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Vida na Inglaterra no Século XIII: Sem Quartos, Sem Privacidade, Famílias Dormiam em Um Único Cômodo

Imagine uma porta que nunca fecha na verdade. Não por estar avariada, mas porque no exterior não existe nada mais reservado do que no interior. Na Inglaterra do século XIII, a privacidade não consubstanciava um direito; era, antes, um conceito ainda incipiente.

Encontra-se no ano de 1240, algures entre as vastas planícies de Yorkshire e as ruelas lamacentas de uma aldeia rural inglesa. A brisa de outubro penetra pelas fendas da parede de argila, como se a habitação não marcasse presença, e, de certa perspetiva, a sua existência é ténue. Quatro paredes, uma cobertura de colmo escurecida pelo fumo, um pavimento de terra calcada, ausência de janelas envidraçadas, inexistência de divisórias interiores, ausência de quartos. Um único e exíguo aposento.

É neste exíguo espaço que se processa a alimentação, o sono, o labor, o pranto, o nascimento e, amiúde, a morte. Contudo, impõe-se a interrogação que norteará a sua descoberta a partir deste momento: “Como logravam famílias inteiras não apenas subsistir, mas preservar alguma réstia de dignidade, afeto e organização, habitando nestas condições?”

Será que se resignavam, pura e simplesmente, ao caos, ou existiria uma lógica subjacente àquilo que, aos nossos olhos contemporâneos, se afigura intolerável? A resposta causar-lhe-á surpresa, porquanto o que aparenta ser a ausência total de estrutura traduzia-se, na verdade, num sistema intrincado de vivência em comum, um sistema que a narrativa histórica por pouco votou ao oblívio.

Porém, antes de lá chegarmos, urge compreender a verdadeira essência daquele mundo. Cerre os olhos por um momento. Agora, abra-os no interior daquele aposento. O fumo constitui a primeira sensação que o assalta. Na esmagadora maioria destas habitações, a chaminé, tal como a concebemos, era inexistente. Havia uma abertura na cobertura, ou, por vezes, nem isso. A lareira encontrava-se no centro do espaço, assente sobre uma pedra plana, e o fumo ascendia em espirais lentas, até deparar com a primeira via de escape possível. Os seus olhos ardem. Você habitua-se. Todos se habituam.

O odor impõe-se logo de seguida. Lã húmida, madeira em combustão, a fervura dos alimentos, animais. Afirmativo, animais. Em grande parte das habitações camponesas da Inglaterra medieval, o gado, as galinhas e os suínos partilhavam o mesmo espaço que os seres humanos no decurso dos meses de inverno. Não por negligência, mas por imperativo de absoluta necessidade. O calor emanado pelos animais contribuía para o aquecimento do ambiente. Perder os animais para as garras do frio equivalia a perder a única fonte de rendimento, de sustento e de labor de que aquela família dispunha.

Volte o seu olhar em redor e proceda à contagem dos indivíduos. Uma família típica de camponeses ingleses no século XIII era composta por cinco a oito membros, coabitando sob o mesmo teto: pai, mãe, filhos e, com frequência, um avô, uma tia ou um trabalhador assalariado que ali pernoitava em troca da sua força de trabalho.

Investigadores que se debruçaram sobre os registos paroquiais e os censos medievais ingleses, como os documentos constantes do “Domesday Book” e as suas revisões subsequentes, calculam que a densidade populacional por habitação nas aldeias rurais era extraordinariamente elevada, tendo em conta os padrões que, na atualidade, consideramos aceitáveis para a habitabilidade.

Todavia, o aspeto mais premente não reside no número de pessoas, mas naquilo que escasseia entre elas. A ausência de camas individuais, a inexistência de espaços delimitados, a ausência de um único momento no decurso do dia em que se possa desfrutar de verdadeira solidão. O sono processa-se no chão, sobre palha ressequida nos casos mais afortunados, ou sobre um estrado de madeira revestido por uma manta de lã. O repouso faz-se em contacto com outros corpos, pois o frio a isso obriga.

A família mais abastada da aldeia poderia, eventualmente, dispor de um colchão preenchido com feno ou lã em bruto, acomodado num dos cantos do aposento. Mas até este luxo era alvo de partilha. As crianças pernoitavam aos pés dos progenitores. Os irmãos dormiam lado a lado. O trabalhador assalariado repousava na proximidade da porta, o local mais gélido e ruidoso da casa.

Eis algo que raramente ocorre à mente de quem reflete sobre esta época: “Pernoitar num único espaço de índole coletiva não era encarado como uma humilhação. Constituía, pura e simplesmente, a realidade partilhada por quase todos.” O monarca pernoitava num salão, com os seus serviçais nas imediações. O monge repousava num dormitório comunitário. O mercador da cidade partilhava os seus aposentos com aprendizes e empregados.

A conceção de que cada indivíduo é merecedor de um espaço privativo e isolado para dormir afigura-se como uma invenção de uma atualidade surpreendente, ganhando apenas tração séculos mais tarde, com a emergência da classe média e a arquitetura doméstica renascentista. Tal facto não implica que a Inglaterra do século XIII se encontrasse num estado de atraso face a um qualquer ideal vigente noutras paragens. Limitava-se a operar no âmbito de uma lógica intrinsecamente distinta sobre o significado de possuir um lar.

E essa lógica, por mais insólita que possa parecer à luz da atualidade, regia-se pelas suas próprias normas, delineava as suas próprias fronteiras e estabelecia a sua própria modalidade de privacidade. A questão que se impõe é: “Onde se traçavam essas fronteiras?”

Na Inglaterra do século XIII, a privacidade não constituía um local físico; era, antes, um momento temporal. O recato não se operava através do recolhimento a um quarto, mas antes através de um recolhimento ao foro íntimo do indivíduo. E tal postura merecia o respeito de todos os circunstantes.

Vigorava uma linguagem tácita de convivência, nunca exarada em qualquer compêndio, mas objeto de transmissão geracional, com a mesma fluidez com que se adquiriam os saberes inerentes ao cultivo do trigo ou à ordenha de uma vaca. Quando alguém voltava o corpo para a parede, o ato significava que aquela pessoa se encontrava indisponível. Quando alguém se deslocava ao poço comunitário em busca de água, num momento anterior ao despertar geral, tal consubstanciava o seu momento de silêncio. Eram pequenos rituais invisíveis que geravam bolsas de solidão no seio de um espaço de matriz inteiramente coletiva.

É neste ponto que a história principia a desvendar a sua faceta mais assombrosa. Especialistas em história social da Idade Média, a título de exemplo, aqueles que contribuíram para os estudos coligidos por historiadores da Universidade de Oxford sobre a vida quotidiana na Inglaterra Plantageneta, apuraram que as famílias camponesas engendraram sistemas de organização espacial de extrema funcionalidade no interior de um único aposento. O espaço não era cindido por paredes; a sua divisão processava-se em função do uso, do tempo e da posição.

Encara este cenário como uma coreografia. No decorrer do dia, o aposento funcionava como um espaço de labor. A mulher dedicava-se à fiação da lã nas proximidades da luz que penetrava pela porta entreaberta. O homem procedia à reparação de ferramentas junto ao fogo. As crianças de tenra idade permaneciam num canto delimitado, distanciadas das chamas, amiúde rodeadas por um pequeno obstáculo em madeira, de feição rudimentar, que desempenhava a função de um berçário primitivo. Cada atividade detinha o seu local específico. Cada indivíduo tinha plena consciência da sua posição e da tarefa que lhe competia.

Ao cair da noite, o mesmo espaço era alvo de uma metamorfose. Os utensílios de trabalho eram arredados para as extremidades. A palha era alvo de reorganização. Os corpos posicionavam-se de acordo com uma hierarquia que gozava do conhecimento e respeito gerais. O pai e a mãe ocupavam o epicentro ou o ponto de maior conchego térmico. Os filhos de menor idade acomodavam-se nas suas imediações. Os mais velhos, de forma progressivamente mais distante. O trabalhador assalariado encontrava-se invariavelmente no limiar do espaço. Não se gerava qualquer controvérsia a este respeito. Era, simplesmente, a ordem natural das coisas.

Mas o que sucedia perante o emergir de focos de tensão? Perante o eclodir de uma contenda entre dois irmãos, perante um desentendimento num casal, quando a exaustão e a carência alimentar transmutavam o aposento numa verdadeira panela de pressão humana, a válvula de escape materializava-se no mundo exterior. A habitação, independentemente da sua exiguidade e precariedade, não constituía a única arena de vivência daquelas gentes. A aldeia na sua totalidade assumia a função de uma extensão da moradia: o pátio exterior, o celeiro, o poço comunitário, a horta anexa, a taberna local, a nave da igreja paroquial.

Eram estes os espaços onde os conflitos amainavam, onde se travavam conversas de teor reservado, onde os adolescentes concretizavam encontros furtivos com as suas paixões e onde os adultos processavam o fardo da existência, a coberto dos olhares da família. A casa não se encontrava incumbida de solucionar tudo, pela simples razão de que nunca fora concebida com esse propósito.

Trata-se de uma constatação que os estudos incidentes sobre a habitação medieval têm corroborado de forma consistente. A fronteira entre o espaço de cariz doméstico e o espaço de foro comunitário era dotada de uma fluidez muito superior àquela que ousamos imaginar. As pessoas não experienciavam o interior das suas habitações nos moldes que nos são familiares na atualidade. A sua vivência oscilava entre a casa e o mundo exterior, atribuindo a cada espaço uma função específica, de forma muito mais ponderada do que a imagem do camponês medieval ignorante e subjugado comummente sugere.

Afigura-se pertinente, neste momento, fazer uma pausa para desmistificar uma ilusão. Verifica-se uma propensão, mormente em documentários e obras cinematográficas cuja ação se desenrola na Idade Média, para a representação dos camponeses ingleses como figuras de pendor passivo, imundas e conformadas, que se limitavam a existir no seio da sua miséria sem a questionarem. Semelhante imagem não padece apenas de imprecisão, como se reveste de uma profunda injustiça.

Os registos históricos atestam a existência de indivíduos que negociavam contratos com os seus senhores feudais, que interpunham recurso aos tribunais locais com vista à resolução de litígios de âmbito territorial, que organizavam festividades comunitárias de grande elaboração, que compunham músicas, que criavam receituários culinários de cariz regional, que zelavam por jardins de ervas medicinais detentores de um conhecimento botânico requintado. Eram indivíduos plenamente presentes nas suas próprias vivências, operando num quadro de limitações colossais, mas munidos de uma inteligência prática e de uma capacidade de adaptação que se fazem credoras de um respeito muito superior àquele que lhes é habitualmente tributado.

A habitação circunscrita a um único aposento não se afigurava como o emblema do infortúnio destas pessoas; assumia-se, antes, como o ponto de partida de toda uma vida edificada em seu redor. Contudo, subsistia uma vertente dessa existência que nenhuma coreografia de índole doméstica lograva solucionar na sua plenitude. Uma vertente que interferia de forma direta com a experiência de cariz mais íntimo e vulnerável de qualquer ser humano. O nascimento, a doença, a morte, tudo tinha lugar. Ali, no mesmo aposento onde a ceia fora partilhada na noite antecedente, no mesmo chão que servira de palco às brincadeiras infantis escassas horas antes, sem recurso a separações, a cortinados, a distanciamento.

Uma criança via a luz do dia enquanto as restantes dormiam a parcos passos de distância. Um progenitor exalava o último suspiro, vítima de febre, enquanto a família procurava manter a rotina em torno do seu corpo debilitado. Uma avó vivenciava os seus derradeiros dias recostada num dos cantos do aposento, visível a todos, presente na rotina diária até ao sopro derradeiro. Era uma realidade atroz. Não se coaduna com qualquer laivo de romantização.

Mas existia, em simultâneo, algo naquela atrocidade que fomentava um tipo de familiaridade com a experiência humana que a nossa contemporaneidade perdeu de forma quase irreversível. A morte não se afigurava como um evento que se desenrolava num hospital, longe da vista de todos. Inscrevia-se como parte integrante da vida doméstica. As crianças cresciam a testemunhar o ciclo integral da existência, isento de filtros, de eufemismos, da ilusão de que o sofrimento é passível de ser alienado para outro local.

E este contexto forjava indivíduos com uma matriz específica, detentores de uma tolerância à incomodidade, de uma presença perante o sofrimento alheio e de uma apreensão visceral da transitoriedade que os textos de feição medieval, mesmo os de teor mais singelo, frequentemente evidenciam com uma lucidez desconcertante. A questão que, por conseguinte, permanece é esta: “Que ilações podemos retirar de toda esta experiência sobre a nossa própria essência?” Sobre as nossas verdadeiras necessidades para viver, para nos relacionarmos, para subsistirmos em comunhão.

Encontra-se de regresso àquele aposento. O fogo encontra-se mortiço. A noite avançou. Nas suas imediações, sete pessoas pernoitam em posições que narram histórias desprovidas de palavras. O bebé encostado ao peito da progenitora, o rapaz de maior idade com o braço cruzado sobre o rosto, num gesto que indicia a vontade de erguer uma barreira entre si e o mundo, mesmo no decurso do sono. O trabalhador assalariado voltado para a parede, a cumprir, mesmo de forma inconsciente, o supramencionado gesto silencioso de recolhimento.

A porta emite um ligeiro ranger com a passagem do vento e apercebe-se, quiçá pela primeira vez, de que não está a contemplar um cenário de miséria. Está, sim, a contemplar um cenário de adaptação, uma das adaptações de maior longevidade e sucesso a que a espécie humana já logrou proceder. Durante séculos, esta constituiu a norma não apenas na Inglaterra, mas em praticamente todo o mundo habitado. Desde a China de matriz rural às aldeias da África Subsariana, desde as habitações comunais das populações indígenas das Américas até às habitações de cariz coletivo dos camponeses da Escandinávia. O ser humano, ao longo de quase toda a sua história documentada, repousou, alimentou-se e conviveu em espaços de foro partilhado.

A conceção do quarto de cariz individual, da cama de índole particular, do espaço pessoal inviolável afigura-se como extraordinariamente recente no calendário da existência da humanidade. Contabiliza, no máximo, 300 ou 400 anos de história nas franjas mais abastadas da sociedade, e um período muito inferior a esse no que concerne à esmagadora maioria da população global. Que ilações podemos extrair? Significa que tudo aquilo a que atualmente apelidamos de necessidade básica de privacidade consubstancia, em larga medida, uma construção de matriz cultural, uma expectativa que foi gerada, alicerçada e normalizada num período muito delimitado da história, por motivos muito específicos com ramificações no despontar do individualismo moderno, na arquitetura de matriz burguesa e na metamorfose das relações de cariz familiar a partir do século XVII.

Tal não equivale a afirmar que a privacidade seja nefasta; significa que não se afigura como uma inevitabilidade, que existiram moldes alternativos de organização da vida de foro íntimo e que estes moldes demonstraram eficácia por um período de tempo muito superior ao modelo que hoje tomamos como natural. Os camponeses ingleses do século XIII não se encontravam na expetativa de que alguém inventasse o quarto de cariz individual para, finalmente, poderem usufruir de uma vida pautada pela dignidade. Eles já usufruíam de uma vida pautada pela dignidade.

No seio dos constrangimentos severos de um mundo desprovido de antibióticos, de aquecimento de índole central, de segurança de caráter social e de colchões de molas, eles edificavam afetos, educavam a sua prole, celebravam as colheitas, procediam ao sepultamento dos seus entes falecidos e despertavam no dia imediato. Para encetar de novo todo o ciclo, havia crianças cujo crescimento se processava naquele aposento e que nunca conheceram outra modalidade de lar, que adquiriam a capacidade de decifrar o estado de espírito do progenitor através da posição que este adotava junto ao fogo, que discerniam pelo som da respiração da progenitora se esta se encontrava desperta ou adormecida, que conheciam cada detalhe do rosto dos seus irmãos, dada a impossibilidade do desconhecimento. Uma intimidade de cariz forçado que, com o decorrer do tempo, se transmutava, pura e simplesmente, em intimidade.

Mas afigurar-se-ia um ato de desonestidade concluir esta narrativa sem perscrutar de forma direta o ónus que este modelo acarretava. A exiguidade de espaço originava focos de tensão de cariz real e constante. Contendas cuja resolução não passava pelo recurso a uma porta fechada perduravam durante dias no interior daquele ambiente confinado. Mulheres cujo labor se pautava pela incessância, tanto no interior como no exterior da habitação, sem nunca usufruírem de um momento de verdadeira solidão. Crianças cujo crescimento ocorria sem nunca experienciarem o silêncio. Indivíduos de provecta idade que assistiam à perda da sua autonomia de forma visível e de domínio público, sem a hipótese de envelhecer com a devida circunspecção.

E importava ter em conta o peso específico que incidia sobre as mulheres no âmbito deste sistema. Numa sociedade onde o espaço de cariz doméstico recaía quase em exclusivo na esfera da responsabilidade de matriz feminina, o habitar num único aposento traduzia-se na constatação de que o labor não conhecia termo, não se encontrava sujeito a horários e era desprovido de delimitações de ordem física. O aposento assumia as funções simultâneas de cozinha, quarto, oficina, sala de partos e câmara de velório. E a mulher afigurava-se, na esmagadora maioria das vezes, como o elemento com a incumbência de conferir sentido a todo este amálgama.

Semelhante realidade não se coadunava com laivos de poesia; assumia, antes, os contornos da exaustão. A narrativa atinente à vida quotidiana na época medieval é, amiúde, transmitida através de um prisma de admiração perante a capacidade de resiliência da raça humana. E, muito embora essa admiração se revista de legitimidade, não deve obliterar a rudeza inegável que pautava aquelas vidas. A mortalidade de matriz infantil a assumir foros de devastação, a esperança de vida que, raramente, superava a fasquia dos 40 anos nos estratos de maior debilidade económica, a violência de índole estrutural inerente a um sistema feudal que extraía o labor e a submissão como contrapartida a uma proteção que nem sempre se materializava.

Aquele aposento constituía um local de afetos e, em simultâneo, de sufocamento, à imagem de tantos locais onde seres humanos coabitam por imperativo de necessidade. E é precisamente aqui que reside a lição pautada por maior grau de honestidade no seio desta história. O ser humano dispensa a perfeição com vista à sua subsistência, não carece de condições de índole ideal para o estabelecimento de laços, para o desenvolvimento da cultura, para a transmissão de valores. Necessita, antes, de consistência, de um sentido de pertença e da partilha de um propósito comum.

Quando estes três fatores marcam presença, mesmo um singelo aposento com pavimento de terra e cobertura de colmo pode assumir, de alguma forma, os contornos de um lar. A porta que nunca encerra na verdade não configurava um defeito de construção; assumia-se como um convite de índole permanente para a vida em comunidade. Um alerta de que nenhum ser humano, em época alguma, foi concebido para existir num estado de completa solidão.

O que sofreu mutações não foi a matriz da natureza humana. O que sofreu mutações foi a dimensão do espaço que julgamos imprescindível para o alcance da felicidade. E talvez valha a pena equacionar, perante a contemplação das nossas habitações atuais, pejadas de divisões vazias e portas cerradas, se o saldo se cifra numa conquista global daquilo que julgamos ter obtido, ou se, pelo contrário, deixámos algo de fulcral para trás, votado ao esquecimento num dos cantos daquele aposento único, por entre a palha e o fumo, e o calor partilhado por indivíduos que não dispunham de alternativa que não fosse a de se conhecerem na sua plenitude.

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