalistas credenciados.
Ela havia escrito sobre desvios de verbas em projetos de construção civil no litoral catarinense, sobre redes de exploração de mão de obra em frigoríficos do oeste do estado e sobre um esquema de licenciamento ambiental irregular envolvendo uma empreiteira com contratos públicos ativos. Nenhuma dessas reportagens foi publicada sem pressão. Todas elas foram publicadas.
Mariana conhecia-a desde a época em que Tatiana passou duas semanas em Balneário Camboriú, pesquisando uma reportagem sobre especulação imobiliária no litoral. Tinham-se conhecido por acaso num bar perto do porto, conversaram durante horas e mantinham um contacto esporádico desde então. Não era uma amizade próxima, mas era o tipo de relação em que a confiança tinha sido estabelecida sem precisar de ser declarada.
Cláudia ligou para Tatiana no dia seguinte, às 8 da manhã. A jornalista atendeu no segundo toque. A conversa durou 40 minutos. Cláudia narrou tudo na mesma ordem em que havia anotado no seu caderno. Datas, nomes, sequência dos acontecimentos, omissões por parte das autoridades, depoimento do Dirceu, relato do Benedito, desaparecimento das postagens nas redes sociais.
Tatiana ouviu sem interromper, fazendo apenas perguntas curtas e cirúrgicas quando precisava de precisão. Ao final, ela ficou em silêncio por alguns segundos. “A senhora está me contando isso porque quer que eu escreva sobre o caso ou porque quer que eu a ajude a entender o que aconteceu?” Cláudia respondeu sem hesitar.
“As duas coisas, mas primeiro a segunda.” Dois dias depois, ela viajou para Balneário Camboriú com uma mochila, um gravador, um caderno e aquela postura específica de quem está acostumada a entrar em situações nas quais a maioria das pessoas preferiria não se envolver. Encontrou Cláudia, Felipe e Mariana no apartamento do hotel e passou três horas ouvindo tudo de novo, desta vez com o gravador ligado e um bloco de notas onde rabiscou diagramas e setas que mais pareciam tentativas de organizar o invisível.
Quando todos terminaram de falar, Tatiana olhou fixamente para suas anotações por um longo momento. Então ela disse algo que nenhum dos três ainda havia formulado com tanta clareza. “O que vocês têm são fragmentos que apontam na mesma direção, mas que, individualmente, não provam nada. Um barco sem luzes visto por um pescador idoso.”
“Uma lancha não identificada relatada por um sobrevivente cujo depoimento foi arquivado. Publicações removidas sem justificativa. Um caso classificado como acidente climático em uma velocidade que não corresponde à complexidade do que ocorreu. Cada um desses elementos isolados tem uma explicação razoável. Juntos, eles formam um padrão, e padrões são o que eu sei investigar.”
Nos dias que se seguiram, Tatiana dedicou-se ao mapeamento. Falou com Benedito durante duas horas num café perto do porto, gravando com a sua autorização. Tentou contactar o Dirceu, que desta vez não atendeu as chamadas, mas respondeu a uma mensagem dizendo que fora aconselhado por um advogado a não falar com os jornalistas. Através de uma fonte que não identificou sequer a Cláudia, ela conseguiu acessar a um documento interno da Capitania dos Portos de Itajaí.
Não era o processo completo, apenas uma folha de registros de ocorrências de 7 de janeiro, onde o incidente com o Estrela do Sul foi catalogado com um código que ela reconheceu imediatamente. Ela o mostrou a Felipe sem revelar a fonte. “Este código aqui,” ela disse, apontando para uma sequência alfanumérica no canto superior do documento, “é usado para incidentes que foram encaminhados para avaliação por outro órgão antes de receber a classificação final.”
“O que isso significa na prática é que alguém, em algum momento entre o dia 7 e a declaração oficial do dia 10, entendeu que este caso não deveria ser tratado como um simples acidente marítimo comum, e por isso foi tratado exatamente como tal.” Felipe precisou de um momento para absorver a informação. “Alguém?” Tatiana não confirmou nem negou, dizendo que era uma hipótese que precisava de mais apoio antes de poder ser afirmada de forma responsável.
Mas havia uma outra linha de investigação que ela havia começado a seguir paralelamente, e que estava a dar resultados que a mantinham acordada durante mais tempo do que o habitual. Nos últimos 18 meses, tinha havido três registos públicos de navios desaparecidos ou em perigo ao longo da costa entre Balneário Camboriú e a fronteira com o Paraná.
Dois tinham sido classificados como acidentes meteorológicos e um como falha mecânica com consequente abandono da embarcação. Nos três casos, havia sobreviventes. Nos três casos, havia pelo menos um relato não oficial de uma embarcação não identificada na zona à hora ou nas horas que rodearam o incidente. Em nenhum dos três casos houve uma investigação aberta para além do relatório inicial.
A Tatiana cruzou estas informações com dados que não eram confidenciais, mas que exigiam paciência para serem encontrados. Eram os relatórios públicos da Polícia Federal sobre as rotas de tráfico marítimo ao longo da costa sul do Brasil, publicados em anos anteriores no âmbito de operações divulgadas à imprensa. A faixa costeira entre o sul de Santa Catarina e o norte do Paraná aparecia em dois destes relatórios como um corredor secundário de escoamento, utilizado sobretudo quando as rotas principais estavam sob maior vigilância.
Ela apresentou este mapeamento à Cláudia numa tarde em que o apartamento estava silencioso e o mar lá fora tinha aquele aspeto traiçoeiro de algo belo e indiferente. Cláudia ouviu cada palavra com atenção absoluta. Quando Tatiana terminou, ela fez a mesma pergunta que Ernesto havia feito a Luísa meses antes, em uma cidade diferente, em um mar diferente, com o mesmo desespero.
“Isto significa que o meu marido e a minha filha estavam no lugar errado à hora errada?” Tatiana escolheu as palavras com o cuidado que a pergunta merecia. “Significa que existe uma possibilidade real de que a Estrela do Sul, com o seu motor comprometido pela tempestade e à deriva naquele troço de costa específico, possa ter se tornado numa testemunha involuntária de algo que certas pessoas tinham interesse em manter invisível, e de que a resposta a esta situação possa não ter sido pedir ajuda.”
O silêncio que preencheu a sala após aquelas palavras teve um peso físico. Felipe estava de costas para as duas mulheres, a olhar para o mar pela janela, com os punhos cerrados e apoiados no peitoril. Cláudia estava com os olhos fixos no caderno, as mãos ainda na capa. Foi ela quem falou primeiro, com aquela voz baixa e inabalável que se tinha tornado a sua forma de estar naquelas semanas.
“O que você precisa para publicar, Tatiana?” “Sinceramente,” Tatiana respondeu honestamente. “Outra fonte. Alguém para corroborar o que Benedito viu ou o que Dirceu relatou em seu depoimento arquivado. Sem isso, o que nós temos é uma narrativa coerente e perturbadora, mas que um advogado bem pago pode facilmente desmantelar.” Cláudia sentiu a situação lentamente.
A seguir, abriu o bloco de notas na página onde tinha anotado os nomes de todos aqueles com quem falara desde o início da manhã do dia 8. Passou o dedo lentamente pela lista, como quem relê uma história que ainda não acabou de compreender. Parou num nome que tinha anotado quase sem querer, numa conversa paralela que tivera lugar no segundo dia em Balneário Camboriú, quando uma rececionista do hotel comentou casualmente que o seu namorado trabalhava no porto e tinha chegado a casa perturbado na noite do acidente.
Cláudia mostrou o nome a Tatiana. “Nunca segui esta pista.” Tatiana olhou para o nome e depois para Cláudia. “Agora é a hora.” O namorado da recepcionista chamava-se Leandro Tavares, 29 anos, funcionário contratado do porto de Itajaí há três anos e responsável pelo registo da movimentação de embarcações no turno da tarde.
Era um homem de aparência comum, cabelos curtos, olhos inquietos, o tipo de pessoa que sorri rápido demais quando está desconfortável. Cláudia e Tatiana o encontraram em uma tarde de quarta-feira no estacionamento de um supermercado perto do porto. Após três dias de tentativas de contato, das quais ele fugiu duas vezes antes de finalmente responder com um endereço e um horário.
Eles passaram 40 minutos no carro de Tatiana, com o ar condicionado ligado e o gravador desligado, pois Leandro deixara isso bem claro antes de se sentar: sem gravação, sem nomes, nada que pudesse ser rastreado até ele. Tatiana concordou, Cláudia concordou e Leandro falou. Na tarde do dia 7 de janeiro, durante a tempestade, Leandro estava no sistema de registos quando recebeu um telefonema interno de um superior.
A ligação foi curta e o conteúdo simples. Qualquer movimento de embarcação registrado na área entre o píer central de Balneário Camboriú e o limite norte do município de Navegantes durante a tarde deveria ser marcado com um código específico que ele nunca havia usado antes. Quando ele perguntou o que o código significava, seu superior disse que era um procedimento de protocolo de emergência e que ele não precisava saber mais nada.
Leandro havia marcado três entradas com aquele código naquela tarde. Uma delas correspondia a uma embarcação de porte médio sem identificação completa no sistema, a qual havia sido inserida manualmente por alguém com acesso administrativo superior ao dele, em um lançamento que aparecia no histórico sem o nome do operador vinculado.
Foi uma anomalia técnica que ele havia notado, armazenado mentalmente e não relatado a ninguém. Ao chegar em casa naquela noite e ver as primeiras notícias nas redes sociais sobre o naufrágio do Estrela do Sul, seu estômago embrulhou. Ele não dormiu, não jantou, e ficou acordado tentando relacionar o que havia feito com o que estava lendo e tentando encontrar uma explicação que não o fizesse sentir como parte de algo da qual ele não queria fazer parte.
Nos dias seguintes, ele havia procurado o registro daquela embarcação anômala no sistema. O registro havia sido removido; não havia rastro técnico visível no nível de acesso que ele possuía. Alguém com privilégios administrativos o havia deletado. Quando terminou de falar, Leandro encarou o painel do carro em silêncio. Tatiana esperou.
Cláudia esperou. Então ele disse, sem olhar para nenhuma das duas: “Eu tenho uma filha de 3 anos.” “Eu preciso que você entenda o que significa para mim estar aqui,” Cláudia respondeu em uma voz que não tremeu. “Eu sei exatamente o que significa, e é por isso que estou aqui também.” Leandro saiu do carro sem combinar mais nada, atravessou o estacionamento sem olhar para trás e desapareceu por entre os carros.
Tatiana e Cláudia ficaram em silêncio por um longo momento após ele partir. “É o suficiente?” Cláudia perguntou. “É a terceira fonte com elementos de corroboração”, respondeu Tatiana. “Não é tudo o que eu queria. Mas é o que temos, e o que temos é real.” Ela publicou a reportagem 12 dias depois, em uma manhã de terça-feira, na plataforma digital de São Paulo com a qual ela colaborava.
O texto tinha 14.000 palavras, dividia-se em quatro partes e não afirmava nada que não pudesse ser sustentado pelo que as fontes disseram ou pelos documentos que a jornalista conseguiu verificar. O texto documentava, com precisão cirúrgica, a sequência das omissões, a rapidez irregular da classificação do caso, o padrão de incidentes semelhantes na mesma zona costeira e os relatos convergentes sobre a presença de uma embarcação não identificada na zona à hora do naufrágio.
Os nomes de Rodrigo Mendes e de Ana Luísa Mendes apareciam logo no primeiro parágrafo e em muitos outros ao longo do texto, não como números, mas como pessoas. A repercussão foi imediata e crescente. Nas primeiras 24 horas, a reportagem acumulou mais de 40.000 partilhas.
Portais de notícias de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília reproduziram excertos com ligações para o texto original. Apresentadores de noticiários televisivos falaram do caso. Dois parlamentares de Santa Catarina divulgaram declarações a pedir explicações às autoridades marítimas. Uma organização de defesa dos direitos humanos de Brasília emitiu uma declaração de solidariedade para com a família e exigiu transparência nas investigações.
O Brasil acordou para o caso do Rodrigo e da Ana Luísa Mendes, mas o barulho lá fora teve o efeito colateral de tornar o silêncio oficial ainda mais audível. A Capitania dos Portos de Itajaí emitiu uma nota de dois parágrafos, em que reiterava a classificação de acidente meteorológico e informava que as buscas se encontravam concluídas após se esgotarem os protocolos estabelecidos.
A nota não fazia qualquer referência à reportagem, nem aos relatos das testemunhas, nem ao código de registo, nem tão pouco à embarcação anómala. No dia seguinte à publicação, a Tatiana recebeu um telefonema de um número desconhecido, de uma voz masculina calma, a dizer apenas que ela tinha construído uma narrativa interessante com fontes anónimas, e que esperava que ela compreendesse as implicações de divulgar afirmações não verificáveis sobre operações delicadas.
A chamada demorou 48 segundos. 40. Tatiana gravou os últimos 30 segundos e enviou o áudio a dois colegas de confiança com a seguinte mensagem: “Se me acontecer alguma coisa, isto existe.” Leandro Tavares não foi trabalhar nos três dias seguintes à publicação e pediu baixa médica. A sua namorada encontrou a Cláudia no corredor do hotel no quinto dia e disse-lhe, em voz baixa e com cara fechada, que precisava de manter o nome do Leandro fora disto tudo.
Cláudia garantiu que o seu nome nunca tinha sido referido. A rapariga acenou com a cabeça, saiu e nunca mais falou com ela. O Felipe seguiu as repercussões da reportagem do apartamento com o computador portátil aberto e o telemóvel sempre na mão, respondendo a mensagens de pessoas que tinham partilhado o caso e que queriam saber como podiam ajudar.
Entre as mensagens encontrava-se a de um advogado especializado em direito marítimo e em desaparecimentos forçados, sedeado em Curitiba, que leu a reportagem e que se mostrou disposto a conversar com a família sem qualquer compromisso inicial. Ele mostrou-a à mãe. A Cláudia leu o nome, leu a mensagem duas vezes e disse algo que o Felipe anotou mais tarde, porque precisava de o guardar algures.
“O teu pai merecia um filho como tu, e a Ana Luísa merecia um irmão como tu.” De seguida, ele pegou no telefone e respondeu ao advogado. O advogado chamava-se Maurício Leal, tinha 51 anos, cabelos prematuramente brancos e uma voz compassada, a voz de quem já percebeu que falar devagar é uma forma de ser ouvido com mais atenção.
Ele construiu a sua carreira em Curitiba, defendendo casos que outros escritórios recusavam devido a conveniências políticas ou à falta de perspetivas financeiras. Ele não era rico, mas era respeitado, o que, no meio jurídico, vale por vezes muito mais. Ele encontrou-se com Cláudia e Felipe numa pequena sala de reuniões no centro de Curitiba numa manhã de março, três semanas depois de a reportagem da Tatiana ser publicada. Cláudia tinha voltado à cidade alguns dias antes, não porque tivesse concordado em sair de Balneário Camboriú, mas porque o Maurício tinha explicado pelo telefone que parte do trabalho tinha de ser feita a partir de lá.
A reunião durou quase quatro horas. O Maurício tinha lido a reportagem na íntegra, investigado o historial de casos idênticos na costa sul do Brasil e chegado com um mapa que estendeu em cima da mesa. Não se tratava de um mapa geográfico, mas de um mapa de possibilidades jurídicas.
O caminho mais direto passava pela interposição de uma ação civil pública no Ministério Público Federal, em que se solicitava a abertura de um inquérito para averiguar a classificação do caso e a eventual omissão de auxílio. Não se tratava da via mais rápida, nem a que apresentava maior probabilidade de obter resultados imediatos.
Foi o caminho que permitiu reunir documentação. “E a documentação!” explicou o Maurício, com a paciência de quem já o disse muitas vezes, “foi o que permitiu o recurso para as instâncias superiores quando as inferiores falharam.” A via paralela era internacional. Existiam organizações de defesa dos direitos humanos que podiam acionar os mecanismos da OEA (Organização dos Estados Americanos), intervindo nos casos em que o Estado brasileiro demonstrava um padrão de omissão investigativa.
Era um processo demorado, de anos e não de meses. “Mas a lentidão”, disse Maurício, “é às vezes a única pressão que não pode ser ignorada”. Cláudia ouviu tudo, fez perguntas precisas e assinou os documentos que Maurício preparou naquela mesma tarde. Na semana seguinte, a ação foi protocolada. A resposta do Ministério Público Federal chegou em 40 dias.
A solicitação de abertura de inquérito havia sido recebida e encaminhada para análise; a linguagem era a linguagem burocrática que não confirma nem nega a existência no intervalo entre o movimento e a inércia. Maurício esperava exatamente isso. Ele disse a Cláudia que era um passo, não uma vitória, e que a diferença entre os dois precisava ser compreendida para que ela não se perdesse no caminho.
Cláudia tinha entendido. Ela havia aprendido nesses meses a diferença entre os dois com uma precisão que nenhuma escola ensina. Tatiana continuou a publicar. Uma segunda reportagem, seis semanas após a primeira, aprofundou o mapeamento de rotas marítimas irregulares no litoral sul e trouxe… O depoimento anônimo de um ex-funcionário do porto corroborou, em termos gerais, a existência de registros manipulados em situações envolvendo embarcações não identificadas.
Não mencionou Leandro, nem nenhum nome que pudesse ser rastreado até alguém vulnerável. A segunda reportagem foi compartilhada mais de 60.000 vezes. Um senador do Paraná apresentou um pedido de informações às autoridades marítimas sobre protocolos de classificação de acidentes na região sul. A resposta oficial foi técnica, detalhada em aspectos irrelevantes e vaga nos aspectos que importavam.
O senador apresentou um segundo requerimento. O processo se movia na velocidade em que processos desse tipo se movem no Brasil. Não parado, mas nunca tão rápido quanto a urgência exigia. Em maio de 2026, quatro meses após o desaparecimento, Cláudia estava em Curitiba. Ela havia voltado para casa porque Felipe havia insistido e porque Maurício havia explicado que a luta que viria pela frente seria travada em escritórios e tribunais, não nas praias de Balneário Camboriú.
A casa estava igual à época em que viajaram, em janeiro. O casaco de Ana Luísa pendurado no gancho da entrada. A caneca preferida de Rodrigo no escorredor da pia. O caderno azul da filha, uma cópia idêntica àquele que havia ido para o mar na mesinha do quarto, aberto em uma página em branco que Ana Luísa havia reservado para quando voltasse.
Cláudia não havia mexido em nada. Ela havia, no entanto, feito algo novo. Havia criado um site simples, com a ajuda de Felipe, onde documentava o caso em ordem cronológica. Cada fato verificado, cada omissão registrada, cada passo da batalha legal, sem sensacionalismo, sem adjetivos desnecessários, apenas os fatos organizados com a mesma caligrafia cuidadosa com a qual havia preenchido o caderno desde a madrugada de 8 de janeiro.
O site recebeu visitas de todo o Brasil, mensagens de famílias com histórias semelhantes noutros estados e mensagens de pessoas que não tinham nenhuma história semelhante, mas que o leram e sentiram que não podiam simplesmente seguir em frente, como se não soubessem. Uma dessas mensagens foi de uma mulher em Fortaleza, cujo irmão tinha desaparecido num barco ao largo da costa do Ceará dois anos antes, um caso classificado como um acidente. “Uma investigação foi encerrada.”
A outra mensagem dizia respeito a um pai em Belém, com uma história que começava de modo diferente e terminava no mesmo silêncio. A Cláudia respondeu a todos eles. O Rodrigo Mendes e a Ana Luísa Mendes continuavam desaparecidos em maio de 2026. Os corpos nunca foram encontrados. O caso continua a ser classificado como um acidente meteorológico nos registos oficiais.
O inquérito solicitado ao Ministério Público Federal continuava a aguardar a decisão da sua tramitação. As buscas oficiais tinham terminado há várias semanas, mas havia agora algumas coisas que não existiam em janeiro. O processo judicial estava em curso e os documentos começavam a acumular-se. Existiam dois relatórios de investigação que não podiam ser removidos da internet.
Havia um senador com requerimentos apresentados. Havia organizações internacionais com o caso nos seus registos. Havia a Tatiana, que não parava de investigar. Havia o Maurício, que não parava de apresentar processos. Havia a Mariana, que permanecia em Balneário Camboriú, a ser os olhos da Cláudia no local onde tudo tinha acontecido.
Havia o Benedito, que falara quando podia ter ficado calado. E havia o Felipe, que num domingo de maio, entrou no quarto da irmã, sentou-se na beira da cama, pegou cuidadosamente no caderno azul e ficou a olhar para a página em branco que Ana Luísa havia reservado para o seu regresso. Muito tempo depois, pegou numa caneta e escreveu apenas a data, não porque tivesse algo a dizer, mas porque alguém precisava de continuar a marcar o tempo até que a história tivesse um final que a família pudesse realmente compreender.
Lá fora, em Balneário Camboriú, o mar permanecia o mesmo: indiferente à superfície e pleno por baixo de tudo aquilo que ainda não devolvera. Mas os mares não guardam segredos para sempre. O tempo, a única coisa que nenhuma autoridade consegue arquivar, acaba sempre por ser mais longo do que qualquer silêncio.