
— Bem aqui, com você — respondeu ela, com a voz ainda frágil, mas carregada de uma certeza que Garrett não esperava encontrar tão cedo.
Garrett Cole olhou para a mulher à sua frente, sentindo o peso dos últimos dias diminuir apenas um pouco. Ele não era um homem de muitas palavras, mas o silêncio daquela cabana em Montana parecia exigir algo mais dele agora.
— Então fique — disse Garrett, sua voz soando rouca. — Fique e me ajude a reconstruir tudo isso.
Ka esboçou um sorriso pálido, desviando o olhar por um segundo antes de fitá-lo novamente com aquela intensidade que o desafiava.
— Isso é uma proposta, fazendeiro?
Garrett permitiu que um meio sorriso surgisse em seu rosto marcado pelo tempo e pelo trabalho bruto.
— Talvez, se você viver o suficiente para ouvir a história toda.
Ela soltou uma risada curta, que logo se transformou em um gemido de dor enquanto levava a mão à lateral do corpo. O ferimento ainda estava longe de cicatrizar completamente.
— Você é um homem difícil, Garrett Cole — murmurou ela, recuperando o fôlego.
— É preciso ser um para reconhecer o outro — rebateu ele, ajustando as cobertas sobre ela.
Ao amanhecer, a febre finalmente cedeu. Ka caiu em um sono profundo e restaurador, o tipo de descanso que o corpo exige após lutar tanto pela sobrevivência. Garrett permaneceu sentado ao lado da cama — a sua cama, a qual ele cedera para que ela pudesse descansar — observando a luz do sol começar a lamber as pastagens de Montana.
Pela janela, o cenário era de devastação e promessa. O celeiro havia sido reduzido a cinzas, um esqueleto negro contra o horizonte, mas a cabana ainda estava de pé. A terra permanecia firme sob seus pés, e o mais importante: eles também permaneciam.
Dois meses se passaram rapidamente, marcados pelo som de martelos e pelo cheiro de madeira cortada. O primeiro inverno chegou às planícies, e os primeiros flocos de neve começaram a cair, pesados e brancos.
Garrett estava na varanda da cabana, observando a transformação da paisagem. Atrás dele, o som reconfortante de Ka se movendo pela cozinha trazia uma paz que ele nunca imaginou possuir. Ela estava preparando o café da manhã, e o aroma do café fresco preenchia o ar gélido.
Ela havia se recuperado bem, embora ainda protegesse o lado direito quando o frio se tornava mais intenso ou o tempo mudava bruscamente. A fazenda não era mais a mesma. Eles haviam reconstruído o celeiro juntos, desta vez usando pedra para a fundação, garantindo que nada o derrubasse facilmente.
Eles também haviam acrescentado um segundo quarto à cabana. As cercas estavam sólidas, delimitando não apenas o território, mas o futuro. Aquele lugar tinha agora a aparência de um lar onde as pessoas planejavam criar raízes profundas.
— O café está pronto — chamou Ka lá de dentro.
Garrett sorriu, prestes a entrar, quando um movimento na crista leste da colina chamou sua atenção. Um vulto solitário se destacava contra a brancura da neve.
— Temos companhia — gritou ele para Ka.
Em um instante, ela apareceu ao seu lado na varanda, o rifle já em mãos, os olhos atentos e o instinto de sobrevivência sempre alerta. Eles observaram o cavaleiro descer a encosta. À medida que ele se aproximava, a tensão nos ombros de Garrett relaxou.
Era o marechal Harding, do escritório territorial. O homem de lei parou seu cavalo diante da varanda, a respiração do animal formando nuvens de vapor no ar frio.
— Bom dia, Cole. Senhorita Ka — cumprimentou Harding, ajustando o chapéu.
— Marechal — reconheceu Garrett.
— Vim trazer notícias. Dutch Keller e seu bando foram capturados tentando roubar uma diligência perto de Helena. Estão sob custódia agora. Pelo que aconteceu aqui, espero que terminem na forca.
— Ótimo — disse Ka, sua voz firme, embora seus olhos ainda guardassem as sombras do que haviam passado.
— E tem mais uma coisa — continuou Harding, retirando um documento de dentro do casaco. — Aquela escritura de terra que você registrou… a propriedade do seu pai. Houve uma disputa. Um homem chamado Foster afirmou que a havia comprado.
Garrett sentiu Ka retesar ao seu lado.
— Eu fiz algumas investigações — prosseguiu o marechal. — Foster tem um histórico de fraude de terras. A alegação dele não tem fundamento. A propriedade é legalmente sua.
Ele estendeu o documento para ela. Ka pegou o papel com as mãos trêmulas, os olhos correndo pelas linhas oficiais. Eram quarenta acres. No vasto território da fronteira, não era muita coisa, mas eram dela.
— Obrigada, marechal — disse ela baixinho, a voz embargada.
Harding tocou a aba do chapéu em um gesto de respeito e partiu, deixando-os a sós com o silêncio da neve que caía. Garrett olhou para Ka e viu as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, traçando caminhos quentes em sua pele fria.
— Quarenta acres — disse ela, como se precisasse ouvir as palavras para acreditar. — É real. É meu.
Garrett a observou por um longo momento, sentindo um orgulho imenso da mulher que ela se tornara.
— Então, o que você vai fazer com isso?
Ela ergueu os olhos para ele, e a determinação que sempre estivera lá agora brilhava com uma nova esperança.
— Eu estava pensando que talvez pudéssemos combinar nossas propriedades. Fazer uma fazenda maior. Seriam necessárias duas pessoas para cuidar de algo desse tamanho adequadamente.
Garrett sentiu o coração acelerar.
— É verdade. É verdade.
Ela deu um passo à frente, aproximando-se dele.
— Mas teria que ser uma parceria igualitária. Ambos os nomes na escritura. Eu não serei propriedade de ninguém, Garrett. Nunca mais.
— Eu não gostaria que fosse de outra forma — respondeu ele, pegando a mão dela entre as suas. — Sócios em tudo. Absolutamente tudo.
— Tudo — confirmou ele, selando o pacto. — Se você me aceitar.
Ka sorriu, um sorriso que iluminou seu rosto de uma maneira que Garrett nunca tinha visto antes.
— Eu aceito, mas com uma condição.
— Qual seria?
— Que você nunca mais me chame de “grande demais”. Ou “demais” em qualquer coisa. Eu tenho exatamente o tamanho que preciso ter para o que o destino me reserva.
Garrett soltou uma risada alta e genuína, um som que parecia vir de algum lugar dentro dele que estivera congelado por anos.
— Feito.
Ele a puxou para perto, e ela foi de bom grado, descansando a cabeça em seu ombro. Eles ficaram ali, abraçados, enquanto a neve caía silenciosamente ao redor deles. Eram duas pessoas que haviam sido quebradas pelo mundo, mas que estavam encontrando a totalidade um no outro.
Ao longe, as montanhas se erguiam, brancas e eternas, testemunhas de um novo começo. Na varanda daquela pequena cabana no território de Montana, um fazendeiro e uma mulher que superou todas as expectativas começavam a construir algo novo. Algo que, finalmente, teria força para durar.