Era dia de leilão especial na praça, quando o Coronel João Ferreira teve conhecimento de que chegaria uma carga rara proveniente de Portugal. Escravos oriundos diretamente da Europa, treinados e com modos refinados. Ele precisava de novas trabalhadoras para a casa; as que tinha estavam velhas e cansadas. Deslocou-se até à cidade para averiguar.
Quando o lote 15 foi apresentado no palanque, toda a multidão susteve a respiração. Eram duas mulheres idênticas, absolutamente idênticas. Gémeas. Apresentavam uma tez negra escura, traços africanos de grande beleza, corpos bem delineados e lenços coloridos na cabeça. Oriundas de Angola, tinham passado por Portugal e agora ali se encontravam.
O coronel fez uma licitação elevada, adquiriu as duas e levou-as para a fazenda, convicto de que seriam apenas boas trabalhadoras. Contudo, no dia seguinte, deparou-se com algo que alteraria todo o panorama, algo inesperado que viria a transformar o homem mais intratável da região.
Esta história, alicerçada em relatos do Brasil Imperial, ilustra a forma como o destino atua por vias misteriosas. Inscreva-se no canal Raízes do Cativeiro e deixe o seu comentário.
Passo a relatar a história integral do Coronel João Ferreira, um homem que detinha um poder absoluto e uma riqueza assinalável na região do Vale do Paraíba. Decorria o mês de junho de 1880 e o coronel acabava de completar o seu cinquentenário. Era um indivíduo alto, de porte imponente, exibindo-se sempre impecavelmente fardado com a sua farda da Guarda Nacional, elegante até nas lides da fazenda. A sua barba grisalha estava sempre bem aparada, mantinha uma postura militar rigorosa e o seu olhar severo forçava qualquer um a desviar a vista. Detinha a fama de ser extremamente rígido, irredutível, um homem avesso a sorrisos e a demonstrações de afeto.
Encontrava-se viúvo há cinco longos anos. A sua esposa, Dona Mariana, fora vitimada pela febre amarela que assolou a região em 1875. A sua morte fora fulminante e implacável; no espaço de uma semana, passou de uma mulher com saúde a defunta. Deixou quatro filhos, já todos adultos e com a vida orientada.
Pedro, com 28 anos, era casado e residia numa fazenda vizinha com a esposa e dois filhos de tenra idade. Miguel, de 26 anos, era um advogado de renome a exercer na capital. Clara, com 24 anos, estava casada com um comerciante abastado da cidade. Por fim, o filho mais novo, Joaquim, de 22 anos, dedicava-se à administração das propriedades da família noutra província.
Desde então, o Coronel João habitava sozinho a casa-grande da extensa fazenda. Embora contasse com dezenas de criados, a casa afigurava-se-lhe perpetuamente despida, imersa em silêncio e num ambiente gélido, privada da presença da família que outrora lhe conferia vida.
A sua fazenda erigia-se como uma das mais extensas e prósperas de toda a região. Dedicava-se à criação de gado, contando com um efetivo de mais de 500 cabeças distribuídas pelas pastagens, e possuía plantações de cana-de-açúcar de grande dimensão e rentabilidade, cuja produção era exportada diretamente para a Europa através do porto do Rio de Janeiro. A sua fortuna era incalculável, sendo um dos homens mais endinheirados e influentes de toda a província.
Naquela específica manhã de junho, um mensageiro trouxe ao coronel uma notícia que lhe despertou o interesse. Iria decorrer na cidade um leilão de cariz especial e invulgar. Tratava-se de um lote raro de escravos provenientes diretamente de Portugal, uma ocorrência pouco frequente. Os escravos que haviam servido na Europa gozavam de um estatuto de superioridade, sendo considerados mais requintados, educados e instruídos no desempenho de tarefas domésticas complexas.
O coronel via-se na urgência de adquirir novas criadas, que se revelassem competentes, para o serviço da casa-grande. As criadas ao seu serviço estavam a envelhecer, revelando sinais de fadiga e perda de agilidade. Dona Rosa, a dedicada governanta de 60 anos, já se lamentava da incapacidade de dar resposta a todas as exigências por si só. Carecia de mão-de-obra jovem, robusta e capaz para a auxiliar.
O coronel tomou a decisão de se deslocar pessoalmente ao leilão, com o fito de selecionar as melhores candidatas. Deixou a fazenda antes do raiar do dia, numa altura em que o céu se apresentava ainda pintado de tons cinzentos. Encetou uma cavalgada de quatro longas horas até à cidade de Vassouras, chegando quando o sol já se erguia sobranceiro e escaldante no firmamento.
A praça principal fervilhava de gente. O leilão de caráter excecional atraíra fazendeiros abastados de toda a zona, todos eles movidos pela intenção de adquirir os escravos provenientes de Portugal. O coronel posicionou-se de pé, nas imediações do palanque de madeira, lançando um olhar crítico e conhecedor.
A venda de uns quinze lotes de naturezas diversas já se havia consumado. Tratava-se de homens com compleição para o trabalho agrícola, mulheres destinadas ao labor na cozinha e alguns jovens a carecer de instrução. Subitamente, o pregoeiro proferiu um anúncio que cativou a atenção geral.
“Atenção, senhores e senhoras, o próximo lote reveste-se de um caráter muito especial, uma raridade sem igual, o lote número quinze.”
Duas mulheres subiram em simultâneo ao palanque de madeira, provocando um silêncio pautado pelo espanto e consternação na multidão, composta por centenas de pessoas. Tratava-se de mulheres idênticas, dotadas de uma semelhança absoluta, completa e perfeita em todos os aspetos visíveis. Eram gémeas autênticas.
Partilhavam a mesma estatura, com cerca de 1,65 metros. Apresentavam os mesmos corpos de proporções harmoniosas e atrativas, exibindo curvas femininas bem marcadas. A sua tez era de um negro intenso que refulgia à luz do sol. Exibiam os mesmos traços fisionómicos vincados: olhos castanhos de grande dimensão e expressividade, um nariz de desenho irrepreensível, lábios carnudos e bem delineados, maçãs do rosto proeminentes e de feição aristocrática. O seu cabelo crespo e de grande volume encontrava-se cuidadosamente acomodado em lenços coloridos de tecido africano.
O único pormenor visual ínfimo que consentia a sua distinção consistia no facto de uma envergar um lenço de um vermelho intenso, adornado com padrões geométricos dourados, ao passo que a outra exibia um lenço de um azul profundo, com motivos brancos e delicados. Tirando esse aspeto, os rostos, os corpos, tudo o resto era de uma similitude absoluta.
“Senhores e senhoras,” vociferou o pregoeiro com grande ânimo, “estamos perante gémeas legítimas, com proveniência direta de Angola. Prestaram serviço durante cinco anos consecutivos numa habitação de uma família nobre e abastada em Lisboa, Portugal. Dominam a arte da confeção de iguarias requintadas, tanto europeias como africanas. Possuem dotes exímios na área da costura e do bordado. Demonstram competência nas tarefas de limpeza e organização, obedecendo a critérios europeus. São portadoras de educação, cultura, obediência e revelam-se trabalhadoras incansáveis. Procedo à venda das duas exclusivamente em conjunto. Não admito a sua separação sob qualquer pretexto.”
O Coronel João escrutinou as mulheres com atenção e minúcia. Tratava-se de jovens com uma aparência a rondar os 23 ou 24 anos, dotadas de uma beleza autêntica, com traços africanos marcantes, mas, em simultâneo, delicados e harmoniosos. Revelavam uma postura imbuída de dignidade, mantendo-se eretas, apesar da circunstância extremamente vilipendiosa de serem transacionadas como meros produtos comerciais. Em suma, o perfil ideal para suprir as necessidades da casa-grande.
“Lote quinze. Qual o primeiro lance generoso que se afigura?”
“Trezentos mil réis,” fez-se ouvir uma voz.
“Quatrocentos mil réis,” avançou outro licitante.
“Quinhentos,” interveio um terceiro interessado.
O coronel ergueu a mão num gesto autoritário. “Oitocentos mil réis.”
As pessoas viraram-se em uníssono na sua direção, sussurrando entre si.
“Novecentos mil réis.” Um fazendeiro com posses entrou na disputa, movido pelo desejo de adquirir as gémeas.
“Um conto de réis,” proferiu o coronel com serenidade, elevando a parada para o dobro.
Seguiu-se um silêncio denso. A quantia de um conto de réis representava uma verdadeira fortuna. Ninguém reuniria o arrojo necessário para cobrir o lance do Coronel João Ferreira.
“Um conto de réis. Uma, duas, três. Adjudicado ao ilustríssimo Coronel João Ferreira.”
O coronel procedeu ao pagamento a pronto ali mesmo, efetuando a contagem de moedas e notas. Recolheu os documentos de posse, devidamente assinados e selados. As duas mulheres foram, de imediato, encaminhadas para a sua carroça de grandes dimensões, que se encontrava a aguardar.
No decurso da longa e exaustiva viagem de retorno à fazenda, um trajeto de quatro horas através de caminhos de terra repletos de buracos, o coronel encabeçava a comitiva, montado no seu cavalo negro. As gémeas seguiam na parte de trás da carroça, acompanhadas de outras provisões que ele havia adquirido na cidade. Ao longo do percurso, deu por si a volver o olhar para trás em diversas ocasiões, a observar as duas que mantinham uma conversa em surdina.
Quando finalmente atingiram a fazenda, ao cair do sol, o coronel desmontou e convocou, de imediato, as duas mulheres ao seu escritório privado. Nutria o desejo de as conhecer, de instituir as regras e de clarificar as suas expectativas.
Elas ingressaram no amplo escritório e permaneceram de pé, em atitude reverente, diante da imponente secretária de madeira nobre. Vistas de perto, no interior da habitação, a similitude entre as duas afigurava-se ainda mais impactante, roçando o limiar do perturbador. A sua igualdade era exata e milimétrica em todos os aspetos de ordem física.
“Indiquem os vossos nomes completos,” ordenou o coronel.
A mulher de lenço vermelho foi a primeira a pronunciar-se, com uma voz branda, mas nítida: “Amara, senhor.”
Seguiu-se a intervenção da mulher de lenço azul: “Aiana, senhor.”
Expressavam-se num português irrepreensível e fluente, pautado por um sotaque leve, exótico e agradável, que resultava de uma mescla de influências angolanas e portuguesas.
“A vossa origem é Angola, estou certo?”
“Sim, senhor,” retorquiu Amara num tom educado. “A nossa terra natal é uma aldeia de pequenas dimensões, mas de grande prosperidade, situada nas imediações da cidade de Luanda, a capital. Fomos alvo de uma captura brutal quando contávamos apenas 15 anos de idade, tendo sido levadas à força para Portugal a bordo de um navio negreiro. Trabalhámos durante cinco anos consecutivos numa residência abastada de grandes dimensões, em Lisboa.”
“Qual a razão da vossa vinda para o Brasil, se se encontravam já estabelecidas em Portugal?”
Aiana respondeu, deixando transparecer uma indisfarçável tristeza. “O senhor português que detinha a nossa posse encontrava-se afogado em dívidas de jogo. Entrou em bancarrota e viu-se na contingência de vender uma parte substancial dos seus escravos com o fito de liquidar as dívidas. Enviaram alguns de nós para o Brasil, uma vez que o mercado aqui pratica valores mais elevados do que em Portugal.”
“Compreendo. São detentoras de conhecimentos reais no que toca ao serviço numa casa-grande, na confeção de pratos diversificados e nas lides de limpeza que respeitem padrões de exigência elevados?”
“Sim, senhor,” afirmaram as duas em simultâneo, num uníssono perfeito. “Adquirimos todas essas competências na requintada casa de Lisboa. Estamos aptas a executar todas as tarefas exigidas numa casa-grande.”
“Muito bem. Assim sendo, as vossas funções cingir-se-ão, em exclusividade, à casa-grande, sob as minhas ordens. Dona Rosa, a governanta, encarregar-se-á de vos instruir relativamente às tarefas específicas, à rotina e às minhas preferências. Exijo um desempenho irrepreensível, na perfeição. Sou um homem de elevado grau de exigência, apegado aos detalhes. Não tolero futilidades, inação, falta de zelo ou o mínimo erro.”
“Sim, senhor, captámos a mensagem com clareza.”
“Podem retirar-se. Dona Rosa aguarda-vos para vos orientar.”
As gémeas foram de imediato encaminhadas por Dona Rosa, uma senhora de baixa estatura, plena de energia e na casa dos sessenta, que chefiava a administração da casa com grande proficiência há mais de duas longas décadas, num período que precedia o casamento do coronel.
“Acompanhem-me, raparigas. Vou dar-vos a conhecer o local de dormida, o vosso posto de trabalho, tudo.”
Conduziu-as para a ala traseira e bem organizada da casa-grande, designando-lhes o quarto de menores dimensões, mais asseado e composto, destinado ao repouso das criadas domésticas. Facultou-lhes vestuário limpo e adequado, informando-as sobre os locais destinados à higiene pessoal e ao armazenamento de provisões.
“O trabalho a sério tem início amanhã, muito cedo. O coronel é um indivíduo de extrema exigência, muito pormenorizado, aprecia a perfeição absoluta e a organização em cada recanto. Não tolera o mais pequeno deslize. Fui clara?”
“Sim, senhora!” anuíram as duas com deferência.
Nessa primeira noite na nova propriedade, recostadas no quarto envolto em escuridão e quietude, as gémeas encetaram um diálogo em surdina, para não perturbarem o sono de terceiros.
“Amara, este local demarca-se bastante de Lisboa,” sussurrou Aiana com apreensão.
“É um facto. O coronel aparenta ser um indivíduo muito mais austero e gélido que o senhor português, de um rigor acrescido. Mas, pelo menos, não fomos alvo de separação, irmã. Tal facto constitui uma bênção grandiosa dos nossos antepassados.”
“É a mais pura das verdades. Comprometemo-nos a laborar com grande empenho, Aiana. Daremos o nosso melhor, de forma a não lhe proporcionar qualquer pretexto para nos punir ou para se arrepender da aquisição.”
“Acordado. Sempre unidas, como tem sido apanágio.”
Na madrugada seguinte, a uma hora muito matutina, Dona Rosa despertou-as, ainda antes da alvorada estar completa e sob um céu envolto em negrume.
“Vamos, raparigas, toca a levantar. Têm à vossa espera um volume de trabalho considerável. O coronel é madrugador e exige o pequeno-almoço pontualmente às 6 horas, sem admitir qualquer atraso.”
Amara e Aiana levantaram-se num ápice, aprontaram-se e encaminharam-se diretamente para a espaçosa cozinha. A divisão revelava-se de grande dimensão, apetrechada com um fogão a lenha, utensílios em cobre e prateleiras imaculadamente arrumadas. Dona Rosa detalhou, de forma paciente, o conjunto de tarefas e as exigências a cumprir.
“As duas ficarão incumbidas da preparação de todas as refeições do coronel: o pequeno-almoço, o almoço, o jantar e, esporadicamente, um lanche a meio da tarde. O coronel privilegia refeições de confeção relativamente simples, mas de execução irrepreensível. Carnes de eleição, arroz bem solto, feijão com o tempero adequado, legumes de frescura garantida. Em certas ocasiões, solicita um doce após a refeição da noite. Detêm conhecimentos na arte da doçaria requintada?”
“Sim, senhora. Em Lisboa, dedicávamo-nos à confeção de tartes de inspiração francesa, bolos de raiz inglesa, uma panóplia de doces de tradição portuguesa, com resultados ótimos, de grande perfeição.”
“As vossas funções englobam, ainda, a limpeza e a arrumação diária da totalidade da casa. Todas as divisões, sejam salas, quartos ou corredores, sem exceção. O coronel padece de viuvez há cinco anos, habitando esta residência de forma totalmente solitária, no entanto, a dimensão da casa é vasta e requer um estado de arrumação e de brilho imaculados.”
As gémeas deram início às suas funções de imediato, com manifesto afinco. Amara encarregou-se da preparação do pequeno-almoço, constituído por pão acabado de sair do forno e ainda a fumegar, manteiga de consistência untuosa, doce de fruta, queijo sujeito a processo de cura e café de aroma intenso e reconfortante. Em simultâneo, Aiana dedicou-se à montagem rigorosa da mesa com um toque de elegância na sala de jantar, dispondo uma toalha asseada e com goma, loiça de porcelana criteriosamente arrumada e talheres em prata polidos.
Quando os relógios marcaram as 6 horas exatas, o coronel desceu a escadaria com pontualidade, ocupando o seu lugar à mesa sem emitir qualquer palavra. Lançou um olhar de escrutínio à refeição disposta, provou o pão de forma pausada e saboreou o café com atenção redobrada. Mantendo-se num silêncio profundo, ingeriu a refeição de forma meticulosa, absorto na leitura do jornal proveniente da capital. Finda a refeição, ergueu-se e rumou de imediato ao seu ofício, não proferindo qualquer tipo de observação relativamente à comida que lhe fora servida.
Amara e Aiana cruzaram olhares na cozinha, imbuídas de nervosismo, após a saída do coronel.
“Terá sido do seu agrado?” inquiriu Aiana, com voz embargada pela preocupação e pela dúvida.
“Não faço a mínima ideia. Não teceu o mais ínfimo comentário, quer de ordem positiva, quer negativa.”
Dona Rosa adentrou a cozinha e tratou de esclarecer a situação: “A ausência de reparos por parte do coronel traduz-se em aprovação, indicando que tudo estava em conformidade. Ele apenas quebra o silêncio quando se depara com algo anómalo e que carece da sua crítica. O seu silêncio consubstancia-se numa aprovação tática. Mantenham o rumo traçado.”
Os dias foram-se escoando a um ritmo brando, mas constante. As gémeas empenhavam-se num labor extenuante, do raiar do dia a horas já tardias, ininterruptamente. Responsabilizavam-se pela confeção de refeições requintadas, procediam a limpezas criteriosas de cada divisão, incumbiam-se da lavagem de roupa e de roupas de cama, e assumiam a tarefa de engomar com mestria, não descurando a organização de cada pormenor. A casa-grande e de vasta dimensão principiou a exalar um brilho e um resplendor de que já não havia memória há um ror de anos, desde tempos anteriores ao falecimento da dona Mariana. O coronel registava todas estas benfeitorias, abstendo-se, porém, de o manifestar verbalmente.
Tratava-se de uma figura de grande reserva, de verbo contido, não obstante denotar uma elevada capacidade de observação. Ficava enfeitiçado com o modo como as duas operavam numa sincronia que raiava a perfeição, como se detivessem o dom da telepatia e perscrutassem os pensamentos uma da outra. A um mero gesto de Amara para empunhar a vassoura, correspondia, no imediato, Aiana com o balde provido de água. Se Aiana dava início a preparativos culinários, já Amara se encontrava a providenciar e a separar os ingredientes imprescindíveis. Dispensavam, em absoluto, a comunicação verbal, antecipando as necessidades mutuamente.
Contemplava-as enquanto cantarolavam de forma suave e melodiosa no decurso das lides diárias. Tratavam-se de canções tradicionais angolanas, de uma beleza inegável, entoadas numa língua de grande complexidade que lhe era inacessível, mas que resultavam numa melodia inexplicavelmente formosa e comovente. Testemunhava, com assiduidade, a forma sempre afável e afetuosa com que se tratavam mutuamente, zelando constantemente pelo bem-estar e segurança uma da outra, sempre como uma dupla indivisível.
Decorrida uma semana desde a sua aquisição no leilão, um episódio de relevo veio encetar uma alteração na dinâmica estabelecida. Era noite, ultrapassadas as 10 horas, e a residência encontrava-se imersa em silêncio e penumbra. O coronel encontrava-se imbuído de concentração no seu gabinete, efetuando uma revisão minuciosa de registos contabilísticos e financeiros referentes à fazenda, quando se apercebeu de um ruído insólito e de timbre metálico com origem na cozinha distante.
Levantou-se da sua cadeira com o fito de apurar a causa do ruído. Deparou-se com Aiana, prostrada no chão, cuja frieza se assemelhava à da pedra, amparando o seu pé direito, e a soluçar num pranto abafado, revelador de um sofrimento agudo. Amara encontrava-se prostrada de joelhos, num estado de desespero e apreensão extremas, ao lado de sua irmã, procurando prestar auxílio.
“O que motivou semelhante cenário?” inquiriu, ao aceder à divisão.
As duas foram tomadas de um sobressalto violento, desprovidas de qualquer expectativa quanto à sua aparição naquela hora.
“As minhas mais sinceras desculpas, senhor”, proferiu Amara de imediato, com a voz embargada por um tremor. “A minha irmã deixou cair inadvertidamente uma panela de grandes dimensões, concebida em ferro maciço, sobre o pé. Tudo indica que provocou danos de gravidade.”
O coronel encurtou a distância, ajoelhou-se e constatou que o pé de Aiana assumia, a um ritmo célere e visível, um volume invulgar, acompanhado de tonalidades roxas e avermelhadas. O aspeto revestia-se de gravidade.
“Não podemos excluir a hipótese de fratura. Vem. Encarregar-me-ei de te transportar para o quarto e solicitar de imediato a intervenção de um médico.”
“Não há qualquer necessidade de se incomodar, senhor,” afirmou Aiana, intercalando as palavras com lágrimas de dor e de pudor. “Não almejo ser fonte de transtornos adicionais. Isto passará.”
“Não se trata, em medida alguma, de seres fonte de transtorno. Encontras-te com uma lesão de índole séria e careces de cuidados médicos condignos.”
Abaixou-se ainda mais e, perante a perplexidade e o assombro extremos de ambas, tomou Aiana nos braços com minúcia, como se de uma criança se tratasse. A sua leveza era assinalável. Conduziu-a, pautando-se por um extremo cuidado, até ao aposento destinado às serviçais, recostando-a no leito com uma delicadeza sem igual.
“Amara, a tua missão cinge-se agora à permanência neste local, providenciando os cuidados à tua irmã. Darei, de imediato, a ordem para requerer a presença do Dr. Henrique.”
Dirigiu-se pessoalmente ao encontro de um criado merecedor de confiança com a incumbência imperativa de montar a cavalo rumo à cidade, em busca do facultativo, com caráter de urgência. A hora adiantada não se assumia como obstáculo.
O Dr. Henrique, médico provido de vasta experiência e a rondar os sessenta anos, apresentou-se volvida uma hora, denotando sonolência, contudo, sem abdicar do seu profissionalismo. Sujeitou o pé edemaciado de Aiana a um escrutínio exaustivo, através da palpação e da avaliação da sua mobilidade.
“Felizmente, não nos deparamos com qualquer fratura, mas constatamos a existência de uma entorse de gravidade extrema. A recuperação implicará a impossibilidade absoluta de se fazer valer do pé, não podendo suportar qualquer peso por um período mínimo de cerca de 10 dias. O repouso tem de ser encarado de forma absoluta e integral.”
O médico procedeu ao enfaixamento do pé com peritagem, prescreveu medicação de origem estrangeira com vista à supressão da dor e facultou indicações pormenorizadas. Quando se retirou, num momento em que a meia-noite já tinha soado, o coronel regressou ao aposento das serviçais.
“Amara, encontras-te na posse de capacidade para dar resposta cabal à totalidade das lides da casa sem recurso a auxílio durante alguns dias?”
“Sim, senhor. Assumirei as funções de ambas, não se aflija.”
“Não. De modo nenhum. O volume de trabalho afigura-se excessivo para ser executado por uma só pessoa. Encarregar-me-ei da contratação temporária de um elemento extra para te facultar assistência. E tu, Aiana, dedicar-te-ás a um repouso absoluto até que o teu restabelecimento atinja a plenitude de 100%. Rejeito em absoluto que procures exercer qualquer tipo de labor num estado de lesão. Fui perfeitamente claro?”
“Sim, senhor,” anuiu Aiana, manifestando uma genuína surpresa face à sua insólita benevolência.
Nos dias que se sucederam, uma alteração subtil, embora revestida de significado, passou a pautar a ambiência da residência. O coronel principiou a realizar visitas assíduas ao quarto das serviçais, ao longo de várias vezes durante o dia, com o objetivo de constatar de forma pessoal a evolução do estado de Aiana. Facultava-lhe fruta recém-colhida, inteirava-se da intensidade da dor e inquiria sobre eventuais necessidades que visassem um acréscimo de conforto, passando, em simultâneo, a travar diálogos de caráter autêntico com ambas.
Direcionava as suas perguntas para a realidade angolana, inquirindo sobre o quotidiano, as especificidades da aldeia natal e a cultura envolvente. Relativamente a Lisboa, procurava inteirar-se sobre a experiência de trabalho em Portugal, as aprendizagens adquiridas e o tratamento a que haviam sido sujeitas. A propósito da viagem rumo ao Brasil, demonstrou interesse pelo navio, pelo receio incutido e pelas expectativas alimentadas, deparando-se com relatos de vida de um fascínio arrebatador e profundamente comoventes.
Amara e Aiana partilhavam o nascimento numa mesma aldeia, circunscrita em dimensão mas próspera, situada nas imediações de Luanda. Na qualidade de filhas gémeas do conceituado líder local, desfrutavam de uma existência privilegiada, chegando a ser objeto de mimos, até ao fatídico momento, aos 15 anos de idade, em que, dada a sua fragilidade, foram alvo de uma captura brutal por parte de esclavagistas desumanos.
A separação do seio familiar operou-se de forma violenta numa determinada manhã. A partir desse instante, os seus progenitores e irmãos foram remetidos para um universo de desconhecimento perpétuo. A travessia para Portugal num navio negreiro assumira os contornos de um autêntico pesadelo. Durante três meses, sujeitas a condições de extrema exiguidade no obscuro porão, debateram-se com doenças, fome e o espetro aterrador da morte.
Em Portugal, desempenharam funções numa residência apalaçada da aristocracia lisboeta. O amo português, para surpresa geral, perfilava-se como um indivíduo erudito e portador de uma visão progressista, que não só tolerava como também fomentava a sua instrução na literacia, ensinando-as a ler e a escrever. Assumia a incumbência pessoal de lhes transmitir ensinamentos nos domínios da arte europeia, música clássica, literatura e as nuances de uma cultura requintada.
“O nosso amo português nutria uma verdadeira bonomia para connosco,” relatou Amara, envolta num sentimento de nostalgia. “Dispensava-nos um tratamento que roçava a condição humana, não nos confinando à mera categoria de propriedade. Contudo, quando a sua situação financeira resvalou para a indigência motivada por dívidas contraídas no jogo, viu-se coagido a transacionar-nos como meio de sobrevivência. Derramámos copiosas lágrimas ao tomarmos conhecimento do nosso destino com rumo ao Brasil. O receio de uma separação definitiva apoderou-se de nós de forma aterradora.”
“Qual a razão subjacente a esse terror desmedido por uma eventual separação em concreto?” indagou o coronel, impelido pela curiosidade.
“Deriva da nossa condição de gémeas, senhor. No seio do nosso povo em Angola, subsiste a convicção férrea de que as gémeas verdadeiras são detentoras de uma alma singular, objeto de partilha por dois invólucros corporais. Caso ocorra uma separação de índole física, ambas incorrem num padecimento de extrema intensidade motivado pelo desmembramento, soçobrando perante a tristeza. Era em obediência a este princípio que os traficantes optavam sempre por nos comercializar em conjunto. As gémeas alvo de separação deparam-se com uma desvalorização, incorrem em estados depressivos e a sua aptidão para o labor esmorece.”
O coronel quedou-se pensativo, denotando comoção.
“Em circunstância alguma, e de forma perentória, procederei à vossa separação. Empenho a minha palavra de honra nesse desígnio.”
O olhar que ambas lhe retribuíram encontrava-se imbuído de uma profunda gratidão, espelhada no brilho dos seus olhos castanhos.
Decorridos dez dias exatos sobre o incidente, o estado de Aiana revelava francas melhorias. Encontrava-se habilitada a caminhar, com um ligeiro coxeio remanescente que se desvanecia gradualmente. O clínico atribuiu a alta e deu anuência a um regresso paulatino às lides laborais. Retomou as suas tarefas com moderação e cautela, mas a mecânica da casa e o teor das relações estabelecidas entre os envolvidos haviam sofrido uma metamorfose de índole irrevogável.
O Coronel João deixara de encarnar a figura distante, insensível e inacessível de outrora. Passou a dirigir-lhes cumprimentos de forma polida pelas manhãs, felicitando-as genuinamente quando a iguaria se revelava de singular sabor ou primorosa na sua disposição, inquirindo pelo seu estado de saúde e por eventuais necessidades.
As gémeas tomaram clara perceção da mutação comportamental, no entanto, remetiam-se ao silêncio entre si quanto a essa temática. Optavam por prosseguir no seu empenho com dedicação, manifestando gratidão por terem cruzado o caminho com um dono que, quando menos, não se pautava pela crueldade ou violência, traços comuns a muitos.
Passados dois meses completos após a sua aquisição em hasta pública, o coronel consciencializou-se de algo inquietante acerca do seu próprio ser. Verificava-se a génese de um elo afetivo com ambas as mulheres. Agradava-lhe ouvir os seus cânticos suaves nas manhãs, enquanto procediam à preparação do café. Apreciava, de forma autêntica, a sonoridade das suas risadas musicais provenientes da cozinha no decurso das suas conversas. Sentia agrado quando se aproximavam, de forma educada, para inquirir sobre as suas preferências para a refeição da noite, apresentando leque de opções.
A casa de consideráveis dimensões não se assemelhava mais a um local destituído de alma, silencioso qual sepulcro. Afigurava-se rejuvenescida, não obstante a constatação de que tal sentimento se configurava incorreto e despropositado. Ambas constituíam-se como suas escravas, aos olhos da lei, propriedades adquiridas a troco de dinheiro. Encontrava-se vedada a possibilidade, a obrigatoriedade, de nutrir sentimentos dessa natureza.
Enveredou por um esforço deliberado no sentido de repor a distância emocional. Assumiu novamente um semblante gélido, adotando o distanciamento e cingindo as palavras ao estritamente necessário. As gémeas aperceberam-se da transição repentina, e não ocultaram a confusão e a tristeza decorrentes dessa renovada frieza, mas persistiram na eficiência do seu labor, no cumprimento de um silêncio embutido de reverência, sem recurso a quaisquer questionamentos.
Com o decurso de três meses integrais desde a sua compra, sucedeu um evento de relevo que alterou, de modo perentório, a situação em curso. Os quatro rebentos do coronel – Pedro, Miguel, Clara e Joaquim – confluíram numa visita conjunta ao seu progenitor, num facto inédito após o decurso de vários anos. Fá-lo-iam pelo ensejo de atenuar a nostalgia e de verificar do seu estado num contexto de solidão. No decorrer do requintado repasto na primeira noite, Clara, fiel à sua habitual perspicácia, observou:
“Pai, esta refeição prima pelo sabor excecional e requintado, sobrepondo-se largamente a qualquer prato já servido por Dona Rosa, a quem devo o máximo respeito.”
“A autoria desta refeição não pertence a Dona Rosa, mas às recém-adquiridas servas, cujo período de permanência na minha posse ascende a três meses. Falo de Amara e Aiana.”
“De facto. Dona Rosa já me tinha feito o relato, embebida em entusiasmo, das gémeas de semelhança absoluta. A minha curiosidade atingiu o zénite. Concede-me a possibilidade de travar conhecimento com elas?”
“Com toda a certeza. Acedo ao teu pedido.”
O coronel intimou a presença de ambas na sala de refeições. Fizeram a sua entrada, evidenciando timidez e constrangimento face à presença da prole do seu senhor. Pedro, o primogénito, detentor de estado civil casado, manifestou o seu assombro através do arregalar dos olhos.
“Santo Deus, a vossa semelhança é assombrosa. Impressionante. Nunca presenciei nada de igual teor.”
Miguel, o causídico, sujeitou-as a um exame detalhado, denotando um interesse de cariz profissional. “E, importa realçar, exibem uma inegável beleza. O meu pai orientou a sua compra segundo critérios de excelente gosto.”
Clara, abandonando a sua cadeira, aproximou-se com visível interesse. “As senhoras têm origem em que localidade?”
“De Angola, senhora,” respondeu Amara de modo afável.
“E experienciaram anos de vivência em Portugal, prévios à vossa deslocação para o Brasil. Deparamo-nos com uma trajetória de índole cativante e de cariz ímpar. Sem dúvida que reúnem histórias de profundo fascínio para narrar.”
Ao longo do período de três dias em que se desenrolou a visita familiar, os filhos encetaram conversas prolongadas com as gémeas, sempre que a ocasião se proporcionava, manifestando um genuíno assombro perante a notória inteligência, a instrução sofisticada, fruto da estadia lisboeta, e a cultura patente nas suas intervenções.
No dia do desfecho, momentos antes de encetarem a partida para os seus destinos, Clara apartou o seu progenitor, de forma circunspecta, para um recanto privado dos jardins.
“Pai, consentes na abordagem de um assunto de natureza sensível?”
“Acede, fala com toda a franqueza.”
“Tenho a nítida perceção da forma como as fitas, em particular, com destaque para a Amara, salvo o devido erro de apreciação.”
O coronel endureceu a sua postura, assumindo uma posição defensiva. “Ignoro redondamente o teor do teu discurso, Clara.”
“Pai, assume a minha filiação. O meu conhecimento do teu ser remonta ao dia em que vi a luz do dia. Encontro-me habilitada a decifrar as tuas feições, os teus olhares, não existindo qualquer impedimento para o desenvolvimento de sentimentos. Volvidos cinco anos longos sobre o decesso da mãe, assiste-te o inquestionável direito de perseguires a felicidade e de nutrir afeto.”
“Clara, elas encontram-se num estatuto de servidão, configurando-se como minha propriedade à luz da lei.”
“Então, outorga-lhes, antes de mais, a alforria. Tenho conhecimento da tua consideração, da tua benevolência. Presenciei, de forma inequívoca, a atenção que lhes dispensas.”
O coronel mergulhou num silêncio profundo, a ponderar.
Finda a visita e o consequente retorno da sua prole aos seus afazeres, o coronel consumiu dias a fio a obcecá-lo o teor das palavras de Clara, revirando-as na sua mente. Tratava-se de uma realidade incontornável. Encontrava-se enleado em sentimentos de cariz romântico por Amara, sentimentos de grande intensidade, que vinha reprimindo ao longo de meses, recorrendo a um esforço titânico, não ocultando a suspeita de que ela retribuía os seus sentimentos.
Depreendia a sua existência através dos seus olhares, quando esta supunha não estar a ser observada, da singularidade do sorriso que envergava à sua chegada à cozinha, e do visível cuidado suplementar dedicado à preparação dos seus repastos, num manifesto intento de proporcionar agrado.
No entanto, Aiana assumia-se como uma complicação. Não se encontrava na disposição, nem na legitimidade, de operar a separação das gémeas. Consubstanciavam uma entidade indissociável, partilhando na íntegra os meandros da vida, traduzindo-se em duas partes de um ser uníssono.
Ao cabo de quatro meses sobre a sua arrematação em leilão, adotou uma resolução audaz, que viria a metamorfosear a situação na íntegra. Solicitou a presença de ambas no seu gabinete, numa noite posterior ao jantar, num período de quietude da casa.
“Amara, Aiana, careço de abordar um assunto de extrema relevância com as duas.”
Ocuparam os respetivos assentos, não escondendo o nervosismo face à solenidade da ocasião.
“Encontram-se ao meu serviço há um quadriénio. Afiguram-se como as servidoras de maior mérito e competência com quem já me deparei em décadas. A manutenção da habitação roça a perfeição, o esplendor. A qualidade das vossas iguarias pauta-se pela excelência, com sofisticação. A vossa postura demonstra invariavelmente, respeito, zelo e fiabilidade.”
“Expressamos o nosso profundo agradecimento, senhor.”
“Contudo, a consciencialização de um facto assumiu relevo durante o decurso destes meses. A vossa função suplanta, em larga medida, o desempenho da eficiência. Estais situadas num patamar muito superior. Desde o decesso da minha esposa, a residência apresentava-se ausente de vivacidade, fria, com um ambiente fúnebre. Operaram o retorno da alegria, da luminosidade, do calor com pendor humano.”
As gémeas intercambiaram olhares fugazes, incertas quanto ao rumo da intervenção do coronel. Ele, num ato de inspiração, prosseguiu com denodo.
“Amara, assumirei a maior honestidade e frontalidade. A afeição por ti desenvolveu-se nos meandros destes meses. Não olvido a premissa de que a minha posição legal se configura como ilegítima, desadequada, sendo tu a minha propriedade legal, submetidos que estamos às barreiras sociais estipuladas. Mas, escuso de recalcar e dissimular a intensidade do que sinto.”
Amara manifestou uma expressão de choque, através do arregalar dos olhos e do descerramento dos lábios. E o coronel voltou as atenções para a outra metade do duo.
“E então, Aiana? Reconheço, perfeitamente, que sois seres absolutamente inseparáveis. Em nenhuma circunstância, independentemente das condições, serei o obreiro da vossa rutura.” Dito isto, exibiu dois documentos devidamente redigidos e munidos da sua assinatura prévia, ofertando um a cada uma. “Apreciem as vossas cartas de alforria totais e irrestritas. Gozais, a partir desta conjuntura, da condição de liberdade absoluta. Com o fechar deste ciclo, cessais as vossas obrigações como meu património.”
Tomaram em suas mãos os inestimáveis documentos, não detendo as convulsões das suas extremidades superiores. A leitura do texto foi efetuada através da visão turva das lágrimas que despontaram e redundou num choro copioso.
“Por eh… que motivos?” Aiana logrou inquirir, intercalada pelos soluços.
“Em razão de uma impossibilidade. Reveste-se de impróprio nutrir afeição por quem me pertence, face à lei, como um bem. Dado que vos é devida a fruição da liberdade, a preservação da vossa honra. E no teu caso específico, Amara, caso se traduza em correspondência dos afetos, anseio, de modo frenético, que a opção se converta em deliberação autónoma, ausente de imposições ou pautada pelo terror.”
Amara encarou-o frontalmente, mergulhando o seu olhar nos olhos do coronel, enquanto o seu belo rosto se inundava em lágrimas. “O sentimento que nutro por si é recíproco, senhor, arrasta-se por meses, no entanto, o medo avassalador não me consentia a sua assunção. Tinha para mim a certeza da transgressão.”
“A partir deste momento, encontram-se isentas de receios. Constituem mulheres emancipadas na sua plenitude. Se a vossa vontade ditar o abandono da propriedade, tendes via verde. Propomo-me atribuir uma soma faustosa a cada qual para que empreendam novo percurso em paragens distintas. Ou, ou,” inquiriu Amara, numa voz marcada por tremores, “ou poderão optar por se manterem nas instalações, como cidadãs de foro livre, submetidas ao pagamento condigno dos vossos trabalhos, na qualidade de assalariadas. E Amara, teria a maior satisfação de proceder ao teu cortejamento de modo canónico, na salvaguarda dos preceitos convencionais a um homem de foro livre perante uma mulher igual.”
Amara emitiu um sorriso deslumbrante, envolvido em lágrimas. “Pretendo permanecer nas instalações. É meu anseio sincero e profícuo manter-me na sua companhia. E quanto a ti, Aiana? O que auspicias?”
Aiana desferiu um olhar terno e carinhoso perante a gémea, desviando, subsequentemente, as atenções para a figura do coronel. “Perante a decisão favorável da minha irmã, a minha permanência é expectável, como ditam os cânones. Em nenhum momento assumimos distanciamento, não perspetivando tal alteração no cenário presente. Somos a representação de um corpo coeso e inseparável.”
“Excelente. Sublime. Eis o plano fixado.”
No devir dos meses que se seguiram, o Coronel João empreendeu o cortejo para com a Amara na sua conceção clássica, cingindo-se a modos cerimoniosos. Encabeçava idas ao jardim de tons verdejantes, banhado pelas luzes douradas dos crepúsculos de beleza inenarrável. Protagonizavam horas intermináveis num diálogo partilhado em relação à vivência angolana, ao decurso histórico da sua presença em Portugal e, consequentemente, sobre a vivência neste hemisfério, no Brasil. Inseriam nas suas interpelações os vislumbres de sonhos inconfessáveis, os terrores que os habitavam e a prossecução do ideal vindouro. Aiana efetuava, com recato, presenças circunscritas ao perímetro habitacional, garantindo que a distância temporal proporcionava a germinação espontânea de romantismo de forma serena.
Terminados os seis meses correspondentes à proclamação da liberdade jurídica das duas, o coronel procedeu ao requerimento de núpcias de caráter formal para com Amara, dobrando a perna com um anel a perfilar. O seu assentimento redundou em pranto compulsivo face à avassaladora emoção de satisfação imaculada, mal concedendo a possibilidade da convicção da concretização.
A publicitação da perspetiva da sua comunhão de alianças provocou celeuma e indignação com alicerces escandalosos na esfera local de âmbito geral. “Um coronel abonado de riquezas incontáveis, na posse do estamento hegemónico e de conduta veneranda com consórcio em núpcias perante figura feminina de raiz angolana ex-subordinada à privação dos direitos civis! Cenário manifestamente desmesurado, repudiante do que é devido e plausível.” A comunidade próxima procedeu à elaboração de epístolas de repúdio. O conjunto cívico social aplicou sanções rigorosas e intransigentes. Identificaram-se cisões ao nível das transações contratuais e do convívio. Contudo, o Coronel João alheou-se e menosprezou a pertinência das recriminações face à imensa jubilação manifestada. Não era sentida em cinco anos de ausência, depois da extinção da vivência corporal da Mariana.
A celebração congregacional revelou a solenidade que lhe fora atribuída pela simplicidade imbuída de candura assinalável na vertente emocional. A Amara encontrava-se adornada por modelito branco deslumbrante e delineado. A Aiana assumiu o papel de testemunha fidedigna no decurso da procissão a derramar gotas de profunda perturbação emocional. Dona Rosa associou a exteriorização do compungimento presenciado da união de forma indissociável. Os seus quatro descendentes da primeira dinastia perfizeram presença inquestionável num reforço de alianças unidas a seu favor em contexto alargado. “Uma efusiva saudação à tua chegada às frentes do clã. Dispensa atenciosas minúcias em prol das suas garantias,” balbuciou de forma emocionada a filha Clara num longo laço.
A engravidar com precocidade de forma imediata perante o contexto das venturas, Amara encontrava-se com a promessa num infante sadio dotado e imponente. A consagração deu azo ao surgimento do apelidado João Júnior para rechear do esplendor o pai. Da parte de Aiana o compromisso para com a maternidade traduziu no devir de atenção no crescimento com devoção materna à altura. O culminar sucedeu-se e com a Mariana na evocação terna no panteão face à perda dolorosa da que habitava, antecedeu o primeiro momento matrimonial do marido.
E consumou um enredo formidável dotado de graciosidade, com assento a Aiana nos rituais canónicos num registo partilhado numa herdade próxima. Perdeu-se nos emaranhados e sentimentos pelo recém descoberto consorte o lavrador emancipada e isento e a partir dos cânones da autorização e na concretização ergueu habitação contígua, a preterir de divórcio perpétuo no desmembramento físico. E perante, a indivisibilidade perpassou num compromisso sem distanciamento ou alheamento e nas presenças assíduas do quotidiano na vida partilhada a um nível irredutível da parte das gémeas idênticas.
O quadro filial do elemento que era correspondido pelo de Aiana enchia-se do nascimento das três figuras infantis esplendorosas. “A Mara”, na contagem exata e com preterição obteve mais gémeas do que Mariana somando aos seus sucessos a perfazer de cinco frutos ao seu encargo! Tiveram crescimentos num uníssono comum alheios da filiação paralela em fratrias unidas. Para o Coronel João o fim temporal deu-se na provecta idade dotado dos “setenta e três primaveras”. A Amara perfez as seis dúzias acrescido dos oito e a irmã Aiana e encetou no seu tempo e idade a seis dúzias suplementado com de nove de somatório total. Pautadas na constituição no plano em que a liberdade assumia os desígnios assentes.
No adeus fúnebre para evocar Amara, os que eram alvo e proveniência nos frutos que nela concebera a geração no tempo anterior. “A sujeição das algemas à subjugação física de provimento humano num escrutínio nulo resultaram no cativeiro cruel”, “No alheamento ao invés foi detentora de afeição num encontro profícuo onde de si derivava numa emancipação prévia à relação base no cariz de plenitude de vida social.” O destituto por circunstancialismo nos aspetos das venturas encontra preenchimento ao encalço dos bens que num renascer provém.” Dita as linhas de sapiência e num preceito em aspetos a ter em linha perante os valores de raiz inesgotável.” Assente que ao sentimento afetuoso recai a preponderância das valências da libertação como condição máxima de exequibilidade.” Subjaz a abnegação e restritivas obrigações não exequíveis dos entes de apropriação e com exigências à emancipação preliminar de concretização.” Na cimentação o aspeto a relevo das exigências a uma comunhão solidificada e íntegra assente nas considerações de mútua aceitação e enobrecimento face às provações da conduta moral.” Na alocução da imprevisibilidade traçada do rumo por entre as veredas em vias com ausências de explicação causal. O duo consanguíneo capturada de modo animalesco nos redutos do enclave angolano com rota no interposto de solo lusitano, culminando na chegada às fileiras no recanto na proveniência da bacia brasileira, embrenhando de modo afetuoso de paixão profunda nos alicerces das encruzilhadas por entre esperanças no improvável rumo.” “Partilhe as apreciações face à comoção extrema do cerne nos e a identificação pessoal do relato.” Aquando na atitude dadivosa de encetar o desapossamento do direito patrimonial dos elementos do seu foro? Da ousadia nos apelos a núpcias para com a preterida?” Do uníssono consolidado no rumo em harmonia em face a percurso e traçados fratrios partilhados e unidos no seu interior? Promova a alocução pela sua aceitação nas raízes perante os canais com indicações fidedignas dos desígnios para vitórias em vitais desfechos ao apelo.” “Indique a localização da vossa região pela via da difusão, perante um próximo reencontro num novo contexto fidedigno narrativo.”