Olá, seja muito bem-vindo. Hoje vou partilhar consigo uma história que remonta a 1856, no Vale do Paraíba, região das imponentes fazendas de café do Brasil Imperial. É a história de Joaquim Ferreira, um feitor com a reputação de ser o homem mais inclemente que alguma vez labutou naquelas terras.
Liderou com mão de ferro e tratou com extrema severidade centenas de escravos ao longo de anos a fio. Contudo, o que ele ignorava é que um desses homens que ele mais menosprezava e subjugava escondia um segredo capaz de alterar tudo, um segredo de consanguinidade que apenas seria revelado quando já não houvesse volta a dar. Trata-se de um relato de iniquidade, de suplício e de uma revelação demolidora que o deixará estupefacto.
Acompanhe-me até ao desfecho, pois a descoberta que se avizinha é inacreditável. As alvoradas na Fazenda Santa Helena eram, invariavelmente, madrugadoras. Joaquim Ferreira, um homem de estatura imponente, ombros largos e um olhar gélido, deambulava por entre as fileiras de trabalhadores escravizados com o porte de quem nascera para governar pelo terror.
Aos 35 anos, erguia-se já como uma figura temível em todo o Vale do Paraíba. Os restantes feitores rendiam-lhe vassalagem. Os escravos tremiam ao mero som das suas botas a calcarem a terra batida. Joaquim não possuía família conhecida. Os rumores ditavam que chegara à região ainda na flor da juventude, oriundo do litoral paulista, trazendo na bagagem apenas um apelido e a fama de homem impiedoso.
O Coronel Augusto Mendes da Silva, dono da Fazenda Santa Helena, contratara-o precisamente por esses atributos. Necessitava de alguém desprovido de complacência, capaz de impulsionar os índices de produção de café, independentemente do sacrifício humano exigido. E Joaquim desempenhava a sua função com um zelo arrepiante.
Ele não encarava aquelas pessoas como seres humanos. Na sua ótica, eram meros instrumentos de trabalho que careciam de operar na plenitude das suas capacidades. Não havia margem para a fraqueza, para a doença, para a exaustão. Quem soçobrasse seria alvo de substituição ou de um castigo severo. A regra era assim tão simples. De entre todos os escravos da fazenda, havia um que Joaquim parecia abominar com particular veemência.
Dava pelo nome de Miguel, um homem na casa dos 40 anos, cujo corpo ostentava as marcas de anos de labuta forçada, os olhos encovados já sem brilho, mas que conservava uma dignidade calada que enervava solenemente o feitor. Miguel nunca vergava por completo a cabeça, nunca suplicava, limitava-se a suportar num silêncio que se afigurava mais retumbante que qualquer vocábulo.
Miguel chegara à Fazenda Santa Helena há sensivelmente 15 anos, proveniente de uma fazenda em bancarrota no interior de Minas Gerais. Mourejava de sol a sol nas plantações de café, a transportar sacas pesadas que lhe vergavam o dorso. Pernoiteava na senzala mais recôndita, na companhia de mais 30 homens, num espaço exíguo onde a existência se pautava pela dureza e pela ausência de horizontes.
O que todos desconheciam é que Miguel era portador de uma história. Uma história cujos primórdios antecediam a sua chegada àquela fazenda, antecediam aquele calvário. Uma história que envolvia uma mulher de nome Benedita, uma escrava doméstica que servia na casa-grande de uma fazenda no litoral paulista, décadas antes.
Benedita era ainda jovem quando foi alvo de abusos por parte de António Ferreira, filho do proprietário da fazenda onde laborava. António era um homem casado, com prestígio na sociedade local, facto que não o inibiu de coagir Benedita a deitar-se com ele vezes sem conta. Ela não tinha alternativa, pertencia-lhe, à semelhança de tudo o resto naquela propriedade.
Fruto dessa violência, nasceram dois rapazes com parca diferença de idades. O primogénito foi Miguel, que viu a luz do dia em 1816. Seguiu-se Joaquim, nascido em 1821. António nunca perfilhou nenhum dos filhos. Quando a sua esposa tomou conhecimento da existência das crianças, exigiu a venda imediata de Benedita.
Ela foi apartada dos seus filhos quando Joaquim contava apenas 3 anos de idade e Miguel, 7. Os rapazes foram criados na mesma fazenda, mas sob contingências distintas. Joaquim, por ostentar uma tez mais clara e feições que remetiam para o progenitor, acabou por ser poupado às lides mais rudes durante a infância. Acabaria por acontecer que um dos feitores da fazenda, apiedando-se do rapaz, o levasse consigo aquando da sua saída, atribuindo-lhe o apelido Ferreira e concedendo-lhe a perspetiva de uma vida diferente.
Miguel não gozou da mesma fortuna. Foi encaminhado para o labor no campo mal as suas forças lhe permitiram empunhar uma enxada. Aos 10 anos de idade, já tinha sido confrontado com a agrura do trabalho coercivo. Ao atingir os 15 anos, já tinha sido alvo de três transações comerciais. A sua existência traduzia-se num encadeamento de fazendas, de senhores impiedosos, de labor extenuante e de ilusões desfeitas.
Ao longo de todos esses anos, Miguel guardou consigo uma única relíquia da sua mãe, uma modesta medalha de Nossa Senhora Aparecida que Benedita lhe cingira ao pescoço no momento da separação. Tratava-se do único elo que o ligava a um pretérito onde possuíra uma progenitora, um irmão, um nome que transcendia a condição de escravo.
Retornando a 1856, a lide na Fazenda Santa Helena mantinha-se inexorável. Joaquim punha-se a pé antes da alvorada e encontrava-se já nos cafezais quando os escravos encetavam a faina. Percorria as fileiras a cavalo, escrutinando cada gesto, cada interrupção, cada indício de fadiga.
E, perante o menor desvio que lhe desagradasse, o castigo era sumário. Num dia de junho do referido ano, anormalmente frio para a região, Miguel encontrava-se a laborar numa das encostas mais escarpadas da propriedade. Transportava sacas de café recém-colhido, calcorreando o declive irregular de forma incessante. Os joelhos torturavam-no, as costas pareciam arder, mas ele prosseguia, sempre a prosseguir.
Joaquim espreitava-o à distância, montado no seu corcel. Algo em Miguel suscitava-lhe um profundo incómodo, muito embora não lograsse identificar o motivo com precisão. Seria, porventura, aquele olhar furtivo, aquela obstinação silente, aquela recusa em subjugar-se na íntegra.
“Ó, tu aí, Miguel!” bradou Joaquim, incitando o cavalo na sua direção. “A laborar com lentidão no dia de hoje? A velhice já não te consente seres prestável?”
Miguel interrompeu a lide, pousou a saca no chão e aprumou-se a muito custo. O seu olhar cruzou-se com o de Joaquim por uma fração de segundo. Não havia réstia de desafio naquele olhar, nem tampouco submissão plena. Era tão-somente exaustão.
Uma exaustão abissal resultante de 40 anos de agruras.
“Dá-me resposta quando te dirijo a palavra!” Joaquim apeou-se do cavalo com celeridade, com a voz a transbordar de autoridade.
“Encontro-me a laborar, senhor feitor,” proferiu Miguel em tom sereno, mas assertivo.
“A laborar? A isso dás o nome de laborar?” Joaquim avançou um passo. “Estás a engonhar. Tomas-me por invisuamente cego?”
O corretivo surgiu rápido e impiedoso, como era apanágio. Miguel cerrou os dentes, abstendo-se de soltar qualquer queixume; nunca o fazia. E isso encolerizava Joaquim sobremaneira. Uma vez consumado o ato, Miguel limitou-se a retomar a saca de café e a prosseguir o labor como se nada tivesse ocorrido. Naquela noite, na senzala, um escravo de idade mais provecta de nome Tomás auxiliou Miguel nos curativos.
Tomás figurava entre os poucos que ousavam meter conversa com Miguel, que, por norma, optava pelo mutismo.
“Vai chegar o dia em que esse indivíduo vai ditar a tua ruína, Miguel,” expressou Tomás, apreensivo. “Qual o motivo da tua recusa em te curvar? Qual o motivo de não suplicar? Seria menos penoso.”
Miguel remeteu-se ao silêncio por largos momentos, de olhos fitos no teto degradado da senzala.
Por fim, declarou: “Porque ainda preservo algo que ele não me consegue usurpar. Ainda conservo a minha essência. Ainda tenho consciência de quem sou.”
“E quem és tu?” indagou Tomás.
“Sou descendente de Benedita. Sou irmão de alguém com quem nunca privei de perto, mas de quem retenho memória. Sou muito mais do que ele concebe que eu seja.”
Os meses foram-se escoando e a aspereza de Joaquim recrudescia a olhos vistos. Tornava-se cada vez mais obcecado pela ideia de vergar Miguel, de forçar aquele homem a gritar, a implorar, a humilhar-se. Mas Miguel opunha resistência. O seu corpo estava decrépito, mas o seu espírito permanecia inabalável, de uma forma que Joaquim não lograva decifrar. Em setembro de 1856, a Fazenda Santa Helena acolheu a visita de um sacerdote itinerante, o Padre António José, que calcorreava as fazendas da circunscrição para administrar os sacramentos aos cativos. O Coronel Augusto, com o fito de salvaguardar as aparências de um cristão devoto, anuiu que o padre oficiasse uma missa na propriedade e trocasse umas palavras com os escravos. Foi no decurso de um desses diálogos que um evento singular teve lugar. O Padre António José, ao deparar-se com Miguel, quedou-se estupefacto. Lançou-lhe um olhar de espanto e, de seguida, extraiu dos bolsos da sua batina um pequeno bloco de notas gasto pelo passar dos anos.
“Miguel,” inquiriu o padre com a voz a vacilar, “tu és filho de Benedita?”
Miguel, tomado de surpresa por ouvir o nome da sua progenitora decorridos tantos anos, limitou-se a acenar afirmativamente com a cabeça, com a voz embargada. O padre irrompeu em pranto.
“Meu filho, eu conheci a tua mãe. Administrei-lhe o sacramento da confissão em inúmeras ocasiões antes do seu passamento, há uma década, numa fazenda no interior de São Paulo.”
“Ela exigiu de mim a promessa de que, na eventualidade de cruzar o meu caminho com o dos seus filhos, lhes revelaria a verdade.”
“A verdade?” questionou Miguel, sentindo o coração palpitar descompassado pela primeira vez em largos anos.
“Tu tiveste um irmão, um irmão de sangue. Dava pelo nome de Joaquim. Ambos sois fruto do mesmo progenitor, António Ferreira, um latifundiário do litoral.”
“A tua mãe nunca vos varreu da memória. Até exalar o seu último suspiro, suplicou a Deus que um dia vos pudésseis reencontrar e reconhecer-vos mutuamente como irmãos.”
Miguel sentiu o mundo a rodopiar em seu redor. Joaquim, o feitor, o seu carrasco, o seu flagelo, era o seu irmão. O seu próprio sangue fora o responsável por o subjugar a tamanho calvário durante todos aqueles anos.
“O senhor tem absoluta certeza?” indagou Miguel, com a voz reduzida a um murmúrio.
“Total certeza. A tua mãe forneceu-me indicações precisas. Confiou-me que deixou uma medalha de Nossa Senhora Aparecida aos teus cuidados e uma pequena cruz de madeira aos cuidados de Joaquim. Obrigou-me a registar tudo nestas páginas. Ambicionava que tomassem conhecimento da vossa irmandade, que partilhavam o mesmo sangue, a mesma mãe que vos amou até ao derradeiro instante.”
Nessa noite, Miguel não logrou pregar olho. Acariciou a medalha entre as suas mãos trémulas, a meditar em tudo aquilo: nos anos de padecimentos, na dor avassaladora, na humilhação constante. E tudo fora obra do seu próprio irmão. Um irmão cuja existência ignorava, um irmão que fora criado em terras longínquas, que beneficiara de oportunidades díspares, que se transformara na encarnação de tudo o que Miguel mais repudiava na face da Terra.
Miguel passou dias a fio a ponderar no que faria com aquela revelação. Devia partilhá-la com Joaquim? Devia reter o segredo na sua posse? Que implicações tal acarretaria? Joaquim manter-se-ia o mesmo indivíduo despótico. A descoberta não restituiria os anos voláteis, não cicatrizaria as feridas infligidas no seu corpo e na sua alma. Contudo, algo no âmago de Miguel clamava que a verdade emergisse, não por espírito de vingança, não por rancor, mas pelo simples facto de que essa fora a última vontade da sua mãe.
Benedita exalara o seu último suspiro ansiando que os filhos tomassem conhecimento da sua consanguinidade. E Miguel honraria esse desejo, independentemente das consequências. Numa tarde de outubro, aquando da ronda rotineira de Joaquim pelas plantações de café, Miguel encaminhou-se na sua direção. Tratava-se de um ato temerário. Aos escravos não era consentida a abordagem ao feitor.
Porém, a Miguel já nada o demovia. Contava 40 anos, encontrava-se esgotado e urgia proferir aquelas palavras antes que a inexorabilidade do tempo o impedisse.
“Senhor feitor,” interpelou Miguel, com uma voz firme, mas pautada pelo respeito. “Urge comunicar-lhe algo de suma importância.”
Joaquim refreou a marcha do cavalo e fitou Miguel com desdém.
“Tens o desplante de me abordar desta forma? Quem julgas tu ser?”
“Sou seu irmão,” atirou Miguel, com as palavras a desprenderem-se como um suspiro libertador.
Joaquim estacou, incrédulo.
“O que proferiste? Perdeste o juízo? Como te atreves?”
“Somos frutos da mesma mãe, Benedita, e do mesmo progenitor, António Ferreira. O Padre António José inteirou-me de todos os factos. A nossa mãe confiou-lhe a missão de nos procurar e de nos desvelar a verdade antes do seu passamento.”
Joaquim apeou-se lentamente, enquanto o seu semblante transitava por um carrossel de emoções: choque, ira, perplexidade.
“Estás a faltar à verdade. Tal não é concebível.”
“A nossa mãe legou-me uma medalha de Nossa Senhora e entregou-te uma cruz de madeira. O padre possui registo de tudo. Ele é testemunha.”
As mãos de Joaquim iniciaram um tremor involuntário. Assaltou-lhe a memória da pequena cruz de madeira que guardava desde a sua meninice. Um dos parcos pertences que o acompanharam quando foi retirado da fazenda onde vira a luz do dia. Nunca soubera a proveniência daquela cruz, apenas que sempre a tivera em sua posse.
“Não, não é possível,” murmurou Joaquim, recuando alguns passos. “Eu… eu impingi-te tormentos durante todo este tempo.”
A revelação abateu-se sobre Joaquim com o peso de uma montanha. Todos os anos de atrocidade, todos os castigos, toda a aflição que ele propiciara… e fora sobre o seu próprio irmão, o seu próprio sangue, o único elo familiar que detinha neste mundo.
E havia-o submetido a torturas sem o saber. Joaquim tombou de joelhos, ali mesmo, em pleno cafezal, um cenário que ninguém imaginaria alguma vez presenciar. As lágrimas jorravam-lhe dos olhos.
“Meu Deus, que monstruosidade cometi? O que fiz?”
Miguel contemplou o homem destroçado que se encontrava a seus pés e não experimentou qualquer regozijo. Não sentiu o deleite da vingança.
Sentiu, tão-somente, uma dor lancinante por dois irmãos a quem lhes fora coartada a possibilidade de o serem. Por uma mãe que falecera de coração desfeito. Por vidas estraçalhadas pela crueldade do sistema escravocrata, que dilacerava famílias e convertia seres humanos em bens transacionáveis.
“Não me desloquei aqui para te infligir dor,” esclareceu Miguel num tom apaziguador. “Vim porque era o último desejo da nossa mãe que tomássemos conhecimento da verdade. Ela votou-nos um amor incondicional, mesmo quando fomos apartados do seu seio. E pereceu com preces por nós.”
Joaquim ergueu o olhar para Miguel e, pela primeira vez, não vislumbrou um escravo, mas um semelhante, o seu irmão, alguém com quem partilhava o mesmo sangue, a mesma progenitora, a mesma perda inestimável.
Naquela noite, Joaquim foi ao encontro do Padre António José, que ainda se encontrava na redondeza. O clérigo atestou a veracidade dos factos, exibiu os apontamentos pormenorizados que Benedita lhe confidenciara, relatou os seus últimos dias de vida, a forma como evocava os filhos que fora constrangida a abandonar, como suplicava a Deus que, um dia, os seus caminhos se cruzassem.
A mutação de Joaquim foi célere e profunda. No dia imediato, dirigiu-se ao Coronel Augusto e apresentou a sua demissão. Afirmou não reunir as condições para continuar a exercer o cargo de feitor. O Coronel encolerizou-se, mas Joaquim já não dava a menor importância. Tinham pautado a sua vida pela crueldade e pela sede de poder, mas constatara que tudo aquilo era destituído de significado.
Antes de abandonar a Fazenda Santa Helena, Joaquim deslocou-se à senzala onde Miguel repousava. Os demais escravos não esconderam o espanto ao depararem-se com o temível feitor naquelas paragens, de postura submissa e com lágrimas a assomarem-lhe aos olhos.
“Miguel,” principiou Joaquim com a voz embargada, “tenho a plena consciência de que não posso retroceder no tempo e apagar os meus atos. Sei que qualquer pedido de perdão que possa formular soará sempre a pouco.”
“Mas é imperativo que saibas que, se estivesse ao meu alcance fazer o tempo voltar atrás, se eu tivesse conhecimento…”
Miguel observou o irmão e deparou-se com um indivíduo consumido pelo remorso.
“A nossa mãe conceder-te-ia o seu perdão,” retorquiu ele com brandura. “Ela era detentora de um coração generoso, capaz de perdoar até mesmo aos seus ofensores. Irei encetar o esforço para seguir o seu exemplo, não por ti, mas por ela, por Benedita.”
Joaquim abandonou a Fazenda Santa Helena ainda no decorrer daquela semana. Os ecos que nos chegaram dão conta de que seguiu rumo ao Rio de Janeiro e delapidou todas as suas poupanças na tentativa de adquirir a alforria de Miguel, mas o Coronel Augusto rejeitou liminarmente qualquer proposta. Miguel figurava entre os seus trabalhadores com maior capacidade de resistência e o Coronel não abdicava dele por quantia alguma.
Joaquim atirou-se então ao trabalho de forma desmedida, amealhando cada pataco, aceitando qualquer ofício, tudo com um propósito singular: reunir o montante exigido para a libertação do seu irmão. Descurou a alimentação, abrigava-se em aposentos modestos, levou uma vida de pedinte para poupar até ao último tostão. Decorreram dois anos.
Em 1858, Joaquim dispunha, finalmente, da verba que o Coronel Augusto reclamara. Retornou ao Vale do Paraíba com uma aparência macilenta, prematuramente envelhecida, mas imbuído de uma determinação inquebrantável. Bateu à porta da casa-grande da Fazenda Santa Helena empunhando um saco pejado de moedas. O Coronel, atónito perante a tenacidade daquele indivíduo, acabou por capitular.
“Esse escravo deve ser detentor de um grande significado para ti,” constatou enquanto contabilizava as moedas.
“Ele é o meu irmão,” ripostou Joaquim de forma lapidar. “É a única réstia de família que me sobra.”
Quando Miguel foi confrontado com a notícia da sua libertação, o seu espanto foi total. Os seus 42 anos de cativeiro chegavam ao fim.
Atravessou, de forma derradeira, os portões da fazenda, com as vestes que trazia no corpo e a medalha de Nossa Senhora que a mãe lhe deixara de herança. Joaquim aguardava-o no exterior com a companhia de duas montadas. Os irmãos perderam-se no olhar um do outro durante um lapso de tempo assinalável. Um historial de flagelo, de pesar, de desapossamento… mas também, finalmente, a perspetiva de um novo começo.
“Qual será o nosso destino?” interpelou Miguel.
“Desconheço a resposta,” confessou Joaquim, “mas prosseguiremos lado a lado, unidos pelos laços de sangue, tal como a nossa mãe teria ambicionado.”
Ambos cavalgaram pela estrada poeirenta, deixando a Fazenda Santa Helena no seu encalço e, com ela, todo o rol de horrores que aquele local encarnava.
Jamais lhes seria possível recuperar os anos dissipados, jamais conseguiriam apagar as cicatrizes, físicas e emocionais, que traziam cravadas, mas o que importava é que se tinham um ao outro e detinham a lembrança de Benedita, uma mulher que, a despeito do jugo da escravidão e das amarguras que enfrentou, nunca cessou de prodigalizar amor aos filhos. Os ecos que resistiram ao tempo referem que os dois irmãos se fixaram numa pacata localidade no interior de Minas Gerais, onde Joaquim exerceu o ofício de carpinteiro e Miguel, finalmente dono do seu destino, se dedicou ao cultivo da sua própria horta.
Partilharam os mesmos aposentos até ao final das suas vidas, abordando raras vezes o pretérito, mas erigindo sempre um preito à memória da progenitora, a força motriz que os congregou, inclusive após a sua morte. E o caro leitor, qual o seu veredicto sobre este relato?
É-me imperativo salvaguardar que a narrativa que acabei de lhe dar a conhecer possui uma natureza ficcional, com propósitos de pendor educativo e que suscite a reflexão em termos históricos.
Apesar da sua matriz imaginária, cenários em tudo semelhantes a este – famílias estraçalhadas, irmãos alheados da sua própria existência e o manancial de sofrimento que defluía do sistema esclavagista – configuravam uma realidade quotidiana durante o referido período, no Brasil. O flagelo da escravatura desagregou um número incalculável de lares, separou mães de rebentos e cindiu os elos entre irmãos.
Não eram de somenos importância os casos em que indivíduos unidos por laços de consanguinidade partilhavam a mesma casa, labutavam na mesma fazenda e desciam à cova na ignorância da sua filiação comum. Vivenciou-se um período eivado de dor, em que a condição humana era equiparada à de meros objetos transacionáveis, e em que a dignidade humana era usurpada, dia após dia. A criação desta narrativa teve como propósito fomentar a reflexão sobre o assunto através da lente da ficção e reavivar na nossa memória o facto de que cada indivíduo sujeitado à escravidão era detentor de uma história, de uma família.
Eles tinham também os seus anseios e os seus afetos. Não eram reduzíveis a algarismos ou a simples ferramentas de trabalho. Eram indivíduos agraciados com mães que lhes devotavam amor, irmãos que foram amputados do seu convívio e vidas que lhes foram extirpadas. O que lhe apraz opinar a respeito deste relato?
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Agradeço-lhe de forma penhorada por me ter feito companhia até ao fim da visualização deste relato deveras emotivo e carregado de pesar. Aceite um fraterno abraço e espero contar com a sua presença no vídeo que se seguirá.