
Tinha uma coisa diferente, uma coisa pequena, quase imperceptível, o tipo de coisa que só percebe quem conhece o corpo de alguém há anos. Não de médico, não de estranho, de marido, de homem que dorme do mesmo lado da cama há 11 anos e que conhece cada detalhe com aquela intimidade silenciosa que o casamento longo constrói sem que ninguém perceba que está construindo.
Claudinho percebeu. Claudinho que todo mundo chamava assim desde criança, nunca Claudonor, nunca pelo nome completo que a mãe tinha escolhido com tanto cuidado. Tinha 44 anos, era pastor da Igreja Evangélica Fonte Viva havia seis, e era o tipo de homem que a congregação descrevia como íntegro, com aquela convicção de quem nunca teve razão para duvidar.
Naquela noite de sábado, depois do culto, depois da ceia, depois de tudo que um pastor faz num sábado de igreja cheia, Claudinho percebeu alguma coisa. E o que aconteceu nas horas seguintes no apartamento do Jardim Goiás, em Goiânia, foi uma coisa que a Igreja Fonte Viva ainda não terminou de processar, que talvez nunca termine.
Antes de continuar, tem um detalhe nessa história que só veio à tona durante o julgamento. Não no interrogatório, não no inquérito, foi numa carta, uma carta que a vítima havia escrito semanas antes do crime e entregado a uma amiga com uma instrução específica. A instrução era:
“Se alguma coisa me acontecer, você abre.”
A amiga abriu e o que estava escrito naquela carta mudou tudo que o Júri achava que entendia sobre essa história. Você vai saber quando chegar lá.
O Jardim Goiás é um bairro de classe média de Goiânia que foi crescendo nas últimas décadas com aquela mistura de condomínio residencial e comércio de bairro que caracteriza o centro expandido da capital goiana. Ruas largas, árvores que a prefeitura plantou e que foram ficando grandes com os anos, padaria na esquina que serve café da manhã até às 10.
Aquele ritmo de bairro que acorda cedo e dorme relativamente cedo porque a maioria trabalha. A Igreja Evangélica Fonte Viva funcionava num salão alugado numa rua comercial do Jardim Goiás. Não era uma das grandes igrejas da cidade. Tinha 300 e poucos membros. Culto toda a quarta e todo sábado. Célula nos lares espalhada pelos bairros ao redor.
Era do tamanho certo para todo mundo se conhecer pelo nome, mas grande o suficiente para ter coisas acontecendo sem que o pastor soubesse de tudo. Claudionor Batista dos Santos, o Claudinho, tinha 44 anos, natural de Anápolis, cidade a 50 km de Goiânia. Corpo robusto, 1,78 m, aquele tipo físico de homem que foi atlético na juventude e que os anos foram arredondando sem apagar completamente.
Cabelos pretos com entradas pronunciadas, voz grave que carregava bem num salão sem microfone. Aquele jeito de andar pausado de homem que aprendeu que presença se constrói com calma. Tinha sido convertido aos 22 anos depois de uma juventude que ele mesmo descrevia nos sermões como perdida, sem especificar o que significava perdida.
E a congregação nunca perguntava, porque na Igreja Evangélica esse tipo de passado vago funciona melhor do que passado detalhado. Fez curso de teologia por correspondência. Virou líder de célula, virou diácono, virou pastor quando o pastor anterior da Fonte Viva foi para uma missão no nordeste e deixou a congregação precisando de alguém.
Claudinho assumiu com aquela mistura de humildade declarada e ambição contida que caracteriza certos tipos de liderança religiosa. A congregação abraçou. Rosângela Santos tinha 41 anos, goiana de Goiânia mesmo, filha do setor Pedro Ludovico, cabelos castanhos escuros, quase pretos, que ela prendia num coque nos dias de culto e soltava nos dias de casa, olhos amendoados, pele morena, aquele tipo de beleza que fica melhor com os anos do que era na juventude.
1,65 m, corpo cheio que ela vestia com aquela descrição obrigatória de esposa de pastor, saias abaixo do joelho, blusa de manga, nada que pudesse gerar comentário. Trabalhava como secretária na Fonte Viva, cargo não remunerado, que na prática significava que ela organizava a agenda do marido, respondia os e-mails da igreja, coordenava os eventos, cuidava das finanças da congregação.
Era o tipo de trabalho invisível que sustenta uma instituição e que só aparece quando para. Tinham dois filhos, Samuel, 16 anos, e Rebeca, 13. Os dois estudavam em escola particular do bairro, bolsa da própria escola, que tinha parceria com a igreja Fonte Viva. Moravam num apartamento de três quartos no Jardim Goiás, cedido pela congregação como benefício pastoral.
Era um apartamento confortável, bem mobiliado, com aquela decoração de lar evangélico, quadro com versículo na entrada, bíblia na mesa de centro, foto da família no corredor. O casamento tinha 11 anos. Por fora, sólido. Por dentro, outra coisa que estava sendo construída em silêncio há mais tempo do que Claudinho imaginava.
Erivaldo Menezes tinha 36 anos, membro da igreja Fonte Viva havia quatro. Tinha chegado numa época difícil, separação recente, problema com bebida, que ele mesmo admitia sem detalhes, naquela crise de meia vida antecipada que às vezes aparece nos 30 e poucos e que a igreja evangélica sabe receber bem, porque tem linguagem para isso.
Claudinho tinha sido o pastor que o acolheu quando chegou. Tinha orado com ele, tinha aconselhado, tinha colocado Erivaldo num grupo de homens da congregação que se reunia toda a terça-feira para estudo bíblico e que, na prática, era também um grupo de apoio mútuo. Erivaldo tinha respondido bem. Parou com a bebida, ou pelo menos com a bebida visível, virou frequentador assíduo, virou voluntário nas reformas do salão, virou aquele tipo de membro que a congregação valoriza, porque aparece quando precisa, não só quando conveniente.
Tinha 1,81 m, corpo de quem faz academia regularmente, ombros largos, braços definidos, aquele tipo físico que contrasta com o pastor mais velho e mais cheio, cabelos escuros, curtos, rosto anguloso, o tipo de aparência que as mulheres da congregação comentavam entre si com aquele sorriso que não deveria existir dentro de uma igreja, mas que existe.
Trabalhava como representante comercial de uma distribuidora de materiais de construção. Viajava às vezes para Anápolis, Aparecida de Goiânia, algumas vezes o interior do estado, não era casado, não tinha namorada declarada, frequentava a casa de Claudinho e Rosângela com aquela naturalidade de membro próximo da liderança, jantar de domingo às vezes, reunião de planejamento da igreja em outros momentos.
Era tratado quase como da família, quase. A primeira vez que alguma coisa não encaixou foi numa quarta-feira de março. Claudinho tinha voltado do culto mais cedo do que o normal. O músico de louvor havia adoecido. O culto tinha sido encurtado. Ele tinha chegado em casa 40 minutos antes do previsto. Rosângela estava no quarto, disse que tinha dor de cabeça e tinha ido deitar mais cedo.
Claudinho foi à cozinha beber água. O celular de Rosângela estava na bancada da cozinha com a tela acesa. Ela tinha esquecido ali quando foi pro quarto. Claudinho não era homem de mexer no celular da esposa, nunca tinha sido. Esse tipo de desconfiança era coisa que ele pregava contra nos sermões sobre casamento.
“Confiança é semente de destruição no lar.”
Havia dito numa série de pregações sobre matrimônio havia poucos meses, mas a tela estava acesa e antes de apagar ele viu, não leu. Só viu o nome do contato da última conversa aberta, Erivaldo, e a última mensagem enviada visível no preview antes de a tela escurecer.
“Amanhã consigo uma hora.”
A tela apagou. Claudinho ficou com o copo d’água na mão por um tempo, depois foi pro quarto. Rosângela estava deitada com os olhos fechados. Claudinho ficou parado na porta por alguns segundos, entrou, deitou do lado dela, ficou de costas, não dormiu por um longo tempo, mas isso ainda não era tudo.
Nas semanas seguintes, Claudinho prestou atenção de um jeito que ia contra tudo que pregava e o que percebeu foi se acumulando com aquela velocidade silenciosa de coisa que já estava lá e que agora você simplesmente está enxergando.
Erivaldo continuava aparecendo normalmente nas atividades da igreja. Continuava sendo tratado por Rosângela com aquela neutralidade cuidadosa de quem aprendeu a não deixar nada transparecer. Mas havia momentos, frações de segundo em reuniões de planejamento num jantar de domingo em que Claudinho captava alguma coisa, um olhar que durava meio segundo a mais do que deveria, um cuidado excessivo em não se tocar, que é o oposto de indiferença, é consciência.
O celular de Rosângela, sempre no bolso agora, ou virado para baixo, ou no banheiro com ela quando ia trocar de roupa, coisa que não era hábito antigo. E as saídas para visita de célula nas terças-feiras à tarde, que às vezes duravam mais do que a distância justificaria. Claudinho não confrontou, era pastor. Sabia que confronto sem prova é acusação. Havia pregado isso também.
Ficou guardando e orando ou tentando orar com aquela dificuldade específica de homem religioso que está pedindo a Deus que prove que ele está errado, mas que já sabe no estômago que não está. O sábado em que tudo aconteceu começou, como todos os sábados, da igreja Fonte Viva. Culto às 19 horas, louvor, pregação.
Claudinho pregou sobre fidelidade com aquela ironia que só ele sabia que existia. Ceia. Encerramento às 21:30. Rosângela estava no culto no lugar de sempre. Primeira fila lateral do lado direito. Erivaldo estava no meio da congregação. Os dois não trocaram olhar em nenhum momento que Claudinho observou, mas Claudinho observou o tempo todo.
Depois do culto, a despedida dos membros na porta, os apertos de mão, os abraços, as palavras de encorajamento que um pastor distribui no fim de cada culto como parte do ofício. Erivaldo cumprimentou Claudinho na porta, aperto de mão firme, olho no olho.
“Boa pregação, pastor. Fidelidade é mesmo o fundamento.”
Claudinho sorriu.
“É mesmo, irmão. Que Deus te abençoe.”
Erivaldo foi embora. Claudinho ficou na porta por mais alguns minutos, despedindo os últimos membros. Por dentro, outra coisa inteiramente. Chegaram em casa às 22:15. Samuel estava no quarto. Rebeca já dormia. Rosângela foi ao banheiro tirar a maquiagem, aquela rotina de fim de noite que ela tinha há anos. Claudinho foi ao quarto, tirou o terno, ficou na camiseta e na calça, esperou.
Quando Rosângela saiu do banheiro e se aproximou da cama, Claudinho estava sentado na beira. O que aconteceu a seguir? O momento em que Claudinho percebeu o detalhe físico que confirmou que ele já sabia, mas que agora tinha uma evidência que não deixava margem, foi descrito por ele no interrogatório com aquela precisão de homem que guardou cada segundo na memória, porque era o segundo em que o mundo mudou.
Não era uma coisa que se inventa, não era paranoia, era uma diferença física concreta que o corpo da esposa apresentava e que Claudinho, depois de 11 anos de casamento, reconheceu pelo que era. Rosângela percebeu que ele tinha percebido, ficou imóvel. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos que pareceram muito mais.
“Claudinho…”, ela começou.
“Erivaldo.”, ele disse. Não era uma pergunta.
Ela fechou os olhos, não negou. O silêncio que veio depois dessa não negação foi o tipo de silêncio que Claudinho depois descreveu no interrogatório como o momento em que deixou de ser pastor e virou outra coisa. O que virou nas horas seguintes foi uma coisa que os 20 versículos que ele sabia de cor sobre perdão e misericórdia não conseguiram conter.
O que aconteceu no apartamento do Jardim Goiás naquela madrugada, de sábado para domingo, foi reconstituído pela Polícia Civil de Goiânia, com base na perícia do local, nos depoimentos dos filhos e na análise forense completa.
Samuel acordou com barulho às 23:40. Ficou parado na cama por alguns segundos, tentando identificar o que era. Levantou, foi ao corredor. A porta do quarto dos pais estava fechada, ficou parado no corredor ouvindo, depois abriu a porta. O que Samuel viu com 16 anos naquela madrugada é uma coisa que a psicóloga, que o acompanhou no período posterior ao crime, disse que vai levar anos para ser processada, se é que algum dia é processada completamente.
Rebeca não acordou durante o crime. Acordou com Samuel gritando no corredor. Claudinho esfaqueou Rosângela 20 vezes. A perícia confirmou 22 perfurações, algumas rasas, algumas profundas, distribuídas de uma forma que os peritos descreveram como ataque sem padrão de execução, característico de estado de descontrole emocional agudo.
Rosângela estava viva quando Samuel abriu a porta. Perdeu a consciência antes do Samu chegar. Morreu no hospital de urgências de Goiânia, o Hugo, às 2:37 da madrugada. Tinha 41 anos. O SAMU e a polícia militar chegaram ao apartamento em resposta à ligação de Samuel, que ligou pro 192 com a voz que um menino de 16 anos tem quando está vendo o que Samuel estava vendo.
Claudinho não havia fugido, não havia se entregado. Estava sentado no chão do quarto, encostado na parede, com a faca ainda na mão. Não reagiu quando os policiais entraram. Largou a faca quando mandaram, deixou algemar, não disse nada. Quando um dos policiais perguntou:
“O senhor fez isso?”
Claudinho olhou para ele com aqueles olhos que os policiais depois descreveram como olhos de alguém que já foi embora de algum lugar sem sair do lugar e não respondeu.
Foi colocado na viatura em silêncio. Os filhos ficaram no apartamento com a vizinha que havia chegado com o barulho da sirene. Dona Marlene, 58 anos, que tomou Samuel e Rebeca no corredor e levou pro seu apartamento enquanto a perícia trabalhava. Rebeca ficou no colo de dona Marlene por horas sem falar nada.
Samuel ficou sentado na cadeira da sala de dona Marlene, olhando pra parede. Nenhum dos dois chorou naquela noite. Às vezes o choro demora, porque o tamanho do que aconteceu não cabe em lágrima imediata. Na delegacia de crimes contra a vida de Goiânia, Claudio Honor Batista dos Santos foi autuado em flagrante por homicídio doloso. A delegada responsável pelo caso foi a Dra. Patrícia Mesquita, 41 anos, 15 de polícia civil.
Claudinho ficou em silêncio nas primeiras horas. Não por estratégia, pelos relatos dos agentes que ficaram com ele, era o silêncio de alguém que ainda não havia voltado de algum lugar interno. Na manhã seguinte, com o advogado presente, a própria congregação havia acionado um advogado membro da fonte viva nas primeiras horas.
Claudinho falou, contou o culto, o caminho de volta, o apartamento, o que percebeu, o que ela não negou.
“E então o senhor pegou a faca?”, a delegada perguntou.
Claudinho ficou em silêncio.
“Não foi assim.”, ele disse por fim.
“Como foi?”
“Eu não sei como foi. Eu sei o que eu fiz. Não sei como cheguei lá.”
A delegada anotou.
“O senhor tem consciência de que matou sua esposa?”
“Tenho.”
“E de que seus filhos viram?”
Pausa longa.
“Samuel viu.”, a voz de Claudinho quebrou pela primeira vez. “Eu sei que Samuel viu.”
Foi o único momento em que a voz falhou. Depois voltou ao tom plano de antes. A delegada Patrícia Mesquita encerrou o interrogatório e acionou avaliação psiquiátrica de urgência. Claudinho foi encaminhado ao CDP de Goiânia.
Erivaldo Menezes foi ouvido na delegacia dois dias depois como testemunha. Confirmou o relacionamento com Rosângela. Disse que havia começado há 7 meses. Disse que Rosângela havia falado em resolver a situação, mas que nunca havia dado prazo.
“O senhor sabia que ela era casada com o pastor?”, a delegada disse.
“Não, como pergunta, sabia?”
“E era membro da congregação dele.”
“Era.”
A delegada ficou em silêncio por um momento.
“Tem mais alguma coisa que o senhor queira dizer?”
Erivaldo ficou olhando pra mesa.
“Eu não imaginei que chegaria aqui.”
“Raramente alguém imagina.”, a delegada disse e fechou o caderno.
A igreja Fonte Viva ficou sem pastor. Nos primeiros dias após o crime, a liderança da denominação à qual a fonte viva era filiada, enviou um pastor interino de Brasília.
O culto de quarta seguinte aconteceu com metade da frequência normal. Havia membros que não conseguiam entrar no salão sem pensar que na última quarta antes do crime, Claudinho estava naquele púlpito pregando sobre fidelidade. Havia membros que saíram da congregação sem dar explicação. Havia membros que ficaram porque não sabiam para onde ir.
Erivaldo não voltou à fonte viva depois do crime. Desapareceu da congregação da forma silenciosa de quem sabe que não é bem-vindo, mas que também não tem como ser expulso formalmente, porque a culpa moral não tem procedimento eclesial específico. Samuel e Rebeca foram morar com a avó materna, a mãe de Rosângela, dona Eunice, 63 anos, num bairro do outro lado de Goiânia.
Samuel teve acompanhamento psicológico por determinação do juizado da infância. Faltava aula, ficava acordado de madrugada, tinha aquele olhar que a psicóloga descreveu nos relatórios como dissociação recorrente, momentos em que ele estava no lugar, mas não estava presente. Rebeca foi diferente, fechou. Não falava sobre o que havia acontecido com ninguém.
Ia à escola, fazia as tarefas, respondia quando perguntavam, mas havia um nível de comunicação que simplesmente havia cessado, não por escolha consciente, mas porque o trauma às vezes fecha uma porta que leva tempo para abrir de novo. Os dois foram visitar o pai uma vez, seis meses após o crime, na unidade onde estava preso preventivamente.
Ficaram 40 minutos na sala de visita. Samuel falou sobre a escola. Rebeca ficou olhando pro pai sem dizer quase nada. Claudinho perguntou se estavam sendo bem tratados na casa da avó. Disseram que sim. Quando o tempo de visita acabou e os filhos se levantaram para ir, Claudinho ficou na cadeira. Rebeca parou na porta, virou, olhou pro pai por um segundo, depois saiu sem dizer nada.
Claudinho ficou olhando para a porta fechada. O processo penal foi aberto pelo Ministério Público do Estado de Goiás. Claudinho foi indiciado por homicídio doloso qualificado, com discussão sobre as qualificadoras do motivo torpe e da impossibilidade de defesa da vítima, dado o número e a distribuição dos ferimentos.
A defesa. Dr. Heráclito Nunes, advogado de Goiânia com especialização em direito penal, trabalhou com tese de homicídio privilegiado por violenta emoção após injusta provocação. Requereu também avaliação psiquiátrica completa, apontando para o estado dissociativo descrito pelos agentes na noite do crime.
A avaliação psiquiátrica concluiu que Claudinho não apresentava transtorno mental que o impedisse de compreender o caráter ilícito da conduta. Registrou, porém, episódio dissociativo agudo no período imediatamente posterior ao crime. O Ministério Público contestou o privilégio. 22 perfurações não são reação instantânea, são ação prolongada.
Há uma diferença entre o primeiro golpe, que pode ser explicado por violenta emoção, e o 22º. A defesa respondeu: No estado dissociativo agudo, o indivíduo não processa a sequência de forma consciente. Para Claudinho, o primeiro e o último golpe podem ter sido vivenciados como um único momento. A discussão foi para o júri.
A pronúncia foi proferida 10 meses após o crime. O julgamento aconteceu numa terça-feira de novembro do ano seguinte no fórum da comarca de Goiânia. Sete jurados, cinco mulheres, dois homens, 12 horas de julgamento. Samuel foi ouvido como testemunha do Ministério Público. Tinha 17 anos na época do julgamento. Entrou na sala com aquele jeito de menino que cresceu mais rápido do que deveria.
Sentou, respondeu às perguntas com voz firme, que custava alguma coisa manter firme. Isso era visível. A promotora perguntou o que ele havia visto quando abriu a porta do quarto dos pais. Samuel descreveu. A sala ficou em silêncio durante a descrição. A promotora não fez mais perguntas depois dessa. Não precisava. O Dr. Heráclito Nunes, na sustentação oral da defesa, falou durante 40 minutos.
Falou de um pastor que havia dedicado 20 anos à fé, que havia ajudado centenas de pessoas, que havia acolhido Erivaldo quando chegou em crise e que foi traído por esse mesmo homem dentro da própria congregação, dentro da própria casa, com a própria esposa.
“Não estou pedindo que o júri o aprove”, disse a defesa. “Estou pedindo que o Júri entenda o que acontece com um ser humano quando tudo que ele construiu desmorona ao mesmo tempo.”
O promotor falou de Rosângela, 41 anos, secretária da própria igreja, mãe de dois filhos que agora vivem com a avó, que tinha o direito que qualquer pessoa tem de errar sem pagar com a vida por isso.
“Traição não é pena de morte”, disse o promotor. “Em nenhum código, em nenhuma lei, em nenhuma Bíblia.”
Os jurados se retiraram às 22 horas, voltaram à 1:20. E foi no anúncio do veredito que a carta apareceu. Antes da leitura do veredito, o advogado de defesa pediu a palavra ao juiz presidente para introduzir um documento que havia chegado ao seu conhecimento durante o julgamento, enviado por uma testemunha que havia sido arrolada, mas não havia sido chamada a depor.
O juiz permitiu o registro nos autos. A carta era de Rosângela, escrita três semanas antes do crime, entregue a uma amiga, Simone, membro da congregação que havia saído da fonte viva dois anos antes, com a instrução:
“Se alguma coisa me acontecer, você abre.”
Simone havia ficado com a carta por meses sem abrir. Depois do crime, havia ficado com ela sem saber o que fazer. Durante o período do julgamento, havia procurado o advogado de defesa. A carta foi lida pelo juiz em silêncio primeiro, depois resumida para os autos, não lida na íntegra por decisão do juiz, mas seu conteúdo registrado formalmente.
Rosângela escrevia que tinha medo de Claudinho, não por causa da traição, que ela ainda não sabia que ele sabia, mas por outros motivos escrevia que havia episódios de controle, de intimidação velada, de momentos de agressividade que nunca havia tornado público porque era esposa de pastor e porque sabia o que acontece com esposa de pastor que fala sobre o marido.
Escrevia que o relacionamento com Erivaldo havia começado não por falta de amor, mas por falta de ar, e escrevia na última linha da carta que se alguém estivesse lendo aquilo depois de algo ter acontecido com ela, era porque ela havia tido razão em ter medo.
A sala do júri ficou em silêncio quando o conteúdo foi registrado. Jurados que já tinham votado não podiam mudar o voto, mas o silêncio que ficou foi de um tipo específico, veredito, culpado por homicídio doloso qualificado. As qualificadoras do motivo torpe e da impossibilidade de defesa foram reconhecidas por cinco dos sete jurados.
A tese do privilégio foi rejeitada por cinco. O juiz presidente fixou a pena em 22 anos em regime fechado, um ano por perfuração. Claudinho ouviu a sentença com os olhos fechados. Quando o juiz terminou, ele abriu, olhou pro advogado.
“Samuel e Rebeca vão saber o que estava na carta?”, ele perguntou em voz baixa.
O advogado disse que o processo era público. Claudinho fechou os olhos de novo. Claudio Honor Batista dos Santos cumpre pena na penitenciária industrial de Aparecida de Goiânia. Pediu transferência para o setor de trabalho interno da unidade. Trabalha na biblioteca da penitenciária, organiza livros, faz catalogação, lê muito. Segundo os agentes que trabalham no setor, é raro vê-lo sem um livro na mão.
Não tem Bíblia na cela. Os funcionários notaram, ninguém perguntou. Samuel completou 18 anos e foi morar sozinho num quarto alugado perto da universidade, onde entrou no curso de psicologia. Trabalha meio período num mercado para pagar as contas, faz terapia toda semana. Não porque é obrigado, porque escolheu.
Não visita o pai. Não diz que nunca vai visitar. Diz que ainda não está pronto. Rebeca tem 15 anos, continua na casa da avó, dona Eunice. Voltou a falar mais. A psicóloga diz que está progredindo, que o fechamento estava cedendo. Tem uma amiga nova na escola que não sabe nada sobre o que aconteceu e com quem Rebeca pode ser simplesmente Rebeca.
Isso, segundo a psicóloga, é mais valioso do que parece. Erivaldo Menezes saiu de Goiânia seis meses após o crime, foi para Brasília, arrumou emprego, recomeçou do jeito truncado que se recomeça quando você carrega alguma coisa. A Igreja Fonte Viva está funcionando com o pastor interino que veio de Brasília e que acabou ficando.
O salão voltou a encher, não completamente, mas voltou. A vida de uma congregação, como a vida de um bairro, tem uma resistência específica ao desastre. Segue. Mesmo quando não deveria conseguir seguir, segue. E a carta de Rosângela está nos autos do processo. Documento público acessível a quem quiser consultar no arquivo do Fórum da Comarca de Goiânia.
Três semanas antes do crime, ela sabia que tinha razão em ter medo. Escreveu: “Entregou para uma amiga e teve razão.” Rachaduras que não fecham sozinhas, que nunca fecham sozinhas.